domingo, 1 de março de 2026

O show acabou: porque os EUA vão perder a guerra para o Irã

A guerra já começou. Não nos termos clássicos de uma declaração formal seguida de invasão por terra, mas numa escalada de ataques e bombardeios aéreos, sabotagens e ameaças mútuas que ultrapassou o ponto de não retorno entre o Irã e o eixo formado por Estados Unidos e Israel. O que se desenha no horizonte, porém, não é a rápida e cirúrgica vitória que os estrategistas de Washington e Tel Aviv costumam vender para as suas populações. Muito pelo contrário, o que se anuncia é um atoleiro estratégico de proporções bíblicas para as forças ocidentais, um conflito que exporá a fragilidade da pujança militar americana quando confrontada com uma nação coesa, um território vasto e inóspito, e uma determinação forjada em décadas de resistência. Acreditar que os Estados Unidos podem vencer uma guerra contra o Irã é subestimar a geografia, a demografia e, acima de tudo, a logística de um conflito moderno, ao mesmo tempo que se superestima o poder do mero espetáculo.

Em Hollywood, o show e o espetáculo são tudo. As câmeras capturam explosões coreografadas, generais de peito estufado em salas de situação iluminadas por telas de alta definição, e mísseis inteligentes que entram pela janela de um prédio sem causar danos colaterais. As plateias saem do cinema convencidas de que a máquina de guerra americana é invencível, uma força da natureza capaz de resolver qualquer problema em 90 minutos, com direito a final feliz e bandeiras ao vento. A realidade, contudo, é um roteirista muito mais cruel e impiedoso. A realidade é o deserto, a montanha, a cadeia de suprimentos, o desgaste e a morte que não segue horário comercial. A guerra que se avizinha contra o Irã foi concebida, em grande parte, como um espetáculo de decapitação. A ideia, acalentada por setores mais radicais do governo israelense e endossada por alguns falcões em Washington, era a de que uma campanha de ataques precisos e fulminantes poderia eliminar as lideranças do regime em Teerã, destruir suas instalações nucleares e, num passe de mágica, fazer o governo colapsar como um castelo de cartas. O timing dessa fantasia não é acidental: a necessidade de um show de força tem um destinatário certo, o eleitorado americano, com as eleições de meio de mandato no horizonte. Um triunfo rápido no exterior, uma imagem de poder inconteste, poderia ser a muleta política que Trump precisa para segurar o avanço da oposição. É a lógica do blockbuster aplicada à geopolítica: criamos um inimigo, construímos um clímax com efeitos especiais (os mísseis) e esperamos os créditos subirem com a aprovação popular.

Só que o Irã não é um cenário de Hollywood, e seus líderes não são atores coadjuvantes à espera de seu destino nas mãos do herói americano. A guerra de decapitação, o show pirotécnico, pode até funcionar na tela, mas na vida real ela esbarra no primeiro obstáculo: o que vem depois do show? O que acontece quando o presidente inimigo não está mais lá, mas 90 milhões de pessoas acordam no dia seguinte com um ódio ainda mais profundo e uma convicção inabalável de que precisam defender cada palmo do seu solo? É aí que a fantasia do ataque cirúrgico dá lugar à realidade brutal da guerra de longa duração. E é precisamente nesse cenário de longo prazo que a superioridade tecnológica de Israel e dos EUA começa a se desintegrar, vítima de seu próprio veneno: a dependência de munição de alta tecnologia.

A defesa antiaérea moderna, aquela que protege as bases americanas no Golfo e as cidades israelenses, é um sistema devorador de recursos. Cada míssil interceptador, como o famoso Arrow ou o Patriot, custa milhões de dólares. Cada drone iraniano ou míssil de cruzeiro, por outro lado, custa uma fração desse valor. O Irã aprendeu com a guerra assimétrica. Ele não precisa construir uma frota de caças F-35 para competir; ele precisa construir arsenais de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones que possam ser lançados aos milhares. A estratégia iraniana é clara: saturar as defesas. Num conflito prolongado, a pergunta que ecoará nos bunkers do Pentágono e de Tel Aviv não será "quantos alvos destruímos?", mas sim "quantos interceptadores ainda temos?". As fábricas ocidentais não conseguem repor mísseis antiaéreos na mesma velocidade com que o Irã pode produzir mísseis de ataque. Assim que os estoques de defesa começarem a rarear, o céu deixará de ser um território seguro para as forças americanas e israelenses. A munição vai acabar. E quando a munição acaba, o show termina. O que resta é uma vulnerabilidade absoluta, um exército supermoderno com os olhos vendados, incapaz de se proteger da chuva de ferro e fogo que virá.

Enquanto a capacidade defensiva do Ocidente se esvai, o Irã poderá contar com a sua principal arma ofensiva, que não é apenas tecnológica, mas geográfica. O Irã é um planalto imenso, uma fortaleza natural com o tamanho da soma de França, Espanha, Alemanha e Itália. É um país de desertos escaldantes, cadeias montanhosas como os montes Zagros, que funcionam como muralhas naturais, e uma profundidade territorial que engole exércitos. Invadir o Irã seria um pesadelo logístico que faria a guerra do Vietnã parecer uma excursão de fim de semana. Não há força no mundo capaz de ocupar e controlar um território de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, com 90 milhões de habitantes, onde a língua, a cultura e a religião forjam uma identidade nacional poderosa e resistente. Essa população não é um número abstrato; são 90 milhões de potenciais combatentes, 90 milhões de pessoas que cresceram sob sanções e ameaças, e que veem qualquer intervenção externa como uma confirmação de todos os seus medos e um chamado à resistência.

Diante da impossibilidade de uma invasão terrestre, restaria aos EUA e a Israel o estrangulamento econômico. Mas é aqui que o jogo vira, e a mesa se parte sobre a cabeça dos agressores. O Irã não está sentado passivamente esperando o bloqueio. Ele tem uma chave mestra na mão: o Estreito de Ormuz. Por essa garganta estreita, ladeada pelo território iraniano, escoa cerca de um quinto do petróleo mundial. A ameaça de fechar o Estreito sempre foi uma carta na manga de Teerã, mas numa guerra aberta, essa carta é jogada na primeira rodada. O Irã não precisa nem sequer afundar navios-tanque de forma contínua; basta acionar minas, lançar mísseis contra alguns alvos estratégicos ou, simplesmente, demonstrar que a passagem não é segura. O efeito sobre o preço do petróleo será instantâneo e catastrófico. Mas o problema para os EUA vai muito além do preço do combustível na bomba.

