domingo, 1 de fevereiro de 2026

O Sequestro de Maduro: Uma Paródia de uma Potência em Decadência

 

A notícia do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pela Delta Force do Exército dos Estados Unidos — uma operação que mistura elementos de farsa e tragédia — rapidamente circulou o mundo como um episódio extraordinário de intervenção internacional. No entanto, uma análise mais detida revela que esse evento, longe de sinalizar força ou capacidade estratégica, é na verdade um sintoma gritante de fraqueza institucional e decadência geopolítica. O episódio expõe as fissuras de uma potência que, apesar de sua retórica belicosa, demonstra recorrentemente suas limitações em alcançar vitórias militares significativas ou sustentáveis.

A Ilusão da Força: Uma História de Dificuldades Militares

Ao longo das últimas décadas, a potência em questão — que conduziu ou apoiou esta operação — acumulou um histórico de intervenções militares complexas e frequentemente fracassadas. Desde conflitos prolongados no Oriente Médio até operações encobertas na América Latina, o padrão é de vitórias táticas seguidas de fracassos estratégicos monumentais. A incapacidade de transformar superioridade tecnológica e orçamentária em resultados políticos duradouros tornou-se uma marca registrada. A operação contra Maduro insere-se neste contexto: um ato espetacular que busca mascarar, através do espetáculo midiático, uma incapacidade crônica de influenciar processos políticos por meios convencionais ou diplomáticos.

Corrupção Interna e Conivência: Os Verdadeiros Motores do "Sucesso"

A aparente eficácia da operação — que levou à captura do presidente — não resulta de uma superioridade operacional esmagadora, mas sim de duas condições muito mais prosaicas: corrupção interna venezuelana e, provavelmente, algum nível de conivência ou falha de setores do próprio governo.

Os fatos indicam que os militares estadunidenses conseguiram penetrar o aparato de segurança venezuelano não através de táticas sofisticadas, mas mediante suborno e exploração de divisões dentro das forças armadas e serviços de inteligência do país. Em um estado cuja elite está fragmentada e onde setores da burocracia e das forças armadas mantêm lealdades voláteis, a compra de acesso torna-se uma estratégia de baixo custo e alto retorno momentâneo.

Mais significativamente, persistem questões sobre quanto da operação foi realmente desconhecida por elementos dentro do governo venezuelano. Em cenários de negociações subterrâneas e disputas de poder, é plausível que facções internas possam ter permitido — ou até facilitado — o sequestro como parte de um cálculo político mais amplo. Se confirmada, essa hipótese transformaria a operação de "ato de força externa" para "episódio de guerra civil por procuração", revelando muito mais sobre as fraturas venezuelanas do que sobre o poder da potência intervencionista.

Marketing Político para Consumo Doméstico: O Show de Trump

Não se pode analisar este evento sem situá-lo no contexto eleitoral da potência envolvida. O presidente Donald Trump, figura profundamente enraizada na cultura do espetáculo e da mídia, governa através de gestos simbólicos destinados a sua base. A operação contra Maduro possui todos os elementos de uma produção cinematográfica criada para as câmeras: o vilão caricato (Maduro, retratado como ditador narcotraficante), os heróis destemidos (soldados apresentados como "libertadores") e o clímax dramático da captura.

Esta é uma operação de relações públicas disfarçada de ação militar. Seu objetivo principal não era desestabilizar o regime venezuelano de forma sustentável — algo que exigiria uma estratégia muito mais complexa e duradoura — mas sim gerar manchetes espetaculares, alimentar a narrativa de "presidente durão" e energizar o eleitorado em ano de uma eleição disputada. A própria divulgação cinematográfica da operação, com seus elementos de reality show, expõe esta lógica midiática.

A Estética do Absurdo: Rambo, Exterminador do Futuro e Liga da Justiça na Vida Real

A operação representa a culminação de uma cultura política que internalizou a estética hollywoodiana como manual de relações internacionais. Ela é uma paródia involuntária dos filmes de ação dos anos 80 e 90 — uma mistura bizarra de "Rambo III" (onde um único homem derrota exércitos inteiros), "O Exterminador do Futuro" (com sua missão impossível de alterar o destino) e "Capitão América" (o herói patriótico que combate o mal além-fronteiras).

Na ficção, estes arquétipos funcionam porque seguem regras narrativas previsíveis: o herói supera obstáculos impossíveis através de força de vontade e superioridade moral. Na realidade geopolítica, esta mentalidade produz operações desconectadas da complexidade política, social e histórica dos contextos intervencionista. O resultado é um espetáculo tragicômico onde soldados vestidos com equipamento tático de loja de departamento encenam uma fantasia de libertação.

A própria composição da operação — enormes helicópteros barulhentos atravessando o território venezuelano — lembra mais a "Liga da Justiça" em sua versão paródica do que uma unidade militar coerente. A operação foi concebida como um roteiro, não como uma estratégia, e seu fracasso em alcançar qualquer objetivo político duradouro era previsível desde o início para qualquer analista que ultrapassasse a retórica.

Conclusão: A Fraqueza Disfarçada de Ousadia

O sequestro de Maduro, portanto, longe de ser um sinal de força ressurrente, é na verdade um sintoma de decadência acelerada. Ele revela uma potência que:

1.     Recorre a operações midiáticas porque não pode (ou não quer) arcar com os custos políticos de uma intervenção aberta;

2.     Substitui a estratégia diplomática sustentada por gestos espetaculares de curto prazo;

3.     Internalizou a lógica da mídia e do entretenimento a ponto de confundir manchetes com realizações geopolíticas;

4.     Depende da corrupção e divisão de seus adversários para obter sucessos táticos mínimos;

5.     Continua incapaz de traduzir superioridade militar em influência política duradoura.

Em última análise, a operação representa o triunfo da forma sobre o conteúdo, do gesto sobre a estratégia, da propaganda sobre a política. Enquanto o Delta Force encenava seu roteiro de ação ao estilo Hollywood, as verdadeiras dinâmicas de poder na Venezuela — e as relações internacionais complexas que a envolvem — aparentemente seguem seu curso, praticamente inalteradas pelo espetáculo momentâneo.

