quinta-feira, 1 de setembro de 2022

A Revolta de Kronstadt e a Revolução Russa, por Ante Ciliga

 

A insurreição de Kronstadt e o destino da Revolução Russa [1]

(setembro de 1938)

por Ante Ciliga

Traduçãode Marcelo Coelho – Revista Rosa

Trotsky

A correspondência entre Trotsky e Wendelin Thomas (uma das lideranças da Revolta da Armada alemã em 1918 e membro do Comitê Americano de Inquérito sobre os Processos de Moscou), a propósito do significado histórico dos acontecimentos de Kronstadt em 1921, deu ocasião para amplas discussões no âmbito internacional. Só esse fato indica a importância do problema. Por outro lado, não é por acaso que haja um interesse especial pela revolta de Kronstadt atualmente; salta aos olhos que existe uma analogia, e mesmo uma ligação direta, entre o que aconteceu em Kronstadt dezessete anos atrás e os recentes julgamentos de Moscou. Vemos hoje o assassinato dos líderes da Revolução Russa; em 1921, as massas que formaram a base da Revolução é que foram massacradas. Teria sido possível, hoje, colocar em desgraça e eliminar os líderes de Outubro sem o menor protesto popular, se esses mesmos líderes não tivessem já silenciado pela força das armas os marinheiros de Kronstadt e os operários de todas as partes da Rússia?

A resposta de Trotsky a Wendelin Thomas demonstra, infelizmente, que Trotsky — o qual, ao lado de Stálin, é o único a restar vivo dentre os líderes da Revolução de Outubro envolvidos na repressão a Kronstadt — continua se recusando a encarar o passado com objetividade. Mais do que isso, em seu artigo “A gritaria em torno de Kronstadt”, ele acentua o fosso que criou naquela época entre ele mesmo e as massas trabalhadoras; não hesita, depois de ter ordenado o bombardeio em 1921, a descrever aqueles homens como “elementos completamente desmoralizados, homens que usavam calças largas da moda e penteados de cafetões”. Não! Não será com acusações desse tipo, que recendem a arrogância burocrática, que uma contribuição útil pode ser feita às lições oferecidas pela grande Revolução Russa.

Para dimensionar a influência que Kronstadt teve nos destinos da Revolução, é necessário evitar todos os aspectos pessoais e atentar para três questões fundamentais:

1. Em que circunstâncias mais amplas a revolta de Kronstadt teve início?

2. Quais eram os objetivos do movimento?

3. Através de que meios os insurgentes tentaram alcançar esses objetivos?

As massas e a burocracia em 1920–21

Todos concordam, hoje em dia, que durante o inverno de 1920–21 a Revolução Russa estava passando por uma fase extremamente crítica. A ofensiva contra a Polônia terminara numa derrota em Varsóvia, a revolução social não tinha estourado no Ocidente, a Revolução Russa ficara isolada e a fome e a desorganização tinham tomado conta de todo o país. O perigo de uma restauração burguesa batia à porta. Naquele momento de crise, as diferentes classes e os partidos que existiam dentro do campo revolucionário apresentavam, cada um, sua solução para superá-la.

O governo soviético e os círculos dirigentes do Partido Comunista aplicaram sua própria solução, que consistia em incrementar o poder da burocracia. A atribuição aos Comitês Executivos de poderes que até então tinham sido assegurados aos sovietes, a troca da ditadura do proletariado pela ditadura do partido, a passagem da autoridade, mesmo dentro do partido, das mãos dos seus filiados para as mãos dos quadros, a substituição do duplo poder da burocracia e dos operários na fábrica pelo único poder da burocracia — tudo isso se fazia para “salvar a revolução!”. Foi nesse momento que Bukharin lançou sua defesa do “bonapartismo proletário”. Impondo restrições a si mesmo, o proletariado iria, em sua opinião, enfrentar com mais facilidade a contrarrevolução burguesa. Aqui já se manifestava a enorme, e quase messiânica, importância que a burocracia comunista atribuía a si própria.

O nono e o décimo Congressos do Partido Comunista, assim como o ano seguinte, passaram-se sob a égide dessa nova política. Lênin levou-a adiante rigorosamente. Trotsky entoou suas loas. A Burocracia evitava a restauração burguesa… eliminando o caráter proletário da Revolução. O surgimento da Oposição Operária dentro do partido, que tinha o apoio não apenas da facção proletária mas também da grande massa dos operários não organizados, a greve geral dos operários de Petrogrado pouco tempo antes da revolta de Kronstadt e, finalmente, o próprio levante — tudo isso expressava as aspirações das massas que sentiam, com maior ou menor clareza, que um “terceiro partido” estava a ponto de destruir suas conquistas. O movimento de camponeses pobres liderado por Makhno na Ucrânia foi o resultado de uma resistência similar, em circunstâncias similares. Quando se examinam os conflitos de 1920–1921 à luz do material histórico hoje disponível, impressiona ver de que modo essas massas dispersas, famintas e enfraquecidas pela desorganização econômica, tiveram ainda assim força para formular a si mesmas sua posição social e política com tamanha precisão, ao mesmo tempo defendendo-se dos ataques da burocracia e da burguesia.

O Programa de Kronstadt

Não devemos, como Trotsky, nos contentar com simples declarações; submetemos assim a nossos leitores a resolução que serviu como programa ao movimento de Kronstadt. Nós o reproduzimos integralmente, dada sua imensa importância histórica. Foi adotado no 28 de fevereiro pelos marinheiros do navio de guerra Petropavlovsk, sendo em seguida aceito por todos os marinheiros, soldados e operários de Kronstadt.

Depois de ter ouvido os representantes enviados pela reunião geral da tripulação no navio para relatar a situação, esta assembleia toma as seguintes decisões:

1. Dado que os presentes sovietes não expressam os desejos dos operários e camponeses, organizar imediatamente novas eleições para os sovietes pelo voto secreto, com o cuidado de organizar propaganda eleitoral gratuita para todos os operários e camponeses.

2. Garantir liberdade de expressão e de imprensa para os operários e camponeses, para os anarquistas e para os partidos socialistas de esquerda.

3. Assegurar liberdade de reunião para sindicatos de trabalhadores e organizações camponesas.

4. Convocar uma conferência não partidária dos operários, soldados do Exército Vermelho e marinheiros de Petrogrado, de Kronstadt e da província de Petrogrado, no mais tardar até 10 de março de 1921.

5. Libertar todos os prisioneiros políticos dos partidos socialistas, assim como todos os operários, camponeses, soldados e marinheiros presos por suas conexões com movimentos de trabalhadores e camponeses.

6. Eleger uma comissão para revisar os casos dos que estão detidos em prisões e campos de concentração.

7. Abolir toda politodeli (propaganda oficial), porque nenhum partido deve possuir privilégios especiais na divulgação de suas ideias ou receber apoio financeiro do governo para tais objetivos. Em vez disso, devem-se estabelecer comissões educativas e culturais, eleitas localmente e financiadas pelo governo.

8. Abolir imediatamente todos os zagryaditelnyie otryadi (destacamentos armados que requisitavam cereais dos camponeses).

9. Equalizar todas as rações de todos os que trabalham, com exceção daqueles dedicados a atividades com risco para a saúde.

10. Abolir os destacamentos de combate comunistas em todos os ramos do Exército, assim como os guardas comunistas em serviço nas indústrias e fábricas. Caso se considere necessária a presença de tais guardas ou destacamentos, deverão ser nomeados de dentro das fileiras do exército e enviados às fábricas conforme a avaliação dos operários.

11. Dar aos camponeses plena liberdade de ação com respeito à sua terra, e também o direito de manter o gado consigo, desde que os camponeses os mantenham com seus próprios meios, isto é, sem emprego de trabalho remunerado.

12. Requerer que todos os ramos do exército, assim como nossos camaradas, os kursanti (cadetes militares), sustentem nossas resoluções.

13. Demandar que a imprensa dê máxima publicidade a nossas resoluções.

14. Nomear uma comissão de controle itinerante.

15. Permitir a livre atividade de artesãos que não empreguem trabalho remunerado.

Trata-se de formulações rudimentares, sem dúvida insuficientes, mas todas elas impregnadas do espírito de Outubro: e nenhuma calúnia no mundo pode lançar dúvidas sobre a conexão íntima que existe entre essa resolução e os sentimentos que guiaram as expropriações de 1917.