A economia americana já se encontra num estado de fragilidade crônica, corroída por décadas de desindustrialização, uma dívida pública que ultrapassa os 40 trilhões de dólares e uma inflação que corrói o poder de compra das famílias. Um choque energético da magnitude do fechamento de Ormuz não sería apenas um pontinho negativo no gráfico do PIB; mas um golpe de misericórdia num paciente já debilitado. A gasolina vai disparar, o preço dos alimentos irão explodir, o custo de transporte de qualquer mercadoria vai tornar a economia inviável. O "show" da guerra relâmpago dará lugar a uma crise exponencial, com filas nos postos de gasolina, fábricas parando e um desemprego em massa. A população americana sentirá sua vida desmoronar e a pressão sobre o governo se tornará insustentável. A guerra de longa duração, que os EUA não podem sustentar militarmente, tornar-se-á também uma guerra que o eleitorado americano não pode sustentar economicamente.

Em suma, acreditar numa vitória americana sobre o Irã é um exercício de miopia estratégica. É confundir o trailer de um filme de ação com a realidade complexa de um conflito assimétrico. O show de decapitação, pensado para as eleições de meio de mandato, vai colidir com a solidez granítica da geografia iraniana, com a determinação dos seus 90 milhões de habitantes e com a lógica implacável da logística. Os mísseis americanos vão acabar, os interceptadores vão rarear, enquanto os drones e mísseis iranianos continuarão a fluir das fábricas como água de uma nascente. O Estreito de Ormuz vai estrangular a economia global e aprofundar as fraturas de uma América já dividida e endividada. A guerra que começou como um espetáculo para consumo interno terminará como um atoleiro sem fim, onde a única certeza é a de que o gigante, ao subestimar o seu adversário, descobrirá que nem todo show pode ter uma segunda temporada, especialmente quando o palco é o solo acidentado e inexpugnável da Pérsia.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O Sequestro de Maduro: Uma Paródia de uma Potência em Decadência

 

A notícia do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pela Delta Force do Exército dos Estados Unidos — uma operação que mistura elementos de farsa e tragédia — rapidamente circulou o mundo como um episódio extraordinário de intervenção internacional. No entanto, uma análise mais detida revela que esse evento, longe de sinalizar força ou capacidade estratégica, é na verdade um sintoma gritante de fraqueza institucional e decadência geopolítica. O episódio expõe as fissuras de uma potência que, apesar de sua retórica belicosa, demonstra recorrentemente suas limitações em alcançar vitórias militares significativas ou sustentáveis.

A Ilusão da Força: Uma História de Dificuldades Militares

Ao longo das últimas décadas, a potência em questão — que conduziu ou apoiou esta operação — acumulou um histórico de intervenções militares complexas e frequentemente fracassadas. Desde conflitos prolongados no Oriente Médio até operações encobertas na América Latina, o padrão é de vitórias táticas seguidas de fracassos estratégicos monumentais. A incapacidade de transformar superioridade tecnológica e orçamentária em resultados políticos duradouros tornou-se uma marca registrada. A operação contra Maduro insere-se neste contexto: um ato espetacular que busca mascarar, através do espetáculo midiático, uma incapacidade crônica de influenciar processos políticos por meios convencionais ou diplomáticos.

Corrupção Interna e Conivência: Os Verdadeiros Motores do "Sucesso"

A aparente eficácia da operação — que levou à captura do presidente — não resulta de uma superioridade operacional esmagadora, mas sim de duas condições muito mais prosaicas: corrupção interna venezuelana e, provavelmente, algum nível de conivência ou falha de setores do próprio governo.

Os fatos indicam que os militares estadunidenses conseguiram penetrar o aparato de segurança venezuelano não através de táticas sofisticadas, mas mediante suborno e exploração de divisões dentro das forças armadas e serviços de inteligência do país. Em um estado cuja elite está fragmentada e onde setores da burocracia e das forças armadas mantêm lealdades voláteis, a compra de acesso torna-se uma estratégia de baixo custo e alto retorno momentâneo.

Mais significativamente, persistem questões sobre quanto da operação foi realmente desconhecida por elementos dentro do governo venezuelano. Em cenários de negociações subterrâneas e disputas de poder, é plausível que facções internas possam ter permitido — ou até facilitado — o sequestro como parte de um cálculo político mais amplo. Se confirmada, essa hipótese transformaria a operação de "ato de força externa" para "episódio de guerra civil por procuração", revelando muito mais sobre as fraturas venezuelanas do que sobre o poder da potência intervencionista.

Marketing Político para Consumo Doméstico: O Show de Trump

Não se pode analisar este evento sem situá-lo no contexto eleitoral da potência envolvida. O presidente Donald Trump, figura profundamente enraizada na cultura do espetáculo e da mídia, governa através de gestos simbólicos destinados a sua base. A operação contra Maduro possui todos os elementos de uma produção cinematográfica criada para as câmeras: o vilão caricato (Maduro, retratado como ditador narcotraficante), os heróis destemidos (soldados apresentados como "libertadores") e o clímax dramático da captura.

Esta é uma operação de relações públicas disfarçada de ação militar. Seu objetivo principal não era desestabilizar o regime venezuelano de forma sustentável — algo que exigiria uma estratégia muito mais complexa e duradoura — mas sim gerar manchetes espetaculares, alimentar a narrativa de "presidente durão" e energizar o eleitorado em ano de uma eleição disputada. A própria divulgação cinematográfica da operação, com seus elementos de reality show, expõe esta lógica midiática.

A Estética do Absurdo: Rambo, Exterminador do Futuro e Liga da Justiça na Vida Real

A operação representa a culminação de uma cultura política que internalizou a estética hollywoodiana como manual de relações internacionais. Ela é uma paródia involuntária dos filmes de ação dos anos 80 e 90 — uma mistura bizarra de "Rambo III" (onde um único homem derrota exércitos inteiros), "O Exterminador do Futuro" (com sua missão impossível de alterar o destino) e "Capitão América" (o herói patriótico que combate o mal além-fronteiras).

