domingo, 1 de setembro de 2019

DAVID HARVEY: O SOCIALISMO DO CAPITAL



No dia 28 do mês passado, geógrafo britânico David Harvey ministrou a conferência “As contradições do capital no século 21”, no Auditório Nicolau Sevcenko – Departamento de História – FFLCH USP, com participação de Amélia Damiani, Berna Menezes, Edson Carneiro e mediação de Ruy Braga.

Um dos marxistas mais influentes da atualidade, Harvey é reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital e tem afirmado que um dos mais graves problemas da atualidade, e que não tem sido devidamente debatido, é o endividamento no mundo. Segundo Harvey, em algum momento, o Brasil vai precisar voltar ao FMI. Todavia, numa perspectiva mais ampla, a classe trabalhadora ainda pode ser vanguarda da mudança.

“Se pegarmos o total da dívida e dividir pela população total, cada pessoa deve US$ 80 mil. A lógica irônica do sistema financeiro, que controla as políticas governamentais dos países, é que os ganhos são ‘socializados’ pelos mais ricos, enquanto a sociedade como um todo paga a conta”, apontou Harvey, em palestra promovida nesta segunda-feira (26) em São Paulo pelas editoras Expressão Popular, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Boitempo.

“Austeridade fica para nós e o socialismo para o 1% das pessoas mais ricas, que controlam a maioria das dívidas e lucram com ela”, criticou. “É preciso prestar atenção à massa incontrolável da dívida. Eles usam isso para comprar terra e propriedades. A terra custa caro porque o 1% mais rico tem muito dinheiro e eles não sabem o que fazer com isso. A terra não é usada como deveria para cuidar da nutrição e do meio ambiente.”

O pensador afirmou que todos os secretários do Tesouro dos Estados Unidos, desde o presidente Bill Clinton, são oriundos do Goldman Sachs, grupo financeiro multinacional, sediado em Nova York. “Quem domina e governa o Estado? A gente brinca que o Goldman Sachs é quem controla os Estados Unidos.” Embora Clinton tenha tentado implementar políticas mais independentes, o mercado financeiro não permitiu. “Tudo o que Clinton fez, foi o que eles queriam.”

Harvey afirmou que o único país do mundo em que o governo controla o sistema financeiro é a China. “Lá, os bancos fazem o que o Estado quer que façam. Precisamos de uma política para ‘desempoderar’ o sistema financeiro, que é a única coisa que ele não quer.”

Para Harvey, a Grécia, nos últimos dez anos, é um exemplo emblemático do que acontece com os países obrigados a adotar políticas de austeridade. “Naquele país as pessoas perdem os bens e tudo que têm.”

Ele avalia que, em algum momento, o Brasil vai precisar voltar a emprestar recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI), entidade à qual o presidente da Argentina, Mauricio Macri, recorreu recentemente. O país vizinho passa por um período de grave crise, com recessão, inflação muito elevada e o maior desemprego desde 2006. O Produto Interno Bruto argentino recuou 2,5% em 2018 e 5,8% no primeiro trimestre de 2019.

A política do campo progressista deveria privilegiar a luta para evitar que o capital controle a terra, “que tem de ser controlada pelo povo”. “É um longo caminho, mas tirar a terra do mercado de commodities é vital.”

O geógrafo acredita que a classe trabalhadora ainda pode ser “a vanguarda da mudança”, considerando que hoje ela é maior do que em qualquer outro momento da história. De acordo com ele, nos anos 1980 eram 2 trilhões, e hoje os proletários chegam a 3 trilhões de pessoas.

E afirmou que, nos Estados Unidos, os sindicatos não compreendem o “poder imenso” da nova classe trabalhadora. “A esquerda precisa começar a falar com essa nova classe, que não está nas fábricas, mas na área de logística e outras semelhantes.”

Harvey considera a educação uma área estratégica das sociedades hoje, e os detentores do poder sabem disso. Nos Estados Unidos, lembrou, a educação “foi tomada pelos interesses das corporações e dos liberais”. O motivo é que ela é usada para promover a segregação entre pessoas “educadas” e “não educadas”.

“A distinção entre trabalho intelectual e o trabalho manual é uma das maiores distinções de classe que há. As universidades dos Estados Unidos não são mais financiadas pelos estados, mas por corporações e grandes financiadores, como Bill Gates. O interesse deles não é a sociedade, mas financiar pesquisa e produtos que gerem lucro”, explicou. “Mas, afortunadamente, as universidades não são totalmente controladas, e pessoas como eu podem florescer em alguns cantinhos.”

Fonte: Rede Brasil Atual

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

MOVIMENTO SOCIAL E O ESTADO DE DIREITO


por Arthur Stabile, Paloma Vasconcelos e Maria Teresa Cruz

A Justiça de São Paulo decretou a prisão preventiva de 9 líderes de movimentos de luta por moradia, que atuam na capital paulista. Além disso, manteve a prisão de 4 lideranças – Janice Ferreira Silva, a Preta, Sidney Ferreira Silva, Angelica dos Santos Lima e Ednalva Silva Franco. A juíza Érika Soares de Azevedo Mascarenhas, titular da 6ª Vara Criminal, aceitou a denúncia apresentada pelo Ministério Público estadual na última terça-feira (6/8).

Os participantes de movimentos sem-teto com prisão decretada são: Ananias Pereira dos Santos, Andreya Tamara dos Santos de Oliveira, Hamilton Coelho Rezende, Josiane Cristina Barranco, Carmen da Silva Ferreira, Maria Aparecida Dias, Liliane Ferreira dos Santos, Adriana Aparecida França Ferreira e Manoel Del Rio Blas Filho.

No dia 11 de julho, o promotor Cássio Roberto Conserino denunciou 19 pessoas ligadas a diversos grupos do movimento de luta por moradia de São Paulo por extorsão e enriquecimento ilícito devido a supostas cobranças de taxas para viver nos prédios ocupados mediante grave ameaça ou violência. Para o promotor, há evidências de que os ativistas têm ligação direta com o crime organizado ao supostamente receberem auxílio de integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) nos prédios em que ocupam. Conserino também procura atrelar os movimentos ao PT (Partido dos Trabalhadores).

Na decisão, Érika Mascarenhas chamou a investigação de exemplar e destacou que os “crimes denunciados foram elucidados, com a identificação dos responsáveis, que previamente ajustados planejaram e constituíram verdadeiro movimento criminoso, que rotularam de movimento social, objetivando dar roupagem lícita às ações que passaram a praticar”.

A magistrada utiliza longos trechos de conversas pelo celular interceptadas pela investigação e apresentados como prova na denúncia do MP, bem como destaca que as “várias testemunhas” – todas anônimas – ouvidas ao longo do processo provam o crime de extorsão.

Além disso, afirma que as lideranças cometeram “delitos de extrema gravidade” e que ficou evidenciado a existência de um “poder paralelo” ao Estado, “cujo objetivo maior é a desgraça humana, com a finalidade única de vantagem financeira indevida, em detrimento de pessoas extremamente carentes e vulneráveis”, escreveu.

“A ganância desvairada ligada à ambição desmedida e ao egoísmo excessivo, dentre outros elementos desviados da personalidade humana, podem provocar danos irreparáveis à sociedade organizada e à ordem econômica, de forma a provocar repugnância ao restante da população”, aponta Erika Mascarenhas em outro trecho da decisão.

Sobre a denúncia

Na denúncia (leia a íntegra clicando aqui), o promotor traçou uma linha de raciocínio a partir do primeiro denunciado, Ananias Pereira dos Santos, líder da ocupação então presente no edifício Wilton Paes de Almeida, onde 7 pessoas morreram no ano passado após incêndio e desabamento do prédio. A partir de Ananias, ele tenta implicar lideranças de diversos movimentos da luta por moradia, como mostrou a Ponte em reportagem publicada em julho, alguns dias após a denúncia do MP.

Ananias é apontado como líder do MLSM (Movimento de Luta Social por Moradia), responsável pela ocupação do prédio que ficava localizado no Largo do Paissandu, onde aconteceu a tragédia, no centro da capital paulista. Conserino utiliza a informação da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) sobre o ocorrido para destacar que na ocupação “várias famílias pagavam aluguel de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais) a R$ 400,00 (quatrocentos reais)” e quem não pagava era expulso do prédio. Na sequência, informa que uma testemunha afirmou que “isto acontece em todos os prédios invadidos”. Conserino escreve isso em negrito e em letras maiúsculas.

Em linhas gerais, o promotor utilizou esse fato para construir a argumentação de que os valores eram cobrados mediante violência, caracterizando o primeiro crime presente na denúncia: extorsão. E não só no Wilton Paes, mas em todos os prédios em que há ocupações dos movimentos por moradia citados na denúncia, que são: MMPT (Movimento de Moradia Para Todos); MMCR (Movimento Moradia Centro e Região); FLM (Frente de Luta por Moradia) e MSTC (Movimento do Sem Teto do Centro).

A partir daí, o promotor Cesarino desenvolve uma espécie de “árvore genealógica do crime”, elencando diversos movimentos e suas respectivas lideranças. Utiliza interceptações telefônicas para mostrar a suposta ligação entre essas lideranças e, consequentemente, entre os próximos movimentos. O termo “irmãos” que aparece mais de uma vez na denúncia é interpretado pelo promotor como a forma com que o PCC identifica seus integrantes. Dessa forma, cria uma ligação entre os líderes citados e a facção criminosa.

