sábado, 28 de abril de 2018

LA SOMME ET LE RESTE - AMIGOS BRASILEIROS



Esta nova edição de La somme et e reste é dedicada ao espaço e ao urbano, principalmente através de textos dos nossos amigos brasileiros lefebvrianos (o que confirma a vitalidade dos estudos lefebvrianos naquele país, especialmente em São Paulo). Seus autores bebem na fonte dos escritos lefebvrianos sobre a cidade e o espaço, mas também n’O manifesto diferencialista (que merece uma reimpressão, como também as outras obras publicadas pela Gallimard) ou em Une Pensée devenue monde, o que mostra a interdependência de conceitos e teorias lefebvrianas, em sua obra dialética, do qual devemos encontrar os movimentos de conjunto sob pena de romper a sua coerência e reduzir o seu alcance.

La somme et le reste, no. 28, Février 2018

Um grande obrigado a Jean-Yves Martin pela leitura cuidadosa dos textos.

A partir de agora, Armand Ajzenberg, depois de meritórios anos de estudos lefebvrianos, passa o bastão a Sylvain Sangla. Se você deseja propor textos para a próxima edição de nossa revista, entrar em contato com ela.

Armand Ajzenberg e Sylvain Sangla.

- Ricardo Baitz: Le travail de terrain en géographie urbaine: de la quantité à la qualité, ou des procédures formelles à l’implication et à la transduction. 02

- Odette Carvalho de Lima Seabra: L’urbain est le sens historique de La société moderne. 15

- Amélia Luisa Damiani : (Dés)accords entre La géographie et l’urbain La contribution d’Henri Lefebvre. 48

- Jean Pires de Azevedo Gonçalves: Espace et paysage, ébauches pour l’étude de l’ »espace » et du « paysage ».75 (Colaborador deste blog).

- Marcio Rufino Silva: De la différence et Du différentialisme: pour une critique de l’homogénéisation. 93

sexta-feira, 20 de abril de 2018

CHINA


China: o “socialismo de mercado” e o XIX Congresso do PCCh


No último dia 18 de Outubro, na cerimônia de abertura do XIX Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCh), o presidente Xi Jinping, num discurso de quase quatro horas e meia, antecipou uma suposta “nova era”, na qual promete uma China moderna e próspera sob o controle do Partido.

Foi um discurso recheado de lugares comuns, um discurso genérico, vago e impreciso em questões cruciais, mas que mostrou o grau da crise e os rumos. Xi Jinping chegou a falar na construção do socialismo, no modelo chinês, fez várias referências ao marxismo-leninismo embora nada disso tenha conexão com a realidade chinesa.

O chamado “socialismo de mercado” na China, não passa de uma máscara para encobrir a dominação da camada burocrática burguesa que controla o País. A China hoje funciona fundamentalmente como um capitalismo de estado com regime de partido único, contra os operários (que somam mais de 300 milhões), os camponeses (que somam mais de 700 milhões) e os trabalhadores em geral.

A abertura econômica da China começou no início da década de 1971 com a visita do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, e foi colocada efetivamente em prática por Deng  Xiaoping, após a morte de Mao Tse Tung. Os instrumentos de poder dos trabalhadores, mesmo que se trata de um estado operário deformado foram sendo desmontados até o ponto de hoje terem praticamente desaparecido. Mas a Revolução de 1949 possibilitou o fortalecimento do estado que hoje é responsável por grandes empresas que atuam nos setores de energia, construção petróleo e armas fundamentalmente. O grosso da produção chinesa é controlado por monopólios que na década de 1980 pagavam em torno a US$ 30 mensais aos operários chineses mortos de fome. Hoje, esse salário aumentou em quase quinze vezes, nos três principais polos industriais da China (Pequim, Xangai e Canton) e se converteu num dos mecanismos que levaram à implosão das políticas neoliberais em 2008.

Uma aula prática de “etapismo”

A burocracia burguesa exerce o poder em benefício próprio, obviamente, apesar da propaganda demagógica de que estaria provendo o necessário progresso econômico capaz de liberar as forças produtivas e o desenvolvimento sustentável para permitir um avanço no sentido de conquistar autonomia plena, possibilitando então o socialismo. De fato, é uma exposição prática de para onde conduz o “etapismo”, a ideia de que a luta pelo socialismo, hoje na época do imperialismo, deve ser antecedida por uma etapa anterior.

No discurso de Xi Jinping não há lugar para a luta de classes, a ditadura do proletariado, o imperialismo etc. Fala do estado chinês como se este fosse um ente absoluto, sem caracterizá-lo como elemento proveniente da luta de classes e do avanço do processo revolucionário, mas como se fosse um semi-deus a conduzir o povo chinês. Não há a diferenciação entre as classes sociais com tarefas determinadas no progresso material e no desenvolvimento político. Não há distinção entre burguesia e proletariado. Demagogicamente, faz referência à famigerada palavra de ordem do tempo da revolução, de unidade de operários e camponeses na implantação e consolidação de um regime socialista.

