quarta-feira, 1 de julho de 2026

Literatura e Geopolítica: Hans Grimm e a Consolidação do Conceito de Lebensraum

 

Volk ohne Raum: A Gênese Literária do Lebensraum

A jornada de um romance best-seller até uma guerra genocida é uma das trajetórias mais perturbadoras da história moderna, e poucas obras literárias ilustram essa trajetória com tanta força quanto o romance Volk ohne Raum (“Povo sem Espaço”), de Hans Grimm. Publicado em 1926, o livro monumental de Grimm, com suas 1.344 páginas, não refletia meramente as ansiedades da República de Weimar; ele as cristalizava em uma narrativa convincente que fornecia uma justificativa cultural e pseudocientífica para a expansão territorial. O título da obra tornou-se um slogan político, fundindo-se perfeitamente com o conceito geopolítico de Lebensraum (espaço vital) para formar o núcleo ideológico da expansão nazista na Europa Oriental. Para compreender as raízes dessa ideologia catastrófica, é necessário examinar a confluência entre a biografia colonial de Hans Grimm, o legado intelectual de Friedrich Ratzel e o mundo ficcional de Cornelius Friebott, que transformou teorias geopolíticas abstratas em um mito nacional visceral.

Hans Grimm: O Colonialista como Cronista

Hans Grimm não era um teórico de gabinete, mas um homem cuja visão de mundo foi forjada no cadinho do império. Nascido em 1875, filho de um dos cofundadores da Sociedade Colonial Alemã, a vida de Grimm esteve intrinsecamente ligada ao projeto colonial desde seu início. Seus 14 anos de permanência na África Austral, trabalhando como empresário e fazendeiro no que era então a África do Sudoeste Alemã (atual Namíbia), forneceram a matéria-prima para sua carreira literária. Suas experiências durante o genocídio dos hererós e namas (1904-1908) e a Guerra dos Bôeres moldaram profundamente suas visões raciais e políticas, que eram abertamente antidemocráticas, antiliberais e enraizadas em uma compreensão darwinista social da sobrevivência nacional.

Grimm retornou a uma Alemanha derrotada, despojada de suas colônias pelo Tratado de Versalhes. Para ele e milhões de outros nacionalistas, o período pós-guerra era de humilhação e claustrofobia. A Alemanha, ele acreditava, era uma nação sufocada, incapaz de desenvolver o potencial de seu "povo" porque lhe faltava o "espaço" para prosperar. Foi nessa atmosfera de ressentimento que ele começou a escrever sua obra magna. Volk ohne Raum não era meramente um romance; era uma intervenção política, um manifesto ficcional projetado para "provar" que os males sociais, econômicos e políticos da Alemanha derivavam da falta de extensão territorial. O sucesso fenomenal do livro, que vendeu cerca de 700 mil cópias quando os nazistas chegaram ao poder, demonstra o quanto sua mensagem central ressoava profundamente em uma sociedade traumatizada pela guerra e pela derrota.

A Base Geopolítica: De Ratzel ao Lebensraum

A narrativa de Grimm tomou emprestada grande parte da estrutura intelectual fornecida pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel. No final do século XIX, Ratzel desenvolveu uma teoria do Estado como organismo biológico. Um Estado saudável, argumentava ele, necessita de Lebensraum — espaço vital — para crescer, assim como um organismo vivo precisa de território para se expandir. Esse conceito, enraizado no darwinismo social, postulava que a vitalidade de uma nação dependia de sua capacidade de garantir terras suficientes para sua população e recursos. A visão de Ratzel era um "Kampf um Raum" (luta pelo espaço), uma visão determinista e fatalista da geopolítica em que as nações estavam travadas em um conflito existencial pela sobrevivência.

Enquanto Ratzel fornecia a linguagem teórica, Grimm a popularizou. Ele pegou o termo abstrato Lebensraum e lhe deu um rosto humano, inserindo-o nas lutas heroicas de seu protagonista. Além disso, o romance de Grimm fazia parte de um discurso geopolítico mais amplo que incluía figuras como Colin Ross, que usava os conceitos de "Volk ohne Raum" e seu inverso, "Raum ohne Volk" (espaço sem povo), para descrever as pressões demográficas em regiões como China e Austrália. Esse pensamento binário — nações superlotadas versus espaços vazios — era central para a mentalidade colonial e expansionista. Criava uma lógica perigosa: se existiam "povos sem espaço" e "espaços sem povo", era natural, até mesmo inevitável, que os primeiros colonizassem os últimos.

A Narrativa da Expansão: A História de Cornelius Friebott

O romance de Grimm conta a história de Cornelius Friebott, um homem nascido no mesmo ano que o autor, cuja vida se torna uma parábola para a situação alemã. O livro é dividido em quatro partes, cada uma ilustrando um estágio da busca por Raum (espaço): "Heimat und Enge" (Pátria e Estreiteza), "Fremder Raum und Irregang" (Espaço Estranho e Descaminho), "Deutscher Raum" (Espaço Alemão) e "Das Volk ohne Raum" (O Povo sem Espaço).

A narrativa começa na Alemanha, retratando uma existência sufocante onde o trabalho árduo e o talento são frustrados pela falta de oportunidades. Friebott, como muitos alemães "tüchtige" (capazes), não encontra espaço para crescer, nem "Scholle" (solo) que possa chamar de seu. Esta é a "Enge" (estreiteza) que Grimm acreditava afligir a nação. Fugindo dessa pobreza de oportunidades, Friebott emigra para a África do Sul, em busca do "Fremder Raum" (espaço estrangeiro). Lá, ele experimenta a liberdade potencial da aventura colonial, lutando ao lado dos bôeres e participando das brutais guerras coloniais que Grimm apresenta como empreendimentos heroicos. A liberdade que Friebott encontra no exterior, no entanto, é despedaçada pela Primeira Guerra Mundial e pela subsequente perda das colônias alemãs. Seu retorno à Alemanha marca a transição da busca por espaço individual para o profetismo em favor da expansão nacional.

