domingo, 30 de outubro de 2016

CARTOGRAFIA FANTÁSTICA: A ILHA BRASIL

CARTOGRAFIA FANTÁSTICA: A ILHA BRASIL

Autor: Jean Pires de Azevedo Gonçalves 

Reconstituição da Carta de Angelino Dulcert, de 1339. "Hy Brasil" no alto, à esquerda.


Você sabia que antes de o Brasil ser “descoberto”, isto é, invadido, ocupado e forjado a ferro e fogo pelos europeus, uma Ilha Brasil já era representada no oceano Atlântico pela cartografia desde os anos de 1325?

Veja:

Reconstituição da carta de Paolo Toscanelli, de 1474.


Mapa catalão de 1480.

Mapa de Abraham Ortelius, de 1572.

Gerardo Mercartor, de 1595.

A origem da Ilha Brasil está associada a outras ilhas míticas, como Atlântida, Thule, ilhas Afortunadas, Antillia, São Brandão, Sete Cidades, Ilhas Azuis, da Terra dos Bacalhaus, e muitas outras.

Se este tema lhe traz algum interesse para continuar a leitura, então se prepare para uma jornada aos confins da terra, à deriva, por mares até então insondáveis, o umbral intransponível, região nunca explorada das etéreas eternas utopias. O embarque tem como destino o solo quimérico dos náufragos, bem distante do ancoradouro das certezas, no imenso azul enigmático oceano, sem fim: uma ilha perdida.

E para lá navegam os Argonautas, em busca da felicidade...

Lugares fantásticos, como a Ilha Brasil, povoam o imaginário da humanidade desde os tempos primevos e, provavelmente, têm origem na construção idealizada de uma terra supostamente real e distante onde a vida mundana seria transfigurada em realidade transcendente redentora.

O Dilmun, jardim dos deuses sumérios, localizado a sudeste da Pérsia, que influenciou o Paraíso israelita, ou a Terra Prometida, que “mana leite e mel”, tal como as Ilhas Afortunadas, descrita, entre outros, pelos poetas Homero e Hesíodo, onde “a terra generosa em grãos oferece frutos doces como o mel que florescem três vezes por ano”, bem como a Idade do Ouro ou os Campos Elíseos, da mitologia grega, as ilhas da Odisseia, até chegar à Utopia de Thomas Morus, à Cidade do Sol, de Campanella, e, enfim, à sociedade comunista do socialismo científico. São exemplos conhecidos que encontram correspondentes em todas as culturas e representam um desejo profundo dos seres humanos em sua busca infatigável pela felicidade.

“Mas quando a terra encobriu também essa raça,
de novo ainda outra, a quarta sobre a terra que muitos nutre,
Zeus filho de Crono fez, mais justa e valorosa,
a raça divina dos homens heróis, que são chamados
semideuses, a geração anterior à nossa na terra imensurável. (160)
Esses, destruíram-nos a guerra má e o combate medonho,
uns sob as muralhas de Tebas de sete portas, terra de Cadmo,
quando lutavam pelos rebanhos de Édipo;
outros, levando-os em naus sobre o grande abismo do mar,
para Troia, por causa de Helena de coma adorável. (165)
Lá o termo da morte envolveu, sim, alguns deles;
a outros, conferindo-lhes vida e moradia à parte dos humanos,
Zeus pai, filho de Crono, estabeleceu-os nos limites da terra. (168)
E eles, o coração sem cuidados, habitam (170)
as ilhas dos bem-aventurados [Nesoi Makarôn], junto ao Oceano
 de fundos redemoinhos,
afortunados heróis, para quem um fruto doce como o mel,
que floresce três vezes ao ano, a terra fecunda traz”.
(HESÍODO, Trabalhos e os Dias, por volta de 700 a.C.).

Ilhas Afortunadas, Pomponius Mela, 1 a.C.

Para os antigos, que, evidentemente, não conheciam a internet nem o satélite, o mar, de perder de vista, desaguava em um amedrontador abismo sem fim, mas, ao mesmo tempo, inspirava esperança. Para onde levam as marés? Como uma garrafa à deriva, o pensamento exilado, errante, em fuga permanente da vida recrudescida nas mazelas de um cotidiano aniquilador de sonhos reais, flutua sem destino em buscas de utopias...

Mas no mundo urbano e técno-científico-informacional, toda a superfície da Terra foi esquadrinhada, explorada, desvelada, devassada, pormenorizadamente. Não restou mais espaço para misteriosos lugares telúricos. Não mais.

A era da razão, porém, não cumpriu a promessa de realizar a eterna felicidade. Ao contrário, o desencantamento do mundo na modernidade e a devastação predatória dos recursos naturais provocada pela era industrial conduziram a humanidade a um beco sem saída. Só as estrelas ainda inspiram enigmas e sonhos inexplorados... [Leia A saga de um andarilho pelas estrelas, uma utopia pós-moderna].

Supertelescópios vasculham os rincões infinitos atrás de cada astro cintilante, à procura incansável de algum sinal de vida, de um planeta em condições habitáveis ou, quem sabe, de uma civilização amiga detentora da paz e da justiça.

Para os gregos e romanos do período clássico, entretanto, para além do mar mediterrâneo, encerrado por uma cadeia de montanhas, situava-se o limite do mundo real e o limiar do sobrenatural. Segundo a tradição mitológica greco-romana, em “Os doze trabalhos de Hércules”, Héracles, para cumprir suas tarefas penitentes, abriu com sua espada de bronze uma passagem entre as montanhas fronteiriças dos dois mundos. Do outro lado, seguiria em direção ao fim do mundo para então roubar o gado do gigante Gerião, que habitava uma das ilhas das Hespérides, rodeada por correntes perigosas, a “Ilha Vermelha” [Nêsos Erytheia].

Em seu penúltimo trabalho, o herói deve colher maçãs de ouro que são vigiadas, a mando da deusa Hera, por uma serpente de cem cabeças, em um jardim localizado nos confins da terra, no extremo Ocidente, o Jardim das Hespérides. A caminho, Hércules encontra o titã Atlas, condenado por Zeus a carregar a Terra e os céus sobre os ombros. Então, ambos firmam um trato: enquanto Héracles segura a Terra, o titã colhe as maçãs em seu lugar. Assim feito e diante da recusa de Atlas em cumprir o acordo, Héracles tem de ser astuto (pholukerdéa) e por meio de uma artimanha consegue as maçãs devolvendo o pesado fardo ao titã condenado.

Todavia, na Antiguidade Clássica, não apenas a poesia constituiu suas teodiceias, a filosofia também.

No diálogo Timeu-Crítias, Platão faz uma descrição pormenorizada de Atlântida, ilha que teria afundado após a derrota dos atlantes diante de Atenas. A civilização de Atlântida é descrita em detalhes pelo filósofo como um Estado ideal e foi o protótipo de sua célebre República.



“Em tempos, este mar podia ser atravessado, pois havia uma ilha junto ao estreito a que vós chamais Colunas de Héracles – como vós dizeis; ilha essa que era maior do que a Líbia e a Ásia juntas, a partir da qual havia um acesso para os homens daquele tempo irem às outras ilhas, e destas ilhas iam diretamente para todo o território continental que se encontrava diante delas e rodeava o verdadeiro oceano. (...) Foi o próprio Posídon que organizou o centro da ilha (...). A todos eles atribuiu nomes: ao mais velho – o rei –, deu-lhe o nome do qual toda a ilha e também o mar, chamado Atlântico, receberam uma designação derivada – o primeiro que reinou tinha então o nome Atlas. (...) A ilha produzia tudo em abundância, e, no que respeita aos animais, alimentava convenientemente os domesticados e os selvagens, incluindo a raça dos elefantes que nela existia em grande número” (PLATÃO, Timeu-Crítias, V a.C.).

