domingo, 2 de abril de 2017

GUIA “FÁCIL” PARA UMA AULA DA “CRÍTICA DA RAZÃO PURA” DE IMMANUEL KANT

GUIA “FÁCIL” PARA UMA AULA DA “CRÍTICA DA RAZÃO PURA”


por Jean Pires de Azevedo Gonçalves

É comum alguns colegas da geografia me perguntarem sobre a doutrina filosófica de Immanuel Kant. Como já estudei o assunto muitas vezes e a todo momento, em meus estudos, me deparo com Kant, resolvi elaborar um guia fácil para uma aula imaginária sobre a “Crítica da razão pura”. Esta aula poderia ser ministrada informalmente, por um geógrafo – no caso, eu – para outros geógrafos – meus colegas – e, quem sabe, se tal honra me coubesse, curiosos em geral ou até mesmo estudantes de filosofia. Diante destas perspectivas, achei oportuno publicar o guia aqui no blog.

De antemão peço desculpas pelas repetições e o estilo da escrita, às vezes, fragmentado, ao modo de um rascunho. É que na verdade, diante das constantes e não intencionais recaídas em Kant, este guia foi escrito para organizar meus próprios estudos. Quero eu acreditar que, se este guia me foi útil, talvez possa ajudar outros estudantes, tal como eu, a toda hora, surpreendidos por Kant. Mas que fique aqui registrado uma advertência: de modo algum este pequeno guia substitui a leitura do próprio livro e seus comentadores, muito mais versados do que eu em filosofia.

1 - Apesar do título “Crítica da razão pura” sugerir uma crítica à razão pura, isto é, à metafísica, representada pelo racionalismo filosófico – poderia ter sido, ao contrário, “Crítica do empirismo puro”, o que, em parte, também o é –, Kant é, todavia, um filósofo idealista. Esta afirmação pode parecer um pouco estranha, pois, se Kant é idealista, a razão não deveria ser alvo de sua crítica. Tal embaraço, provocado pelas nomenclaturas taxonômicas, já nos dá pistas da engenhosa filosofia kantiana.

Observação: Em filosofia, idealismo e materialismo não tem nada a ver com o sentido que o senso comum comumente dá a essas palavras, de "sonhador" ou "pessoa apegada a bens materiais", respectivamente. Em filosofia os termos se referem aos pressupostos constitutivos de todo conhecer ou da própria realidade. Eis um dos grandes dilemas filosóficos: além da forma de conhecer, o mundo é um produto da consciência ou existe por si mesmo?

Idealismo – a fonte de todo o conhecimento está no Eu, no pensamento, na consciência, no sujeito ou, se se quiser, na subjetividade. (Ainda: nas ideias, no ideal).

Materialismo – a fonte de todo o conhecimento está na matéria, no mundo (sensível), na coisa, no objeto ou, se se quiser, na objetividade.

Idealismo e materialismo são conceitos modernos que podem, porém, ser aplicados, de modo anacrônico, a toda a história da filosofia ocidental, desde os atomistas, Platão (idealista) ou Aristóteles (materialista), até os modernos.

Estes rótulos, embora válidos, até certo ponto, na classificação filosófica, são sempre provisórios. Raramente uma filosofia se adéqua totalmente a um “tipo ideal puro”, subjacente aos megaconceitos. Além do mais, algumas concepções ganharam significados diferentes conforme o desenvolvimento e contexto histórico. Para os escolásticos, por exemplo, o idealismo platônico era realista, oposto ao nominalismo aristotélico, pois as ideias, na filosofia de Platão, tem estatuto de realidade. Para os modernos, no entanto, a exigência de todo o realismo é a existência de objetos independentemente da consciência e, por isso, se opõe ao idealismo.

