segunda-feira, 1 de julho de 2024

As origens de Ashkenaz, dos judeus asquenazes e do iídiche


Autores: Ranajit Das, Paul Wexler, Mehdi Pirooznia e Eran Elhaik*

Recentemente, as origens geográficas dos judeus asquenazes (AJs) e sua língua nativa, o iídiche, foram investigadas aplicando a Estrutura Geográfica da População (GPS) a uma coorte [1] de AJs multilíngues e de língua exclusivamente iídiche. O GPS localizou a maioria dos AJs ao longo das principais rotas comerciais antigas no nordeste da Turquia, adjacentes a aldeias primitivas com nomes que lembram a palavra “Ashkenaz”. Essas descobertas foram compatíveis com a hipótese de uma origem iraniano-turco-eslava para AJs e uma origem eslava para o iídiche em desacordo com a hipótese da Renânia, que defende uma origem levantina para os AJs e origens alemãs para o iídiche. Discutiremos como essas descobertas promovem três debates em andamento sobre: (1) o significado histórico do termo “Ashkenaz”; (2) a estrutura genética dos AJs e suas origens geográficas, conforme inferidas a partir de vários estudos que empregam DNA moderno e antigo e análises originais de DNA antigo; e (3) o desenvolvimento do iídiche. Fornecemos validação adicional para a origem não levantina dos AJs usando DNA antigo do Oriente Próximo e do Levante. Devido à crescente popularidade das ferramentas de geolocalização para resolver questões de origem, discutiremos brevemente as vantagens e limitações das ferramentas populares com foco na abordagem GPS. Nossos resultados reforçam as origens não levantinas dos AJs.

Contexto

A origem geográfica dos “Ashkenaz” bíblicos, dos judeus asquenazes (AJs) e do iídiche estão entre as questões mais antigas da história, da genética e da linguística.

As incertezas sobre o significado de “Ashkenaz” surgiram no século XI, quando o termo mudou de uma designação dos citas iranianos para se tornar o de eslavos e alemães e, finalmente, de judeus “alemães” (ashkenazic) nos séculos XI ao XIII (Wexler, 1993). A primeira discussão conhecida sobre a origem dos judeus alemães e do iídiche surgiu nos escritos do gramático hebraico Elia Baxur, na primeira metade do século XVI (Wexler, 1993).

Está bem estabelecido que a história também se reflete no DNA através das relações entre genética, geografia e linguagem (por exemplo, Cavalli-Sforza, 1997; Weinreich, 2008). Max Weinreich, o decano do campo da linguística iídiche moderna, já enfatizou e avidência de que a história do iídiche reflete a história dos seus falantes. Essas relações levaram Das et al. (2016) a abordar a questão da origem iídiche analisando os genomas de AJs de língua iídiche, AJs multilíngues e judeus sefarditas, utilizando-se da Estrutura Geográfica da População (GPS), que localiza os genomas que experimentaram o último grande evento de mistura. O GPS rastreou quase todos os AJs até as principais rotas comerciais antigas no nordeste da Turquia, adjacentes a quatro aldeias primitivas cujos nomes se assemelham a “Ashkenaz”, a saber: İşkenaz (ou Eşkenaz), Eşkenez (ou Eşkens), Aşhanas e Aschuz. Avaliados à luz das hipóteses da Renânia e do Irão-Turco-Eslavo (Das et al., 2016, Tabela 1), os resultados apoiaram esta última, implicando que o iídiche foi criado por comerciantes judeus eslavos-iranianos que operavam nas Rotas da Seda. Discutiremos essas descobertas a partir de perspectivas históricas, genéticas e linguísticas e calculamos a semelhança genética de AJs e populações do Oriente Médio com genomas antigos da Anatólia, do Irã e do Levante. Por último, revisamos brevemente as vantagens e limitações das ferramentas de biolocalização e sua aplicação na pesquisa genética.

O significado histórico de Ashkenaz

“Ashkenaz” é um dos topônimos bíblicos mais controversos. Aparece na Bíblia Hebraica como o nome de um dos descendentes de Noé (Gênesis 10:3) e como uma referência ao reino de Ashkenaz, profetizado para ser convocado junto com Ararate e Minnai para travar guerra contra a Babilônia (Jeremias 51:27) . Além de rastrear AJs até as antigas terras iranianas de Ashkenaz e descobrir as aldeias cujos nomes podem derivar de “Ashkenaz”, a origem parcial iraniana de AJs, inferida por Das et al. (2016), foi ainda apoiada pela semelhança genética dos AJs com os judeus sefarditas da montanha e os judeus iranianos, bem como a sua semelhança com as populações do Oriente Próximo e as populações “nativas” da Turquia e do Cáucaso.

Há boas razões, portanto, para inferir que os judeus que se consideravam Ashkenazic adotaram este nome e falavam das suas terras como Ashkenaz, uma vez que se consideravam de origem iraniana. O fato de encontrarmos evidências variadas do conhecimento da língua iraniana entre judeus e caraítas marroquinos e andaluzes antes do século XI é um ponto de referência convincente para avaliar as origens iranianas compartilhadas pelos judeus sefarditas e asquenazes (Wexler, 1996). Além disso, os judeus de língua iraniana no Cáucaso (os chamados Juhuris) e os judeus de língua turca na Crimeia, antes da Segunda Guerra Mundial, autodenominavam-se “Ashkenazim” (Weinreich, 2008).

A hipótese da Renânia não pode explicar por que um nome se referia aos “citas” [2] e estava associado ao Oriente Próximo tornou-se correlacionado a terras alemãs entre os séculos XI e XIII (Wexler, 1993). Aptroot (2016) sugeriu que os imigrantes judeus na Europa transferiram nomes bíblicos para as regiões em que se estabeleceram. Isto não é convincente. Os nomes bíblicos eram usados como nomes de lugares apenas quando tinham sons semelhantes. Não apenas a Alemanha não compartilha de sons semelhantes a Ashkenaz como já era denominada “Germaina” ou “Germamja”, no Talmud iraniano (“babilônico”) (concluído no século V d.C.), e, não menos surpreendente, referia-se a Gomer, neto de Noé (Talmud, Yoma 10a). A adoção de nomes também ocorreu quando havia dúvida das denominações exatas dos lugares, como no caso de Sefarad (Espanha). Mas não é o caso aqui, como também observa o Aptroot, uma vez que “Ashkenaz” possuía uma afiliação geográfica conhecida e clara (Tabela 1). Finalmente, a Alemanha era conhecida por estudiosos franceses, como RaDaK (1160–1235), por “Almania” (Sp. Alemania, Fr. Allemagne) em homenagem às tribos Almani, um termo que também foi adotado por estudiosos árabes. Se o estudioso francês Rashi (1040?-1105) tivesse interpretado aškenaz como “Alemanha”, isso teria sido conhecido por RaDaK, que usava a simbologia de Rashi. Portanto, a proposta de Wexler de que Rashi usasse aškenaz no significado de “eslavo” e que o termo aškenaz assumiu um significado isolado nas “terras alemãs” somente após o século XI na Europa Ocidental, como resultado da ascensão do iídiche, é mais razoável (Wexler , 2011). Isto também é apoiado pelas principais descobertas de Das et al. A respeito das únicas aldeias primitivas conhecidas cujos nomes derivam da palavra “Ashkenaz” localizadas nas antigas terras de Ashkenaz. Nossa inferência é, portanto, apoiada em evidências históricas, linguísticas e genéticas, legitimada por uma causa simples que pode ser facilmente explicada, em oposição a um cenário complexo que envolve múltiplas extrapolações para se justificar.

A estrutura genética dos judeus asquenazes

Os AJs foram localizados na Turquia moderna e considerados geneticamente mais próximos das populações turcas, do sul do Cáucaso e iranianas, sugerindo uma origem comum nas terras “Ashkenaz” iranianas (Das et al., 2016). Tais descobertas são mais compatíveis com uma origem irano-turco-eslava para AJs e uma origem eslava para o iídiche do que com a hipótese da Renânia, que carece de suporte histórico, genético e linguístico (Tabela 1) (van Straten, 2004; Elhaik, 2013). Ademais, destacam os fortes laços socioculturais e genéticos do judaísmo Ashkenazic e iraniano e as suas origens iranianas partilhadas (Das et al., 2016).

Até agora, todas as análises destinadas para a geolocalização (Behar et al., 2013, Figura 2B; Elhaik, 2013, Figura 4; Das et al., 2016, Figura 4) identificaram a Turquia como a origem predominante dos AJs, em que pese o uso de abordagens e conjuntos de dados diferentes em apoio à hipótese iraniano-turco-eslava (Figura 1A, Tabela 1). A existência de ancestrais importantes do sul da Europa e do Oriente Próximo nos genomas de AJ também são fortes indicadores da hipótese irano-turco-eslava fornecida pela história greco-romana da região ao sul do Mar Negro. (Baron, 1937; Kraemer, 2010). Recentemente, Xue et al. (2017) aplicaram o GLOBETROTTER a um conjunto de dados de 2.540 AJs genotipados em 252.358 SNPs. O perfil de ancestralidade inferido para AJs foi de 5% da Europa Ocidental, 10% da Europa Oriental, 30% do Levante e 55% do Sul da Europa (uma ancestralidade do Oriente Próximo não foi considerada pelos autores). Elhaik (2013) retratou um perfil semelhante para os judeus europeus, consistindo em 25-30% de ancestrais do Oriente Médio, grande Oriente Próximo-Cáucaso (32-38%) e da Europa Ocidental (30%). Notavelmente, Xue et al. (2017) também inferiu um “tempo de mistura” de 960–1.416 DC (≈24–40 gerações atrás), que corresponde à época em que os AJs experimentaram grandes mudanças geográficas à medida que o reino Khazar judaizado diminuía e suas redes comerciais entravam em colapso, forçando-os a se mudarem para Europa (Das et al., 2016). O limite inferior dessa data corresponde à época em que o iídiche eslavo se originou, até onde sabemos.