Ideologia na Ficção: Raça, Hierarquia e o "Fardo do Homem Branco"

A narrativa de Grimm está saturada por uma virulenta ideologia racial. O romance constrói meticulosamente uma hierarquia de valores, com o "homem alemão" no topo. Não se tratava apenas de preto contra branco; a obra de Grimm é notável por sua detalhada classificação das próprias nações brancas. Os colonizadores britânicos, franceses e portugueses são frequentemente retratados como inferiores em seu "Ordnungssinn" (senso de ordem) e honra militar. Por exemplo, um antigo navio alemão agora sob comando português é descrito como um "Verwahrlosung" (decadência), com "Rostwunden" (feridas de ferrugem) e uma tripulação sem disciplina. Esse recurso literário serve para elevar os alemães acima até mesmo de seus rivais europeus, argumentando que a perda de suas colônias foi um anormal rompimento da ordem racial. A raça branca era a norma não marcada, mas a "germanidade" representava sua expressão mais elevada e capaz.

Essa estrutura racial teve consequências mortais. Enquanto Grimm e seus protagonistas lamentam o sofrimento de mulheres e crianças brancas em campos britânicos, eles demonstram uma indiferença gelada diante do destino dos hererós e namas, que os alemães haviam quase exterminado no genocídio ocorrido uma década antes da escrita do romance. A hierarquia "natural" das raças significava que o deslocamento — ou mesmo a "Verdrängung" (deslocamento) e "Ausrottung" (extermínio) de "unfaehigeren Völkern" (povos menos capazes) — não era apenas aceitável, mas uma necessidade biológica, uma lei natural análoga ao animal mais forte prevalecendo sobre o mais fraco. Essa foi a ponte ideológica do romance para o Generalplan Ost — o plano nazista de limpeza étnica da Europa Oriental para fornecer Lebensraum aos colonos alemães.

A Apropriação Nazista e o Caminho para o Genocídio

Os nazistas rapidamente reconheceram o valor de propaganda da obra de Grimm. Embora Grimm não fosse membro formal do NSDAP — e até tivesse uma relação tensa com Goebbels, que certa vez o ameaçou com um campo de concentração — ele era um dos autores favoritos de Adolf Hitler. O programa do partido de 1920 já continha a demanda por "Land und Boden (Kolonien) zur Ernährung unseres Volkes und Ansiedlung unseres Bevölkerungsüberschusses" (terra e território para alimentar nosso povo e assentar nosso excedente populacional). O romance de Grimm forneceu a narrativa cultural que fez com que essa demanda parecesse não apenas necessária, mas justa.

Os nazistas adaptaram habilmente o slogan "Volk ohne Raum". Enquanto o foco de Grimm era em grande parte a reconquista de colônias ultramarinas, os nazistas redirecionaram o olhar para o leste. Eles redefiniram os vastos territórios "subpovoados" da União Soviética como um "Raum ohne Volk" — um espaço sem povo — que precisava ser preenchido pelo "Herrenvolk" (raça superior) alemão. Essa foi a mudança fatídica da nostalgia colonial para a guerra genocida de aniquilação no Leste. Como o Reichsbauernführer Walther Darré delineou em 1936, a "área natural de assentamento para o povo alemão" era o território a leste até os Urais. Nessa nova ordem mundial, as leis da natureza, conforme interpretadas por Ratzel e ficcionalizadas por Grimm, seriam aplicadas pela Wehrmacht e pela SS.

Nesse contexto, o slogan era um instrumento contundente de propaganda, uma justificativa para a agressão e um apelo às armas. Ele sugeria que a pobreza, a inflação e a humilhação da Alemanha não eram resultados de uma guerra perdida ou de uma paz punitiva, mas de uma sufocante falta de espaço físico que só poderia ser corrigida pela conquista. A "experiência vivida" do personagem Cornelius Friebott — sua luta, sua fuga e seu martírio final — forneceu uma justificativa poderosa e emocionalmente ressonante para a brutalidade inimaginável que estava por vir.

Conclusão

O Volk ohne Raum de Hans Grimm é mais do que um artefato histórico; é um testemunho do poder das narrativas em moldar a história. Ao unir suas experiências coloniais pessoais com as teorias geopolíticas de Friedrich Ratzel sobre o Lebensraum, Grimm transformou uma metáfora biológica para o crescimento do Estado em uma causa nacional irresistível. A imensa popularidade de seu romance na República de Weimar indica uma sociedade predisposta a uma mensagem de expansão e redenção. A trágica ironia é que, enquanto o protagonista de Grimm buscava "Sonne und Raum" (sol e espaço) para o indivíduo alemão, seu romance ajudou a legitimar uma ideologia brutal que negaria ambos a milhões de outros, culminando na criação de um "Volk ohne Raum" não para os alemães, mas para os próprios povos que eles buscavam deslocar. O livro serve como um poderoso alerta, demonstrando com que facilidade a ficção pode ser transformada em arma e como um "Kampf um Raum" (luta pelo espaço) pode degenerar em um "Kampf ums Dasein" (luta pela existência) para aqueles considerados indignos de um ou de outro.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Espaço Vital e Poder: O Lebensraum de Ratzel e as Raízes Científicas do Colonialismo

Introdução

No final do século XIX, enquanto as potências europeias dividiam a África e a Ásia em suas mesas de negociação, um geógrafo alemão chamado Friedrich Ratzel (1844-1904) desenvolvia uma teoria que forneceria uma pseudo-justificativa científica para esses empreendimentos imperiais. Seu conceito de Lebensraum – "espaço vital" – transcendia a simples descrição geográfica para se tornar uma ferramenta ideológica poderosa, conectando organicamente a sobrevivência de um povo à necessidade de expansão territorial. Este artigo explora a gênese do conceito ratzeliano e demonstra como ele foi intrinsicamente ligado ao projeto colonial europeu.

1. As Bases Biológicas do Estado: O Estado como Organismo

A pedra angular do pensamento de Ratzel era uma analogia biológica: o Estado não era uma instituição política construída por contratos sociais, mas um organismo vivo enraizado no solo (Boden). Inspirado pelas teorias de Darwin e pelos avanços da biologia de sua época, Ratzel via a luta pela existência como a força motriz da história. Assim como os seres vivos competem por alimentos e território, os Estados competem por espaço.

Para Ratzel, um Estado saudável era aquele em expansão. O encolhimento territorial era visto como um sintoma de decadência, um sinal de que a "energia vital" da nação se esgotava. Nesse sentido, as fronteiras não eram linhas fixas ou naturais, mas "órgãos periféricos" do Estado, em constante mutação, refletindo sua força ou fraqueza. Essa organicidade eliminava qualquer noção de direito moral ou legal estático; o que prevalecia era a lei do mais forte, disfarçada de "lei natural".