A profundidade dos princípios que animam essa resolução se comprova pelo fato de que, em grande medida, ela é aplicável até hoje. Pode-se contrapô-la, com efeito, tanto ao regime de Stálin em 1938 quanto ao de Lênin em 1921. Mais do que isso: as acusações do próprio Trotsky contra o regime de Stálin não passam de reproduções, tímidas é verdade, dos reclamos de Kronstadt. Ademais, que programa plenamente socialista poderia se contrapor à oligarquia burocrática, a não ser o de Kronstadt e da Oposição Operária?

O aparecimento dessa resolução comprova as estreitas conexões existentes entre os movimentos de Petrogrado e de Kronstadt. A tentativa feita por Trotsky de contrapor os operários de Petrogrado aos de Kronstadt, de modo a confirmar a natureza contrarrevolucionária do movimento de Kronstadt, termina por desautorizá-lo: em 1921, Trotsky argumentou que era necessário a Lênin suprimir a democracia nos sovietes e dentro do partido e acusou as massas dentro e fora do partido de simpatizar com Kronstadt. Admitia, portanto, que naquele momento os operários de Petrogrado e a oposição, embora não tivessem resistido com as armas, mesmo assim estendiam sua simpatia a Kronstadt.

A posterior afirmação de Trotsky de que “o levante tinha sido inspirado pelo desejo de obter privilégios na distribuição de rações” é ainda mais fantástica. Assim, é uma daquelas pessoas privilegiadas do Kremlin, cujas rações eram muito melhores que as dos outros, quem ousa vociferar uma acusação dessas, e contra os próprios homens que, no parágrafo 9 de sua resolução, explicitamente reivindicavam a equalização das rações! Este detalhe mostra a dimensão desesperada da cegueira burocrática de Trotsky.

Os artigos de Trotsky não diferem no menor detalhe da lenda criada há muito pelo comitê central do partido. Trotsky certamente merece o crédito da classe operária internacional por ter-se recusado, desde 1928, a continuar participando da degeneração burocrática e dos novos “expurgos” que viriam a eliminar todos os participantes esquerdistas da revolução. Com mais razões, merece ser defendido das calúnias de Stálin e de assassinos. Mas nada disso dá a Trotsky o direito de insultar as massas trabalhadoras de 1921. Ao contrário! Mais do que ninguém, Trotsky deveria oferecer uma nova apreciação da iniciativa tomada em Kronstadt. Uma iniciativa de grande valor histórico, uma iniciativa tomada por militantes de base contra o primeiro expurgo sangrento levado a cabo pela burocracia.

A atitude dos trabalhadores russos durante o trágico inverno de 1920–21 dá mostras de um profundo instinto social; um nobre heroísmo inspirou a classe trabalhadora russa não apenas no auge da revolução, mas também durante a crise que a colocou em perigo mortal.

É verdade que nem os combatentes de Kronstadt, nem os operários de Petrogrado, nem as bases comunistas poderiam concentrar, naquele inverno, a mesma energia revolucionária do período entre 1917 e 1919, mas aquilo que havia de socialismo e de sentimento revolucionário na Rússia de 1921 se localizava na base. Opondo-se a isto, Lênin e Trotsky, em concordância com Stálin, Zinoviev, Kaganovitch e outros, atenderam aos desejos dos quadros burocráticos e serviram aos seus interesses. Os trabalhadores lutaram pelo socialismo que a burocracia já estava cuidando de liquidar. Este é o ponto fundamental de todo o problema.

Kronstadt e a nep

Acredita-se frequentemente que Kronstadt forçou a introdução da Nova Política Econômica (nep); eis um erro profundo. A resolução de Kronstadt manifestava-se pela defesa dos trabalhadores, não apenas contra o capitalismo burocrático do Estado, mas também contra a restauração do capitalismo privado. Essa restauração era reivindicada — em oposição a Kronstadt — pelos sociais-democratas, que a associavam a um regime de democracia política. E foi isso o que Lênin e Trotsky realizaram em grande medida (mas sem democracia política) sob a forma da nep. A resolução de Kronstadt manifestava-se pelo oposto, uma vez que se declarava contra o uso do trabalho assalariado na agricultura e na pequena indústria. Essa resolução, e o movimento por trás dela, buscava uma aliança revolucionária dos trabalhadores proletários e camponeses com as seções mais pobres dos trabalhadores agrícolas, de modo a que a Revolução se encaminhasse no rumo do socialismo. A nep, em contrapartida, foi uma união dos burocratas com os estratos superiores do campo, contra o proletariado; era a aliança do capitalismo de Estado com o capitalismo privado contra o socialismo. A nep é tão oposta às reivindicações de Kronstadt quanto, por exemplo, o programa socialista revolucionário da vanguarda dos operários europeus pela abolição do sistema de Versalhes é oposto à abolição do tratado de Versalhes levada a cabo por Hitler.

Considere-se, por fim, uma última acusação que se faz com frequência: a de que uma ação como a de Kronstadt poderia indiretamente liberar as forças da contrarrevolução. É possível, com efeito, que mesmo se se pusesse em sintonia com a democracia operária a Revolução talvez fosse derrotada. Mas o que é certo é que a Revolução pereceu, e pereceu por obra de seus líderes. A repressão a Kronstadt, a supressão da democracia dos operários e sovietes pelo partido comunista russo, a eliminação do proletariado nas áreas administrativas da indústria, e a introdução da nep, já significavam a morte da Revolução.

Foi precisamente o fim da guerra civil que produziu a cisão da sociedade pós-revolucionária em dois agrupamentos fundamentais: as massas trabalhadoras e a burocracia. No que se refere às aspirações socialistas e internacionais, a Revolução Russa foi sufocada: nas suas tendências nacionalistas, burocráticas e capitalistas de Estado, ela se desenvolveu e consolidou.

A partir desse ponto, e com essa base, com mais clareza a cada ano, a amoralidade bolchevique, tantas vezes evocada, conheceu o desenvolvimento que conduziu aos julgamentos de Moscou. A lógica implacável das coisas se manifestou. Enquanto os revolucionários, que o eram só nominalmente, consumaram na prática as tarefas da reação e da contrarrevolução, eles se viram compelidos inevitavelmente a fazer uso de mentiras, calúnias e falsificações. Esse sistema de mentira generalizada foi o resultado, e não a causa, da separação entre o partido bolchevique e o socialismo, entre o partido e o proletariado. Para corroborar esta afirmação, cito o testemunho dos participantes de Kronstadt que encontrei na Rússia soviética.

“Os homens de Kronstadt? Eles estavam absolutamente certos; intervieram para defender os operários de Petrogrado; foi um trágico erro de compreensão por parte de Lênin e de Trotsky entrar em guerra com eles, em vez de apoiá-los”, dizia-me Dch. em 1932. Ele era um operário sem filiação partidária de Petrogrado em 1921, a quem conheci confinado politicamente, como trotskista, em Verkhne-Uralsk.

“É um mito dizer que, do ponto de vista da origem social, Kronstadt em 1921 tinha uma população totalmente diferente daquela de 1917”, disse-me Dv., outro homem de Petrogrado, na prisão. Em 1921 ele era um membro da juventude comunista e foi preso em 1932 como “decista” (membro do grupo dos “centralistas democráticos” de Sapronov).

Tive também a oportunidade de conhecer um dos mais efetivos participantes da rebelião de Kronstadt. Tratava-se de um velho engenheiro naval, comunista desde 1917, que durante a guerra civil tivera papel ativo, dirigindo por um período a Tcheka numa província em alguma parte do Volga, e que se encontrava em 1921 em Kronstadt como comissário político no navio de guerra Marat (antes Petropavlovsk). Quando o encontrei, em 1930, na prisão de Leningrado, ele acabara de passar oito anos nas ilhas Solovietski.

Os métodos de luta

Os trabalhadores de Kronstadt buscavam alcançar objetivos revolucionários contra as tendências reacionárias da burocracia e fizeram uso de métodos limpos e honestos. Em contraste, a burocracia esmagou seu movimento de forma odiosa, fingindo que eles estavam sob a liderança do general Koslovsky. Na verdade, os homens de Kronstadt desejavam honestamente, como camaradas, discutir sua pauta com representantes do governo. Seguiram uma linha de ação que tinha, inicialmente, um caráter defensivo — eis a razão de naquele momento não terem ocupado Oranienbaum, que se situava na costa em frente a Kronstadt.

