quinta-feira, 15 de março de 2018

O PLANO B DO PT: PLIM! PLIM!


por Casimiro de Castro dos Santos

Enquanto a militância do PT empunha a honrosa bandeira “Lula 2018”, a cúpula do partido, a portas fechadas, prepara-se para uma traição abominável.

O objetivo é o êxito eleitoral no próximo pleito. Evidentemente, nesse sentido, o partido não age por idealismo, mas por instinto de sobrevivência, por puro cálculo político.

Para lograr este objetivo, o partido precisa da anuência da Rede Globo e passar por sua rigorosa sabatina. Ou, melhor dizendo, pedir a benção à poderosa emissora de televisão da família Marinho.

Na atual conjuntura, Lula é inviável. A classe média branca e “branca”, público que compõe majoritariamente a audiência da Globo, tem verdadeira ojeriza pelo ex-presidente sindicalista.

Diante de tais circunstancias, não resta ao PT senão descartar o maior líder popular da história recente do Brasil e apresentar um candidato palatável a essa mesma classe média manipulada. Um candidato “mocinho de novela”, que seja um anti-Bolsonaro e, ao mesmo tempo, ocupe o vácuo deixado por Doria e Hulk. Um candidato razoável. Um Emmanuel Macron brasileiro. Numa palavra, um Collor do PT.

Para convencer suas bases, o PT mobiliza os ditos blogs “progressistas”, todos, aliás, com o rabo preso ao PIG, remunerados pelo próprio partido ou até mesmo financiados pela especulação internacional (exceção feita ao Duplo Expresso), em torno de um “plano B”.

Para o PT, não há escolha.

Apesar do PT guardar traumas pelas eleições de 1989 e, recentemente, o golpe de 2016, capitaneado, segundo a militância, pela Globo, em meio a cantos e palavras de ordem “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” e “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” etc., os petistas ignoram – ou fingem ignorar – que essa mesma Globo ajudou a eleger Lula em 2002.

Para isso, a emissora de televisão acionou sua mais poderosa arma em prol da campanha eleitoral de Lula: uma novela das nove.

Ao fim do desastroso segundo mandato de FHC, foi ao ar em pleno horário nobre a novela “Porto dos Milagres”, de 5 de fevereiro a 28 de setembro de 2001.

“Porto dos Milagres” sinalizava o grande pacto nacional que se anunciava entre os (antes) terríveis “comunistas” do PT e as classes dominantes do país.

A trama da novela girava em torno do vilão Felix Guerreiro (Antônio Fagundes), um político corrupto, e o herói Guma (Marcos Palmeira), um simples pescador.

Diretamente inspirada nas obras de Jorge Amado “Mar Morto” e "A Descoberta da América pelos Turcos", mas com direito a MUITA liberdade de criação do autor da novela, a novela apresentava as peripécias do personagem Guma. Homem do povo, Guma é um marinheiro respeitado na comunidade de pescadores da cidade ficcional de Porto dos Milagres. Na verdade, filho do irmão gêmeo de Félix, o proprietário de terras Bartholomeu, assassinado pela esposa daquele, para que o vilão assumisse os negócios da família, Guma fora encontrado pelo pescador Frederico, já que, ameaçado pela sua condição de herdeiro, para salvá-lo, sua mãe o deixou à deriva numa cesta em pleno mar aberto. Para aumentar a carga de dramaticidade da novela, o humilde pescador acaba ainda por se apaixonar por Lívia, nora de Felix. Entre indas e vindas, o embate entre Felix e Guma é inevitável e culmina num antagonismo político. Líder dos marinheiros, Guma se candidata à prefeitura da cidade pelo Partido das Causas Trabalhistas, enquanto Felix disputa o governo do Estado pelo Partido da Vanguarda Democrática. No último capítulo da novela, ambos vencem as eleições, mas Felix é assassinado por sua amante, Rosa Palmeirão, tendo fim seu passado de impunidade. Guma, ao contrário, inaugura uma nova era prosperidade em Porto dos Milagres, na qual seu discurso de posse deixa apenas entrever:

“Eu sou um homem de pouco estudo, que tive que muito cedo ir pro mar trabalhar, mas aprendi a ser honesto e a sonhar com um mundo melhor. E é com toda humildade que eu prometo um novo tempo pra nossa cidade, sem corrupção, sem preconceito e com muita dedicação aos problemas do povo. Eu conto com a ajuda de vocês meus amigos, nessa aliança entre a modernidade e a tradição. Gostaria também de pedir a benção a Deus, a Iemanjá, e a todos os credos e religiões, que protejam Porto dos Milagres, que protejam a Bahia, que protejam o Brasil. Com muita trabalho e fé, eu tenho certeza que a gente vai ter uma vida mais feliz e eu espero que o arco dessa aliança espalhe sua luz por toda a terra. É isso que eu espero, gente”.

Muito revelador é também a caracterização maniqueísta dos dois personagens.

Misto de Toninho Malvadeza com FHC, Felix aparece sempre de terno e gravata, bem penteado, arrogante, maquiavélico.


Já Guma veste roupas modestas, é simplório em seu jeito e falar, humilde, puro, mas de caráter transparente e honesto, cunhado pela vida árdua de homem do povo, em que o trabalho é o único valor.


Se de fato, como ensina as técnicas de propaganda e comunicação, mensagens subliminares podem influenciar tendências, não se pode subestimar os efeitos desta caracterização no imaginário popular.

Neste mesmo sentido, tal é a referência direta entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido das Causas Trabalhistas ou, por outro lado, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Partido da Vanguarda Democrática, que é óbvia demais.

Ainda mais surpreendente é a assonância, isto é, a semelhança fonética, entre os nomes de Guma e Lula ou a aliteração das consoantes iniciais de Félix e Fernando (Henrique Cardoso).

Muita teoria da conspiração?

A novela "Porto dos Milagres" terminou com um recorde de audiência. O último capítulo teve média de 61 pontos no ibope e picos de 65 pontos (cada ponto equivale a 80 mil espectadores na Grande SP), obtendo a melhor média de uma série de novelas passadas.

No ano seguinte, William Bonner fechou uma edição do telejornal JN fazendo pesadas críticas ao Governo FHC e as privatizações generalizadas de sua gestão (algo que na época me fez comentar à minha irmã: “Acho que a Globo está apoiando o Lula”).