2. O Conceito de Lebensraum: Mais que Território

O Lebensraum vai além da simples posse de terra. Ele engloba o conjunto de recursos naturais, rotas comerciais, densidade demográfica e qualidade do solo necessários para que um povo não apenas sobreviva, mas prospere e realize sua "destinação cultural". Ratzel identificou sete "leis do crescimento espacial dos Estados", entre as quais se destacam:

A extensão do Estado acompanha sua cultura: Povos "superiores" (europeus) naturalmente se expandem sobre povos "inferiores".

O crescimento espacial segue outras formas de expansão (comercial, demográfica, religiosa): O espaço vital é a base material para todas as outras conquistas.

A tendência à ocupação de territórios de menor valor para maior valor: Os Estados buscam primeiro os melhores solos, portos e recursos, empurrando os nativos para áreas marginais.

Percebe-se aqui uma justificativa geográfica para o imperialismo: a expansão não era uma escolha moral ou política, mas uma necessidade biológica inescapável. A "fome de espaço" era equiparada à fome física.

3. A Conexão Direta com a Prática Colonial

O conceito de Lebensraum de Ratzel emerge em um contexto específico: a unificação tardia da Alemanha (1871) e sua consequente "fome de colônias" (Platz an der Sonne – um lugar ao sol). A Alemanha de Bismarck e Guilherme II chegou tarde à partilha da África, e pensadores como Ratzel forneceram a linguagem científica para reivindicar seu "direito natural" à expansão.

No entanto, a influência de Ratzel ultrapassou suas fronteiras. O Lebensraum serviu como um manual para o colonialismo em geral, pois:

1.     Desumanizava os povos nativos: Se o Estado é um organismo e o espaço vital é sua condição de existência, as populações autóctones são vistas como obstáculos biológicos, micróbios ou pragas a serem removidas, subjugadas ou eliminadas. Não havia espaço para negociação de fronteiras com quem era considerado "sem solo" ou "nômade inferior".

2.     Justificava a "limpeza étnica" e o genocídio: A colonização belga no Congo, britânica na Austrália (com a doutrina da terra nullius) e alemã no Sudoeste Africano (atual Namíbia) ecoavam a lógica ratzeliana. Para criar espaço para colonos europeus, os hererós e namaquas foram dizimados – um prenúncio do que viria décadas depois.

3.     Invertia a causalidade histórica: Ratzel argumentava que grandes impérios (Roma, Grã-Bretanha) eram grandes porque tinham espaço vital, e não que conquistaram espaço porque eram poderosos. Essa inversão servia para naturalizar a conquista: os europeus não eram invasores; estavam apenas cumprindo o mandato biológico da expansão.

4. O Legado Pervertido: Do Colonialismo ao Nazismo

A conexão mais infame do Lebensraum não é apenas com o colonialismo clássico, mas com sua radicalização no século XX. Embora Ratzel fosse um geógrafo acadêmico, suas ideias foram absorvidas e distorcidas pelo regime nazista. Hitler, em Mein Kampf, cita explicitamente a necessidade de conquistar Lebensraum no Leste Europeu (Ucrânia, Rússia), aplicando a lógica colonial contra os eslavos, considerados "inferiores".

O plano Generalplan Ost (Plano Mestre para o Leste) foi a execução brutal desse conceito: deslocamento, fome e extermínio de dezenas de milhões para abrir espaço para colonos alemães. Assim, o colonialismo europeu no exterior retornou à própria Europa, com uma violência industrializada. A conexão é direta: o genocídio dos hererós foi o laboratório para os métodos usados nos campos de extermínio.

Conclusão

O Lebensraum de Friedrich Ratzel é mais do que um conceito geográfico ultrapassado; é um exemplo clássico de como a ciência pode ser mobilizada para servir a ideologias expansionistas e excludentes. Ao reduzir as relações humanas a leis biológicas e ao transformar o Estado em um organismo faminto por espaço, Ratzel forneceu uma justificativa "racional" e "natural" para o colonialismo. Ele vestiu a violência da conquista com o manto da necessidade cósmica.

Compreender essa conexão é essencial não apenas para a crítica histórica, mas para desmontar discursos contemporâneos que, sob diferentes roupagens, ainda insistem em naturalizar a desigualdade, o controle territorial e a supressão de populações inteiras em nome de um pretenso "direito à expansão" de certos grupos. O espaço vital, afinal, sempre foi vital apenas para aqueles que detêm o poder de defini-lo.


Referências (sugeridas para aprofundamento):

RATZEL, F. Politische Geographie (Geografia Política). Munique, 1897.

SMITH, W. D. Friedrich Ratzel and the Origins of Lebensraum. In: German Studies Review, 1980.

ZIMMERER, K. S. The Origins of Biodiversity: How Colonialism, Capitalism, and Conservation Shape the Living World. (Capítulo sobre geografia colonial).

LINDQVIST, S. Extermine Todas as Feras (sobre a conexão entre colonialismo na África e nazismo).

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

O estouro inevitável da bolha da IA: lições da história

Desde os primórdios da especulação financeira, poucos fenômenos capturaram tão intensamente a imaginação coletiva quanto a atual exaltação em torno da inteligência artificial. No entanto, para quem observa a história da tecnologia com um mínimo de distanciamento crítico, torna-se cada vez mais evidente que a bolha da IA não apenas está formada, mas caminha a passos largos para um evento de estouro inevitável. O primeiro argumento que sustenta essa tese é um padrão histórico imutável: toda tecnologia verdadeiramente revolucionária, antes de se consolidar como infraestrutura do cotidiano, passou por um evento que estourou sua bolha especulativa. A ferrovia britânica na década de 1840, o telégrafo elétrico nos anos 1860, o rádio nos anos 1920, a internet nos anos 2000 — todos esses avanços foram precedidos por um frenesi de investimentos que inflou avaliações muito além de qualquer realidade comercial sustentável. Em cada caso, o estouro da bolha não significou o fim da tecnologia, mas o fim do delírio de que ela transformaria o mundo da noite para o dia, gerando lucros mágicos sem atrito. A inteligência artificial atual repete todos os sintomas: empresas sem receita sendo avaliadas em bilhões, promessas de substituição total de trabalhadores do conhecimento em menos de uma década, e uma crença quase religiosa de que a escala computacional resolverá todos os gargalos conceituais.