Por isso, é preciso tomar cuidado com rótulos, pois, nota-se que, paradoxalmente, apesar de idealista, a filosofia kantiana é realista, isto é, supõe a existência de algo fora da consciência dos sujeitos, diferentemente da filosofia aristotélica, também realista, mas que poderia ser taxada de materialista (como fazem muitos manuais de filosofia). Em Aristóteles, as ideias transcendentais, ou os universais, são inferidas das coisas reais, sensíveis, tais como aparecem à nossa consciência; para Kant, entretanto, o que está fora da consciência jamais é acessível ao conhecimento, senão enquanto aparência objetiva (fenômeno), pela qual a objetividade é constituída subjetivamente, por formas do pensamento, chamada por Kant de categorias (equivalente as “ideias inatas”).

O filósofo irlandês Berkeley, de ascendência inglesa, é um bom exemplo da fragilidade das classificações formais. A filosofia de Berkeley, seguindo a tradição empirista inglesa, parte do sensível e da experiência, o que, a princípio, a colocaria imediatamente entre as filosofias materialistas. Todavia, é exatamente através do sensível que Berkeley nega a matéria e dá uma guinada para um idealismo radical. Para Berkeley, não há como pensar objetos materiais fora da consciência. Percebemos apenas qualidades sensíveis e nunca uma substância misteriosa, a matéria, suporte inefável das qualidades. As ideias são imagens tal como as apreendemos em nossa consciência. “Não quero transformar as coisas em ideias, mas antes transformar as ideias em coisas” (Berkeley). Há um certo realismo ingênuo em Berkeley, na medida em que a realidade é exatamente como aparece. Mas se tudo se passasse como se as coisas existissem ou deixassem de existir a partir do momento em que são percebidas ou não por indivíduo, então como explicar a coincidência de percepção de um mesmo objeto por diferentes sujeitos? Berkeley toma um expediente semelhante a Descartes, embora partindo de uma fonte epistemológica oposta: Deus é bom e é o criador e o mediador das ideias, responsável pela correspondência das ideias na mente dos diferentes indivíduos.

Portanto, Kant é um idealista diferente de um Berkeley, para quem o mundo e as coisas no mundo são ideias na mente divina ou dos seres humanos. Não é um idealista para quem um gênio maligno tenta induzir o filósofo a compreender o mundo como ilusão, um sonho, ou, como disse fichtianamente Wittgenstein, no seu Tractatus, “o mundo sou eu”. Para Kant, há alguma coisa real por trás de nossas representações mentais.

(No entanto, como diz Schopenhauer, no fundo, Kant jamais superou idealismo radical ao modo de Berkeley, pois, em última análise, repete a cantilena de que “sem sujeito não há objeto”. Em um texto sobre o “Nascimento da tragédia”, de Nietzsche, que pretendo publicar aqui, voltaremos a abordar o problema).

Portanto, a princípio, para o idealismo realista de Kant, existe um mundo real que está fora do sujeito (consciência).

2 – O projeto filosófico de Kant consiste em conciliar, para depois superar, as duas principais escolas de filosofia que estavam em voga em seu tampo: o racionalismo e o empirismo.

Tal como fizemos acima, podemos definir, para fins didáticos, estas filosofias como subprodutos das duas correntes filosóficas supracitadas (idealismo e materialismo). O racionalismo é idealista e o empirismo, materialista.

Expoentes do racionalismo: Descartes, Malebranche, Spinosa e Leibniz.

Expoentes do empirismo: filósofos ingleses em geral; Bacon, Hobbes, Locke e Hume.

Idealismo e empirismo põem em xeque mutuamente as bases epistemológicas uma da outra.

a) Descartes inaugura a filosofia moderna. Para os filósofos escolásticos, a pedra angular da filosofia era o dogma. A definição de dogma é uma revelação de Deus, escrita nos livros sagrados, que não pode ser contestada ou posta em dúvida. Mas é exatamente a dúvida que Descartes eleva à condição de método filosófico. Descartes duvida de tudo, da existência do mundo, do corpo (o corpo do próprio filósofo que duvida), de Deus etc., mas não consegue duvidar da existência daquilo que duvida, o pensamento. Duvidar daquilo que duvida seria uma contradição e, portanto, a existência de um ente que dúvida é uma verdade auto-evidente, indubitável. Assim, o pensamento preenche a primeira regra de seu método: a evidência. Ao ser pensante (o pensamento puro), Descartes denominou res cogitans. A partir deste porto seguro, Descartes pode provar racionalmente a existência de Deus e, a partir de Deus, do corpo e do resto do mundo. Estes, Descartes chamou res extensa. Porém, o mundo é uma multiplicidade confusa, está em constante devir e nossos sentidos nos enganam o tempo todo. Do mundo só podemos inferir a extensão e o movimento, que são ideias claras e universais.

