A guerra já
começou. Não nos termos clássicos de uma declaração formal seguida de invasão
por terra, mas numa escalada de ataques e bombardeios aéreos, sabotagens e ameaças
mútuas que ultrapassou o ponto de não retorno entre o Irã e o eixo formado por
Estados Unidos e Israel. O que se desenha no horizonte, porém, não é a rápida e
cirúrgica vitória que os estrategistas de Washington e Tel Aviv costumam vender
para as suas populações. Muito pelo contrário, o que se anuncia é um atoleiro
estratégico de proporções bíblicas para as forças ocidentais, um conflito que
exporá a fragilidade da pujança militar americana quando confrontada com uma
nação coesa, um território vasto e inóspito, e uma determinação forjada em
décadas de resistência. Acreditar que os Estados Unidos podem vencer uma guerra
contra o Irã é subestimar a geografia, a demografia e, acima de tudo, a
logística de um conflito moderno, ao mesmo tempo que se superestima o poder do
mero espetáculo.
Em Hollywood, o show e o espetáculo
são tudo. As câmeras capturam explosões coreografadas, generais de peito
estufado em salas de situação iluminadas por telas de alta definição, e mísseis
inteligentes que entram pela janela de um prédio sem causar danos colaterais.
As plateias saem do cinema convencidas de que a máquina de guerra americana é
invencível, uma força da natureza capaz de resolver qualquer problema em 90
minutos, com direito a final feliz e bandeiras ao vento. A realidade, contudo,
é um roteirista muito mais cruel e impiedoso. A realidade é o deserto, a
montanha, a cadeia de suprimentos, o desgaste e a morte que não segue horário
comercial. A guerra que se avizinha contra o Irã foi concebida, em grande
parte, como um espetáculo de decapitação. A ideia, acalentada por setores mais
radicais do governo israelense e endossada por alguns falcões em Washington,
era a de que uma campanha de ataques precisos e fulminantes poderia eliminar as
lideranças do regime em Teerã, destruir suas instalações nucleares e, num passe
de mágica, fazer o governo colapsar como um castelo de cartas. O timing dessa
fantasia não é acidental: a necessidade de um show de força tem um destinatário
certo, o eleitorado americano, com as eleições de meio de mandato no horizonte.
Um triunfo rápido no exterior, uma imagem de poder inconteste, poderia ser a
muleta política que Trump precisa para segurar o avanço da oposição. É a lógica
do blockbuster aplicada à
geopolítica: criamos um inimigo, construímos um clímax com efeitos especiais
(os mísseis) e esperamos os créditos subirem com a aprovação popular.
Só que o Irã não é um cenário de
Hollywood, e seus líderes não são atores coadjuvantes à espera de seu destino
nas mãos do herói americano. A guerra de decapitação, o show pirotécnico, pode
até funcionar na tela, mas na vida real ela esbarra no primeiro obstáculo: o
que vem depois do show? O que acontece quando o presidente inimigo não está
mais lá, mas 90 milhões de pessoas acordam no dia seguinte com um ódio ainda
mais profundo e uma convicção inabalável de que precisam defender cada palmo do
seu solo? É aí que a fantasia do ataque cirúrgico dá lugar à realidade brutal
da guerra de longa duração. E é precisamente nesse cenário de longo prazo que a
superioridade tecnológica de Israel e dos EUA começa a se desintegrar, vítima
de seu próprio veneno: a dependência de munição de alta tecnologia.
A defesa antiaérea moderna, aquela
que protege as bases americanas no Golfo e as cidades israelenses, é um sistema
devorador de recursos. Cada míssil interceptador, como o famoso Arrow ou o
Patriot, custa milhões de dólares. Cada drone iraniano ou míssil de cruzeiro,
por outro lado, custa uma fração desse valor. O Irã aprendeu com a guerra
assimétrica. Ele não precisa construir uma frota de caças F-35 para competir;
ele precisa construir arsenais de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e
drones que possam ser lançados aos milhares. A estratégia iraniana é clara:
saturar as defesas. Num conflito prolongado, a pergunta que ecoará nos bunkers
do Pentágono e de Tel Aviv não será "quantos alvos destruímos?", mas
sim "quantos interceptadores ainda temos?". As fábricas ocidentais
não conseguem repor mísseis antiaéreos na mesma velocidade com que o Irã pode
produzir mísseis de ataque. Assim que os estoques de defesa começarem a rarear,
o céu deixará de ser um território seguro para as forças americanas e
israelenses. A munição vai acabar. E quando a munição acaba, o show termina. O
que resta é uma vulnerabilidade absoluta, um exército supermoderno com os olhos
vendados, incapaz de se proteger da chuva de ferro e fogo que virá.