A origem não levantina dos AJs é ainda apoiada por uma antiga análise de DNA de seis natufianos e um neolítico levantino (Lazaridis et al., 2016), alguns dos mais prováveis progenitores judeus (Finkelstein e Silberman, 2002; Frendo, 2004). Numa análise de componentes principais (PCA), os antigos levantinos agruparam-se predominantemente com os palestinos e beduínos modernos e marginalmente sobrepuseram-se aos judeus árabes, enquanto os AJs agruparam-se longe dos indivíduos levantinos e adjacentes e próximos dos neolíticos da Anatólia e europeus do Neolítico Final e da Idade do Bronze. Para avaliar essas descobertas, inferimos os antigos ancestrais dos AJs usando a análise de mistura descrita em Marshall et al. (2016). Resumidamente, analisamos 18.757 SNPs autossômicos genotipados em 46 palestinos, 45 beduínos, 16 sírios e oito libaneses (Li et al., 2008) ao lado de 467 AJs [367 AJs analisados anteriormente e 100 indivíduos com mãe AJ) (Das et al., 2016) que se sobrepuseram tanto ao GenoChip (Elhaik et al., 2013) quanto aos dados de DNA antigo (Lazaridis et al., 2016). Em seguida, realizamos uma análise supervisionada de ADMIXTURE (Alexander e Lange, 2011) usando três caçadores coletores do Leste Europeu da Rússia (EHGs) ao lado de seis levantinos epipaleolíticos, 24 anatólios neolíticos e seis iranianos neolíticos como populações de referência (Tabela S0). Notavelmente, os AJs exibem um iraniano dominante (88%) e levantino residual (3%) ancestrais, em oposição aos beduínos (14% e 68%, respectivamente) e palestinos (18% e 58%, respectivamente). Apenas dois AJs exibem ancestrais levantinos típicos das populações levantinas (Figura 1B). Repetindo a análise com qpAdm (AdmixTools, versão 4.1) (Patterson et al., 2012), descobrimos que a mistura de AJs poderia ser modelada usando três (anatólios neolíticos [46%], iranianos neolíticos [32%] e EHGs [ 22%]) ou ondas de migração bidirecionais (iranianos neolíticos [71%] e EHGs [29%]) (Texto Suplementar). Essas descobertas deveriam ser reavaliadas quando o DNA medieval estiver disponível. No geral, os resultados combinados estão em forte concordância com as previsões da hipótese irano-turco-eslava (Tabela 1) e descartam uma antiga origem levantina para AJs, que é predominante entre as populações levantinas modernas (por exemplo, beduínos e palestinos). Isto não é surpreendente, uma vez que os judeus diferiam em práticas e normas culturais (Sand, 2011) e tendiam a adotar costumes locais (Falk, 2006). Muito pouca cultura judaica palestina sobreviveu fora da Palestina (Sand, 2009). Por exemplo, o folclore e os costumes dos judeus no norte da Europa são distintamente de origem alemã pré-cristã (Patai, 1983) e eslava, que desapareceu entre estes últimos (Wexler, 1993, 2012).

O debate linguístico sobre a formação do iídiche

A hipótese de que o iídiche tem origem alemã ignora a mecânica da relexificação, o processo linguístico que produziu o iídiche e outras línguas “judaicas antigas” (ou seja, aquelas criadas entre os séculos IX e X). Compreender como funciona a relexificação é essencial para compreender a evolução das línguas. Este argumento tem um contexto semelhante ao da evolução do voo motorizado. Rejeitar a teoria da evolução pode levar à conclusão de que as aves e os morcegos são parentes próximos. Ao desconsiderar a literatura sobre a relexificação e a história judaica no início da Idade Média, os autores (por exemplo, Aptroot, 2016; Flegontov et al., 2016) chegam a conclusões que têm fraco apoio histórico. A vantagem de uma análise de geolocalização é que nos permite inferir a origem geográfica dos falantes de iídiche, onde residiam e com quem se misturavam, independentemente de controvérsias históricas, o que fornece uma visão baseada em dados sobre a questão das origens geográficas. Isto permite uma revisão objetiva das potenciais influências linguísticas no iídiche (Tabela 1), o que expõe os perigos da adoção de uma visão de “criacionismo linguístico” na linguística.

A evidência histórica a favor de uma origem iraniano-turco-eslava para o iídiche é fundamental (por exemplo, Wexler, 1993, 2010). Os judeus desempenharam um papel importante nas Rotas da Seda do século IX ao XI. Em meados do século IX, aproximadamente nos mesmos anos, os comerciantes judeus em Mainz e em Xi'an receberam privilégios comerciais especiais do Sacro Império Romano e da corte da dinastia Tang (Robert, 2014). Estas estradas ligavam Xi'an a Mainz à Andaluzia, e posteriormente à África Subsaariana através da Península Arábica e da Índia-Paquistão. As Rotas da Seda forneceram a motivação para a colonização judaica na Afro-Eurásia nos séculos IX ao XI, uma vez que os judeus desempenharam um papel dominante nestas rotas como uma guilda comercial neutra, sem agendas políticas (Gil, 1974; Cansdale, 1996, 1998). Assim, os comerciantes judeus tiveram contacto com uma riqueza de línguas nas áreas que atravessaram (Hadj-Sadok, 1949; Khordadhbeh, 1889; Hansen, 2012; Wexler TBD) que trouxeram para as suas comunidades aninhadas em grandes centros comerciais (Rabinowitz, 1945, 1948). As Rotas da Seda Eurasiáticas centrais eram controladas pelos governos iranianos, o que proporcionava oportunidades aos judeus de língua iraniana, que constituíam a esmagadora maioria dos judeus do mundo desde a época de Cristo até ao século XI (Baron, 1952). Não deveria ser uma surpresa descobrir que o iídiche (e outras línguas judaicas antigas) contém componentes e regras de uma grande variedade de línguas, todas faladas nas Rotas da Seda (Khordadhbeh, 1889; Wexler, 2011, 2012, 2017) .

Além dos contactos linguísticos, as Rotas da Seda também forneceram a motivação para a conversão generalizada ao Judaísmo por parte de populações ansiosas por participar do comércio extremamente lucrativo, que se tinha tornado um quase monopólio judaico ao longo das rotas comerciais (Rabinowitz, 1945, 1948; Baron, 1957). Estas conversões são discutidas na literatura judaica entre os séculos VI e XI, tanto na Europa como no Iraque (Sand, 2009; Kraemer, 2010). O iídiche e outras línguas judaicas antigas foram todas criadas pelos comerciantes peripatéticos como línguas secretas que os isolariam de seus clientes e parceiros comerciais não-judeus (Hadj-Sadok, 1949; Gil, 1974; Khordadhbeh, 1889; Cansdale, 1998; Robert, 2014). O estudo da gênese do iídiche, portanto, necessita do estudo de todas as línguas judaicas antigas deste período.

Há também uma quantidade quantificável de elementos iranianos e turcos no iídiche. O Talmud Babilônico, concluído no século VI d.C., é rico em influências linguísticas, legalistas e religiosas iranianas. Do Talmud, um grande vocabulário iraniano entrou no hebraico e no judaico-aramaico, e de lá se espalhou para o iídiche. Este corpus é conhecido desde a década de 1930 e é de conhecimento comum aos estudiosos do Talmud (Telegdi, 1933). No Império Khazar, os judeus eurasianos, que navegavam nas Rotas da Seda, tornaram-se falantes do eslavo - uma língua importante devido às atividades comerciais dos Rus' (pré-ucranianos), com os quais os judeus eram, sem dúvida, aliados nas rotas que ligavam Bagdá e a Baviera. Isto é evidente pela existência do hebroidismo recentemente inventado, inspirado nos padrões eslavos de discurso em iídiche (Wexler, 2010).

Defendemos a perspectiva de uma compreensão mais evolutiva na linguística. Isso inclui dar mais atenção ao processo linguístico que altera as línguas (por exemplo, relexificação) e obter mais competência em outras línguas históricas. Ao estudar a origem dos judeus asquenazes e do iídiche, esse conhecimento deve incluir a história das Rotas da Seda e das línguas irano-turcas.

Inferência de Origens Geográficas

Decifrar a origem das populações humanas não é um desafio novo para os geneticistas, mas apenas na última década foram aproveitados dados genéticos de alto rendimento para responder a estas questões. Aqui, discutimos brevemente as diferenças entre as ferramentas disponíveis baseadas na identidade por distância. As abordagens existentes de PCA ou semelhantes a PCA (por exemplo, Novembre et al., 2008; Yang et al., 2012) podem localizar os europeus em países (entendidos como o último local onde ocorreu um grande evento de mistura ou o local onde os quatro ancestrais vieram de indivíduos “não misturados”) com menos de 50% de precisão (Yang et al., 2012). As limitações do PCA (discutidas em Novembre e Stephens, 2008) parecem ser inerentes à estrutura onde as populações continentais plotadas ao longo dos dois PCs primários se agrupam nos vértices de uma forma semelhante a um triângulo e as populações restantes se agrupam ao longo ou dentro das bordas (por exemplo, Elhaik et al., 2013). Há, portanto, razões para questionar a aplicabilidade de métodos ambiciosos baseados em PCA (Yang et al., 2012, 2014) com o objetivo de inferir múltiplas localizações ancestrais fora da Europa. No geral, a localização precisa de indivíduos em todo o mundo continua a ser um desafio significativo (Elhaik et al., 2014).

A estrutura do GPS assume que os humanos são mistos e que a sua variação genética (mistura) pode ser modelada pela proporção de genótipos atribuídos a qualquer número de populações ancestrais supostas regionais fixas (Elhaik et al., 2014). O GPS emprega uma análise supervisionada de ADMISTURA onde os componentes da mistura são fixados, o que permite avaliar tanto os indivíduos de teste quanto as populações de referência em relação às mesmas populações ancestrais putativas. O GPS infere as coordenadas geográficas de um indivíduo combinando suas proporções de mistura com as das populações de referência. Populações de referência são populações conhecidas por residirem em uma determinada região geográfica por um período substancial de tempo em um período de centenas a mil anos e podem ser previstas para suas localizações geográficas enquanto estiverem ausentes do painel populacional de referência (Das et al., 2016). ). A localização geográfica final de um indivíduo de teste é determinada convertendo a distância genética do indivíduo para m populações de referência em distâncias geográficas (Elhaik et al., 2014). Intuitivamente, as populações de referência podem ser pensadas como “puxando” o indivíduo em sua direção com uma força proporcional à sua similaridade genética até que um consenso seja alcançado (Figura S1). A interpretação dos resultados, especialmente quando a localização prevista difere da localização contemporânea da população estudada, exige cautela.

A estrutura populacional é afetada por processos biológicos e demográficos como a deriva genética, que pode atuar rapidamente em populações pequenas e relativamente isoladas, em oposição a grandes populações não isoladas, e a migração que ocorre com mais frequência (Jobling et al., 2013). Compreender as relações geografia-mistura exige saber como o isolamento relativo e a história da migração afetaram as frequências alélicas das populações. Infelizmente, muitas vezes faltam informações sobre ambos os processos. O GPS aborda este problema analisando as proporções relativas de mistura numa rede global de populações de referência que nos fornecem diferentes “instantâneos” de eventos históricos de mistura. Estes eventos de mistura globais ocorreram em momentos diferentes através de diversos processos biológicos e demográficos, e o seu efeito duradouro está relacionado com a nossa capacidade de associar um indivíduo ao seu evento de mistura correspondente.

Em populações relativamente isoladas, o evento de mistura é provavelmente antigo, e o GPS localizaria um indivíduo de teste com a sua população parental com mais precisão. Por outro lado, se o evento de mistura fosse recente e a população não mantivesse relativo isolamento, a previsão do GPS seria errônea (Figura S2). Este é o caso das populações caribenhas, cujas proporções de mistura ainda refletem os enormes eventos de miscigenação dos séculos XIX e XX, envolvendo nativos americanos, europeus ocidentais e africanos (Elhaik et al., 2014). Embora o nível original de isolamento permaneça desconhecido, estes dois cenários podem ser distinguidos comparando as proporções de mistura do indivíduo testado e das populações adjacentes. Se esta similaridade for alta, podemos concluir que inferimos a provável localização do evento de mistura que moldou a proporção de miscigenação do indivíduo testado. Se o oposto for verdadeiro, o indivíduo ou é misto e, portanto, viola os pressupostos do modelo GPS ou as populações parentais não existem nem no painel de referência do GPS nem na realidade. Na maioria das vezes (83%) o GPS previu indivíduos não misturados para suas verdadeiras localizações, com a maioria dos indivíduos restantes previstos para países vizinhos (Elhaik et al., 2014).

