domingo, 1 de março de 2026

O show acabou: porque os EUA vão perder a guerra para o Irã

A guerra já começou. Não nos termos clássicos de uma declaração formal seguida de invasão por terra, mas numa escalada de ataques e bombardeios aéreos, sabotagens e ameaças mútuas que ultrapassou o ponto de não retorno entre o Irã e o eixo formado por Estados Unidos e Israel. O que se desenha no horizonte, porém, não é a rápida e cirúrgica vitória que os estrategistas de Washington e Tel Aviv costumam vender para as suas populações. Muito pelo contrário, o que se anuncia é um atoleiro estratégico de proporções bíblicas para as forças ocidentais, um conflito que exporá a fragilidade da pujança militar americana quando confrontada com uma nação coesa, um território vasto e inóspito, e uma determinação forjada em décadas de resistência. Acreditar que os Estados Unidos podem vencer uma guerra contra o Irã é subestimar a geografia, a demografia e, acima de tudo, a logística de um conflito moderno, ao mesmo tempo que se superestima o poder do mero espetáculo.

Em Hollywood, o show e o espetáculo são tudo. As câmeras capturam explosões coreografadas, generais de peito estufado em salas de situação iluminadas por telas de alta definição, e mísseis inteligentes que entram pela janela de um prédio sem causar danos colaterais. As plateias saem do cinema convencidas de que a máquina de guerra americana é invencível, uma força da natureza capaz de resolver qualquer problema em 90 minutos, com direito a final feliz e bandeiras ao vento. A realidade, contudo, é um roteirista muito mais cruel e impiedoso. A realidade é o deserto, a montanha, a cadeia de suprimentos, o desgaste e a morte que não segue horário comercial. A guerra que se avizinha contra o Irã foi concebida, em grande parte, como um espetáculo de decapitação. A ideia, acalentada por setores mais radicais do governo israelense e endossada por alguns falcões em Washington, era a de que uma campanha de ataques precisos e fulminantes poderia eliminar as lideranças do regime em Teerã, destruir suas instalações nucleares e, num passe de mágica, fazer o governo colapsar como um castelo de cartas. O timing dessa fantasia não é acidental: a necessidade de um show de força tem um destinatário certo, o eleitorado americano, com as eleições de meio de mandato no horizonte. Um triunfo rápido no exterior, uma imagem de poder inconteste, poderia ser a muleta política que Trump precisa para segurar o avanço da oposição. É a lógica do blockbuster aplicada à geopolítica: criamos um inimigo, construímos um clímax com efeitos especiais (os mísseis) e esperamos os créditos subirem com a aprovação popular.

Só que o Irã não é um cenário de Hollywood, e seus líderes não são atores coadjuvantes à espera de seu destino nas mãos do herói americano. A guerra de decapitação, o show pirotécnico, pode até funcionar na tela, mas na vida real ela esbarra no primeiro obstáculo: o que vem depois do show? O que acontece quando o presidente inimigo não está mais lá, mas 90 milhões de pessoas acordam no dia seguinte com um ódio ainda mais profundo e uma convicção inabalável de que precisam defender cada palmo do seu solo? É aí que a fantasia do ataque cirúrgico dá lugar à realidade brutal da guerra de longa duração. E é precisamente nesse cenário de longo prazo que a superioridade tecnológica de Israel e dos EUA começa a se desintegrar, vítima de seu próprio veneno: a dependência de munição de alta tecnologia.

A defesa antiaérea moderna, aquela que protege as bases americanas no Golfo e as cidades israelenses, é um sistema devorador de recursos. Cada míssil interceptador, como o famoso Arrow ou o Patriot, custa milhões de dólares. Cada drone iraniano ou míssil de cruzeiro, por outro lado, custa uma fração desse valor. O Irã aprendeu com a guerra assimétrica. Ele não precisa construir uma frota de caças F-35 para competir; ele precisa construir arsenais de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones que possam ser lançados aos milhares. A estratégia iraniana é clara: saturar as defesas. Num conflito prolongado, a pergunta que ecoará nos bunkers do Pentágono e de Tel Aviv não será "quantos alvos destruímos?", mas sim "quantos interceptadores ainda temos?". As fábricas ocidentais não conseguem repor mísseis antiaéreos na mesma velocidade com que o Irã pode produzir mísseis de ataque. Assim que os estoques de defesa começarem a rarear, o céu deixará de ser um território seguro para as forças americanas e israelenses. A munição vai acabar. E quando a munição acaba, o show termina. O que resta é uma vulnerabilidade absoluta, um exército supermoderno com os olhos vendados, incapaz de se proteger da chuva de ferro e fogo que virá.