Desde o início, os burocratas de Petrogrado fizeram uso do sistema de reféns, prendendo os familiares dos marinheiros, dos soldados do Exército Vermelho e dos operários de Kronstadt que viviam em Petrogrado. Isso aconteceu porque muitos comissários — nenhum dos quais foi fuzilado — tinham sido presos pelos revoltosos em Kronstadt. A notícia da detenção de reféns foi levada ao conhecimento de Kronstadt por meio de folhetos lançados de aviões. Em sua resposta pelo rádio, Kronstadt declarou em 7 de março que os revoltosos “não imitavam nem pretendiam imitar Petrogrado, na medida em que consideravam que tal ato, mesmo se levado a efeito num excesso de desespero e de ódio, é sob todos os pontos de vista vergonhoso e covarde ao extremo. A História não conheceu até hoje procedimento semelhante”. A nova clique governamental percebeu bem melhor que os “rebeldes” de Kronstadt o significado da luta social que se iniciava, e a profundidade do antagonismo de classe que a separava dos trabalhadores. É nisso que reside a tragédia das revoluções em seu período de declínio.

Mas enquanto forçavam Kronstadt ao conflito armado, eles ainda encontraram força para formular o programa da “terceira revolução”, que continua sendo até agora o programa do socialismo russo do futuro.

Balanço final

Há razões para crer que, dada a relação de forças entre proletariado e burguesia, entre socialismo e capitalismo, existente na Rússia e na Europa em 1921, a luta pelo desenvolvimento socialista da revolução russa estava destinada à derrota. Naquelas condições o programa socialista das massas não poderia triunfar: só se podia esperar a vitória da contrarrevolução, seja se explicitada abertamente, seja camuflada sob uma aparência de degeneração (como de fato ocorreu).

Mas tal entendimento do percurso da Revolução Russa não diminui de modo nenhum, no campo dos princípios, a importância histórica do programa e dos esforços das massas operárias. Ao contrário, tal programa constitui o ponto de partida para o início de um novo ciclo no desenvolvimento socialista operário. Na verdade, cada nova revolução começa, não da base a partir da qual a anterior surgiu, mas a partir do ponto em que a revolução precedente sofreu um retrocesso moral.

A experiência da degeneração da Revolução Russa coloca novamente diante da consciência do socialismo internacional um problema sociológico extremamente importante. Na revolução russa, como em outras duas outras grandes revoluções, as da Inglaterra e da França, cabe perguntar por que é de seu próprio interior que a contrarrevolução triunfou, no momento em que as forças revolucionárias se exauriram, e graças ao próprio partido revolucionário (“expurgado”, é verdade, de seus elementos da ala esquerda). O marxismo acredita que a revolução socialista, uma vez iniciada, teria garantido seu gradual e contínuo desenvolvimento até um socialismo integral — ou, então, seria derrotada pelos atos de uma restauração burguesa.

De súbito, a Revolução Russa apresenta de modo inteiramente novo o problema do mecanismo da revolução social. Essa questão deve ser o parâmetro básico da discussão internacional. Nessa discussão o problema de Kronstadt pode e deve ter a importância que merece.

Nota

Publicado originalmente em La Révolution Prolétarienne, nº 278, 10 de setembro de 1938.

*****

Publicadono 3º número do volume 4 da Revista Rosa em 20/12/2021.

Revista Rosa, S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.com, issn 2764-1333.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Trotsky reclama demais, por Emma Goldman

 

Trotsky reclama demais [1]

(julho de 1938)

por Emma Goldman

Traduçãode Marcelo Coelho – Revista Rosa

Nota do editor

Este panfleto foi escrito a partir de um artigo para Vanguard, revista mensal anarquista publicada em Nova York. O artigo apareceu na edição de julho de 1938, mas como o espaço da revista é limitado, utilizou-se apenas parte do manuscrito. Aqui ele é apresentado numa versão revista e aumentada.

Tenho diante de mim dois números, o de fevereiro e o de abril de 1938, da New International, revista oficial de Trotsky. Trazem artigos de John G. Wright, trotskista dos quatro costados, e do próprio mandachuva, pretendendo refutar as acusações feitas contra ele a respeito de Kronstadt. O sr. Wright está apenas ecoando a voz do dono, e seu conteúdo não tem nada de primeira mão, de um contato pessoal com os acontecimentos de 1921. Prefiro prestar meus respeitos a Leon Trotsky. Ele tem ao menos o duvidoso mérito de ter sido partícipe da “liquidação” de Kronstadt.

Existem, contudo, diversas distorções grosseiras no artigo de Wright, fazendo-o merecedor de uma bordoada também. Faço isso de imediato, portanto, e lido com o chefe dele depois.

John G. Wright afirma que The Kronstadt Rebellion, de Alexander Berkman, “é apenas a repetição dos supostos fatos e das interpretações dos social-revolucionários de direita, com algumas poucas e insignificantes alterações” — (“colhidas de ‘A Verdade Sobre a Rússia’ em Volia Rossii, Praga, 1921”).

Mais adiante, Wright acusa Alexander Berkman de “irresponsabilidade, plagiarismo, e [de] fazer, como é seu costume, umas poucas alterações insignificantes, escondendo a fonte verdadeira daquilo que surge como sua avaliação própria”. A vida e a obra de Alexander Berkman colocaram-no entre os grandes pensadores e combatentes revolucionários, completamente entregues ao seu ideal. Os que o conheceram irão testemunhar a qualidade inatacável de todas as suas ações, assim como sua integridade como escritor sério. Irão certamente achar graça ao serem informados pelo sr. Wright que Alexander Berkman era “plagiário” e “irresponsável”, e que seu costume é “fazer umas poucas alterações insignificantes…”.

O comunista típico, seja da estirpe de Stalin, seja da de Trotsky, conhece tanto da literatura anarquista e de seus autores quanto, digamos, o católico típico sabe alguma coisa de Voltaire ou de Thomas Paine. A simples sugestão de que se deveria conhecer as posições de seus oponentes antes de insultá-los há de ser considerada herética pela hierarquia comunista. Não acho, portanto, que John G. Wright esteja deliberadamente mentindo a respeito de Alexander Berkman. Acho mais que ele é de uma espessa ignorância.

Alexander Berkman escreveu um diário durante toda a vida. Mesmo durante os catorze anos de purgatório por que passou na penitenciária de Pittsburgh, nos Estados Unidos, Alexander Berkman conseguiu manter seu diário, que enviava secretamente para mim. No S.S. Buford, que nos transportou em nossa perigosa viagem de 28 dias, meu camarada continuou a escrever o diário e manteve seu velho hábito nos 23 meses de nossa estadia na Rússia.

Memórias de prisão de um anarquista, que críticos conservadores admitem ser comparável até mesmo à Casa dos mortos, de Dostoiévski, é uma adaptação de seu diário. A rebelião de Kronstadt e O mito bolchevique são também resultados de seu registro diário do que via na Rússia. É estupidez, portanto, atacar a brochura de Berkman como “meramente a repetição dos supostos fatos” colhidos no trabalho dos SR que foi publicado em Praga.

No mesmo nível de exatidão desse ataque está a acusação de Wright de que meu velho companheiro tinha negado a presença do general Koslovsky em Kronstadt.

A rebelião de Kronstadt, na página 15, afirma: “existia de fato um ex-general Koslovsky em Kronstadt. Fora Trotsky quem o pusera lá, na condição de especialista em artilharia. Não teve absolutamente nenhum papel nos eventos de Kronstadt.” Isso foi divulgado por ninguém menos do que Alexander Zinoviev, que ainda estava no auge de sua glória. Na sessão extraordinária do soviete de Petrogrado do dia 4 de março de 1921, convocada para decidir a sorte de Kronstadt, Zinoviev disse: “claro que Koslovsky está velho e não pode fazer nada, mas os oficiais brancos estão por trás dele e estão desencaminhando os marinheiros”. Alexander Berkman, contudo, ressaltou o fato de os marinheiros não queriam saber do general queridinho de Trotsky, e que tampouco iriam aceitar a oferta de mantimentos e de ajuda feita por Victor Tchernov, líder dos social-revolucionários de direita em Paris.

Sem dúvida, os trotskistas consideram uma sentimentalidade burguesa permitir que os marinheiros acusados tenham o direito de falar por si mesmos. Insisto que tratar assim um adversário é um jesuitismo detestável, que fez mais para desintegrar todo o movimento operário do qualquer outra das “sagradas” táticas do bolchevismo.