Depois veio a “Carta aos Brasileiros”, redigida por Antônio Palocci sob o beneplácito e a aprovação de João Marinho, um dos proprietários da Globo.

Já no governo Lula, Palocci, então chefe da casa civil, com dinheiro do BNDS, teria salvado a Globo da falência, como sugeriu em depoimento o mesmo Palocci ao juiz da Lava-Jato.

O Partido dos Trabalhadores não saiu de sintonia com o plim plim.

O legado de 13 anos de governo: o PT transferiu a dívida externa a juros de 4% ao ano para a dívida interna a juros 19,5% ano; os bancos obtiveram sucessivos lucros recordes; a auditoria da dívida pública, prevista pela Constituição Federal, jamais foi cogitada; milhares de cargos foram distribuídos a compadres, líderes sindicais e de movimentos sociais; os movimentos sociais foram anestesiados, os sindicatos aparelhados e as massas desmobilizadas; a reforma agrária e urbana não andou um palmo; a reforma tributária, taxando os mais ricos, não saiu do plano da retórica, aliás, tarde demais; a reforma política também ficou nas boas intenções; o partido se aliou, em nome da governabilidade, aos gangsteres da política brasileira; uma elite branca de milionários e nouveaux riches, distantes das bases, monopolizou o partido e governou em causa própria; etc.

Por outro lado, o PT acertou na política externa e, do ponto de vista econômico, no fomento à indústria nacional e na geração de empregos.

O maior mérito da gestão PT, porém, foi a denúncia, através de políticas públicas, do nível de espoliação avassalador ao qual povo brasileiro é submetido, ao “colocar o pobre no orçamento”.

Reservando uma ínfima parte do orçamento a políticas compensatórias, houve uma transformação significativa na vida de milhares de pessoas Brasil afora. Todavia, os 85 reais oferecidos por pessoa a famílias que vivem em situação de pobreza, com rendimento familiar mensal de até R$ 170,00, o Bolsa Família não alterou nem de longe a estrutura de desigualdade extrema da sociedade brasileira, que também produziu, no mesmo período, um Eike e um Joesley Batista.

Seus méritos foram também seus pecados. A crise econômica colocou a política do PT em xeque e a geopolítica o tornou indesejável.

O grande acordo nacional, com o supremo, com tudo – o impeachment fraudulento da presidenta Dilma – incluía também o Partido dos Trabalhadores. O acordo implicava a subsistência política de todos os partidos. Daí o seu silêncio.

No presente momento, no pacotão do acordo, o PT procura, de um lado, salvar Lula da prisão e, de outro, um “plano B” que possa agradar a Rede Globo: um candidato dos ricos.

Este candidato, que já articula alianças dentro e fora do partido, é Fernando Haddad, o prefeito do bairro nobre dos Jardins – não da cidade de São Paulo!!!


Sim, o prefeito que perdeu a reeleição nos bairros mais pobres da cidade, antigos redutos do PT, para os segundo e terceiro colocados, obtendo votação expressiva apenas no bairro nobre de Pinheiros, e que, fato inédito na cidade de São Paulo, foi vencido no primeiro turno, em primeiro lugar, para a abstenção e, em segundo, para o candidato da oposição.

O ex-prefeito que covardemente acusou o Movimento Passe Livre (que não chega a ter 50 militantes) de derrubar o governo Dilma por causa de 20 centavos quando, na verdade, abdicou de suas responsabilidades de negociação a uma reivindicação justa. Talvez o ex-prefeito não sabe, talvez porque nunca andou de ônibus, como é fundamental para um estudante de baixa renda, até mesmo para dar continuidade aos seus estudos, o passe-livre. Que vá de bicicleta para a escola ou faculdade, ainda que estas fiquem do outro lado da cidade!

O “plano B” do PT é mais uma de suas capitulações, e terá reflexo direto nas próximas eleições. O partido será praticamente banido do cenário político.

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Mortadelas, às urnas!

O triplex do Lula: a fraude eleitoral do PT


quinta-feira, 8 de março de 2018

OS DONOS DE FOUCAULT

Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica


por Rosana Pinheiro-Machado

Combater o mito da genialidade, a perversidade dos pequenos poderes e os "donos de Foucault" é fundamental para termos uma universidade melhor

A vaidade intelectual marca a vida acadêmica. Por trás do ego inflado, há uma máquina nefasta, marcada por brigas de núcleos, seitas, grosserias, humilhações, assédios, concursos e seleções fraudulentas. Mas em que medida nós mesmos não estamos perpetuando esse modus operandi para sobreviver no sistema? Poderíamos começar esse exercício auto reflexivo nos perguntando: estamos dividindo nossos colegas entre os “fracos” (ou os medíocres) e os “fodas” (“o cara é bom”).

As fronteiras entre fracos e 'fodas' começam nas bolsas de iniciação científica da graduação. No novo status de bolsista, o aluno começa a mudar a sua linguagem. Sem discernimento, brigas de orientadores são reproduzidas. Há brigas de todos os tipos: pessoais (aquele casal que se pegava nos anos 1970 e até hoje briga nos corredores), teóricas (marxistas para cá; weberianos para lá) e disciplinares (antropólogos que acham sociólogos rasos generalistas, na mesma proporção em que sociólogos acham antropólogos bichos estranhos que falam de si mesmos).

A entrada no mestrado, no doutorado e a volta do doutorado sanduíches vão demarcando novos status, o que se alia a uma fase da vida em que mudar o mundo já não é tão importante quanto publicar um artigo em revista qualis A1 (que quase ninguém vai ler).

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dizíamos que quando alguém entrava no mestrado, trocava a mochila por pasta de couro. A linguagem, a vestimenta e o ethos mudam gradualmente. E essa mudança pode ser positiva, desde que acompanhada por maior crítica ao sistema e maior autocrítica – e não o contrário.

A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio.

O primeiro cenário engloba vários tipos de pessoas (1) aqueles que migraram para uma área completamente diferente na pós-graduação; (2) os que retornaram à academia depois de um longo tempo; (3) os alunos de origem menos privilegiada; (4) ou que têm a autoestima baixa ou são tímidos. Há uma grande chance destas pessoas serem trituradas por não dominarem o ethos local e tachadas de “fracos”.