Na ficção, estes arquétipos funcionam porque seguem regras narrativas previsíveis: o herói supera obstáculos impossíveis através de força de vontade e superioridade moral. Na realidade geopolítica, esta mentalidade produz operações desconectadas da complexidade política, social e histórica dos contextos intervencionista. O resultado é um espetáculo tragicômico onde soldados vestidos com equipamento tático de loja de departamento encenam uma fantasia de libertação.

A própria composição da operação — enormes helicópteros barulhentos atravessando o território venezuelano — lembra mais a "Liga da Justiça" em sua versão paródica do que uma unidade militar coerente. A operação foi concebida como um roteiro, não como uma estratégia, e seu fracasso em alcançar qualquer objetivo político duradouro era previsível desde o início para qualquer analista que ultrapassasse a retórica.

Conclusão: A Fraqueza Disfarçada de Ousadia

O sequestro de Maduro, portanto, longe de ser um sinal de força ressurrente, é na verdade um sintoma de decadência acelerada. Ele revela uma potência que:

1.     Recorre a operações midiáticas porque não pode (ou não quer) arcar com os custos políticos de uma intervenção aberta;

2.     Substitui a estratégia diplomática sustentada por gestos espetaculares de curto prazo;

3.     Internalizou a lógica da mídia e do entretenimento a ponto de confundir manchetes com realizações geopolíticas;

4.     Depende da corrupção e divisão de seus adversários para obter sucessos táticos mínimos;

5.     Continua incapaz de traduzir superioridade militar em influência política duradoura.

Em última análise, a operação representa o triunfo da forma sobre o conteúdo, do gesto sobre a estratégia, da propaganda sobre a política. Enquanto o Delta Force encenava seu roteiro de ação ao estilo Hollywood, as verdadeiras dinâmicas de poder na Venezuela — e as relações internacionais complexas que a envolvem — aparentemente seguem seu curso, praticamente inalteradas pelo espetáculo momentâneo.

A verdadeira força, na geopolítica, se mede pela capacidade de moldar realidades de forma sustentável, não pela produção de episódios espetaculares. Por este critério, a operação contra Maduro não é um símbolo de poder, mas sim um testemunho eloquente de fraqueza — a fraqueza de quem precisa encenar um filme de ação porque já não consegue escrever a história.

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Um Ano Novo Difícil para a Economia

 


por Desmond Lachman

A complacência generalizada de hoje sobre as perspectivas econômicas dos EUA nos lembra a situação que existia na véspera da Grande Recessão Econômica de 2008-2009. Assim como naquela época, quando a visão consensual esperava crescimento econômico contínuo apesar dos grandes riscos econômicos visíveis, hoje o consenso é de que continuaremos a ver crescimento econômico no próximo ano. Isso ocorre apesar dos níveis recordes de dívida pública, dos ataques à independência do banco central, do desmoronamento da ordem comercial internacional e das condições de bolha no mercado de ações dos EUA e no mercado de crédito privado. Se a história servir de guia, a visão econômica consensual de hoje se mostrará tão equivocada quanto a de 2008.

Se há algo sobre o qual a visão consensual de hoje está surpreendentemente complacente, é o estado alarmante das finanças públicas do país. Não importa que o Fundo Monetário Internacional esteja alertando que o déficit orçamentário dos EUA permanecerá em torno de 7% do PIB por tempo indeterminado. Não importa que nossa dívida pública esteja em um caminho para atingir cerca de 128% do PIB até 2030. Esse é um nível que superaria o final da Segunda Guerra Mundial e que é mais associado a países como Grécia ou Itália.

Uma vulnerabilidade chave da economia dos EUA é sua alta dependência de estrangeiros para financiar seus déficits orçamentário e de comércio. De fato, de acordo com o Tesouro dos EUA, estrangeiros atualmente detêm US$ 8,5 trilhões, ou cerca de 30% dos US$ 29 trilhões de títulos do Tesouro dos EUA em circulação. Isso torna imperativo que mantenhamos a confiança dos investidores estrangeiros de que iremos honrar nossa dívida corretamente, caso queiramos que eles renovem seus títulos do Tesouro que estão vencendo e ajudem a financiar nosso déficit orçamentário de US$ 2 trilhões por ano.

Um risco importante para nossa economia no próximo ano é que, em um momento de grandes déficits orçamentários, o presidente Trump continue a minar a independência do Federal Reserve e a exigir cortes significativos nas taxas de juros, apesar da inflação estar acima da meta de 2% do Fed. Isso poderia fazer com que tanto investidores domésticos quanto estrangeiros acreditassem que os EUA tentariam inflacionar sua maneira de sair sob sua montanha de dívidas. Se isso acontecer, poderíamos ver um aumento acentuado nos custos de empréstimos de longo prazo, o que reverberaria por toda a economia e pelos mercados financeiros globais.

Se em 2008 tivemos uma bolha no mercado imobiliário, hoje temos uma bolha da Inteligência Artificial (IA). O investimento em IA agora representa cerca de metade do crescimento do PIB e impulsionou o mercado de ações para condições de bolha semelhantes à bolha da internet de 2001. Medido pela Razão Preço/Lucro Ajustada Ciclicamente (CAPE), o S&P 500 de hoje tem um valor CAPE de 40. Isso é mais que o dobro da sua média de longo prazo. Enquanto isso, as chamadas “Magnificent Seven” – as sete empresas que dominam o setor de IA – agora representam cerca de 35% do valor total do S&P 500. Não é surpresa, então, que o Banco de Pagamentos Internacionais e lendas do investimento como Warren Buffett e Ray Dalio estejam alertando sobre os perigos da bolha da IA.

No contexto das condições de bolha no mercado de ações e no mercado de crédito privado, a última coisa que a economia dos EUA precisa são taxas de juros mais altas a longo prazo. Essas taxas provavelmente estourariam a bolha da IA, causando um declínio abrupto nos investimentos em IA e uma queda acentuada nos preços das ações dos EUA. Por sua vez, a combinação de investimento em declínio e uma grande perda de riqueza das famílias poderia levar a economia dos EUA à recessão. No entanto, as chances de um aumento nas taxas de juros de longo prazo nos EUA parecem altas, considerando nosso enorme déficit orçamentário e a tentativa de Trump de minar a independência do Fed.

