domingo, 1 de maio de 2022

A verdade sobre Kronstadt, por John G. Wright

A verdade sobre Kronstadt

por John G. Wright (Joseph Vanzler)

Do The New International, Vol. IV, No. 2 , fevereiro de 1938, pp. 47-53.

O artigo a seguir é uma apresentação resumida do material contido em um panfleto sobre o assunto pelo escritor, que está previsto para publicação antecipada.

Quanto mais indefensável e iníquo se torna o curso seguido pelos anarquistas na Espanha, mais alto seus confrades no exterior clamam por Kronstadt. Durante os anos de ascensão revolucionária, os anarquistas, os mencheviques, os SRs et al., estavam na defensiva. Hoje, o stalinismo deu-lhes uma cobertura demagógica para uma ofensiva contra aqueles princípios que sozinhos tornaram possível outubro. Eles procuram comprometer o bolchevismo, identificando-o com o stalinismo. Eles tomam Kronstadt como seu ponto de partida. Seu teorema é o mais “elementar”: Stalin atira nos trabalhadores apenas porque é a essência do bolchevismo abater trabalhadores; por exemplo, Kronstadt! Lenin e Stalin são a mesma pessoa. QED [quod erat demonstrandum]

Toda a arte está em distorcer os fatos históricos, exagerando monstruosamente cada questão ou questão subsidiária em que os bolcheviques possam ter errado, e jogando um véu sobre o programa e objetivos do motim e a revolta armada contra o poder soviético. Nossa tarefa é principalmente expor as distorções e falsificações em ato através dos “fatos” históricos que os servem de base para a acusação contra o bolchevismo.

Primeiro, quanto ao pano de fundo do motim. Longe de ocorrer em um momento em que o poder soviético estava fora de perigo (como sugerem os adversários ideológicos do bolchevismo), ocorreu no ano de 1921, um ano crucial na vida do Estado operário. Em dezembro de 1920, as frentes da Guerra Civil foram liquidadas. Não havia “frentes”, mas o perigo permanecia ainda. A terra com a herança bárbara do czarismo asiático havia sido literalmente dissecada pelos estragos da guerra imperialista, dos anos da Guerra Civil e do bloqueio imperialista. A crise dos alimentos foi agravada pela crise dos combustíveis. Vastas seções da população enfrentavam a perspectiva imediata de morrer de fome ou congelar até a morte. Com a indústria em ruínas, o transporte interrompido, milhões de homens do exército ficaram desmobilizados e as massas à beira da exaustão.

Longe de se reconciliar com a derrota, os Guardas Brancos e seus aliados imperialistas foram estimulados a uma nova ofensiva diante das dificuldades objetivas que os bolcheviques enfrentavam. Eles fizeram tentativa após tentativa de forçar uma brecha “de dentro”, contando em grande parte com o apoio da reação pequeno-burguesa, descontente com as dificuldades e privações que acompanham a revolução proletária. [1] O episódio mais importante desta série de eventos aconteceu no coração da fortaleza revolucionária. Na fortaleza naval de Kronstadt, um motim explodiu em 2 de março de 1921.

Hoje em dia um Dan diz tranquilamente: “Os habitantes de Kronstadt não começaram a insurreição. É um mito calunioso.” [2] Mas em 1921, os SRs rastejaram para fora de suas peles para atenuar a revolta e tudo o que ela implicava, enquanto os mencheviques tentaram minimizá-la e explicá-la como algo em si realmente sem importância. Os SRs juraram que “o caráter pacífico do movimento de Kronstadt estava acima de qualquer dúvida”; se quaisquer medidas insurgentes fossem tomadas, eram apenas “medidas de autodefesa”. Eis o que os mencheviques escreveram não no ano de 1937, mas em 1921, quando os eventos ainda estavam frescos:

O fato de que a ruptura de Kronstadt com o poder soviético tenha assumido o caráter de uma insurreição armada e terminado em uma tragédia sangrenta é de importância secundária em si mesmo e, até certo ponto, acidental. Se o poder soviético tivesse manifestado um pouco menos de dureza em relação à Kronstadt, o conflito com os marinheiros teria se desdobrado de modo menos graves. Isso, no entanto, em nada mudaria seu significado histórico ... Somente em 2 de março, em resposta a repressões, ameaças e ordens para obedecer incondicionalmente, a frota respondeu com uma resolução que não reconhecia o poder dos soviéticos e, a partir daí, dois comissários foram presos. [3]

Quando os mencheviques apresentaram originalmente sua versão dos eventos de Kronstadt, eles não negaram de forma alguma que os kronstadtinos iniciaram o motim. Certamente, eles tentaram transmitir a impressão de que havia justificativa mais do que suficiente para isso nas supostas “repressões, ameaças e comandos”. Mas pode se notar que eles simultaneamente tentaram fugir do cerne da questão, quando afirmaram o próprio levante como um fato de pouca importância, secundário e até “acidental”. Por que essa contradição gritante? Eles mesmos fornecem a resposta. É a sua confissão aberta de que esse motim se desenrolou com base em objetivos e programas antissoviéticos. [4] Sendo a verdade evidente por si só, não é de se surpreender que Berkman tenha se apressado em nos jurar que os amotinados de Kronstadt eram realmente “aderentes convictos do sistema soviético” e estavam “procurando seriamente encontrar, por meios amistosos e pacíficos, uma solução dos problemas urgentes”. [5] Em qualquer caso, todos esses fornecedores de “verdade” estão todos de acordo em uma coisa, a saber, que esses “convictos” partidários do poder soviético procederam no mais amigável espírito de paz quando decidiram pegar em armas – com base em uma resolução de “não reconhecimento do poder soviético”. Mas eles fizeram isso, veja-se, “só no dia 2 de março”.

“Só no dia 2 de março”! Cada detalhe pertinente deve ser embelezado, caso contrário, a verdade pode não ser assim tão palatável. Com esta formulação, os mencheviques, que apenas fazem eco ao RS, pretendem evocar na mente do leitor, senão anos e meses, pelo menos semanas de “provocação”, “ameaças”, “comandos”, “repressões”, etc., etc. Mas estendendo sua cronologia ao bel prazer, esses historiadores, juntamente com seus neófitos, não podem antecipar 2 de março, exceto por referência a eventos “no final de fevereiro”. Sua história de Kronstadt remonta a (e não mais do que) 22 de fevereiro – a partir de ocorrências não em Kronstadt, mas em Petrogrado. Quanto à própria Kronstadt, eles só podem antecipar o 2 de março a 28 de fevereiro! Contando como bem entendem, eles têm à sua disposição três dias e três resoluções. O 2 de março, com sua resolução de não reconhecimento do poder soviético, é precedido apenas pelo 1º de março e sua resolução pelos “soviéticos livremente eleitos”. O que aconteceu nesse intervalo de menos de 24 horas para causar essa oscilação de um suposto pólo para seu oposto diametral? A única resposta que recebemos da boca dos adversários é a seguinte: realizou-se uma conferência em Kronstadt. E o que aconteceu lá?

Cada “historiador” dá seu próprio relato. Lawrence [6] gostaria que a conferência tivesse sido convocada com o propósito de elaborar e aprovar uma resolução. Berkman insiste que foi mais uma reunião “para se aconselhar com os representantes do governo”. [7] Os SRs juram que era um órgão eleitoral, reunido com o propósito específico de eleger um novo soviete, muito embora o mandato do soviete em exercício ainda não tivesse sido expirado. [8] A se acreditar em Berkman (e Lawrence), os habitantes de Kronstadt foram provocados a realizar o motim devido ao discurso de Kuzmin. Nisso, são melhores que os SRs, que culpam Kuzmin e Vassiliev. [9]

O relato mais completo do discurso de Kuzmin pode ser encontrado no Izvestia de Kronstadt, ou seja, no órgão de testemunhas oculares e principais participantes da conferência. Aqui está:

Em vez de acalmar a reunião, o camarada Kuzmin irritou-a. Falou da posição equívoca de Kronstadt, das patrulhas, do poder dividido, do perigo ameaçador da Polônia e do fato de que os olhos de toda a Europa estavam sobre nós; assegurou-nos que tudo estava tranquilo em Petrogrado; ressaltou que ele, Kuzmin, estava totalmente à mercê dos delegados que tinham o poder até de matá-lo se assim o desejassem. Ele concluiu seu discurso com uma declaração de que, se os delegados quisessem uma luta armada aberta, esta ocorreria – os comunistas não renunciariam voluntariamente ao poder e lutariam até a última trincheira. [10]

Deixamos para os futuros psicólogos decidir por que os SRs escolheram tratar o discurso de Kuzmin de maneira diferente do de Berkman, e por que se abstiveram de recorrer a aspas como Berkman e Lawrence fazem ao se referirem à declaração final de Kuzmin. Não podemos aqui detalhar as gritantes discrepâncias nas várias versões. Basta dizer que quanto mais aprendemos sobre o discurso de Kuzmin, mais agudamente a questão se coloca: quem desempenhou o papel de um provocador nesta reunião?

Um ponto especial são todos os relatos de que Kuzmin insistiu sobre o fato de Petrogrado estar tranquila (Berkman acrescenta – sob a autoridade de quem? – “e os trabalhadores satisfeitos”). Por que isso deveria ter provocado alguém que não estava sendo incitado à provocação? Kuzmin estava dizendo a verdade? Ou o Izvestia de Kronstadt mentiu quando em seu primeiro número, no dia seguinte, trazia uma manchete sensacionalista, Insurreição Geral em Petrogrado? Além disso, por que o Izvestia continuou mentindo sobre essa e outras supostas insurreições? Por que reimprimiu despachos de Helsingfors para reforçar sua campanha de calúnia? Resumindo, veja o discurso de Kuzmin ponto a ponto conforme relatado pelo Izvestia – ou em qualquer um dos supostos resumos dele – sim, com ou sem as aspas insidiosas de Berkman – e não diga se vocês eram “homens simples”, “homens e não mulheres velhas”, etc., etc., mas se vocês fossem delegados nesta reunião para “eleger um novo Soviete”, vocês teriam ficado e nomeado um “Comitê Revolucionário Provisório”? Diga-nos, além disso, se vocês teriam pegado em armas em um motim contra o Estado soviético? Se não, por que você espalha esse lixo SR e procura confundir a vanguarda da classe trabalhadora em relação ao que realmente aconteceu em Kronstadt – e especialmente esta reunião?