Ultrapassar as Colunas de Hércules (hoje, Estreito de Gibraltar), era, para os antigos, um feito igualável à viagem à Lua.

É provável que náufragos e aventureiros retornassem de suas viagens repletos de histórias para contar, como ilhas mágicas que se afastavam no vasto oceano quando se tentava aproximar.

Os fenícios, seguidos por seus descendentes cartagineses, certamente foram os pioneiros a cruzar a estreita passagem entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico. Teriam estabelecido relações comerciais com produtores de estanho na Galícia e na Britânia, a ilha dos povos celtas conhecidos por bretões.

Por volta do ano 350 a.C., o mercador grego Pítias desbravou aquelas paragens até então insólitas. Seguindo a rota do estanho pela Gália, circundou a costa noroeste da Europa, rumo ao norte. Na obra “Sobre o Oceano”, o explorador relata em detalhes a geografia local, mencionando, inclusive, a aurora boreal, ilhas vulcânicas e uma terra “onde o sol nunca se põe”, identificada por ele como a mítica Thule (pesquisadores modernos acreditam ser a Islândia). Na mitologia grega, Thule era a capital da nação dos hiperbóreos, povo semidivino que vivia em plena felicidade, paz e prosperidade.

Olaus Magnus, 1539.

Muitos anos depois, na virada da era cristã, na Mauritânia, terra onde se localiza o monte Atlas, o rei da Cesareia, região da atual Argélia, Juba II, homem educado entre os romanos, famoso por sua extensa erudição, organizou expedições no Atlântico atraído pelas lendárias Ilhas Afortunadas. Nas Ilhas Púrpuras (Marrocos ocidental?), Juba II restabeleceu o antigo comércio de tintura de tecidos praticado pelos fenícios e cartagineses: um corante de cor azul. Mas em sua Naturalis Historia, Plínio, o Velho, refere-se às Insulae Purpurariae, provavelmente, o Arquipélago da Madeira, ao mencionar um corante, que, supõe-se, seria extraída da planta dragoeiro (Dracaena draco) – o sangue do dragão –, liquens ou moluscos, matéria-prima da púrpura getúlica, muito apreciada entre os romanos.

“Plínio fala de várias ilhas, denominadas Insulae Purpurariae, cujos habitantes eram famosos pelo corante da cor chamada púrpura getúlica que auferia grandes lucros ao rei Juba, o primeiro a descobrir tais ilhas. O padre Arduino, tendo verificado que Plínio colocava estas ilhas entre o Estreito (de Gibraltar) e as Ilhas Afortunadas, é da opinião de que essas ilhas são as que hoje chamamos Porto Santo e Madeira” (FERRARIO, Giulio, “Il costume antico e moderno”, per Alessandro Fontana: Torino, 1830, p. 444).

No início da Idade Média, o santo irlandês, São Brandão, o Navegador (século VI a.C.), também atravessou a soleira dos limites intransponíveis da cartografia fantástica. São Brandão se notabilizou como grande missionário, mas ainda mais por suas enigmáticas expedições marítimas que teriam, inclusive, alcançado o Paraíso ou a Terra Prometida – Terra Repromissionis:



“As lendas em torno de suas maravilhosas viagem pelo mar, comumente chamadas por ‘Terra da Felicidade’, ‘Terra Prometida dos Santos’ e ‘Ilha Abençoada’, podem ter sido originadas ainda durante sua vida. Elas foram muito disseminadas no século IX e recorrentemente descritas nos séculos X e XI. Embora permaneça em volta de mistério, a história é baseada, sem dúvida, em uma viagem real pelo mar. Brandão disse ter navegado, em companhia de cerca de sessenta monges, em busca de um tipo de Paraíso. De acordo com Navigatio Sancti Brendani, escrito por um monge irlandês anônimo do século X, São Brandão finalmente chegou a Terra repromissionis, descrita Poe ele como uma terra belíssima, de vegetação luxuriante. No caminho, disse ter vivido inúmeras aventuras: uma baleia levantou o navio em seu dorso; São Brandão viu milhares de aves maravilhosas; cristais voavam sobre os céus(*); chamas o atingiram (**); rochas exalavam um cheiro putrefato ao longo de uma grande ilha, etc.” (BRUHN, Siglind, Saints in the Limelight: Representations of the Religious Quest on the Post-1945 Operatic Stage, New York: Pendragon Press, 2003, p. 267).

(*) Icebergs (Nota minha).
(**) Vulcões (Nota minha)

O misterioso Paraíso ficou conhecido por Ilha de São Brandão, Ilhas Afortunadas, ou ilhas brendanianas. A viagem do santo irlandês fomentou ainda mais os relatos sobre ilhas de localização incerta no oceano Atlântico.

Ora, navegar no oceano Atlântico por estas épocas era como tatear cegamente sob uma noite sem luar à procura do caminho de casa. A vista (ou a descoberta) de uma ilha poderia ser equiparada à visão de um oásis em um deserto escaldante. Ao contrário do mar Mediterrâneo, pouco se sabia sobre o Atlântico. Devido a técnicas rudimentares, para os padrões modernos – não se conhecia bastante bem a bússola nem havia sido inventado o astrolábio –, os marinheiros se orientavam pelas estrelas, o Sol, a direção dos ventos, a posição de correntes marítimas etc. Pedaços de tronco, aves ou nuvens podiam indicar a presença de terra, muitas vezes salvadora. Foram muitos os que se perderam...  muitos os que não voltaram...

“Em 1291, os cruzados perderam Acre, o último bastião cristão na Terra Santa. Nesse mesmo ano, coincidentemente, dois irmãos genoveses, Vadino e Ugolino Vivaldi, navegaram além do Gibraltar e entraram no Atlântico com o propósito de circundar a África. Nunca mais foram vistos, o que não era de surpreender...

...Os Vivaldi podem não ter morrido no mar ou na costa da África. Mesmo em sua imprópria embarcação, podem ter alcançado as Canárias, a Madeira ou os Açores, ilhas todas a uma semana ou menos de Gibraltar, desde que com ventos favoráveis” (CROSBY, Alfred W., “Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa 900-1900, São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 82).  

Aventurar-se além da linha do horizonte era demasiado perigoso; era como adentrar em um mundo incógnito, possivelmente habitado por monstros terríveis, mas pleno de maravilhas, às quais a imaginação extrapolava e encontrava farto material nas historias dos viajantes.

Apesar do encantamento do oceano profundo e de seus inúmeros perigos reais, o espírito humano teimava em desafiá-lo. Desafiava-se, não só a natureza, também o sobrenatural. Atravessar o portal entre a realidade e os mares fascinantes era garantia certa de grandes recompensas.

O comércio de artigos luxuosos durante esta época foi realmente muito lucrativo e interligava mercados que iam das repúblicas italianas, as quais monopolizavam o comércio com o Oriente, até o Mar o Báltico, controlado pela Liga Hanseática, passando por escalas como Barcelona, Portugal e Bruges. Mesmo assim os barcos não se afastavam muito da costa; praticava-se, portanto, a navegação de cabotagem, interligada por portos litorâneos.