Enquanto a capacidade defensiva do
Ocidente se esvai, o Irã poderá contar com a sua principal arma ofensiva, que
não é apenas tecnológica, mas geográfica. O Irã é um planalto imenso, uma
fortaleza natural com o tamanho da soma de França, Espanha, Alemanha e Itália.
É um país de desertos escaldantes, cadeias montanhosas como os montes Zagros,
que funcionam como muralhas naturais, e uma profundidade territorial que engole
exércitos. Invadir o Irã seria um pesadelo logístico que faria a guerra do
Vietnã parecer uma excursão de fim de semana. Não há força no mundo capaz de
ocupar e controlar um território de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, com 90
milhões de habitantes, onde a língua, a cultura e a religião forjam uma
identidade nacional poderosa e resistente. Essa população não é um número
abstrato; são 90 milhões de potenciais combatentes, 90 milhões de pessoas que
cresceram sob sanções e ameaças, e que veem qualquer intervenção externa como
uma confirmação de todos os seus medos e um chamado à resistência.
Diante da impossibilidade de uma
invasão terrestre, restaria aos EUA e a Israel o estrangulamento econômico. Mas
é aqui que o jogo vira, e a mesa se parte sobre a cabeça dos agressores. O Irã
não está sentado passivamente esperando o bloqueio. Ele tem uma chave mestra na
mão: o Estreito de Ormuz. Por essa garganta estreita, ladeada pelo território
iraniano, escoa cerca de um quinto do petróleo mundial. A ameaça de fechar o Estreito
sempre foi uma carta na manga de Teerã, mas numa guerra aberta, essa carta é
jogada na primeira rodada. O Irã não precisa nem sequer afundar navios-tanque
de forma contínua; basta acionar minas, lançar mísseis contra alguns alvos
estratégicos ou, simplesmente, demonstrar que a passagem não é segura. O efeito
sobre o preço do petróleo será instantâneo e catastrófico. Mas o problema para
os EUA vai muito além do preço do combustível na bomba.
A economia americana já se encontra
num estado de fragilidade crônica, corroída por décadas de desindustrialização,
uma dívida pública que ultrapassa os 40 trilhões de dólares e uma inflação que
corrói o poder de compra das famílias. Um choque energético da magnitude do
fechamento de Ormuz não sería apenas um pontinho negativo no gráfico do PIB;
mas um golpe de misericórdia num paciente já debilitado. A gasolina vai
disparar, o preço dos alimentos irão explodir, o custo de transporte de
qualquer mercadoria vai tornar a economia inviável. O "show" da
guerra relâmpago dará lugar a uma crise exponencial, com filas nos postos de
gasolina, fábricas parando e um desemprego em massa. A população americana
sentirá sua vida desmoronar e a pressão sobre o governo se tornará
insustentável. A guerra de longa duração, que os EUA não podem sustentar
militarmente, tornar-se-á também uma guerra que o eleitorado americano não pode
sustentar economicamente.
Em
suma, acreditar numa vitória americana sobre o Irã é um exercício de miopia
estratégica. É confundir o trailer de um filme de ação com a realidade complexa
de um conflito assimétrico. O show de decapitação, pensado para as eleições de
meio de mandato, vai colidir com a solidez granítica da geografia iraniana, com
a determinação dos seus 90 milhões de habitantes e com a lógica implacável da
logística. Os mísseis americanos vão acabar, os interceptadores vão rarear,
enquanto os drones e mísseis iranianos continuarão a fluir das fábricas como
água de uma nascente. O Estreito de Ormuz vai estrangular a economia global e
aprofundar as fraturas de uma América já dividida e endividada. A guerra que
começou como um espetáculo para consumo interno terminará como um atoleiro sem
fim, onde a única certeza é a de que o gigante, ao subestimar o seu adversário,
descobrirá que nem todo show pode ter uma segunda temporada, especialmente
quando o palco é o solo acidentado e inexpugnável da Pérsia.
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