Os seminários e as exposições orais são marcados pela performance: coloca-se a mão no queixo, descabela-se um pouco, olha-se para cima, faz-se um silêncio charmoso acompanhado por um impactante “ãaaahhh”, que geralmente termina com um “enfim” (que não era, de fato, um “enfim”). Muitos alunos se sentem oprimidos nesse contexto de pouca objetividade da sala de aula. Eles acreditam na genialidade daqueles alunos que dominaram a técnica da exposição de conceitos.

Hoje, como professora, tenho preocupações mais sérias como estes alunos que acreditam que os colegas são brilhantes. Muitos deles desenvolvem depressão, acreditam em sua inferioridade, abandonam o curso e não é raro a tentativa de suicídio como resultado de um ego anulado e destruído em um ambiente de pressão, que deveria ser construtivo e não destrutivo.

Mas o opressor, o “foda”, também sofre. Todo aquele que se acha “bom” sabe que, bem lá no fundo, não é bem assim. Isso pode ser igualmente destrutivo. É comum que uma pessoa que sustentou seu personagem por muitos anos, chegue na hora de escrever e bloqueie.

Imagine a pressão de alguém que acreditou a vida toda que era foda e agora se encontra frente a frente com seu maior inimigo: a folha em branco do Word. É “a hora do vâmo vê”. O aluno não consegue escrever, entra em depressão, o que pode resultar no abandono da tese. Esse aluno também é vítima de um sistema que reproduziu sem saber; é vítima de seu próprio personagem que lhe impõe uma pressão interna brutal.

No fim das contas, não é raro que o “fraco” seja o cavalinho que saiu atrasado e faça seu trabalho com modéstia e sucesso, ao passo que o “foda” não termine o trabalho. Ademais, se lermos o TCC, dissertação ou tese do “fraco” e do “foda”, chegaremos à conclusão de que eles são muito parecidos.

A gradação entre alunos é muito menor do que se imagina. Gênios são raros. Enroladores se multiplicam. Soar inteligente é fácil (é apenas uma técnica e não uma capacidade inata), difícil é ter algo objetivo e relevante socialmente a dizer.

Ser simples e objetivo nem sempre é fácil em uma tradição “inspirada” (para não dizer colonizada) na erudição francesa que, na conjuntura da França, faz todo o sentido, mas não necessariamente no Brasil, onde somos um país composto majoritariamente por pessoas despossuídas de capitais diversos.

É preciso barrar imediatamente este sistema. A função da universidade não é anular egos, mas construí-los. Se não dermos um basta a esse modelo a continuidade desta carreira só piora. Criam-se anti-professores que humilham alunos em sala de aula, reunião de pesquisa e bancas. Anti-professores coagem para serem citados e abusam moral (e até sexualmente) de seus subalternos.

Anti-professores não estimulam o pensamento criativo: por que não Marx e Weber? Anti-professores acreditam em lattes e têm prazer com a possibilidade de dar um parecer anônimo, onde a covardia pode rolar às soltas.

O dono do Foucault

Uma vez, na graduação, aos 19 anos, eu passei dias lendo um texto de Foucault e me arrisquei a fazer comparações. Um professor, que era o dono do Foucault, me disse: “não é assim para citar Foucault”.

Sua atitude antipedagógica, anti-autônoma e anti-criativa, me fez deixar esse autor de lado por muitos anos até o dia em que eu tive que assumir a lecture “Foucault” em meu atual emprego. Corrigindo um ensaio, eu quase disse a um aluno, que fazia um uso superficial do conceito de discurso, “não é bem assim...”.

Seria automático reproduzir os mecanismos que me podaram. É a vingança do oprimido. A única forma de cortamos isso é por meio da autocrítica constante. É preciso apontar superficialidade, mas isso deve ser um convite ao aprofundamento. Esquece-se facilmente que, em uma universidade, o compromisso primordial do professor é pedagógico com seus alunos, e não narcisista consigo mesmo.

Quais os valores que imperam na academia? Precisamos menos de enrolação, frases de efeitos, jogo de palavras, textos longos e desconexos, frases imensas, “donos de Foucault”. Se quisermos que o conhecimento seja um caminho à autonomia, precisamos de mais liberdade, criatividade, objetividade, simplicidade, solidariedade e humildade.

O dia em que eu entendi que a vida acadêmica é composta por trabalho duro e não genialidade, eu tirei um peso imenso de mim. Aprendi a me levar menos a sério. Meus artigos rejeitados e concursos que fiquei entre as últimas colocações não me doem nem um pouquinho. Quando o valor que impera é a genialidade, cria-se uma “ilusão autobiográfica” linear e coerente, em que o fracasso é colocado embaixo do tapete. É preciso desconstruir o tabu que existe em torno da rejeição.

Como professora, posso afirmar que o número de alunos que choraram em meu escritório é maior do que os que se dizem felizes. A vida acadêmica não precisa ser essa máquina trituradora de pressões múltiplas. Ela pode ser simples, mas isso só acontece quando abandonamos o mito da genialidade, cortamos as seitas acadêmicas e construímos alianças colaborativas.

Nós mesmos criamos a nossa trajetória. Em um mundo em que invejas andam às soltas em um sistema de aparências, é preciso acreditar na honestidade e na seriedade que reside em nossas pesquisas.

Transformação

Tudo depende em quem queremos nos espelhar. A perversidade dos pequenos poderes é apenas uma parte da história. Minha própria trajetória como aluna foi marcada por orientadoras e orientadores generosos que me deram liberdade única e nunca me pediram nada em troca.

Assim como conheci muitos colegas que se tornaram pessoas amargas (e eternamente em busca da fama entre meia dúzia), também tive muitos colegas que hoje possuem uma atitude generosa, engajada e encorajadora em relação aos seus alunos.

Vaidade pessoal, casos de fraude em concursos e seleções de mestrado e doutorado são apenas uma parte da história da academia brasileira. Tem outra parte que versa sobre criatividade e liberdade que nenhum outro lugar do mundo tem igual. E essa criatividade, somada à colaboração, que precisa ser explorada, e não podada.