“Até o começo do século XIV, a navegação das cidades italianas arriscava-se somente em casos excepcionais a cruzar o estreito de Gibraltar. Porém, Veneza e Gênova organizaram, por volta de 1314, frotas destinadas à Flandres e à Inglaterra. Quanto aos barcos da Hansa, que desde o século XII vieram substituir, nas águas setentrionais, a antiga navegação dos escandinavos, não desciam além do golfo da Gasconha, em direção ao Sul, onde se abasteciam de sal, na baia de Bourgneuf, e de vinho, em La Rochelle” (PIRENNE, Henri, “História econômica e social da Idade Média”, São Paulo: Mestre Jou, 1982, p. 95).

Entretanto, o comércio desempenhava uma função residual no feudalismo. A cartografia, por exemplo, não estava a serviço dos interesses comerciais, não se preocupava em descrever fielmente a geografia, para tornar as rotas de navegações mais seguras. Os mapas reportavam-se à cosmovisão da estática sociedade feudal. Por isso, o mapa-múndi medieval tinha um cunho político e religioso, não instrumental, e exercia a função de entretenimento das cortes nobilitárias. Estes mapas temáticos ilustravam eventos, cidades e reinos descritos em passagens bíblicas, além de situarem o local do Paraíso, e podem estar na gênese das lendas sobre a viagem de São Brandão.


Mapa-múndi de Esbstorf (1236) de Gervais de Tilbury, feito para patrocinar as cruzadas. Tem 3,5 m de diâmetro.

O renascimento urbano, fomentado pelo incremento paulatino do comércio e, por conseguinte, do surgimento de uma burguesia, ainda muito incipiente, estremeceu as bases estruturais da ordem feudal. Acompanhando as mudanças, o movimento cultural em franca oposição ao ideário teocrático, denominado pelos historiadores modernos de Renascença, foi beber no rico manancial dos autores clássicos greco-romanos (em grande parte, traduzidos e transmitidos pelos árabes). Além disso, o desenvolvimento do comércio implicava também um avanço técnico sem precedentes. Neste contexto, as cartas portulanos, inventadas na Itália do final do século XIII, ao contrário do mapa-múndi medieval, eram bastante fieis à realidade geográfica e tinham utilidade prática para a navegação, com suas linhas direcionais e acidentes geográficos demarcados e nomeados. Mas, se o mar Mediterrâneo era bem conhecido e bem representado pelas cartas portulanos, o oceano Atlântico, ao contrário, continuava ainda um espaço das incertezas.

“As cartas portulanos foram a representação gráfica dos itinerários descritos em livros chamados portulanos e foram desenhadas com vista à prática da navegação no Mediterrâneo. Atingiram uma notável perfeição, bem adequada aos métodos de navegação da época. Quando porém saiam das Colunas de Hércules para o Atlântico, a imprecisão de tais cartas torna-se evidente” (LOURENÇO, C. R., “Apontamentos sobre a navegação e a cartografia dos Descobrimentos Marítimos”, Coimbra: Bibl. Univ. Coimbra, 1994, p. 167).

Os ecos do passado sobre ilhas fantásticas, remontando a Antiguidade e a lendas medievais, se não foram determinantes nesse processo de transformação histórica, acabaram, por sua vez, por alimentar projetos de navegação marítima no sentido de ultrapassar os limites do mundo conhecido. Foram certamente precursores das rotas comerciais que, desde a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, abririam caminho ao Oriente via Ocidente e, por fim, resultaram nos “grandes descobrimentos”. De fato, muitas ilhas foram descobertas por acaso e depois nunca mais encontradas. Os inúmeros retalos, entretanto, suscitavam a certeza de que havia algo além dos limites do oceano visível.

No caso da lenda da Ilha Brasil, muito difundida, hoje, na internet, esta ilha estaria sempre encoberta por uma névoa ou aparecia a cada sete anos. O que inspira esta “lenda internética” (em analogia à “lenda urbana”) é o fato da Ilha Brasil aparecer representada “misteriosamente” em cartas náuticas, desde o início do século XIV até o século XVIII.

“Desde há séculos, as Afortunadas, as Hespérides, as Gorgonhas, e mais tarde, numa nova mitologia, as ilhas de S. Brandão, figuravam sobre os mapa-múndi, mas as primeiras cartas portulanos não as representavam. Em geral essas cartas reservavam pouco espaço ao Atlântico que, vazio de terras, não tinham interesse para os navegadores-comerciantes do Mediterrâneo. (...) Parece ser a carta de Angelino Dardolo, 1325 (*), a primeira a incluir a ilha hoje não reconhecida, a “Insula de Motorius, sive de Brazil” (**), ao largo da Irlanda. Angelino Dulcert, 1339, repetiu a ilha, se é que os dois Angelinos não são a mesma pessoa. Assim fizeram um bom número de cartógrafos, pondo a ilha a viajar um pouco a todo Atlântico Norte. (...) A partir daí, a multiplicação de ilhas fantásticas foi uma constante da cartografia, até tempos assaz recentes” (Lourenço, op. cit., pp. 168 e 169).

(*) Em uma de nossas referências bibliográficas, a carta foi datada de 1330: FREITAG, Barbara, em “Hy Brasil: The Metamorphosis of an Island: From Cartographic Error to Celtic Elysium” Amsterdam – New York: Rodopi,  2013.
(**) “Insula de moutonis sive de brazile”, Dulcert/Dardolo; Florence, Prince Corsini Collection. Variações: Insula de Montonis sive de brasile (Babc.); Insula de montoniis sive de brazill (Westr. I, 241); Insula de moutonis sive de brasile (Westr. I, Plate XX); Insula de moutoniis sive de brazill (Westr. II, 415); Insule de montonis sive de brazile (Hennig, 1956, IV, 325); Insula de moturius siue de brazile (Cortesão, 1953, Table II)” (Barbara Freitag, op. cit. p. 267). Embora seja frequente em sites da internet a menção da grafia “Bracile” para este mapa, ao que tudo indica, tal referência parece equivocada.
Angelino Dardolo, 1325.

Porém, sua origem pode ser bem mais trivial do que os devaneios da imaginação humana, ávida pelo extraordinário. Pois, conforme aponta ainda Lourenço, a demanda do produto induzia a criar toponímicos nas áreas de sua exploração:

“O professor Luis de Albuquerque citando Marco Polo informa que a palavra brasil aparece pela primeira vez na Idade Média, no livro do Genovês (*). Nessa citação tratava-se de grãos que davam um corante vivo. O mesmo brasil, mas sob a forma de madeira, era procurado nas canárias e aparece mencionado na carta de Bocaccio sobre a expedição de 1341. Parece que era necessário haver uma ilha de brasil, tal como uma ilha da canela e uma ilha das especiarias” (p. 171).

(*) Sua ocorrência como brasile encontra-se em Liber iurium, no documento Historiae patriae, de Gênova, datado de 1140; e a primeira ocorrência de sua variante com z, isto é, brazile, sete anos depois, também de cariz genovês, conforme encontrado no Codex diplomaticus” (Barbara Freitag, op. cit., p. 13). Nos anos de 1193, a expressão “grana de brasil” é arrolada entre mercadorias em um acordo comercial entre o Duque de Ferrara e Módena.