Vulnerabilidades econômicas no exterior podem adicionar desafios econômicos àqueles que enfrentamos internamente. A dependência excessiva da China de exportações e investimentos para impulsionar sua economia poderia provocar uma reação protecionista dos EUA e da Europa. Isso poderia levar a uma maior quebra no sistema comercial internacional. Ao mesmo tempo, as políticas orçamentárias irresponsáveis do novo primeiro-ministro do Japão, Sanae Takaichi, poderiam causar um dia de acerto de contas para a economia altamente endividada do Japão. Isso poderia levar a um aumento nos rendimentos dos títulos de longo prazo do Japão e à repatriação de capital japonês dos Estados Unidos.

Tudo isso não parece bom para Trump nas próximas eleições de meio de mandato. Já com problemas de acessibilidade, a última coisa de que ele precisa é de um revés econômico na forma do estouro da bolha da IA.

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O Fim do Imperialismo Estadunidense: Uma Análise Marxista

 

E os Estados Unidos. se tomarmos sua economia, da aveia aos couraçados de último tipo, ocupam o primeiro lugar. Eles produzem todas as necessidades da vida até a metade ou dois terços de tudo que é produzido pela humanidade.
Leon Trotski, Izvestia, 5 de agosto de 1924.

O Deslocamento Histórico do Centro Capitalista: Da Inglaterra à China

A dinâmica histórica do modo de produção capitalista é, em sua essência, a história da busca incessante pela valorização do valor, pela acumulação. Esse processo, longe de ser estático, provoca contínuos deslocamentos geográficos do epicentro da produção mundial. O capital fixa seu coração onde encontra as condições mais propícias para a extração de mais-valia, apenas para, mais tarde, seguir em frente quando as contradições internas de seu sucesso se tornam barreiras intransponíveis. Foi assim que o centro se moveu da Inglaterra para os Estados Unidos e, agora, estabeleceu-se de forma incontestável na China.

A Inglaterra: O Berço da Produção Capitalista e a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro

Foi na Inglaterra que a Revolução Industrial concretizou plenamente as relações capitalistas de produção. A introdução maciça de maquinário – a forma material mais pura do Capital Constante (CC) – revolucionou o processo produtivo. No entanto, essa mesma mecanização, que elevava produtivamente a composição orgânica do capital (a relação entre CC e Capital Variável (CV), este último representando a força de trabalho viva), continha em si uma contradição fatal. Conforme o CC aumenta em proporção ao CV, a fonte única de todo o lucro – o trabalho não pago, a mais-valia extraída do CV – vê sua base relativa diminuir. Esta é a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro, postulada por Marx. A elevação da composição orgânica do capital, necessária para a competição interimperialista da época, acabou por expulsar trabalhadores da produção, criando um exército industrial de reserva e, paradoxalmente, minando a própria taxa de lucro do sistema em sua configuração inglesa.

A Ascensão dos EUA: O Novo Centro e a Fuga para a Frente

Os Estados Unidos emergiram como o novo centro hegemônico ao absorver e recombinar as forças produtivas em uma escala continental. Com uma fronteira aberta à "acumulação primitiva" interna e um fluxo constante de imigrantes que servia como um exército industrial de reserva renovável e barato, o capital americano pôde, por um tempo, contrabalançar a queda da taxa de lucro através da expansão extensiva e intensiva. A produção em massa, notadamente o fordismo, representou o ápice desta fase, integrando o trabalhador também como consumidor. No entanto, a mesma lógica da mecanização e da elevação do CC persistiu. A busca por produtividade levou, mais uma vez, à expulsão progressiva de trabalhadores do chão de fábrica, preparando o terreno para a próxima grande contradição.

A Desindustrialização e a Financeirização: A Economia dos EUA como um Banco Quebrado

Incapaz de sustentar taxas de lucro elevadas na produção industrial face à concorrência emergente e aos próprios limites internos da lei de Marx, o capital estadunidense engajou-se em uma "fuga para a frente" histórica: a desindustrialização e a financeirização. A produção real, geradora de valor, foi progressivamente terceirizada para nações com custos de CV drasticamente inferiores, culminando no deslocamento para a China. O que restou nos EUA foi uma economia voltada para o setor de serviços, de baixo valor agregado, e, sobretudo, para o domínio do capital fictício.

O capital fictício – ações, títulos, derivativos e todo tipo de título de dívida – é uma reivindicação sobre riqueza futura, não riqueza real presente. A economia dos EUA tornou-se um gigantesco cassino financeiro, onde a valorização parece ocorrer sem a mediação da produção. Esta é uma ilusão perigosa. A dívida nacional de quase 40 trilhões de dólares é o testemunho mais claro deste fenômeno: é um montante que, em última instância, não pode ser quitado pela base produtiva real, definhada do país. Uma economia que substitui fábricas por bancos e inovação técnica por alavancagem financeira é, em essência, um banco quebrado, sustentado apenas pela confiança e pela hegemonia do dólar, que se enfraquece a cada dia.

O Imperialismo Fantasma e o Colapso da Acumulação Primitiva Interna

A noção de um imperialismo estadunidense todo-poderoso é, hoje, um fantasma. O imperialismo real, no sentido clássico de exportação de capital e dominação de cadeias produtivas, tem hoje seu centro em Pequim, não em Washington. O que resta aos EUA é um imperialismo militarista capenga e financeiro, uma casca vazia que tenta manter pela força e pela especulação o que perdeu em capacidade produtiva. Neste contexto, políticas anti-imigração, como as defendidas por Trump, são um tiro no pé do já debilitado organismo econômico norte-americano.