O segundo argumento aprofunda essa analogia ao examinar as avaliações do mercado de ações, que atingiram patamares historicamente comparáveis apenas a outros momentos de euforia insustentável. Os múltiplos preço/lucro das grandes empresas de tecnologia voltadas para IA — Nvidia, Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta — superam em muitos casos as métricas observadas no pico da bolha das ponto com. Mais preocupante ainda é o comportamento das ações de empresas de capital aberto que mudaram seus modelos de negócio para incluir o termo “IA” em seus prospectos, obtendo assim reavaliações instantâneas de 200% a 500% sem qualquer mudança fundamental em seus fluxos de caixa. A história mostra que quando o entusiasmo desconecta tão radicalmente os preços dos fundamentos econômicos, a correção não é uma questão de “se”, mas de “quando”. Diferentemente de 2000, no entanto, hoje há um componente adicional: a própria indústria de capital de risco, alimentada por dinheiro barato por mais de uma década, aprendeu a prolongar bolhas através de rodadas de financiamento privado que mantêm empresas não lucrativas à tona por mais tempo. Mas isso apenas adia o ajuste, não o impede — e quando ele vier, será mais profundo.

O terceiro pilar da tese da bolha diz respeito à escassez de hardware, que vem sendo o principal motor narrativo para a alta das ações de semicondutores. A alegação de que há uma falta crônica de GPUs para IA sustentará preços e margens recordes por anos a fio já mostra sinais claros de declínio. A Nvidia, principal beneficiária desse ciclo, viu seus prazos de entrega caírem de mais de 50 semanas para menos de 20 semanas em apenas seis meses. Novos entrantes — incluindo a AMD com seus chips MI300, a Intel com Gaudi, e gigantes do cloud como Amazon, Google e Microsoft desenvolvendo seus próprios ASICs — estão rapidamente preenchendo o vácuo. Ao mesmo tempo, a China, mesmo sob sanções, tem avançado em alternativas domésticas como os chips da Huawei Ascend, enquanto startups como a Cerebras e a Groq oferecem arquiteturas radicalmente diferentes que quebram a dependência da GPU tradicional. Quando a escassez se transforma em abundância — como inevitavelmente acontece em qualquer mercado de semicondutores, sujeito a ciclos de investimento massivo em capacidade fabril — os preços das GPUs despencarão, e com eles as margens e as avaliações dos principais nomes da IA. Empresas que justificaram seus valuations astronômicos com base na exclusividade de acesso a chips escassos de repente descobrirão que seus fossos competitivos eram, na verdade, apenas um desequilíbrio temporário de oferta e demanda.

O quarto argumento, talvez o mais imediato e contundente, envolve a mudança na política monetária e seu impacto na ascensão parabólica das ações de IA. Desde setembro de 2024, o Federal Reserve iniciou um ciclo de redução da taxa básica de juros que já soma seis cortes, movimento que a princípio pareceria expansionista e favorável a ativos de risco. No entanto, o contexto macroeconômico é enganosamente perverso. A guerra com o Irã precipitou a maior interrupção no fornecimento de energia da história moderna, afetando drasticamente os preços do petróleo, do gás natural e, por tabela, de toda a cadeia produtiva. A inflação nos Estados Unidos, que muitos analistas davam como controlada, voltou a subir de forma agressiva, pressionando o Fed a reconsiderar sua postura dovish. O que os mercados ainda não precificaram adequadamente é que o banco central pode ser forçado a interromper os cortes de juros e até mesmo revertê-los, elevando as taxas novamente no meio de uma desaceleração econômica — o pior dos cenários para ações de crescimento de alto múltiplo como as de IA. Quando o custo do capital sobe, a matemática dos empreendimentos de IA muda brutalmente: projetos que exigem bilhões de dólares em GPUs, energia elétrica e salários de pesquisadores de ponta deixam de fazer sentido quando a taxa de desconto ajusta seus fluxos de caixa futuros para baixo. A combinação de inflação ressurgente, tensões geopolíticas no Oriente Médio e um Fed sem margem de manobra cria uma tempestade perfeita para desfazer em semanas o que levou anos de exuberância irracional para construir.

Ao conectar esses quatro argumentos, emerge um quadro coerente e alarmante: a bolha da IA está madura demais, nutrida por liquidez abundante, narrativas tecnológicas encantadoras e uma escassez artificial de hardware que começa a ruir. O estouro, quando vier, não significará o fim da inteligência artificial como campo de pesquisa ou como ferramenta útil — assim como o estouro da bolha da internet não matou a rede mundial de computadores, apenas matou as empresas que não tinham modelo de negócio viável. O que cairá são as avaliações astronômicas de companhias que vendem promessas de AGI (inteligência geral artificial) para daqui a décadas, os unicórnios de IA geracional sem receita, e as ações de semicondutores negociadas a múltiplos que supõem crescimento perpétuo e sem ciclos. A história tecnológica é cruel com os pioneiros especulativos e generosa com os construtores pacientes. Quando o pó baixar, sobrarão as empresas que resolveram problemas reais com eficiência real — não as que surfaram a onda mais alta do crédito fácil e do hype midiático. Até lá, o conselho para investidores é o mesmo que Benjamin Graham deu há quase um século: o mercado é uma máquina de transferir riqueza dos impacientes para os pacientes. E a paciência, neste momento, sugere manter-se longe de qualquer ativo cujo preço dependa da crença inabalável de que a inteligência artificial escapa a todas as leis da gravidade econômica.

 

sábado, 14 de março de 2026

Notícias do Front: Irã vs EUA-Israel

A rápida e sem precedentes escalada da “Operação Epic Fury” já é objeto de análise rigorosa por analistas, estrategistas e pesquisadores de operações. Embora ainda estejamos apenas nos primeiros dias desde o início das hostilidades, o curso atual das operações revela uma divergência nítida e alarmante entre os sucessos militares táticos celebrados pela coalizão aliada e a viabilidade geopolítica estratégica de longo prazo da campanha.

A campanha conjunta EUA-Israel e a resposta iraniana já estão ilustrando os limites estruturais do poder aéreo, a fragilidade dos mercados globais de energia e a matemática da economia moderna de interceptadores, expondo vulnerabilidades críticas no desenho operacional EUA-Israel. É questionável se os Estados Unidos e Israel estão operando dentro de uma “teoria da vitória” coerente ou alcançável. Os objetivos de guerra declarados pelos aliados são maximalistas: remover permanentemente o Irã do grupo de Estados de confrontação, seja derrubando totalmente o regime ou, caso isso não seja possível, desarmando completamente seu vasto arsenal de mísseis balísticos e drones.

