terça-feira, 1 de agosto de 2023

Emma Goldman



Por muitos anos, Emma Goldman foi uma pedra no sapato do governo norte-americano. Mas também não dá para dizer que seu relacionamento com o poder soviético fosse muito melhor.

“Proteste diante dos palácios dos ricos; exija trabalho. Se não te derem trabalho, exija pão. Se eles negarem ambos, tomem o pão”, proclamou Goldman, febrilmente, em uma manifestação de trabalhadores em Nova York em 1893. Para ‘Emma Vermelha’, uma das líderes mais reconhecidas do movimento anarquista do início do século 1920, nenhum método de buscar a justiça social estava fora de questão.

Seu ativismo turbulento, direcionado ao regime norte-americano da época, a transformou em inimiga de Estado. O primeiro diretor do FBI, John Edgar Hoover, chegou a se referir a Goldman como “a mulher mais perigosa da América”.

Luta contra o poder

Emma Goldman nasceu em uma família judia na periferia ocidental do Império Russo, mas aos 17 anos se mudou para os EUA, onde imediatamente se juntou ao movimento anarquista local.

Goldman logo se tornou uma oponente eloquente do poder tradicional e das instituições religiosas, fazendo campanha pela igualdade de gênero e pela oposição ao casamento, que, segundo ela, limitava os direitos das mulheres.

“Eu quero liberdade, o direito de expressão, o direito de todos a coisas bonitas e radiantes. Anarquismo significava isso para mim, e eu o viveria apesar do mundo inteiro – prisões, perseguições, tudo. Sim, apesar da condenação de meus companheiros mais próximos, eu viveria meu belo ideal”, escreveu Emma em sua autobiografia de 1931, “Vivendo minha Vida”.

Em 1892, ela ajudou seu amante e aliado, Alexander Berkman, a atentar contra a vida “do homem mais odiado da América”, Henry Clay Frick – um industrialista cruel e pior pesadelo dos sindicatos. A missão foi um fracasso, com Berkman condenado a 14 anos de prisão. Goldman conseguiu se safar, mas depois foi detida várias vezes por incitar tumultos, distribuir literatura proibida e tentar assassinar também o presidente William McKinley (embora sua cumplicidade nunca tenha sido comprovada).

Goldman foi destituída da cidadania dos EUA em 1908, mas continuou a viver no país, lutando por seus ideais. No entanto, o governo norte-americano enfim conseguiu encontrar uma maneira de se livrar de sua “pior inimiga”.

Arca soviética

Em junho de 1919, uma série de ataques terroristas ocorreu em várias cidades dos EUA, perpetrados pelos seguidores do anarquista italiano Luigi Galleani como uma demonstração de oposição a juízes e promotores.

Embora sem vítimas, o pânico resultante dos acontecimentos deixou elevou a tensão em todo o país. O período ficou conhecido como “O Primeiro Susto Vermelho”.

Medidas emergenciais sem precedentes foram aplicadas, que levaram aos chamados Invasões de Palmer – por conta do nome de seu organizador, o procurador-geral Alexander Mitchell Palmer. No total, 249 radicais da esquerda e anarquistas foram detidos; a maioria deles, imigrantes russos sem cidadania americana, incluindo Goldman, acusada de incitar um motim. Ela e seus companheiros foram rapidamente colocados no USAT Buford e enviados para a Rússia Soviética. O navio ficou conhecido na imprensa como a “Arca soviética”. Hoover, então assistente especial do procurador-geral, foi uma voz importante na campanha para eliminar Emma.

Desilusão na URSS

Embora o anarquismo de Goldman tivesse há muito se separado do marxismo (uma ideologia que ela chamou de “fórmula fria, mecânica e escravizadora”), ela ainda nutria grandes esperanças na “terra do vitorioso socialismo”. Não demorou muito, no entanto, para que essas esperanças também fossem frustradas.

‘Emma Vermelha’ não ficou nada satisfeita com a campanha de intimidação bolchevique contra seus camaradas-anarquistas, especialmente o aparato burocrático pesado que os bolcheviques haviam criado.

Durante encontro com Vladímir Lênin, o “pai” da Revolução Russa, ela ficou desencantada com a posição do líder sobre liberdade de expressão como algo que poderia ser sacrificado diante de circunstâncias atenuantes.

A repressão da rebelião dos marinheiros de Kronstadt em 1921 foi a gota d’água para Goldman, embora ela mesmo não criticasse o uso de meios violentos para alcançar fins políticos. “Não há como ser extremo demais ao lidar com os males sociais; além disso, o extremo é geralmente o verdadeiro”, escreveu certa vez. Apesar desse posicionamento, a violência registrada em Kronstadt foi demasiada para ela. “Eu vi diante de mim o Estado bolchevique, formidável, esmagando os esforços revolucionários construtivos, suprimindo, degradando e desintegrando tudo”, descreveu Ema em outro ensaio, intitulado “Minha desilusão na Rússia”.

O não retorno

Depois de mais esse caminho tortuoso, Goldman e Berkman deixaram a Rússia para nunca mais voltar. Pela frente, foram anos perambulando em países estrangeiros em busca de um novo lar. Paralelamente, a maioria dos seguidores de Goldman acabou se afastando dela, por sua recusa em apoiar o regime bolchevique.