Para compreender como a migração modifica as proporções de mistura das populações migratórias e hospedeiras, podemos considerar dois casos simples de migração pontual ou massiva seguida de assimilação e um terceiro caso de migração seguida de isolamento. Os eventos de migração pontual têm pouco efeito nas proporções de mistura da população anfitriã, especialmente quando absorve uma escassez de migrantes, caso em que as proporções de mistura dos migrantes se assemelhariam às da população anfitriã dentro de algumas gerações e seu local de descanso representaria o da população anfitriã. Os movimentos demográficos massivos, tais como invasões ou migrações em grande escala, que afetam uma grande parte da população, são raros e criam mudanças temporais nas proporções de mistura da população hospedeira. A população hospedeira apareceria temporariamente como uma população mista bidirecional, refletindo os componentes das populações hospedeira e invasora (por exemplo, europeus e nativos americanos, no caso dos porto-riquenhos), até que as proporções miscigenadas homogeneizassem toda a população. Se este processo for concluído, a assinatura de mistura desta região pode ser alterada e a localização geográfica da população hospedeira representaria novamente o último local onde o evento de mistura ocorreu tanto para as populações hospedeiras como para as invasoras. O GPS iria, assim, prever a localização da população hospedeira para ambas as populações. Prevê-se que as populações que migram de A para B e mantêm o isolamento genético apontarão A na análise populacional deixada de fora. Embora as migrações humanas não sejam incomuns, manter um isolamento genético perfeito durante um longo período de tempo é muito difícil (por exemplo, Veeramah et al., 2011; Behar et al., 2012; Elhaik, 2016; Hellenthal et al., 2016), e as previsões GPS para a grande maioria das populações mundiais indicam que estes casos são de fato excepcionais (Elhaik et al., 2014). Apesar das suas vantagens, o GPS tem diversas limitações. Primeiro, produz as previsões mais precisas para indivíduos não misturados. Em segundo lugar, a utilização de populações migratórias ou altamente mistas (ambas são detectáveis através da análise populacional deixada de fora), como populações de referência, pode distorcer as previsões. São necessários mais desenvolvimentos para superar estas limitações e tornar o GPS aplicável a grupos populacionais mistos (por exemplo, afro-americanos).

Conclusão

O significado do termo “Ashkenaz” e as origens geográficas dos AJs e do iídiche são algumas das questões mais antigas da história, genética e linguística. No nosso trabalho anterior, identificamos a “antiga Ashkenaz”, uma região no nordeste da Turquia que alberga quatro aldeias primitivas cujos nomes se assemelham a Ashkenaz. Aqui, elaboramos o significado deste termo e argumentamos que ele adquiriu o seu significado moderno somente depois que uma massa crítica de judeus asquenazes chegou à Alemanha. Mostramos que todas as análises de biolocalização situaram AJs na Turquia e que as origens não-levantinas dos AJs são apoiadas por análises de genoma antigo. No geral, estas descobertas são compatíveis com a hipótese de uma origem irano-turco-eslava para os AJs e uma origem eslava para o iídiche e contradizem as previsões da hipótese da Renânia, que carece de apoio histórico, genético e linguístico (Tabela 1).

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Figura 1. A localização dos AJs e suas antigas proporções de mistura em comparação com as populações vizinhas. (A) Previsões geográficas de indivíduos analisados em três estudos separados empregando ferramentas diferentes: Elhaik (2013, Figura 4) (azul), Behar et al. (2013, Figura 2B) (vermelho) e Das et al. (2016, Figura 4) (verde escuro para AJs que têm quatro avós AJ e verde claro para os demais). A média de correspondência de cores e o desvio padrão (barras) da longitude e latitude são mostrados para cada coorte. Como não tivemos sucesso na obtenção dos dados de Behar et al. (2013, Figura 2B), do autor correspondente, obtivemos 78% dos pontos de dados de sua figura. Devido à baixa qualidade dos seus números, não conseguimos extrair de forma confiável os restantes pontos de dados. (B) resultados de ADMISTURA supervisionada. Para resumir, as subpopulações foram reduzidas. O eixo x representa indivíduos. Cada indivíduo é representado por uma coluna vertical empilhada de proporções de mistura codificadas por cores que refletem as contribuições genéticas de antigos caçadores-coletores, da Anatólia, do Levante e do Irã.

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Tabela 1. Principais questões em aberto sobre a origem do termo “Ashkenaz”, AJs e iídiche conforme explicado por duas hipóteses concorrentes:

Questões em aberto

Hipótese da Renânia

Termo “Ashkenaz”

Originalmente associado às pessoas que viviam ao norte da Israel bíblica (Aptroot, 2016) ou ao norte do Mar Negro (Wexler, 1991). Usado em fontes hebraicas e iídiches a partir do século XI, para se referir a uma região ao que hoje é aproximadamente o sul da Alemanha (Wexler, 1991; Aptroot, 2016).

A origem ancestral dos judeus asquenazes

Judeus que viveram na Judéia até 70 d.C. foram exilados pelos romanos (King, 2001) e permaneceram em relativo isolamento das comunidades não-judaicas vizinhas durante e após a diáspora (Hammer et al., 2000; Ostrer, 2001). Este cenário não tem suporte histórico (Sand, 2009) nem genético (Figura 1B) (por exemplo, Elhaik, 2013, 2016; Xue et al., 2017).

A chegada dos judeus às terras alemãs

Após a chegada dos judeus palestinos às terras romanas, mercadores e soldados judeus chegaram às terras alemãs com o exército romano e ali se estabeleceram (King, 2001). Este cenário não tem suporte histórico (Wexler, 1993; Sand, 2009).

O surgimento do iídiche no século IX

Entre o século IX e X, imigrantes judeus de língua francesa e italiana adotaram e adaptaram os dialetos alemães locais (Weinreich, 2008).

Crescimento dos Judeus da Europa Oriental

Um pequeno grupo de judeus alemães migrou para a Europa Oriental e multiplicou-se através de um chamado “milagre demográfico” (Ben-Sasson, 1976; Atzmon et al., 2010; Ostrer, 2012), que resultou numa taxa de crescimento não natural (1,7- 2% anualmente) (van Straten e Snel, 2006; van Straten, 2007), ao longo de meio milênio, incidindo apenas em judeus residentes na Europa Oriental. Esta explicação não é comprovada pelos dados.

Hipótese Irã-Turco-Eslava

Termo “Ashkenaz”

Refere-se a um povo iraniano “próximo da Armênia”, presumivelmente os citas, conhecidos como aškuza, ašguza ou išguza nas inscrições assírias do início do século VII a.C. (Wexler, 2012, 2016).

A origem ancestral dos judeus asquenazes

Uma minoria de emigrantes judeus compôs-se a uma maioria de iraniano-turco-eslavos que se convertem ao judaísmo (Wexler, 2012).

A chegada dos judeus às terras alemãs

Judeus do Império Khazar e do antigo Império Iraniano que trabalhavam nas antigas rotas comerciais romanas (Rabinowitz, 1945, 1948) e nas Rotas da Seda começaram a se estabelecer nas terras mistas germano-sórbias [3] durante o primeiro milênio (Sand, 2009; Wexler, 2011).

O surgimento do iídiche no século IX

Ao chegarem às terras alemãs, os eslavos ocidentais e orientais passaram por uma relexificação para o alemão, criando o que ficou conhecido como iídiche (Wexler, 2012).

Crescimento dos Judeus da Europa Oriental

Durante o meio milênio (740-1.250 dC), as terras Khazar e iranianas abrigaram os maiores centros judaicos da Eurásia. Judeus Ashkenazic, Khazar e iranianos migraram suas ramificações para as terras eslavas (Baron, 1957; Sand, 2009).

Evidências a favor da hipótese Irã-Turco-Eslava

Termo “Ashkenaz”

A análise GPS descobriu quatro aldeias primitivas no nordeste da Turquia cujos nomes se assemelham a “Ashkenaz”, pelo menos uma das quais é anterior a qualquer grande colonização judaica na Alemanha (Das et al., 2016). “Ashkenaz” é, portanto, um nome de lugar associado ao Oriente Próximo e aos seus habitantes, tanto judeus como não-judeus. AJs exibem alta similaridade genética com populações que vivem na Turquia e no Cáucaso (Das et al., 2016). Todas as análises de biolocalização previram AJs para a Turquia (Figura 1A). Análises de DNA antigas fornecem fortes evidências da ancestralidade neolítica iraniana de AJs (Figura 1B) (Lazaridis et al., 2016).

A origem ancestral dos judeus asquenazes

Os judeus asquenazes foram previstos como um centro de antigas rotas comerciais do Oriente Próximo que ligavam a Europa, a Ásia e o norte do Cáucaso (Das et al., 2016). As conclusões implicam que a migração para a Europa ocorreu inicialmente através de rotas comerciais que iam para o oeste e mais tarde através de terras Khazar.

A chegada dos judeus às terras alemãs

O “tempo de mistura” inferido por Xue et al. (2017) de 960-1.416 DC corresponde a um período de tempo durante o qual AJ passou por grandes mudanças demográficas. Naquela época, especulava-se que os AJs teriam absorvido o povo eslavo, desenvolvido o iídiche eslavo e intensificado a migração para a Europa (Das et al., 2016).

Crescimento dos Judeus da Europa Oriental

A maioria dos judeus asquenazes foram previstos para o nordeste da Turquia e os indivíduos restantes agruparam-se ao longo de um gradiente que vai da Turquia às terras da Europa Oriental (Das et al., 2016). Isto está de acordo com as conversões registradas de populações que vivem ao longo da costa sul do Mar Negro ao Judaísmo (Baron, 1937). A origem alemã dos AJs não é apoiada pelos dados (Figura 1A).

(A evidência genética produzida por Das et al. (2016) é mostrada no último bloco). [4]

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Contribuições do autor

Eran Elhaik concebeu o artigo. Mehdi Pirooznia processou os antigos dados de DNA. Ranajit Das e Eran Elhaik realizaram as análises. Eran Elhaik co-escreveu com Paul Wexler e Ranajit Das. Todos os autores aprovaram o artigo.

Declaração de conflito de interesse

Eran Elhaik é consultor do Centro de Diagnóstico de DNA. Os demais autores declaram que a pesquisa foi realizada na ausência de quaisquer relações comerciais ou financeiras que pudessem ser interpretadas como potencial conflito de interesses.

O revisor Pavel Flegontov declarou coautoria anterior com um dos autores ao Editor responsável, que garantiu que o processo, no entanto, atendesse aos padrões de uma revisão justa e objetiva.

Agradecimentos

Eran Elhaik foi parcialmente apoiado pelo prêmio Royal Society International Exchanges para Eran Elhaik e Michael Neely (IE140020), prêmio MRC Confidence in Concept Scheme, 2014, University of Sheffield para Eran Elhaik (Ref: MC_PC_14115) e uma concessão da National Science Foundation DEB-1456634 para Tatiana Tatarinova e E. E. Agradecemos aos muitos participantes por doarem suas sequências de DNA para estudos científicos e ao banco de dados do The Genographic Project por nos fornecer seus dados.

Material suplementar

O Material Suplementar deste artigo pode ser encontrado online AQUI.

Referências

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Palavras chave: iídiche, Judeus asquenazes, Ashkenaz, estrutura geográfica da população (GPS), Arqueogenética, Hipótese Renânia, DNA antigo

Como citar: Das, R., Wexler, P., Pirooznia, M. e Elhaik, E. (2017), As origens de Ashkenaz, judeus asquenazes e o iídiche. Front. Genet. 8:87. doi: 10.3389/fgene.2017.00087

Recebido: 2 outubro de 2016.