Angelino Dulcert, 1339.

A carta de Angelino Dulcert, de 1339, parece confirmar a afirmação de Lourenço, pois a ilha (ou o arquipélago) é grafado como Insula de braxil (*), e provavelmente designava as Ilhas das Canárias, redescoberta pelos portugueses em 1336, sob o comando do navegador italiano Lancelotto Malocello.


(*) Ampliei a carta e me parece evidente que está grafado com "x": "Insula de braxil" 

A carta anterior de Angelino Dardolo [Dulcert?] de 1325 [1330?] pode se reportar ainda à primeira viagem às Canárias, realizada pelo mesmo Malocello, vinte quatro anos antes, ou seja, nos anos de 1312. Nesta data, sob o pretexto de resgatar os irmãos Vivaldi, o comandante italiano desembarcou nas Canárias, onde construiu um forte, sendo expulso depois, em 1332, pelos nativos.

O fato de a Ilha Brasil estar situada nas cartas de Angelino ao largo da costa sudoeste da Irlanda tem intrigado muita gente. É provável que diante das informações cruzadas, de fontes diversas, que iam desde os textos clássicos à viagem de São Brandão e às navegações comerciais da época, inclusive, a expedição de Malocello, Angelino tenha identificado a Ilha de São Brandão às Canárias. Provavelmente, a exploração de um corante já teria sido iniciada logo à chegada do italiano ao arquipélago, e daí o nome Ilha do Brasil.

Ressalta-se ainda, como aventado anteriormente, que as primeiras cartas portulanos, ao contrário dos mapas medievais, restringiam-se ao mínimo de informações desnecessárias ou teológicas e primavam pela exatidão, embora fossem muito difusas quanto ao oceano Atlântico. O fato de a ilha aparecer em outros mapas, também não deve causar estranheza, haja vista que os cartógrafos da época costumavam copiar informações de cartas antigas acrescentando-se novas.

O cartógrafo Mediceo Laurenziano, por exemplo, em sua carta de 1351, associou a Ilha Brasil ao arquipélago dos Açores – (re)descoberto pelos portugueses entre 1340 e 1345 – designando a ilha Terceira de  “insule de Brazil”. 


Atualmente, o conjunto de ilhas atlânticas formado pelas Canárias, Açores e Madeira recebe o nome sugestivo de Macaronésia, referência explícita às ilhas Afortunadas (Nesoi Makarôn).

Se você chegou até aqui, a essa altura deve estar tomado de um sentimento de inquietação e se perguntando se o nome do país Brasil tem alguma coisa a ver com a Ilha Brasil.

Ora, não é incomum lugares fictícios ou lendários, que muitas vezes foram cartografados em mapas imaginários, nomearem regiões, ilhas ou mesmo países, como é o caso da Austrália que, evidentemente, é uma alusão a Terra Australis.

Então, sim, é possível.

À medida que o Atlântico ia se tornando conhecido, os mapas iam ficando cada vez mais precisos. Porém, como já mencionado anteriormente, os cartógrafos continuavam a reproduzir os erros de mapas antigos em suas cartas. Estas cartas iam sendo transmitidas e conhecidas até o ponto que, se uma ilha existia no mapa, logo deveria existir também no oceano, isto é, na realidade. Talvez, seria o caso da Ilha Brasil.

O Auto da Fama, de 1510 [1516?], obra em tom ufanista do dramaturgo português Gil Vicente, demonstra como a Ilha Brasil e a “terra do Brasil” poderiam estar relacionadas, na alvorada da modernidade.

(...)
Com ilhas mil
deixai a terra do Brazil
tende-vos à mão do sol
E vereis homens de prol
gente esforçada e baronil.
(...)
.
Na “Farsa dos Almocreves” (1527), Brasil parece indicar a colônia americana:

(...)
Quando fordes namorado,
Vireis a ser mais profundo,
Mais discreto e mais sutil,
Porque o mundo namorado,
He lá, senhor, outro mundo,
Que está além do Brasil.
O meu mundo verdadeiro!
(...)

(GIL VICENTE, Obras, Tomo III, Hamburgo, Langhoff, 1834).

Há ainda uma controvérsia, referida por Afrânio Peixoto, em História do Brasil, na qual não vamos tocar aqui, acerca do uso do termo “Brasil” para nomear a colônia americana remontando aos anos de 1504, em documentos oficiais mal traduzidos. Sobre isso, citaremos apenas a conclusão do próprio Afrânio Peixoto:

“Certa é a carta de Afonso de Albuquerque, de 1 de Abril de 1512, da Índia, a el-Rei D. Manuel, “a qual (carta de um piloto) tinha ho cabo de Bôoa Esperança, Portugal e a terra do Brasyll...” (Alguns documentos... do Tombo, cit., p. 261). Por certo é também de 1512 o mapa de Jerônimo Marini — Orbis Typus Universalis Tabula Hieronimi Marini fecit Venetia MDXII” (PEIXOTO, A. “História do Brasil, Cia. Editora Nacional, 1944 [versão digital – 2008], p.40).



Portanto, oficialmente, o nome do país é atribuído ao pau-brasil, do italiano verzino, e daí “terra do (pau) brasil” e não à Ilha Brasil.

(...) por artes diabólicas se mudava o nome de Santa Cruz, tão pio e devoto, para o de um pau de tingir panos" (Joannes de Barros, "Década primeira [-terceira] da Asia: Dos feitos que os portugueses fezerão no descobrimento & conquista dos mares & terras do Oriente [data da primeira edição 1552], Lisboa: impressa per Jorge Rodriguez: aa custa de Antonio Gonçalvez mercador de livros, 1628).



“O Modo é este: vão-nos buscar doze, quinze e ainda mais vinte léguas distante da Capitania de Pernambuco, onde há o maior concurso dele, porque se não pode achar mais de perto pelo muito que é buscado, e ali entre grandes matas o acham, o qual tem uma folha miúda e alguns espinhos pelo tronco, e estes homens ocupados neste exercício levam consigo para a feitura do pau muitos escravos de Guiné e da terra, que, a golpes de machado, derrubam a árvore, à qual, depois de estar no chão, lhe tiram todo o branco, porque no âmago dele está o brasil; e por este modo uma árvore de muita grossura vem a dar o pau que a não tem maior de uma perna, o qual, depois de limpo, se ajunta em rumas, donde o vão acarretando em carros por pousas, até o porem nos passos para que os batéis e possam vir a tomar (Ambrósio Fernandes Brandão, “Diálogos das Grandezas do Brasil”, ABL (1930), provavelmente escrito entre 1590 e 1618).


Pelo texto acima dá para se ter uma ideia da importância econômica do pau-brasil e da devastação que isso resultou. Não é de se admirar, portanto, que os franceses, desde o início da invasão europeia no novo continente, sempre cobiçaram a matéria-prima da tintura e que, sob os nomes oficiais de França Antártica (1555-1567) ou França Equinocial (1612-1615), chamavam, mesmo antes dos portugueses, de brésil as terras nativas do “pernambuco” (Paubrasilia echinata), isto é, o pau-brasil.