A imigração foi, e sempre será, um componente vital da "acumulação primitiva" descrita por Marx. É o camponês expulso de suas terras, o trabalhador do Sul global em fuga da miséria, que tradicionalmente forma a massa de Capital Variável barato e superexplorável, permitindo a extração de mais-valia absoluta em setores-chave. Expulsar o imigrante, em uma economia que já expulsou sua própria base industrial, é agravar a escassez de CV em setores de baixo salário, acelerar a crise de reprodução da força de trabalho e aprofundar a estagnação. É uma política que ignora por completo a história do capitalismo e a função do trabalhador migrante como uma das alavancas primordiais da acumulação.

A Bolha da IA: O Ápice do Capital Constante e a Expulsão Final do Trabalhador

A atual euforia em torno da Inteligência Artificial representa o ápice histórico da tendência de elevação do Capital Constante. Um data center de IA é a materialização mais pura e avançada deste conceito: uma infraestrutura de custo astronômico (CC extremamente elevado) que requer uma quantidade ínfima de trabalhadores (CV tendendo a zero) para operar. Enquanto gera lucros extraordinários para uns poucos monopólios, a IA, enquanto força produtiva sob relações capitalistas, é um motor brutal de expulsão de trabalhadores de setores intelectuais e criativos, replicando em escala ampliada o que a mecanização fez com o trabalho manual.

Esta não é a solução, mas a culminação da contradição. A bolha da IA, alimentada por capital fictício especulativo, está prestes a explodir porque sua base de valorização é ilusória. Ela não cria novo valor em escala correspondente ao capital nela investido; pelo contrário, ao eliminar massivamente postos de trabalho, ela destrói a própria base consumidora e a fonte de toda mais-valia. A promessa de uma nova era de prosperidade baseada na IA é a mesma promessa falida de todas as bolhas tecnológicas anteriores, só que agora em um contexto de economia já profundamente financeirizada e desindustrializada.

As Políticas Mercantilistas de Trump: O Caminho Acelerado para o Colapso

Neste panorama de fragilidade extrema, as políticas econômicas mercantilistas e protecionistas de um eventual novo governo Trump atuam como um acelerador do colapso. Guerras comerciais, tarifas e a ilusão de "trazer os empregos de volta" ignoram a lógica elementar do capital globalizado. Elas não revertem a composição orgânica do capital; pelo contrário, ao encarecerem insumos e desorganizarem cadeias produtivas globais, elas elevam ainda mais o Capital Constante necessário para a produção residual nos EUA, acelerando a queda da taxa de lucro. O resultado não será a reindustrialização, mas uma inflação galopante, uma crise de abastecimento e um aprofundamento dramático da crise do capital fictício, já que a dívida de 40 trilhões se tornará impagável em um ambiente de recessão e perda de confiança global. A tentativa de resgatar um capitalismo produtivo que não existe mais, através de métodos do século XVIII, só pode levar a economia dos EUA a um colapso ainda mais drástico e definitivo. O centro do capitalismo já se moveu, e o que resta no antigo núcleo é um castelo de cartas prestes a desmoronar.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Censura nas redes: O Ocidente contra o mundo

 

Sob um céu baixo e pesado, como o que pairou sobre o vale de Elá, erguem-se duas realidades que se confrontam num palco de areia e ruína. De um lado, uma figura frágil, uma Davi dos nossos tempos, cuja arma não é a funda de couro, mas a verdade nua e crua que corta o ar como um seixo. Greta, com o lenço palestino — a Keffiyeh — enrolado no pescoço como um símbolo de identidade roubada e resiliência, não está sozinha. À sua frente, uma multidão de rostos marcados pela ocupação, cada mão fechada em torno de uma pedra. Não são meros pedregulhos; são a materialização da Intifada, o grito de um povo que, sem tanques nem aviões, ergue as próprias montanhas contra o aço. É a revolução do improvável, onde a pedra, arma primordial, desafia a lógica da destruição moderna.

Do outro lado do campo, Golias não é um só. É uma legião de poderes vestidos em ternos caros e uniformes imaculados. Netanyahu, de pé como um comandante de uma fortaleza inexpugnável, carrega não uma espada, mas o peso esmagador de um aparato militar. Ao seu lado, Donald Trump, com o tacape do negacionismo e a bolsa de comércio que corrói alianças; Friedrich Merz, com a frieza calculista de quem ergue muros burocráticos; Keir Starmer, com a espada embotada de um pragmatismo que trai princípios; Ursula von der Leyen, brandindo o cetro de uma União que prega valores enquanto firma acordos sob escombros; e Macron, com a armadura reluzente de um projeto europeu que muitas vezes soa como eco vazio perante o clamor dos oprimidos. Todos eles, Filisteus da ordem vigente, fortemente armados com exércitos, leis, drones, sanções econômicas e a narrativa inabalável do status quo.

A batalha, porém, não se trava na lógica deles. A força de Davi nunca residiu na musculatura, mas na precisão do seu gesto. O estilingue que Greta empunha é a sua voz — uma funda que lança não pedras, mas perguntas incômodas, verdades que furam escudos de aço e blindagens de indiferença. Cada palavra sua é um seixo arredondado pelo rio da ciência e da justiça, e quando parte do estilingue da consciência coletiva, não busca matar um gigante, mas acertar-lhe na testa da sua própria contradição. A pedra que ela lança é a pergunta: "Como se atrevem?". E essa pedra, ao atingir o frontal da complacência global, não derruba um homem, mas expõe a fragilidade de todo um sistema construído sobre a exploração e o silêncio.

Os palestinos com as suas pedras não são um exército no sentido convencional; são a encarnação da resistência desesperada. As suas pedras são o último recurso dos que não têm nada a perder, o argumento final quando todas as outras palavras foram soterradas sob bulldozers e assentamentos. E juntos, a jovem com o lenço e o povo com as pedras, formam um só corpo — um Davi coletivo que desafia não um, mas todos os Golias do mundo. Eles representam o poder disruptivo daqueles que são demasiado pequenos para serem vistos como ameaças, até que o seu desafio ecoa tão alto que abala os alicerces dos tronos.

Nesta analogia bíblica revisitada, o conflito não é entre nações, mas entre a voz da casa e a força da fortaleza; entre a pedra da dignidade e o míssil da dominação. E enquanto o gigante avança, confiante no seu poderio, não percebe que a verdadeira batalha já está perdida para ele no momento em que uma criança com um lenço e um povo com pedras se tornam o espelho no qual o mundo é forçado a ver o seu próprio reflexo quebrado. O estilingue já foi armado. E o ar, carregado de um silêncio que precede o estrondo, aguarda o arremesso que, independentemente do desfecho imediato, já mudou para sempre a geometria do campo de batalha.