Nota-se que, para que haja sensações ou percepções, é necessário um corpo. O corpo é o lugar dos sentidos. Sentimos frios ou calor, gostos e cheiros, vemos, ouvimos... Por isso, Descartes rebaixa a condição corporal, suprimindo-a, já que esta não oferece certezas apodíticas, senão como grandezas matemáticas: espaço e movimento. Somente a coisa ou o ser pensante é passível de certeza evidente. Surge na modernidade a força da razão, antessala do iluminismo. Hegel caracteriza a era Moderna como repleta de clivagens; dentre elas, mente e corpo é a mais profunda.

Sendo assim, para os racionalistas, os sentidos (sensações) nos enganam e a verdade está nas ideias, única realidade constante e regular num mundo em constante devir (transformação). (O fundamental é o intelecto).

Se o mundo está em devir, um livro, depois de lido e descartado, pode vir a ser uma caixa de fósforo, após reciclagem. Exemplo trivial que mostra a inconstância do mundo material. Para os racionalistas, a única propriedade verdadeira, constante e segura do livro é a extensão, que pode ser mensurada; a sua forma etc. Sim, 10 centímetros não mudam, é igual aqui, no Brasil, como é na China, em Angola, ou em qualquer lugar. Também os sentidos, que percebem o mundo sensível, não são confiáveis. Para mim o dia está frio; para fulano, fresco. Eu vejo o Sol do tamanho de uma bola atravessar a abóbada celeste quando na verdade é a Terra que gira sobre uma estrela de tamanho incomensurável, o Sol. Etc., etc., etc.

b) Inversamente, para os empiristas, a verdade está no mundo sensível, pois as ideia são inferidas da experiência e não são mais que impressões do mundo em nossa consciência, a qual pode ser comparada a uma tabula rasa (uma lousa). (O fundamental são os sentidos).

Obs.: Tabula rasa era uma tabuleta emoldurada e preenchida com cera, onde os antigos escreviam um rascunho antes de transcrever em definitivo nas folhas de papiro.

Exemplos: Nenhuma propriedade intrínseca no sal me induz a compreender o conceito de salgado se eu não prová-lo antes. Um ET que nunca viu uma laranja poderia ficar aterrorizado diante de uma. Se nunca vi uma bola de bilhar indo de encontro a uma outra, nada me diz o que aconteceria quando uma batesse na outra. Se eu sei que após o choque a segunda bola entra em movimento, é porque vi isso acontecer muitas vezes. Mas nada me leva a crer e deduzir uma ideia de causa e efeito do choque entre duas bolas de bilhar se não houvesse o hábito de observar e experimentar os fenômenos no mundo muitas vezes. (Pense numa criança que nunca jogou bolinha de gude. Ela não pode ter a menor ideia do que acontece quando seu amiguinho atira uma contra a outra).  Etc., etc., etc.

O pressuposto de Locke é – nada existe na mente que não tenha estado nos sentidos.

3 – O que está em jogo no embate destas duas escolas de filosofia é onde está a verdade ou qual a origem do verdadeiro conhecimento, o pensamento (ideias) ou o mundo (sensível)?

Enfim, o projeto filosófico kantiano se propõe a colocar um meio termo entre as duas; Kant quer conciliá-las, realizar uma síntese ente racionalismo e empirismo. Para realizar este projeto, Kant irá estabelecer a crítica como método filosófico. Tudo se passa como se a crítica kantiana fosse um tribunal que julgasse o mérito das duas escolas de filosofia em questão e aplicasse uma sentença revogatória e conciliadora.

Kant dialoga o tempo todo com as filosofias racionalista e empiristas.