O documentário “China Blue”, por exemplo, expões de maneira bastante reveladora a crueldade e a ganância dos patrões, que trabalham para os monopólios, as condições precárias e insalubres a que são submetidos os trabalhadores nas linhas de manufatura, principalmente nas regiões mais pobres do País.

“Socialismo” de mentirinha

O discurso de Xi JInping lança mão de um palavrório bonito, com referências a categorias do marxismo para embelezar e glamourizar a política da camada dominante. O Congresso do Partido acontece de cinco em cinco anos, com muita pompa, foice e martelo imensos atrás de um palco de enormes proporções. Mas o comunismo, na China, se tornou um fato longínquo e o uso dos símbolos só se justificam como outdoor para esconder uma dura realidade. desbotada, e deixou apenas um pouco de sua simbologia.

O estado chinês não é operário, não está em benefício da maioria da população, dos trabalhadores, não representa a ditadura do proletariado contra a burguesia. Em O Estado e a Revolução, o líder bolchevique, Vladimir Ilich Lenin, orientava tomar de assalto o Estado para colocá-lo primeiro a serviço da política da classe operária, contra a burguesia de conjunto, e depois, progressivamente, esvaziá-lo de sentido à medida que o poder fosse completamente transmitido aos conselhos populares.

É o contrário do que acontece na China, onde o estado, aparatado por uma camarilha de usurpadores, nega o poder ao povo e governa para a apropriação de riquezas de uma elite capitalista. E isso por longas décadas, subvertendo o sentido da revolução e do poder operário. O Exército acabou sendo profissionalizado e burocratizado, tendo liquidado com as milícias operárias e camponesas. Os órgãos de poder soviético, que tinham sido impostos de maneira burocrática após 1949, começaram a ser liquidados após a Revolução Cultural, no início da década de 1970. O Partido Comunista, que liderou a grande revolução de 1949, como um partido-exército, é um organismo que pertence a burocracia burguesa, que está integrado ao estado e que tem como função aplicar a política do chamado “socialismo de mercado” em benefício dessa mesma camada burguesa.

O que está colocado para a burocracia chinesa não é a superação das forças do capital em vista de uma apropriação coletiva da produção, mas a apropriação privada, valendo-se do autoritarismo proveniente de uma revolução degenerada; uma revolução que não apenas parou em determinado limite, mas que retrocedeu e traiu escandalosamente a maior classe trabalhadora do mundo.

Mais uma vez, a “luta contra a corrupção”

Xi Jinping, de 64 anos de idade, se transformou na maior liderança política das últimas décadas na China; foi reconduzido à presidência por mais cinco anos, quando poderá novamente ser reeleito.

Uma das tônicas do discurso foi o combate à corrupção no partido, em suas diversas instâncias. Um discurso previsível, para fazer média com a população. “Atualmente, o combate à corrupção permanece severo e complexo. Por isso, temos de manter a nossa determinação firme como rocha para consolidar o ímpeto avassalador e conquistar a vitória esmagadora contra a corrupção.” Mas além do discurso foi a política que lhe permitiu controlar os demais grupos políticos na cúpula do PCCh.

A “luta contra a corrupção” é a política aplicada pela direita em todo mundo, desde sempre, para avançar na direção de golpes de estado, quando os mecanismos parlamentares se esgotam. Um papel similar tem cumprido na China. O Partido Comunista Chinês tem mais de 80 milhões de filiados. É uma máquina poderosíssima, que aumentou ainda mais a centralização do poder a partir do Comitê Central burocrático com o objetivo de fortalecer o regime perante o crescente contágio do aprofundamento da crise capitalista mundial.

A China não é um estado operário

Alguns grupos de esquerda consideram que a China seria, supostamente, um estado operário. Essa é falsa é até mesmo ridícula.

Na China, o estado operário acabou faz tempo. Nem sequer há previdência privada. As leis trabalhistas começaram a valer há menos de cinco anos. A especulação financeira está gigantesca, assim como a integração com o mercado mundial.

Há lojas do MacDonald’s em vários lugares; Starbucks em grandes quantidades. O que há na China, é um forte setor estatal, fundamentalmente, e não unicamente, na construção civil e a indústria armamentista. A integração ao mercado de grandes petrolíferas e outras grandes empresas que disputam o mercado em concorrência com o imperialismo é cada vez mais absoluta.