O que dizem as defesas
Para Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), a investigação foi tendenciosa, e, por essa razão, a magistrada errou na decisão. “A magistrada foi provavelmente induzida a erro por uma investigação seletiva da Polícia Civil de São Paulo. As prisões são ilegais e a polícia não apresentou provas de que os acusados estivessem coagindo ou ameaçando testemunhas para justificar as prisões cautelares”, explicou Alves, que ao lado de Lúcio França, advoga para Carmen Silva Ferreira e o MSTC.

Os defensores destacaram, em nota, que os investigados sempre colaboraram com as investigações e compareceram na delegacia quando chamados, durante o ano passado, bem antes da decretação das prisões. “Eles prestaram todos os esclarecimentos necessários e apresentaram documentos. Os policiais não apresentaram provas de extorsão, já que as contribuições coletivas são aprovadas em assembleias dos moradores das ocupações. A polícia não comprova também nenhuma associação criminosa, já que os militantes inclusive integram movimentos diferentes”, concluem.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, Augusto de Arruda Botelho, que defende Preta Ferreira, afirmou que a denúncia “mais se assemelha a uma peça de ficção, já que interpreta unilateralmente fatos e ignora solenemente sólidos depoimentos prestados” e que a inocência de Preta será demonstrada ao longo do processo. “Há clara intenção de criminalizar os movimentos sociais pela moradia da cidade de São Paulo”, apontou.

Também ao jornal, o advogado Pierpaolo Cruz Bottini, defensor de Liliane Ferreira, afirmou que vai entrar com pedido de habeas corpus e que a cliente é inocente.

A defesa de Ananias Pereira dos Santos já havia informado a Ponte que “não ia mais comentar o caso”. O advogado de Edinalva abandonou sua defesa no caso.

A reportagem também procurou o PT para se pronunciar sobre as acusações que envolvem o nome do partido, mas até o fechamento da reportagem não houve retorno.

Fonte: Ponte, em 9/8/2019

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O QUE HÁ EM COMUM ENTRE A REFORMA DA PREVIDÊNCIA E O IMPEACHMENT?



A aprovação do texto da reforma previdenciária demonstrou que a composição do congresso quase não se alterou desde o impeachment de Dilma Rousseff. A reforma passou fácil, sem um pio do sindicalismo pelego (CUT & Cia.) e dos movimentos sociais. No fundo, é o mesmo jogo de cena onde tudo já está combinado e só resta acertar a parte do leão. Nesta comédia bizarra e sem graça, os ditos partidos de esquerda votaram assim:

Impeachment:


PT, PC do B e PSOL foram unânimes contra o impeachment.

PDT cinco a favor dos 14 parlamentares (oito contra e uma abstenção).

PSB, apenas três dos 32 parlamentares votaram contra o impeachment.

Previdência:


PT, PC do B e PSOL deram todos seus votos para barrar a reforma.

PDT, oito dos 27 parlamentares votaram favoravelmente à reforma.

PSB, 11 dos 32 parlamentares votaram a favor do texto.

sábado, 1 de junho de 2019

A CHINA NO MERCADO MUNDIAL



A China é um elemento muito importante de estabilidade do capitalismo mundial. Para estabilizar a própria China o governo do presidente Xi Jinping aplicou uma política ultra bonapartista, enquadrando até os bilionários chineses que faziam com que o país corresse o risco de quebrar. Criou uma forte campanha contra a corrupção, impediu a fuga de capitais, concentrou o controle das grandes empresas e, a partir daí, direcionou a economia para um capitalismo de Estado muito mais controlado.

A disputa entre Estados Unidos e China nesse momento é justamente quem vai incluir a China no mercado mundial e com qual política.   A burocracia chinesa precisa se transformar numa potência imperialista, o que ela está buscando por meio de toda uma série de medidas, com grandes investimentos no exterior. Só na Europa Oriental nos últimos dez anos foram investidos US$ 300 bilhões. Na Europa Ocidental tenta adquirir tecnologia e para isso usa dois programas, o Novo Caminho da Seda e o Made in China 2025.

A aquisição pela China de uma empresa alemã de robótica de primeira linha, KUKA-AG, deixou o imperialismo extremamente nervoso. A China está implantando bases militares em vários lugares, por enquanto basicamente na Ásia, em Mianmar e no Sri Lanka. Porém, já comprou o porto de Pireus em Atenas, Grécia e implantou uma base naval em Djibouti, país localizado no nordeste da África.

Essa necessidade de expansão comercial chinesa se deve a uma capacidade industrial ociosa enorme e também devido a que precisa manter a estabilidade de uma população gigantesca.

A relativa estabilidade chinesa

A estabilidade chinesa é visível, ao contrário do que se propaga, de que o país está à beira de uma revolução, que tem greve todo dia, etc. Teve uma grande greve em 2012 na Foxconn, fabricante do IPhone, devido a condições abusivas de trabalho, mas aparentemente  há uma grande estabilidade como pode ser evidenciado na capital do país Beijing, com mais de 20 milhões de habitantes, onde a polícia anda desarmada e está longe de se parecer com a polícia truculenta do Brasil.

Nas cidades de primeiro escalão como Pequim, Xangai, Hangzhou, Cantão e Shenzhen, e também em algumas cidades secundárias como Nanquing os investimentos são enormes, mas feitos em cima de créditos gigantescos. Uma boa parte do emprego que existe na China está relacionada com a construção civil. Existem cidades fantasmas porque o número de prédios é enorme. Como exemplo, um apartamento na periferia de Beijing tem uma mensalidade de aproximadamente  2.500 Yuanes, o equivalente a R$ 2 mil. Ou seja, para comprar um imóvel desses você precisa ter uma renda de, pelo menos, o dobro disso, ou R$ 5 mil. Isso significa que aquele salário de 30 dólares por mês não existe mais.

Para continuar exportando as matérias baratas para o mundo inteiro a China se vê obrigada a trabalhar com essa dicotomia, onde em Xangai, por exemplo, você tem salários de 10 a 15 mil reais e, ao mesmo tempo, se tem salário de 500 reais. Há gente morrendo de fome lá, igual aos bolivianos em São Paulo, dividindo um quarto com mais 20 pessoas.

 O país onde o desenvolvimento da robótica mais cresce é a China, para que esta mantenha os produtos de exportação mais baratos. Com o Novo Caminho da Seda, que é o transporte por via rápida das mercadorias chinesas para a Europa, incorporando todos os países intermediários, isso levará a uma inundação no mundo com mais mercadorias chinesas o que acirra ainda mais as contradições do capital porque, justamente, estamos vivenciando uma crise de superprodução.

Temos um enorme desenvolvimento das forças produtivas, da robótica, da computação, etc., e, por outro lado, devido à apropriação privada dos lucros, tem uma maioria de pessoas cada vez mais pobres, aumentando o desemprego.

Por enquanto, e em grande medida, a situação da Ásia se encontra estável devido à atuação da China em paralelo com a Coreia do Sul e com o Japão, principalmente, onde os problemas de endividamento são muito parecidos. Isso não quer dizer que a crise está sendo superada, mas significa que está sendo chutada para frente.

E a perspectiva é que, mais dia, menos dia, a China e as economias da Ásia oriental entrem em colapso na medida em que a crise capitalista, que é mundial, contamine todo o planeta a partir da explosão de uma bolha financeira que pode acontecer a qualquer momento e em qualquer país.

Fonte: Gazeta Revolucionária

quarta-feira, 1 de maio de 2019

ANTROPOCENO: A ERA BIOGEOLÓGICA


Os desafios essenciais de um debate científico

O termo Antropoceno foi criado para levar em consideração o impacto da acelerada acumulação de gases de efeito estufa sobre o clima e a biodiversidade e, da mesma forma, dos danos irreversíveis causados pelo consumo excessivo de recursos naturais. Contudo, é preciso transformá-lo em uma nova época geológica. Enquanto o debate continua entre cientistas, ainda precisam ser encontradas soluções. Nós estamos, de fato, testemunhando uma forma coletiva de negação, que é o resultado de uma fé ingênua no progresso, de uma ideologia consumista e de poderosos lobbies econômicos.

por Liz-Rejane Issberner e Philippe Léna

A palavra Antropoceno aparece hoje no título de centenas de livros e artigos científicos, em milhares de citações, e seu uso continua a crescer nos meios de comunicação. Referindo-se à época em que as ações humanas começaram a provocar alterações biofísicas em escala planetária, ela foi criada nos anos 1980 pelo biólogo norte-americano Eugene Stoermer e popularizado na década de 2000 por Paul Crutzen (link is external), o cientista atmosférico holandês e vencedor do Prêmio Nobel de Química de 1995. Os especialistas constataram que essas alterações afastavam o Sistema Terra do relativo equilíbrio observado desde o início do Holoceno, há 11.700 anos. Para marcar o início dessa nova era, eles propuseram simbolicamente o ano de 1784, o ano em que o inventor escocês James Watt aperfeiçoou a máquina a vapor com novas invenções, que também corresponde ao início da revolução industrial e da utilização dos combustíveis fósseis.