4 – A TEORIA DOS JUÍZOS

Seguindo a tradição filosófica, Kant retoma a teoria dos juízos.

Pode se definir juízo como uma “ação” do pensamento ou ato mental pelo qual se formula um enunciado afirmativo ou negativo. Em termos gramaticais e lógico os juízos apresentam a seguinte estrutura: sujeito e predicado (verbo ser [cópula] e objeto).

O juízo estabelece uma relação de identidade (A é A) ou de negação (A não é não-A).

Para Kant, os juízos de inerência são aqueles em que o particular está subordinado ao universal.

Os juízos reflexivos, ao contrário, do singular se infere o universal.

- Juízos analíticos

Análise: “Dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis” (Descartes).

A definição lógica de juízo analítico é: o predicado está contido no sujeito.

Os juízos do tipo racionalista (matemática pura) prescindem da experiência e são chamados juízos analíticos.

Se fulano diz que é solteiro, desnecessário vasculhar a sua vida para constatar o fato de que ele realmente não é casado. Posso deduzir que “todo solteiro é um não casado” sem sair de casa. Ou seja, o desmembramento (separação, análise) do predicado não informa nada mais do que aquilo que já estava contido no sujeito.

O mesmo ocorre quando se diz que um “triângulo é uma figura de três ângulos”. Figura de três ângulos é apenas a separação das partes do todo – o procedimento analítico.

Não é preciso desenhar um triângulo para verificar que a figura do triângulo tem três ângulos. Posso conceber isto apenas pelo pensamento. Tampouco tenho que procurar um homem solteiro para verificar que de fato ele não é casado.

Ratificando: juízos analíticos são proposições verdadeiras intuídas pelo pensamento, como a noção de axioma, e estão fundamentados em ideias puras (inatas), como o conceito de infinito, de causa (se há um efeito há uma causa), de que todo corpo é extenso etc.

Os juízos analíticos são proposições de identidade (A é A), verdadeiras e vazias de conteúdo (tautologia); a análise apenas repete aquilo que já é anunciado pelo sujeito da oração.

Portanto, os juízos analíticos são a priori, universais e necessários. A priori porque anteriores e independentes de toda a experiência; universais porque válidos em qualquer caso; e necessários porque não pode ser de outro modo: uma figura de três ângulos não é um quadrado etc.

- Juízos sintéticos

Síntese: “Concluir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para, aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos mais complexos” (Descartes).

O juízo sintético une (síntese) o conceito do predicado ao do sujeito, acrescentando uma nova informação.

A definição de juízo sintético é: o predicado acrescenta algo ao sujeito.

Os juízos do tipo dos empiristas (física, química etc.) surgem na experiência.

Por exemplo, suponhamos que eu nunca tivesse provado nada salgado ou doce. Então jamais poderia explicar o que é salgado ou doce, ainda que eu tivesse a noção do seu conceito por meio de um verbete de um dicionário. Por exemplo, o dicionário define salgado como aquilo que tem sal (juízo analítico). Para saber o que é salgado, de nada me adianta recorrer à leitura do verbete “sal”: não sinto seu gosto! Isto é, a definição “composto químico que resulta da ação de um ácido sobre uma base” é completamente insossa ao meu paladar. Munido apenas desta definição, jamais saberia distinguir o sal do açúcar e explicar para um extraterrestre o que é salgado ou doce. De fato, eu conheço o conceito mais nada sei realmente sobre o sal. Para sabê-lo, é preciso prová-lo, experimentá-lo.

Outro exemplo: suponhamos que nunca vi um gato e, portanto, nada sei sobre o animal gato. Se, inversamente, vi muitos gatos, posso formular uma ideia ou um conceito geral sobre este animal e nomeá-lo: “gato”. Se, por ventura, vejo um gato listrado, eu digo, “este gato é listrado”. Pude formular este juízo porque a experiência me demonstrou isso. Mas nem todos os gatos são listrados. Alguns são pardos, outros brancos, outros pretos, outros malhados, alguns pequenos, outros grandes etc. Para formular o juízo “o gato da minha vizinha é preto”, é necessário antes, através da experiência, observar o gato da vizinha!