Um incidente muito mais sinistro e elucidativo do que qualquer coisa que Kuzmin possa ou não ter dito ocorreu nesta reunião, que todos os Berkmans desprezam de maneira muito reveladora. A Conferência foi lançada em um frenesi não por qualquer coisa dita por Kuzmin ou Vassiliev (ou Kalinin que não estava presente), mas por uma declaração feita do plenário de que os bolcheviques estavam marchando de armas em punho para atacar a reunião. Foi isso que precipitou a “eleição” de um Comitê Revolucionário Provisório. Procuramos em vão nos escritos dos historiadores “verdadeiros” qualquer esclarecimento quanto à origem desses “rumores”. Mais do que isso, eles convenientemente “esquecem” (Berkman, entre outros) de que o Comitê Revolucionário Provisório colocou oficialmente esse boato na porta dos próprios bolcheviques. “Esse boato foi divulgado pelos comunistas para dissolver a reunião.” (Izvestia, No. 11.) O Izvestia admitiu ainda que o “relatório” de que os bolcheviques estavam prestes a atacar a reunião com “quinze carros carregados de soldados e comunistas, armados com fuzis e metralhadoras” foi feito por “um delegado do Sebastopol”. Mesmo após a supressão do motim, os SRs insistiram que, “segundo o testemunho de um dos líderes autorizados do movimento de Kronstadt”, o boato sobre Dulkis e os Kursanti era verdadeiro. Não apenas os rumores se espalharam durante a reunião, mas o presidente concluiu com a mesma nota. A partir do relato do Izvestia de Kronstadt aprendemos que: “No último momento, o camarada presidente fez um anúncio de que um destacamento de 2.000 homens estava marchando para atacar a reunião, que se dispersou com emoções misturadas de alarme, excitação e indignação...” ( Nº 9, 11 de março de 1921.)

Quem espalhou esses rumores e por quê? Dizemos: Quem os fez circular foram aqueles mesmos que espalharam as mentiras sobre a insurreição de Petrogrado; os mesmos que, no início, levantaram a palavra de ordem pela Assembleia Constituinte e depois entoaram a palavra de ordem “mais realista” de “Abaixo a Comuna Falida!” (resolução adotada em Kronstadt, em 7 de março); os mesmos que acusavam o “poder bolchevique de nos levar à fome, ao frio e ao caos”; aqueles que, disfarçados de apartidários, estavam enganando as massas de Kronstadt; aqueles que procuravam capitalizar as dificuldades do poder soviético e que encabeçavam o movimento para guiá-lo pelos canais da contrarrevolução.

Não há sombra de dúvida de que os SRs foram os primeiros, senão os únicos, a impulsionar esta campanha de “rumores”, que brotou tão infame fruto. Qualquer possibilidade de solução pacífica da crise de Kronstadt foi eliminada, uma vez que um poder paralelo foi estabelecido na fortaleza. O tempo era realmente urgente, como provaremos em breve. Por mais que se especule sobre as chances de evitar derramamento de sangue, o fato é que os líderes do motim levaram apenas 72 horas para levar seus seguidores (tolos) a um conflito direto com os soviéticos.

Não é de forma alguma excluído que as autoridades locais de Kronstadt tenham feito um erro ao lidar com a situação. O fato de que os melhores revolucionários e combatentes fossem urgentemente necessários para centros vitais tenderia a sustentar a afirmação de que aqueles designados para um setor relativamente “seguro” como Kronstadt não eram homens de qualificações notáveis. Não é segredo que Kalinin – muito menos o comissário Kuzmin – não era muito estimado por Lenin e seus colegas. A associação entre “erros” e indivíduos como Kalinin é realmente maravilhosa, mas não pode servir como substituto para a análise política. Na medida em que as autoridades locais estavam cegas para a extensão total do perigo ou não tomaram as medidas adequadas e eficazes para enfrentar a crise; na medida em que seus erros tiveram um papel no desenrolar dos acontecimentos, ou seja, facilitaram para os contrarrevolucionários o trabalho de utilizar as dificuldades objetivas para atingir seus fins.

Como foi possível que os líderes políticos transformassem Kronstadt tão rapidamente em um campo armado contra a revolução de outubro? Qual era o objetivo dos amotinados? A suposição de que os soldados e marinheiros se aventuraram em uma insurreição apenas por causa da palavra de ordem “Sovietes Livres” é absurda em si mesma. É duplamente absurdo em vista do fato de que o resto da guarnição de Kronstadt consistia de pessoas retrogradas e pacatas que não podiam ser usadas na Guerra Civil. Essas pessoas só poderiam ter sido levadas à insurreição por profundas necessidades e interesses econômicos. Esses eram as necessidades e interesses dos pais e irmãos desses marinheiros e soldados, ou seja, dos camponeses como comerciantes de produtos alimentícios e matérias-primas. Em outras palavras, por trás do motim havia uma reação de caráter pequeno-burguês contra as dificuldades e privações impostas pelas condições da revolução proletária. Ninguém pode negar esse caráter de classe dos dois campos. Todas as outras questões são apenas de importância secundária. Que os bolcheviques tenham cometido erros de caráter geral ou concreto, não pode alterar o fato de que defenderam as aquisições da revolução proletária contra a reação burguesa (e pequeno-burguesa). É por isso que todo crítico deve ser examinado do ponto de vista de que lado da linha de fogo se encontra. Se ele fecha os olhos ao conteúdo social e histórico do motim de Kronstadt, então ele próprio é um elemento da reação pequeno-burguesa contra a revolução proletária. (É o caso de Alexander Berkman, os mencheviques russos e assim por diante.) Um sindicato, digamos, de trabalhadores agrícolas, pode cometer erros em uma greve contra os agricultores. Podemos criticá-los, mas nossa crítica deve se basear em uma solidariedade fundamental com o sindicato dos trabalhadores e em nossa oposição aos exploradores dos trabalhadores, mesmo que esses exploradores sejam pequenos agricultores.

Os bolcheviques nunca afirmaram que sua política era infalível. Isso é um credo stalinista. Victor Serge, em sua afirmação de que a NEP (isto é, uma concessão limitada a demandas burguesas ilimitadas) foi introduzida tardiamente, apenas repete de forma branda a crítica de um importante erro político que o próprio Lenin reconheceu nitidamente na primavera de 1921. Nós estamos prontos para admitir tal erro. Mas como isso poderia mudar nossa estimativa mais básica? Superando em muito a especulação por parte de Serge ou de qualquer outra pessoa de que a rebelião poderia ter sido evitada se os bolcheviques tivessem concedido a concessão da NEP a Kronstadt, o motim em si e a declaração categórica do Izvestia de Kronstadt acerca da exigência dos amotinados: “não ao livre comércio, mas, sim, a uma verdadeira potência soviética” (nº 12, 14 de março de 1921).

O que esse “genuíno poder soviético” poderia significar? Já ouvimos dos SRs e mencheviques suas avaliações sobre a natureza do motim. Os SRs e os mencheviques sempre sustentaram que seus objetivos eram idênticos aos dos bolcheviques, mas que apenas pretendiam alcançá-los de uma maneira “diferente”. Conhecemos o conteúdo de classe dessa “diferença”, Lenin e Trotsky sustentavam que a palavra de ordem dos “Sovietes Livres” significava material e praticamente, tanto em princípio quanto em essência, a abolição da ditadura do proletariado, instituída e representada pelo partido bolchevique. Isso só pode ser negado por aqueles que negam que, com todos os seus erros parciais, a política dos bolcheviques esteve sempre a serviço da revolução proletária. Será que Serge vai negar? No entanto, Serge se esquece do dever elementar de uma análise científica não é tomar slogans abstratos de diferentes grupos, mas descobrir seu conteúdo social real. [11] Neste caso, tal análise não apresenta grandes dificuldades.

Ouçamos o porta-voz mais autorizado da contrarrevolução russa sobre sua avaliação do programa de Kronstadt. Em 11 de março de 1921, no calor da revolta, Miliukov escreveu:

Este programa pode ser expresso no breve slogan: “Abaixo os bolcheviques! Viva os soviéticos!”... "Viva os sovietes", na atualidade significa muito provavelmente que o poder passará dos bolcheviques aos socialistas moderados, que receberão a maioria nos sovietes... Temos muitas outras razões para não protestar contra o slogan de Kronstadt... É evidente para nós que, deixando de lado uma instalação forçada de poder da direita ou da esquerda, esta sanção [do novo poder – JV] que é obviamente temporária, só pode ser efetuada através de instituições do tipo dos soviéticos. Só assim a transferência pode ser efetuada sem dor e ser reconhecida pelo país como um todo. [12]

Em uma edição posterior, o órgão de Miliukov, Poslednya Novosti, insiste que o poder bolchevique só poderia ser suplantado por meio de soviéticos “libertados” dos bolcheviques. [13]

Em sua defesa do motim de Kronstadt, os mencheviques, como partidários ferrenhos da restauração capitalista, mantinham essencialmente o mesmo ponto de vista de Miliukov. Juntamente com estes últimos, os mencheviques defenderam em Kronstadt um passo para a restauração do capitalismo. [14] Nos anos que se seguiram, eles não puderam deixar de favorecer o curso principal de Stalin (aconselhado por Abramovich e outros em 1921) de “romper decididamente com todos os planos aventureiros de espalhar a 'revolução mundial'”, e empreender, em vez disso, a construção do socialismo em um país. Com uma reserva aqui e um queixume ali, são hoje bastante a favor do evangelho do socialismo de Stalin em um só país. Nisso, ao permanecerem fiéis à bandeira levantada pelo motim de Kronstadt, eles apenas permanecem fiéis a si mesmos – como os arqui-suportes de todas as tendências abertas ou veladas para a restauração capitalista na Rússia e a estabilização capitalista no resto do mundo.

A conexão entre a contrarrevolução e Kronstadt pode ser estabelecida não apenas pela boca dos adversários do bolchevismo, mas também com base em fatos irrefutáveis. No início de fevereiro, quando não havia nenhum sinal de distúrbios em Petrogrado, ou nas proximidades de Kronstadt, a imprensa capitalista no exterior publicou despachos supostamente relacionados a sérios problemas em Kronstadt, dando detalhes sobre uma revolta na frota e a prisão do comissário do Báltico. [15] Esses despachos, embora falsos na época, se materializaram com incrível precisão algumas semanas depois.