Enquanto a capacidade defensiva do Ocidente se esvai, o Irã poderá contar com a sua principal arma ofensiva, que não é apenas tecnológica, mas geográfica. O Irã é um planalto imenso, uma fortaleza natural com o tamanho da soma de França, Espanha, Alemanha e Itália. É um país de desertos escaldantes, cadeias montanhosas como os montes Zagros, que funcionam como muralhas naturais, e uma profundidade territorial que engole exércitos. Invadir o Irã seria um pesadelo logístico que faria a guerra do Vietnã parecer uma excursão de fim de semana. Não há força no mundo capaz de ocupar e controlar um território de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, com 90 milhões de habitantes, onde a língua, a cultura e a religião forjam uma identidade nacional poderosa e resistente. Essa população não é um número abstrato; são 90 milhões de potenciais combatentes, 90 milhões de pessoas que cresceram sob sanções e ameaças, e que veem qualquer intervenção externa como uma confirmação de todos os seus medos e um chamado à resistência.

Diante da impossibilidade de uma invasão terrestre, restaria aos EUA e a Israel o estrangulamento econômico. Mas é aqui que o jogo vira, e a mesa se parte sobre a cabeça dos agressores. O Irã não está sentado passivamente esperando o bloqueio. Ele tem uma chave mestra na mão: o Estreito de Ormuz. Por essa garganta estreita, ladeada pelo território iraniano, escoa cerca de um quinto do petróleo mundial. A ameaça de fechar o Estreito sempre foi uma carta na manga de Teerã, mas numa guerra aberta, essa carta é jogada na primeira rodada. O Irã não precisa nem sequer afundar navios-tanque de forma contínua; basta acionar minas, lançar mísseis contra alguns alvos estratégicos ou, simplesmente, demonstrar que a passagem não é segura. O efeito sobre o preço do petróleo será instantâneo e catastrófico. Mas o problema para os EUA vai muito além do preço do combustível na bomba.

A economia americana já se encontra num estado de fragilidade crônica, corroída por décadas de desindustrialização, uma dívida pública que ultrapassa os 40 trilhões de dólares e uma inflação que corrói o poder de compra das famílias. Um choque energético da magnitude do fechamento de Ormuz não sería apenas um pontinho negativo no gráfico do PIB; mas um golpe de misericórdia num paciente já debilitado. A gasolina vai disparar, o preço dos alimentos irão explodir, o custo de transporte de qualquer mercadoria vai tornar a economia inviável. O "show" da guerra relâmpago dará lugar a uma crise exponencial, com filas nos postos de gasolina, fábricas parando e um desemprego em massa. A população americana sentirá sua vida desmoronar e a pressão sobre o governo se tornará insustentável. A guerra de longa duração, que os EUA não podem sustentar militarmente, tornar-se-á também uma guerra que o eleitorado americano não pode sustentar economicamente.

Em suma, acreditar numa vitória americana sobre o Irã é um exercício de miopia estratégica. É confundir o trailer de um filme de ação com a realidade complexa de um conflito assimétrico. O show de decapitação, pensado para as eleições de meio de mandato, vai colidir com a solidez granítica da geografia iraniana, com a determinação dos seus 90 milhões de habitantes e com a lógica implacável da logística. Os mísseis americanos vão acabar, os interceptadores vão rarear, enquanto os drones e mísseis iranianos continuarão a fluir das fábricas como água de uma nascente. O Estreito de Ormuz vai estrangular a economia global e aprofundar as fraturas de uma América já dividida e endividada. A guerra que começou como um espetáculo para consumo interno terminará como um atoleiro sem fim, onde a única certeza é a de que o gigante, ao subestimar o seu adversário, descobrirá que nem todo show pode ter uma segunda temporada, especialmente quando o palco é o solo acidentado e inexpugnável da Pérsia.

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