Portanto, juízos sintéticos são a posteriori, particulares e contingentes. A posteriori porque dependem da experiência; particulares porque dizem respeito a casos individuais; e contingentes porque só existem de um modo.

- juízos sintéticos analíticos

Todavia, Kant rejeita os juízos analíticos e sintéticos. Os juízos analíticos não acrescentam nada ao conhecimento e são redundâncias vazias, isto é, tautologias. Os juízos sintéticos estão fadados às contingências individuais e nada pode estabelecer de universal. Kant sugere um terceiro tipo de juízo que é muito mais importante e que é, de certo modo, uma mistura dos dois: os juízos sintéticos analíticos.

Os juízos sintéticos analíticos são proposições que nascem da experiência (a posteriori, particular e contingente) mas adquirem propriedades analíticas (a priori, universais e necessárias).

Ao realizar uma experiência, como, por exemplo, o aquecimento da água, constato que, em um determinado momento, a água muda do estado líquido para o gasoso. Daí, formulo um juízo sintético: a água aquecida transforma-se em vapor. Porém, jamais poderia ter certeza de que a água irá evaporar e em qual momento. Eu poderia suspeitar que uma água no Japão não evaporasse. Mas, por ter visto muitas vezes a água aquecida evaporar, apenas sei que, por habito, em algum momento a água muda de estado, ou seja, entra em ebulição.

No entanto, ao mensurar a temperatura da água com um termômetro (instrumento), verifico que sempre a água entra em ebulição a 100º. C (ao nível do mar). Depois de muitas vezes realizada esta experiência, posso extrair daqui um juízo analítico que independe da experiência: (toda) água evapora a 100º. C (ao nível do mar).

Ora, a proposição “a água entra em ebulição a 100º. C” é uma lei científica universal e necessária. Um professor de química, por exemplo, não precisaria ferver a água e medir a temperatura de seu ponto de ebulição e provar toda vez aos seus alunos que a água evapora a 100º. C.

O mesmo se poderia dizer sobre a sentença “a ebulição da água foi causada pelo seu aquecimento” ou a ”causa da ebulição da água é seu aquecimento”.

Não há nenhuma propriedade intrínseca na água que leve o raciocínio a deduzir sua evaporação, independentemente da experiência, assim como vimos com o sal.

Mas, se eu constato que a água evapora, devo então procurar uma causa para isso: aquecimento.

A relação de causa e efeito pode ser aplicada a n fenômenos (a posteriori, particulares e acidentais) e é um juízo analítico (a priori, universal e necessário). (Outros exemplos: o raio é a causa do trovão; uma fogueira é a causa da fumaça etc.).

Com isso, Kant põe um meio termo entre o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista. Todavia, a filosofia, em Kant, sai de cena, pela porta dos fundos, para dar lugar à ciência. De fato, Kant nada mais faz do que filosofar sobre o método científico. No mundo dos fenômenos, apenas a matemática e a física tem lugar.

Então, como é possível o conhecimento?


5 – ESTÉTICA TRANSCENDENTAL

Da sensibilidade (empirismo)

Na tradição filosófica, a intuição pode ser inteligível ou sensível.

A definição mais recorrente de intuição é pressentimento ou capacidade de conhecer imediatamente. (do latim, intuitione, da preposição in [em, dentro de] e do verbo tuere [olhar, guardar] é “ver por dentro”, “olhar de dentro”, “guardar de dentro”).

Por meio de uma operação mental, concebem-se ideias verdadeiras, como os axiomas. Ou, por meio da experiência sensorial, sem conhecer o nexo lógico que está por trás de determinado fenômeno, portanto, de modo inconsciente, uma ideia pode ser formulada abstratamente. O “ponto”, por exemplo, é uma definição abstrata, intuída pelo pensamento, e que não existe na realidade. (O ponto não é um furinho na parede ou sujeirinha no piso branco etc.).

De maneira geral, os filósofos sempre se ativeram à intuição inteligível.