No entanto, precedentes históricos e modelagens operacionais rigorosas indicam que uma mudança de regime duradoura não pode ser alcançada apenas por meio de bombardeios aéreos. Ao executar um ataque de decapitação contra o Aiatolá Khamenei sem a introdução de forças terrestres de ocupação ou de uma vanguarda revolucionária interna coordenada capaz de assegurar o vácuo político, a coalizão aliada falhou em restringir o Estado iraniano. Em vez disso, o gasto maciço de poder cinético aéreo apenas paralisa e fragmenta o aparato estatal; ele expande, em vez de restringir, o espaço de possibilidades para o caos regional. A morte do Líder Supremo, em vez de induzir uma capitulação social imediata ou uma transição democrática “ao estilo venezuelano”, provavelmente unificou elementos nacionalistas linha-dura iranianos e os quadros sobreviventes do IRGC sob uma doutrina desesperada de sobrevivência.

Além disso, o arsenal agregado do Irã — estimado antes do conflito em mais de 2.500 mísseis balísticos de médio alcance, 8.000 sistemas de curto alcance e dezenas de milhares de munições vagantes — é simplesmente vasto demais e profundamente entrincheirado em bunkers subterrâneos no estilo qanat para ser totalmente desarmado a partir do ar. Reconhecendo sua incapacidade de vencer um duelo convencional de contraforça contra bombardeiros furtivos dos EUA, os comandantes descentralizados e sobreviventes do regime naturalmente recorreram a ataques de contravalor contra alvos civis, vulneráveis e altamente lucrativos. Os EUA não dispõem da densidade defensiva física necessária para proteger permanentemente as monarquias petrolíferas desses ataques dispersos e assimétricos. Se essas monarquias não puderem ser protegidas, o Irã mantém a capacidade de desestabilizar mercados financeiros, devastar a economia global e, consequentemente, destruir a viabilidade política da atual administração dos EUA por uma geração, destacando que os riscos de escalada se multiplicam a cada hora sem uma estratégia de saída viável.

Por outro lado, as avaliações de ameaça ocidentais historicamente se fixam na capacidade do Irã de minar ou bloquear o Estreito de Ormuz. Embora disruptivo, trata-se de um gargalo marítimo que pode eventualmente ser assegurado e desobstruído pela superioridade esmagadora da Marinha dos EUA. Contudo, a verdadeira alavanca estratégica existencial disponível a Teerã é a destruição física sistêmica da infraestrutura terrestre de processamento de petróleo e gás do Golfo. Como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait atuam como co-beligerantes logísticos indispensáveis — abrigando bases aéreas e quartéis-generais navais a partir dos quais o poder americano é projetado — seus nós energéticos críticos tornam-se alvos militares legítimos e de alta prioridade sob as leis do conflito armado.

Essas instalações, especificamente a planta de processamento de Abqaiq (que sozinha processa milhões de barris por dia) e os grandes terminais costeiros de exportação, situam-se confortavelmente dentro do alcance de mísseis balísticos de curto alcance iranianos, mísseis de cruzeiro e enxames de drones Shahed de baixo custo. Se o IRGC, diante de aniquilação existencial, iniciar uma campanha de terra arrasada contra esses nós específicos, a espinha dorsal física do sistema energético global será cortada. O cálculo estratégico aqui é infligir uma “dor severa” aos mercados globais a tal ponto que a comunidade internacional force os EUA a interromper suas operações militares.

Os mercados financeiros já começaram a precificar essa instabilidade; o Brent fechou a USD 72,87 na sexta-feira anterior aos ataques, e analistas do Barclays e do Goldman Sachs projetam que, caso o cenário de ataque à infraestrutura se materialize, o Brent ultrapassará rapidamente os USD 100 por barril, representando um salto catastrófico de 37%. Sob tamanha pressão econômica doméstica, o Poder Executivo dos EUA poderia implementar controles de exportação draconianos para estabilizar os preços internos de combustível. Essa manobra política deixaria a União Europeia e o Reino Unido completamente desprovidos tanto do gás natural russo quanto dos suprimentos energéticos do Golfo, fraturando efetivamente a aliança geopolítica ocidental e lançando a Europa em um vácuo energético sem precedentes.

Da mesma forma, EUA e Israel estão atualmente conduzindo uma guerra de atrito altamente assimétrica que as bases militar-industriais ocidentais estão mal posicionadas para sustentar economicamente. A “Operação Epic Fury” depende quase exclusivamente de sistemas avançados de Defesa contra Mísseis Balísticos (BMD) para proteger infraestrutura crítica. Isso exige o emprego de interceptadores de vários milhões de dólares — como o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) e o Standard Missile-3 (SM-3) — para neutralizar mísseis balísticos iranianos de gerações anteriores e enxames de drones produzidos em massa que custam uma fração do valor do interceptador defensivo.

Essa razão invertida de custo por troca favorece fortemente a estratégia iraniana de saturação. A resiliência operacional iraniana — potencialmente reforçada de forma encoberta por apoio material da Rússia ou da China — pode simplesmente sobreviver aos estoques ocidentais de interceptadores. O vasto inventário de mísseis do Irã funciona efetivamente como uma esponja ablativa, projetada especificamente para absorver e esgotar interceptadores ocidentais de alto nível. Uma vez que esses estoques finitos de interceptadores caiam abaixo de limiares operacionais críticos, bases aliadas, porta-aviões e a infraestrutura energética vital do Golfo ficarão expostos a ataques de saturação em cascata e sem defesa, tornando a posição aliada militarmente insustentável.

domingo, 1 de março de 2026

O show acabou: porque os EUA vão perder a guerra para o Irã

A guerra já começou. Não nos termos clássicos de uma declaração formal seguida de invasão por terra, mas numa escalada de ataques e bombardeios aéreos, sabotagens e ameaças mútuas que ultrapassou o ponto de não retorno entre o Irã e o eixo formado por Estados Unidos e Israel. O que se desenha no horizonte, porém, não é a rápida e cirúrgica vitória que os estrategistas de Washington e Tel Aviv costumam vender para as suas populações. Muito pelo contrário, o que se anuncia é um atoleiro estratégico de proporções bíblicas para as forças ocidentais, um conflito que exporá a fragilidade da pujança militar americana quando confrontada com uma nação coesa, um território vasto e inóspito, e uma determinação forjada em décadas de resistência. Acreditar que os Estados Unidos podem vencer uma guerra contra o Irã é subestimar a geografia, a demografia e, acima de tudo, a logística de um conflito moderno, ao mesmo tempo que se superestima o poder do mero espetáculo.