Entre 1987 e 2015, um programa científico internacional amplo e multidisciplinar, o International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP (link is external)), acumulou numerosos dados sobre as modificações antropogênicas dos parâmetros do Sistema Terra. Por outro lado, as pesquisas realizadas desde os anos 1950, tanto em amostras de gelo antigo da Antártica quanto na composição da atmosfera atual – no observatório de Mauna Loa, no Havaí, EUA – mostravam uma acumulação acelerada de gases de efeito estufa (GEE), principalmente de dióxido de carbono (CO2). Em 1987, foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC (link is external)) para avaliar os impactos desses fenômenos sobre o clima.

A grande aceleração

A partir de todos esses dados, em 2009 e 2015, os cientistas ambientais, o sueco Johan Rockström, o norte-americano Will Steffen e seus colegas do Centro de Resiliência de Estocolmo (Stockholm Resilience Centre (link is external)) estabeleceram uma lista de nove “limites” planetários que seriam perigosos de se atravessar. Quatro desses limites já foram ultrapassados: mudança climática, cobertura vegetal, perda de biodiversidade e extinções (a chamada “sexta extinção”) e fluxos biogeoquímicos (com os ciclos do fósforo e do nitrogênio desempenhando um papel crucial). Eles também mostraram que todos os indicadores disponíveis sobre consumo de recursos primários, uso de energia, aumento populacional, atividade econômica e degradação da biosfera aumentaram de forma considerável após a Segunda Guerra Mundial. Esse período foi chamado de grande aceleração Outros observadores chegaram mesmo a dizer que, a partir dos anos 1970, é possível observar um período de hiperaceleração. Essas tendências foram caracterizadas como insustentáveis.

O Antropoceno: metáfora ou era geológica real?

Parece haver um consenso de que vários parâmetros do Sistema Terra apresentam uma evolução recente além do espectro da variabilidade natural característica do Holoceno – agora, é mais ou menos aceito o uso do termo Antropoceno para caracterizar as mudanças que têm origem humana. Porém, um grupo de cientistas resolveu ir além de usar o termo como uma simples metáfora ou uma ferramenta prática e interdisciplinar, e propuseram que o Antropoceno seja considerado formalmente como uma nova época geológica, como o Holoceno e o Pleistoceno.

Um Grupo de Trabalho sobre o Antropoceno (Anthropocene Working Group – AWG (link is external)) se encarregou de apresentar essa proposta à União Internacional de Ciências Geológicas (International Union of Geological Sciences – IUGS (link is external)). Contudo, para uma nova época ser aceita pelos estratigrafistas, é necessário existir uma ruptura observável e universal entre as camadas sedimentares de duas épocas. Embora o carbono antropogênico esteja presente em sedimentos desde os anos 1850, isso não foi considerado suficiente. Com isso, o AWG propõe mudança de época em 1950, ano a partir do qual vários componentes químicos e partículas de plástico de origem antrópica começaram a aparecer nos sedimentos. Nota-se que o ano de 1950 é também o início da grande aceleração. De qualquer forma, um eventual não reconhecimento do Antropoceno como época geológica não invalidaria em nada o uso científico do termo, como é o caso atualmente.

Apesar do seu curto período de existência, o conceito de Antropoceno gerou várias controvérsias – a própria denominação foi questionada. Historiadores e antropólogos colocaram em dúvida a referência a antropos, esse ser humano genérico. Afinal de contas, quem é o responsável pela transgressão dos limites biogeofísicos, senão o humano ocidental e um sistema socioeconômico específico? Daí a multiplicação de propostas alternativas como “Ocidentaloceno”, “Capitaloceno” etc. Outros, em particular especialistas da história mundial ou ambiental, pensam que não há uma descontinuidade ontológica, e que o caráter excepcional do crescimento ocidental (a “grande divergência”), deveria ser reposicionado no longo prazo. 

De acordo com eles, pelo menos durante os últimos 40 mil anos, o ser humano sempre causou um impacto crescente em seu ambiente. Ele contribuiu, por exemplo, para o desaparecimento da megafauna americana e australiana. Assim, alguns cientistas defendem um longo Antropoceno, dividido em subperíodos tais como a industrialização capitalista (1850-1950) e a grande aceleração. No entanto, a maioria concorda com a necessidade de se abandonar uma visão linear e determinista do tempo histórico.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, vários cientistas têm alertado sobre o caráter não generalizável e insustentável do sistema econômico ocidental. Na época, nenhum limite já havia sido ultrapassado, e a humanidade ainda consumia menos de um planeta. Porém, o processo já estava em curso. No início dos anos 1970, a situação se agravou bastante, os alertas se multiplicaram e os dados científicos se acumularam. Nas duas ocasiões, teria sido possível a ocorrência de uma mudança histórica. Atualmente, ela se tornou mais difícil.

Uma negação coletiva

Por que nós nos recusamos a ver isso? Podemos listar alguns fatores: a fé cega no progresso e no desenvolvimento – em outras palavras, em um sistema que aumenta indefinidamente a quantidade de riqueza disponível; poderosos interesses que se beneficiam dessa dinâmica e realizam um lobbying intenso; a crença na capacidade da ciência e da tecnologia para resolver todos os problemas e as externalidades negativas (como, por exemplo, a poluição); o controle do imaginário dos consumidores pela mídia, que cria uma ânsia pelo consumo individual, visando tanto ao conforto, quanto para se distinguir e ser reconhecido.

É surpreendente que as ciências humanas e sociais tenham permanecido durante muito tempo alheias a essa problemática, considerando que ela determinará o futuro da humanidade. Além de serem antropocêntricas por definição, essas disciplinas consideravam que esse campo de estudos pertencia, por excelência, às ciências da natureza. A emergência do conceito de Antropoceno confere a essas áreas a responsabilidade de investigar e explicar como as sociedades humanas foram capazes de provocar tal magnitude de transformações no modus operandi do planeta, bem como os diferentes impactos dessas transformações sobre o mapa terrestre. As ciências sociais e humanas terão de desenvolver e encampar novos objetos e conhecimentos para responder as questões típicas dessa nova época: desastres naturais, energias renováveis, esgotamento de recursos naturais, desertificação, ecocídio, poluição generalizada, migrações, injustiça social e ambiental.

Não deixa de surpreender também a lentidão e a debilidade das reações políticas e das sociedades em geral à mudança climática. Uma análise matemática das redes de citações mostrou que, em artigos científicos sobre ao assunto, formou-se um consenso desde o início da década de 1990 quanto ao fato de que essa mudança existe. Diante do agravamento da crise, é difícil de entender por que as medidas para reduzir os GEE sejam tão tímidas. Que obstáculos impedem que as negociações internacionais sejam mais efetivas? Para além da intencionalidade de tais obstáculos, não há dúvidas de que a comunicação entre a ciência e a sociedade talvez não está fluindo a contento, ao menos no que diz respeito à questão climática. Para tratar do assunto, o IPCC já adotou uma nova abordagem para o seu sexto relatório de avaliação (Sixth Assessment Report – AR6 (link is external)), que será voltado para sensibilizar o público em geral, e não apenas os tomadores de decisão.

Superando impasses

Um dos grandes impasses do Antropoceno é que o seu enfrentamento implica lidar com a delicada questão da justiça ambiental. A mudança climática ampliará os riscos existentes e criará outros riscos para os sistemas naturais e humanos, sendo que tais riscos são distribuídos de forma desigual e geralmente são maiores para pessoas e grupos desfavorecidos. Porém, uma solução satisfatória para esse problema não é simples, pois os países apresentam diferentes graus de desenvolvimento, tamanho, população, recursos naturais etc.

Além disso, a pegada ecológica humana já excede em 50% a capacidade de regeneração e absorção do planeta, e 80% de sua população vive em países cuja biocapacidade já está abaixo de sua pegada ecológica. Um país como o Brasil – e outros países das Américas – ainda apresenta um superávit importante em termos de biocapacidade, embora já consuma 1,8 planeta. Contudo, 26% das suas emissões de GEE são devidas ao desmatamento. Uma parte significativa de sua pegada ecológica vem da exportação de produtos primários, que estão na origem de boa parte desse desmatamento. O sistema competitivo e globalizado procura se abastecer com o menor custo, estimulando o extrativismo em muitos países e a apropriação de terras (landgrabbing) em outros.

Mesmo se fosse possível parar imediata e completamente as emissões de CO2 dos países de alta renda, isso não seria o bastante para reduzir a pegada de carbono global de modo a se manter dentro dos limites impostos para a biosfera até 2050. Ou seja, apesar das consideráveis diferenças do tamanho de suas economias e de suas reservas de recursos naturais, todos os países deverão se empenhar no enfrentamento do problema mais urgente do Antropoceno: a redução drástica das emissões de GEE.

Isso é exatamente o que nos leva ao impasse que normalmente ressurge em todas as negociações internacionais: a busca por culpados, o que faz com que os países relutem em assumir compromissos, pelo receio de comprometer o seu crescimento econômico e seus empregos, assim como de contrariar interesses poderosos. A solução para o impasse alcançada no Acordo de Paris, assinado em 22 de abril de 2016, foi pedir para que cada país apresentasse compromissos voluntários, em vez de impor critérios estabelecidos em escala planetária. Isso significa que cada país se compromete a cumprir metas de redução das suas emissões de acordo com o que considera viável. 