A burocracia estatal chinesa tem um peso grande na economia, mas mantém acordos com as empresas imperialistas e nacionais. No período mais recente, tem atingido um caráter muito mais bonapartista com a entrada de Xi Jinping no governo, como presidente, como figura política número um. Xi Jinping tem barrado outros setores dessa burocracia, fortalecendo o bonapartismo, e tem imposto uma série de condições com o objetivo de apertá-la e fortalecer a frente necessária para fazer frente ao aprofundamento da crise. A China é uma potência regional em acelerado crescimento.

O grosso das manufaturas é controlado pelos monopólios e tem estado no centro da política econômica das últimas décadas com o objetivo de conter a queda da taxa de lucro.

Da censura ao nacionalismo

Uma série de aplicativos e sites não funcionam como, por exemplo, o YouTube e o Facebook. O Estadão e o Jornal El Pais da Espanha estão bloqueados. O site da Globo funciona de maneira muito lenta. Muitos estrangeiros costumam usar VPNs (Virtual Private Network) para ter esse acesso, mas a população em geral usa os aplicativos alternativos disponibilizados pelo governo. Por exemplo, em vez de WhatsApp eles usam o WeChat que é amarrado a vários outros aplicativos, como o Alipay. O Alipay permite a realização de pagamentos a partir do celular inclusive em comércios pequenos e barracas de rua. A China é o país onde menos se usa dinheiro físico.  

Portanto, a espionagem e a censura do imperialismo, que acontece a partir das redes sociais, por meios de aplicativos como o Facebook, o YouTube e o WhatsApp tem um impacto muito menor na China.

O aprofundamento da crise capitalista não aparece muito na China por conta do desenvolvimento tendencial nos últimos anos, e, também, da política do governo de movimentar o consumo por meio de recursos públicos. A população está pacificada no geral; não existem grandes movimentações, apesar da greve da Foxconn, em setembro de 2014, ter passado por cima dos sindicatos do governo.

O sindicalismo é diretamente atrelado ao governo. Não existem sindicatos independentes; também não existem partidos políticos independentes. O partido que existe é o Partido Comunista Chinês que faz toda uma campanha a favor do socialismo, da democracia, com grandes cartazes pelas ruas etc. A população não acredita muito, mas vai levando.

A pacificação do movimento de massas na China e região

Na China, o sindicalismo é estatal. O movimento operário foi atrelado ao estado e se encontra praticamente paralisado, assim como acontece em todo o mundo. Eventualmente essa burocracia é ultrapassada por movimentos espontâneos dos trabalhadores, como aconteceu em 2013 na enorme greve da FoxConn, a empresa taiwanesa localizada no sul do País, e nos protestos contra a contaminação ambiental.

O único partido político legalizado é o Partido Comunista Chinês que, na propaganda, flerta com a democracia, a justiça social e inclusive com o socialismo.

As massas se encontram pacificadas por causa da geração de empregos que tem acontecido nas últimas décadas. Mais recentemente, na base, se encontra um gigantesco programa público de obras públicas que tem gerado, como efeito colateral, um gigantesco endividamento.

Neste momento, a China se encontra numa situação estável, da mesma maneira que acontece com os demais países na região Ásia-Pacífico, começando pelo Japão e a Coreia do Sul. Por exemplo, o governo Chinês tem evitado ao máximo atacar os trabalhadores e tem se esforçado em manter o nível de emprego com o objetivo de manter as massas pacificadas.

A mesma política pode ser vista no Japão em relação à questão da subida de impostos ao consumo, que passou, nos últimos dez anos, de 2,5% para 7%, apesar do governo querer aumenta-los para 15%. A movimentação tem sido extremamente cautelosa.

A Coreia do Sul é um país bastante estável e desenvolvido, mas está inundado de bases militares norte americanas, da mesma maneira que o Japão; há 50 mil soldados norte-americanos no Japão e 30 mil na Coreia do Sul.

Houve uma tentativa do imperialismo de colocar o Vietnã como uma alternativa à China, devido aos salários menores, principalmente com a entrada na OMC (Organização Mundial do Comercio) em 2007. Mas com a integração ao mercado mundial, os preços das commodities (matérias primas) têm disparado, impactando em cheio a capacidade de compra dos trabalhadores. Os salários saíram de US$ 40 e, hoje em dia, já se encontram acima dos US$ 200 e US$ 300 dependendo da região do País. O aumento dos salários também aconteceu no Camboja, que é um país hiper atrasado e onde há muito investimento chinês, mas que também está submetido às mesmas pressões do mercado mundial.

Na Tailândia, que é o país mais desenvolvido do Sudeste Asiático, a situação se encontra bastante estabilizada apesar do golpe militar. A origem do “sucesso” tailandês remonta à guerra do Vietnam, quando os Estados Unidos usaram o País como plataforma de bombardeio do Vietnam, Laos e Camboja. Após o colapso capitalista de 2008, e, principalmente, após o desastre de Fukushima, importantes plantas industriais japonesas migraram para a Tailândia, assim também como para a Malásia, para as Filipinas e para a Indonésia, onde os salários são muito menores que no Japão ou na Coreia do Sul.