Hoje, o Brasil tem um dos cenários mais animadores do mundo. Há uma nova geração de cotistas ou bolsistas Prouni e Fies, que veem a universidade com olhos críticos, que desafiam a supremacia das camadas médias brancas que se perpetuavam nas universidades e desconstroem os paradigmas da meritocracia.

Soma-se a isso o frescor político dos corredores das universidades no pós-junho e o movimento feminista que só cresce. Uma geração questionadora da autoridade, cansada dos velhos paradigmas. É para esta geração que eu deixo um apelo: não troquem o sonho de mudar o mundo pela pasta de couro em cima do muro.

Rosana Pinheiro-Machado é cientista social e antropóloga. Professora do departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford.

Fonte: CartaCapital

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A FICÇÃO DO DIREITO


E chegamos a esse terrível lodaçal em que todos os sentimentos são falseados, em que não se pode querer a justiça sem ser chamado de interesseiro ou vendido. As mentiras se espalham, as histórias mais tolas são reproduzidas pelos jornais sérios, a nação parece atingida de loucura, quando bastaria um pouco de bom-senso para recolocar as coisas no lugar. Ah! como seria simples, digo outra vez, no dia em que os mestres ousarem, apesar da multidão amatilhada, ser homens corajosos! (Émile Zola, Eu acuso!).

Vivemos em um país onde todos são suspeitos de cometer algum crime. Basta uma denúncia e uma investigação forjada para confirmar as suspeitas, pois tudo é passível de ser tipificado, para usar o jargão jurídico, um crime. No Brasil, atualmente, a casta do judiciário assalta a sociedade e viola todas as leis, apesar da Constituição. Perseguem implacavelmente seus “inimigos”, criminosos por decreto. A justiça se coloca acima de tudo, até mesmo da justiça. Porém, ao contrário do que dizem, não vivemos num estado de exceção, mas, diante da verdadeira essência do Estado de direito quando, este, perde o controle da dominação das leis. Lembro-me, muitos anos atrás, de que certa vez, ao precisar recorrer à justiça, meu advogado ter me dito categoricamente: “Você não tem direito”. Sim, meu defensor disse com todas as letras: “Você não tem direito”. Até o Maluf tem direito; pelo menos direito a muitos advogados... Até o Escadinha tem direito... O Al Capone... Mas eu, cidadão comum, honesto, trabalhador, não tenho direito. Convicto, no entanto, dos meus direitos, e motivado por um profundo sentimento de justiça, fui procurar outro advogado. Ao contratá-lo e alegar minha ignorância a respeito de detalhes de um aspecto obscuro de uma legislação específica, aquele replicou, em tom de censura: “A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis”. Mesmo sendo leigo em assuntos jurídicos, tenho curso superior completo, pós-graduação, especialização, proficiência em língua estrangeira etc. Imagino então os milhões e milhões de brasileiros que não tiveram a mesma oportunidade de estudar, por falta de recursos, num país tão desigual, e sequer imaginam um dia cursar uma faculdade. Muitos analfabetos funcionais. Muitos analfabetos, ainda. Infelizmente. A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. A que nível do ridículo pode chegar um ser humano! Como alguém pode falar tamanha bobagem com tanta seriedade e orgulho? A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. Eis a utopia da justiça: um mundo tal qual uma Torre de Babel habitada por juristas. Melhor não seria dizer, presídio? A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. Ou seja, o único direito de fato é vedado ao cidadão comum. A verdade é que ninguém conhece as leis, nem mesmo os juristas. E mesmo que, supondo, estes acreditassem conhecer, isto pouco importaria. A justiça é como um demônio que muda de forma toda vez que é pega pelo rabo, enquanto prepara o bote fatal. A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. Premissa do absurdo, se o único direito real é negado ao povo, então o que dirá os outros! Assim, toda uma nação é condenada, por princípio. Não pelo seu suposto crime (o desconhecimento das leis), mas pelo crime de seus juízes. A justiça não é para todos, apenas para poucos. A justiça é a arma dos verdadeiros criminosos, porque, na história da humanidade, só os assassinos são inocentes.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

FIM DAS GUERRAS A PREÇO DE OCASIÃO

The Saker: Para EUA, fim das "guerras a preço de ocasião"


Do blog do Alok, originalmente em The Unz Review.

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu.

Com o golpe dos neoconservadores contra Trump agora já completado (pelo menos no objetivo principal, i.e., com Trump já neutralizado, o objetivo subsidiário, i.e., tirar o presidente da presidência, pode ser adiado para algum momento, não se sabe quando, no futuro), o mundo tem de lidar, mais uma vez, com situação muito perigosa: o Império Anglo-sionista está em rápida decadência, mas os neoconservadores voltaram ao poder. E farão de tudo, qualquer coisa que esteja ao alcance deles, para deter e reverter aquela decadência.

É também dolorosamente óbvio, se se observa a retórica dos neoconservadores, além de suas ações passadas, que a única “solução” que eles anteveem para se safar é iniciar algum tipo de guerra.

Assim sendo, a questão mais premente passa a ser: “quem o Império agredirá dessa vez?” Será a República Popular Democrática da Coreia (“Coreia do Norte”)? Será a Síria? O Irã ou a Venezuela? Atacarão na Ucrânia, talvez? Ou os neoconservadores procurarão guerra com Rússia ou China?

Claro que, se assumimos que os neoconservadores são completamente loucos, nesse caso tudo é possível, desde os EUA invadirem o Lesotho, até atacarem simultaneamente com armas termonucleares a Rússia e também a China. Absolutamente não deixo de considerar a insanidade e a depravação dos neoconservadores, mas não vejo sentido algum em analisar racionalmente o que é claramente irracional, no mínimo porque todas as modernas teorias da contenção sempre pressupõem um “ator racional”, não um maluco em operação suicidária delirante.

Para nossos objetivos, contudo, assumiremos que resta algo que se assemelha a pensamento racional em Washington DC; e que, mesmo que os neoconservadores decidam lançar alguma operação completamente ensandecida, alguém que comande as alavancas nos níveis superiores de poder encontrará a coragem necessária para impedir que aconteça, como fez o Almirante Fallon, com seu “não no meu horário de serviço!” (o qual provavelmente impediu que os EUA atacassem o Irã em 2007). Então, assumindo-se que ainda haja circulante um mínimo de racionalidade, onde se deve esperar que o Império ataque a seguir?