Em Hollywood, o show e o espetáculo são tudo. As câmeras capturam explosões coreografadas, generais de peito estufado em salas de situação iluminadas por telas de alta definição, e mísseis inteligentes que entram pela janela de um prédio sem causar danos colaterais. As plateias saem do cinema convencidas de que a máquina de guerra americana é invencível, uma força da natureza capaz de resolver qualquer problema em 90 minutos, com direito a final feliz e bandeiras ao vento. A realidade, contudo, é um roteirista muito mais cruel e impiedoso. A realidade é o deserto, a montanha, a cadeia de suprimentos, o desgaste e a morte que não segue horário comercial. A guerra que se avizinha contra o Irã foi concebida, em grande parte, como um espetáculo de decapitação. A ideia, acalentada por setores mais radicais do governo israelense e endossada por alguns falcões em Washington, era a de que uma campanha de ataques precisos e fulminantes poderia eliminar as lideranças do regime em Teerã, destruir suas instalações nucleares e, num passe de mágica, fazer o governo colapsar como um castelo de cartas. O timing dessa fantasia não é acidental: a necessidade de um show de força tem um destinatário certo, o eleitorado americano, com as eleições de meio de mandato no horizonte. Um triunfo rápido no exterior, uma imagem de poder inconteste, poderia ser a muleta política que Trump precisa para segurar o avanço da oposição. É a lógica do blockbuster aplicada à geopolítica: criamos um inimigo, construímos um clímax com efeitos especiais (os mísseis) e esperamos os créditos subirem com a aprovação popular.

Só que o Irã não é um cenário de Hollywood, e seus líderes não são atores coadjuvantes à espera de seu destino nas mãos do herói americano. A guerra de decapitação, o show pirotécnico, pode até funcionar na tela, mas na vida real ela esbarra no primeiro obstáculo: o que vem depois do show? O que acontece quando o presidente inimigo não está mais lá, mas 90 milhões de pessoas acordam no dia seguinte com um ódio ainda mais profundo e uma convicção inabalável de que precisam defender cada palmo do seu solo? É aí que a fantasia do ataque cirúrgico dá lugar à realidade brutal da guerra de longa duração. E é precisamente nesse cenário de longo prazo que a superioridade tecnológica de Israel e dos EUA começa a se desintegrar, vítima de seu próprio veneno: a dependência de munição de alta tecnologia.

A defesa antiaérea moderna, aquela que protege as bases americanas no Golfo e as cidades israelenses, é um sistema devorador de recursos. Cada míssil interceptador, como o famoso Arrow ou o Patriot, custa milhões de dólares. Cada drone iraniano ou míssil de cruzeiro, por outro lado, custa uma fração desse valor. O Irã aprendeu com a guerra assimétrica. Ele não precisa construir uma frota de caças F-35 para competir; ele precisa construir arsenais de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones que possam ser lançados aos milhares. A estratégia iraniana é clara: saturar as defesas. Num conflito prolongado, a pergunta que ecoará nos bunkers do Pentágono e de Tel Aviv não será "quantos alvos destruímos?", mas sim "quantos interceptadores ainda temos?". As fábricas ocidentais não conseguem repor mísseis antiaéreos na mesma velocidade com que o Irã pode produzir mísseis de ataque. Assim que os estoques de defesa começarem a rarear, o céu deixará de ser um território seguro para as forças americanas e israelenses. A munição vai acabar. E quando a munição acaba, o show termina. O que resta é uma vulnerabilidade absoluta, um exército supermoderno com os olhos vendados, incapaz de se proteger da chuva de ferro e fogo que virá.

Enquanto a capacidade defensiva do Ocidente se esvai, o Irã poderá contar com a sua principal arma ofensiva, que não é apenas tecnológica, mas geográfica. O Irã é um planalto imenso, uma fortaleza natural com o tamanho da soma de França, Espanha, Alemanha e Itália. É um país de desertos escaldantes, cadeias montanhosas como os montes Zagros, que funcionam como muralhas naturais, e uma profundidade territorial que engole exércitos. Invadir o Irã seria um pesadelo logístico que faria a guerra do Vietnã parecer uma excursão de fim de semana. Não há força no mundo capaz de ocupar e controlar um território de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, com 90 milhões de habitantes, onde a língua, a cultura e a religião forjam uma identidade nacional poderosa e resistente. Essa população não é um número abstrato; são 90 milhões de potenciais combatentes, 90 milhões de pessoas que cresceram sob sanções e ameaças, e que veem qualquer intervenção externa como uma confirmação de todos os seus medos e um chamado à resistência.

Diante da impossibilidade de uma invasão terrestre, restaria aos EUA e a Israel o estrangulamento econômico. Mas é aqui que o jogo vira, e a mesa se parte sobre a cabeça dos agressores. O Irã não está sentado passivamente esperando o bloqueio. Ele tem uma chave mestra na mão: o Estreito de Ormuz. Por essa garganta estreita, ladeada pelo território iraniano, escoa cerca de um quinto do petróleo mundial. A ameaça de fechar o Estreito sempre foi uma carta na manga de Teerã, mas numa guerra aberta, essa carta é jogada na primeira rodada. O Irã não precisa nem sequer afundar navios-tanque de forma contínua; basta acionar minas, lançar mísseis contra alguns alvos estratégicos ou, simplesmente, demonstrar que a passagem não é segura. O efeito sobre o preço do petróleo será instantâneo e catastrófico. Mas o problema para os EUA vai muito além do preço do combustível na bomba.