Agora a bola da vez é Myammar, a antiga Birmânia, como alternativa de mão de obra barata, para a política do imperialismo de semi escravizar os trabalhadores com o objetivo de estabilizar as taxas de lucro. Os chineses também estão envolvidos para tentar manter a lucratividade e se consolidar como plataforma de exportação a partir do Novo Caminho da Seda. Eles poderão aprofundar ainda mais essa política quando o impacto da robótica na China começar a aparecer. O que ainda deverá ser visto é se, no contexto da piora generalizada da crise capitalista, a China conseguirá transformar-se numa economia que gire fundamentalmente em cima do próprio consumo interno e qual será o impacto disso.

Mas a dúvida fundamental, neste momento, sobre a Ásia é para onde vai essa “pax asiática”, que também envolve a Índia. Sem dúvida, neste momento, a China representa um dos grandes pontos de estabilidade do capitalismo mundial. Se bem o capitalismo nos países europeus, no Japão e nos Estados Unidos apresenta a economia um pouco engasgada, na China o que tem acontecido e continua acontecendo é um grande desenvolvimento capitalista, que agora começou a engasgar um pouco, em cima de um brutal endividamento generalizado. Mas num comparativo de hoje para 40 anos atrás, há um desenvolvimento descomunal.

O mesmo, mas em proporção muito menor, se poderia falar do Vietnã, um pouco menos de Camboja, um pouco menos sobre a Tailândia e a Malásia.

Portanto, há ainda uma certa gordura a ser queimada, com a qual o capitalismo poderia continuar funcionando com uma relativa pacificação das massas durante um período. Mas, por outra parte, a continuidade dessa situação é imprevisível. O que fez detonar a crise de 2008 foi a crise na especulação imobiliária, em um setor específico da especulação financeira, que acabou se espalhando para o mundo. Para onde vai o capitalismo mundial? A avaliação deve ser realizada conforme o desenvolvimento da própria crise. O grau de parasitismo é enorme. Somente os nefastos derivativos financeiros movimentam dez vezes mais que o PIB mundial. Continua a crescer o parasitismo especulativo.

A relação entre o desenvolvimento do parasitismo e o fator de estabilização da China na economia mundial, se relaciona com até que ponto as massas continuarão paralisadas e pacificadas, principalmente os operários chineses e os operários dos países desenvolvidos.

É quase impossível que os operários se mantenham paralisados por um longo período. Isso significaria que não existem mudanças qualitativas, apenas mudanças quantitativas, o que seria um absurdo. O desenvolvimento social não é assim. Em algum momento, um grande colapso capitalista vai estourar. E quanto mais demorar, o estouro tende a ser maior. Isso é uma das leis da dialética. O estouro de 2008 esteve relacionado com o acúmulo da crise, com a queda das taxas de lucro, com as guerras do Vietnã e do Iraque etc. Todos os problemas de crise estrutural estão na base do desenvolvimento da crise capitalista mundial, que temos como tarefa analisar em perspectiva no próximo período.

Os negócios da China

Como ficou claro no 19º Congresso do Partido Comunista Chinês, que aconteceu em outubro, o governo irá abrir ainda mais a China para a especulação financeira a partir de Xangai e de Hong Kong, que é uma zona especial, que foi devolvida pelos ingleses em 1998 junto com Macau (que era colônia de Portugal), neste caso em 1997. Estas duas cidades, durante 30 anos, irão manter o regime, mas depois se integrarão à China Continental.

Os chineses para estabilizar a taxa de lucro, como uma burguesia menor, são obrigados a se integrar ao mercado capitalista mundial. Eles tentam aumentar a participação no verdadeiro coração da economia capitalista, a especulação financeira, internacionalizando o iuane. O problema que enfrentam é que o mercado mundial se encontra dividido e o foi por meio de sangrentas guerras.

Não por acaso, os Estados Unidos têm alocados no Mar do Sul da China e região a metade do orçamento do Pentágono, com o principal motivo de conter o expansionismo chinês. Trata-se de uma questão de vida ou morte tanto para o imperialismo norte americano quanto para os chineses. O Estreito de Malacca, entre a Malásia e a Indonésia, por exemplo, é controlado pelos porta-aviões norte-americano e por lá trafega mais de 70% do consumo de petróleo da China. Há também as bases militares na Coréia do Sul, no Japão e em Guam, assim como a tentativa de acirrar as disputas territoriais no Mar do Sul da China, principalmente, para justificar a política belicista.