Para que o leitor possa decidir entre a acusação criminosa feita a Kronstadt e aquilo que os marinheiros tinham a dizer em sua defesa, reproduzo aqui a mensagem radiofônica aos operários de todo o mundo, de 6 de março de 1921:

Nossa causa é justa: defendemos o poder dos sovietes, não deste ou daquele partido. Defendemos os representantes livremente eleitos das massas trabalhadoras. Os sovietes substitutos, manipulados pelo Partido Comunista, sempre foram surdos a nossas necessidades e reivindicações; a única resposta que recebemos tem sido a bala… Camaradas! Eles não estão apenas enganando vocês: estão deliberadamente pervertendo a verdade e recorrem às difamações mais desprezíveis… Em Kronstadt todo o poder está exclusivamente nas mãos dos marinheiros, soldados e operários revolucionários — não de contrarrevolucionários liderados por algum Koslovsky, como a mentirosa rádio de Moscou tenta fazer acreditar… Não demorem, camaradas! Juntem-se a nós, entrem em contato conosco; peçam a seus delegados o direito de entrar em Kronstadt. Somente aí vocês saberão de toda a verdade e das calúnias a respeito de pão trazido da Finlândia e de ofertas da Entente.

Longa vida ao proletariado revolucionário e ao campesinato!

Longa vida ao poder de sovietes livremente eleitos!

Eis os marinheiros “liderados” por Koslovsky, apelando, contudo, aos operários de todo o mundo para enviar delegados que pudessem verificar se havia alguma verdade na pestilenta calúnia espalhada contra eles pela imprensa soviética!

Leon Trotsky se mostra surpreso e indignado quando alguém tem a audácia de começar uma “gritaria” sobre Kronstadt. Afinal, tudo aconteceu há tanto tempo, na verdade se passaram dezessete anos e aquilo foi apenas um “episódio na história das relações entre a cidade proletária e a aldeia pequeno-burguesa”. Por que alguém haveria de fazer esse escarcéu tardio, a não ser que fosse para “comprometer a única corrente genuinamente revolucionária, que nunca repudiou suas bandeiras, nunca fez concessões a seus adversários e que é a única a representar o futuro”? A egolatria de Trotsky, amplamente conhecida por seus amigos e por seus adversários, nunca foi pequena. Depois que seu inimigo mortal não lhe deixou entre as mãos mais do que uma varinha mágica, seu convencimento atingiu proporções alarmantes.

Leon Trotsky fica ultrajado com o fato de que alguém reviva o “episódio” de Kronstadt e questione o papel que ele teve ali. Não lhe passa pela cabeça que aqueles que vieram em sua defesa, contra seu detrator, têm o direito de perguntar quais os métodos de que ele se valia quando estava no poder e como é que ele lidava com aqueles que não subscreviam seus mandatos como se fossem verdades do Evangelho. Seria ridículo, é claro, esperar que ele batesse no peito e dissesse “eu também fui apenas humano e cometi equívocos. Eu também pequei, matei meus irmãos e mandei que fossem mortos.” Somente os profetas sublimes e os visionários chegaram a tais altitudes de coragem. Leon Trotsky não é certamente um deles. Ao contrário, ele continua a proclamar sua onipotência em todos seus atos e julgamentos, dirigindo anátemas sobre as cabeças de quem levianamente sugere que o grande Leon Trotsky também tem pés de barro.

Ele menospreza as evidências documentais deixadas pelos marinheiros de Kronstadt e por aqueles que viram com seus próprios olhos o terrível sítio de Kronstadt. Para ele, trata-se de “falsos rótulos”. Isto não o dissuade, porém, de assegurar a seus leitores que sua explicação da revolta de Kronstadt poderia ser “comprovada e ilustrada por muitos fatos e documentos”. Pessoas inteligentes poderiam bem perguntar por que Leon Trotsky não tem a decência de apresentar os seus “falsos rótulos” para que possam formar uma opinião correta a partir deles.

Ora, o fato é que mesmo tribunais capitalistas asseguram ao réu o direito de apresentar provas em sua defesa. Não Leon Trotsky, porta-voz da única verdade definitiva, que “nunca repudiou suas bandeiras e nunca fez concessões a seus adversários”.

Pode-se entender essa falta de decência básica em John G. Wright. Como eu já disse, ele está apenas citando a sagrada escritura bolchevique. Mas para uma figura de dimensões internacionais como Leon Trotsky, silenciar as provas a favor dos marinheiros me parece indicar um caráter muito diminuto. A velha imagem do leopardo que muda suas manchas, mas não sua natureza aplica-se perfeitamente a Leon Trotsky. O calvário pelo qual ele passou em seus anos de exílio, a trágica perda das suas pessoas próximas e queridas e, ainda mais pungente, a traição de seus camaradas de luta, nada lhe ensinaram. Sequer um relance de gentileza e suavidade humana passa por seu espírito rancoroso.

É triste que o silêncio dos mortos por vezes fale mais alto que a voz dos vivos. Na verdade, as vozes sufocadas em Kronstadt cresceram em volume durante esses dezessete anos. Será por esta razão, pergunto-me, que Leon Trotsky se ressente desse som?

Leon Trotsky cita a ideia de Marx, segundo a qual “é impossível julgar partidos ou pessoas a partir do que dizem a respeito de si mesmos”. É patético que ele não perceba o quanto isso se aplica a ele! Nenhuma pessoa, entre todos os habilidosos escritores bolcheviques, conseguiu se manter tanto no palco ou se gabar tão incansavelmente de seu papel durante e depois da Revolução Russa quanto Leon Trotsky. Pelos critérios do seu grande mestre, teríamos de considerar sem valor todos os escritos de Leon Trotsky, o que obviamente seria absurdo.

Ao desacreditar os motivos que conduziram à insurreição de Kronstadt, Leon Trotsky registra o seguinte:

Enviei dúzias de telegramas de diversas frentes, tratando da mobilização de novos destacamentos “confiáveis” dos operários de Petrogrado e dos marinheiros da frota do Báltico, mas já em 1918, e em todo caso no mais tardar em 1919, as frentes começaram a se queixar de que os novos contingentes de “kronstadtianos” deixavam a desejar: eram cheios de exigências, indisciplinados, inconfiáveis no campo de batalha; mais prejudicavam do que ajudavam.

Mais adiante, na mesma página, Trotsky faz uma acusação.

Quando as condições se tornaram muito críticas com a fome em Petrogrado, o burô político mais de uma vez discutiu a possibilidade de conseguir um “empréstimo interno” junto a Kronstadt, onde ainda havia uma quantidade de antigos mantimentos, mas os delegados dos operários de Petrogrado responderam: “vocês nunca conseguirão nada deles por gentileza: eles especulam com roupas, carvão e pão. No momento, todo tipo de escória levanta a cabeça em Kronstadt”.

Como é bolchevique essa tática de não só massacrar os oponentes, mas também de conspurcar o seu caráter. De Marx, Engels, Lênin e Trotsky a Stalin, esses métodos sempre foram os mesmos.

Pois bem, não pretendo indagar o que eram os marinheiros de Kronstadt em 1918 ou 1919. Só cheguei à Rússia em janeiro de 1920. Daquele momento em diante, até a “liquidação” de Kronstadt, os marinheiros da frota do Báltico eram enaltecidos como exemplo de valor e coragem indemovível. Sem descanso, o que não apenas anarquistas, mencheviques e social-revolucionários, mas também muitos comunistas me diziam era que os marinheiros eram a espinha dorsal da Revolução. Nas comemorações do Primeiro de Maio de 1920, e nas outras festividades organizadas para a primeira delegação trabalhista inglesa, os marinheiros de Kronstadt eram apresentados como um contingente grande e diferenciado, e identificados entre os grandes heróis que salvaram a Revolução do controle de Kerensky, e Petrogrado do de Yudenich. No aniversário de outubro os marinheiros estavam novamente nas primeiras fileiras, e a reencenação da tomada do Palácio de Inverno era aplaudida com fervor por uma massa compacta.

Será possível que todos os líderes do partido, exceto Leon Trotsky, ignoravam a corrupção e a desmoralização de Kronstadt que ele aponta? Não creio. Mais ainda, duvido que o próprio Trotsky tivesse essa visão a respeito dos marinheiros de Kronstadt antes de março de 1921. Sua narrativa deve ser, portanto, uma reavaliação — ou uma racionalização para justificar a “liquidação” sem sentido de Kronstadt.

Mesmo admitindo que a composição do pessoal da fortaleza tivesse mudado, o fato é que os kronstadtianos de 1921 estavam longe de corresponder à descrição feita por Leon Trotsky e seu papagaio. A verdade é que os marinheiros encontraram seu fim unicamente devido à sua profunda proximidade e solidariedade com os operários de Petrogrado, cuja capacidade para enfrentar o frio e a fome tinham chegado a um ponto de ruptura com a série de greves ocorridas em fevereiro de 1921. Por que Leon Trotsky e seus seguidores deixaram de mencionar isso? Se Wright não sabe, Leon Trotsky sabe perfeitamente que a primeira cena do drama de Kronstadt ocorreu em Petrogrado no dia 24 de fevereiro e que seus atores não foram os marinheiros, mas, sim, os grevistas. Pois foi nessa data em que os grevistas expressaram sua raiva acumulada contra a dura indiferença dos homens que tinham tagarelado a respeito da ditadura do proletariado, que há bastante tempo se corrompera numa impiedosa ditadura do partido comunista.