Aceite: 7 de junho de 2017.

Publicado: 21 junho de 2017.

Editado por: Stéphane Joost, Escola Politécnica Federal de Lausanne, Suíça.

Revisado por: Pavel Flegontov, Universidade de Ostrava, República Tcheca; Lounès Chikhi, Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), França; Erika Hagelberg, Universidade de Oslo, Noruega.

Copyright © 2017 Das, Wexler, Pirooznia e Elhaik. Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os termos da Licença Creative Commons Attribution (CC BY). O uso, distribuição ou reprodução em outros fóruns é permitido, desde que o(s) autor(es) original(ais) ou licenciantes sejam creditados e que a publicação original nesta revista seja citada, de acordo com a prática acadêmica aceita. Não é permitido uso, distribuição ou reprodução que não esteja em conformidade com estes termos.

Fonte: Frontiers / Frontiers in Genetics

*Correspondência: Eran Elhaik, e.elhaik@sheffield.ac.uk

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Notas da Tradução

[1] Em Estatística, coorte é um conjunto de pessoas que têm em comum um evento que se deu no mesmo período; exemplo: coorte de pessoas que nasceram entre 1960 e 1970; coorte de mulheres casadas entre 1990 e 2000; coorte de vítimas do terremoto do Haiti; etc. Wikipédia

[2] Os citas eram um antigo povo Iraniano de pastores nómadas equestres que por toda a Antiguidade Clássica dominaram a estepe pôntico-cáspia, conhecida à época como Cítia. Na Antiguidade Tardia os sármatas, povo com o qual os citas tinham forte parentesco, acabaram por dominar a região. Wikipédia

[3] Sórbios ou sorábios (em alto sorábio: Serbja, em baixo sorábio: Serby) são um povo eslavo ocidental relativamente pequeno, vivendo como minoria na região conhecida como Lusácia nos estados alemães da Saxônia e Brandemburgo. Também são conhecidos como lusácios, wends, serbo-lusácios ou sérvios da Lusácia. Wikipédia

[4] A tabela 1 foi transposta para a forma de blocos subdivididos em itens para facilitar a leitura.

sábado, 1 de junho de 2024

Determinismo geográfico: a pátria, um espaço vital natural?


A pátria: um espaço vital natural?

por Shlomo Sand

Em 1966, o antropólogo Robert Ardrey lançou uma pequena bomba sociobiológica que na época causou reverberações surpreendentemente potentes entre um grupo relativamente amplo de leitores. Seu livro The territorial imperative: a personal inquiry into the animal origins of property and nations [O imperativo territorial: uma investigação pessoal sobre as origens animais da propriedade e das nações] [1] teve por objetivo desafiar o modo como pensamos sobre território, fronteiras e espaço vital. Para qualquer um que até então tivesse acreditado que defender uma casa, uma aldeia ou uma pátria fosse produto de interesses conscientes e de desenvolvimento cultural histórico, Ardrey buscou provar que espaço definido e consciência de fronteiras estão profundamente arraigados na biologia e na evolução. Ele sustentou que os humanos têm um impulso instintivo para se apropriar de territórios e defendê-los usando todos os meios necessários, e que esse impulso hereditário dita a maneira pela qual todas as criaturas vivas comportam-se sob diferentes condições.

Após extensas observações de uma variedade de animais, Ardrey chegou à conclusão de que, mesmo que nem todas as espécies sejam territoriais, muitas são. Entre animais de espécies diferentes, o territorialismo é um instinto congênito desenvolvido por meio de mutação e seleção natural. Uma meticulosa pesquisa empírica mostrou que animais territoriais lançam ataques ferozes contra invasores de seu espaço vital, particularmente os da mesma espécie. Conflitos entre machos de uma determinada espécie, que os estudiosos antes viam como reflexo da competição pelas fêmeas, na verdade são disputas brutais pela propriedade. Muito mais surpreendente foi a descoberta de Ardrey de que o controle de território infunde em seus proprietários energias que os forasteiros que tentam penetrá-lo não possuem. Existe entre a maioria das espécies “algum reconhecimento universal de direitos territoriais” que condiciona e orienta todos os sistemas de relações de poder dentro delas.

Por que os animais precisam de território?, pergunta Ardrey. Os dois motivos mais importantes dentre muitos são: (1) animais selecionam áreas específicas onde podem sustentar sua existência material por meio de acesso a comida e água e (2) o território serve como um amortecedor defensivo e proteção contra muitos inimigos predadores. Essas necessidades espaciais primitivas têm raízes no longo processo de desenvolvimento evolutivo e se tornaram parte da herança genética dos “territorialistas”. Essa herança natural produz uma percepção de fronteiras e proporciona a base para rebanhos e cardumes. A necessidade dos animais de defender seu espaço vital impulsiona a socialização coletiva, e o grupo unificado resultante entra em conflito com outros grupos da mesma espécie.

Caso Ardrey tivesse se limitado a um relato do comportamento animal, seu estudo teria atraído muito menos atenção e permanecido tema de debate entre especialistas em etologia, a despeito de sua considerável habilidade retórica e linguagem pitoresca [2]. Entretanto, suas metas teóricas e conclusões foram muito mais ambiciosas. Indo além das premissas empíricas dentro do campo da zoologia, ele também buscou entender as “regras do jogo” do comportamento humano conforme são transmitidas através das gerações. Expor a dimensão territorial do mundo vivo, acreditava ele, nos permitiria entender melhor as nações e os conflitos entre elas ao longo da história. Com base nisso, ele chegou à seguinte conclusão decisiva:

Se defendemos o direito à nossa terra ou a soberania de nosso país, fazemos isso por motivos não diferentes, não menos inatos, não menos inextirpáveis que os animais inferiores. O cachorro que late para você por trás da cerca de seu dono age por um motivo indistinguível daquele que levou o dono a construir a cerca [3].

As aspirações territoriais dos seres humanos, então, são manifestações de um antigo imperativo biológico que molda os aspectos mais básicos do comportamento humano. Todavia, Ardrey vai ainda mais longe, sustentando “que o vínculo entre o homem e o chão que ele pisa deve ser mais poderoso que o vínculo dele com a mulher com quem ele dorme”, asserção que ele respalda com a pergunta retórica: “Em sua vida, você ouviu falar de quantos homens que morreram pelo país deles? E de quantos que morreram por uma mulher?” [4].

Essa declaração final não deixa dúvidas sobre a identidade geracional do autor. Como norte-americano nascido em 1908 e, portanto, criança durante a Primeira Guerra Mundial e depois dela, Ardrey estava muitíssimo ciente das baixas de guerra. Como adulto, conheceu muitos membros da geração da Segunda Guerra Mundial e testemunhou as guerras da Coreia e do Vietnã. Escrito no começo da Guerra do Vietnã, o livro dele incorpora aspectos significativos da situação internacional dos anos 1960. O processo de descolonização iniciado na esteira da Segunda Guerra Mundial mais do que duplicou o número de “territórios nacionais” existentes até então. Embora à Primeira Guerra Mundial se sucedesse o estabelecimento de uma onda de novas nações, o processo chegou ao ápice com o surgimento dos Estados do chamado Terceiro Mundo. Além disso, as guerras de libertação nacional travadas em locais como Índia, China, Argélia e Quênia pintaram um quadro de luta generalizada tendo por objetivo a aquisição de territórios nacionais independentes e definidos. No fim do combate, a disseminação do sentimento nacionalista fora das fronteiras do Ocidente dotou o planeta de uma ampla diversidade e o decorou com quase duzentas coloridas bandeiras nacionais.

A imaginação científica da sociobiologia tende a virar a história do avesso. Como o restante das ciências sociais, em última análise, a sociobiologia adapta sua terminologia para adequar-se a subprodutos conceituais de processos sociais e políticos testemunhados por seus profissionais no decorrer de suas vidas. Entretanto, os sociobiologistas, muitas vezes, ignoram que os eventos mais recentes da história em geral fornecem uma melhor explicação para eventos anteriores do que o contrário. Tomando a maior parte de seus termos da experiência social, esses pesquisadores da natureza então adaptam tais termos à tarefa de entender melhor o ambiente vital que estão estudando.

A seguir, direcionam o foco para a sociedade humana e tentam entendê-la melhor usando terminologia e imagens do mundo natural originalmente emprestadas da conceitualização que acompanha e é produzida pelos processos históricos. Considere, por exemplo, como as guerras nacionalistas por território travadas na década de 1940 e os árduos combates por pátrias nacionais ocorridos entre o final dos anos 1940 e 1960 foram considerados catalisadores de processos evolutivos geneticamente arraigados na maioria das criaturas vivas.

A despeito das diferenças significativas entre os dois, o determinismo biológico da sociobiologia ostenta certa semelhança à igualmente famosa abordagem do determinismo geográfico desenvolvida pelo geógrafo e etnógrafo alemão Friedrich Ratzel e, mais tarde, por Karl Haushofer e outros.

Embora Ratzel não tenha cunhado o termo “geopolítica”, ainda assim é considerado um de seus fundadores. Foi também um dos primeiros a incorporar com firmeza uma sofisticada consideração das condições biológicas à geografia política. Ainda que avesso a teorias racistas primárias, acreditava que povos inferiores eram obrigados a sustentar nações civilizadas adiantadas e que por meio de tal contato eles também atingiriam maturidade cultural e espiritual.

Como ex-estudante de zoologia que se tornou um defensor convicto das teorias darwinistas, Ratzel estava convencido de que uma nação era um corpo orgânico cujo desenvolvimento exigia a mudança constante de suas fronteiras territoriais. Assim como a pele de todas as criaturas se expande à medida que elas crescem, as pátrias também se expandiriam e deveriam necessariamente alargar suas fronteiras (embora também pudessem se contrair e até deixar de existir). “Uma nação não se mantém imóvel por gerações no mesmo pedaço de terra”, declarou Ratzel. “Ela deve se expandir, pois está crescendo” [5]. Embora acreditasse que a expansão fosse contingente à atividade cultural, e não necessariamente agressiva, Ratzel foi o primeiro a cunhar a expressão “espaço vital” (lebensraum).

Karl Haushofer deu um passo adiante ao desenvolver uma teoria de espaço vital nacional; não por coincidência, seu campo de pesquisa, a geopolítica, tornou-se popular na frustrada Alemanha do período entre as duas guerras mundiais. Essa profissão acadêmica, que teve muitos proponentes na Grã-Bretanha, Estados Unidos e antes ainda na Escandinávia, buscava explicar as relações internacionais de poder com base nos padrões dos processos naturais. A sede de espaço veio a desempenhar um papel central no aparato teórico que tinha por objetivo fornecer uma explicação geral para o agravamento das tensões entre as nações-Estados no século XX.

A lógica geopolítica sustentava que cada nação, em meio à consolidação e crescimento demográficos, necessitava de espaço vital – ou seja, a expansão da terra pátria original. E, como a Alemanha possuía uma área territorial per capita menor que os países vizinhos, tinha o direito nacional e histórico de se expandir além de suas fronteiras. A expansão supostamente ocorreria emdireção à regiões economicamente mais fracas que, quer no presente ou no passado, houvessem sido o lar de uma população “étnica” germânica [6].