Um canteiro de obras com os pés de barro

Na China, os salários hoje, dependendo da região, podem ser de várias centenas ou até milhares de dólares. Por exemplo, em Xangai, a principal cidade da China, em Beijing, a capital, ou em Canton e Shenzen, os salários têm disparado sob a pressão do aumento do custo de vida que se relaciona, em grande medida, com o aumento dos preços dos alimentos e das matérias primas, por causa da especulação financeira, assim como ao alto custo da moradia por causa da especulação imobiliária. Ao mesmo tempo que ganham salários equivalentes a R$ 1000 ou até R$ 600 os trabalhadores chineses vêm as contradições aumentarem.

No entanto, elas ainda não chegaram a explodir devido às monumentais obras que são realizadas em todas as partes do país, que mais se parece à um canteiro de obras. As principais cidades são limpas e organizadas. O centro de Xangai apresenta uma urbanística impressionante, de prédios futurísticos etc., que poderia lembrar Singapura, Kuala Lumpur (Malásia) ou mesmo Dubai. A pobreza nas ruas, nas principais cidades, aparece pouco, diferente do que acontece no Brasil.

Por meio de um investimento muito grande a China tem feito desde 2009,  através de um programa de recursos públicos para gerar obras públicas, uma grande movimentação da economia. O primeiro grande direcionamento de recursos públicos para obras de infraestrutura  aconteceu em 2009, com US$ 800 bilhões de dólares. O objetivo era minimizar o impacto da crise capitalista mundial que tinha provocado a sensível redução das exportações. Mas nada na vida e na sociedade está isento de um custo.

A partir de 2012, com o novo aprofundamento da crise mundial e o esgotamento do investimento de 2009, o governo chinês, por uma série de mecanismos, liberou recursos gigantescos para uma nova onda de obras públicas. O orçamento das províncias chegou a depender em 40% na média, das concessões de terras públicas por 99 anos, que eram destinadas à construção de aeroportos, prédios de apartamentos etc. Devido ao descontrole da especulação imobiliária, o governo tem buscado minimizar o problema disparando a especulação com títulos públicos regionais.

A China acabou atuando como um grande canteiro de obras e movimentando a economia mundial. Tanto por meio da importação de matérias primas como, por exemplo, a importação do ferro brasileiro, cobre chileno, petróleo do Oriente Médio, quanto da alta tecnologia de empresas como Erickson, Siemmens, empresas de informática e de vários outros setores que têm exportado muito para a China.

O governo chinês continua avançando na abertura da economia por meio de políticas “neoliberais”. Os investimentos nas obras de infraestrutura e na indústria têm diminuído. O endividamento dos governos locais continuou aumentando e o governo central tem sido obrigado a crescer os repasses de recursos. As pressões inflacionárias pressionam os preços e os salários. Sobre esta base, as exportações de produtos baratos continuam a perder a prioridade das políticas públicas.

O movimento grevista tem crescido, mas somente no setor privado. As políticas repressivas colocadas para “blindar” as empresas públicas ainda conseguem conter o movimento operário no setor, mas por quanto tempo?

As reformas do mercado financeiro aplicadas em Xangai, a principal cidade do País, continuam avançando, assim como a liberalização da taxa de câmbio do iuane. Mas, conforme a especulação financeira avançou, a Bolsa de Xangai foi submetida a “solavancos”.

Alguns setores estratégicos da economia, até agora controlados pelas empresas públicas, como o setor de refino do petróleo, começaram a ser abertos às empresas estrangeiras.

A capacidade de absorção de matérias primas continua reduzida, impactando os países atrasados. Às cidades fantasmas e à dificuldade para financiar as obras de infraestrutura e para escoar os imóveis novos, se soma ao crescente esgotamento da especulação financeira em cima das matérias primas. Até o ano passado, grande parte das fianças para a obtenção de empréstimos era realizada por meio de matérias primas. Estas eram simplesmente estocadas durante longos períodos, ou referenciadas por meio de títulos financeiros, como os ETFs, das bolsas futuro de mercadorias, com o objetivo de aplicá-los na especulação financeira. Agora, o aumento da recessão industrial coloca um freio sobre este tipo de operações.

Enormes reservas cambiais, enorme crise

As enormes reservas em dólares da China não são páreo para enfrentar a escalada da crise capitalista. Depois de terem crescido de US$ 142 bilhões, em 1997, para US$ 4 trilhões, em 2014, caíram em mais de US$ 500 bilhões, em 2015, e em aproximadamente mais US$ 350 bilhões, em 2016. E mais. Os US$ 3,2 trilhões restantes representam pouco mais de 25% da base monetária.