Referindo-se a esta “coincidência”, Lenin em seu relatório ao X Congresso do Partido, em 8 de março de 1921, disse o seguinte:

Testemunhamos a passagem do poder dos bolcheviques para algum tipo de conglomerado indefinido ou aliança de elementos heterogêneos, presumivelmente apenas um pouco à direita e talvez até à “esquerda” dos bolcheviques – tão indefinida é a soma de grupos políticos que tentaram tomar o poder em Kronstadt. Não há dúvida de que, ao mesmo tempo, o General da Guarda Branca, como todos sabem, desempenhou um papel importante nessas ações. Isso tem sido provado ao máximo. Duas semanas antes dos acontecimentos de Kronstadt, a imprensa parisiense já trazia a notícia de uma insurreição em Kronstadt. (Works, Vol. XXVI, p. 214.)

É um fato facilmente estabelecido que quando esses despachos chegaram ao conhecimento de Trotsky, antes de qualquer convulsão em Kronstadt, ele imediatamente se comunicou com o comissário da frota do Báltico, alertando-o para tomar precauções, porque o aparecimento de despachos semelhantes na imprensa burguesa referindo-se a outras supostas revoltas foram logo seguido por tentativas contrarrevolucionárias em regiões específicas. Escusado será dizer que todos os historiadores “verdadeiros” preferem passar em silêncio a esta “coincidência”, juntamente com o fato de que a imprensa capitalista aproveitou o motim para conduzir uma “campanha histérica sem precedentes” (Lenin). [16] As notícias desta campanha poderiam ser adicionadas a qualquer número, mas nenhuma lista estaria completa sem as reportagens sobre o mesmo assunto que apareceram no Izvestia de Kronstadt:

Primeira edição, 3 de março: “INSSURREIÇÃO GERAL EM PETROGRADO”.

 

7 de março: Manchete “Notícias de última hora de Petrogrado” – “As prisões em massa e execuções de trabalhadores e marinheiros continuam. Situação muito tensa. Todas as massas trabalhadoras aguardam uma reviravolta a qualquer momento.”

8 de março: "O jornal de Helsingfors Hufvudstadsbladet... imprime as seguintes notícias de Petrogrado ... Os trabalhadores de Petrogrado estão em greve e deixando as fábricas de modo ostensivo, multidões carregam bandeiras vermelhas exigindo uma mudança de governo - a derrubada dos comunistas". [17]

11 de março: “O governo em pânico”. “Nosso clamor foi ouvido. Marinheiros revolucionários, homens do Exército Vermelho e trabalhadores em Petrogrado já estão vindo em nosso auxílio... O poder bolchevique sente o chão escorregar sob seus pés e, por isso, emitiu ordens em Petrogrado para abrir fogo contra qualquer grupo de cinco ou mais ruas...”

Não é de se surpreender que a imprensa da Guarda Branca no exterior tenha lançado uma intensa campanha para arrecadar fundos, roupas, alimentos etc., sob o lema: “Por Kronstadt! ”

Como explicar essa série de fatos e evidências incontestáveis? Muito simplesmente: acusando os bolcheviques de calúnia! Ninguém é mais descarado do que Berkman em negar a conexão entre a contrarrevolução e o motim. Ele chega a declarar categoricamente que o general czarista Kozlovsky “não desempenhou nenhum papel nos eventos de Kronstadt”. As confissões dos próprios SRs e as declarações de Kozlovsky em uma entrevista que ele deu à imprensa estabelecem, sem sombra de dúvida, que Kozlovsky e seus oficiais se associaram abertamente desde o início ao motim. O próprio Kozlovsky foi “eleito” para o “Conselho de Defesa”. Aqui está como os mencheviques relataram a entrevista de Kozlovsky:

“No primeiro dia da insurreição, o Conselho de Especialistas Militares havia elaborado um plano para um ataque imediato a Oranienbaum, que tinha todas as chances de sucesso na época, pois o governo foi pego de surpresa e não poderia ter trazido tropas confiáveis a tempo... Os líderes políticos da insurreição não concordaram em tomar a ofensiva e a oportunidade foi deixada escapar.” [18]

Se o plano falhou, foi apenas porque Kozlovsky e seus colegas não conseguiram convencer os “líderes políticos”, ou seja, seus aliados do SR, que o momento era propício para expor seu verdadeiro rosto e programa. Os SRs acharam melhor preservar a máscara da “defesa” e contemporizar. Quando Berkman escreveu seu panfleto, ele sabia desses fatos. De fato, ele reproduziu a entrevista de Kozlovsky quase literalmente em suas páginas, fazendo, como é de seu costume, algumas alterações significativas e ocultando a fonte real do que parece ser sua própria avaliação.

Não é por acaso que Berkman e seus neófitos têm de plagiar todos os Kozlovskys, os SRs e os mencheviques. A rejeição pelos anarquistas da análise marxista do Estado inevitavelmente os leva a aceitar todas e quaisquer outras visões contrárias, incluindo até a sua participação em um governo de um Estado burguês.

Quanto tempo havia para “negociar”? Os amotinados estavam no controle da fortaleza em 2 de março. Tanto Kozlovsky quanto Berkman atestam que os bolcheviques foram “pegos de surpresa”. Trotsky chegou a Leningrado apenas em 5 de março. O primeiro ataque contra Kronstadt foi lançado em 8 de março. Os bolcheviques poderiam ter esperado mais?

Muitos especialistas militares sustentam a opinião de que o fracasso do motim foi em grande parte devido ao fracasso do degelo da primavera. Se as águas tivessem começado a fluir livremente entre Kronstadt e Leningrado, as tropas terrestres não poderiam ter sido usadas pelo governo soviético, enquanto os reforços navais poderiam ter sido enviados aos insurgentes já no controle de uma fortaleza naval de primeira classe, com navios de guerra, artilharia pesada, metralhadoras, etc., à sua disposição. O perigo desta operação não é um “mito” nem uma “calúnia bolchevique”.

Nas ruas de Kronstadt o gelo já estava derretendo. Em 15 de março, três dias antes da tomada da fortaleza em um assalto heroico em que participaram 300 delegados do X Congresso do Partido. O nº 13 do Izvestia de Kronstadt publicava em sua primeira página uma ordem para limpar as ruas “em vista do degelo”. Se os bolcheviques tivessem contemporizado, teriam precipitado uma situação que custaria um preço incomensuravelmente maior de vidas e sacrifícios, sem falar em colocar em risco o próprio destino da revolução.

Quando todos esses historiadores citam os nomes da fortaleza e os nomes dos navios de guerra Petropavlovsk e Sebastopol – os navios que em 1917 haviam sido o principal apoio dos bolcheviques [19] – eles evitam cuidadosamente mencionar o fato de que o pessoal da fortaleza, bem como dos navios de guerra, não poderia ter permanecido inalterado ao longo dos anos entre 1917 e 1921. Enquanto a fortaleza e os navios permaneceram quase intactos fisicamente, muita coisa aconteceu com os marinheiros revolucionários no período da Guerra Civil, na qual desempenharam um papel heroico em praticamente todas as frentes. É claro que é impossível pintar um quadro no qual os marinheiros de Kronstadt tivessem participado da revolução de outubro de 1917 apenas para permanecerem na retaguarda na fortaleza e nos navios enquanto seus camaradas de armas lutavam contra os Wrangels, Kolchaks, Denikins, Yudenitches, etc. .

Mas isso é, com efeito, o que os oponentes do bolchevismo tentam insinuar com suas insistências nas palavras “Kronstadt”, “marinheiros revolucionários” e assim por diante. O truque é muito óbvio. A recente resposta de Trotsky a Wendelin Thomas, que fura essa bolha, não poderia deixar de despertar sua ira. Com hipocrisia desprezível, todos eles se levantam em falsa indignação contra o pretenso insulto de Trotsky às “massas”. No entanto, ao responder a Thomas, Trotsky apenas reformulou os fatos que apresentou em 1921: “Muitos dos marinheiros revolucionários, que desempenharam um papel importante na revolução de outubro de 1917, foram nesse ínterim transferidos para outras esferas de atividade. Eles foram substituídos em grande parte por elementos fortuitos, entre os quais muitos marinheiros letões, estonianos e finlandeses, cuja atitude para com seus deveres era apenas a de manter um emprego temporário, sendo que a maioria não participou da luta revolucionária”.

Não há espetáculo mais revoltante do que o de pessoas que, como os anarquistas e mencheviques, foram entre outras coisas coparceiros do stalinismo em seu frontismo popular, e que carregam a responsabilidade pelo massacre da flor do proletariado espanhol, apontando um dedo acusador para os líderes da revolução de outubro por terem desbaratado um motim contra a revolução: Foi tudo culpa dos bolcheviques. Eles provocaram os kronstadtinos, etc., etc.

Não há como negar que os SRs e os mencheviques são especialistas, se não autoridades acabadas, em provocação. Nada do que Kerensky e Cia fizeram provocou-os sequer para justificar um levante das armas contra o Governo Provisório. Pelo contrário, os mencheviques foram muito enfáticos em 1917 em suas demandas de que a revolucionária Kronstadt – e os bolcheviques em geral – fosse “contida”. Quanto aos SRs, eles não hesitaram em pegar em armas na luta contra outubro. O bolchevismo sempre “provocou” esses senhores que invariavelmente se posicionaram do outro lado das barricadas.

Esses são os fatos incontestáveis. Os marinheiros compunham a maior parte das forças insurgentes. A guarnição e a população permaneceram passivas. Pego de surpresa pelo motim, o comando do Exército Vermelho a princípio procurou contemporizar, esperando uma mudança no humor dos insurgentes. O tempo estava pressionando. Quando se tornou óbvio que não havia possibilidade de arrancar a massa cinzenta da liderança dos SRs e seus capangas, Kronstadt foi tomada de assalto. Ao fazê-lo, os bolcheviques apenas cumpriram o seu dever. Defendiam as conquistas da revolução contra as tramas da contrarrevolução. Esse é o único veredicto que a história pode e vai passar.