A economia americana já se encontra num estado de fragilidade crônica, corroída por décadas de desindustrialização, uma dívida pública que ultrapassa os 40 trilhões de dólares e uma inflação que corrói o poder de compra das famílias. Um choque energético da magnitude do fechamento de Ormuz não sería apenas um pontinho negativo no gráfico do PIB; mas um golpe de misericórdia num paciente já debilitado. A gasolina vai disparar, o preço dos alimentos irão explodir, o custo de transporte de qualquer mercadoria vai tornar a economia inviável. O "show" da guerra relâmpago dará lugar a uma crise exponencial, com filas nos postos de gasolina, fábricas parando e um desemprego em massa. A população americana sentirá sua vida desmoronar e a pressão sobre o governo se tornará insustentável. A guerra de longa duração, que os EUA não podem sustentar militarmente, tornar-se-á também uma guerra que o eleitorado americano não pode sustentar economicamente.

Em suma, acreditar numa vitória americana sobre o Irã é um exercício de miopia estratégica. É confundir o trailer de um filme de ação com a realidade complexa de um conflito assimétrico. O show de decapitação, pensado para as eleições de meio de mandato, vai colidir com a solidez granítica da geografia iraniana, com a determinação dos seus 90 milhões de habitantes e com a lógica implacável da logística. Os mísseis americanos vão acabar, os interceptadores vão rarear, enquanto os drones e mísseis iranianos continuarão a fluir das fábricas como água de uma nascente. O Estreito de Ormuz vai estrangular a economia global e aprofundar as fraturas de uma América já dividida e endividada. A guerra que começou como um espetáculo para consumo interno terminará como um atoleiro sem fim, onde a única certeza é a de que o gigante, ao subestimar o seu adversário, descobrirá que nem todo show pode ter uma segunda temporada, especialmente quando o palco é o solo acidentado e inexpugnável da Pérsia.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O Sequestro de Maduro: Uma Paródia de uma Potência em Decadência

 

A notícia do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pela Delta Force do Exército dos Estados Unidos — uma operação que mistura elementos de farsa e tragédia — rapidamente circulou o mundo como um episódio extraordinário de intervenção internacional. No entanto, uma análise mais detida revela que esse evento, longe de sinalizar força ou capacidade estratégica, é na verdade um sintoma gritante de fraqueza institucional e decadência geopolítica. O episódio expõe as fissuras de uma potência que, apesar de sua retórica belicosa, demonstra recorrentemente suas limitações em alcançar vitórias militares significativas ou sustentáveis.

A Ilusão da Força: Uma História de Dificuldades Militares

Ao longo das últimas décadas, a potência em questão — que conduziu ou apoiou esta operação — acumulou um histórico de intervenções militares complexas e frequentemente fracassadas. Desde conflitos prolongados no Oriente Médio até operações encobertas na América Latina, o padrão é de vitórias táticas seguidas de fracassos estratégicos monumentais. A incapacidade de transformar superioridade tecnológica e orçamentária em resultados políticos duradouros tornou-se uma marca registrada. A operação contra Maduro insere-se neste contexto: um ato espetacular que busca mascarar, através do espetáculo midiático, uma incapacidade crônica de influenciar processos políticos por meios convencionais ou diplomáticos.

Corrupção Interna e Conivência: Os Verdadeiros Motores do "Sucesso"

A aparente eficácia da operação — que levou à captura do presidente — não resulta de uma superioridade operacional esmagadora, mas sim de duas condições muito mais prosaicas: corrupção interna venezuelana e, provavelmente, algum nível de conivência ou falha de setores do próprio governo.

Os fatos indicam que os militares estadunidenses conseguiram penetrar o aparato de segurança venezuelano não através de táticas sofisticadas, mas mediante suborno e exploração de divisões dentro das forças armadas e serviços de inteligência do país. Em um estado cuja elite está fragmentada e onde setores da burocracia e das forças armadas mantêm lealdades voláteis, a compra de acesso torna-se uma estratégia de baixo custo e alto retorno momentâneo.

Mais significativamente, persistem questões sobre quanto da operação foi realmente desconhecida por elementos dentro do governo venezuelano. Em cenários de negociações subterrâneas e disputas de poder, é plausível que facções internas possam ter permitido — ou até facilitado — o sequestro como parte de um cálculo político mais amplo. Se confirmada, essa hipótese transformaria a operação de "ato de força externa" para "episódio de guerra civil por procuração", revelando muito mais sobre as fraturas venezuelanas do que sobre o poder da potência intervencionista.

Marketing Político para Consumo Doméstico: O Show de Trump

Não se pode analisar este evento sem situá-lo no contexto eleitoral da potência envolvida. O presidente Donald Trump, figura profundamente enraizada na cultura do espetáculo e da mídia, governa através de gestos simbólicos destinados a sua base. A operação contra Maduro possui todos os elementos de uma produção cinematográfica criada para as câmeras: o vilão caricato (Maduro, retratado como ditador narcotraficante), os heróis destemidos (soldados apresentados como "libertadores") e o clímax dramático da captura.

Esta é uma operação de relações públicas disfarçada de ação militar. Seu objetivo principal não era desestabilizar o regime venezuelano de forma sustentável — algo que exigiria uma estratégia muito mais complexa e duradoura — mas sim gerar manchetes espetaculares, alimentar a narrativa de "presidente durão" e energizar o eleitorado em ano de uma eleição disputada. A própria divulgação cinematográfica da operação, com seus elementos de reality show, expõe esta lógica midiática.

A Estética do Absurdo: Rambo, Exterminador do Futuro e Liga da Justiça na Vida Real

A operação representa a culminação de uma cultura política que internalizou a estética hollywoodiana como manual de relações internacionais. Ela é uma paródia involuntária dos filmes de ação dos anos 80 e 90 — uma mistura bizarra de "Rambo III" (onde um único homem derrota exércitos inteiros), "O Exterminador do Futuro" (com sua missão impossível de alterar o destino) e "Capitão América" (o herói patriótico que combate o mal além-fronteiras).

Na ficção, estes arquétipos funcionam porque seguem regras narrativas previsíveis: o herói supera obstáculos impossíveis através de força de vontade e superioridade moral. Na realidade geopolítica, esta mentalidade produz operações desconectadas da complexidade política, social e histórica dos contextos intervencionista. O resultado é um espetáculo tragicômico onde soldados vestidos com equipamento tático de loja de departamento encenam uma fantasia de libertação.

A própria composição da operação — enormes helicópteros barulhentos atravessando o território venezuelano — lembra mais a "Liga da Justiça" em sua versão paródica do que uma unidade militar coerente. A operação foi concebida como um roteiro, não como uma estratégia, e seu fracasso em alcançar qualquer objetivo político duradouro era previsível desde o início para qualquer analista que ultrapassasse a retórica.