A entrada tardia da Alemanha na corrida colonial iniciada no final do século XIX também ofereceu um ambiente apropriado para o florescimento das populares teorias de “espaço vital”. Os alemães sentiam-se frustrados pela divisão dos espólios territoriais das superpotências imperialistas e mais ainda pelos termos do acordo de paz que a nação fora forçada a aceitar no término da Primeira Guerra Mundial. Nesse contexto, de acordo com as teses mencionadas, a Alemanha tinha que se fortalecer territorialmente, conforme a lei natural que controlava as relações entre as nações ao longo da história. De início, geógrafos não alemães ficaram entusiasmados diante dessa orientação teórica.

Mas, quando a lei natural baseia-se inteiramente em origem étnica e terra, surge aí uma vinculação extremamente volátil entre geopolítica e etnocentrismo. Como resultado, a situação na Alemanha logo explodiu. Haushofer e seus colegas não influenciaram Hitler e seu regime tanto quanto efetivamente serviram a eles, ainda que de forma indireta, fornecendo ao Führer legitimidade ideológica para seu desejo insaciável de conquista. Após a derrota militar dos nazistas, suas teorias foram “cientificamente” erradicadas [7]. As populares teorias de Ardrey também foram esquecidas rapidamente, e, embora as explicações sociobiológicas periodicamente recebessem maior atenção, sua aplicação à evolução das pátrias continuou a se desvanecer. A despeito do apelo da análise de Ardrey, a etologia no fim afastou-se do determinismo estrito que caracterizava a abordagem dele e de alguns de seus colegas quanto ao comportamento territorial [8].

Primeiro, ficou evidente que os primatas desenvolvidos mais próximos dos seres humanos – chimpanzés, gorilas e alguns babuínos – não são “territorialistas” de modo algum, e que o comportamento dos animais em relação a seu ambiente é muito mais variado do que o relato de Ardrey sugeria. Mesmo os pássaros, indiscutivelmente o tipo mais territorial de animal, exibem comportamentos que dependem muito mais das modificações no ambiente ao seu redor do que de impulsos hereditários. Experimentos envolvendo alterações nas condições de vida de animais provaram que o comportamento agressivo pode assumir novas manifestações no rastro de mudanças geobiológicas [9].

Antropólogos com conhecimento histórico mais amplo jamais devem ignorar o fato de que a espécie humana, que pelo que sabemos originou-se no continente africano, floresceu e prosperou devido exatamente a não ter se agarrado ao território familiar, mas migrado e avançado para conquistar o mundo com suas pernas leves e pés ligeiros. Com o passar do tempo, o planeta veio a ser cada vez mais povoado por tribos migrantes de humanos caçadores e coletores que se moviam para a frente sem cessar em busca de novos campos de sustento e praias com pesca mais abundante. Apenas quando a natureza provia suas necessidades básicas os humanos paravam em uma determinada área e a transformavam, em certo grau, em seu lar.

O que mais tarde vinculou os humanos à terra de forma estável e permanente não foi uma predisposição biológica para adquirir território permanente, mas o início do cultivo agrícola. A transição do nomadismo para o sedentarismo ocorreu primeiro no solo aluvial deixado pelos rios, que melhorava a terra para agricultura sem o complexo conhecimento humano exigido para se fazer isso. De forma gradual e crescente, o estilo de vida sedentário tornou-se familiar. Foi somente o cultivo da terra que proporcionou a base para o desenvolvimento de civilizações territoriais, lideradas por uma série de sociedades que, com o tempo, emergiram como grandes impérios.

Contudo, os primeiros reinos desse tipo – tais como Mesopotâmia, Egito e China – não desenvolveram uma consciência territorial coletiva compartilhada por todos aqueles que trabalhavam na terra. As fronteiras desses impérios imensos não puderam ser infundidas na consciência popular como limites delineadores do espaço vital de agricultores ou escravos. Em todas as civilizações agrárias, podemos supor que a terra fosse importante para os produtores de alimento. Podemos supor também que tais indivíduos tivessem um apego psicológico à terra que cultivavam. Entretanto, é duvidoso que possuíssem qualquer sentimento de conexão com territórios mais amplos do reino.

Nas civilizações antigas tradicionais, tanto nômades quanto agrícolas, a terra às vezes era concebida como uma deidade feminina responsável pelo nascimento e criação de tudo que vivia sobre ela [10]. Tribos ou aldeias de diferentes continentes julgavam sagrados os trechos da terra que habitavam, mas essa atribuição de status sagrado não apresentava semelhança com o patriotismo moderno. A terra quase sempre era considerada propriedade dos deuses, não dos seres humanos. Em muitos casos, os humanos antigos viam-se como trabalhadores pagos ou arrendatários que usavam a terra de forma temporária e de modo algum como seus proprietários. Por meio de seus agentes religiosos, os deuses (ou Deus, com o surgimento do monoteísmo) concediam a terra a seus seguidores e, quando havia lapsos na obediência ritual, retomavam-na à sua vontade.

NOTAS

[1] The territorial imperative: a personal inquiry into the animal origins of property and nations. Nova York: Atheneum, 1970.

[2] Para mais sobre isso, ver Gorer, Geoffrey. “Ardrey on human nature: animals, nations, imperatives”. In: Montagu, Ashley (org.).

Man and aggression. Londres: Oxford University Press, 1973, pp. 165-7.

[3] Ardrey. Territorial imperative, p. 5.

[4] Ibid., pp. 6-7.

[5] Citado em Murphy, David Thomas. The heroic earth: geopolitical thought in Weimar Germany, 1918-1933. Ohio: Kent State

University Press, 1997, p. 9.

[6] Para mais sobre Haushofer, ver ibid., pp. 106-10.

[7] Levou um bom tempo para a geopolítica recuperar-se de sua experiência sob o domínio nazista, mas na década de 1970 ela já havia sido reintroduzida como um campo de estudo legítimo. Ver Newman, David. “Geopolitics renaissant: territory, sovereignty and the world political map”. In: ____ (org.). Boundaries, territory and postmodernity. Londres: F. Cass, 1999, p. 15.

[8] Ver especificamente o famoso livro de Lorenz, Konrad. On aggression. Londres: Methuen, 1967.

[9] Sobre esse assunto, ver Crook, John Hurrell. “The nature and function of territorial aggression”. In: Montagu, Ashley (org.). Man and aggression, pp. 183-217.

[10] Os exemplos incluem Gaia, a deusa primordial da terra na mitologia grega, e a deusa cananeia Asherah.

FONTE: SAND, Shlomo. A Invenção da Terra de Israel, Editora Benvirá: São Paulo, 2014.

 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

A terceira revolução? Resistência camponesa ao governo bolchevique

por Nick Heath

Na onda de rebeliões e revoltas de operários e camponeses em toda a Rússia durante 1919-1921, os bolcheviques buscavam se consolidar no poder. Mas, ao contrário das alegações destes, tais movimentações não eram reacionárias. Os trabalhadores apoiavam os objetivos originais da revolução: o socialismo e a autogestão operária e camponesa. Tomados em conjunto, as revoltas podem ser entendidas como uma Terceira Revolução.

Durante a Guerra Civil na Rússia, o governo de Lenin enfrentou uma série de revoltas predominantemente camponesas que ameaçavam derrubar o regime. Teria sido justificada a acusação de que a série de insurgências eram lideradas por kulaks (camponeses ricos), por um lado, apoiados pela reação branca e, por outro, por camponeses pobres inconscientes de seus reais interesses de classe? Ou, na realidade, teria sido o início da “Terceira Revolução”, como alegaram oponentes à esquerda do bolchevismo?

“Todos aqueles que realmente levam a revolução social no seu coração devem deplorar essa separação fatal que existe entre o proletariado das cidades e do campo. Todos os seus esforços devem ser dirigidos para destruí-la, porque devemos estar conscientes de que se os trabalhadores da terra, os camponeses, não deram a mão aos trabalhadores da cidade, para uma ação revolucionária comum, todos os esforços revolucionários das cidades estarão condenados a fiascos inevitáveis”.

- Bakunin, Obras Completas, “Sobre o Pangermanismo Alemão”.

O marxismo ortodoxo desconsiderou o papel revolucionário do campesinato

Segundo o marxista alemão Karl Kautsky, o pequeno camponês estava condenado, apesar de taticamente útil para mobilizar as massas do campo. Em sua A Questão Agrária, Kautsky afirmou que os objetivos de curto prazo dos camponeses e da classe média baixa, para não mencionar a burguesia, estavam em oposição ao interesse de toda a humanidade, plasmado na ideia de sociedade socialista. "Quando o proletariado [significando a classe trabalhadora industrial] tentar explorar as conquistas da revolução, seus aliados - o campesinato - certamente se voltarão contra ele. Por sua natureza é burguês e mostra claramente sua essência reacionária. O campesinato deve ajudar o proletariado, não o proletariado o campesinato, na realização dos desejos deste último". Já Leo Jogiches disse no VI Congresso do Partido Social-Democrata Polaco, em 1908, que “ditadura do proletariado deveria ser apoiada pelo campesinato, que não poderia desempenhar funções autônomas”. Rosa Luxemburgo compartilhava a desconfiança de Jogiches em relação ao campesinato e só podia vê-los como uma força reacionária.

O próprio Lênin, extremamente flexível em nível tático e extremamente rígido em nível ideológico, estava consciente do que estava fazendo quando seu Partido lançou a palavra de ordem da ditadura do proletariado e do campesinato. Depois do triunfo bolchevique "seria ridículo falar da unidade do proletariado e do campesinato, do regime democrático... Agora, temos que pensar no socialismo, na ditadura do proletariado” (Duas táticas da Social Democracia na revolução democática, 1905).

De sua parte, Trotsky tinha uma atitude mais dura em relação ao campesinato e não estava convencido de uma aliança temporária entre operários e camponeses: "O proletariado entrará em conflito não apenas com os grupos burgueses que apoiaram o proletariado durante a primeira fase da luta revolucionária, mas também com as grandes massas camponesas (1905, escrito em 1922). (1905, obra escrita em 1907-1909).

Os bolcheviques definiram 'kulaks' como camponeses ricos, capazes de vender produtos no mercado, bem como orientar a produção para seu próprio usufruto e empregar mão de obra contratada para vender produtos excedentes. Eles eram vistos como representantes dos verdadeiros elementos pequeno-burgueses do campo, prontos para desenvolver a agricultura através dos avanços capitalistas. Na segunda fase da revolução, depois da etapa burguesa inicial, os kulaks (e uma “parte substancial do campesinato médio” - Lênin) passariam para o lado da burguesia, enquanto o proletariado mobilizaria o campesinato pobre. Mas, como aponta Ferro: "A busca pelos kulaks foi parcialmente falha, uma perseguição de sombras, uma vez que tinham desaparecidos ou afundaram à condição de mujiques, desde a Revolução de Outubro” [1]. O que é certo é que, em um nível prático, os bolcheviques expropriaram vastas massas do campesinato nos anos de “comunismo de guerra” de 1918 a 1921, sobretudo com a política de requisição de grãos e a repressão tchekista. Os bolcheviques tomaram por inimigos os kulaks no que tangia a luta de classes e ao fazê-lo superestimaram sua riqueza. Selunskaia alega que, de fato, apenas 2% deles poderiam ser classificados como genuinamente kulaks [2]. Uma estatística oficial revela os seguintes dados: em 1917, 71% dos camponeses cultivavam menos de 4 hectares, 25% tinham entre 4 e 10 hectares e apenas 3,7% tinham mais de 10 hectares. Em 1920, esta realidade havia mudando, respectivamente, para 85%, 15% e 0,5%. Outro critério de análise, a posse de um cavalo, segundo a mesma estatística, pode ser usada para mostrar a riqueza relativa: 29% não tinham nenhum, 49% tinham um, 17% tinham dois e 4,8% tinham mais de três (em 1917). Em 1920, os números haviam mudado respectivamente para 27,6%, 63,6%, 7,9% e 0,9% [3]. De fato, o número de kulaks - e aqui estamos nos referindo à classificação bolchevique sobre o que constituía “rico” - estava diminuindo e o processo de homogeneização continuava. Quanto à requisição, o dirigente bolchevique Kubanin admitiu que metade dos alimentos recolhidos apodreceu e muitos bovinos morreram em vagões ferroviários em trânsito, devido à falta de água e comida [4].