O diário de Alexander Berkman, nesse dia histórico, diz:

Os operários da fábrica Trubochny entraram em greve. Reclamam que, na distribuição de roupas para o inverno, os comunistas tiveram vantagens indevidas em comparação com os que não eram do partido. O governo se recusa a considerar essas queixas enquanto os homens não retornarem ao trabalho.

Multidões de grevistas se reuniram nas ruas perto da fábrica, e soldados foram mandados para dispersá-los. Eram os kursanti, jovens comunistas da academia militar. Não houve violência.

Agora os grevistas receberam a adesão de homens das oficinas do almirantado e das docas de Calernaya. Há muito ressentimento com a atitude arrogante do governo. Tentou-se organizar uma manifestação na rua, mas as tropas a suprimiram.

Foi depois do relatório de seu comitê a respeito da real situação entre os operários de Petrogrado que os marinheiros de Kronstadt fizeram em 1921 o que tinham feito em 1917. Adotaram imediatamente a causa dos operários. O papel dos marinheiros em 1917 foi saudado como o orgulho e a glória vermelha da Revolução. O mesmo papel em 1921 foi denunciado ao mundo inteiro como um ato de traição contrarrevolucionária. Naturalmente, em 1917 Kronstadt ajudou os bolcheviques a montarem no cavalo. Em 1921 eles exigiam satisfação pelas falsas esperanças criadas entre as massas, e a grande promessa foi quebrada quase que imediatamente assim que os bolcheviques se viram entrincheirados no poder. Um crime hediondo, não há dúvida. O momento mais importante desse crime, contudo, é que Kronstadt não se “amotinou” a partir do nada. Seus motivos estavam profundamente enraizados no sofrimento dos trabalhadores russos: do proletariado urbano assim como do campesinato.

Por certo, o ex-comissário nos garante que “os camponeses aceitaram as requisições como um mal temporário”, e que “os camponeses aprovavam os ‘bolcheviques’, mas se tornaram cada vez mais hostis aos ‘comunistas’”. Porém, essas afirmações são puramente fictícias, como inúmeras provas demonstram — não sendo a menor delas a liquidação do soviete dos camponeses, liderado por Maria Spiridonova, e a imposição a ferro e fogo da entrega de tudo o que fora produzido pelos camponeses, inclusive os grãos para o plantio da primavera.

Em termos de verdade histórica, os camponeses odiavam o regime quase que desde o começo e certamente a partir do momento em que o slogan de Lênin, “roubem quem rouba”, se transformou em “roubem os camponeses pela glória da ditadura bolchevique”. Eis a razão de eles estarem em constante ebulição contra a ditadura bolchevique. Um exemplo disso foi o levante dos camponeses da Karelia, afogada em sangue pelo general czarista Slastchev-Krimsky. Se os camponeses tinham tanto amor pelo regime soviético, como Leon Trotsky nos quer fazer acreditar, não teria sido necessário mandar correndo esse homem terrível à Karelia.

Ele tinha lutado contra a Revolução desde o comecinho e liderara algumas das forças de Wrangel na Crimeia. Era culpado de vilanias bárbaras contra os prisioneiros de guerra e era um notório organizador de pogroms. Agora Slastchev-Krimsky virara casaca e retornara à sua “Pátria Mãe”. Esse arquirreacionário e perseguidor de judeus, ao lado de vários generais czaristas e membros do exército branco, era recebido pelos bolcheviques com honras militares. Sem dúvida, era uma retribuição justa que o antissemita agora tivesse de bater continência para um judeu, Trotsky, seu superior militar. Mas para a Revolução e para o povo russo o retorno triunfal do imperialista era um ultraje.

Como recompensa para seu recém-descoberto amor à pátria socialista, Slastchev-Krimsky foi encarregado de esmagar os camponeses da Karelia, que exigiam autodeterminação e melhores condições de vida e trabalho.

Leon Trotsky nos conta que os marinheiros de Kronstadt em 1919 não teriam entregado mantimentos “por gentileza” — não que se tivesse tentado isso em algum momento. Na verdade, essa palavra não existe no jargão bolchevique. E, contudo, aí estão esses marinheiros desmoralizados, essa escória de especuladores etc., ao lado do proletariado urbano em 1921, e sua primeira exigência é a de rações iguais para todos. Que vilões esses kronstadtianos, com efeito!

Em seus ataques a Kronstadt, os dois autores tiram muito proveito do fato de que os marinheiros — os quais, como insisto, não premeditaram a rebelião, mas se reuniram no dia 1 de março para discutir a ajuda a seus camaradas de Petrogrado — rapidamente se organizaram num comitê revolucionário provisório. A resposta a essa iniciativa é exposta pelo próprio John G. Wright. Ele escreve:

não se exclui de modo nenhum a hipótese de que as autoridades locais se atrapalharam no manejo da situação… Não é segredo que Kalinin e o comissário Kuzmin não eram tidos em alta estima por Lênin e seus colegas… Na medida em que as autoridades locais ignoravam a real dimensão do perigo ou falharam em tomar medidas adequadas e efetivas para enfrentar a crise, a amplitude de seus erros teve um papel nos eventos que se seguiram…

A afirmação de que Lênin não tinha Kalinin ou Kuzmin em alta estima é, infelizmente, um velho truque do bolchevismo para pôr toda a culpa em algum incompetente de modo que os cabeças se mantenham puros como a neve.

Certamente, as autoridades locais em Kronstadt se “atrapalharam”. Kuzmin atacou vilmente os marinheiros e ameaçou-os com graves consequências. Os marinheiros evidentemente sabiam o que esperar de tais ameaças. Não podiam senão prever que, se Kuzmin e Vassiliev tivessem as mãos livres, seu primeiro passo seria confiscar as armas e mantimentos de Kronstadt. Foi por isso que os marinheiros formaram seu comitê revolucionário provisório. Outro fator foi a notícia de que uma delegação de trinta marinheiros enviada a Petrogrado para se encontrar com os operários fora impedida de voltar a Kronstadt, tendo seus membros presos e levados à Tcheka.

Os dois autores fazem uma tempestade em copo d’água a respeito dos rumores, divulgados na reunião de 1 de março, de que um caminhão com soldados fortemente armados estava a caminho de Kronstadt. Wright evidentemente nunca viveu sob uma ditadura ferrenha. Eu vivi. Quando todos os canais de contato humano estão bloqueados, quando todo pensamento é reprimido e toda expressão sufocada, os boatos crescem como cogumelos e adquirem dimensões terrificantes. Ademais, caminhões cheios de soldados e agentes da Tcheka, armados até os dentes, percorrendo as avenidas durante o dia, e lançando à noite suas redes para arrastar suas presas humanas até a Tcheka, eram uma visão frequente em Petrogrado e em Moscou no tempo que passei por lá. Na tensão do encontro depois da fala ameaçadora de Kuzmin, era perfeitamente natural que se desse crédito a tais rumores.

As notícias na imprensa de Paris sobre o levante de Kronstadt, duas semanas antes de ele acontecer, foram destacadas na campanha contra os marinheiros como prova positiva de que eles haviam sido instrumentalizados pela gangue imperialista e que a rebelião havia na realidade sido tramada em Paris. É totalmente óbvio que essa história foi usada apenas para desacreditar os kronstadtianos aos olhos dos trabalhadores.

Na realidade, essa notícia antecipada era semelhante a outras notícias de Paris, de Riga ou Helsingfors, e que raramente, ou nunca, coincidia com qualquer coisa que tivesse sido anunciada por agentes contrarrevolucionários no exterior. Por outro lado, ocorreram muitos acontecimentos na Rússia soviética que teriam alegrado a Entente, e dos quais nunca se veio a saber nada — acontecimentos muito mais desabonadores para a Revolução Russa e causados pelo próprio partido comunista. Por exemplo, a existência da Tcheka, que corroeu as bases de muitos avanços de outubro e que já em 1921 se tornara uma excrescência maligna no corpo da Revolução, e muitos outros acontecimentos cuja menção nos levaria muito além do assunto que tratamos aqui.

Não, as notícias antecipadas na imprensa de Paris não tinham relação nenhuma com o levante de Kronstadt. Na verdade, na Petrogrado de 1921 ninguém acreditava nessa conexão, nem mesmo boa parte dos comunistas. Como já disse, John G. Wright não passa de um competente pupilo de Leon Trotsky e não tem culpa quanto ao que a maioria das pessoas dentro e fora do partido pensavam sobre essa suposta “conexão”.