Essa abordagem ajudou a superar os impasses e tornar possíveis as ações. Porém, também criou um emaranhado de critérios de avaliação que torna difícil uma comparação entre os esforços nacionais. Além disso, apesar de seu caráter universal, o Acordo de Paris não prevê sanções aos países que não cumprirem seus compromissos. Isso reflete a fraca governança da questão climática que, sem uma instituição com mandato para colocar as ações em prática, não é capaz de suplantar os interesses econômicos de países e empresas.

Submersos em contradições, dilemas e ignorância, os gravíssimos problemas ambientais do Antropoceno não constam nas agendas nacionais e sociais com a prioridade que merecem. É como se a humanidade, entorpecida, aguardasse o fim do filme, onde os heróis apareceriam para resolver tudo e, assim, e seríamos todos felizes para sempre.

Liz-Rejane Issberner é brasileira, economista e pesquisadora sênior do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), e professora do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (IBICT com a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ).

Philippe Léna é francês, geógrafo e sociólogo, e também pesquisador emérito do Institut de Recherche pour le Développement (IRD (link is external)) e do Muséum National d’Histoire Naturelle (MNHN (link is external)), em Paris.

Fonte: Correio da UNESCO

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A TERRA É PLANA: PRIMEIRO DE ABRIL!!!


por João Monti

Logo após ser empossada ministra da Mulher, Família (?!!!) e Direitos Humanos, Damares Alves causou polêmica ao afirmar em um vídeo a seguinte declaração: “A igreja evangélica perdeu espaço na história. Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas, quando nós não questionamos, quando nós não fomos ocupar a ciência. A igreja evangélica deixou a ciência para lá e ‘vamos deixar a ciência sozinha, caminhando sozinha’. E aí cientistas tomaram conta dessa área”.

Os sucessivos constrangimentos envolvendo declarações desta senhora, como a de que crianças holandesas são masturbadas pelos pais a partir dos sete meses de idade, poderiam ser acrescidos a mais um, não menos embaraçoso, se acaso algum repórter de tino perspicaz lhe perguntasse qual o formato da terra. Provavelmente, a resposta da ilustríssima ministra seria novamente estarrecedora: a terra é plana.

Tal conjectura parece absurda, mas não é. Teorias como a da terra plana fazem parte de um repertório de ideias revisionistas muito difundido nas redes sociais em tempos de internet.

Quando ouvi pela primeira vez alguém falar em terra plana, achei de que se tratava de mais uma destas piadas, ou, na linguagem dos internautas, “memes”, que são compartilhadas aos milhares na rede de mídias sociais. Afinal, diante dos enormes avanços científicos e tecnológicos do mundo contemporâneo, a ideia da terra plana não é mais do que uma anedota de desenho animado.

De fato, os efeitos da revolução científica na vida cotidiana foram tão avassaladores que, no imaginário do século XX, em grande parte, é bem verdade, alimentado por Hollywood, os portões do terceiro milênio seriam abertos esplendorosamente por uma fantástica odisseia em universos nunca dantes navegados. Quase duas décadas depois, reconhecemos, não sem uma pitada de humor e frustração, que o osso não foi tão longe assim.

Embora ousadamente equivocado, o conteúdo significativo das ficções científicas importava nem tanto pelo grau de acertos e, sim, por um profundo otimismo suscitado pelo extraordinário progresso da humanidade nos últimos séculos, tendo por mola propulsora as conquistas no campo da ciência. O Iluminismo parecia então ter cumprido a promessa de dominar a natureza e afastar definitivamente toda incerteza, supertição e o medo de um mundo terrivelmente ameaçador e habitado por poderosos seres sobrenaturais.

Mas, ainda que os céus das grandes cidades não estão sendo atravessados por carros voadores (por enquanto só helicópteros), viajar no tempo é só uma teoria que não saiu do papel e uma sonda espacial mal acaba de sair do sistema solar para se perder para sempre no espaço profundo; por outro lado, a informática superou em muito os antiquados telefones e computadores de tela de tubo da família Jackson e, contrariando profecias apocalípticas, o mundo não acabou no ano mil nem nos dois mil – e espero que, se a humanidade tiver juízo, algo que às vezes parece não ter, o mundo não acabe pelo menos nos próximos mil anos ou mais.

Enfim, enquanto sonhamos com as previsões fantásticas da ficção científica, podemos respirar aliviados e confiar tranquilos na ciência real. Pois a ciência produziu maravilhas, dentre tantas, o sistema global de redes de computadores interligadas, vulgarmente conhecida por Internet, plataforma digital que, aliás, ironicamente, veicula teorias como a da terra plana.

O desenvolvimento científico, porém, não surgiu do nada. O sistema heliocêntrico deu o pontapé inicial para a revolução cientifica da modernidade e a partir de então, do ponto de vista epistemológico, a dimensão subjetiva humana deu lugar à objetividade do conceito.

Na Antiguidade, a concepção de terra plana fazia todo sentido e representava a cosmovisão de fundo mitológico estruturante daquelas sociedades. A experiência dos indivíduos não ultrapassava os limites da percepção sensível e as técnicas rudimentares da época (se comparadas à tecnologia atual) mal possibilitavam um distanciamento conceitual muito além da própria vivência individual e cotidiana. Da mesma forma, longas viagens podiam demorar anos – dar a volta ao globo terrestre nem pensar –, o que limitava o mundo à escala da localidade, não muito maior do que a proporção das muralhas de uma cidade e adjacências. Todo conhecimento estava restrito a uma casta de sacerdotes que explicava os fenômenos naturais através de forças divinas e sobrenaturais, então, era natural, para aquelas sociedades, a crença em um mundo explicado pela religião.

Ao contrário, o método científico não é mero objeto de convicção e adesão, mas um tipo de conhecimento racional capaz de prever e controlar fenômenos das mais diversas naturezas. Sua eficácia se comprova nos resultados tangíveis que afetam diariamente as nossas vidas. No mundo moderno, não há uma única atividade humana imune à sua influência. A ciência não é onisciente, onipresente nem onipotente, mas em todas as esferas da sociedade moderna, de uma igreja a um centro de pesquisa tecnológico, colhem-se os frutos da ciência. De modo inverso ao conhecimento religioso, fundamentado pelo dogma, que não pode ser questionado, é a dúvida metódica que move a ciência. Neste sentido, os resultados de um trabalho científico estão sujeitos a questionamentos e disponíveis para todos aqueles que, munidos de conhecimento qualificado e instrumentos necessários, queiram testar teorias para comprovar sua validade ou falsidade. Refutar uma teoria, porém, não é tarefa fácil. É preciso antes demonstrar que ela está errada, através de um estudo sistemático e testes rigorosos, e assim propor uma nova teoria, que, se aceita pela comunidade científica, será um novo paradigma científico.

Todavia, não é necessário, tampouco inteligente, realizar experiências e testar cada contribuição gerada à humanidade pelo progresso científico. Sequer isso seria possível. Na modernidade, a propósito, como bem caracterizou Max Weber, as especialidades respondem em separado pelas expectativas cotidianas e gerais dos indivíduos, leigos ou não. Não é preciso entender como funciona um micro-ondas para usá-lo e estourar um pacote de pipocas. Basta apertar um botão. Ou, quando estamos com uma crise de enxaqueca, compreender cientificamente o que é a fórmula C9H8O4 ou como o ácido acetilsalicílico age no organismo para tomarmos um comprimido. E, obviamente, ninguém precisa viajar num foguete para comprovar que a terra é redonda.

De fato, aprendemos nos livros de história e ciência que a terra é um globo (geoide ou eclipsóide, não importa, mas não plana), embora a concepção da esfericidade da terra seja muito antiga, remontando pelo menos a nomes como Pitágoras, Aristóteles, Erastóstenes, São Tomás de Aquino, entre outros. Assim, o reaparecimento da tese da terra plana não é só um anacronismo bizarro dos tempos pós-modernos, mas um destes fake news, uma “lenda urbana”, quer dizer, “lenda de internet”, que “viraliza” como uma epidemia tresloucada pelas redes sociais.

O mais bizarro, no entanto, é que realmente tem gente discutindo seriamente a terra plana!

Não é minha intenção aqui perder tempo enumerando as n evidências para provar o óbvio, isto é, que o planeta terra é esférico. Muitos sites já se prestaram a esse papel e refutaram com propriedade à tese da terra plana. O que não significa dizer que vou perder a chance de tirar uma casquinha e apresentar no final deste texto uma série de imagens, fornecidas pelos próprios partidários da terra plana, que provam, sim, e de modo elementar, meu caro Watson, que a terra é redondinha da silva.

Portanto, o que me interessa é o que está por trás deste fenômeno da internet que tem, sem dúvida, um significado sociológico importantíssimo.

Para tentar desvendar a conjuntura que permitiu o surgimento de uma concepção anacrônica de mundo, resolvi “sair a campo” e investigar o assunto em seu ambiente natural: a internet.

Assim, no intuito de me aproximar ainda mais do objeto em questão, despi-me de todos os meus preconceitos heliocêntricos e até esperei ser convencido.

Juro, não me faltou boa vontade, a ponto de, ansioso por presenciar uma “nova” revolução científica, indagar cá com os meus botões: Será?!

Sentado à frente de meu computador, iniciei uma longa jornada por este mundo virtual e aparentemente secreto da terra plana.