A intuição sensível é a novidade kantiana: Kant fala em intuição pura, sem objetos da sensação. Na estética transcendental, a intuição sensível é a condição, a priori.

Nota-se: Estética é teoria da percepção e transcendental é aquilo que está “fora do mundo” (ou melhor, puro, a priori) e não sofre mutações.

Kant está dizendo que há um modo de perceber que é anterior e independente da experiência.

O que ele quer dizer com isso?

Que os juízos analíticos e sintéticos não são realizados no nada. A experiência ou as linhas inferidas dos três ângulos se encontram em um determinado lugar e em um determinado momento. No espaço e no tempo.

Arquimedes demonstrava teoremas na areia (geometria), ou seja, num “fundo” espacial e temporal.

Toda experiência e inferência estão situadas num tempo e espaço. É impossível se livrar disso. Porém, para Kant, tempo e espaço não estão situados fora do sujeito; ao contrário, tempo e espaço são modos de intuição. Neste sentido, são categorias subjetivas. Segunda a máxima kantiana: Eu posso imaginar um espaço sem objetos mas não posso imaginar um objeto sem espaço; ou nada existe fora do tempo mas eu posso imaginar o tempo sem acontecimentos. Quer dizer, posso abstrair todos os objetos da minha mente. Menos espaço e tempo.

As categorias intuitivas e a priori espaço e tempo são condições de toda experiência e raciocínio.

Nota-se que, novamente, Kant põe um meio termo entre racionalistas e empiristas. Ao formular uma condição sensível a priori para o conhecimento, até a matemática pura tem algo de sensível e, por outro lado, nenhuma experiência seria possível sem estes “quadros” da subjetividade espaço e tempo.

Portanto, tempo e espaços são formas subjetivas e inerentes ao sujeito cognoscente. Isto é, são categorias transcendentais inerentes à subjetividade (estão fora do mundo e “dentro” do sujeito).

Kant denomina tempo e espaço de categorias a priori da intuição.

As categorias da intuição tem por característica o fato de serem involuntárias, inconscientes. Elas são passivas, receptoras. Espaço e tempo são quadros subjetivos onde o que é empírico é dado como objetos sensíveis apreendidos na consciência.

As categorias a priori da intuição são como se fossem a tela no fundo de uma câmara escura: receptora do mundo através da abertura dos sentidos. É através delas que o conteúdo empírico é dado ao sujeito. Portanto, tempo e espaço são como se fossem a moldura da tabula rasa dos empiristas.

Dito de outro modo, e a título de ilustração, o objeto empírico é refletido, como num espelho, dentro do sujeito. Ou seja, no sujeito, o conteúdo empírico é reproduzido enquanto objeto: uma representação. O que significa dizer que não é o ente em presença (em “estado bruto”, em si), mas o objeto enquanto re-presentação (uma cópia da presença, se se quiser). O objeto é uma manifestação na consciência, uma aparência; numa palavra, fenômeno.

Eis o fundamental: presença (coisa em si, noumenon) e presença-ausente (representação, phainomenon).

A presença está no mundo. O fenômeno é a presença do mundo na consciência enquanto objeto representado subjetivamente.

Nota-se que enquanto o conteúdo da coisa foi abstraído pelos quadros subjetivos espaço e tempo houve apenas uma duplicação como objeto nos limites da subjetividade. A realidade concreta ficou de fora, inviolável e inexpugnável, enquanto coisa-em-si.


6 – LÓGICA TRANSCENDENTAL

Do entendimento (racionalismo)

A partir do momento em que é representado o objeto nas categorias espaço-tempo, uma faculdade do pensamento (espírito) vai atuar sobre objeto: o intelecto.

O mundo sensível é completamente caótico, uma multiplicidade de elementos confusos, infinitos, e não explicita os nexos de seu funcionamento. Tudo isso é reproduzido nas categorias a priori da intuição: uma representação objetiva do mundo caótico.

Neste sentido, a intuição pura é incapaz de estabelecer as relações, as regras e os nexos lógicos do juízo.