Historiadores do futuro irão sem dúvida examinar o “motim” de Kronstadt de acordo com seu real significado. Se e quando fizerem isso, sem dúvida chegarão à conclusão de que o levante não poderia ter surgido em momento mais oportuno se tivesse sido planejado de propósito.

O fato mais importante a decidir o destino de Kronstadt foi a nep (Nova Política Econômica). Consciente que haveria uma considerável oposição dentro do partido a seu recém-arquitetado esquema “revolucionário”, Lênin precisava de alguma ameaça iminente para garantir uma aceitação suave e rápida da nep. A eclosão de Kronstadt foi de máxima conveniência. Toda a esmagadora máquina de propaganda foi imediatamente posta para funcionar, de modo a provar que os marinheiros estavam aliados a todas as potências imperialistas e a todos os elementos contrarrevolucionários para destruir o Estado comunista. Isso funcionou como mágica. A nep foi implementada sem nenhum percalço.

Só o tempo dirá qual o custo assustador dessa manobra. Os trezentos delegados, a fina flor da juventude comunista, que saíram correndo do congresso do partido para esmagar Kronstadt, foram apenas um punhado entre os milhares vitimados por capricho. Acreditavam com fervor na campanha de descrédito. Os que sobreviveram tiveram um duro despertar.

Registrei um encontro que tive com um comunista ferido num hospital, no livro Minha desilusão. Passados todos esses anos, aquelas palavras continuam pungentes:

Muitos dos feridos no ataque a Kronstadt, kursanti [cadetes] na maioria, foram levados ao mesmo hospital. Tive ocasião de falar com um deles. Seu sofrimento físico, dizia ele, não era nada em comparação com sua agonia psicológica. Percebera tarde demais que tinha sido enganado pelos gritos de “contrarrevolução”. Nenhum general czarista, nenhum membro do exército branco tinha liderado os marinheiros — lá, ele só encontrara seus próprios camaradas, marinheiros, soldados e operários, que tinham lutado heroicamente pela revolução.

Ninguém em plena consciência haverá de encontrar qualquer semelhança entre a nep e as reivindicações dos marinheiros de Kronstadt em prol do direito de um livre intercâmbio de produtos. A nep veio reintroduzir os graves malefícios que a Revolução Russa tentara erradicar. A livre troca de produtos entre operários e camponeses, entre a cidade e o campo, representava a verdadeira raison d’être da revolução. Naturalmente “os anarquistas estavam contra a nep”. Mas a livre troca, como Zinoviev me afirmara em 1920, “não pertence a nosso plano de centralização”. O pobre Zinoviev não poderia imaginar em que ogro monstruoso a centralização do poder iria se transformar.

Foi a idée fixe da centralização da ditadura que logo começou a dividir o campo e a cidade, os operários e os camponeses. Não, como quer Leon Trotsky, porque “um é proletário… e o outro é pequeno-burguês”, mas sim porque a ditadura paralisou a iniciativa tanto do proletariado urbano quanto do campesinato.

Leon Trotsky quer fazer crer que os operários de Petrogrado rapidamente perceberam “o caráter pequeno-burguês do levante de Kronstadt e assim recusaram-se a ter qualquer coisa em comum com ele”. Ele omite a razão mais importante para a aparente indiferença dos operários de Petrogrado. É importante, assim, ressaltar que a campanha de difamação, de mentira e de calúnia contra os marinheiros começou em 2 de março de 1921. A imprensa soviética destilou veneno alegremente contra os marinheiros. As acusações mais desprezíveis foram bradadas contra eles, e isso se manteve até a liquidação de Kronstadt em 17 de março. Além disso, Petrogrado foi posta sob lei marcial. Muitas fábricas foram fechadas, e os operários, roubados assim de seu sustento, começaram a se reunir. No diário de Alexander Berkman, encontro o seguinte:

Muitas prisões acontecendo. É comum ver grupos de grevistas sendo levados à prisão por guardas da Tcheka. Há muita tensão nervosa na cidade. Precauções detalhadas se tomaram para proteger as instituições do governo. Metralhadoras foram postas no Astoria, nas residências de Zinoviev e de outros bolcheviques importantes. Anúncios oficiais ordenam a volta imediata dos grevistas às fábricas — e advertem contra ajuntamentos de povo nas ruas.

O comitê de defesa começou uma “limpeza da cidade”. Muitos operários suspeitos de simpatizar com Kronstadt foram detidos. Todos os marinheiros de Petrogrado e parte da guarnição que se considera “inconfiável” foram enviados a pontos distantes, enquanto os familiares dos marinheiros de Kronstadt que vivem em Petrogrado foram tomados como reféns. O comitê de defesa notificou Kronstadt que “os prisioneiros foram mantidos ‘como garantidores’ da segurança do comissário da frota do Báltico, N. Kuzmin, do secretário geral do soviete de Kronstadt, T. Vassiliev, e de outros comunistas. Se tocarem minimamente em nossos camaradas, os reféns pagarão com suas vidas.”

Sob essas férreas disposições, era fisicamente impossível para os operários de Petrogrado uma aliança com Kronstadt, especialmente porque nem uma só palavra dos manifestos lançados pelos marinheiros em seu jornal podia chegar aos operários em Petrogrado. Em outras palavras, Leon Trotsky deliberadamente falsifica os fatos. Os operários certamente teriam ficado do lado dos marinheiros, pois sabiam que eles não eram baderneiros ou contrarrevolucionários. Tinham, isto sim, tomado posição em favor dos operários, assim como seus camaradas tinham feito desde 1905, e em março e outubro de 1917. Trata-se, portanto, de uma calúnia grotescamente criminosa contra a memória dos marinheiros de Kronstadt.

Na New International, página 106, segunda coluna, Trotsky garante a seus leitores que ninguém, “seja dito de passagem, se importava com os anarquistas naqueles dias”. Infelizmente, isso não condiz com a incessante perseguição aos anarquistas iniciada em 1918, quando Leon Trotsky liquidou o quartel-general anarquista de Moscou com metralhadoras. Foi então que começou o processo de eliminação dos anarquistas. Ainda hoje, tantos anos depois, os campos de concentração soviéticos estão repletos de sobreviventes anarquistas. Na verdade, antes do levante de Kronstadt, em outubro de 1920 para ser mais exato — quando Leon Trotsky mais uma vez mudara de ideia sobre Makhno, porque precisava dele para liquidar Wrangel, e quando ele autorizou a conferência anarquista em Kharkov —, muitas centenas de anarquistas sofreram um arrastão e foram despachados para o presídio de Boutirka, onde ficaram detidos sem nenhuma acusação até abril de 1921, momento em que, ao lado de outros políticos de esquerda, foram removidos a força na calada da noite e enviados a várias prisões e campos de concentração na Rússia e na Sibéria. Mas esta é uma página separada na história soviética. O que vem ao caso aqui é que muita gente se importava com os anarquistas, pois sem isso não havia razão para prendê-los e mandá-los, no velho estilo czarista, para regiões distantes da Rússia e da Sibéria.

Leon Trotsky ridiculariza as reivindicações dos marinheiros em favor de sovietes livres. Era ingênuo da parte deles, com efeito, pensar que sovietes livres podem coexistir com uma ditadura. Na verdade, os sovietes livres tinham deixado de existir numa fase anterior do jogo comunista, assim como os sindicatos e as cooperativas. Todos foram atropelados pelas rodas da máquina de Estado bolchevique. Lembro-me bem de Lênin me dizer, com grande satisfação: “o grande e velho líder de vocês, Enrico Malatesta, é a favor dos nossos sovietes”. Apressei-me em dizer: “você quer dizer sovietes livres, camarada Lênin. Eu também sou a favor deles.” Lênin conduziu a conversa para outro assunto. Mas logo descobri que os sovietes livres tinham cessado de existir na Rússia.

John G. Wright pretende que não havia nenhum distúrbio em Petrogrado antes de 22 de fevereiro. Isso se coaduna com sua outra reciclagem do material “histórico” do partido. A inquietação e o descontentamento dos operários já eram bastante nítidos quando chegamos. Em cada indústria que visitei, encontrei extrema insatisfação e ressentimento com o fato de que a ditadura do proletariado havia se transformado numa devastadora ditadura do partido comunista, com suas rações diferentes e suas discriminações. Se o descontentamento dos operários não chegou a uma ruptura antes de 1921, isso foi apenas porque eles ainda se agarravam tenazmente à esperança de que quando as frentes de guerra fossem liquidadas a promessa da revolução seria cumprida. Foi Kronstadt que perfurou a última bolha de sabão.