Notas de rodapé

1. Em janeiro-março de 1921, ocorreu o motim de Tumensk na área de Tobolsk na Sibéria. Os insurgentes somavam 20.000 homens. Em maio de 1921, destacamentos da Guarda Branca auxiliados pelos japoneses desembarcaram em Vladivostok, que mantiveram por um curto período de tempo. Após a assinatura do tratado de Riga (18 de março de 1921), bandos da Guarda Branca, alguns milhares, outros meros punhados, invadiram a Ucrânia e outros pontos do território soviético. Outra série de ataques seguiu em Karelia, iniciado em 23 de outubro de 1921, e liquidada apenas em fevereiro de 1922. Ainda em outubro de 1922, o território soviético estava pontilhado de bandos de guerrilheiros da contrarrevolução.

2. Sotsialisticheski Vestnik , 25 de agosto de 1937.

3. Sotsialisticheski Vestnik , 5 de abril de 1921. Nossa ênfase.

4. Os SRs foram um pouco menos precisos no lado político e obscuro do motim. Eles diziam: “As organizações operárias exigiam uma mudança drástica de poder: algumas na forma de sovietes livremente eleitos, outras na forma de convocação da Assembleia Constituinte”. (A verdade sobre a Rússia , Volya Rossii , Praga 1921, p. 5). Ao publicar este livro, os SRs no exterior fizeram apenas um reconhecimento tardio de sua participação política no motim, embora seus porta-vozes na Rússia na época se escondessem atrás de uma máscara de não-partidarismo. Este livro serviu como a principal, se não a única, fonte utilizada por todos os críticos passados ​​e presentes do bolchevismo. Panfleto de Berkman A Rebelião de Kronstadt (1922) é meramente uma reafirmação dos supostos fatos e interpretações das RS com algumas alterações significativas.

5. A Rebelião de Kronstadt , p. 12, destaque no original.

6. Vanguarda , fevereiro-março de 1937.

7. Local. Cit. , pp. 12–13.

8. Local. Cit. , pág. 11.

9. Victor Serge acredita que foi tudo culpa de Kalinin. “O Comitê Central cometeu o enorme erro de enviar Kalinin...” (La Révolution Prolétarienne , setembro de 1937).

10. Izvestia da Prov. Rev. Com. de Kronstadt , nº 11, 13 de março de 1921.

11. Em seus comentários recentes sobre Kronstadt, Victor Serge admite que os bolcheviques, uma vez confrontados com o motim, não tiveram outro recurso senão esmagá-lo. Nisto ele se demarca das muitas variedades de anarcomenchevismo. Mas a substância de sua contribuição para a discussão é lamentar as experiências da história em vez de procurar entendê-las como marxista. Serge insiste que teria sido “fácil” evitar o motim – se o Comitê Central não tivesse enviado Kalinin para falar com os marinheiros! Uma vez deflagrado o motim, teria sido “fácil” evitar o pior – se ao menos Berkman tivesse falado com os marinheiros! Adotar tal abordagem aos eventos de Kronstadt é assumir um ponto de vista superficial: “Ah, se a história tivesse nos poupado Kronstadt!” Isso leva apenas ao ecletismo e à perda de todas as perspectivas políticas.

12. Poslednya Novosti , 11 de março de 1921.

13. Idem. , 18 de março de 1921.

14. Nas teses programáticas sobre a Rússia propostas pelo Comitê Central dos Mencheviques, em 1921, encontramos o seguinte: A República não pode deixar de estar em consonância com as relações capitalistas prevalecentes nos países avançados da Europa e da América...” ( Sots. Vestnik , 2 de dezembro de 1921.)

15. A Revolta da Frota do Báltico Contra o Governo Soviético – um artigo assinado em l'Echo de Paris , 14 de fevereiro de 1921. No mesmo dia, o Matin, outro jornal parisiense, publicou um despacho sob o título: Moscou toma medidas contra os Insurgentes de Kronstadt. A imprensa russa da Guarda Branca publicou despachos semelhantes. A fonte especificada foi Helsingfors, de onde os despachos foram enviados em 11 de fevereiro.

16. Em seu discurso de encerramento em 16 de março, Lenin leu para o Congresso um relatório sobre a campanha na imprensa. Aqui estão algumas manchetes nos jornais referidos por Lenin:

“Relatado o Levantamento de Moscou. Combate de Petrogrado.” ( London Times , 2 de março de 1921)

“L'Agitation Antibolchévique. Petrograd et Moscou Seraient aux Maine des Insurgés qui ont Formé un Gouvernement Provisoire.” ( Matina , 7 de março)

“Kronstadt gegen Petrogrado, Sinowjew Verhaftet.” ( Berliner Tageblatt , 7 de março)

“Les Marins Revoltés Débarquent à Petrograd.” ( Matina , 8 de março)

“Der Aufstand in Russland.” ( Vossische Zeitung , 10 de março)

“Combate em Petrogrado. Bajulações vermelhas silenciadas.” ( London Times , 9 de março)

17. Os mencheviques na Rússia não tinham imprensa própria e, portanto, só podiam participar clandestinamente na campanha dos imperialistas no exterior e seus aliados SR em Kronstadt. Aqui está um parágrafo de abertura em um de seus folhetos, datado de 8 de março de 1921, e publicado em nome do “Petersburg Committee of SDLPD”:

“A estrutura da ditadura bolchevique está rachando e desmoronando. Revoltas camponesas na Ucrânia, na Sibéria, no Sudoeste da Rússia... Greves e efervescência entre trabalhadores em Petersburgo e Moscou... Os marinheiros em Kronstadt se levantaram... Fome, frio, miséria e amargura sem precedentes predominam entre a população arrendatária da Rússia ... Este é o quadro nada atraente da República Soviética três anos após a tomada do poder pelos bolcheviques. A estrutura da ditadura bolchevique está rachando e desmoronando...” ( Sots. Vestnik , 20 de abril de 1921.)

18. Sot. Vestnik , 5 de abril de 1921. Nossa ênfase.

19. Berkman, The Kronstadt Rebellion , p. 8.

(Trad.: J.M.)

sexta-feira, 1 de abril de 2022

O clamor por Kronstadt, por Leon Trotsky

 O berreiro sobre Kronstadt [1]

por Leon Trotsky

Tradução de Marcelo Coelho - Revista Rosa

Uma “Frente Popular” de indignados

A campanha em torno de Kronstadt se desenvolve sem descanso em alguns círculos. Um desavisado pensaria que a revolta de Kronstadt aconteceu agora mesmo, e não dezessete anos atrás. Participando dessa campanha, com igual zelo e sob um único slogan, encontram-se anarquistas, mencheviques russos, sociais-democratas de esquerda do Burô Londrino, trapalhões individuais, o jornal de Miliukov, e, conforme a ocasião, a grande imprensa capitalista. Uma “Frente Popular” sui generis!

Ontem mesmo me deparei com as seguintes linhas, publicadas num semanário mexicano que é ao mesmo tempo católico-reacionário e “democrático”: “Trotsky ordenou o fuzilamento de 1500 (?) dos marinheiros de Kronstadt, os puros entre os puros. Sua política, quando no poder, em nada diferia da atual política de Stálin”. Como se sabe, os anarquistas de esquerda chegaram à mesma conclusão. Quando, pela primeira vez na imprensa, respondi brevemente às questões de Wendelin Thomas, membro da Comissão de Inquérito de Nova York, o jornal dos mencheviques russos veio imediatamente em defesa dos marinheiros de Kronstadt e de… Wendelin Thomas. O jornal de Miliukov perfilou-se no mesmo espírito. Os anarquistas me atacaram com ainda maior vigor. Todas essas autoridades sustentam que aquela minha resposta não tinha valor nenhum. Essa unanimidade é tanto mais notável quanto se sabe que os anarquistas erigem Kronstadt como símbolo do genuíno comunismo antiestatal; que os mencheviques, no momento do levante de Kronstadt, apoiavam abertamente a restauração do capitalismo; e que Miliukov continua apoiando até hoje.

Como é que o levante de Kronstadt pode causar tamanho deus-nos-acuda entre anarquistas, mencheviques e contrarrevolucionários “liberais” ao mesmo tempo? A resposta é simples: todos esses agrupamentos estão interessados em comprometer a única corrente genuinamente revolucionária, que nunca repudiou suas bandeiras, que nunca fez concessões a seus inimigos e que é a única a representar o futuro. É devido a isso que entre os que tardiamente denunciam o meu “crime” de Kronstadt há tantos ex-revolucionários ou semi-revolucionários, gente que perdeu seus programas e princípios e que acha necessário distrair as atenções do estado de degradação em que se encontra a Segunda Internacional ou da perfídia dos anarquistas espanhóis. Por enquanto, os estalinistas não podem aliar-se abertamente à campanha em torno de Kronstadt mas até mesmo eles, obviamente, esfregam as mãos com prazer; pois os ataques se dirigem contra o “trotskismo”, contra o marxismo revolucionário, contra a Quarta Internacional!

Por que, em particular, esta variegada fraternidade se ocupou precisamente de Kronstadt? Durante os anos da Revolução nós entramos em confronto, não poucas vezes, com os cossacos, com os camponeses, até com certas camadas do operariado (alguns grupos de operários dos Urais organizaram um regimento de voluntários para aderir ao exército de Kolchak!). O antagonismo entre os operários enquanto consumidores e os camponeses enquanto produtores e vendedores de pão está, em geral, na raiz desses conflitos. Pressionados pela necessidade e pela privação, os próprios operários se viram ocasionalmente divididos em campos hostis, conforme a força ou a fraqueza dos seus laços com a aldeia. O Exército Vermelho também se encontrou sob a influência das áreas rurais. Durante os anos da guerra civil foi necessário desarmar, mais de uma vez, regimentos descontentes. A introdução da “Nova Política Econômica” (nep) atenuou essa fricção, mas nem de longe a eliminou. Ao contrário, abriu caminho para o renascimento dos kulaks [camponeses ricos] e levou, no começo desta década, ao ressurgimento da guerra civil nas aldeias. O levante de Kronstadt foi apenas um episódio na história das relações entre a cidade proletária e a aldeia pequeno-burguesa. Só é possível entender esse episódio em conexão com o curso geral do desenvolvimento da luta de classes durante a Revolução.