A partir daí, como foi dito, outra faculdade do pensamento vai entrar em ação: o entendimento, definido como faculdade de julgar. O entendimento vai tornar as representações sensíveis inteligíveis, por meio da análise e de sínteses intelectuais. Ou seja, vai separar, ordenar e organizar o conteúdo empírico em quantidade, qualidade, modo, substância, causa, efeito, etc.

A partir do silogismo aristotélico, Kant distinguiu doze categorias a priori do entendimento. São elas que vão estabelecer relações e os nexos lógicos do conhecimento.

Categorias a priori do entendimento:

1. Quantidade: Unidade, Pluralidade e Totalidade...
2. Qualidade: Realidade, Negação e Limitação...
3. Relação: Substância, Causalidade e Comunidade...
4. Modalidade: Possibilidade, Existência e Necessidade...

No entanto, Kant afirma que as categorias do entendimento são centenas e não apenas dozes. Todavia, ele próprio não se dá ao trabalho de enumerá-las, deixando para os filósofos que o sucederão esta exaustiva tarefa como parte de seu legado filosófico.

Nota-se que Kant distingue a lógica formal (pura), esta propriamente ligada à razão, da lógica transcendental.

A lógica formal prescinde dos objetos e frequentemente, como vimos, formula proposições vazias (tautologias).

A lógica transcendental necessita dos objetos. Ela é, ao contrario das categorias intuitivas, uma faculdade ativa.

Resumindo, as categorias do entendimento “dissecam” o objeto, através da análise e da síntese, formulando leis universais.

- O Eu Transcendental

As faculdades cognitivas a priori implicam um Eu transcendental (ou sujeito), isto é, um eu que, enquanto repositório das categorias a priori, também está fora do mundo.

As categorias a priori são como se fossem as ideias inatas de Descartes e dos idealistas. Isto é, já nascem com o sujeito.

Eu transcendental, portanto, é uma instância em contraposição ao mundo e é comum e geral a todos os seres racionais, ou melhor, aos seres humanos.

É este Eu transcendental que é dotado das faculdades da razão.

Apesar de ser individual (é próprio de cada sujeito) todos o seres racionais são dotados das categorias a priori.

Porém, a racionalidade é um modo particular dos seres humanos. Se fizéssemos um exercício de imaginação e pensássemos em extraterrestres com um outro modo de perceber e entender o universo, o modo de conhecimento destes alienígenas seria completamente diferente do nosso e estes amigos interestelares constituiriam um objeto completamente diferente do nosso.

Assim, o conhecimento é subjetivo e recebe o selo específico dos agentes que conhecem.

- Cisão entre fenômeno e coisa em si

Vimos que o objeto foi representado e dissecado pelo sujeito (Eu transcendental). A presença (coisa-em-si, essência) do objeto, no entanto, foi deixada de lado, fora do conhecimento, que se ateve à representação.

Ou seja, Kant traça os limites da razão. Só é possível conhecer os fenômenos e nunca o númeno.

Para ilustrar o que foi dito, pensemos numa projeção cartográfica. Ela é uma abstração e nunca reproduz o globo terrestre tal como ele é. De fato, as distorções, a escala, as dimensões e as formas dos continentes em um mapa são uma quintessência do planeta Terra. É mais ou menos assim que se dá o divórcio do fenômeno e da coisa-em-si. Esta é uma zona impenetrável.

Pois, Kant afirma que conhecemos apenas o fenômeno (a representação) e nunca a coisa em si (presença real, numênica).

Tal embaraço criou um grande problema na filosofia desde então. Schopenhauer chamou o fenômeno de o véu de Maia, isto é, o véu das ilusões.

No fundo, Kant se divorcia do mundo, que se torna inacessível ao conhecimento racional enquanto coisa-em-si, e, a partir de uma atividade mental solitária (solipsismo), que é, ao mesmo tempo compartilhada por todos os seres racionais, constrói, por meio das impressões sensíveis e do entendimento, o objeto de seu saber.

E aqui voltamos ao realismo idealista de Kant, pois, embora o filósofo tenha a convicção na existência de um mundo exterior ao sujeito, a coisa-em-si, é de fato o sujeito (o pensamento) a fonte do conhecimento.