Tomado de todas essas disposições, consultei dezenas de sites, blogs e vídeos e, chocado, descobri que o tema é muito mais popular do que eu pensava.

Para se ter uma noção disso, mapeei só no YouTube alguns dos seguintes canais terraplanista, quase todos com milhares de inscritos: Sem Hipocrisia, Verdade Revelada, Além da Nuvem, Ciência de Verdade, Unebrasil, Professor Terraplana, FEB, Earth Flat Brazil, Verdade Oculta, RCA Vídeos, Das Trevas para Luz, Projeto Portal, Terra Convexa, TVCH.

A princípio, constatei que os defensores da terra plana se autodenominam de terraplanistas – e é assim que vou chamá-los a partir de agora –, fato que me induziu a pensar em algo como um “movimento terraplanista” que aspira reconhecimento e realmente existe.

Sem dúvida nenhuma os terraplanistas não são homens pré-históricos – embora muitos deles pereçam ter saído das cavernas, pelo menos em termos cognitivos. Alguns, no entanto, são surpreendentemente inteligentes e carismáticos, a ponto de conquistar milhares de fãs e seguidores na internet. Porém, o universo terraplanista é quase exclusivamente masculino. Não vi uma única mulher defendendo a tese da terra plana.

Não demorou muito, porém, para a minha boa vontade se dissipar. Aceitar a tese da terra plana acarreta engolir uma série de pré-requisitos indigestos, tais como:

a) estar convencido de que as fotos da curvatura da terra divulgadas pela NASA e demais agências espaciais são fraudes manipuladas por photoshop ou distorções de câmeras especiais;

b) negar a corrida espacial e a ida à lua da missão tripulada Apolo;

c) admitir como falsas as grandes descobertas científicas, tais como o heliocentrismo, a teoria da gravidade, a teoria da evolução, a teoria da relatividade, bem como a sua fórmula E=mc2, que é entendida pelos terraplanistas como uma abstração vazia que não serve para nada (talvez, SÓ para explodir bombas atômicas);

e) enfim, que a terra tem seis mil anos de idade, está no centro do universo, é imóvel, plana e coberta por um domo intransponível, por onde o sol e a lua, que são menores que a terra, flutuam na atmosfera, quer dizer, atmosplana...

Além disso, é preciso acreditar numa conspiração orquestrada por uma “elite globalista” – poderosos que dominam o mundo e que querem que as pessoas acreditem na forma do globo terrestre –, pela qual a ONU e a mídia são cúmplices, com o apoio do MEC, das universidade, dos cientistas, que foram todos cooptados, dos professores do ensino médio etc., ou até mesmo em ideias delirantes como a influência dos illuminati e da maçonaria no governo mundial, da invasão de reptilianos, extraterrestres, nefilins, demônios, gigantes ou o diabo a quatro, tudo para inculcar na cabeça das pessoas que a terra é uma “bola” e que vivemos dentro de uma matrix:

“Alguns dizem que a ideia de uma conspiração mundial intergeracional de iludir as massas parece implausível ou irrealista, mas essas pessoas precisam apenas familiarizar com as obras e os escritos dos próprios maçons, por exemplo, John Robison que expos isso em seu livro de 1798, Provas de uma conspiração contra todas as religiões e governos da Europa, realizado nas reuniões secretas dos Maçons, Illuminati e Sociedades de Leitura. O Comandante Supremo do 33º grau Albert Pike estava convicto das várias cartas da iminência da meta final massônica de dominação mundial, e no sionista ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, o plano exato pelo qual isso aconteceria e tem sido cumprido é completamente revelado” (Eric Dubay, 200 provas de que a terra não é um globo).

Neste sentido, a retórica terraplanista abusa de dois conceitos muito em voga ultimamente, em tempos de realidade virtual: narrativa e pós-verdade. Sem dúvida, a verdade dos fatos é o que menos importa e tudo se resume em contar uma boa estória (usei este termo propositalmente). A construção da “verdade” da terra plana passa por uma argumentação pela qual se expõe uma série de objeções condicionais que são respondidas categoricamente por quem mesmo faz as perguntas, sem espaço para réplica. Entretanto, nenhum dos dados apresentados nas respostas são evidentes ou demonstrações irrefutáveis, restando muito mais interrogações do que certezas. Na falta de rigor científico, sofismas, salmos bíblicos e tergiversações vazias. Como não há nada a ser provado, além da convicção, o discurso terraplanista não descarta a ironia:

“O espaço sideral é pura ficção. Os fanáticos religiosos fundamentalistas da igreja NASA da religião do espaço vivem perguntando e chiando: por que vocês só falam da NASA?” (Canal Professor Terra Plana – A farsa da NASA; o espaço sideral é pura ficção – documentário parte 1/2).

Não raro, há terraplanistas de ocasião e que, motivados pelo oportunismo, abraçam a tese da terra plana de última hora.

Um dos vídeos mais populares sobre o assunto, com mais de um milhão e meio de visualizações (somando as versões em português e espanhol), “Terra covexa – documentário” é, no fundo, uma verdadeira paródia. Realizado por um Centro de Pesquisa Dakila, segundo os próprios “pesquisadores”, para os quais contam na equipe com um geógrafo, um geólogo e um engenheiro, as experiências realizadas para provar que a terra é plana foram sugeridas por um extraterrestre que habita uma floresta nas imediações do tal centro de pesquisa. Isso mesmo, um extraterrestre. O ET Bilu!

Realmente, não se sabe se os produtores de “Terra covexa – documentário” levam a sério o assunto ou se aproveitaram da onda para ganhar visualizações e, neste caso, o retorno financeiro também deve ser considerado.

Um canal no You Tube “monetizado” e bem sucedido pode render muitas visualizações, likes, compartilhamento, inscritos e lucro.

No primeiro vídeo do canal Ciência de Verdade (Vídeo: 001 – Qual é a diferença entre um pesquisador e um cientista?), do empresário, geofísico e ex-professor autárquico da USP, doutor Afonso, não se esconde o objetivo monetário do canal: “Eu não faço nada de graça, eu sou um pesquisador que cobro por tudo que faço, nem esse vídeo é de graça”.

Além das visualizações, outras maneiras que exploram o assunto também podem ser comercializadas. Por exemplo, o livro O Universo Que Não Te Apresentaram, de Jota Marthins, do canal Sem Hipocrisia, é vendido no Mercado Livre por R$ 35 reais, mas já custou, de acordo com o site da Superinteressante, módicos 70 reais...

A verdade é que a tese da terra plana é só uma cortina de fumaça e o mais relevante é o que é dito indiretamente pelo discurso terraplanista, a saber, um claro engajamento político de seus partidários, que reivindicam desde intervencionismo militar, monarquismo, “libertarianismo” (no sentido de um ultraneoliberalismo radical), antissionismo, antissemitismo, antiglobalismo, até neonazismo.

Embora muito heterogêneos, o denominador comum de todos os canais é um ultraconservadorismo de fundo religioso, que levou a imensa maioria dos terraplanistas a apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência.

Neste sentido, o que subjaz ao pensamento conservador é a negação de qualquer possibilidade de igualdade social. Esse parece ser o mote do discurso terraplanista, que pode ser resumido pelo tom apologético do canal Ciência de Verdade. Segundo o doutor Afonso:

“Eu falo constantemente sobre a guerra contra os homens e algumas vezes eu falo da guerra contra os seres humanos. Essa guerra é contra os homens ou é contra os seres humanos? A resposta é simples: a guerra começa contra os homens. Por quê? Porque os homens são linha de frente. Quem devia estar protegendo todas as famílias são todos os homens. Todos os homens! Mas não. Primeiro você acaba com a linha de frente; você acaba com todos os guerreiros, com todos os homens, depois você destrói as crianças, você destrói as mulheres, você destrói todos os seres humanos. (...) A maioria dos brasileiros nem percebe que a libertação dos escravos foi em 1888 e a proclamação da república foi apenas um ano depois, 1889; a maioria dos brasileiros não percebe que a família real foi expulsa do Brasil porque aceitou uma coisa muito simples: acreditar que todos os seres humanos são iguais e que não deve ter escravo, principalmente da forma como havia. Ok. E isso foi feito por um traidor, e até hoje a gente comemora essa data, 15 de novembro. Devia chamar o dia da traição. Mas não, todos ficam felizes porque é feriado. Ninguém precisa trabalhar. A gente comemora a maior traição que aconteceu no Brasil. A gente deixou de ser o Império do Brasil e passou a ser a República das bananas. (...) Você tem uma propriedade, você precisa cuidar dela, você não deveria ter medo de dar um tiro numa pessoa [que entrar na sua casa] (...) Ninguém mais é homem. Agora, o homem é linha de frente. Na hora que eles chutarem a bunda de todos os homens e depois das crianças e das mulheres... e todo homem deve ter consciência que eles vão chutar a bunda de seus filhos, de suas mulheres, de todo mundo. Porque ninguém faz a sua responsabilidade...” (Vídeo: 346 – Quem confia nos militares?).