A China, assim como acontece com o capitalismo em escala mundial, não consegue implementar uma política alternativa ao neoliberalismo. Por esse motivo, deverá avançar na imposição de mais políticas neoliberais; ou seja, mais do mesmo. A política da burguesia chinesa ligada às empresas públicas enfrenta a forte queda de recursos. A livre mobilidade dos trabalhadores, que hoje é restrita, o “hukou”, seria uma delas, mas é muito difícil de aplicá-la, pois atualmente as pessoas se registram nas prefeituras e recebem delas os serviços sociais. Uma migração em massa do campo para as cidades poderia levá-los ao colapso. Portanto, tratam-se dos mesmos problemas que acontecem em escala mundial. Na Europa, eles se expressam no aumento do nacionalismo. Na China, deverão se propagar, cada vez mais, no aumento das contradições entre as regiões e as províncias.

O custo da aceleração produtiva chinesa

O custo da aceleração produtiva chinesa se relaciona, em primeiro lugar, com um alto grau de endividamento, principalmente das empresas. Segundo estatísticas do final de 2017, o endividamento das empresas chinesas é de aproximadamente US$ 18 trilhões de dólares, ou seja, 179 % do PIB. Somando a dívida das províncias e municípios, que aparece de uma maneira meio camuflada por meio da especulação de títulos públicos, financeira, o número ultrapassa os 250% da produção anual. Esse grande endividamento, por enquanto, não está se manifestando na desestabilização social. A título de exemplo, na China, a polícia não anda armada nas principais cidades, num país que tem uma população de 1,3 bilhões de habitantes. O comportamento da polícia na rua é totalmente diferente do comportamento super agressivo que acontece no Brasil; seria um comportamento quase europeu. Ainda, segundo a campanha da imprensa imperialista, a China estaria à beira da insurreição, com greves acontecendo em todos os lados. Isso não é verdade, a teoria de que a população estaria à beira de uma insurreição não é fato. Apesar das contradições sociais e diversos outros problemas, a movimentação da economia garante a estabilidade social. De vez em quando, estoura alguma greve como a que aconteceu, em 2013, na FoxConn, a empresa de Taiwan que monta os Iphone, da Apple. Mas essa notícia não vazou para a população em geral porque há uma censura grande na China, inclusive na Internet. A legislação trabalhista existe no país há apenas cinco anos e não há previdência social.

Disputas e acordos intercapitalistas

Ao mesmo tempo em que há o acirramento das contradições, também existem os acordos. O capitalismo funciona como uma espécie de ninho de cobras que disputa um bolo de ratos (as cobras comem ratos); conforme o bolo vai ficando cada vez menor por conta da crise, essa disputa se torna cada vez maior.

Os chineses tentam entrar no setor de tecnologia, compram empresas europeias, tentam comprar empresas americanas. O imperialismo europeu e americano tenta barrá-los valendo-se da espionagem, como a NSA (Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos), e os controle dos organismos internacionais, como a OMC (Organização Mundial de Comercio). Ainda não validaram que a China entrasse na OMC de maneira oficial, reconhecendo-a como uma economia de mercado o que aumentaria as dificuldades para imposições de sanções.

Essa política ficou muito evidente com as medidas contra a Huawei e ZTE, que são grandes produtoras de equipamentos eletrônicos. Há havido também a tentativa de impedir a compra de empresas de microcondutores e de robótica na Alemanha. Mas a China comprou grandes empresas do setor de alimentos.

A China no contexto da crise mundial

Um componente muito importante para compreender o aprofundamento da crise capitalista mundial é entender claramente o papel da China no mundo. Nesse sentido, se falam muitas coisas e a maior parte do que se fala não tem absolutamente nada a ver com a realidade. Há várias teorias, como, por exemplo, se diz que a China seria um estado operário deformado. Outros falam que a China é uma ditadura feroz. Outros falam que a China é subdesenvolvida. Outros falam que o povo está à beira de uma rebelião.

Após a visita do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, à China, em 1971, no pico da crise entre a China e a União Soviética, a aproximação com o imperialismo começou a se consolidar. Em 1968, chegaram a acontecer confrontos armados na fronteira e, em 1977, houve confrontos armados com o Vietnam, na época um aliado muito próximo da União Soviética, por conta da intervenção deste no Camboja. A China foi um dos pilares para a implantação do neoliberalismo no mundo, com as zonas industriais francas, que não pagavam impostos e onde os trabalhadores chineses ganhavam um salário de aproximadamente US$ 30 mensais.

A crise e o aumento das contradições com o imperialismo

A abertura econômica ao imperialismo tem na base o esgotamento do investimento em obras de infraestrutura para manter em movimento na economia, em cima de grandes repasses de recursos públicos. Essa foi a política aplicada a partir de 2009, quando foram repassados mais de US$ 750 bilhões. Os repasses foram mantidos por meio de vários mecanismos e têm gerado enormes bolhas financeiras, além de um gigantesco endividamento: o equivalente a US$ 18 trilhões em dívidas das empresas (ou 170% do PIB) e mais US$ 10 trilhões em dívidas públicas, segundo as estatísticas oficiais.