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É inegável que a internet, em sua gênese, foi idealizada como um território livre, um espaço democrático onde todas as vozes poderiam ecoar sem barreiras. No entanto, a realidade contemporânea revela um panorama mais complexo e menos idílico: o surgimento de uma forma sutil, porém poderosa, de censura, não imposta por decretos explícitos, mas administrada silenciosamente pelos algoritmos controlados por grandes corporações do Ocidente. Esta não é a censura tradicional, com tesouras e editais, mas uma moderação algorítmica e assimétrica que, sob o pretexto de combater a desinformação e o discurso de ódio, acaba por moldar o consenso e silenciar visões dissidentes.

Esses algoritmos, desenvolvidos e mantidos por gigantes da tecnologia como Meta, Google, Twitter (X) e outras plataformas, são as portas de entrada para a informação moderna. Eles decidem o que vemos nas nossas redes sociais, nos resultados de busca e nos feeds de notícias. A sua programação, contudo, não é neutra. Ela é impregnada por valores culturais, políticos e comerciais específicos do ambiente societário em que essas empresas estão inseridas. O que é considerado "discurso de ódio", "desinformação" ou "conteúdo perigoso" é frequentemente definido por um conjunto de padrões ocidentais que podem não levar em conta nuances culturais, contextos históricos ou perspectivas geopolíticas alternativas.

O mecanismo é insidioso. Um post, um vídeo ou um perfil pode ser "rebaixado" nos algoritmos, tornando-se praticamente invisível, sem que o usuário sequer seja notificado. Canais inteiros são desmonetizados no YouTube, contatos têm seu alcance drasticamente reduzido no Facebook e Instagram, e tuítes são marcados com avisos no X, tudo por decisão automatizada ou por moderadores que seguem diretrizes opacas. O efeito é a criação de um "consenso artificial". O usuário médio, ao ver apenas um espectro específico de opiniões sendo promovido e engajado, passa a acreditar que aquela visão representa a maioria, a normalidade, enquanto visões alternativas são marginalizadas e transformadas em tabus.

Esta dinâmica tem um impacto profundo no discurso político global. Narrativas que se alinham com os interesses e a visão de mundo hegemônica do Ocidente são amplificadas, enquanto perspectivas críticas a essas mesmas estruturas de poder—sejam elas provenientes do Sul Global, de países sob sanções ou de movimentos dissidentes internos—são sistematicamente sufocadas. A justificativa é quase sempre técnica e bem-intencionada: manter a comunidade segura. No entanto, o resultado prático é a erosão da pluralidade de ideias, criando uma esfera pública digital que, longe de ser um ágora aberta, assemelha-se mais a um jardim murado, podado de acordo com os critérios de seus jardineiros.

Portanto, falar de censura na internet hoje é ir além da figura clássica do censor estatal. É reconhecer a existência de um controle soft, privatizado e algorítmico, exercido a partir de polos de poder tecnológico no Ocidente. Esta censura não precisa de um rosto ou de um édito; ela opera na sombra do código, moldando silenciosamente a opinião pública global e definindo, sem alarde, os limites do que é permitido pensar e dizer no mercado de ideias do século XXI.

Exemplo:

Eu solicitei uma charge ao Gemini IA através do seguinte prompt:

Faça uma ilustração (charge) que deverá ser uma analogia a Davi e Golias. De um lado, Greta Thunberg (Davi), com um estilingue na mão, à frente de palestinos. Greta usa um lenço palestino (Keffiyeh) no pescoço) e os palestinos seguram pedras (Intifada). De outro lado, Netanyahu (Golias), Donald Trump, Friedrich Merz, Keir Rodney Starmer,  Ursula von der Leyen e Macron (filisteus), todos fortemente armados.

Resposta:

Posso ajudar com imagens de pessoas, mas não consigo representar algumas figuras públicas. Há mais alguém que gostaria de tentar?

Foi para o ChatGPT e refiz o pedido. Resposta:

Posso fazer essa ilustração, sim — mas antes preciso confirmar alguns detalhes importantes: a imagem que você descreveu tem forte conteúdo político e envolve figuras públicas em um contexto de conflito real. Para garantir que ela siga as diretrizes de uso responsável de imagens, posso criar uma charge alegórica, mantendo a mensagem simbólica (a luta entre o pequeno e o poderoso), sem representar violência direta nem incitação contra pessoas reais.

Posso, por exemplo, representar:

Greta Thunberg como uma jovem com um estilingue e um lenço no pescoço, ao lado de figuras genéricas simbolizando resistência civil (sem armas ou pedras explícitas).

Do outro lado, figuras que representam o poder — sem usar os rostos reconhecíveis de Netanyahu, Trump, Merz, Starmer, von der Leyen e Macron, mas com traços que simbolizam políticos ocidentais (terno, bandeiras, símbolos de poder).

A cena pode ser montada como uma charge metafórica, intitulada “O Novo Davi e Golias”, com o contraste entre a juventude/clima/justiça e o poder/armas/política.

Quer que eu faça a ilustração dessa forma — mantendo o simbolismo e a crítica política, mas sem retratar diretamente essas pessoas reais?

Resultado:

Estranhamente o Chat suprimiu o protagonista, o Satanyahu “Golias”!!!

Fiz então uma adaptação com uma outra charge que eu busquei na internet. 

Tentei publicar no Instagram, mas o “post” não publicava o texto. Tentei várias vezes sem sucesso, resultado: apenas 12 curtidas.

No creo en brujas pero que las hay, las hay!


sábado, 4 de outubro de 2025

Uma Análise sobre o Irã e a Estratégia dos Sete Países

 

O livro "Which Path to Persia?", produzido por especialistas da Brookings Institution, representa muito mais do que um simples exercício acadêmico. Esta obra constitui um documento fundamental para compreender a arquitetura estratégica que orientou a política externa norte-americana no Médio Oriente no pós-11 de setembro. A sua análise meticulosa das opções relativas ao Irã não pode ser dissociada do contexto mais amplo da chamada "Estratégia dos Sete Países", um plano real e discutido em círculos neoconservadores e no aparato de segurança nacional dos EUA. A premissa de que se tratava de um projeto de reordenamento radical da região, onde o Irã surgia como o último e mais complexo elo da cadeia, é essencial para uma leitura correta do livro.