Kronstadt diferiu da longa série de outros movimentos e levantes pequeno-burgueses apenas devido a seu maior efeito externo. O problema, aqui, envolvia uma fortaleza marítima submetida à própria Petrogrado. Ao longo do levante, fizeram-se proclamações e transmissões de rádio. Os social-revolucionários e os anarquistas, vindo às pressas de Petrogrado, enfeitaram o levante com frases e gestos “nobres”. Tudo isso deixou rastros impressos. Com ajuda desse material “documental” (isto é, rótulos mentirosos), não é difícil construir uma lenda em torno de Kronstadt, ainda mais exaltada na medida em que desde 1917 o nome de Kronstadt estava envolto numa aura revolucionária. Não é à toa que a revista mexicana citada acima chama ironicamente os marinheiros de Kronstadt de “puros entre os puros”.

A jogada empregando a autoridade revolucionária de Kronstadt é um dos traços definidores dessa campanha de verdadeira charlatanice. Anarquistas, mencheviques, liberais, reacionários, todos tentam apresentar a questão como se no começo de 1921 os bolcheviques tivessem voltado suas armas naqueles mesmos marinheiros de Kronstadt que garantiram a vitória da insurreição de outubro. Este é o ponto de partida para todas as falsidades posteriores. Quem quiser desmontar essas mentiras deve, antes de tudo, ler o artigo do camarada J. G. Wright na New International (fevereiro de 1938). Meu problema aqui é outro: quero descrever o caráter do levante de Kronstadt a partir de um ponto de vista mais geral.

Agrupamentos sociais e políticos em Kronstadt

Uma revolução é “feita” diretamente por uma minoria. O sucesso de uma revolução, entretanto, só é possível quando essa minoria encontra maior ou menor apoio, ou pelo menos uma neutralidade amigável, junto à maioria. O trânsito pelas diversas fases da revolução, assim como a passagem da revolução para a contrarrevolução, é diretamente determinado pelas mudanças nas relações políticas entre a minoria e a maioria, entre a vanguarda e a classe.

Entre os marinheiros de Kronstadt, encontravam-se três camadas políticas diferentes: os revolucionários do proletariado, alguns treinados e com um passado consequente; a maioria intermediária, de origem principalmente camponesa; e, finalmente, os reacionários, filhos de kulaks, pequenos comerciantes e sacerdotes. Nos tempos do czarismo, só era possível manter a ordem nos navios de guerra e na fortaleza enquanto os oficiais, agindo através das secções reacionárias dos suboficiais e dos marinheiros, submetessem a larga camada intermediária à sua influência ou a seu terror, isolando desse modo os revolucionários, principalmente maquinistas, atiradores e eletricistas, isto é, predominantemente os trabalhadores urbanos.

O desenrolar da insurreição no encouraçado Potemkin, em 1905, baseou-se inteiramente nas relações entre essas três camadas, isto é, na luta entre os extremos proletários e reacionários pequeno-burgueses pela influência sobre a camada média, mais numerosa, dos camponeses. Quem não tiver entendido este problema, que perpassa todo o movimento revolucionário na marinha, fará melhor se silenciar sobre os problemas da revolução russa em seu todo. Pois esta consistiu, e em grande medida ainda consiste, na luta entre o proletariado e a burguesia pela influência sobre o campesinato. Durante o período soviético, a burguesia se apresentou principalmente sob as cores dos kulaks (ou seja, o estrato superior da pequena burguesia), da intelligentsia “socialista”, e agora na forma da burocracia “comunista”. Este é o mecanismo básico da revolução em todos os seus estágios. Na marinha ele assumiu uma expressão mais centralizada e, portanto, mais dramática.

A composição política do soviete de Kronstadt refletia a composição da guarnição e da tripulação. A liderança dos sovietes, desde o verão de 1917, pertencia ao partido bolchevique, que se apoiava nas melhores partes dos marinheiros e incluía em suas fileiras muitos revolucionários do movimento clandestino que tinham sido libertados das prisões e campos de trabalho forçado. Mas, pelo que me lembro, mesmo nos dias da insurreição de outubro, os bolcheviques compunham menos do que a metade do soviete de Kronstadt. A maioria era constituída de social-revolucionários e anarquistas. Não havia menchevique nenhum em Kronstadt. O partido menchevique detestava Kronstadt. O partido social-revolucionário oficial, diga-se de passagem, não desfrutava de melhor opinião. Os social-revolucionários de Kronstadt rapidamente entraram em oposição a Kerensky e formaram uma das brigadas de choque dos assim chamados “social-revolucionários de esquerda”. Apoiaram-se no setor camponês da marinha e da guarnição em terra. Quanto aos anarquistas, eram o grupo mais heterogêneo. Entre eles havia revolucionários de verdade, como Zhuk e Zheleznianov, mas estes eram os elementos mais estreitamente ligados aos bolcheviques. A maioria dos “anarquistas” de Kronstadt era representada pela pequeno-burguesia urbana e se encontrava num nível revolucionário mais baixo que o dos social-revolucionários. O presidente do soviete era apartidário, “simpático aos anarquistas”, e essencialmente um pacato funcionário de baixo escalão que havia sido subserviente às autoridades czaristas e agora era subserviente… à Revolução. A total ausência de mencheviques, o caráter “esquerdista” dos social-revolucionários e a coloração anarquista dos pequeno-burgueses se deviam à agudeza da luta revolucionária na frota e à predominância dos setores proletários dos marinheiros.

Mudanças durante os anos da guerra civil

Esta caracterização social e política de Kronstadt — que, se for preciso, poderia ser confirmada e ilustrada por muitos fatos e documentos — já é suficiente para desvendar as rebeliões que ocorreram em Kronstadt durante os anos da guerra civil, e que tiveram como resultado sua transformação em algo irreconhecível. Justamente sobre este importante aspecto da questão os acusadores tardios não dizem uma palavra, em parte por ignorância, em parte por má-fé.

Sim, Kronstadt escreveu uma página heroica na história da Revolução. Mas a guerra civil deu início a um sistemático esvaziamento numérico de Kronstadt e toda a frota do Báltico. Tão logo se desencadeou a insurreição de outubro, destacamentos de marinheiros de Kronstadt foram enviados para ajudar Moscou. Outros destacamentos foram mandados para o Don, para a Ucrânia, para requisitar pão e para organizar o poder local. De início parecia que Kronstadt era inexaurível. Eu enviei dúzias de telegramas de diversas frentes, tratando da mobilização de novos regimentos “confiáveis” de operários de Petrogrado e dos marinheiros do Báltico. Mas, já em 1918, e em todo caso no mais tardar em 1919, as frentes começaram a reclamar que os novos contingentes de “kronstadtianos” eram insatisfatórios, cheios de exigências, indisciplinados, inconfiáveis no campo de batalha; mais prejudicavam do que ajudavam. Depois da liquidação de Yudenich (no inverno de 1919), a frota do Báltico e a guarnição de Kronstadt estavam destituídas de quaisquer forças revolucionárias. Todos os elementos de lá que ainda fossem úteis foram destinados à luta contra Denikin no sul. Se em 1917–18 o marinheiro de Kronstadt se situava consideravelmente acima do soldado médio do Exército Vermelho e constituía o arcabouço de seus primeiros destacamentos e do regime soviético em muitos distritos, aqueles marinheiros que restaram na “pacífica” Kronstadt até o início de 1921, e que não serviam para nenhuma das frentes da guerra civil, situavam-se naquele momento num plano consideravelmente mais baixo, em geral, do que a média do Exército Vermelho e incluíam grande porcentagem de elementos completamente desmoralizados, ostentando vistosas calças boca-de-sino e cortes de cabelo estilosos.

A desmoralização causada pela fome e pela especulação tinha, de modo geral, crescido muito no final da guerra civil. Os chamados “carregadores de sacas” (pequenos especuladores) tinham-se tornado uma praga social, ameaçando sufocar a Revolução. Precisamente em Kronstadt, onde a guarnição não fazia nada e tinha tudo que precisasse, a desmoralização assumiu dimensões particularmente grandes. Quando as condições se tornaram muito críticas com a fome em Petrogrado, o burô político discutiu mais de uma vez a possibilidade de conseguir um “empréstimo interno” junto a Kronstadt, onde ainda havia uma quantidade de antigos mantimentos. Mas os delegados dos operários de Petrogrado responderam: “vocês nunca conseguirão nada deles na base da gentileza. Eles especulam com roupas, carvão e pão. No momento, todo tipo de escória levanta a cabeça em Kronstadt.” Essa era a situação real. Nada tinha das idealizações açucaradas que se construíram depois dos fatos.

Deve-se acrescentar ainda que os antigos marinheiros da Letônia e da Estônia, que temiam ser mandados para o front e se preparavam para cruzar as fronteiras no rumo de suas pátrias burguesas, tinham-se juntado à frota do Báltico como “voluntários”. Esses elementos eram em sua essência hostis à autoridade soviética e exibiam abertamente sua hostilidade nos dias do levante de Kronstadt… Além disso, havia muitos milhares de trabalhadores letões, principalmente antigos lavradores, que exibiram um heroísmo sem paralelos em todas as frentes da guerra civil. Não devemos, portanto, tratar do mesmo modo os trabalhadores letões e os “kronstadtianos”. É necessário reconhecer as diferenças políticas e sociais.

As raízes sociais do levante

O problema, para um estudioso sério, consiste em definir, com base nas circunstâncias objetivas, qual o caráter social e político do motim de Kronstadt e qual seu lugar no desenvolvimento da revolução. Sem isto, a “crítica” se reduz a uma lamúria sentimental de tipo pacifista, no estilo de Alexander Berkman, Emma Goldmann e seus imitadores mais recentes. Esses gentis comentadores não têm a menor noção dos critérios e métodos da pesquisa científica. Citam as proclamações dos insurgentes como pregadores religiosos citam a Sagrada Escritura. Queixam-se também de que eu não levo em consideração os “documentos”, a saber, o evangelho de Makhno e dos outros apóstolos. Marx disse que é impossível julgar pessoas ou partidos pelo que dizem de si mesmos. As características de um partido são determinadas muito mais por sua composição social, seu passado, sua relação com as diferentes classes e setores sociais, do que por suas declarações verbais e escritas, especialmente num período de guerra civil. Se, por exemplo, tomarmos como ouro puro as declarações de Negrin, Companys, Garcia Oliver e companhia, consideraríamos esses cavalheiros como ardorosos amigos do socialismo. Mas na realidade são seus pérfidos inimigos.