A verdadeira força, na geopolítica, se mede pela capacidade de moldar realidades de forma sustentável, não pela produção de episódios espetaculares. Por este critério, a operação contra Maduro não é um símbolo de poder, mas sim um testemunho eloquente de fraqueza — a fraqueza de quem precisa encenar um filme de ação porque já não consegue escrever a história.

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Um Ano Novo Difícil para a Economia

 


por Desmond Lachman

A complacência generalizada de hoje sobre as perspectivas econômicas dos EUA nos lembra a situação que existia na véspera da Grande Recessão Econômica de 2008-2009. Assim como naquela época, quando a visão consensual esperava crescimento econômico contínuo apesar dos grandes riscos econômicos visíveis, hoje o consenso é de que continuaremos a ver crescimento econômico no próximo ano. Isso ocorre apesar dos níveis recordes de dívida pública, dos ataques à independência do banco central, do desmoronamento da ordem comercial internacional e das condições de bolha no mercado de ações dos EUA e no mercado de crédito privado. Se a história servir de guia, a visão econômica consensual de hoje se mostrará tão equivocada quanto a de 2008.

Se há algo sobre o qual a visão consensual de hoje está surpreendentemente complacente, é o estado alarmante das finanças públicas do país. Não importa que o Fundo Monetário Internacional esteja alertando que o déficit orçamentário dos EUA permanecerá em torno de 7% do PIB por tempo indeterminado. Não importa que nossa dívida pública esteja em um caminho para atingir cerca de 128% do PIB até 2030. Esse é um nível que superaria o final da Segunda Guerra Mundial e que é mais associado a países como Grécia ou Itália.

Uma vulnerabilidade chave da economia dos EUA é sua alta dependência de estrangeiros para financiar seus déficits orçamentário e de comércio. De fato, de acordo com o Tesouro dos EUA, estrangeiros atualmente detêm US$ 8,5 trilhões, ou cerca de 30% dos US$ 29 trilhões de títulos do Tesouro dos EUA em circulação. Isso torna imperativo que mantenhamos a confiança dos investidores estrangeiros de que iremos honrar nossa dívida corretamente, caso queiramos que eles renovem seus títulos do Tesouro que estão vencendo e ajudem a financiar nosso déficit orçamentário de US$ 2 trilhões por ano.

Um risco importante para nossa economia no próximo ano é que, em um momento de grandes déficits orçamentários, o presidente Trump continue a minar a independência do Federal Reserve e a exigir cortes significativos nas taxas de juros, apesar da inflação estar acima da meta de 2% do Fed. Isso poderia fazer com que tanto investidores domésticos quanto estrangeiros acreditassem que os EUA tentariam inflacionar sua maneira de sair sob sua montanha de dívidas. Se isso acontecer, poderíamos ver um aumento acentuado nos custos de empréstimos de longo prazo, o que reverberaria por toda a economia e pelos mercados financeiros globais.

Se em 2008 tivemos uma bolha no mercado imobiliário, hoje temos uma bolha da Inteligência Artificial (IA). O investimento em IA agora representa cerca de metade do crescimento do PIB e impulsionou o mercado de ações para condições de bolha semelhantes à bolha da internet de 2001. Medido pela Razão Preço/Lucro Ajustada Ciclicamente (CAPE), o S&P 500 de hoje tem um valor CAPE de 40. Isso é mais que o dobro da sua média de longo prazo. Enquanto isso, as chamadas “Magnificent Seven” – as sete empresas que dominam o setor de IA – agora representam cerca de 35% do valor total do S&P 500. Não é surpresa, então, que o Banco de Pagamentos Internacionais e lendas do investimento como Warren Buffett e Ray Dalio estejam alertando sobre os perigos da bolha da IA.

No contexto das condições de bolha no mercado de ações e no mercado de crédito privado, a última coisa que a economia dos EUA precisa são taxas de juros mais altas a longo prazo. Essas taxas provavelmente estourariam a bolha da IA, causando um declínio abrupto nos investimentos em IA e uma queda acentuada nos preços das ações dos EUA. Por sua vez, a combinação de investimento em declínio e uma grande perda de riqueza das famílias poderia levar a economia dos EUA à recessão. No entanto, as chances de um aumento nas taxas de juros de longo prazo nos EUA parecem altas, considerando nosso enorme déficit orçamentário e a tentativa de Trump de minar a independência do Fed.

Vulnerabilidades econômicas no exterior podem adicionar desafios econômicos àqueles que enfrentamos internamente. A dependência excessiva da China de exportações e investimentos para impulsionar sua economia poderia provocar uma reação protecionista dos EUA e da Europa. Isso poderia levar a uma maior quebra no sistema comercial internacional. Ao mesmo tempo, as políticas orçamentárias irresponsáveis do novo primeiro-ministro do Japão, Sanae Takaichi, poderiam causar um dia de acerto de contas para a economia altamente endividada do Japão. Isso poderia levar a um aumento nos rendimentos dos títulos de longo prazo do Japão e à repatriação de capital japonês dos Estados Unidos.

Tudo isso não parece bom para Trump nas próximas eleições de meio de mandato. Já com problemas de acessibilidade, a última coisa de que ele precisa é de um revés econômico na forma do estouro da bolha da IA.