Estas parecem ser as principais características do “movimento terraplanista”. Mas, se você chegou até aqui e está achando tudo isso um absurdo monumental, a essa altura deve estar se perguntando como surgiu a nova teoria da terra plana. Para não variar (ironia à parte), a moda pegou nos Estados Unidos e foi exportada, como toda boçalidade made USA, para o resto do mundo. Segundo noticia o site Sputnik:

“Novas sondagens sociais entre residentes norte-americanos mostram que 33% dos estudantes, do ensino fundamental, médio e superior, não têm certeza que a Terra é um globo, revela a edição LiveScience. Nos EUA há movimentos sociais, cujos participantes acreditam que a Terra na verdade é plana. Muitos se sustentam em mitos, outros na Bíblia. Para eles, na realidade, cientistas, NASA e companhias aéreas abafam formato do planeta por fazerem parte de uma conspiração elitista” (Sputnik News, 5/4/2018).

Neste contexto, o ano de 2012 pode ser estabelecido como marco da recente onda terraplanista quando o escocês neonazista Eric Dubay resolveu acrescentar às suas teses revisionistas – Dubay nega o holocausto – a “nova” teoria da terra plana com a publicação do livro 200 provas de que a terra não é um globo – que também foi editado em vídeos e divulgado em várias línguas no YouTube –, uma atualização literal acrescida de mais cem “provas” do livro Cem provas de que a terra não é um globo, de William Carpenter, um autor do século XIX.

Eu tive a paciência de assistir o vídeo das tais “200 provas” (são duas horas de duração) e posso garantir que algumas delas são hilariantes. Transcrevo aqui um exemplo:

“Citando o zetético cosmogênese Thomas Winships, declara: ‘Deixe a imaginação pintar para a mente qual força o ar teria colocado em movimento por um corpo esférico de oito mil milhas de diâmetro que em uma hora estivesse rodando acerca de mil milhas, avançando pelo espaço a 65 mil milhas por hora e girando através dos céus. Então, deixe conjecturar, se esforçar em descobrir se os habitantes de tal globo poderiam manter o cabelo arrumado? Se a terra-globo roda em seu eixo a uma terrível razão de mil milhas por hora, tal imensa massa iria necessariamente causar uma tremenda rajada de vento no espaço que ocupasse. O vento iria todo para um lado e qualquer coisa como nuvens que estivesse dentro da esfera de influência da esfera rodopiante haveria de ir para o mesmo lado. O fato que a terra está em repouso é provado ao se empinar pipa’”.

Na verdade, as tais 200 provas de Eric Dubay não passam de uma recauchutagem barata de um outro obscuro livro do século XIX, intitulado Astronomia zetética: a terra não é um globo, do escritor inglês Samuel B. Rowbotham, o qual William Carpenter também foi discípulo.

Rowbotham é o pai dos terraplanistas modernos e julgou ter inventado um método astronômico, denominado por ele de “astronomia zetética”, que supostamente jogava por terra a esfericidade da terra.

Resumidamente, o livro Astronomia zetética pode ser enquadrado metodologicamente de empirismo racionalista (talvez, de inspiração hobbesiana) e consiste numa lista de experimentos que são feitos através de observações e medições para comprovar a falsidade da curvatura da terra. A partir disso, busca-se explicar os fenômenos naturais, como o dia e a noite, as estações do ano, eclipses etc., através de uma série de deduções e inferências, sem qualquer base empírica, ou, quando muito, por meio de relatos de viajantes.

Dentre muitas adequações ao modelo da terra plana, Rowbotham se serve da livre imaginação, como quando assevera, por exemplo, acerca do tamanho do sol e da lua, que são drasticamente diminuídos (51,5 km de diâmetro) e deslocados vertiginosamente para dentro da atmosfera terrestre.

Tais ajustes, entretanto, provocam mais embaraços do que explicações. Por exemplo, se realmente o modelo da terra plana estivesse correto, para um observador localizado na linha do equador, o sol e a lua não só deveriam apresentar, considerando-se o tamanho diminuto dos astros e suas altitudes relativamente baixas, uma trajetória ligeiramente parabólica ao cruzar a abóbada celeste, como também um aumento significativo do diâmetro de seus discos ao passarem pelo zênite e uma diminuição proporcional ao se aproximarem do horizonte, assim como os aviões no céu. Na verdade, ocorre exatamente o contrário, o que Rowbotham explicou com um mau uso das leis da perspectiva.

Sobre o movimento retrógrado dos planetas, que literalmente é “consertado” pela revolução copernicana, Rowbotham faz silêncio.

Todavia, todas as experiências da Astronomia Zetética não passam de variações de uma única e mesma fórmula: busca-se o tempo todo provar a não existência da curvatura da terra através de medidas de objetos a longas distâncias sobre a superfície da água.

(Todas as experiências de Rowbotham estão minuciosamente refutadas no site Refutando la Terra Plana, tópico Astronomia Zetética - S. Rowbotham, em espanhol).

Se, por um lado, o questionamento sobre a curvatura da terra é uma espécie de colete salva-vidas dos terraplanistas, por outro, é também seu calcanhar de Aquiles.

Sim, porque, além das chicanas, é necessário demonstrações rigorosas e verificações de uma comissão competente. Mas, diante disso, o líbelo Astronomia zetética abandona deliberadamente a ciência.

O termo zetético (do grego, “exame”) é tomado de empréstimo das teorias do direito, o que nos permite uma analogia entre a astronomia de Rowbotham e um tribunal de justiça. E é exatamente isso o que pretende o “pioneiro dos terraplanistas”: submeter a ciência a um julgamento. Instaura-se um processo, levando Copérnico e Newton para o banco dos réus. Além de perito, Rowbotham figura também como advogado de acusação e juiz do caso. A sentença não poderia ser diferente: a condenação dos réus. O veredito final, então, é decretado: a terra é plana, imóvel e está no centro de um universo finito.

No último capítulo – e o mais importante –, intitulado Cui Bono, jargão também emprestado do direito, que significa, do latim, “qual o benefício de um crime”, tal como Thomas Hobbes no Leviatã, Rowbotham se propõe a arguir, armado com uma Bíblia em uma mão e um frasco de cicuta na outra, sobre quais as consequências dos crimes imputados a Copérnico e Newton: maquinações dos homens contra a verdade, corrompendo as mentes, desviando-as do caminho de Deus.

Depois de analisar o mérito do pleito, Rowbotham concede perecer favorável à religião.

O autor parte do princípio dogmático de que os textos sagrados, ditados por Deus, não podem estar errados, pois, se assim o admitíssemos, implicava em erro do próprio Deus, que é perfeito, e nunca enganador. Admitir erro nas Escrituras deve conduzir necessariamente a uma contradição, já que a mentira é própria da alçada do diabo, o príncipe do mundo. Logo, a ciência, conhecimento mundano, feito por seres humanos imperfeitos, tem de estar necessariamente errada. Nas palavras de Rowbotham:

“Aos filósofos newtonianos que ainda afirmam que o Volume Sagrado é a palavra de Deus fica um temeroso dilema. Como podem os dois sistemas, tão distintamente opostos em características, serem conciliados? Óleo e água não combinam, mesmo misturados violentamente, eles ficarão separados assim que colocados em repouso. O óleo é óleo e a água é água. Admita que eles são distintos em natureza e valor, e não permita a mistura, ou ignore a composição de ambos. Chame a Escritura de Palavra de Deus, o Criador e Rei de todas as coisas, e a Fonte de toda verdade, e chame todo o sistema newtoniano e copernicano de palavra e trabalho de homem, de homens em sua vaidade. Tão vão e pretensioso que não se contenta com os ensinamentos simples e diretos de seu Construtor, mas se levanta em rebelião e se encanta na existência de uma fantasiosa e complicada construção, que, se insurgindo como se fosse verdade, inventa e necessita de interrogativas obscuras e horríveis: Seria Deus um enganador? Terá ele falado uma mentira inequívoca?” (p. 350).

A partir deste raciocínio, Rowbotham passa a citar inúmeras passagens do Velho e Novo Testamento para demonstrar que na Bíblia a terra é plana, imóvel e o centro do universo.

Mas afirmar que a terra é plana é muito mais do que justificar a fidedignidade dos textos bíblicos a respeito das características físicas da terra. De certa maneira, Rowbotham reatualiza o furor inquisitorial perante o sistema heliocêntrico que levou Giordano Bruno à fogueira e à retratação de Galileu Galilei. Subjacente ao formato da terra há uma questão muito mais profunda e de importância capital, a saber, uma perspectiva ético-moral, de fundo existencial e relativa à salvação, orientada significativamente pela ordem hierárquica que define o céu como instância superior e a terra como mundo baixo e corruptível.

Para Rowbotham, a forma e o lugar da terra, no caso, plana, imóvel e central, significa a comprovação da doutrina teológica sobre a existência real de um “reino nos céus” e de um “inferno”, para onde as pessoas, após o julgamento final, serão enviadas conforme suas boas ou más ações na terra. Já o sistema heliocêntrico implode o conceito de referências fixas. A terra esférica não tem “cima” nem “baixo”, flutua perdida no meio do nada, um universo infinito e caótico. Somente num modelo fechado, plano, central, finito, fixo e ordenado seria possível induzir de fato a existência de um “inferno”, abaixo do solo terrestre, e de um “reino divino”, situado num outro mundo, acima do céu. Portanto, reino dos céus ou inferno não podem constituir meras metáforas, produto de um estado de espírito ou imaginação, mas devem possuir existência efetivamente real, objetiva e material, sendo a razão obrigada a lhe atribuir espaço e lugar. Neste sentido, a terra plana prova a verdade das Escrituras e, por conseguinte, no plano individual, orienta no caminho do bem e da justiça.