Em 1917–18 os operários revolucionários lideraram as massas camponesas, não apenas na Marinha mas no país inteiro. Os camponeses tomaram e dividiram as terras, na maior parte das vezes, sob a liderança dos soldados e marinheiros que voltavam às suas regiões de origem. Requisições de pão tinham mal começado e se dirigiam principalmente aos donos de terra e aos kulaks. Os camponeses aceitaram as requisições como um mal temporário. Mas a guerra civil arrastou-se por três anos. A cidade não dava praticamente nada para o campo e dele tomava quase tudo, fundamentalmente devido às necessidades da guerra. Os camponeses apoiavam os “bolcheviques”, mas se tornaram gradualmente hostis aos “comunistas”. Se, anteriormente, os operários haviam conduzido os camponeses para a frente, agora os camponeses puxavam os operários para trás. Foi apenas em função dessa mudança de atitude que os Brancos atraíram parte dos camponeses, e mesmo dos que eram meio camponeses, meio operários, na região dos Urais. Essa atitude hostil à cidade alimentou o movimento de Makhno, que tomou e loteou os trens destinados às fábricas, às instalações e ao Exército Vermelho; além de destruir os trilhos, fuzilar comunistas etc. Evidentemente, Makhno chamou isso de luta anarquista contra “o Estado”. Na realidade, tratava-se da luta furiosa do proprietário pequeno-burguês contra a ditadura do proletariado. Um movimento semelhante surgiu em diversas outras regiões, especialmente em Tambovsky, sob a bandeira dos “social-revolucionários”. Finalmente, em outras partes do país ativaram-se os chamados destacamentos “verdes” dos camponeses. Não reconheciam nem os vermelhos nem os brancos, e evitavam contato com os partidos da cidade. Em algumas ocasiões, os “verdes” se defrontaram com os brancos e receberam severos golpes, mas não encontraram, obviamente, nenhuma compaixão por parte dos vermelhos. Assim como a pequena burguesia fica espremida entre as rodas de moinho do capital e do proletariado, também os destacamentos de milícias camponesas foram pulverizados entre o Exército Vermelho e os brancos.

Só mesmo uma pessoa totalmente superficial poderia ver nos bandos de Makhno ou na revolta de Kronstadt uma revolta entre os princípios abstratos do anarquismo e do “socialismo de Estado”. Na verdade, esses movimentos foram convulsões da pequena burguesia que desejava, obviamente, liberar-se do capital, mas não consentia em subordinar-se à ditadura do proletariado. A pequena burguesia não sabe concretamente o que quer, e, em virtude de sua posição, não consegue saber. Esta é a razão por que revestia tão rapidamente a confusão de suas demandas e esperanças, ora com a capa do anarquismo, ora com a do populismo, e ora simplesmente com a dos “verdes”. Contrapondo-se ao proletariado, tentou, com todos esses revestimentos, mover para trás a roda da revolução.

O caráter contrarrevolucionário do motim de Kronstadt

Não existiam, claro, divisões estanques entre as diferentes camadas sociais e políticas de Kronstadt. Ainda existia em Kronstadt um certo número de trabalhadores qualificados e de técnicos cuidando da maquinaria. Mas até mesmo eles foram identificados, por um método de seleção negativa, como politicamente inconfiáveis e pouco úteis para a guerra civil. Alguns “líderes” do levante tinham essa origem. Essa circunstância, completamente natural e inevitável, é ressaltada em triunfo pelos acusadores, mas não muda uma vírgula do caráter antiproletário da revolta. A menos que nos deixemos enganar por slogans pretensiosos, falsos rótulos etc., o que se vê é que o levante de Kronstadt nada mais foi do que uma reação armada da pequena burguesia contra as asperezas da revolução social e a severidade da ditadura do proletariado.

Este era exatamente o significado do slogan de Kronstadt, “sovietes sem comunistas”, de que imediatamente se apropriaram, não apenas os srs, mas também os burgueses liberais. Como um representante do capital razoavelmente perceptivo, o professor Miliukov entendeu que liberar os sovietes da liderança bolchevique significaria, em pouco tempo, desmontar os próprios sovietes. A experiência dos sovietes russos no período do domínio menchevique e sr, e, de forma ainda mais clara, a experiência dos sovietes alemães e austríacos sob os social-democratas, provou isso. Sovietes social-revolucionários e anarquistas só poderiam servir como pontes levando da ditadura do proletariado à restauração capitalista. Não poderiam ter nenhum outro papel, fossem quais fossem as “ideias” de seus membros. O levante de Kronstadt teve, portanto, um caráter contrarrevolucionário.

Do ponto de vista de classe, que permanece — sem ofensa aos respeitáveis ecléticos — o critério básico não apenas da política, mas também da história, é extremamente importante contrastar o comportamento de Kronstadt com o de Petrogrado naqueles dias. Toda a liderança operária tinha também sido removida de Petrogrado. Fome e frio reinavam na capital deserta, talvez mais ferozmente do que em Moscou. Um período trágico e heroico! Todos estavam famintos e irritáveis. Todos estavam insatisfeitos. Nas fábricas havia um descontentamento surdo. Militantes clandestinos enviados pelos srs e pelos oficiais brancos tentavam associar o levante militar com o movimento dos operários descontentes.

O jornal de Kronstadt descrevia barricadas em Petrogrado, com milhares de pessoas sendo mortas. A imprensa do mundo inteiro anunciava o mesmo. Na verdade, ocorria exatamente o contrário. O levante de Kronstadt não atraiu os operários de Petrogrado. Afastou-os. A estratificação se deu conforme tendências de classe. Os operários perceberam imediatamente que os amotinados de Kronstadt estavam no lado oposto das barricadas — e apoiaram o poder soviético. O isolamento político de Kronstadt foi a causa de suas hesitações internas e de sua derrota militar.

A nep e o levante de Kronstadt

Victor Serge — que, pelo que consta, está tentando fabricar uma espécie de síntese entre anarquismo, poumismo e marxismo, fez uma intervenção muito infeliz na polêmica sobre Kronstadt. Na sua opinião, se a nep fosse introduzida um ano antes a insurreição poderia ter sido evitada. Mas conselhos desse tipo são fáceis de dar depois que tudo aconteceu. É verdade, como lembra Victor Serge, que eu havia proposto a transição para a nep já em 1920. Mas eu não estava de modo nenhum seguro de seu sucesso com antecedência. Não era nenhum segredo para mim que o remédio poderia se tornar mais perigoso do que a própria doença. Quando encontrei opositores entre os líderes do partido, não apelei para as fileiras, pois não queria mobilizar a pequena burguesia contra os trabalhadores. A experiência dos doze meses seguintes foi necessária para convencer o partido da necessidade de um novo rumo. Mas o notável é que precisamente os anarquistas do mundo inteiro encararam a nep como… uma traição ao comunismo. E agora os defensores dos anarquistas nos acusam por não ter introduzido a nep um ano mais cedo.

Em 1921, Lênin reconheceu, mais de uma vez, que a defesa obstinada dos métodos do comunismo de guerra pelo partido havia se tornado um grande equívoco. Mas o que isso muda? Quaisquer que tenham sido as causas imediatas ou remotas da insurreição de Kronstadt, aquilo consistia, pela sua própria essência, num perigo mortal para a ditadura do proletariado. Deveria a revolução proletária cometer suicídio, para punir-se de um equívoco político?

Ou será que teria sido suficiente apenas informar os marinheiros de Kronstadt a respeito dos decretos da nep, achando que isso iria apaziguá-los? Ilusão! Os insurgentes não tinham um programa claro e não podiam tê-lo, dada a própria natureza da pequena burguesia. Eles mesmos não entendiam claramente que seus pais e irmãos precisavam, acima de tudo, do livre comércio. Estavam descontentes e confusos, mas não sabiam para onde ir. Os mais conscientes, ou seja, os setores direitistas, atuavam nos bastidores em favor da restauração do regime burguês. Mas não diziam isso às claras. A ala “esquerda” queria o fim da disciplina, “sovietes livres” e rações melhores. Só gradualmente o sistema da nep poderia apaziguar os camponeses e, depois deles, os setores descontentes do exército e da marinha. Mas, para isso, era preciso mais tempo e experiência.

O argumento mais infantil de todos é o de que nunca houve insurreição, que os marinheiros não tinham feito nenhuma ameaça, e tinham “apenas” ocupado a fortaleza e os navios de guerra. É como se os bolcheviques simplesmente tivessem marchado sem hesitação através do gelo devido à maldade de seu caráter, de sua tendência para provocar conflitos artificialmente, de seu ódio aos marinheiros de Kronstadt, ou de seu ódio às doutrinas anarquistas (com as quais ninguém, diga-se de passagem, se preocupava minimamente naqueles dias). Como não ver que isso é tagarelice de crianças? Flutuando fora do tempo e do espaço, os críticos amadores tentam sugerir (dezessete anos depois!) que tudo teria terminado em contentamento geral se a Revolução simplesmente tivesse deixado quietos os marinheiros insurgentes. Infelizmente, a contrarrevolução mundial não os teria deixado quietos. A lógica do conflito teria conferido predomínio aos extremistas da fortaleza, isto é, aos elementos mais contrarrevolucionários. A necessidade de suprimentos teria colocado a fortaleza em dependência direta da burguesia estrangeira e de seus agentes, os emigrados brancos. Já tinham sido feitos todos os preparativos para isso. Em tais circunstâncias somente pessoas como os anarquistas espanhóis e os poumistas teriam esperado passivamente, esperando um final feliz. Os bolcheviques, felizmente, pertenciam a outra escola. Consideraram seu dever extinguir o incêndio assim que ele começou, reduzindo a um mínimo, assim, o número de vítimas.