7 – DIALÉTICA TRANSCENDENTAL

(Razão – crítica à metafísica)

A razão é faculdade dos princípios a priori, e que, através do entendimento, produz ideias.

Os princípios a priori da razão podem ser aplicados aos próprios princípios a priori, de modo especulativo.

Na seção intitulada dialética transcendental, Kant vai aplicar os juízos à metafísica.

Até agora, o filósofo se ocupou com a matemática (que para ele é aplicada) e a física.

Etimologicamente, metafísica significa aquilo que está além da física.

A metafísica tradicionalmente refletiu acerca de Deus, do ser, da liberdade, da alma, das essências etc.

Kant interdita a metafísica, enquanto matéria do conhecimento, porque, segundo o filósofo, ela realiza sínteses que vão além da experiência.

Como vimos, a razão está condicionada aos limites das faculdades subjetivas e da experiência que se faz do mundo.

A coisa-em-si, esta zona fechada ao conhecimento, para muitos significou um tiro no pé da própria filosofia, pois declarava a impotência da filosofia na tarefa para a qual se propunha: o conhecimento.

Contudo, para a doutrina kantiana, ela é fundamental e estabelece os limites da razão, que é a experiência. Fora destes limites, a razão produziria antinomias, isto é, afirmações verdadeiras mas, ao mesmo tempo, contraditórias.

Kant compara a razão pura a uma pomba no vácuo. No vácuo tudo está suspenso e à deriva. De nada adiantam as asas da pomba. Apenas sob certas condições restritas, as formas aerodinâmicas da ave surtem efeito, como o atrito do ar atmosférico e a gravidade terrestre. Portanto, voar não é flutuar no vácuo.

A analogia é a seguinte: As asas da pomba são como as condições a priori do conhecimento; as condições atmosféricas e gravidade, a experiência.

É nas famosas antinomias que Kant constrói seu argumento.

As antinomias são ideias transcendentais que são antagônicas e nunca se resolvem (não é como na dialética hegeliana na qual o contraditório se resolve, a partir da negação da negação, conservando os termos negados num terceiro termo superior e distinto).

Todas as antinomias (quatro) kantianas tem a mesma estrutura, fundada na lei da causalidade: 1ª.) tese: o mundo tem um início no tempo e espaço (universo finito) – antítese: o mundo não tem início no tempo e espaço (universo infinito); 2ª.) tese: o mundo é simples; antítese: o mundo é composto; 3ª.) tese: liberdade; antítese: determinismo; 4ª.) tese: necessidade; antítese: contingência.

Para os racionalistas, se isto existe ao invés de não existir é porque é efeito de uma causa e no fim da cadeia de causas e efeitos há uma causa que não é efeito e não necessita de causa, uma causa suficiente: Deus.

Para os empiristas, se rastreássemos a cadeia empírica de causa e efeito jamais encontraríamos Deus em sua origem, pois nunca chegaríamos ao seu fim, pois uma causa sempre é efeito de outra causa e assim por diante.

E aqui chegamos a um ponto central em Kant.

Kant argumenta que não é possível provar a existência de Deus porque o único conhecimento legítimo é aquele que faz uso da experiência. É por isso que Kant nega a prova ontológica de Santo Anselmo, reabilitada por Descartes, Hegel etc.

Ora, se acredito em Deus, não é porque me deixei convencer por um argumento racional. A razão é limitada e somente a ciência faz uso legítimo da causalidade, pois só o mundo é objeto de minha experiência.

As proposição metafísicas, como a ideia de Deus, estão no âmbito da coisa-em-si e jamais poderemos conhecê-las, dado os limites da razão.

A partir daqui, Kant poderá construir sua concepção estética do sublime e sua filosofia moral.


Quanto a coisa-em-si, esta foi uma batata quente que pulou de mão em mão. Alguns tentando descartá-la, como Fichte, Schelling e Hegel. Outros, saboreando-a, como Schopenhauer e Nietzsche. 

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