O chamado Novo Caminho da Seda é a saída chinesa para enfrentar a crise. Mas se trata de uma “saída” que aumenta as contradições do capitalismo. Numa crise de superprodução, essa política representa a aceleração da circulação de mercadorias por meio de criação de vias rápidas da China à Europa, o grande centro consumidor, incorporando os países da região, da Ásia do Sul e Central e do Oriente Médio. A Rússia funciona como pivô dessa política.

Mas a política da abertura para a especulação financeira avança a passos largos a partir de Xangai, desde o XVIII Congresso do PCCh. Não há como levar a cabo uma política alternativa ao grande capital, que controla o mundo, sem derruba-lo nos grandes centros. O mercado é altamente globalizado. Por isso, a revolução operária somente pode ter uma caráter mundial.

O imperialismo norte-americano busca impedir a expansão imperialista da China, principalmente limitando o acesso às compras de empresas de alta tecnologia e criando um bloqueio militar. O Pentágono alocou a metade do orçamento nos porta-aviões e nas bases que mantêm na região Pacífico da Ásia. Os chineses têm sido obrigados a dispararem os gastos militares para fazerem frente à ameaça e para defender as novas posições econômicas em vários países.

Mar do Sul da China, uma zona de risco

O aprofundamento da crise também se revela na crise do imperialismo no Mar do Sul da China. Existem várias reivindicações territoriais dos países da região. A reivindicação da China sobre essas águas se intercepta com as reivindicações do Vietnã, de Taiwan, de Brunei, da Malásia, do Japão, das Filipinas, etc. O caos aumenta por causa da presença maciça da máquina de guerra dos Estados Unidos na região tentando controlar a situação, o que acontece de uma maneira extremamente complicada, em cima de grandes contradições.

A China depende, em grande medida, para seu abastecimento de gás e de petróleo, da passagem da energia pelo Estreito de Málaca, que fica localizado entre a Península da Malásia e a Ilha de Sumatra e que é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. Esse estreito tem apenas 30 km e é controlado pelos porta-aviões norte americanos. E o que significa esse controle? Que a China poderia ser enforcada com relativa facilidade. Isso tem muito a ver com a política do chamado Novo Caminho da Seda chinês, que visa aumentar as vias de fornecimentos de produtos manufaturados para a Europa, por meio de várias vias. Por exemplo, por meio da via que passa pelo Cazaquistão, a partir do extremo oeste do território chinês, a Província de Xinjiang (região autônoma da República Popular da China), e que vai para Moscou, e daí para Alemanha, Inglaterra, etc. Por meio de  integração de trens, trens-bala, etc., a China já consegue mandar produtos para Londres em 22 dias, tendo baixado o prazo que era de 35 dias, e continua diminuindo.

Essa política é de extrema crise, porque a China está sofrendo uma alta dos salários enorme, que passaram de US$ 30 na década de 1980 para aproximadamente, hoje, dez ou vinte vezes mais, que é o que ganha o trabalhador chinês numa grande empresa. Ao mesmo tempo, o enorme aumento da robotização significa que a composição orgânica do capital tem criado e criará em médio prazo enormes problemas.

Qual é o impacto da China sobre o Brasil?

O Brasil é uma potência regional em decadência, principalmente devido ao grande ataque do imperialismo que está destruindo as empresas nacionais e tentando colocar um governo completamente pró imperialista.

A China tem funcionado como um receptáculo de matérias primas brasileiras, mas a tendência geral é que, com a crise, as exportações brasileiras possam ser afetadas, como aconteceu com o minério de ferro após a crise de 2008, por conta da menor capacidade de absorção do mercado chinês.

Hoje, há liquidez nos mercados mundiais devido à inundação com moeda podre pelos bancos centrais dos países imperialistas, principalmente os Estados Unidos. O Brasil se encontra cada vez mais apertado pela especulação financeira, assim como acontece com toda a América Latina, que é considerada pelo imperialismo norte-americano como seu próprio quintal. Esse aperto tende a repetir, em forma de espiral dialética, a crise dos anos 1980. A qualquer momento, o Brasil poderá enfrentar uma nova crise de capacidade de pagamento, de rolagem dos serviços da ultra corrupta e nunca auditada dívida pública. Um novo colapso capitalista mundial, que aparece de maneira cada vez mais clara no horizonte, tende a potencializar, e muito, este processo.

Fonte: Gazeta Revolucionária

domingo, 1 de abril de 2018

RÚSSIA: O ARSENAL DE PUTIN - O URSO DESPERTOU OUTRA VEZ?



As revelações impressionantes de Putin sobre os novos armamentos russos

The Saker

Se você ainda não ficou sabendo, então confira o discurso anual de Putin para a Assembleia Federal transmitido em rede nacional. O que me surpreendeu, e a muitos outros, foram os novos armamentos que Putin anunciou.