“O nome Brasil vem de longe. Disse Humboldt, vem de Samatra, e levou quatro mil anos para nos chegar... É o nome de uma madeira tintorial, a Cesalpina ecchinata, especiaria trazida do Oriente à Europa, nome variamente escrito — braxile, bresillum, brisilium, bersi, verzi, verzino, como recentemente, há cinco séculos, o chamavam os Venezianos. Já dele falam o geógrafo árabe Abuzeid El Hacen (IX século), Endrisi e Chrestien de Troyes no século XII: este escreve mesmo Braisil, que dá, em francês, a pronúncia do nome atual nesse idioma. Teria vindo à Europa depois dos primeiros Cruzados, por volta de 1140. Tirava-se, do toro, a casca e o líber, e apenas o cerne vermelho servia para tingir panos e fazer tinta, para iluminar manuscritos, dando tons róseos às miniaturas. A madeira, dura e corada, também aproveitava à marcenaria” (Peixoto, op. cit. p. 41).

Assim sendo, a palavra “brasil” designava um corante de procedência bastante variado, que poderia abranger desde grãos à madeira.

Segundo o etimólogo José Pedro Machado: “O voc. em português se documenta, pelo menos, em 1377: ‘Jtem de Sene E de çofeína E de brasil que trouuerem ou leuarem também vezjnhos pagam dizjma…’, em Descobrimentos Portugueses, I, p. 53. Denomina produto que não oriundo do solo português, nem mesmo do hispânico, o pau deve-nos ter vindo por intermediários negociantes italianos, intermediários, durante os últimos séculos da Idade Média, entre a Europa oriental e a Ásia. O substantivo brasil esta no italiano brasile, de que se ocupa D. E. T. cujo texto transcrevo: brasile: ‘(sec. XII, Itália); tipo de madeira vermelha oriental para tinturas; cfr. fr. brésil (XII séc.), prov. brezil, espagn. brasil; lat. medioev. grana de brasil (a. 1193, Italia sett.), de kerka brisilli (a. 1163;. Kerka = quercia - carvalho), braxile (a. 1264, Bologna), etc.; sic.: birczi, verczi, virzi (séc. XVI, Scobar), pela wars, uma planta amarela semelhante ao gergelim, nativa do Iêmen, com a qual se prepara a água usada contra verrugas (inchaços) e uma substância corante ... Diretamente do árabe pode derivar a voz calabr. virz´idda, biz´ z´idda cocciuola, pequeno inchaço, virz'ilu orzaiuolo, etc., formas que exigem hum adj. ar. warsi...’ A origem última do étimo é o vocábulo árabe wars, que designa certa planta utilizada em tinturaria para dar o tom amarelo-avermelhado e em medicina como linimento para inchaços, cujo nome científico é Memecylon tinctorium. Era bem conhecida de Maomé, que proibiu seu uso, bem como o do açafrão, no tingimento das roupas dos peregrinos que se dirigiam a Meca, que deveriam ser sóbrias e modestas. Ao lado dos verbos warrasa (“tingir um tecido com aquela planta”) e awrasa (“produzir [um solo] em abundância a mesma planta; cobrir-se de folhas [uma árvore]; tornar-se amarelo”), existe o adjetivo warssii, “amarelo-avermelhado”. Por analogia, os árabes aplicaram o mesmo nome ao pau-brasil-da-índia, que proporcionava uma tonalidade semelhante” (MACHADO, J. P., “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, (1952), verbete “Brasil”).

Entretanto, a origem obscura do nome “brasil” não escapou às observações de Afrânio Peixoto. E aí a Ilha Brasil volta a aparecer:

“A geografia apoderar-se-ia do nome, e terras do Brasil houve, antes da nossa: Krestchmer encontrou em mapas medievais as seguintes variantes: Brazi, Bracier, Brasil, Brasiel, Brazil, Brazile, Braziele, Braziel, Bracil, Braçil, Braçill, Bersill, Braxil, Braxili, Braxiel, Braxyili, Brisilge... É uma ou mais ilhas do Ocidente, no grupo dos Açores, ou na altura da Bretanha, ou não longe da Irlanda. Ainda hoje há uma pedra Brazil Rock, na Irlanda, e um monte Brasil, junto à cidade de Angra, na Ilha Terceira, dos Açores. Num mapa de 1351 já aparece esta “ínsula do Brazil”, nesse Açores. Em 1480 partiram de Bristol navios à procura da Ilha Brasil. Em 1497 Ayala, legado de Espanha junto à Corte de Inglaterra, dizia que de sete anos àquela parte partiam de Bristol, anualmente, navios à mesma pesquisa. Lá está, no mapa de Toscanelli, (1474) ao norte e oriente, a ilha Brasil... Até 1875 o Almirantado inglês manteve nas suas cartas essa ‘Brasil Rock’.

“Diz a erudição que os Árabes chamavam ao pau bakkam, que traduziram em latim brasilium, procurando a analogia da raiz semítica bakkham (ardente) com a ariana bradsch, em português brasa, italiano brace, francês braise. Como se deu tal nome à geografia, é controvertido: Brasil, indicaria fenômenos vulcânicos notados no arquipélago açoreano; ou aí se teria encontrado senão o verdadeiro brasil, pelo menos algum sucedâneo, talvez a urzela. Contudo Capistrano de Abreu, reparando que nas formas gráficas e geográficas de Kretschmer não se vêem formas congêneres do verzi ou verzino, diz poder-se concluir que o Brasil, ilha ocidental, nada tem com o produto oriental. Conclui que natural é proceda o nome do celta, e há quem o decomponha braza, grande, i: em todo o caso Brasil, ilha, aparece sempre no Atlântico e sempre a W de terras primitivamente habitadas por Celtas. Os índios chamavam à planta arabutan ou ibirapitanga” (Peixoto, op. cit., p.43).

Na contramão da história oficial, muitos pesquisadores acreditam que o nome não só teria relação com a Ilha Brasil, como também à mitologia irlandesa; não apenas porque nas cartas a ilha estava próxima à costa da Irlanda, mas porque o nome “brasil” e variações é muito comum no léxico da língua irlandesa. É o caso de Capistrano de Abreu, historiador muito criticado pelo sociólogo Gilberto Freyre, por atribuir à formação social do Brasil uma origem ariana, em detrimento das importantes influências semíticas (judeus, cristãos-novos, marranos e mouros), africanas (diversas etnias) e ameríndias (idem).

Entre as pesquisas recentes neste sentido, descartando, porém, o aspecto etnológico de viés racista, encontra-se o livro de Geraldo Cantarino (leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema).

Em uma das passagens mais notáveis de seu livro “Uma Ilha Chamada Brasil: o Paraíso Irlandês no Passado Brasileiro”, Cantarino narra um acontecimento pessoal bastante singular, embora surpreendente, durante uma estadia na Irlanda, quando consultou, a título de curiosidade, uma lista telefônica:

“Mitchell [Angus, Introdução de Irish origins of Brazil, de Roger Casement] segue informando que a palavra Brazil como sobrenome é muito comum tanto na Irlanda como em Portugal, além de dar nome a ruas e lugarejos. Aproveitei que estava na Irlanda, resolvi consultar a lista telefônica e me surpreendi com o resultado. Numa rápida olhada, encontrei os seguintes sobrenomes: Brassil Brassill, Brazil, Brazill, Brazzill. Mitchel diz ainda que a palavra Brazil e suas muitas variações podem ser encontradas, facilmente, em antigos manuscritos irlandeses. Breasail, por exemplo, é o nome de um semideus pagão” (CANTARINO, Geraldo, “Uma Ilha Chamada Brasil: o Paraiso Irlandes no Passado Brasileiro”, Ed. Mauad, 2004, p. 33).