O Irã no Contexto do Grande Tabuleiro

A análise apresentada em "Which Path to Persia?" deve ser entendida como o capítulo final de um livro de estratégia mais vasto. A chamada "Estratégia dos Sete Países" - que incluía Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã - não era uma teoria conspiratória, mas sim uma diretriz de ação, conforme atestado por fontes de alto nível como o General Wesley Clark. O seu testemunho sobre a existência de um memorando do Pentágono, que delineava a derrubada destes sete governos em cinco anos, fornece a chave para contextualizar a análise da Brookings. O Iraque foi o primeiro grande teste; o Irã era sempre o prêmio final, o eixo da resistência antiamericana na região. O livro, portanto, não surge no vazio. Ele opera dentro deste paradigma estratégico, procurando a melhor forma de completar um projeto já em andamento.

As Vias Estratégicas para o Objetivo Final

Ao examinar as cinco vias estratégicas para o Irã, o livro revela a evolução do pensamento estratégico americano após os reveses no Iraque e no Afeganistão. A via da Dissuasão ou Contenção representava uma posição mais cautelosa, um reconhecimento de que a campanha de remodelação regional tinha encontrado obstáculos maiores que o esperado. No entanto, esta opção era vista como um plano B, uma forma de gerir o ambiente até que novas oportunidades para ação mais decisiva surgissem. A Opção Militar, analisada em detalhe, era a continuação lógica da lógica aplicada anteriormente ao Iraque. Os autores, embora listando os riscos de uma retaliação iraniana - o encerramento do Estreito de Ormuz, ataques de procuração - estavam a mapear os custos de uma operação considerada inevitável por certos setores, não a rejeitá-la de forma absoluta. Era um exercício de antecipação de problemas, não de dissuasão da ação.

A via da Mudança de Regime refletia as lições aprendidas com as longas e dispendiosas ocupações do Iraque e do Afeganistão. Em vez de uma invasão terrestre massiva, preferia-se explorar fraturas internas no Irã, fomentar agitação étnica e apoiar grupos de oposição para provocar um colapso do sistema a partir de dentro. Esta abordagem de "guerra híbrida" era vista como um meio mais eficaz e com menor custo político para alcançar o mesmo objetivo final: a neutralização do regime teocrático. A via Diplomática, por sua vez, era apresentada não como um genuíno desejo de entendimento, mas como um instrumento tático. A oferta de negociações servia para isolar internacionalmente o Irã e criar um pretexto para a escalada subsequente de pressões, caso o regime, como esperado, se mostrasse intransigente.

A estratégia híbrida de "Engajamento com Sanções" emergia assim como a opção operacionalmente mais sofisticada. Esta era a "cenoura e o bastão" concebida para o estágio final da estratégia mais ampla. O objetivo não era chegar a um acordo, mas sim asfixiar economicamente a República Islâmica, fomentar o descontentamento interno e criar condições para uma intervenção mais direta, justificada pela suposta intransigência iraniana. A conclusão do livro, que aponta esta via como a mais realista, confirmava a transição para uma abordagem de guerra econômica e política como prelúdio para a confrontação final, alinhando perfeitamente com o objetivo de longo prazo de concluir a remodelação do "Grande Médio Oriente".

A Confirmação de um Padrão Estratégico

A ligação entre "Which Path to Persia?" e a Estratégia dos Sete Países é, portanto, direta e orgânica. O livro não é a origem do plano, mas sim um dos seus refinamentos técnicos mais elaborados. Ele trata do último e mais difícil alvo da lista. A negação desta conexão ignora o testemunho de atores-chave como Wesley Clark e o padrão consistente de ações norte-americanas na região durante a primeira década do século XXI. A análise da Brookings não era um mero exercício hipotético; era a blueprint para a fase final de um projeto geopolítico concertado, que visava desmantelar sistematicamente todas as fontes de poder autônomo e resistência à hegemonia dos EUA no coração do mundo islâmico. A história subsequente, com as intervenções e mudanças de regime na Líbia, Síria e Iêmen, e a pressão máxima contínua sobre o Irã, veio confirmar a persistência desta arquitetura estratégica, da qual o livro foi um dos documentos definidores.

domingo, 31 de agosto de 2025

A Geografia como Arma: Uma Resenha de "A Geografia Serve em Primeiro Lugar para Fazer a Guerra" de Yves Lacoste

 

Introdução: Desvendando a Fachada de uma Disciplina

Em 1976, o geógrafo francês Yves Lacoste publicou um livro cujo título, explosivo e direto, funcionava como um manifesto e uma denúncia: "A Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra". Esta obra não é apenas um tratado acadêmico; é um libelo contra a geografia tradicional, uma arma desconstrucionista lançada contra o establishment intelectual da época. Lacoste, com a acuidade de um estrategista e a paixão de um polemista, propõe uma revisão radical da função e da história da disciplina geográfica. Ele argumenta que, por trás de uma fachada apolítica e enfadonha, escondia-se um saber estratégico crucial, um poder de dominação e um instrumento de controle territorial utilizado pelas elites políticas, econômicas e militares. A tese central do livro é que a geografia, longe de ser o estudo inocente de rios, capitais e produções agrícolas, foi e continua sendo um conhecimento fundamental para o exercício do poder, em especial para a prática da guerra, em seu sentido mais amplo.

A Geografia dos Estados-Maiores versus a Geografia dos Professores

Lacoste estabelece uma dicotomia crucial para compreender sua crítica: a distinção entre a "Geografia dos Estados-Maiores" e a "Geografia dos Professores". A primeira, como o nome indica, é a geografia prática, precisa e valiosa utilizada por militares, estrategistas e planejadores. É um conhecimento operacional sobre relevo, hidrografia, recursos, populações e redes de comunicação – informações vitais para mobilizar tropas, conquistar territórios, controlar populações ou explorar economicamente uma região. Esta geografia é poder.