Vale a pela ler a longa citação que se segue da Astronomia Zetética:

“Se a terra é um globo, girando à média de milhares de milhas por hora, toda essa linguagem das Escrituras é necessariamente falaciosa. Os termos “para cima” e “embaixo” e “acima” e “abaixo” são palavras sem sentido algum, no máximo, meramente relativos, indicativos de absolutamente nenhuma direção. Quem está para “cima” ao meio dia está diretamente “abaixo” do que está a meia noite. Em qualquer ponto, e a qualquer momento se olharmos para cima, em um segundo estaremos rapidamente olhando para baixo. O céu, então, que só pode ser descrito como “acima”, e as escrituras leram corretamente num momento das vinte e quatro horas. Antes da sentença “O céu está acima da terra” o falantes estaria completamente na parte de baixo do meridiano onde o céu está acima dele, e em poucos segundos seus olhos estariam olhando para uma sucessão de pontos de milhões de milhas de distância de sua primeira posição. Assim, em todas as cerimônias religiosas, quando se levantam as mãos e os olhos, ao céu, ou melhor, quando o próprio Cristo “levantou seus olhos aos céus e disse: “Pai, a hora é chegada”, seu olhar teria varrido ao longo do firmamento em diversos ângulos rapidamente, e com tal velocidade incompreensível que um ponto fixo de observação, e uma posição definida como indica uma seta ou trono “daquele que está assentado nos céus” seria uma impossibilidade. (pp. 374-375)

“Uma vez mais, o mundo religioso sempre acreditou e meditou na palavra “céu‟ como representação de um lugar de infinita alegria e segurança, de descanso e felicidade indizíveis. Como, de fato, “o lugar da habitação de Deus, a habitação dos anjos e dos benditos, o verdadeiro Palácio de Deus, completamente separado das impurezas e imperfeições, as alterações e mudanças do mundo de baixo. Onde ele reina em paz eterna... A mansão sagrada de luz alegria e glória”. Mas se há uma pluralidade infinita de mundos, milhões e milhões de sucessão infinita. Se o universo é cheio de inumeráveis sistemas de sóis incandescentes e planetas girando rapidamente, misturados com cometas correndo e satélites girando, todos se lançando e varrendo através do espaço em direções e com velocidades maiores do que a compreensão humana possa compreender, e mesmo terríveis para contemplar, onde está o lugar de descanso e segurança? Onde estará o “Palácio de Deus?” Em que direção o céu pode ser encontrado? Para onde vai a alma humana para encontrar seu lar e lugar de descanso? Seu refúgio das variações, incertezas e perigos? Estaria em um maravilhoso e eterno labirinto de mundos girando? Se esforçar pela eternidade em uma interminável confusão de sóis e sistemas girando? Nunca será um descanso, mas uma busca eterna de proteção a si mesmo, para se guardar e evitar ser pego pela atração de algum vortex, ou qualquer sucção gravitacional? De fato todo a existência do céu como uma região de paz e harmonia, “estendendo-se acima da terra por toda a extensão” e além da influência das leis naturais e corpos em movimento, na qual todo crente acredita, está comprometida, se não destruída, por uma falsa e usurpante teoria, que não tem melhor base do que um conceito presunçoso humano. (p. 375).

“Um sistema filosófico que provoca tal destruição na alma humana, que destrói sua esperança de futuro, repouso e felicidade, e desenvolve a existência de um céu impossível, e faz incerta a existência de um ser benevolente, todo poderoso Deus e Pai da criação, não pode ser menos do que uma maldição, um dragão negro e perigoso, com uma influência vinda direta do inferno e no tártaro”. (p. 376).

A tese da terra plana de Rowbotham representa muito mais do que a confirmação de uma hipótese científica. Significa, sobretudo, a preservação de uma visão de mundo religiosa.

O livro de Dubay segue o mesmo roteiro, ao repetir a mesma fórmula, sob o argumento falacioso de que em projetos de engenharia, como grandes estradas de ferro e canais, não se considera a curvatura da terra. Logo, a terra é plana.

Ironicamente, em um dos primeiros vídeos do canal Ciência de Verdade (no. 012), ainda longe de militar em causa da terra plana, apenas defendendo o direito de se questionar o formato da terra, é o geofísico dr. Afonso que acaba por fornecer as pistas para refutar o único trunfo dos terraplanistas. Diz ele:

“O que a gente poderia dizer é seguinte: eu trabalho com modelos sismológicos; todos os softwares de sismologia usam o modelo da terra plana. Ponto final! Ah, mas em biologia a gente usa o modelo da terra redonda... Não tenho a menor ideia. Eu sei que os modelos de sismologias locais e regionais são terra plana. Ponto. Dos sismos, telessismos, que acontecem no mundo, à volta do mundo, o modelo, em tese, é terra esférica... Muito interessante, só que como a gente descobriu que a terra é esférica? A gente partiu de um modelo que a terra é esférica e a gente ajustou esse modelo a curvas de tempos de percurso das ondas sísmicas observadas no mundo inteiro. Então, também, talvez, a gente poderia assim gerar um modelo de terra plana, com aquele mesmo modelo, fazendo a mesma conta. Então, em tese, daria pra se adequar... Não sei. Com certeza, daria pra se adequar. Então, apareceriam outras perguntas. Talvez a sismologia possa ajudar. Se pegar uns dados nos EUA, no Aires, no Instituto de Sismologia, baixar e calcular tempos de percurso de ondas sísmicas... Pode ser uma ideia interessante se você tiver algum sismólogo... Eu não tenho tempo! Mas se tiver algum sismólogo que se interesse pode ser interessante, sim. Agora, sísmica de petróleo, você pega uma plataforma de petróleo inteira, tá com terra plana. Em geofísica a gente usa assim: se tiver menos de 600 km de distancia, a terra é plana. Agora, têm os satélites, tem outras coisas mais complicadas de entender...” (Vídeo: 012 - A terra plana e o canal 100 hipocrisia).

Ou seja, num modelo de escala menor de 600 km, terra plana; num modelo acima de 600 km, terra esférica.

Realmente, nós, seres humanos, somos seres microscópicos em termos de escala planetária, como bem mostram as imagens aéreas de aviões, satélites ou mesmo da estação espacial (ISS). Se considerarmos as dimensões infinitas do universo, somos ainda mais insignificantes – algo que parece escandalizar os terraplanistas.

Este é exatamente o ponto.

Como pode o ser humano, criado a imagem e semelhança de Deus, ser rebaixado pela “ciência dos homens” a um simples acaso na história do universo ou a um simples elo na evolução animal, um macaco nu?!!!

(O Macaco Nu é o título do célebre livro do biólogo Desmond Morris publicado em 1967. Na biologia o ser humano é classificado como: Reino: Animal; Classe: Mamífero; Ordem: Primata; Família: Hominídeo; Gênero: Homo; e Espécie: sapiens).

Eis o x da questão:

“Para citar Morris Kline: ‘A teoria heliocêntrica, ao colocar o sol no centro do universo, fez com que o homem parecesse ser apenas um de uma multidão de viajantes possíveis flutuando num céu frio. Pareceu menos provável que ele nasceu para viver gloriosamente e alcançar o paraíso. Menos provável também que ele fosse o objeto dos ministérios de Deus” (200 provas de que a terra não é um globo).

E nesse ponto demos uma volta bem redonda e chegamos ao início do texto.

A fala da ministra dá algumas pistas do que está oculto nas teses como a da terra plana. Segundo ela, a ciência foi tomada por cientistas, porque a igreja evangélica negligenciou essa área.

Em que pese a redundância, o fato da igreja evangélica negligenciar a ciência sugere uma ou outra hipótese:

- a necessidade de cientistas evangélicos;

- o combate implacável à ciência.

A moderna “teoria” da terra plana parece associar-se à primeira hipótese. Mas não. A tese da terra plana é apenas um verniz de “cientificidade” a um programa cuja proposta central é contempladora da segunda hipótese. Busca-se, em última análise, controlar e censurar a liberdade de pensamento, ensino e pesquisa, pelo viés religioso.

Tal programa, de conteúdo doutrinário e ideológico, não seria possível se não houvesse condições reais para sua emergência.

A fala da ministra aponta, sobretudo, para um fenômeno social relativamente recente na sociedade brasileira – datado, talvez, dos anos 70 ou, mais precisamente, anos 80 – caracterizado pelo surgimento e proliferação de igrejas evangélicas do segmento neopentecostal, de influência cultural nitidamente estadunidense.

Ou seja, o fortalecimento do setor evangélico neopentecostal, também chamado de baixo protestantismo, principalmente, nas camadas mais pobres da população, ocupando o vácuo deixado pela orientação conservadora e elitista do papado de João Paolo II, é uma tendência crescente e irreversível na sociedade brasileira.

No bojo desse fenômeno, teses revisionistas ou nagacionistas, como a da terra plana, sinalizam para o fato de que muitas destas seitas enveredam-se pela via do fanatismo religioso. Mas, diferentemente de Samuel Rowbotham, que, aparentemente, possuía um genuíno sentimento de justiça fraternal – algo como o provérbio: “a justiça dos homens é falha mas não a de Deus” –, o que o fez um socialista, há no segmento evangélico uma disposição para a adoção de um ideário político ultraconservador.