Noutra passagem bastante significativa, sobre anedotas históricas, lendas e mitologia irlandesa, Geraldo Cantarino, apoiando-se em outros estudiosos, defende a ideia de que a ilha Brasil seria uma versão celta da Atlântida platônica. Para justificar esta tese, Cantarino enumera relações entre a palavra brasil e personagens da cultura irlandesa, como um rei chamado Bresal; um missionário cristão, Breasal; um feiticeiro druída, Bresil ou Bresal; e o santo Bressalius de Durthach, ou Saint Bressal.

Em seu artigo sobre como a ideologia constituiu uma imagem do país Brasil concernente às utopias paradisíacas, a filósofa Imaculada Kangussu também toca na questão do mito irlandês:

“O nome ‘Brasil’ pode ter tido origem no gaélico Breasil (nome de um antigo deus pagão), e, nessa língua, ambas as sílabas, Breas e ail, denotam forte admiração. ‘Ambas possuem significados altamente laudatórios, de modo que ‘breas-si’l poderia ser traduzido como ‘soberbamente fino’ (superbly fine), ‘grandioso e maravilhoso’ (grand and wonderful) ou ‘o mais dos mais excelentes’ (the most of the greatest)’ (RAMSAY, R. H., “No Longer on the Map. Discovering places that never were”, Nova York: Viking Press, 1986, p. 86). Breasil tornou-se conhecido na forma mítica como Hi Brazil, O’Breasil ou alguma variante de um dos dois. Ambos os prefixos – Hi e O – realçam o elemento lendário, por serem formas da palavra gaélica que significa ‘ancestrais’” (KANGUSSU, Imaculada, “O Brasil e as utopias”, Trama Interdisciplinar, São Paulo, v. 5, n. 2, p. 22-37, ago. 2014).

Mas, para essa hipótese ter um mínimo de razoabilidade, seria necessário encontrar um fio condutor que ligasse Irlanda e Portugal. E esse fio condutor existe.

Para seguirmos este fio de ponta a ponta, será necessário recuar a um tempo anterior às Colunas de Hércules.

De acordo com as pesquisas embasadas em farto material etno-arqueológico de Andrés Pena Graña e Alfredo Erias Martínez, o riquíssimo universo mitológico grego compôs-se, em um tempo difícil de precisar, de influências culturais estranhas à cultura helênica, notadamente, o panteão céltico. Os pesquisadores atentam para o fato de que, ainda na pré-história, povos de todas as partes da Europa e além peregrinavam em direção ao Ocidente rumo a um santuário localizado no extremo do continente europeu, um cabo ainda hoje chamado de Finisterra (na Galícia, a 100 km de Santiago de Compostela). O mais longínquo pedaço de terra do continente: o fim do mundo.

Este caminho que, no medievo cristão tornou-se o Caminho de Santiago, coincidia com o percurso, no qual, durante o dia, ia do nascer do Sol até o poente e, à noite, seguia a estrada celeste de estrelas luminosas, chamada pelos romanos de Via Láctea, conduzia ao fim do mundo – o Fisterra, na língua galega.

“A grande atração da Galícia para os povos antigos da Europa e do Mediterrâneo não se devia apenas à fama de seus metais (ouro, estanho...), que era muito importante, mas a uma crença arraigada no mais fundo dos sentimentos da velha Europa. A nossa Gallaecia (a forma Gallaike presente já no séc. V a. C., na obra de Heródoto e um poeta médico do séc. IV a. C - López Férez - é muito mais antiga do que a forma Kallaike) era o fim do mundo, o Finis Terrae, onde morria o sol e onde a antiga Geografia Sagrada situava a porta do Paraíso. E as Águas Santas das praias de nossos Finisterre atlânticos, chamadas ainda na Idade Média ‘arenas Paradisi’, abrigavam as portas benditas onde embarcavam as almas dos europeus no psicopompo Navio para a ilha maravilhosa dos Bem Aventurados” (GRAÑA, A. P. & MARTÍNEZ, A. E., “O ancestral Camiño de perigrinación ó Fin do Mundo: na procura do deus do alén, Briareu/Berobreo/Breogán/Hércules/Santiago...”, Anuario Brigantino, 2006, no. 29, p.23).

Foi esse o caminho trilhado por Hércules quando dos doze trabalhos, uma referência às doze estações do ano. Mas, em tempos ainda mais remotos, as “Colunas de Hércules” ainda não recebiam esse nome. Chamavam-se “Colunas de Briareu”, correspondendo a uma divindade atlântica – Briareu – que foi incorporada à mitologia grega sob a figura de um gigante de cem braços e cinquenta cabeças, o guardião do tártaro. De fato, nas crenças antigas, os Campos Elísios localizavam-se numa ilha do Atlântico ou no extremo ocidente e, na mitologia céltica, Briareu era o barqueiro e o hospedeiro do Paraíso.

 Campos Elísios, representado em verde.

“Claramente, o ancestral caminho de peregrinação aos Finisterre galaicos, ou seja, o fim do Mundo, foi para os antigos, a viagem ao local onde morre o Sol e se embarca para as Ilhas dos Bem-aventurados, a viagem depois do rastro solar que um dia teriam de fazer suas almas. O Caminho de Briareo / Berobreo / Breogán / Hércules ... do passado pagão não se perdeu no tempo e continuou no mundo cristão com o Caminho de Santiago, um santo que, ligado à Via Láctea, cumpre também as funções de um antigo deus solar” (Granã & Martínez, op. cit., p. 15).

Ainda segundo Granã e Martínez, há evidências arqueológicas, linguísticas e arqueológicas para ligar Briareu à outra divindade, Berobreu, sendo que ambos estariam ainda na base da criação do lendário Breogão (ou Breogán).

Breogão é um personagem mítico ou real compartilhado tanto por tradições galegas como irlandesas. É irmão de Mile Espáine e aparece em um dos capítulos do Lebor Gabála Érenn, o livro das invasões da Irlanda:

Reza a lenda que o soldado Míle Espáine teria saído do Egito para conquistar a Irlanda. Numa das batalhas foi morto na península ibérica. Então, Breógão assumiu o trono e o reinado do povo Milesiano. Um de seus feitos foi o de mandar construir uma torre – Torre de Breogão ou Torre de Hércules – na região de Trás-os-Montes, na província de Bragança, Portugal. Do alto da torre, um de seus filhos, Ith, avistou a verdejante costa da Irlanda, mas ao tentar colonizá-la foi morto pelos habitantes da ilha, o povo semidivino Tuatha Dé Danann. Seu irmão Mil partiu em vingança e, após vencer os Tuatha Dé Danann, deu início à colonização céltica da Irlanda.

Alguns sites na internet remetem Breogão ao mago druída Bresal. Em um site encontrei a seguinte suposição etimológica:

“Etimologicamente, Breasal vem do celta brestelo ou brusio ‘luta, batalha’ (Proto-Indoeuropeu *bhreiH, ‘quebrar’) +*ual-os "chefe", de onde se derivaria *Brisso-ualos, Bressual (arcaico) e Breasal "chefe dos guerreiros". (Infelizmente não há registro da fonte).

Outros inferem o radical “breas” de “bless” (abençoar) e daí Ilhas Abençoadas.