Já a "Geografia dos Professores" seria a versão empobrecida, despolitizada e amplamente difundida nas escolas. Lacoste a vê como uma cortina de fumaça, uma forma de ocultar o verdadeiro poder da geografia sob um amontoado de descrições monótonas e nomes para decorar. Esta geografia escolar, segundo ele, não serve para capacitar o cidadão a entender as relações de poder que moldam o espaço, mas sim para torná-lo um sujeito passivo, incapaz de decifrar as estratégias geopolíticas que afetam sua vida. Ao reduzir a disciplina a uma mera enumeração de fatos, a geografia tradicional desarma intelectualmente a população, impedindo-a de perceber como o espaço é um campo de batalha permanente de forças políticas e econômicas.

Uma Arqueologia do Saber Geográfico: A Longa História da Geografia-Militar

Para sustentar sua tese, Lacoste mergulha numa espécie de "arqueologia do saber geográfico". Ele demonstra que a associação entre geografia e guerra não é uma invenção moderna, mas sim a origem mesma da disciplina. Desde os tempos mais remotos, conquistadores e generais foram os primeiros e mais importantes geógrafos. Alexandre, o Grande, levava consigo bematistas (mensuradores de passos) para cartografar os territórios conquistados. O Império Romano produziu o Itinerarium Provinciarum, um manual de estradas essencial para o deslocamento rápido das legiões.

Lacoste destaca figuras como o cartógrafo francês do século XVIII, Jean-Baptiste Bourguignon d'Anville, cujos mapas extremamente precisos eram cobiçados por cortes e exércitos europeus. Ele argumenta que a própria expansão colonial europeia foi um empreendimento profundamente geográfico, dependente de mapas, relatos de exploradores (muitos deles patrocinados por sociedades geográficas com interesses econômicos e estratégicos) e do conhecimento do terreno para dominar e explorar continentes inteiros. A geografia, nesse contexto, foi o braço intelectual do colonialismo.

Do Poder Militar ao Poder Econômico: A Guerra não Declarada

Um dos aspetos mais perspicazes do livro é a ampliação do conceito de "guerra". Lacoste não se restringe ao conflito armado clássico. Ele expande a noção para incluir as lutas econômicas e sociais pelo espaço. A "guerra" também é a luta de classes territorializada, a concorrência econômica entre nações e empresas pelo controle de recursos (petróleo, água, minerais), os processos de segregação urbana e a especulação imobiliária.

Nesta perspectiva, a geografia serve para travar uma guerra econômica permanente. As decisões sobre onde construir uma barragem, uma autoestrada, um bairro de luxo ou um aterro sanitário são decisões geográficas com profundas implicações sociais e políticas. Quem tem o poder de decidir o uso do espaço utiliza um saber geográfico estratégico para manter e ampliar seu domínio. A geografia, portanto, é indispensável para planejar não apenas um cerco militar, mas também um embargo econômico, uma rota comercial hegemônica ou a expulsão de uma comunidade pobre de uma área valorizada.

A Geopolítica e a Crítica ao Determinismo

Lacoste também dirige seus ataques à geopolítica clássica e às suas derivações deterministas, como a teoria do "espaço vital" (Lebensraum), que serviu de justificativa intelectual para a expansão nazista. Ele alerta para os perigos de uma geografia que, ao invés de analisar as relações de poder, se presta a naturalizá-las, apresentando a dominação de certos povos sobre outros como um destino inevitável ditado pelo meio físico ou pela localização. A sua crítica é um antídoto contra visões essencialistas e fatalistas do espaço.

No entanto, é importante notar que Lacoste não condena a geopolítica per se, mas a sua má utilização. Ele defende a necessidade de uma "geopolítica crítica", uma análise das rivalidades de poder sobre os territórios, mas feita de forma transparente e com um olhar voltado para a emancipação, e não para a dominação.

Aspectos Controversos e Legado Duradouro

"A Geografia serve em primeiro lugar para fazer a guerra" não está isento de críticas. Alguns acadêmicos apontam que Lacoste, em seu ímpeto polemista, pode ter simplificado em excesso a história complexa da geografia, ignorando correntes de pensamento que sempre tiveram uma preocupação social e crítica. A dicotomia entre a "geografia dos estados-maiores" e a "dos professores" pode ser demasiado rígida, subestimando o potencial mesmo da geografia escolar para, se bem ensinada, formar cidadãos críticos.

Além disso, a ênfase quase exclusiva na geografia como instrumento de poder pode obscurecer outras dimensões igualmente importantes da disciplina, como sua contribuição para a compreensão cultural, ecológica e humanista do mundo.

Apesar dessas possíveis limitações, o legado do livro é imenso e incontestável. Ele funcionou como um choque de realidade para a geografia francesa e mundial. Foi um texto fundador da geografia crítica e radical, que floresceu nas décadas seguintes. Lacoste conseguiu o que pretendia: politizar a disciplina, tirá-la de uma suposta neutralidade e recolocá-la no centro dos debates sobre poder, conflito e desigualdade.

Conclusão: Um Clássico da Crítica e um Chamado à Ação

Mais de quatro décadas após sua publicação, "A Geografia serve em primeiro lugar para fazer a guerra" permanece um texto vibrante e extremamente relevante. Num mundo marcado por guerras convencionais, conflitos híbridos, guerras comerciais, crises ambientais e profundas desigualdades urbanas, a advertência de Lacoste soa profética.

O livro é um convite permanente a desconfiar dos mapas, a questionar quem os produz e com que intenção. É um apelo para que se leia o espaço não como um palco neutro, mas como o próprio produto e campo de batalha de forças políticas em constante disputa. Lacoste não nos oferece um manual de respostas, mas uma caixa de ferramentas para perguntas incômodas. Ele nos ensina que dominar o saber geográfico não é apenas sobre conhecer o mundo, mas sobre ter o poder de interpretá-lo e, consequentemente, de transformá-lo. A geografia, afinal, é demasiado importante para ser deixada apenas para os generais e os grandes estrategistas; ela deve ser reapropriada como um instrumento de libertação e de crítica por todos aqueles que desejam entender e lutar por um espaço mais justo.