Os “kronstadtianos” sem fortaleza

Essencialmente, os veneráveis críticos se opõem à ditadura do proletariado e, com isso, são adversários da Revolução. Nisto está a chave do segredo. É verdade que alguns deles reconhecem a revolução e a ditadura — verbalmente. Mas isto não ajuda as coisas. Querem uma revolução que não leve a uma ditadura ou uma ditadura que se mantenha sem o uso da força. Por certo, seria uma revolução muito agradável. Seriam necessárias, entretanto, algumas coisinhas: um desenvolvimento igual, e, além disso, extremamente alto, das classes trabalhadoras. Mas nessas condições uma ditadura seria em geral desnecessária. Alguns anarquistas, que na verdade são pedagogos liberais, esperam que em cem ou mil anos os trabalhadores terão atingido tal nível de desenvolvimento que não se verificará necessidade de coerção. Naturalmente, se o sistema capitalista pudesse conduzir a tal desenvolvimento, não haveria razão para derrubá-lo. Não seria preciso nem uma revolução violenta nem uma ditadura, como consequência inevitável da vitória revolucionária. Entretanto, o capitalismo declinante de nossos dias dá pouca margem para ilusões humanitário-pacifistas.

A classe operária, para não mencionar as massas semiproletárias, não é homogênea nem social nem politicamente. A luta de classes produz uma vanguarda que absorve os melhores elementos da classe. Mas isto não significa que desapareçam todas as contradições internas entre os trabalhadores. Quando a revolução está no seu auge, essas contradições obviamente se atenuam, mas apenas para reaparecer mais tarde em toda sua agudeza. Este é o trajeto da revolução como um todo. Este foi o trajeto de Kronstadt. Quando simpatizantes de salão tentam traçar um caminho diferente para a Revolução de Outubro, depois de tudo já ter acontecido, só podemos respeitosamente pedir que nos mostrem exatamente onde e como seus grandes princípios se confirmaram na prática, ao menos parcialmente, ao menos como uma tendência… Onde estão os sinais que nos levam a esperar um triunfo desses princípios no futuro? Evidentemente, nunca obtemos resposta.

Uma revolução segue suas próprias leis. Há bastante tempo formulamos essas “lições de outubro”, que não têm apenas um significado para a Rússia, mas para todo o âmbito internacional. Nunca alguém tentou sugerir outras “lições” além daquelas. A revolução espanhola é a confirmação negativa das “lições de outubro”. E nossos severos críticos silenciam ou se mostram ambíguos. O governo da “frente popular” espanhola sufoca a revolução socialista e fuzila revolucionários. Os anarquistas participam desse governo, ou, quando são expulsos dele, continuam apoiando os fuziladores. E seus aliados e defensores estrangeiros se ocupam, enquanto isso, com uma defesa… do motim de Kronstadt contra os duros bolcheviques. Uma mascarada vergonhosa!

As atuais discussões em torno de Kronstadt giram em torno do mesmo eixo de classe que foi o da própria insurreição, na qual os setores reacionários dos marinheiros tentaram derrubar a ditadura do proletariado. Cônscios de sua impotência na arena da política revolucionária dos dias atuais, os trapalhões pequeno-burgueses e ecléticos tentam usar o velho episódio de Kronstadt na luta contra a Quarta Internacional, ou seja, contra o partido da revolução proletária. Esses “kronstadtianos” de última hora serão também esmagados — verdade que sem o uso das armas, já que, para sorte deles, não possuem nenhuma fortaleza.

— 15 de janeiro de 1938

Nota

Publicado originalmente em New International, vol. 4, nº 4, abril de 1938, pp. 103–106.

Publicado no 3º númerodo volume 4 da Revista Rosa em 20/12/2021.

Revista Rosa,S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.com, issn 2764-1333.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Kropotkin e o jacobinismo com consciência de classe

Kronstadt - rebelião

“O jacobino ligado indissoluvelmente à organização do proletariado que tem consciência dos seus interesses de classe, é justamente o socialdemocrata revolucionário” (Lênin)

Dando continuidade ao tema da Terceira Revolução de Kronstadt, publicaremos alguns extratos da obra A Conquista do Pão, de Kropotkin, publicada pela primeira vez em 1888, e que parece prever os acontecimentos que se dariam quase 30 anos depois durante o governo bolchevique (corrente da Partido Operário Social-Democrata Russo – POSDR):

O caráter predominante e distintivo do sistema capitalista atual é o salariato. (...)

Pois bem, o maior serviço que a próxima Revolução poderá prestar à humanidade, será criar uma situação na qual todo sistema de salariato se torne impossível e inaplicável, fazendo que se imponha, como única situação aceitável, o Comunismo, isto é, a negação do salariato.

Porque, admitindo que a modificação corretiva seja possível, se for gradualmente feita durante um período de prosperidade e dê tranquilidade (o que duvidemos muito, mesmo com estas facilidades) - tornasse a impossível no período revolucionário, porque a necessidade de alimentar milhões de seres surgirá logo ao primeiro conflito armado. Pode fazer uma revolução política sem perturbar a indústria; mas uma revolução que permita ao povo lançar mão da propriedade será inevitavelmente uma suspensão súbita do comércio e da produção. Os milhões do Estado não chegariam para pagar a milhões de desocupados.

Não nos cansaremos de insistir sobre este ponto; organização da indústria sobre novas bases (em breve explicaremos a imensidade desse problema) em alguns dias, e o proletário não poderá sacrificar anos de miséria ao serviço dos teóricos do salariato. Para atravessar o período de dificuldades, recomendará o que sempre tem reclamado em conjunturas idênticas; os gêneros em comum, isto é, o rastreamento ou a ação proporcional.

Em vão pregará paciência; o povo já não poderá conter-se mais, e se não se fizerem todos os gêneros em comum, os estabelecimentos serão saqueados.

Mas se o ímpeto do povo não for suficientemente forte, fuzilam-no. Para que o coletivismo possa estabelecer-se, é indispensável antes de tudo ordem, disciplina e obediência. E como os capitalistas reconhecerão desde logo que mandar fuzilar o povo por aqueles que se chamam revolucionários é o melhor meio de o desgostar da revolução, certamente que hão de apoiar os defensores da "ordem" e os próprios coletivistas, até vendo no caso um meio de os poderes mais tarde esmagar por sua vez

Se a "ordem for estabelecida" deste modo, as consequências são fáceis de prever. Não se limitarão a fuzilar os "gatunos"; será necessário procurar os "autores da desordem", restabelecer os tribunais e a guilhotina, levando ao cadafalso os revolucionários mais ardentes. Será uma repetição de 1793.

Não esquecemos ainda como a reação triunfou no século passado. Começaram a guilhotinar em primeiro lugar os hebretistas, os intransigentes - aqueles a quem Mignet, com a memória fresca das lutas, chamava ainda os " anarquistas". Não tardaram a segui-los os dantonianos; e depois dos robespierristas terem guilhotinado estes revolucionários, chegou a vez de subirem ao patíbulo. Desgostoso com isto e vendo a revolução perdida, o povo deixou manobrar os reacionários.

Se a "ordem for estabelecida", diremos nós, os coletivistas guilhotinaram os anarquistas; os possibilistas guilhotinaram os coletivistas, e aqueles, por seu turno, serão guilhotinados pelos reacionários. E terá que recomeçar-se novamente a revolução.

Mas, tudo leva a crer que o impulso do povo será suficientemente forte e que quando a revolução se fizer terá já ganho bastante terreno a ideia do Comunismo anarquista. Não é uma ideia inventada, é o próprio povo que no-la insufla, e o número dos comunistas aumentará à medida que se tornar mais evidente a impossibilidade de qualquer outra solução.

Se o impulso, pois, for bastante forte, as coisas tomarão outro rumo. Em vez de saquear algumas padarias garantido apenas o pão de um dia, o povo das cidades insurrecionadas apoder-se-á dos celeiros de trigo, dos armazéns de comestíveis, - em suma, de todos os gêneros disponíveis.

Cidadão e cidadãs, com a maior boa vontade, tratarão logo de inventariar o que for encontrado em cada armazém e em cada celeiro. Em 24 horas a comuna revoltada saberá o que Paris ainda hoje não sabe apesar das suas comissões de estatística, e o que nunca soube durante o cerco - que provisões encerram. Em 48 horas ter-se-ão espalhado milhares de exemplares de mapas exatos indicando todos os gêneros existentes, lugares onde se acham depositados e meios de distribuição.

Em cada quarteirão de prédios, em cada rua e bairro, organizar-se-ão grupos de voluntários - os Voluntários das Subsistências - que procederam com acerto no desempenho das suas atribuições. Não venho as baionetas jacobinas interpor-se; não venham os teóricos cientistas de meia-tigela embrulhar as coisas; desde que não tenham mais o direito de mandar, e com este admirável espírito de organização espontânea que o povo, - sobretudo a nação francesa em todas as classes sociais, - possui num grau tão elevado e que tão raramente lhe permitem exercer, surgirá então, mesmo numa cidade tão vasta como é Paris e ainda em plena efervescência revolucionária, um imenso serviço livremente constituído para fornecer a cada um as subsistência indispensáveis.

Que o povo tenha liberta as mãos, e em oito dias o serviço dos víveres executar-se-á com admirável regularidade. Só duvidará disto quem, tendo levado toda a sua vida com o nariz na papelada, não observou nunca o povo na febre do trabalho. Falai do espírito organizador desse grande Anônimo que é o Povo, àqueles que o observam em Paris nos dias das barricadas, ou em Londres por ocasião da última greve que tinha de dar de comer a meio milhão de esfaimados, e eles vos dirão quanto povo é superior aos burocratas que se empoleiram nas secretarias!

Além disso, embora se tivesse de suportar durante 15 dias ou um mês certa desordem parcial e relativa, pouco importava isso. Para as massas esse estado seria sempre melhor que o existente; e depois, em Revolução, janta-se rindo, ou melhor, discutindo, qualquer bocado de pão duro com salsicha, de cara alegre e coração ao alto! Em todo caso, o quê espontaneamente surgisse sob a pressão das necessidades imediatas, seria infinitamente preferível a tudo o que se pudesse inventar entre quatro paredes, no meio de alfarrábios ou nas secretarias governamentais.

*****

Voltemos, porém, à nossa cidade revoltada, e vejamos em que condições ela poderá manter-se. (...)

Para os autoritários a questão não oferece dificuldades. Começariam por introduzir um governo fortemente centralizado com todos os órgãos de repressão, polícia, exército, guilhotina, etc.