Primeiro, Putin confirmou que o Sarmat ICBM substituirá o antigo mas formidável SS-18 "Satan". Depois, tratou dos novos equipamentos de guerra:

1. Um míssil de cruzeiro movido a energia nuclear de alcance basicamente ilimitado.

2. Um submarino não tripulado nuclear de alcance intercontinental, com velocidade muito alta, propulsão silenciosa e capaz de submergir a grandes profundidades.

3. Um míssil hipersônico que atinge velocidades 10 vezes maiores do que a do som ou 10 Mach (número Ma é uma medida adimensional de velocidade definida pela relação entre a velocidade de um objeto e a velocidade do som – de Ernst Mach), com alcance de 2 mil quilômetros (chamado: Kinzhal, punhal).

4. Um novo míssil estratégico capaz de velocidades de 20 Mach (chamado: Avangard).

Todos estes armamentos podem ser carregados com ogivas nucleares ou convencionais. Apenas pense nas implicações! Isso não significa somente o fato de que todo o esforço da ABM dos EUA é desde já nulo e inútil; significa também o fato de que a partir de agora a frota de porta-aviões dos EUA só poderá ser acionada contra pequenas nações indefesas!

No momento, eu simplesmente não tenho tempo para escrever uma análise completa das impressionantes implicações verdadeiramente tectônicas deste anúncio, então reportarei ao meu amigo especialista em guerra naval Andrei Martyanov e replicarei sua reação inicial a apenas um desses armamentos:

É oficial e acabou.

Enquanto toda a mídia ocidental ainda está tremendo (a sua incompetência é uma das causas disso) diante do discurso de Vladimir Putin, que demonstrou, entre muitas outras coisas, o novo míssil balístico RS-28 Sarmat, um novo sistema bélico revolucionário foi quase completamente ignorado por esta mesma mídia. De longe, a revelação mais chocante (embora inevitável) é a implementação do novo míssil hipersônico Kinzhal (Adaga), regularmente a serviço das unidades de linha de frente da Força Aérea no Distrito Militar do Sul. O Mig-31 carrega esta arma, e tenho certeza que qualquer SU-35, SU-30SM ou SU-34 será capaz de fazê-lo também.

O míssil é... bem, pela falta de melhor palavra, impressionante! M = 10 + altamente manobrável e com o alcance de 2000 quilômetros. A guerra naval como a conhecemos acabou. Sem colocar nenhuma ênfase excessivamente dramática nestas palavras: estamos oficialmente em uma nova era. Repito, estamos oficialmente em uma nova era. O sistema de defesa aérea moderno ou futuro implantado hoje por qualquer frota da Otan pode interceptar um único míssil com essas características. Mas uma salva de 5 ou 6 mísseis destes tipo é de impossível interceptação e a garantia da total destruição de qualquer frota de porta-aviões alvejada.

O uso deste míssil – especialmente porque agora sabemos que está em uso (por enquanto) no Distrito Militar do Sul – é muito simples: seu alvo mais provável serão a águas internacionais do Mar Negro, fechando assim todo o Mediterrâneo Oriental a qualquer navio de superfície ou frota. Também cria uma enorme zona proibida no Pacífico, onde os MiG-31 poderão patrulhar grandes distâncias sobre o oceano. É, no entanto, notável que a plataforma atual para o Kinzhal seja o MiG-31 – indiscutivelmente o melhor interceptador da história. Obviamente, a capacidade do MiG-31 de atingir velocidades supersônicas muito altas (acima de M = 3) é um fator chave no lançamento. Mas pouco importa quais são os procedimentos para o lançamento desta arma aterrorizante, as conclusões são simples:


1. Transferência das frotas de porta-aviões para áreas localizadas em territórios de adversários realmente fracos e indefesos;

2. Os clássicos CBGs estão completamente obsoletos e inúteis, além de tornar vulnerável qualquer navio de combate de superfície, independentemente de suas capacidades de defesa aérea ou não.

3. O controle do mar e da navegação muda de natureza. Aqueles que possuem tal arma passam a dominar simplesmente vastos espaços do mar que serão limitados apenas pelas zonas de alcance do Kinzhal e seus portadores.

Não quero parecer dramático. Há tempos, eu acabei por me acostumar às tecnologias surpreendentes dos armamentos soviéticos e, atualmente, não me espanto com as surpresas das novas armas russas, mas as revelações de hoje, do posto mais alto do governo da Rússia, sobre o Kinzhal foram chocantes. O equilíbrio de poder mudou drasticamente em relação à guerra naval tradicional. Nada mais é como antes. Acabou!

Só posso acrescentar que concordo plenamente com Andrei. É um fato consolidado: não há mais opção militar contra a Rússia.

The Saker