Conclusão: A Fraqueza Disfarçada de Ousadia

O sequestro de Maduro, portanto, longe de ser um sinal de força ressurrente, é na verdade um sintoma de decadência acelerada. Ele revela uma potência que:

1.     Recorre a operações midiáticas porque não pode (ou não quer) arcar com os custos políticos de uma intervenção aberta;

2.     Substitui a estratégia diplomática sustentada por gestos espetaculares de curto prazo;

3.     Internalizou a lógica da mídia e do entretenimento a ponto de confundir manchetes com realizações geopolíticas;

4.     Depende da corrupção e divisão de seus adversários para obter sucessos táticos mínimos;

5.     Continua incapaz de traduzir superioridade militar em influência política duradoura.

Em última análise, a operação representa o triunfo da forma sobre o conteúdo, do gesto sobre a estratégia, da propaganda sobre a política. Enquanto o Delta Force encenava seu roteiro de ação ao estilo Hollywood, as verdadeiras dinâmicas de poder na Venezuela — e as relações internacionais complexas que a envolvem — aparentemente seguem seu curso, praticamente inalteradas pelo espetáculo momentâneo.

A verdadeira força, na geopolítica, se mede pela capacidade de moldar realidades de forma sustentável, não pela produção de episódios espetaculares. Por este critério, a operação contra Maduro não é um símbolo de poder, mas sim um testemunho eloquente de fraqueza — a fraqueza de quem precisa encenar um filme de ação porque já não consegue escrever a história.

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Um Ano Novo Difícil para a Economia

 


por Desmond Lachman

A complacência generalizada de hoje sobre as perspectivas econômicas dos EUA nos lembra a situação que existia na véspera da Grande Recessão Econômica de 2008-2009. Assim como naquela época, quando a visão consensual esperava crescimento econômico contínuo apesar dos grandes riscos econômicos visíveis, hoje o consenso é de que continuaremos a ver crescimento econômico no próximo ano. Isso ocorre apesar dos níveis recordes de dívida pública, dos ataques à independência do banco central, do desmoronamento da ordem comercial internacional e das condições de bolha no mercado de ações dos EUA e no mercado de crédito privado. Se a história servir de guia, a visão econômica consensual de hoje se mostrará tão equivocada quanto a de 2008.

Se há algo sobre o qual a visão consensual de hoje está surpreendentemente complacente, é o estado alarmante das finanças públicas do país. Não importa que o Fundo Monetário Internacional esteja alertando que o déficit orçamentário dos EUA permanecerá em torno de 7% do PIB por tempo indeterminado. Não importa que nossa dívida pública esteja em um caminho para atingir cerca de 128% do PIB até 2030. Esse é um nível que superaria o final da Segunda Guerra Mundial e que é mais associado a países como Grécia ou Itália.

Uma vulnerabilidade chave da economia dos EUA é sua alta dependência de estrangeiros para financiar seus déficits orçamentário e de comércio. De fato, de acordo com o Tesouro dos EUA, estrangeiros atualmente detêm US$ 8,5 trilhões, ou cerca de 30% dos US$ 29 trilhões de títulos do Tesouro dos EUA em circulação. Isso torna imperativo que mantenhamos a confiança dos investidores estrangeiros de que iremos honrar nossa dívida corretamente, caso queiramos que eles renovem seus títulos do Tesouro que estão vencendo e ajudem a financiar nosso déficit orçamentário de US$ 2 trilhões por ano.

Um risco importante para nossa economia no próximo ano é que, em um momento de grandes déficits orçamentários, o presidente Trump continue a minar a independência do Federal Reserve e a exigir cortes significativos nas taxas de juros, apesar da inflação estar acima da meta de 2% do Fed. Isso poderia fazer com que tanto investidores domésticos quanto estrangeiros acreditassem que os EUA tentariam inflacionar sua maneira de sair sob sua montanha de dívidas. Se isso acontecer, poderíamos ver um aumento acentuado nos custos de empréstimos de longo prazo, o que reverberaria por toda a economia e pelos mercados financeiros globais.

Se em 2008 tivemos uma bolha no mercado imobiliário, hoje temos uma bolha da Inteligência Artificial (IA). O investimento em IA agora representa cerca de metade do crescimento do PIB e impulsionou o mercado de ações para condições de bolha semelhantes à bolha da internet de 2001. Medido pela Razão Preço/Lucro Ajustada Ciclicamente (CAPE), o S&P 500 de hoje tem um valor CAPE de 40. Isso é mais que o dobro da sua média de longo prazo. Enquanto isso, as chamadas “Magnificent Seven” – as sete empresas que dominam o setor de IA – agora representam cerca de 35% do valor total do S&P 500. Não é surpresa, então, que o Banco de Pagamentos Internacionais e lendas do investimento como Warren Buffett e Ray Dalio estejam alertando sobre os perigos da bolha da IA.

No contexto das condições de bolha no mercado de ações e no mercado de crédito privado, a última coisa que a economia dos EUA precisa são taxas de juros mais altas a longo prazo. Essas taxas provavelmente estourariam a bolha da IA, causando um declínio abrupto nos investimentos em IA e uma queda acentuada nos preços das ações dos EUA. Por sua vez, a combinação de investimento em declínio e uma grande perda de riqueza das famílias poderia levar a economia dos EUA à recessão. No entanto, as chances de um aumento nas taxas de juros de longo prazo nos EUA parecem altas, considerando nosso enorme déficit orçamentário e a tentativa de Trump de minar a independência do Fed.

Vulnerabilidades econômicas no exterior podem adicionar desafios econômicos àqueles que enfrentamos internamente. A dependência excessiva da China de exportações e investimentos para impulsionar sua economia poderia provocar uma reação protecionista dos EUA e da Europa. Isso poderia levar a uma maior quebra no sistema comercial internacional. Ao mesmo tempo, as políticas orçamentárias irresponsáveis do novo primeiro-ministro do Japão, Sanae Takaichi, poderiam causar um dia de acerto de contas para a economia altamente endividada do Japão. Isso poderia levar a um aumento nos rendimentos dos títulos de longo prazo do Japão e à repatriação de capital japonês dos Estados Unidos.

Tudo isso não parece bom para Trump nas próximas eleições de meio de mandato. Já com problemas de acessibilidade, a última coisa de que ele precisa é de um revés econômico na forma do estouro da bolha da IA.