Com relação aos nomes Breogão e Bresal, nada se pode concluir. No entanto, tal correlação entre “breas” e “bless”, ao que tudo indica, não é correta. O mais plausível é remeter o radical “brea” (céltico: forte, poder, força) ao irlandês “bria”, do proto-britânico *brigonos ‎(“alto, nobre”) – daí o nome Bryan. Tal inferência vem de encontro ao artigo de Graña e Martínez, ao qual os autores asseveram que o radical “bero” seria formado de *uperos, e daí a raiz *bri, genitivo breg e acusativo brig, tendo como paralelo em outras línguas indo-europeias burg, burgo, berg etc., expressando a ideia de alto, forte, fortaleza. Quanto ao “breo”, os autores traduzem por casa.

Lembrando ainda que uma etimologia possível e provável para Portugal é “porto + gallaeci”. Também “bri” é o radical de Bragança; Briteiros (Citânia de), capital dos Callaeci Bracari (Braga); e, talvez, Britannia; brigantes (povo celta do norte da Inglaterra); etc.

Tomamos a liberdade de supor a forma verbal nominativa breo de breoite ao médio-irlandês breóïd, que significa “queimar”.

Esta última e arriscada inferência, permite-nos chegar às Colunas de Hércules do nosso texto. A partir daqui, entraremos em um oceano especulativo de águas turbulentas e perigosas.

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Com base em nas fontes consultadas, testaremos hipóteses etimológicas para encontrar um paralelo entre as palavras brasil (vermelho) e bresil (do mito irlandês).    

Sua origem seria muito remota e seria referente a um corante vermelho derivado do óxido de estanho, também chamado de cinábrio, que teria origem céltica e ibérica.

“O comercio desse corante seria realizado entre fenícios e povos celtas ainda no século VI a.C. Os gregos denominavam esse corante de kínnabar, kinnábari, formado pela raiz kínn (metálico, rubro), sufíxo na (qualidade) e preposição bar (sobre). No latim, cinnabar. Na sintática céltica, sendo comum a próclise, isto é, a partícula bar é posposta ao radical, o termo corresponde a barcino, brakino, breazail, que significa vermelho” ( D’AZEVEDO, Adelino José da Silva, Este nome: Brasil [1967], in CANTARINO, “Uma Ilha Chamada Brasil: o Paraíso Irlandês no Passado Brasileiro”).

Os celtas eram um conjunto de tribos originárias do norte dos Alpes de um mesmo tronco linguístico que se espalhou, a partir do século IV a.C., por toda a Europa ocidental e oriental, ocupando grandes extensões. O nome de algumas tribos ainda hoje são bastante familiares: gauleses, bretões, escotos (Escócia), belgas, galegos, batavos, gálatas, caledônios, rutenos, brácaros (Braga) etc.

É bem provável que a palavra Barcelona provenha da mesma raiz. Do ibérico “Barkeno”, a palavra encontra correspondência no grego Βαρκινών ‎(Barkinṓn – pronuncia-se varkínon, varcínon) e o latim barcino, barceno (pronuncia-se barkino, barkeno). No português, varzino ou brasino, relativos à cor avermelhada em animais. Este vocábulo corresponderia a birczi, verczi, virzi, virz´idda, biz´ z´idda, virz'ilu e, enfim, brezil, brasil, kerka brisilli, braxile, citados por Machado, e ainda ao vernáculo birço etc.

Novamente, Plínio, o Velho, relata:

“In ora autem colonia Barcino cognomine Faventia, oppida civium Romanorum Baetulo, Iluro, flumen Arnum, Blandae, flumen Alba, Emporiae, geminum hoc veterum incolarum et Graecorum, qui Phocaeensium fuere suboles, flumen Ticer” (Plínio, o Velho, Naturalis Historia).

Tradução: Na orla da colônia de Barcino, denominada Faventia, as cidades romanas de Badalona e Iluro, o rio Arno, a cidade de Blandae, o rio Alba, os dois Empórios (“Emporion”, porto, mercado) dos antigos habitantes e um empório dos gregos, descendentes dos focianos (relativo à Focéia), o rio Ticer.

A cidade de Barcelona teria sido fundada por Augusto no ano 10 a.C. Porém, moedas datadas do século III a.C. e cunhadas tal qual o dracma grego, registram Barkeno em caracteres ibéricos. Há apenas duas cópias conhecidas dos dracmas de Barkeno, uma desaparecida e a outra mantida no Museu de Copenhague, na Dinamarca. É uma moeda de prata, imitação do dracma grego, como o Emporion dracma. No verso, há uma cabeça feminina e no anverso, o cavalo alado Pégaso e o registro Barkeno.

Dracma Barkeno.
Moeda da época carolíngia (Barcelona)

Seria necessário então descobrir se há alguma relação etimológica da palavra gaélica irlandesa breazáil com o cinábrio.

A palavra portuguesa “brasil” (ou “brazil”), de brasa + sufixo il (assim como covil, varonil, pueril etc.), tem sua origem etimológica remontada ao proto-indo-europeu *bʰres- ‎(ruptura, explosão), bem como seus familiares, o francês “braise” (cinzas), do antigo francês “breze” (brasa), o alemão “bersten”, do proto-germânico *brasō (carvão crepitando) e *brestaną, do inglês “burst”, do irlandês “bris” etc.

E, talvez, do proto-indo-europeu *bʰreg- (“quebrar”), como no inglês “to break” e no português “brigar”. (*)

Daí o médio inglês bras, bres, do inglês antigo bræs ("latão, bronze"), de origem incerta. Talvez uma formação do proto-germânico de *brasnaz ("bronze"), ou relacionado com *brasó ("fogo, pira"). Compare o antigo nórdico e islandês bras ("solda"), islandês brasa ("para endurecer no fogo"), o sueco brasa ("chama"), dinamarquês brase ("fritar"); francês braser ("soldar"; inglês braise) da mesma raiz germânica. Compare o holandês médio braspenninc ("uma moeda de prata", literalmente, "silver-penny"; holandês “braspenning”), o antigo frísio bress ("cobre"), o médio baixo alemão bras ("metal, minério"). (*)

(*) Fonte: Wiktionary.

O que há em comum é associação com o fogo, metal, ferreiro (por extensão) e, por conseguinte, o vermelho (metal aquecido, derretido). Contudo, como vimos, a versão de Adelino D’Azevedo estabelece o radical kínn em cinábrio e não bras-.

Brasa, aliás, é uma das poucas palavras do português que não possui uma origem latina, sendo atribuída a raiz germânica. O que é, no meu entendimento, uma lacuna, haja vista que tanto o latim como o grego são línguas indo-europeias.

Ao consultar um dicionário de etimologia virtual, encontrei do inglês “cinnabar” o seguinte verbete:

Cinnabar (n) 15c., "vermelho ou a forma cristalina do sulfureto de mercúrio," também aplicado a outros minérios de mercúrio, inicialmente com referência à sua utilização como um pigmento; de cinabre, do velho francês (13c.), a partir Cinnabaris do latim tardio, a partir kinnabari grega, de origem oriental (compare zanjifrah persa no mesmo sentido). Também é usado 14c.-17c. como suco resinoso vermelho de uma certa árvore Oriental, que se acreditava ser uma mistura de sangue de dragão e elefante (Online Etymology Dictionary, © 2010 Douglas Harper).

Aqui as coisas começam a não fazer sentido, pois a língua persa é também uma língua indo-europeia. A raiz de cinábrio deveria estar em outro tronco linguístico.