O cenário ideal

A essa altura todos nós sabemos exatamente o que o Império mais gosta de fazer: definir um país fraco para ser o alvo, subvertê-lo, acusá-lo de violar direitos humanos, agredi-lo com sanções econômicas, disparar agitações e tumultos de rua, intervir militarmente em “defesa” da “democracia”, da “liberdade” e da “autodeterminação” (ou algum outro desses incontáveis conceitos igualmente pios e sem significado). Mas até aí, é só a ‘receita política’. O que quero examinar é o que chamo de “American way of war”, ou seja, o modo como comandantes dos EUA gostam de combater.

Durante a Guerra Fria, grande parte do planejamento, das providências para suprir as forças, da doutrina e do treinamento focava-se em combater grande guerra convencional contra a União Soviética; e era claramente definido que essa guerra convencional podia escalar e converter-se em guerra nuclear.

Deixando de lado por um momento o aspecto nuclear (que não é relevante para nossa discussão), eu caracterizaria como “pesada” a dimensão convencional desse tipo de guerra: centrada em grandes formações (divisões, brigadas), envolvendo muitos blindados e artilharia, esse tipo de guerra envolveria gigantescos esforços logísticos de ambos os lados e isso, por sua vez, envolveria ataques profundos em forças de escalão secundário, obrigava a fazer reserva de suprimentos, a ter eixos estratégicos de comunicações (estradas, ferrovias, pontes, etc.) e uma defesa em profundidade em setores chaves.

O campo de batalha sempre seria imenso, centenas de quilômetros para os dois lados da (ing.) FEBA (Forward Edge of Battle Area), o chamado “front” ou “linha de frente” do combate. Em todos os níveis, tático, operacional e estratégico, as defesas estariam preparadas em dois, possivelmente três escalões.

Para lhes dar uma ideia das distâncias envolvidas, o segundo escalão estratégico dos soviéticos na Europa estava tão atrás, que chegava à Ucrânia! (Por isso, já que tocamos no assunto, a Ucrânia herdou depósitos gigantescos de munição da União Soviética; e por isso também jamais houve escassez de armas de nenhum dos lados para fazer a guerra civil ucraniana). Com o colapso do Império da União Soviética, toda essa ameaça desapareceu, bem, se não do dia para a noite, quase do dia para a noite. Claro, a Guerra do Golfo garantiu às forças armadas dos EUA e OTAN uma última, mas grande “festa de despedida” (contra um inimigo absolutamente sem chance de se impor), mas logo depois se tornou bem claro para os estrategistas dos EUA que a “guerra pesada” estava acabada e que brigadas blindadas podem já não ser a mais útil ferramenta de guerra no arsenal dos EUA.

Foi quando os estrategistas dos EUA, principalmente os das Forças de Operações Especiais, desenvolveram o que costumo chamar de “guerras a preço de ocasião”. Funciona mais ou menos do seguinte modo: primeiro, acerte com a CIA o financiamento, arme de dê treinamento a alguns insurgentes locais (se preciso, traga pessoal do exterior); em seguida infiltre Forças Especiais dos EUA e misture-os àqueles insurgentes locais e com FACs [Forward Air Controllers, "controladores avançados pelo ar"] (soldados especialmente treinados para dirigir o apoio aéreo, aeronaves e helicópteros, para atacar forças inimigas que estejam em contato com forças dos EUA e “amigos”); por fim, aloque na em torno da zona de combate (porta-aviões, em países vizinhos ou até aeronaves locais confiscadas) para apoiar dia e noite as operações de combate. A noção chave é simples: garantir aos insurgentes amigos vantagem muito ampla no poder de fogo.

Todos vocês viram no YouTube: forças dos EUA e da “coalizão” avançam até entrar em área de fogo e, a menos que se imponham rapidamente, chamam um ataque aéreo que resulta num enorme BOOM!!! seguido por confraternização entre norte-americanos e amigos, e desaparecimento total dos atacantes. Repita a mesma receita várias vezes, e você consegue vitória fácil e rápida sobre inimigo completamente desarmado. Essa abordagem básica pode ser aprimorada com vários “suplementos” como fornecer melhor equipamento aos insurgentes (armas antitanque, equipamento para visão noturna, comunicações, etc.) e trazer para o local algumas forças dos EUA ou aliadas, inclusive mercenários, para dar conta dos alvos realmente fortes.

Embora muitos nas forças armadas dos EUA permanecessem profundamente céticos quanto a essa nova abordagem, o domínio dos tipos das Forças Especiais e o sucesso, pelo menos temporário, dessa “guerra a preço de ocasião” no Afeganistão tornaram a abordagem imensamente popular entre políticos e propagandistas norte-americanos. Melhor de tudo, esse tipo de guerra resultou em número muito reduzido de mortos norte-americanos e até lhes garantiu alto grau de “negabilidade plausível” no caso de algo sair errado. Claro, os espiões das agências de três letras também adoraram o novo tipo de guerra.

Mas bem poucos deram-se conta, no primeiro surto de euforia sobre a invencibilidade dos EUA, de que essa “guerra a preço de ocasião” assumia três pressupostos muito arriscados:

– Em primeiro lugar e sobretudo, toda aquela “invencibilidade” dependia completamente de haver inimigo profundamente desmoralizado que sente que, como na série Star Trek, seria fútil tentar resistir contra Borg (codinome, EUA), porque, ainda que as reais forças dos EUA alocadas para cada caso fossem limitadas em tamanho e capacidades, os EUA sem dúvida sempre enviariam mais e mais forças se necessário, até o total esmagamento da oposição.

– Em segundo lugar, esse tipo de guerra pressupõe que os EUA poderiam assegurar completa superioridade aérea sobre todo o campo de batalha. Os norte-americanos não gostam de prover apoio aéreo nos casos em que aeronaves e pilotos possam ser derrubados por força aérea ou mísseis inimigos.

– Em terceiro lugar, esse tipo de guerra exige que haja insurgentes locais que possam ser usados como “coturnos em solo” para realmente ocupar e controlar territórios.

Veremos adiante que esses três pressupostos não são necessariamente confiáveis, porque nem sempre estão presentes ou, para dizer mais claramente, porque os anglo-sionistas estão em falta de países nos quais ainda se verifiquem os três pressupostos. Analisemos vários casos, um a um.

