A notícia
do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pela Delta Force do Exército
dos Estados Unidos — uma operação que mistura elementos de farsa e tragédia —
rapidamente circulou o mundo como um episódio extraordinário de intervenção
internacional. No entanto, uma análise mais detida revela que esse evento,
longe de sinalizar força ou capacidade estratégica, é na verdade um sintoma
gritante de fraqueza institucional e decadência geopolítica. O episódio expõe
as fissuras de uma potência que, apesar de sua retórica belicosa, demonstra
recorrentemente suas limitações em alcançar vitórias militares significativas
ou sustentáveis.
A Ilusão
da Força: Uma História de Dificuldades Militares
Ao longo
das últimas décadas, a potência em questão — que conduziu ou apoiou esta
operação — acumulou um histórico de intervenções militares complexas e
frequentemente fracassadas. Desde conflitos prolongados no Oriente Médio até
operações encobertas na América Latina, o padrão é de vitórias táticas seguidas
de fracassos estratégicos monumentais. A incapacidade de transformar
superioridade tecnológica e orçamentária em resultados políticos duradouros
tornou-se uma marca registrada. A operação contra Maduro insere-se neste
contexto: um ato espetacular que busca mascarar, através do espetáculo
midiático, uma incapacidade crônica de influenciar processos políticos por
meios convencionais ou diplomáticos.
Corrupção
Interna e Conivência: Os Verdadeiros Motores do "Sucesso"
A
aparente eficácia da operação — que levou à captura do presidente — não resulta
de uma superioridade operacional esmagadora, mas sim de duas condições muito
mais prosaicas: corrupção interna venezuelana e, provavelmente, algum nível de
conivência ou falha de setores do próprio governo.
Os fatos
indicam que os militares estadunidenses conseguiram penetrar o aparato de
segurança venezuelano não através de táticas sofisticadas, mas mediante suborno
e exploração de divisões dentro das forças armadas e serviços de inteligência
do país. Em um estado cuja elite está fragmentada e onde setores da burocracia
e das forças armadas mantêm lealdades voláteis, a compra de acesso torna-se uma
estratégia de baixo custo e alto retorno momentâneo.
Mais
significativamente, persistem questões sobre quanto da operação foi realmente
desconhecida por elementos dentro do governo venezuelano. Em cenários de
negociações subterrâneas e disputas de poder, é plausível que facções internas
possam ter permitido — ou até facilitado — o sequestro como parte de um cálculo
político mais amplo. Se confirmada, essa hipótese transformaria a operação de
"ato de força externa" para "episódio de guerra civil por
procuração", revelando muito mais sobre as fraturas venezuelanas do que
sobre o poder da potência intervencionista.
Marketing
Político para Consumo Doméstico: O Show de Trump
Não se
pode analisar este evento sem situá-lo no contexto eleitoral da potência
envolvida. O presidente Donald Trump, figura profundamente enraizada na cultura
do espetáculo e da mídia, governa através de gestos simbólicos destinados a sua
base. A operação contra Maduro possui todos os elementos de uma produção
cinematográfica criada para as câmeras: o vilão caricato (Maduro, retratado
como ditador narcotraficante), os heróis destemidos (soldados apresentados como
"libertadores") e o clímax dramático da captura.
Esta é
uma operação de relações públicas disfarçada de ação militar. Seu objetivo
principal não era desestabilizar o regime venezuelano de forma sustentável —
algo que exigiria uma estratégia muito mais complexa e duradoura — mas sim
gerar manchetes espetaculares, alimentar a narrativa de "presidente
durão" e energizar o eleitorado em ano de uma eleição disputada. A própria
divulgação cinematográfica da operação, com seus elementos de reality show,
expõe esta lógica midiática.
A
Estética do Absurdo: Rambo, Exterminador do Futuro e Liga da Justiça na Vida
Real
A
operação representa a culminação de uma cultura política que internalizou a
estética hollywoodiana como manual de relações internacionais. Ela é uma
paródia involuntária dos filmes de ação dos anos 80 e 90 — uma mistura bizarra
de "Rambo III" (onde um único homem derrota exércitos inteiros),
"O Exterminador do Futuro" (com sua missão impossível de alterar o
destino) e "Capitão América" (o herói patriótico que combate o mal
além-fronteiras).
Na
ficção, estes arquétipos funcionam porque seguem regras narrativas previsíveis:
o herói supera obstáculos impossíveis através de força de vontade e
superioridade moral. Na realidade geopolítica, esta mentalidade produz
operações desconectadas da complexidade política, social e histórica dos
contextos intervencionista. O resultado é um espetáculo tragicômico onde
soldados vestidos com equipamento tático de loja de departamento encenam uma
fantasia de libertação.
A própria
composição da operação — enormes helicópteros barulhentos atravessando o
território venezuelano — lembra mais a "Liga da Justiça" em sua
versão paródica do que uma unidade militar coerente. A operação foi concebida
como um roteiro, não como uma estratégia, e seu fracasso em alcançar qualquer
objetivo político duradouro era previsível desde o início para qualquer
analista que ultrapassasse a retórica.
Conclusão:
A Fraqueza Disfarçada de Ousadia
O
sequestro de Maduro, portanto, longe de ser um sinal de força ressurrente, é na
verdade um sintoma de decadência acelerada. Ele revela uma potência que:
1.
Recorre a operações midiáticas porque não pode (ou
não quer) arcar com os custos políticos de uma intervenção aberta;
2.
Substitui a estratégia diplomática sustentada por
gestos espetaculares de curto prazo;
3.
Internalizou a lógica da mídia e do entretenimento
a ponto de confundir manchetes com realizações geopolíticas;
4.
Depende da corrupção e divisão de seus adversários
para obter sucessos táticos mínimos;
5.
Continua incapaz de traduzir superioridade militar
em influência política duradoura.
Em última
análise, a operação representa o triunfo da forma sobre o conteúdo, do gesto
sobre a estratégia, da propaganda sobre a política. Enquanto o Delta Force
encenava seu roteiro de ação ao estilo Hollywood, as verdadeiras dinâmicas de
poder na Venezuela — e as relações internacionais complexas que a envolvem — aparentemente
seguem seu curso, praticamente inalteradas pelo espetáculo momentâneo.
A verdadeira força, na geopolítica, se mede pela
capacidade de moldar realidades de forma sustentável, não pela produção de
episódios espetaculares. Por este critério, a operação contra Maduro não é um
símbolo de poder, mas sim um testemunho eloquente de fraqueza — a fraqueza de
quem precisa encenar um filme de ação porque já não consegue escrever a
história.