Os marinheiros tinham ousado se aliar aos operários descontentes. Tinham ousado exigir que a promessa da revolução — todo poder aos sovietes — fosse cumprida. A ditadura política assassinara a ditadura do proletariado. Isto, e somente isto, tinha sido ofensa imperdoável contra o sacrossanto espírito do bolchevismo.

No artigo de Wright, há uma nota de rodapé na página 49, segunda coluna, na qual ele afirma que Victor Serge, num recente comentário sobre Kronstadt, “admite que os bolcheviques, uma vez confrontados com o motim, não tinham outra saída a não ser esmagá-lo”. Victor Serge está agora longe das acolhedoras fronteiras da “pátria dos trabalhadores”. Não considero, portanto, uma indiscrição se eu disser que, se Victor Serge fez a declaração que Wright lhe imputa, isso simplesmente não é verdade. Victor Serge era um dos que, na seção comunista francesa, estava tão chocado e horrorizado quanto Alexander Berkman, eu mesma e muitos outros revolucionários diante da iminente carnificina determinada por Leon Trotsky para “atirar nos marinheiros como se atira em faisões”. Ele costumava passar todas as suas horas livres em nosso quarto andando de um lado para outro, arrancando os cabelos, cerrando os punhos com indignação, e repetindo que “algo precisa ser feito, algo precisa ser feito para impedir esse massacre terrível”. Quando lhe perguntaram por que ele, como um membro do partido, não levantou sua voz na reunião sobre o assunto, sua resposta foi que isso não ajudaria os marinheiros e haveria de marcá-lo junto à Tcheka e selar até mesmo seu desaparecimento sigiloso. A única desculpa para Victor Serge é que naquele momento ele tinha uma mulher e um bebê pequeno. Mas ele afirmar agora, depois de dezessete anos, que “os bolcheviques, uma vez confrontados com o motim, não tinham outro recurso a não ser esmagá-lo” é, para dizer o mínimo, indesculpável. Victor Serge sabe tão bem quanto eu que não havia motim em Kronstadt, que os marinheiros na verdade não usaram armas de nenhum tipo ou formato até ter começado o bombardeio de Kronstadt. Ele também sabe que os marinheiros não tocaram nem nos comissários comunistas detidos, nem em quaisquer outros comunistas. Conclamo Victor Serge, portanto, a vir falar a verdade. Que ele tenha conseguido continuar na Rússia sob o regime fraternal de Lênin, Trotsky e de todos os infelizes que foram recentemente assassinados, ciente de todos os horrores que se passam por lá, é problema dele, mas não posso silenciar diante da acusação de que ele considera os bolcheviques justificados ao esmagar os marinheiros.

Leon Trotsky faz sarcasmo diante da acusação de que ele fuzilou 1.500 marinheiros. Não, ele não fez o trabalho sujo ele mesmo. Encarregou Tuchachevsky, seu lugar-tenente, de “atirar nos marinheiros como se atira em faisões”, conforme a ameaça que fizera. Os números de mortos subiram às centenas, e os que resistiram depois do incessante ataque da artilharia bolchevique foram entregues aos cuidados de Dibenko, famoso por sua humanidade e seu senso de justiça.

Tuchachevsky e Dibenko, os heróis e salvadores da ditadura! A história parece ter seus próprios caminhos de escarnecer a justiça.

Leon Trotsky lança seu trunfo, quando pergunta: “onde e quando seus grandes princípios se confirmaram, na prática, mesmo de forma parcial, mesmo como uma tendência?”. Essa cartada, como outras que ele já jogou em sua vida, não lhe servirá para ganhar o jogo. Na verdade, os princípios anarquistas foram confirmados, na prática e como tendência, na Espanha. Concordo que apenas parcialmente. Como poderia ser diferente, com todas as forças conspirando contra a revolução espanhola? O trabalho construtivo levado a cabo pela Confederação Nacional do Trabalho (CNT) é algo jamais imaginado pelos bolcheviques em todos os seus anos de poder, e, contudo, a coletivização das indústrias e das terras se destacam como a maior realização de qualquer período revolucionário. Mais ainda, mesmo se Franco vier a ganhar, e se os anarquistas espanhóis forem exterminados, a obra que eles iniciaram continuará a viver. Os princípios e tendências anarquistas estão enraizados de tal modo no solo espanhol que não serão arrancados jamais.

Leon Trotsky, John G. Wright e os anarquistas espanhóis

Durante os quatro anos de guerra civil na Rússia, os anarquistas defenderam os bolcheviques como um só homem, ainda que a cada dia se tornassem mais conscientes do iminente colapso da revolução. Sentiram-se no dever de se manterem em silêncio e de evitar tudo o que pudesse representar ajuda e consolo aos inimigos da revolução.

Certamente, a Revolução Russa lutou em muitas frentes, contra muitos inimigos, mas enfrentou desafios tão extremos quanto os que se antepuseram ao povo espanhol, aos anarquistas e à revolução. A ameaça de Franco, auxiliado pelos homens e armas da Alemanha e da Itália, pelas bênçãos de Stálin, pela conspiração dos poderes imperialistas, pela traição das chamadas democracias e, não em menor escala, pela apatia do proletariado internacional, ultrapassam em muito os perigos que rodeavam a revolução russa. O que faz Trotsky diante de tragédia tão terrível? Adere à turba enfurecida e assesta seu punhal envenenado nas entranhas dos anarquistas espanhóis na hora mais crucial. Não há dúvida de que os anarquistas espanhóis cometeram um grave erro. Esqueceram-se de convidar Leon Trotsky para tomar conta da revolução espanhola e para mostrar-lhes o sucesso que ele obteve na Rússia, de modo a repeti-lo nas terras da Espanha. Essa parece ser a sua grande mágoa.

Nota

Publicado originalmente pela Federação Anarquista de Glasgow, 1938.

*****

Publicadono 3º número do volume 4 da Revista Rosa em 20/12/2021.

Revista Rosa, S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.com, issn 2764-1333.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Kronstadt, outra vez! por Dwight MacDonald

 

Kronstadt, mais uma vez [1]

(julho de 1938)

por Dwight MacDonald

Tradução de Marcelo Coelho – Revista Rosa

O artigo de Trotsky na edição de abril da New International foi, para mim, motivo de desapontamento e embaraço. Desapontamento, porque eu esperava uma explicação franca e razoavelmente objetiva do caso Kronstadt. Embaraço, porque admiro Trotsky e aceito muitas de suas teorias. Um artigo como aquele — essencialmente uma peça de autodefesa casuística, apesar de brilhante — torna mais difícil defender Trotsky da frequente acusação de que seu pensamento é sectário e inflexível.

Para os que, como eu, acreditam que a revolução proletária é o único caminho para o socialismo, a questão que se coloca hoje é: podemos evitar o tipo de degeneração que se deu na Rússia? Especificamente, em que medida a teoria bolchevique carrega a responsabilidade pela ascensão do stalinismo? Em A Revolução traída, Trotsky demonstra que o stalinismo é fundamentalmente um reflexo do baixo nível de produtividade e de desenvolvimento econômico da Rússia. Mas, mesmo se aceitarmos essa análise, como é o meu caso, uma importante causa auxiliar pode ser identificada em algumas debilidades da teoria política bolchevique. Não será dever dos marxistas hoje em dia procurar sem descanso essas debilidades, para reconsiderar toda a linha bolchevique com distanciamento científico? Minha impressão é de que Trotsky mostrou pouco interesse por essa reconsideração básica. Ele parece mais interessado em defender o leninismo do que em aprender com seus equívocos.

O artigo sobre Kronstadt é um bom exemplo do que quero dizer. É apaixonado, eloquente, e não convence. Trotsky pode estar certo em todas as suas afirmações. Mas ele aborda o assunto de uma maneira que impossibilita o observador distanciado de formar uma opinião inteligente. Não tenho nem o tempo nem o conhecimento — e a New International não tem o espaço — para discutir a questão de Kronstadt aqui. Mas eu gostaria de indicar algumas apreensões quanto ao tom do artigo. Em geral, parece-me que Trotsky adota uma posição polêmica numa questão que deveria ser considerada desapaixonadamente, com algum respeito pelo lado contrário. O próprio título é desdenhoso: “A gritaria em torno de Kronstadt”. A oposição é caracterizada com uma fraseologia de promotor numa corte criminal — “essa variegada fraternidade”, “essa campanha de verdadeiro charlatanismo”. Para justificar esse tom abusivo, Trotsky precisaria trazer à tona provas muito mais fortes para desmontar as afirmações de Serge, Thomas, Berkman e Souvarine do que ele (ou Wright) dispõem no momento.