Este governo mandaria que se fizesse a estatística de tudo o que se colhe em França; dividiria o país num certo número de distritos de alimentação e ordenaria que tal gênero numa quantidade fosse transportado de um determinado lugar em dia para uma estação qualquer e recebida por um funcionário, a fim de ser armazenada num depósito tal, e assim sucessivamente.

Pois bem, afirmamos, plenamente convencidos, que uma solução semelhante não havia de satisfazer como não poderia nunca ser posta em prática.

Não passa portanto de uma utopia.

Pode imaginar-se, com a pena na mão, um tal estado de coisas; mas na prática a questão torna-se materialmente impossível; era não contar com o espírito de independência da humanidade.

Seria uma insurreição geral; três ou quatro guerras em lugar de uma só; a guerra das aldeias contra as cidades; a França inteira erguida contra a cidade que ousasse implantar este regime.

Basta de utopias jacobinas! Vejamos se será possível uma organização mais satisfatória.

Em 1793 o campo esfomeou as grandes cidades e matou a Revolução. Está provado, porém, que a produção cerealífera da França não diminui em 1792-1793, sendo até de supor que tivesse aumentado. Mas, depois de se terem apoderado uma boa parte das terras senhoriais levando colheitas delas, os burgueses do campo não quiseram vender o trigo contra promessa de pagamento. Notas! guardando-o à espera da alta dos preços ou da moeda de ouro. Nem as mais rigorosas medidas dos convencionais para forçar os açambarcadores a venderem o trigo, nem tampouco as execuções, nada disto remediou o mal impedindo a greve.

E sabe-se contudo que os comissários da Convenção não tinham escrúpulos em guilhotinar os açambarcadores, nem o povo em pendurados nos candeeiros; o trigo, porém, continuava nos celeiros e o povo nas cidades sofria de fome.

Mas, o que é que se oferecia aos cultivadores dos Campos em troca dos seus rudes trabalhos?

- Notas! Farrapo de papel, cujo valor baixava de dia para dia; notas marcando 500 libras em caracteres impressos, mas sem valor real. Por uma nota de mil libras não podia comprar um par de botas, e o camponês - compreende-se - não lhe convinha de modo algum trocar um ano de trabalho por um bocado de papel com que não poderia sequer comprar uma blusa.

As coisas passar-se-ão sempre assim. Enquanto se oferecer ao cultivador do solo um pedaço de papel sem valor, - embora se chame nota ou "cupão de trabalho", - o resultado será o mesmo. Os produtos da terra ficarão nos campos e a cidade não os possuirá, embora tenha de recorrer à guilhotina.

O que é necessário oferecer ao camponês não é papel, mas a mercadoria que as suas necessidades lhe pedem.

É a máquina de que é forçado agora a privar-se; é o candeeiro e o petróleo que lhe substitua o pavio; é a pá, é a enxada, é a charrua. É finalmente, tudo aquilo de que o camponês hoje se priva - não porque ele não sinta necessidade, - mas porque na sua existência de privações e de labor extenuante, os milhares de objetos úteis ficaram lhes inacessíveis por causa do preço.

Aplique-se a cidade em produzir todas estas coisas que faltam aos campos, em vez de perder o tempo que o trabalho em futilidades para adorno dos burgueses.

Execute as máquinas de costura de Paris vestimenta de trabalho e de resguardo para os camponeses, em vez de luxuosos enxovais de noivado; fabrique a oficina máquinas agrícolas, pás e enxadas, em vez de esperar que os ingleses as remetam em troca de vinho!

Que cada cidade envie para as aldeias, não comissários cingidos de bandas vermelhas ou multicolores notificando ao camponês o decreto de levar os gêneros para tal sítio, mais que o faça visitar por amigos e irmãos que digam aos camponeses: "Tragam-nos as vossas colheitas e levem dos nossos armazéns todas as coisas manufaturadas que vos agradarem". Verão então os gêneros afluírem de todos os lados.

O camponês guardará o que lhe for preciso para viver, enviando o que produzir aos trabalhadores da cidade, nos quais, pela primeira vez no decorrer da história - verá irmãos e não exploradores.

Dir-nos-ão talvez que isto reclama uma transformação completa da indústria. Certamente, para determinados ramos. Há, porém, milhares de indústrias que se poderão modificar rapidamente o vestuário, o relógio, a mobília, os utensílios e as máquinas simples que neste momento a cidade lhes faz pagar tão caro. Tecelões, alfaiates, fabricantes de calçado, quinquilheiros, marceneiros e tantos outros não encontrarão dificuldade alguma em abandonar a produção do luxo pelo trabalho de utilidade. É preciso, pois, que nos compenetremos bem da necessidade desta transformação, que a consideremos como um ato de justiça e de progresso e não nos deixemos iludir.

Toda a questão está nisto, segundo o nosso modo de pensar. Oferecer ao agricultor em troca dos seus produtos, não pedaços de papel, qualquer que seja a inscrição, mas os próprios objetos de consumo necessários para o cultivador. Se isto se fizer, as mercadorias para o cultivador. Se isto se fizer, as mercadorias hão de afluir às cidades. Se assim não se proceder a fome invadirá os grandes centros e com ela todas as suas consequências, a reação e a opressão.

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Nesta passagem, ao que tudo indica, o Comunismo de Guerra não rompeu com a política agrária do regime czarista. Vejamos:

Na Rússia, por exemplo, o camponês chega a trabalhar 16 horas por dia e jejua durante uns poucos de meses para poder exportar o trigo com o produto do qual paga ao patrão e ao Estado. Atualmente, assim que a colheita termina, o fisco apresenta-se nas aldeias russas e vende o único cavalo do agricultor, para os impostos atrasados e rendas dos senhorios, quando o camponês não age espontaneamente vendendo os produtos da terra aos exportadores; de modo que guarda apenas o trigo suficiente para nove meses e vende o resto, a fim de não deixar ir a vaca por uns míseros quinze franco. Para poder viver até à colheita seguinte, o lavrador, durante três meses se a colheita foi boa ou seis se o ano foi mau, mistura casca de álamo branco e sementes várias à farinha que lhe resta, ao passo que em Londres vão saboreando em biscoitos o trigo que lhe extorquiram.

(KROPOTKIN, Piotr. A conquista do pão. (Tradução: Manuel Ribeiro) - Guimarães Editores: Lisboa, 1975).

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Diante dos últimos acontecimentos, é nos impossível mantermos indiferentes e por isso publicamos a seguinte nota de repúdio:

Após um ano do centenário de Kronstadt, a Rússia se vê novamente envolvida num entrevero militar, desta vez em resposta ao avanço imperialista do Ocidente, porém, escalado atualmente num contexto de outra ordem. O fato em questão é mais um caso, dentre muitos, que explicita a verdadeira natureza do regime “democrático liberal”, que é caracterizado verdadeiramente por uma essência profundamente tirânica. Aliás, o próprio conceito de “democracia” é uma fraude completa, já que se baseia num processo eleitoral viciado em que o povo é convidado a escolher uma fração de uma mesma oligarquia que desde sempre detém do controle político e econômico. Através desse processo ilusório e fraudulento, o povo escravizado é definitivamente excluído de toda e qualquer participação política, muito embora apareça formalmente como um protagonista in abstracto. Contradição insolúvel! Portanto, o conceito crítico mais correto para chegar a um conteúdo real e designar precisamente este sistema seria o de pseudodemocracia ou alienação política por falsa representação.

Historicamente, os limites da pseudodemocracia encerram-se em si mesmos, negando-se, em razão de sua condição contraditória, e dando ensejo à revelação de sua real e brutal natureza desmistificada: o nazismo. O que significa dizer não a caricatura do nazismo mas a sua essência propriamente dita. A história está repleta de exemplos que desmascaram a farsa das ditas “democracias”. Vejamos alguns: ao mesmo tempo em que se aplicavam sansões à Alemanha do entreguerras, os países pseudodemocráticos enchiam os cofres nazistas de toneladas de ouro no intuito de fomentar uma guerra soviético-germânica; ao calarem-se cinicamente diante das incursões nazistas pela Espanha, as pseudodemocracias demonstravam uma clara cumplicidade com os regimes totalitários de direita e apoiaram efetivamente o golpe de Estado perpetrado pelas hordas fascistas do general Franco; ao protegeram e darem guarida a refugiados nazistas por todas as Américas durante vários anos, recrutando-os nos mais diversos setores da sociedade sem nunca os condenar... Os exemplos são incontáveis. E, agora, o complô macabro das pseudodemocracias em defesa incondicional da maior caricatura nazista do início do século XXI, engendrada institucionalmente na Ucrânia, a serviço do clube da OTAN.

Juntar-se às denuncias da ocupação da Rússia à Ucrânia é fácil e desnecessário, a mídia ocidental inteira já tem feito o serviço, inclusive, explorando o drama humano, como nunca antes - sim, parece que finalmente o jornalismo descobriu que numa guerra as pessoas sofrem -, e extrapolando as falácias que a própria ideologia pseudodemocrática criou. Racismo, censura, mentiras, parcialidade, maniqueísmo, desonestidade intelectual, trapaças e concessões antiéticas têm marcado a cobertura midiática da guerra. Exemplo lapidar é a manchete do site The Intercept Brasil de 25/02/2022: FACEBOOK PERMITIRÁ ELOGIOS A PARAMILITARES NEONAZISTAS DA UCRÂNIA – DESDE QUE ELES LUTEM CONTRA A RÚSSIA. É uma pena que comumente a imprensa até agora não tenha sido tão engajada na defesa do mais fraco e da população civil ante a agressão do mais forte. Os exemplos abundam: Síria, Líbia, Iêmen, Paquistão, Afeganistão, Iraque... Hiroshima, Nagasaki... A lista é grande!

Seja como for, não nos esquecemos, uma guerra é sempre deplorável e é o povo - e é sempre o povo, que não é ucraniano nem russo nem brasileiro nem angolano nem israelense nem palestino ou qualquer outra ficção do tipo, mas seres humanos simplesmente - sim, o povo, é quem paga muito caro, inclusive com a vida, a cobiça irrefreável dos senhores da guerra, seguros e encastelados confortavelmente no seu trono de ouro, o Estado.

(N.E.)