Hezbollah, Líbano 2006

OK, essa guerra não envolve oficialmente os EUA, é verdade, mas, sim, envolve Israel, o que é mais ou menos o mesmo, pelo menos para as nossas finalidades. Embora seja verdade que as táticas superiores do Hezbollah e a melhor preparação, também pelo Hezbollah, do campo de combate, e embora seja inegável que as armas russas antitanques deram ao Hezbollah a capacidade de atacar e destruir até os tanques israelenses mais avançados, tudo isso considerado, o desenvolvimento mais importante dessa guerra foi que, pela primeira vez no Oriente Médio, uma força árabe comparativamente fraco não mostrou qualquer temor ao enfrentar o suposto “invencível Tshahal”. O jornalista britânico Robert Fisk foi o primeiro a detectar essa imensa mudança e suas tremendas implicações:

"Todos ouviram Sharon, antes de sofrer seu derrame massivo, Sharon usou essa frase no Knesset, você sabe: “Os palestinos têm de sentir dor”. Isso, durante uma das intifadas. A ideia é que se você continua a bater e bater e bater nos árabes eles se submeterão, eventualmente cairão de joelhos e darão a vocês o que você quiser. E nada pode ser mais autoenganador, porque já nem se aplica hoje. De modo geral aplicava-se há 30 anos, quando pela primeira vez cheguei ao Oriente Médio. Se os israelenses cruzavam a fronteira libanesa, os palestinos pulavam nos próprios carros e iam para Beirute, para ir ao cinema. Hoje, se os israelenses cruzarem a fronteira do Líbano, o Hezbollah pula nos próprios carros em Beirute e corre direto para o sul, para se unir à luta dos palestinos. Mas a coisa chave hoje é que os árabes já não têm medo. Alguns líderes têm medo, os Mubaraks do mundo, o presidente do Egito, o rei Abdullah II da Jordânia. Esses sim têm medo. Gaguejam e tremem nas suas mesquitas de ouro, porque foram apoiados por nós [o ocidente]. Mas o povo já não tem medo."

É diferença descomunal, e o que o Hezbollah (Partido de Deus) obteve, aquela “Vitória Divina”, em 2006, é hoje repetida na Síria, no Afeganistão, no Iêmen, Iraque e por toda parte. O medo da “única superpotência” é afinal passado. Foi substituído por um desejo ardente de cobrar as contas de uma lista infinita de agressões pelos anglo-sionistas e suas forças de ocupação.

O Hezbollah também comprovou outra coisa muito importante: a estratégia vitoriosa quando frente a inimigo mais forte não é tentar proteger-se contra os ataques daquele inimigo, mas negar-lhe qualquer alvo lucrativo. Dito em termos simples: melhor uma tenda de campanha, que um bunker. Ou, noutra versão, “se eles podem ver você, podem matar você”. A versão mais acadêmica pode ter o seguinte formato: “não conteste a superioridade do inimigo ― torne-a irrelevante”.

Olhando em retrospectiva é bem óbvio que uma das armas mais formidáveis do arsenal anglo-sionista não era a bomba atômica ou o porta-aviões, mas uma máquina de propaganda que durante décadas, com muito sucesso, convenceu milhões de pessoas em todo o planeta de que os EUA seriam invencíveis: os EUA tinham as melhores armas, os soldados mais bem treinados, as táticas mais avançadas, etc. E afinal se vê que é absoluto nonsense ― os militares norte-americanos no mundo real nada têm de parecido com essa contraimagem criada pela propaganda. Quando nos últimos tempos os EUA realmente venceram alguma guerra contra inimigo capaz de construir resistência capaz? No Pacífico, na 2ª-guerra mundial?

[Nota: Escolho o exemplo do Hezbollah em 2006 não para ilustrar o colapso do paradigma “consagrado à rendição” [ing. “sacred into surrender”], mas para ilustrar o paradigma do “não conteste a superioridade do inimigo – torne-a irrelevante”, do qual o mais antigo e melhor exemplo pode ser o Kosovo em 1998-1999, quando uma imensa operação que envolveu todas as forças aéreas da OTAN durou 78 dias (a agressão de Israel contra o Líbano durou apenas 33 dias) e deu em exatamente nada. Uns poucos veículos anfíbios destruídos, uns poucos aviões velhos destruídos em solo, e um Corpo do Exército Sérvio que nada sofreu e que Milosevic ordenou que se retirasse por razões pessoais e políticas. Os sérvios foram os primeiros a demonstrar que essa ação de “negar alvo ao inimigo” é viável mesmo contra adversário que tenha capacidades avançadas de inteligência e reconhecimento].

Força-tarefa dos russos, Síria 2015

Como sempre disse e insisti, a operação russa na Síria não foi caso de “os russos estão chegando” ou “a guerra acabou”. A realidade é que os russos mandaram para lá uma força muito pequena e que essa força menos derrotou o Daech e, muito mais, mudou o traço fundamental do contexto político da guerra. Dito em termos mais simples ― o fato de a Rússia ter-se envolvido não apenas tornou muito mais difícil qualquer intervenção dos EUA: os russos também negaram aos norte-americanos a capacidade para usar contra a Sírio o seu modelão favorito de “guerra a preço de ocasião”.

Quando os russos pela primeira vez levaram para a Síria a sua força tarefa, não levaram nenhum tipo de capacidade que negasse aos norte-americanos o uso do espaço aéreo sírio. Mesmo depois de os turcos derrubarem o SU-24 russo, Moscou só alocou jatos de combate e defesas de capacidade superior para se autoproteger de ataque semelhante, dos turcos. Mesmo agora, enquanto escrevo, se a Força Aérea dos EUA ou a Marinha dos EUA decidir assumir total controle do espaço aéreo sírio, sem dúvida poderia fazê-lo simplesmente porque em termos puramente numéricos os russos ainda não têm suficientes defesas aéreas ou, ainda menos, aviação de combate, para negar o espaço aéreo sírio aos norte-americanos.