Consultei então um dicionário grego relativo aos textos bíblicos e o resultado foi surpreendente. Transcrevo os verbetes:

Κιννάμωμον - kinn-am’-o-mon; de origem estrangeira [compare do hebreu qinnamown]; cinnamon: canela.

קִנָּמוֹן (knmon) [casca perfumada usada como tempero] Ex. 30:23; cinnamon, Grego κίνναμον, κιννάμωμον, de acordo com Heródoto iii, 111, uma palavra de origem fenícia, Pro. 7:17, Cant. 4:14 (A origem é duvidosa. Parece, entretanto, mais simples supor a raiz, קִכה, de onde קִנָּם = קִכה cálamo, קִנָּמוֹן cana. [Esta derivação é expressamente rejeitada em Thes.] Outros tomam-na de outra forma.

Portanto, sua origem seria semítica, como atesta uma lista de palavras inglesas de origem semita:

Cinnamon, forma grega κιννάμωμον kinnamonon (MW), de origem semita, semelhante ao hebraico קִנָּמוֹן qinnamon 'casca aromática "(AHD).

Curiosamente, a preposição posposta, demarcando a próclise, é de origem semítica, o que poderia levantar uma polêmica sobre uma possível origem semita do povo ibero.
Todavia, não há consenso sobre a origem dos iberos. Algumas teorias apontam a Europa Ocidental. Outras, a povoados semelhantes aos da Escócia. Uma terceira, que teriam vindo do norte da África, durante o século VI a.C., e absorvidos pelos celtas no século I a.C.

(Não deixa de ser curiosa a semelhança linguística entre os termos hebreu – ivrit – ibrit: hebraico; ebreu [antigo português], de eber, éver - e ibero).

Seja como for, qualquer uma das hipóteses sobre as origens dos iberos não muda o fato de que os povos mediterrânicos estabeleceram intenso intercâmbio comercial com os fenícios, aos quais, inclusive, fundaram muitas colônias na costa continental do mar mediterrâneo, como Cartago e Cadiz.

Vejam alguns exemplos do uso da preposição bar, “de” ou “filho de”:

Bar-ab-bas’, de origem caldeia, filho de Abba; Bar-abbas, no israelita: Barabbas.

Barihsou~v, bar-ee-ay-sooce’; de origem caldeia [hebraico {1247} (bar) e hebraico {3091} (Yehowshuwa`)]; filho de Jesus (ou Joshua); Bar-jesus, no israelita: Barjesus.

No grego não existe a preposição “bar”. A palavra kínnabar ou, a sua forma construída hipoteticamente, “bar-kínn-na”, se de fato neste caso a partícula bar seja realmente uma preposição, a composição da palavra teria influência semítica e não o inverso.

Para justificar a influência da cultura fenícia no continente europeu e, assim, defender a ideia de que a Ilha Brasil teria alguma ligação com os fenícios, Cantarino faz um longa digressão sobre o livro “Before Colombus”, do estudioso de línguas e culturas antigas Cyrus Gordon. Destaco em especial esta passagem:

“Gordon cita outros exemplos para ilustrar a ideia, como Ibiza, a ilha espanhola do mar mediterrâneo, que teria origem no fenício ‘Î bes’, A ilha de Bes; um antigo nome para a ilha da Sardenha, a oeste da Itália, ‘Î Nesîn’, a Ilha dos Falcões; e de acordo com o estudioso Joseph M. Sola-Solé, Hispania seria de derivação semítica e talvez represente a palavra fenícia Hi-Span, A Ilha do Coelho. ‘De qualquer maneira’, continua Gordon, o antigo nome irlandês desta terra – ou da terra – no oeste, era Hy-Brasil, que na língua semítica do noroeste [do Oriente Médio] significa ‘Î BRZL, A Ilha de Ferro’” (CANTARINO, obra citada, p. 88).

E esta:

“Para completar, o professor Gordon diz que a palavra para ferro na maioria das línguas semíticas, sem contar com o árabe, é barzel, como aparece, por exemplo, em hebraico” (Idem, p. 89).

Vejamos:

Ferrum (latim) é uma palavra adotada de uma outra língua, neste caso, de origem desconhecida. De acordo com de Vaan Michiel (Etymological Dictionary of Latin and the other Italic Languages (Leiden Indo-European Etymological Dictionary Series; 7), Leiden, Boston: 2008), possivelmente a partir de um dialeto fenício: compare a fenícia BRZL (Barzel) e o siríaco clássico ܦܪܙܠܐ (parzlā, o "ferro"). A palavra poderia ter entrado no léxico latino por via etrusca.

No hebraico (lê-se de traz para frente):

בַּרְזֶל (Brzl) - compare com o acadiano (partzilla), siríaco clássico ܦܪܙܠܐ, ugarítico (brḏl) e fenício (Brzl).

Observação: as línguas semíticas não possuem vogais.

A questão que emerge é se a palavra brasa é realmente de origem indo-europeia. O proto-indo-europeu é uma língua reconstituída artificialmente pela linguística histórica e comparada, através das línguas modernas e registros antigos de línguas antigas. Portanto, supõe uma língua hipotética que seria comum aos ancestrais dos povos conhecidos genericamente por indo-europeus, denominados também arianos. Não há registro material dessa língua, porque, na época em que se deduz sua existência, ainda não havia sido introduzida a escrita entre os arianos. O alfabeto só chega entre os europeus, via comércio com os fenícios, em torno de 900 a.C. Se a resposta à pergunta se a palavra brasa é de origem indo-europeia for negativa, então a palavra brasa e todas as suas variantes nas línguas europeias seriam de origem semítica, e não seria absurdo acarretá-la a um único rastro até chegar à palavra “brasil”.

Conclusão:

Formularei três hipóteses, uma realista, outra possível e a terceira teológica:

1. Esta hipótese já foi esboçada acima. Quando Angelino Dulcert confeccionou sua carta, ele estava familiarizado com a prática comercial nas cidades italianas e, portanto, conhecia bem o produto denominado brazil. Provavelmente, a matéria-prima do corante já estava sendo explorada nas Ilhas Canárias, em princípios do século XIV. Contudo, Angelino não possuía informações sobre a localização exata do arquipélago, deduzindo, através das viagens de São Brandão, que esta devia ficar na costa da Irlanda.

2. A palavra brasil, de lavra semítica (barzel), deu origem tanto aos radicais indo-europeus bri (alto, força) e bras (explosão, fogo, ferro e vermelho), durante o intercâmbio entre povos celtas, fenícios e cartagineses. Lembrando ainda que foram os celtas que deram início à idade do ferro na Europa e que, talvez, também seriam os temíveis “povos do mar” que invadiram o Egito. Angelino então representou a Ilha Brasil em consonância às reminiscentes tradições célticas.

3. Durante a diáspora dos filhos de Israel, quando o povo hebreu fugiu do Egito, um grupo se dispersou em direção a Sefarad, no Ocidente, em busca da Terra Prometida. Primeiro, as tribos se estabeleceram na Ibéria caucasiana (província da atual Geórgia); depois, seguiram até a península ibérica, sendo assimilados pelos celtas, tornando-se os celtiberos. Séculos depois, um dês seus descendentes, São Brandão, finalmente encontrou o Paraíso, até hoje perdido.



(Este artigo foi feito especialmente para este blog. Quase toda a pesquisa foi realizada na internet).

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