Trotsky começa seu artigo com um amálgama digno de Vishinsky: “participam da campanha… anarquistas, mencheviques russos, social-democratas de esquerda… trapalhões individuais, o jornal de Miliukov, e, por vezes, a grande imprensa capitalista. Uma ‘frente popular’ sui generis!” (A única categoria que se aplica a mim é a de ‘trapalhão individual’. Trotsky parece incapaz de imaginar qualquer pessoa criticando Kronstadt, a não ser que esteja a serviço de algum interesse escuso ou seja um iludido, enquanto os stalinistas caracterizam todos os críticos dos processos de Moscou como trotskistas, fascistas, assassinos, e — meu rótulo pessoal — fantoches de Trotsky). Não consigo ver tanta diferença quanto gostaria entre, de um lado, a insistência de Trotsky na tese de que, uma vez que os inimigos da Revolução usaram Kronstadt para desacreditar o bolchevismo, então todos os que expressam dúvidas sobre Kronstadt são (considerados ‘objetivamente’) aliados da contrarrevolução, e, de outro, a insistência de Vishinsky na tese de que a Quarta Internacional e a Gestapo são camaradas em armas porque ambas se opõem ao regime stalinista. Essa exclusão dos motivos individuais como irrelevantes, essa recusa a considerar objetivos, programas, teorias, qualquer coisa exceto o fato objetivo de estar em oposição — essa forma de pensar me parece perigosa e irrealista. Insisto que tenho dúvidas sobre Kronstadt sem ser um canalha ou um estúpido.

Tendo criado esse amálgama, Trotsky define seu menor denominador comum — e é dos menores, com efeito. “Como é que o levante de Kronstadt pode causar tanto desconforto em anarquistas, mencheviques, e contrarrevolucionários ‘liberais’ ao mesmo tempo?”, ele pergunta. “A resposta é simples: todos esses grupos estão interessados em comprometer a única corrente genuinamente revolucionária, que nunca repudiou suas bandeiras…”. A resposta é algo simples demais — outro aspecto que me incomoda, aliás, nas respostas de Trotsky. Até onde eu próprio saiba, não estou interessado em “comprometer” o bolchevismo; ao contrário, gostaria de poder aceitá-lo cem por cento. Mas, infelizmente, tenho algumas dúvidas, objeções, críticas. Será que é impossível expressá-las sem ser acusado de contrarrevolucionário e incluído na salada de anarquistas, mencheviques e jornalistas capitalistas?

A maior parte do artigo de Trotsky tenta mostrar que a base social do levante de Kronstadt era pequeno-burguesa. Ele aponta um fato importante: os marinheiros de Kronstadt, em 1921, eram um grupo bem diferente daqueles heróis revolucionários de 1917. Mas o resto de sua longa argumentação se resume a identificar todos os elementos que se opunham aos bolcheviques como sendo “pequeno-burgueses”. Ele apresenta poucas provas para justificar essa rotulação, além do fato de que eram todos antibolcheviques. Seu raciocínio parece ser o seguinte: somente a política bolchevique podia salvar a Revolução; os grupos de Makhno, os verdes, os social-revolucionários, os kronstadtianos etc., eram contra os bolcheviques; portanto, eram objetivamente contrarrevolucionários; portanto, estavam objetivamente trabalhando para a burguesia. O raciocínio dá por resolvida a própria questão que queria resolver. Mas ainda que aceitássemos seu postulado inicial, estaríamos diante de um processo perigoso do ponto de vista político. Ele racionaliza uma desagradável necessidade administrativa — a supressão de opositores políticos que também estão agindo em favor do que consideram os melhores interesses das massas — transformando-a numa luta entre o Bem e o Mal. Uma medida de governo se torna uma cruzada política, simplesmente recusando-se a distinguir entre categorias objetivas e subjetivas — como se um assaltante de banco devesse ser acusado de querer derrubar o capitalismo! Stalin aprendeu o truque até bem demais.

Trotsky tem pouco a dizer sobre o modo com que os bolcheviques lidaram com o caso de Kronstadt em si mesmo. Não apresenta nenhuma defesa para as execuções em massa, que, de acordo com Victor Serge, ocorreram meses depois de os rebeldes terem sido esmagados. Com efeito, não menciona absolutamente esse aspecto. Tampouco ele dá muita atenção ao problema crucial: com que seriedade os bolcheviques tentaram um acordo pacífico antes de colocarem as armas em campo? Ele desconsidera esse ponto: “Ou será que teria sido suficiente apenas informar os marinheiros de Kronstadt a respeito dos decretos da nep, achando que isso iria apaziguá-los? Ilusão! Os insurgentes não tinham um programa consciente, e não podiam tê-lo, dada a própria natureza da pequena burguesia.”

Aqui Trotsky admite, implicitamente, o que afirma Souvarine: Lênin estava dando os últimos retoques na nep durante o décimo congresso do partido, que foi interrompido para permitir aos delegados que tomassem parte no ataque a Kronstadt. A decisão tomada por Lênin e Trotsky foi séria: suspender o anúncio da nep até que a rebelião, que reivindicava algumas das concessões que a própria nep iria garantir, fosse afogada em sangue. Como eles poderiam estar tão seguros de que teria sido impossível chegar a um acordo com os kronstadtianos com base na nep? Algumas frases antes, Trotsky admite que “a introdução da nep um ano antes teria evitado o levante de Kronstadt”. Mas os kronstadtianos, escreve Trotsky, sendo pequeno-burgueses, não tinham “programa consciente” e, portanto, não poderiam ser sensíveis ao apelo de concessões programáticas. Pequeno-burgueses ou não, os kronstadtianos tinham um programa. Souvarine, por exemplo, resume-o em sua vida de Stalin como: “eleições livres para os sovietes; liberdade de expressão e uma imprensa livre para os operários, camponeses, socialistas de esquerda, anarquistas e sindicalistas; a libertação dos operários e camponeses detidos como prisioneiros políticos; a abolição dos privilégios para o partido comunista; rações iguais para todos os trabalhadores; o direito dos camponeses e artesãos autônomos de dispor do produto de seu trabalho”. Talvez Trotsky use o termo “programa consciente” com algum sentido especial.

Para mim, a afirmação mais interessante do artigo é: “É verdade… que eu já tinha proposto a transição para a nep em 1920… Quando me defrontei com a oposição dos líderes do partido, não apelei para as fileiras, pois não queria mobilizar a pequeno burguesia contra os trabalhadores.”

Como aponta Trotsky, Lênin admitia que a política do “comunismo de guerra” tinha se prolongado mais do que deveria. Tratava-se apenas de um erro de julgamento, como sugere implicitamente Trotsky, ou foi um erro nascido da própria natureza da organização política bolchevique, que concentra o poder nas mãos de um pequeno grupo tão perfeitamente isolado (por um aparato partidário burocrático e hierarquizado) da pressão política das massas que termina sem responder às necessidades das massas — exceto quando é tarde demais? Mesmo quando um dos líderes tem condições de avaliar corretamente as necessidades das massas, ele não pode fazer mais do que tentar convencer seus colegas acerca do acerto de sua visão. Se eles não se convencem, ele se vê inibido por sua própria filosofia política de buscar apoio nas bases. É verdade, como escreve Trotsky, que a burguesia teria procurado se aproveitar de qualquer divisão nas fileiras bolcheviques. Mas não são ainda maiores os perigos de uma ditadura férrea, isolada da pressão das massas? Não são episódios como o de Kronstadt inevitáveis nessas condições? E teria sido possível a uma camarilha stalinista usurpar o controle do partido se houvesse maior participação das massas e maior liberdade para a oposição de esquerda, tanto dentro quanto fora do partido dominante?

 

Estas são as questões que Kronstadt levanta. Trotsky não as responde quando resume: “Em essência, os veneráveis críticos se opõem à ditadura do proletariado e, com isso, são adversários da revolução. Nisso está a chave do segredo.”

 

O segredo é mais complicado do que essa formulação. Rosa Luxemburgo se opôs durante toda a vida à concepção de Lênin da ditadura do proletariado. Mas os oficiais da guarda que a assassinaram em 1919 sabiam muito bem qual era a sua atitude com respeito à Revolução de 1917.

 

Nova York, 26 de abril de 1938.

Nota

Publicado originalmente em New International, vol. 4, nº 7, julho de 1938, pp. 212–213.

*****

Publicadono 3º número do volume 4 da Revista Rosa em 20/12/2021.

Revista Rosa, S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.com, issn 2764-1333.