Ah, sim, a verdade é que ataque desse tipo, dos EUA, custaria preço muito alto para os norte-americanos, seja militarmente seja politicamente. Mas ninguém realmente crê que o minúsculo contingente aéreo russo, de 33 aeronaves de combate (das quais só 19 podem realmente contestar o acesso ao espaço sírio: quatro SU-30, seis SU-34, nove Su-27) e um número desconhecido de baterias Pantsir S-300/S-400/S-1 podem realmente derrotar o poder aéreo combinado do Comando Central dos EUA e da OTAN. Isso seria delírio no mais alto grau, ou simples sinal de que não há compreensão efetiva da guerra moderna.

O problema para os norte-americanos é formado por uma matriz de riscos dentre os quais, é claro, incluem-se as capacidades militares dos russos, mas também inclui os riscos políticos de estabelecer uma zona aérea de exclusão sobre a Síria. Não só esse tipo de movimento levaria a uma grande escalada na intervenção norte-americana já totalmente ilegal nessa guerra, mas também exigiria esforço sustentado para suprimir as defesas aéreas sírias (e potencialmente também as russas). Mas é algo que a Casa Branca não está querendo fazer agora, especialmente quando ainda não se pode antever o que esse tipo de operação tão arriscada poderia alcançar. Como resultado, os norte-americanos atacam aqui ou ali, como os israelenses, mas na verdade todos esses esforços são praticamente inúteis.

Ainda pior é o fato de que os russos agora estão virando a mesa contra os norte-americanos e entregando FACs [Forward Air Controllers, "controladores avançados pelo ar"] e apoio aéreo próximo às forças sírias, especialmente em áreas chaves. Os russos também alocaram controladores de artilharia e sistemas de artilharia pesada, incluindo lançadores múltiplos de foguetes e lança-chamas pesados, que, todo esse equipamento, dá vantagem, em poder de fogo, às forças do governo. Paradoxalmente, agora são os russos que lutam uma “guerra a preço de ocasião” ― ao mesmo tempo em que negam essa possibilidade aos norte-americanos e aliados.

Terroristas do bem, codinome “Exército Sírio Livre”: Síria 2017

A principal fraqueza do Exército Sírio Livre, ESL, é que não existe na verdade, pelo menos não em campo. Ah, sim, há incontáveis exilados sírios do Exército Sírio Livre na Turquia e em outros pontos, e há também muitos tipos Daech/al-Qaeda que muito se esforçam para parecer que são o ESL aos olhos de gente como John McCain, e há uns poucos grupos armados disseminados aqui e ali na própria Síria, que muito quereriam ser “O Exército Sírio Livre”. Mas na realidade, o ESL sempre foi uma abstração, um conceito puramente político.

Esse ESL virtual pode garantir várias coisas úteis aos norte-americanos: uma narrativa para a máquina de propaganda; pretexto ‘santificado’ para lhes enviar a CIA; uma mínima folha de parreira para esconder as vergonhas do Tio Sam na cama com al-Qaeda e Daesh; e um ideal político para tentar unificar o mundo contra Assad e o governo sírio. Mas o que esse ESL jamais pôde fornecer foram “coturnos em solo”.

Todo mundo lá tinhas seus próprios coturnos em solo: Daesh e al-Qaeda sem dúvida, mas também os sírios, os iranianos e o Hezbollah e, claro, os turcos e os curdos. Mas, dado que os takfiris [aqueles que são acusados por outros muçulmanos como "apóstatas"; no caso sírio Al-Qaeda e outros] eram oficialmente inimigos dos EUA, os norte-americanos ficavam limitados no objetivo e na natureza do apoio que sempre desejaram dar e deram àqueles wahabistas malucos. Os sírios, os iranianos e o Hezbollah foram demonizados e, assim, tornou-se impossível trabalhar com eles. Restaram os turcos, que tinham relações horríveis com os EUA, sobretudo depois que os EUA apoiaram a tentativa de golpe contra Erdogan; e os curdos, que não davam sinais de muita disposição para lutar e morrer no fundo do Iraque, e cujos documentos eram observados por Ancara com alta dose de hostilidade. Com o avançar da guerra, afinal a dura realidade desabou sobre os norte-americanos: absolutamente não tinham “coturnos em solo” aos quais apoiar ou incorporar seus agentes de forças especiais.

A melhor ilustração dessa realidade é o mais recente debacle dos EUA na região de al-Tanf próxima da fronteira jordaniana. Os norte-americanos apoiados pelos jordanianos, invadiram silenciosamente aquela parte não habitada do deserto sírio, na esperança de cortar as linhas de comunicação entre sírios e iraquianos. Mas em vez disso foram os sírios que cortaram e descartaram os norte-americanos e chegaram antes à fronteira, o que tornou a presença dos EUA simplesmente inútil. Parece que os norte-americanos agora desistiram, no mínimo temporariamente, de al-Tanf, e as forças dos EUA serão retiradas e realocadas em algum outro ponto na Síria.

Quem será o próximo a ser atacado? Venezuela?

Rápida olhada para trás na história mostra que os norte-americanos sempre tiveram problemas com seus ‘aliados’ (i.e., fantoches) locais. Uns até que prestavam (Coreia do Sul), outros não (Contras), mas feitas as contas, cada vez que os EUA se servem de forças locais, eles se expõem a um risco inerente: os locais frequentemente têm agenda própria, algumas vezes muito diferente. E rapidamente se dão contra de que, se dependem dos EUA, os EUA também dependem deles.

Acrescente-se a isso o fato bem conhecido de que os norte-americanos não são famosos exatamente por sua, digamos assim, “sensibilidade e expertise multicultural” (basta ver quantos norte-americanos falam o idioma local dos ‘aliados’ que eles ‘salvam’!). Assim se vê por que a inteligência dos EUA quase sempre só se dá conta desse problema quando já é muito, muito tarde para tentar qualquer conserto (e não importa quanta inteligência humana bem construída eles troquem por tecnologias toscas). A realidade é que os norte-americanos não têm, via de regra, qualquer noção aproveitável sobre o ambiente no qual operam. O fracasso dos EUA na Síria (ou na Líbia ou na Ucrânia, dentre outros fracassos) é excelente ilustração disso.