O comunismo de guerra

Como reação ao comunismo de guerra, uma série de insurreições eclodiram. No leste da Ucrânia, o movimento makhnovista, inspirado e liderado militarmente pelo camponês anarquista Nestor Makhno, foi um dos movimentos mais atuantes ideologicamente. Deve ser lembrado que os makhnovistas haviam controlado o leste da Ucrânia antes da chegada do Exército Vermelho, tendo derrotado sucessivamente as tropas austro-alemãs e os brancos. Os makhnovistas convidaram vários anarquistas que fugiam da perseguição dos bolcheviques do norte ou retornavam do exílio estrangeiro para trabalhar na Confederação de Anarquistas Nabat (Alarme) com propaganda, trabalho cultural e educativo entre os camponeses. Os makhnovistas viram a ameaça branca como um perigo maior do que os bolcheviques e concluíram uma série de alianças com estes últimos através de uma frente unida contra os líderes brancos, Denikin e Wrangel. Na verdade, parece haver muitas evidências de que Wrangel teria esmagado a Ucrânia e tomado Moscou, destruindo o governo bolchevique, se não fosse pelos esforços dos makhnovistas. No final de uma campanha conjunta contra os brancos na Crimeia, os comandantes makhnovistas foram convidados a comparecerem no quartel-general do Exército Vermelho onde foram fuzilados sumariamente. O próprio Makhno lutou por muitos meses, antes de ser forçado a cruzar a fronteira [5].

A Tcheka e os prodrazverstksa (esquadrões de requisição de alimentos) nunca se estiveram no núcleo makhnovista de Hulyai-Polye antes de 1919, mas os camponeses que viviam nas áreas de Ekaterinoslav e Alexandrovsk os conheciam muito bem. Em outras áreas de revolta, entretanto, a oposição inicial foi muito mais resultado direto das políticas de “comunismo de guerra” aplicada pelo bolchevismo.

Na Sibéria Ocidental (e, de fato, em toda a Sibéria - veja nosso artigo Makhnovschina na Sibéria), o regime enfrentou provavelmente sua pior ameaça, e é possível que tenha sido esse fato, mais do que a insurreição de Kronstadt que ocorreu no mesmo ano, que o forçou a mudar de rumo. Krasnaya Armiya (Exército Vermelho, publicado pela Academia Militar e destinado a um pequeno círculo de leitores comunistas) teve de admitir em sua edição de dezembro de 1921 que a realização das coletas de grãos na primavera de 1920 impulsionou o campesinato siberiano contra os comunistas e que “o movimento na região de Ishimsk se inspirava nos mesmos slogans que uma vez foram lançados pelos marinheiros de Kronstadt”. O Exército Vermelho teve de admitir que a inépcia, a má administração econômica e a expropriação 'criminosa' de propriedades estavam entre as principais causas da insatisfação camponesa. O jornal reconheceu seu efeito negativo sobre o humor dos camponeses quando estes viram os grãos requisitados apodrecendo nos vagões. “Ações provocatórias” por parte de representantes do governo nas agências de arrecadação de impostos frequentemente induziam levantes de aldeias inteiras. O jornal também relatou um movimento ‘muito singular’ nas regiões do Don e do Kuban, liderado por Maslakov, um ex-comandante do Exército Vermelho, que declarava guerra “aos usurpadores do poder soviético e ao alto ‘comissário comunista’” [6]. Na verdade, comandava uma brigada inteira do Exército Vermelho.

Ligações

De fato, a revolta de Maslakov em fevereiro de 1921 no leste da Ucrânia rapidamente se conectou com os makhnovistas através do destacamento comandado por Brova. Alguns comandantes do Exército Vermelho se revoltaram, como foi o caso do batalhão de Mikhailovka, liderado por Vakulin, seguido por Popov. No território ao norte do cossaco Don, (após dezembro de 1920), Vakulin apareceu à frente de uma força de 3.200 - seis vezes mais de quando se deslocou para o leste na região dos Urais e conseguiu capturar cerca de 800 soldados do Exército Vermelho. Mas em 17 de fevereiro de 1921, Vakulin perdeu a batalha que ceifaria sua vida. F. Popov, um socialista revolucionário, assumiu o seu lugar. A coluna Popov voltou para as províncias de Samara e depois de Saratov, ganhando força à medida que avançava. Foi estimada pelo Exército Vermelho em 6.000 homens e foi capaz de aprisionar um batalhão inteiro do Exército Vermelho. Parece que, se acreditarmos nas fontes bolcheviques, os revoltosos de Popov foram mais tarde inteiramente esmagados. Em Samara, um oficial da esquerda socialista revolucionária, Sapozhkov, do Exército Vermelho, rebelou-se juntamente com “elementos anarquistas e SR” (segundo o historiador soviético Trifonov). Ele próprio era filho de um camponês desta província. A revolta teve início em 14 ou 15 de julho de 1920, e contava com 2.700 homens. Sapozhkov caiu em batalha em 6 de setembro após 2 meses de luta. Seu lugar foi tomado por Serov, que ainda conseguiu reunir 3.000 combatentes e lutou até o verão de 1923, período mais longo de luta que até então havia sido travado por qualquer grupo rebelde, exceto Makhno.

Na região de Tambov, outra grave insurreição começou em agosto de 1920, sob o comando de Alexander Stepanovitch Antonov. Aqui novamente a revolta foi motivada e desencadeada pela requisição de grãos. O próprio Antonov era um ex-socialista revolucionário, da então SR de esquerda, que defendia tanto operários quanto camponeses contra os bolcheviques. Outros grupos divergentes incluíram os Socialistas Revolucionários de Esquerda, os SR de Direita e os anarquistas. Os antonovistas foram capazes de reunir imediatamente 21.000 combatentes. Um anarquista, Yaryzhka, comandou um destacamento do movimento antonovista sob a bandeira negra do anarquismo. Enquanto servia no exército durante a Primeira Guerra Mundial, por ter disparado em um oficial, em 1916, Yaryzhka foi preso, ocasião em que se converteu ao anarquismo. Começou suas operações no outono de 1918 e lutou até ser morto em ação pelos bolcheviques no outono de 1920.

Pode-se ver que todos esses levantes ou movimentos camponeses de oposição ao leninismo ocorreram mais ou menos na mesma época, entre o período 1920-1921. De fato, em consonância com o levante dos marinheiros em Kronstadt em 1921, formavam uma séria ameaça ao domínio bolchevique. Os objetivos dos insurgentes de Kronstadt parecem ter ecoado nos movimentos camponeses. Isso não é surpreendente, considerando que muitos marinheiros de Kronstadt tinham origens camponesas. O levante da Sibéria ocidental adotou as demandas de Kronstadt [6A], conforme observado por Krasnaya Armiya. Após a insurreição de Tambov, as autoridades soviéticas encontraram as resoluções de Kronstadt em um importante esconderijo antonovista. O próprio Antonov ficou tão entristecido com a notícia da repressão da revolta de Kronstadt que, dizem, se embriagou de vodka. Parece que alguns marinheiros de Kronstadt que escaparam à opressão se uniram à Antonovschina. Em 11 de julho, a cavalaria bolchevique lutou contra um pequeno, mas de elite, bando de antonovistas, operários socialistas revolucionários e marinheiros, que lutou com uma "firmeza impressionante" até o fim quando os poucos sobreviventes atiraram em seus cavalos e depois em si mesmos, de acordo com o relato do tchekista Smirnov,. Um bolchevique observou em 1921 que “os anarquistas-makhnovistas na Ucrânia reimprimiram o apelo dos kronstadtinos e em geral não escondiam sua simpatia por eles”. [7]

Acusações

É claro que os habitantes de Kronstadt se opunham à restauração czarista e foram fundamentais para derrubar o regime de Kerensky. Os makhnovistas foram igualmente implacáveis ​​com os brancos. Nenhuma aliança foi sequer considerada que implicasse uma luta contra os bolcheviques. De fato, os makhnovistas formaram alianças com os bolcheviques para combater os brancos, e a última delas causaria sua derrota, como visto acima. O movimento foi profundamente influenciado pelo anarquismo e dificilmente toleraria a colaboração com um de seus inimigos mortais. Quanto a Maslakov, ele tinha sido um comandante vermelho de confiança e parece ter lutado por um comunismo sem comissários. Krasnaya Armiya admitiu que os insurgentes nas regiões do Don e de Kuban “condenam e lutam contra a reação da Guarda Branca". Quanto a Antonov, “não empreendeu nenhuma ação que impusesse embaraços aos bolcheviques, como cortar as comunicações na retaguarda das linhas do front, mas apenas se limitou a combater os destacamentos punitivos enviados contra os camponeses” [8]. Antonov havia sido preso sob o czarismo por suas atividades como socialista revolucionário durante e após a Revolução de 1905, sendo sentenciado a 12 anos na Sibéria. Além disso, movimento camponês de Antonov dificilmente teria auxiliado um retorno aos velhos tempos.

Outra acusação contra os movimentos camponeses eram de que foram liderados por kulaks e que arrastaram o resto do campesinato em seu rastro. Pelo menos no caso makhnovista, uma análise dos líderes do movimento refuta tal afirmação. Trotsky deu a entender que o “assassinato de Makhno não significaria o fim da Makhnovschina, pois suas raízes estão nas massas de camponesas ignorantes". Mas todos os principais makhnovistas sobre os quais temos informações biográficas vieram do campesinato depauperado, incluindo o próprio Makhno e, em alguns casos, do campesinato médio. Como disse Malet: “os bolcheviques interpretaram totalmente equivocadamente a natureza do movimento de Makhno. Não era um movimento de kulaks, mas de uma ampla massa de camponeses, especialmente camponeses pobres e médios” [9]. Temos pouca evidência empírica para a identificar a extração social das revoltas camponesas nas áreas do Don e de Kuban. Radkey forneceu algumas informações sobre a insurreição de Tambov através de pesquisas em condições difíceis e descobriu que Antonov era filho de um artesão de uma cidade pequena - dificilmente um kulak! Há evidências de que alguns dos principais antonovistas eram de origem kulak (com base em arquivos bolcheviques), mas um historiador da Tcheka teve de admitir que uma “parte considerável do campesinato médio” apoiou a insurreição [10]. Há evidências de que Antonov tinha o apoio do campesinato empobrecido e de alguns trabalhadores da província [11].