Com a formação de igrejas que são verdadeiros potentados econômicos, algumas vêm promovendo tacita ou abertamente uma verdadeira guerra santa com vista a um projeto efetivo de poder teocrático.

Sem dúvida, o embate com a igreja católica, que, desde os “descobrimentos”, criou raízes profundas na sociedade brasileira, é uma de suas principais frentes. No centro da disputa, não só a acumulação primitiva gerada pelo dízimo dos fieis, mas a propaganda de uma concepção teológica mais original. A tese da terra plana é, nesse sentido, um estandarte do fundamentalismo. Graças à tradição clássica greco-romana, a Igreja de Roma nunca rejeitou a esfericidade da terra e, após os embates entre ciência e inquisição, o catolicismo soube superar a hegemonia da ciência nos tempos modernos através da nítida separação entre fé e conhecimento laico. Nota-se ainda que muitos padres foram cientistas, dentre eles, nomeadamente, o pai do geocentrismo, Nicalau Copérnico.

Nada escapa à artilharia do fundamentalismo evangélico. Religiões, principalmente, de origem africana, bem como tradições culturais tidas como paganismo, como, por exemplo, a festa de carnaval etc., também estão no alvo de sua mira.

É preciso ressaltar, porém, que não são todas as igrejas evangélicas, mas uma subdivisão que luta por hegemonia.

“Guerra santa” não é mera força de expressão. Alguns destes setores fundamentalistas há muito veem se preparando para uma obstinada cruzada contra os “infiéis”, tendo por justificativas alusões à guerra extraídas do Velho Testamento, a despeito do “ame ao próximo como a ti mesmo” ou “ofereça a face ao inimigo”. Não é de se admirar que grupos paramilitares, uma espécie de tropa de elite dos “eleitos”, inspirados por um permanente sentimento belicista contra o “diabo”, marchem sobre igrejas como hordas fascistas e impondo um verdadeiro darwinismo religioso.

Na guerra pela suposta pureza dos princípios teológicos cristãos, estes grupos religiosos nutrem de um verdadeiro desprezo pelos pilares do conhecimento científico legado pela modernidade. Evidentemente, não todo conhecimento, somente aquele que lhes parecem inconveniente às suas aspirações ideológicas, já que, de modo cínico e hipócrita, não há o menor pudor em relação à gula voraz e consumista pelos frutos da “árvore da ciência”, os serviços e produtos de alta tecnologia disponíveis no mercado.

É enganoso pensar, como querem alguns, que estes segmentos fundamentalistas propõem uma agenda medievalista. Trata-se, na verdade, de um modelo muito mais arcaico, relativo às sociedades patriarcais do antigo Oriente Médio, no qual, dentre outras coisas, pressupunha a total dependência da mulher ao marido, destinada aos trabalhos domésticos, procriação e a criação dos filhos, além da servidão dos povos “idólatras”.

Porém, há algo do catolicismo dos tempos da Reforma nestes grupos neopentecostais. Ao contrário do puritanismo e do calvinismo, caracterizados, como ensina Weber, por um ascetismo intramundano, que os permitiu a acumulação de capital, os evangélicos de hoje não se abstém dos prazeres da vida mundana e são extremamente permissivos, esbanjando luxúria, ostentando riqueza, enquanto sinal da benção divina. A religião perde assim sua principal função de instância formadora de valores morais, através do cultivo da vida espiritual, da transcendência e da prática dos ensinamentos sagrados, para se tornar êxtase do fetiche da mercadoria. A frouxidão moral é, por sua vez, purificada pelo dízimo, da mesma forma que na Idade Média a venda de indulgências pagava os pecados e comprava o perdão. Na ausência de espiritualidade, o hábito religioso é reduzido a uma promessa de recompensa material e enriquecimento pessoal na vida terrena. Desde já, tudo é permitido.

A ética neopentecostal fundamentalista é o espírito do capitalismo em crise. Trata-se da face pré-moderna de uma moeda, cujo reverso é a pós-modernidade. Muito embora o aparente conflito, tanto pré-modernos como pós-modernos estão intimamente unidos e redimidos pelo mercado. Apesar disso, não há solidariedade de fato, senão pela mercadoria, apenas justaposição de indivíduos automatizados e em concorrência selvagem um para com o outro, sobressaindo assim um individualismo extremo imanente à lógica de uma economia desumana e reificadora, pela qual a violência é a única forma de socialização. Neste contexto, todo o lixo da indústria cultural é consumido sem reservas, causando aquilo que o filósofo alemão Theodor Adorno chamou em seus ensaios sobre música de “infantilização” dos indivíduos sociais, e o qual, no contexto de sua obra, não seria de todo despropositado acrescentá-lo como um dos elementos da personalidade autoritária. Assim sendo, valores “americanos” – ou, se se quiser, da cultura estadunidense – são importados e, evidentemente, cada vez mais copiados e reproduzidos num país de economia subdesenvolvida e dependente como o Brasil. Em um mundo sem utopias, arroubos idealistas de uma juventude rebelde já não comovem mais ninguém. Ao contrário, ideais ultraconservadores, de cunho machista, racista, xenofóbico, homofóbico, sexista, classista, isto é, do ódio ao diferente, são bem mais sedutores e propalados perversamente enquanto ideário “antissistema”.

Neste cenário de obscurantismo, estudantes brasileiros ocupam as piores posições no ranking mundial do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), coordenado pela OCDE; dos 70 países avaliados, em 2015, o Brasil ficou em 63ª em ciências, 59ª em leitura e 66ª em matemática. Diante do congelamento dos gastos públicos por 20 anos, o completo desmonte do ensino público, a desvalorização dos professores que, além de serem mal remunerados e não possuem plano de carreira, poderão ainda sofrer perseguições, não se admira que teses como a terra plana ganhem tantos adeptos.

Vivemos a noite de São Bartolomeu na Era Espacial: uma desforra da estupidez. No passado recente, aprendemos com as câmeras de gás o que acontece quando a razão cede lugar a pseudociências e ao fanatismo irracional. Passado que, aliás, muitos dos terraplanistas desejam negar.


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Como disse, não ia perder a chance de tirar uma casquinha dos terraplanista.

Nas imagens abaixo, o desenho de Rowbotham simula o que aconteceria se um observador olhasse com um supertelescópio para objetos colocados regularmente em linha reta na direção do horizonte: 

a) terra plana

b) terra globo

NAVIO

Seguindo a mesma lógica, se um observador olhasse para um navio navegando em linha reta em direção do horizonte: 
Ele nunca perderia de vista o navio no modelo da terra plana. No modelo terra globo, o navio "desceria" ao ultrapassar a linha aparente do horizonte.

Do ponto de vista do observador, a sequência de imagens abaixo ilustra o que aconteceria quando dois navios se afastassem na terra plana e terra globo, respectivamente.
Enquanto o barco na terra plana diminui de tamanho proporcionalmente, o da terra globo desaparece paulatinamente a partir do casco até o mastro da bandeira.

Um supertelescópio produziria esta imagem:

A imagem real deste navio foi veiculada por um canal terraplanista para tentar provar de modo mirabolante que a refração da atmosfera fazia o navio desaparecer:






A sequencia das imagens são muitas claras, comprovando a esfericidade da terra.

Com o editor de imagens simulei dois navios, um na terra plana (à direita) e outro na terra globo (à esquerda) e no centro a imagem real apresentado no vídeo: 





Nas imagens abaixo tentei manter a proporcionalidade da antena na sucessão dos quadros em que o navio "desaparece" no horizonte:






Nesta imagem real abaixo, um navio em primeiro plano antes de “descer” a curvatura da terra:

Simulação de um navio além da linha aparente do horizonte, limite visível da curvatura da terra:

Primeira imagem do navio, já em segundo plano:

Compare com a lancha em primeiro plano:


Dois navios em perspectiva. O primeiro aparece bem abaixo da linha do horizonte enquanto o segundo quase está "acima" da linha do horizonte.


ILHA

a) terra globo
b) terra plana

Terra globo: só é possível avistar a longa distância o topo da ilha: 

Terra plana: é possível avistar a ilha inteira:


Um canal terraplanista filmou a ilha Sumítica a uma distância de 33,13 km de distância (Vídeo: Terra plana – teste da curvatura – 33,13 Km – Ilha Sumítica/SP – Terra globo refutada):
Deveria ter apresentado uma imagem semelhante a esta que produzi no editor de imagens:

Mas ele apresentou esta: uma ilha comprida com alguns morros:

Veja a imagem definida:

O Canal do Hilton demonstrou como a imagem exibida assemelhava-se ao topo da ilha:


Diante disso, distorci a imagem produzida por mim simulando a refração atmosférica e obtive este resultado:

E separei o topo com uma linha vermelha, tal como fez o Hilton.

A imagem foi recortada e comparada com a do terra planista:

Nas imagens abaixo, distorci verticalmente a imagem do Hilton e comparei com a real tratada por um efeito do editor de imangens:

Nestas imagens procedi de modo inverso, alargando a imagem do terraplanista e comparei com a do Hilton:

Sobrepus as imagens às originais e o resultado final é este:


BIBLIOGRAFIA

ROWBOTHAM, S. B., Astronomia zetética: a terra não é um globo - (Trad.: Erevaldo Robson Tolvai).