Agora que já identificamos algumas das fragilidades doutrinais e operacionais da abordagem “guerra a preço de ocasião” dos EUA, podemos usá-las para avaliar uma série de possíveis países alvos:


Nota: “Inimigo desmoralizado” e “superioridade aérea” são palpites meus, mais do que estimativa, posso estar errado; “coturnos em solo” faz referência a uma força indígena e com capacidades de combate já dentro do país (não a força estrangeira de intervenção) capaz de tomar e conservar a posse de território, não simples pequeno grupo insurgente ou alguma oposição política.

Se minhas estimativas estão corretas, nesse caso o único país candidato a sofrer intervenção norte-americana seria a Venezuela.

Mas falta aqui o fator tempo: para que uma intervenção norte-americana seja bem-sucedida, exigiria uma estratégia realista de saída (os EUA já estão superdistendidos, e a última coisa de que o Império carece seria enredar-se em mais uma guerra invencível à moda Afeganistão). Além disso, embora tenha dado um “sim” tateante à oposição venezuelana, no quesito “capacidade para pôr coturnos em solo” (especialmente se receber apoio da Colômbia), não tenho muita certeza de que as forças pró-EUA na Venezuela estejam sequer perto de ter as capacidades de forças armadas regulares (as quais, suponho, se oporiam à invasão pelos EUA).

Além disso, há a questão do terreno. Embora num cenário otimista possa ser fácil tomar Caracas, seria difícil e perigoso tentar operar no restante do país.

Por fim, há a questão de se manter como poder: os norte-americanos gostam de vitórias rápidas; mas guerrilheiros latino-americanos já provaram muitas vezes que podem combater ao longo de décadas. Por todas essas razões, por mais que me pareça que os EUA são capazes de intervir na Venezuela e desgraçar o país até que fique irreconhecível, não acho que os EUA sejam capazes de impor ali, no poder, um novo regime, e de garantir que o novo regime controle o país.

Conclusão: Afeganistão 2001-2017

Afeganistão é frequentemente chamado de “cemitério de Impérios”. Não tenho lá muita certeza de que o Afeganistão algum dia venha a ser o cemitério do Império Anglo-sionista, mas, sim, acho que o Afeganistão será o cemitério da doutrina da “guerra a preço de ocasião”, o que é paradoxal, porque o Afeganistão foi onde essa doutrina foi aplicada pela primeira vez com sucesso que, inicialmente, pareceu enorme.

Todos nos lembramos das Forças Especiais dos EUA, frequentemente a cavalo, coordenando os ataques dos B-52 contra forças do governo afegão em rápida retirada. 16 anos depois, a guerra do Afeganistão mudou dramaticamente, e as forças dos EUA constantemente combatem uma guerra na qual 90% das baixas são causadas por Dispositivos Explosivos Improvisados [ing. IEDs], onde todos os esforços para algum tipo de acordo político fracassaram miseravelmente e onde tanto a vitória quanto a retirada parecem igualmente impossíveis. O fato de agora a máquina de propaganda dos EUA ter acusado a Rússia de estar “armando os Talibã” é poderosa ilustração de o quanto os anglo-sionistas estão desesperados. Eventualmente, claro, os norte-americanos terão de sair, totalmente derrotados, mas por enquanto o máximo que já admitem é que “não estão vencendo” (sério!?).

O dilema dos EUA é simples: a Guerra Fria acabou há muito tempo, e estamos já no Pós-Guerra Fria, e já faz tempo que as forças armadas dos EUA precisam passar por completa reforma, embora essa reforma já seja também politicamente impossível. Nesse momento, as forças armadas dos EUA são o resultado bizarro dos anos de Guerra Fria, de “guerra a preço de ocasião” e de intervenções militares fracassadas.

Em teoria, os EUA devem começar por decidir-se por uma nova estratégia nacional de segurança; depois, desenvolver uma estratégia militar que apoie sua estratégia nacional de segurança, seguida do desenvolvimento de uma doutrina militar a qual, ela própria produzirá então um plano de modernização da força que afetará todos os aspectos da reforma militar, do treinamento ao planejamento dos deslocamentos da força. Os russos demoraram mais de uma década para fazer isso, incluindo vários falsos inícios e erros, e os EUA precisarão no mínimo do mesmo tempo, se não de mais tempo. No momento, até a decisão de embarcar em reforma de tão longo alcance parece estar a anos de distância.  Por enquanto, a palavra de ordem parece ser propaganda ‘de salão’ (“somos os maiores, ninguém nos supera!”) com negação obsessiva.

Como também aconteceu na Rússia, terá de sobrevir algum embaraço catastrófico (como a primeira guerra russa na Chechênia), para forçar o establishment militar dos EIA a olhar cara a cara a realidade e realmente atuar sobre ela. Mas até que aconteça, a capacidade das forças dos EUA para impor seu domínio sobre outros países que não se rendam a ameaças e sanções só continuará a se degradar.

A Venezuela será o país da vez? Espero que não. De fato, acho que não será. Mas se for, será um inferno, muita coisa destruída e pouquíssimo obtido. Os anglo-sionistas vêm lutando acima de seu peso real há décadas, e o mundo já começa a perceber. Derrotar e impor-se contra Irã ou Coreia do Norte já está claramente fora das reais capacidades militares dos EUA. Quanto a atacar Rússia ou China ― seria suicídio. Com o quê, só resta a Ucrânia.

Suponho que os EUA possam enviar algumas armas para a junta em Kiev e organizar alguns campos de treinamento no oeste da Ucrânia. Mas nada além disso. E de qualquer modo nada aí fará qualquer real diferença (além de ofender ainda mais os russos, é claro).

A era das “guerras a preço de ocasião” já é passado e o mundo vai-se tornando lugar muito diferente do que foi. Os EUA terão de se adaptar à essa realidade, pelo menos se quiserem conservar algum grau de credibilidade, mas por enquanto não aparece ninguém em Washington DC ― exceto Ron Paul ― disposto a admiti-lo. Resultado disso, a era das grandes intervenções militares norte-americanas pode bem estar chegando ao fim, mesmo que sempre haja país do tamanho de Grenada ou do Panamá para ser “triunfalmente” destruído, sendo necessário.

Essa nova realidade, é claro, imediatamente levanta a questão de com o quê/como o EUA-dólar será bancado no futuro (até agora, só foi bancado, realmente, pelo poder militar dos EUA). Mas esse já é outro assunto.