Ressalvas

Deve-se ter reservas sobre as alegações do “caráter kulak” dessas revoltas. Mesmo admitindo-se que alguns kulaks participaram dos levantes, deve-se admitir, por outro lado, a partir das poucas evidências disponíveis, que outras classes do campesinato também tiveram uma participação ativa neles. O que se pode concluir das alegações de que, longe de serem contrarrevolucionárias, as revoltas camponesas foram o início de uma “Terceira Revolução” (desde as revoluções de fevereiro e outubro)? A expressão parece ter sido cunhada por anarquistas dentro do movimento makhnovista, aparecendo em uma declaração de um de seus órgãos, o Soviete Militar Revolucionário, em outubro de 1919, e reapareceu durante a insurreição de Kronstadt. Anatoli Lamanov registrou-a nas páginas do Izvestia de Kronstadt, o jornal dos rebeldes, do qual era editor. Lamanov era um líder da União dos Socialistas Revolucionários Maximalistas em Kronstadt, e concebia Kronstadt como o estopim de uma “Terceira Revolução”, que derrubaria a “ditadura do Partido Comunista, sua Tcheka e o capitalismo de Estado”, transferindo todo o poder “para os sovietes livremente eleitos” e transformando os sindicatos em “associações livres de trabalhadores, camponeses e operários intelectuais operários” [12]. Os maximalistas, uma cisão dos socialistas revolucionários, exigiam uma imediata revolução social agrária e urbana, uma República dos Trabalhadores de sovietes federados, e eram antiparlamentaristas e desconfiavam dos partidos. Há pouca evidência sobre as ligações entre eles e os makhnovistas, embora seja improvável que o slogan “Terceira Revolução” tenha surgido em dois lugares totalmente independentes. “Aqui, em Kronstadt, foi lançada a primeira pedra da Terceira Revolução, derrubando os últimos grilhões das massas trabalhadoras e abrindo um novo e amplo caminho para a criatividade socialista", proclamaram os kronstadtinos [13].

O termo “Terceira Revolução”, no entanto, parece vago, sem uma ideia clara de como essa Revolução seria realizada. Teve seus adeptos em círculos makhnovistas, e possivelmente na Sibéria Ocidental e com Maslakov, mas nunca inspirou uma abordagem unificada para o desenvolvimento de sua implementação. O que distinguia o movimento makhnovista de Tambov era a ideologia específica do primeiro. O movimento de Antonov não tinha ideologia, além da “consciência daquilo de que eram contra... e a mais nebulosa noção de como organizar a Rússia na hora da vitória" [14]. Os Antonovistas eram um movimento local com perspectivas locais. Os makhnovismo era abrangente e manteve ligações com Maslakov. O próprio Makhno fez campanha até o Volga, percorrendo a área do Don, articulando grupo semelhantes. Um destacamento makhnovista sob o comando de Parkhomenko foi enviado para a área de Voronezh no início de março de 1921 numa tentativa de estabelecer uma conexão com destacamentos antonovistas sob a liderança de Kolesnikov.

Mas a vasta extensão da União Soviética reduziu as ligações entre os movimentos. Parece ter havido uma ignorância mútua generalizada sobre a existência ou os objetivos dos diferentes movimentos camponeses.

Onde havia consciência, parece ter havido pouco esforço para associar os movimentos em um ataque unificado contra o governo bolchevique. A insurreição de Kronstadt foi mais tarde considerada prematura por alguns de seus líderes [15]. O localismo e a falta de uma estratégia mais global paralisaram Antonov e os movimentos nas regiões do Don, de Kuban e o oeste da Sibéria, assim como a própria espontaneidade destes levantes. Os makhnovistas podem ter tido uma melhor compreensão da situação, mas não conseguiram unir a oposição, tendo que se aliar mais uma vez aos bolcheviques, apesar de infelizes experiências anteriores. No entanto, a soma desses levantes representou uma ameaça muito grave para o regime bolchevista, forçando-o a pelo menos passar do comunismo de guerra para a Nova Política Econômica.

Nick Heath

Editado por libcom

Publicado pela primeira vez no Organize! #63

Notas

[1] Ferro, p. 138.

[2] Izmeniia 1917-20, in Atkinson.

[3] L Kritsman, The Heroic Period of the Great Russian Revolution, 1926 in Skirda.

[4] Kubanin ‘The anti-Soviet peasant movement during the years of civil war (war communism) 1926, in Skirda.

[5] Palij, Malet, Skirda, todos citam evidências dos destacamentos makhnovistas salvando a capital bolchevique.

[6] Maximoff, p.148.

[7] Lebeds, citado por Malet.

[8] Radkey, p.82.

[9] Malet, p122.

[10] Sofinov, em Radkey, p.106.

[11] Radkey, p107-110.

[12] Ver Getzler.

[13] Avrich, p.243.

[14] Radkey, p.69.

[15] Ver Avrich

 

Bibliografia

Avrich, P., Kronstadt 1921. Princeton (1970).

Atkinson,D., The end of the Russian Land Commune 1905-1930. Stanford (1983).

Lewin, M., Russian Peasants and Soviet Power. Allen & Unwin (1968).

Mitrany, D., Marx and the Peasant. Weidenfeld & Nicholson (1951).

Malet, M., Nestor Makhno in the Russian Civil War. MacMillan (1982).

Palij, M., The Anarchism of Nestor Makhno. Washington (1976).

Radkey, O., The Unknown Civil War in Soviet Russia. Hoover (1976).

Maximoff, G. P., The Guillotine at Work. Cienfuegos (1976).

Skirda, A., Nestor Makhno, Le Cosaque de l’Anarchie. Paris (1982).

Ferro, M., The Bolshevik Revolution, A Social History of the Russian Revolution. RKP (1985).

Getzler, I., Kronstadt 1917-1921, the Fate of a Soviet Democracy. Cambridge University Press (1983).

 

Glossário

Kulak – elite camponesa.

Muzhik – camponeses mais pobres.

Brancos – reação à Revolução Russa que se reuniu em torno dos tzaristas.

Socialistas-Revolucionários – partido revolucionário que viu nos camponeses um papel chave e pensou ser possível que a sociedade russa evitasse o capitalismo e fosse direto à sociedade socialista.

Socialistas Revolucionários de Esquerda – dissidência radical dos Socialistas Revolucionários.


segunda-feira, 1 de abril de 2024

Partidos políticos nas vésperas de Outubro (1917) - por John Reed

Propaganda narodnik

PARTIDOS POLÍTICOS

Nas eleições para a Assembleia Constituinte, dezessete listas se apresentaram em Petrogrado, e em algumas cidades do interior esse total chegou a quarenta; o resumo que faço a seguir sobre os objetivos e a composição dos partidos políticos limita-se, porém, aos grupos e facções mencionados neste livro. Detenho-me apenas no essencial de seus programas e no caráter geral dos elementos que os compõem.

1. Monarquistas de vários matizes, Outubristas etc. Essas facções, antes poderosas, não atuavam mais abertamente; dedicavam-se a atividades de bastidores ou tinham alguns de seus integrantes aderindo ao Cadete, à medida que o Cadete passava, gradativamente, a adotar o programa político dessas facções. São representados, neste livro, por Rodzianko e Shulgin.

2. Cadete. Nome formado a partir das iniciais [em russo, “K. D.”] de Partido Constitucional Democrata. Seu nome oficial é Partido da Liberdade do Povo. Composto sob o tsarismo por capitalistas liberais, o Cadete era o grande partido da reforma política, correspondente, grosso modo, ao Partido Progressista dos Estados Unidos. Quando a revolução eclodiu em março de 1917, o Cadete formou o primeiro Governo Provisório. Seu Ministério foi derrubado em abril depois de ter se declarado favorável aos objetivos dos aliados imperialistas, inclusive aos anseios imperialistas do governo do tsar. À medida que a revolução adquiria um caráter cada vez mais social e econômico, o Cadete se tornava, de seu lado, cada vez mais conservador. Seus representantes neste livro são Miliukov, Vinaver e Shatski.

(a) Grupo dos Homens Públicos. Depois que o Cadete se tornou impopular devido à sua ligação com a contrarrevolução de Kornilov, formou-se em Moscou o Grupo dos Homens Públicos. Representantes desse grupo obtiveram pastas no último gabinete ministerial de Kerenski. O grupo se declarava apartidário, embora seus mentores intelectuais fossem gente como Rodzianko e Shulgin. Era composto por banqueiros, comerciantes e industriais mais “modernos”, inteligentes o bastante para saber que o combate aos sovietes exigia o uso da mesma arma que estes utilizavam — a organização econômica. Representantes típicos do grupo: Lianozov e Konovalov.

3. Socialistas Populistas ou Trudoviques (Grupo Trabalhista). Partido numericamente pequeno, composto por inteletuais cautelosos, dirigentes de cooperativas e camponeses conservadores. Embora proclamando-se socialistas, os populistas apoiavam, na verdade, os interesses da pequena burguesia — funcionários, lojistas etc. Herdeiros diretos da tradição conciliadora do Grupo Trabalhista na Quarta Duma Imperial, composto em grande parte por deputados camponeses. Quando a revolução de março de 1917 eclodiu, Kerenski era o líder dos trudoviques na Duma Imperial. Os Socialistas Populistas são um partido nacionalista. São representados neste livro por Peshekanov e Tchaikovski.

4. Partido Operário Social-Democrata Russo. Originalmente, eram socialistas marxistas. Em congresso realizado em 1903, o partido se cindiu, por questões de tática, em duas facções: a maioria (bolshinstvo) e a minoria (menshintsvo). Daí os nomes bolcheviques e mencheviques — “membros da maioria” e “membros da minoria”. As duas alas tornaram-se dois partidos separados, ambos autointitulados Partido Operário Social-Democrata Russo e proclamando-se marxistas. A partir da revolução de 1905, os bolcheviques passaram a ser, na verdade, minoritários, voltando a ser majoritários em setembro de 1917.

(a) Menchevique. Esse partido inclui todas as matizes de socialistas que acreditam que a sociedade deve avançar para o socialismo por uma evolução natural e que a classe trabalhadora deve, primeiro, conquistar o poder político. É também nacionalista. Era o partido dos intelectuais socialistas, o que significa que, estando todas as possibilidades de educação nas mãos das classes proprietárias, os intelectuais reagiram instintivamente à sua própria formação e acabaram por se aliar às classes proprietárias. Entre seus representantes neste livro estão Dan, Lieber e Tseretelli.

(b) Mencheviques Internacionalistas. Ala radical dos mencheviques; internacionalistas opostos a qualquer coalizão com a burguesia, embora não desejem uma ruptura com os mencheviques conservadores, e à ditadura do proletariado propugnada pelos bolcheviques. Trótski foi por um tempo membro desse grupo. Entre seus dirigentes: Martov e Martinov.

(c) Bolcheviques. Agora autointitulado Partido Comunista, com o propósito de enfatizar sua total separação em relação à tradição de socialismo “moderado” ou “parlamentar” que ainda caracteriza os mencheviques e os assim chamados “socialistas majoritários” em todos os países. Os bolcheviques propunham a insurreição proletária imediata e a tomada das rédeas do governo, a fim de acelerar o advento do socialismo por meio da tomada à força da indústria, das terras, dos recursos naturais e das instituições financeiras. Esse partido expressa sobretudo os anseios dos operários fabris, mas também de boa parte dos camponeses pobres.

“Bolchevique” não pode ser traduzido como “maximalista”. Os “maximalistas” formam um outro grupo (veja o parágrafo 5b). Entre seus líderes: Lênin, Trótski e Lunatcharski.

(d) Social-Democratas Internacionalistas Unificados. Também chamado grupo da Novaya Zhizn (Vida Nova), referência ao nome de seu jornal, de grande influência. Pequeno grupo de intelectuais com poucos adeptos na classe trabalhadora, com exceção dos seguidores de Maksim Górki, seu líder. Intelectuais, com basicamente o mesmo programa dos mencheviques internacionalistas, com a diferença de que o grupo Novaya Zhizn se recusava a se manter atrelado a uma ou outra das grandes facções. Opunham-se às táticas bolcheviques, mas permaneceram no governo soviético. Outros representantes seus neste livro: Avilov e Kramanov.

(e) Yedinstvo. Grupo bastante pequeno e cada vez menor, composto quase inteiramente por seguidores de Plekhanov, um dos pioneiros do movimento social-democrático russo nos anos 1880 e seu grande teórico; agora bastante idoso, Plekhanov era de um patriotismo radical, excessivamente conservador, até mesmo para os mencheviques. Com o coup d’État bolchevique, o Yedinstvo desapareceu.

5. Partido Socialista Revolucionário. Chamados de “esseerres”, por causa das iniciais de seu nome [S. R.]. Originalmente, era o partido dos camponeses revolucionários, partido das organizações de combate: os terroristas. Depois da revolução de março, obteve a adesão de muitos militantes que nunca foram socialistas. Naquela época, os “esseerres” defendiam a abolição da propriedade privada apenas no campo, com indenização para os proprietários de uma forma ou de outra. Ao final, a radicalização do sentimento revolucionário entre os camponeses levou os “esseerres” a abandonarem a ideia da indenização, e os mais jovens e mais ardorosos de seus intelectuais a se desligarem de seu partido, no outono de 1917, para formar um novo partido, o Socialista-Revolucionário de Esquerda. Os “esseerres” — que mais tarde passaram a ser chamados, pelo grupo radical, de Social-Revolucionários de Direita — adotaram a postura política dos mencheviques e atuaram em conjunto com eles. Acabaram se tornando representantes dos camponeses abastados, dos intelectuais e das populações desprovidas de qualquer educação política dos rincões rurais mais distantes. Internamente, porém, havia maiores diferenças de opinião política e econômica do que entre os mencheviques. Dentre seus dirigentes mencionados nestas páginas estão: Avksentiev, Gotz, Kerenski, Tchernov e “Babushka” [“Vovó”] Breshkovskaia.

(a) Socialistas Revolucionários de Esquerda. Embora concordassem teoricamente com o programa bolchevique da ditadura do proletariado, hesitavam de início em acompanhar suas táticas impiedosas. Integraram, no entanto, o governo soviético, assumindo algumas pastas no gabinete, em especial a da Agricultura. Deixaram o governo em várias oportunidades, mas sempre acabaram voltando. Ao se afastarem, em grande número, dos “esseerres”, os camponeses passaram a aderir ao Partido Socialista Revolucionário de Esquerda, que se tornou o maior partido camponês de apoio ao governo soviético, apregoando o confisco das grandes propriedades de terras sem indenização e sua distribuição pelos próprios camponeses. Entre seus dirigentes: Spiridonova, Karelin, Kamkov e Kalagaiev.

(b) Maximalistas. Grupo oriundo de uma cisão ocorrida no Partido Socialista Revolucionário durante a revolução de 1905, quando constituía um poderoso movimento camponês que exigia a imediata aplicação do programa máximo socialista. É, hoje, um grupo insignificante de camponeses anarquistas.

Fonte: John Reed, “O congresso camponês” (capítulo 12), in: 10 dias que abalaram o mundo. Tradução: Bernardo Ajzenberg. Editora Companhia das Letras (Pinguim), São Paulo.

sexta-feira, 1 de março de 2024

A resolução dos rebeldes de Kronstadt

Do dia 1 a 18 de março de 1921, ocorreu um levante na base naval da Frota do Báltico, situada na cidade-fortaleza de Kronstadt, fundada por Pedro I, na ilha de Kotlin, Golfo da Finlândia, que entrou para a história da Guerra Civil na Rússia Soviética como a “Rebelião de Kronstadt”.

Em 28 de fevereiro de 1921, em uma assembleia geral das equipes dos navios de guerra Sevastopol e Petropavlovsk, foi adotada uma resolução exigindo a reeleição do conselho em Kronstadt (soviete) e reivindicado a remoção do Partido Comunista Bolchevique do poder.

No dia 1º de março, uma resolução foi aprovada por uma manifestação da guarnição e dos moradores da cidade que se reuniram para comemorar o aniversário da Revolução de Fevereiro de 1917, na Praça da Âncora, em Kronstadt.

Em 2 de março, foi realizada uma reunião geral de representantes das tripulações de navios e unidades do Exército Vermelho, na qual foi decidido a criação de um Comitê Revolucionário Provisório (CRP), em Kronstadt, para organizar "eleições livres e justas para um novo conselho" da cidade fortaleza.

No apelo lançado pelo Comitê Militar Revolucionário, os bolcheviques foram acusados ​​de serem responsáveis ​​pela ruína econômica, fome e frio no país, causando, por conseguinte, agitação entre os trabalhadores de Petrogrado e Moscou. Com o início do levante, cerca de 900 comunistas da guarnição de Kronstadt deixaram o PCR.

O governo se recusou a negociar com a guarnição insurgente de Kronstadt e, no dia 4 de março de 1921, em nome do Comitê de Defesa de Petrogrado, foi lançado um ultimato, denominado “Kronstadt enganada”, que exigia o fim da rebelião. Trotsky confiou a liderança direta da operação militar ao comandante do Exército Vermelho Tukhachevsky.

A guarnição de Kronstadt consistia de um efetivo de 17.961 homens, 134 canhões pesados, 62 canhões leves, 24 canhões antiaéreos e 126 metralhadoras. Era uma força formidável capaz de se defender com sucesso. Além disso, os participantes do levante esperavam que “Makhno e Antonov insurgissem em seu apoio”, ou seja, dando início de uma série de revoltas camponesas na Ucrânia e na província de Tambov. Em contrapartida, sob o comando de Tukhachevsky, as forças reunidas eram bem mais modestas - cerca de 11.000 pessoas, com 96 metralhadoras e 84 canhões.

O poder em Kronstadt estava concentrado nas mãos do Comitê Revolucionário Provisório, formado por 15 veteranos e chefiado pelo escrivão sênior do encouraçado Petropavlovsk, Stepan Maximovich Petrichenko, que demonstrava simpatia política aos Socialistas Revolucionários de esquerda.

Segundo os bolcheviques, a defesa de Kronstadt durante a revolta estava sob o comando do Quartel-General da Fortaleza, supervisionado por especialistas militares, incluindo o chefe da artilharia, o ex-major-general do exército czarista A.N. Kozlovsky. Para o governo, a grande maioria dos comandantes e oficiais da guarnição da fortaleza concordou em participar voluntariamente da rebelião.

O programa político do levante foi formulado em 1º de março de 1921, através da resolução aprovada pela reunião dos marinheiros dos encouraçados Petropavlovsk e Sevastopol.

Possui 15 itens:

“1) Tendo em vista que os sovietes não expressam mais a vontade dos operários e camponeses, requer-se a realização imediata de eleição para os sovietes por voto secreto e campanha  preliminar livre com a participação de todos os operários e camponeses.

2) Liberdade de consciência e de imprensa para operários, camponeses, anarquistas e partidos socialistas de esquerda.

3) Liberdade de reunião e de associação camponesa e sindical.

4) Convocação de uma conferência não partidária de operários, camponeses, soldados do Exército Vermelho e marinheiros das montanhas, de Kronstadt e de Petrogrado e província, até 10 de março de 1921, o mais tardar.

5) Libertação de todos os presos políticos de partidos socialistas, bem como todos os trabalhadores e camponeses, soldados do Exército Vermelho e marinheiros envolvidos em movimentos operários e camponeses.

6) Eleição de uma comissão para analisar os casos de prisioneiros em campos de concentração.

7) Abolir todos os departamentos políticos, pois nenhum partido pode gozar de privilégios para propagar suas ideias e receber fundos do Estado em sua própria causa. Em vez disso, estabelecer comissões culturais e educacionais eleitas localmente, para as quais os fundos devem ser alocados pelo Estado.

8) Remoção imediata de todos os destacamentos de estradas (blitz).

9) Uniformizar as porções de ração para todos os trabalhadores, com exceção daqueles que exercem atividade insalubre nas oficinas de alto risco.

10) Abolir os destacamentos de combate comunista em todas as unidades militares, bem como em fábricas e usinas; se tais destacamentos forem necessários, no entanto, estes podem ser designados para unidades militares de empresas, fábricas e usinas, seguindo critérios estipulados por trabalhadores.

11) Pleno direito de usufruto dos camponeses sobre suas terras e também  o gado, salvo em caso de uso de mão de obra assalariada que está proibida.

12) Pedimos a todas as unidades militares, bem como aos colegas cadetes militares, para que apoiem à nossa resolução.

13) Exigimos que todas as resoluções sejam amplamente divulgadas na imprensa.

14) Nomeação de uma agência de inspeção para controle.

15) Permitir a livre produção de artesanato por meio de mão de obra própria e não assalariada.

O significado geral do programa da guarnição rebelde era o de rejeitar a política do “comunismo de guerra”. Ao mesmo tempo, no bloco econômico, a maioria dos requisitos não contradizia com as novas diretrizes econômicas – a NEP – que já havia sido aprovada pela liderança bolchevique nas vésperas do X Congresso do PCR. Mas a parte política do programa estava permeada pela aspiração de apear os bolcheviques do poder. O lema “Todo poder aos sovietes, não aos partidos” tornou-se o principal slogan do movimento de Kronstadt.

Tendo em vista a escassez de alimentos, a CRP estabeleceu normas fixas para a distribuição diária de alimentos.

O primeiro assalto à fortaleza teve início em 7 de março de 1921. O ataque falhou devido à rendição do batalhão do 561º regimento, que participava da ofensiva. Em 10 de março, unidades da 27ª divisão, com obuses e artilharia pesada, foram transferidas da Frente Ocidental. No dia 17 de março iniciou-se um novo assalto e a queda da fortaleza. Uma parte significativa dos rebeldes, incluindo a maioria dos membros do Comitê Militar Revolucionário, deixou Kronstadt através do Golfo da Finlândia, evadindo-se para a Finlândia.

As perdas das tropas soviéticas totalizaram 3 mil e 143 pessoas; enquanto as perdas dos rebeldes ultrapassaram mil pessoas.

Três mil “participantes ativos na rebelião” foram presos, alguns dos quais condenados à morte, outros a cinco anos de trabalhos forçados e cerca de um terço deles foi libertado ou condenado a um ano de serviço comunitário em liberdade condicional. Os encouraçados rebeldes foram renomeados: o Sevastopol se tornou “Comuna de Paris” e o Petropavlovsk, "Marat".

O Presidente da Rússia baixou um decreto datado de 10 de janeiro de 1994, nº 65: “Sobre os eventos em Kronstadt na primavera de 1921”. Segundo o documento, os participantes do levante foram reabilitados e foi tomada a decisão de erguer um memorial para todas as suas vítimas.

A memória histórica registrou o levante de Kronstadt como um símbolo de ideais da aspiração por uma sociedade livre e de autogoverno, de um sistema de poder desprovido de conteúdo político-partidário e da liberdade própria da revolução russa como um todo.