Emma Goldman faleceu em 14 de maio de 1940, em Toronto. O governo dos EUA fez as pazes com sua antiga inimiga e deu permissão para que seus restos mortais descansassem em solo norte-americano. Gravada em seu local de descanso final em Forest-Park, no estado de Illinois, está uma de suas famosas citações: “A Liberdade não descerá para um povo, um povo deve se elevar à Liberdade”.

Emma Goldman e Alexander Berkman

Fonte: "'Emma Vermelha', a anarquista que lutou pela liberdade nos EUA (e se tornou sua maior inimiga", do Russia Beyond.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

“A Comuna de Kronstadt” de Ida Mett (prefácio para a edição inglesa)

por Maurice Brinton

novembro de 1967

Tradução: Daniel Menezes Delfino

Fonte: Crítica Desapiedada

O quinquagésimo aniversário da Revolução Russa será abordado, analisado, celebrado ou lamentado de várias maneiras.

Para os negociantes do misticismo religioso e os advogados da “liberdade de empreendimento”, a deserção sensacional (e bem cronometrada) de Svetlana Stálin(1) “provaria” a resiliência de suas respectivas doutrinas, agora demonstradas como capazes de florescer naquilo que à primeira vista pareceria solo infértil.

Para os liberais incorrigíveis, a recente e cautelosa reintrodução da motivação pelo lucro em certos setores da economia russa(2) “provaria” que o laissez-faire econômico é sinônimo da natureza humana e que uma economia racionalmente planejada seria sempre um piedoso sonho impossível.

Para aqueles “esquerdistas” (como o falecido Isaac Deutscher) que viam na industrialização da Rússia uma garantia automática de atitudes mais liberais nos dias vindouros, a prisão de Daniel e Sinyavsky(3) por crime de pensamento (e a perseguição em andamento daqueles que os apoiaram) veio como um retumbante tapa na cara.

Para os “marxistas-leninistas” da China (e Albânia), a reaproximação da Rússia com os Estados Unidos, sua passividade na recente crise do Oriente Médio,(4) sua assinatura do Tratado de Interdição de Testes(5) e sua influência reacionária nos desenvolvimentos revolucionários nos países coloniais dariam testemunho de seu acelerado deslizamento no pântano do revisionismo, após a morte do Grande Stálin(6) (Stálin, será lembrado como o autor de medidas tão revolucionárias e não revisionistas como a eliminação dos Velhos Bolcheviques, os Julgamentos de Moscou, a Frente Popular, o Pacto Nazi-Soviético, os Acordos de Teerã e Yalta e as dinâmicas lutas dos Partidos Comunistas francês e italiano no imediato pós-guerra, lutas que levaram à sua tomada direta do poder em seus respectivos países).

Para os iugoslavos, reintegrados afinal depois de sua errância adolescente fora do conjunto, a reemergência de “sanidade” em Moscou será vista como corroboração de suas piores suspeitas. Os “problemas” de 1948 foram claramente todos devidos às maquinações do maligno Beria.(7) Mihajlo Mihajlov(8) agora sucede Djilas(9) atrás das grades de uma prisão do povo… apenas para lembrar hereges políticos de que também na Iugoslávia, a “democracia proletária” está confinada àqueles que se abstém de perguntar as questões constrangedoras.

Para os trotskistas de toda laia, ao menos para aqueles capazes de pensar por si mesmos, o mero fato das celebrações do quinquagésimo aniversário deveria dar o que pensar. O que as palavras significam? O quanto uma sociedade em transição pode ser “transicional”? Quatro décadas de “bonapartismo” não podem fazer da palavra uma ninharia insignificante? Como os cristãos inabaláveis carregando sua cruz, os trotskistas inabaláveis vão seguir adiante carregando a marca da sua questão (relativa à evolução futura da sociedade russa) pelo resto da sua existência terrena? Pois por quanto tempo mais eles vão seguir adiante gargarejando com as velhas palavras de ordem de “restauração capitalista ou avanço rumo ao socialismo” propostas por seu mentor em sua Revolução Traída… trinta anos atrás! Certamente apenas os cegos podem agora deixar de enxergar que a Rússia é uma sociedade de classe de novo tipo, e tem sido por várias décadas.

Aqueles que descartaram essas mistificações – ou que nunca foram cegados por elas – verão as coisas diferentemente. Eles vão sentir que não pode haver vestígio de socialismo numa sociedade cujos governantes são capazes de aniquilar fisicamente os conselhos operários húngaros,(10) denunciar igualitarismo e controle operário da produção como desvios “pequeno-burgueses” ou “anarco-sindicalistas”, e aceitar o assassinato a sangue frio de toda uma geração de revolucionários como meras “violações da legalidade socialista”, a serem retificadas – tão cautelosamente e cheio de tato – pela técnica de “reabilitação póstuma seletiva”. Será óbvio para eles que algo deu seriamente errado com a Revolução Russa. O que foi que deu errado? E quando a “degeneração” começou?

Aqui também as respostas diferem. Para alguns os “excessos” e “enganos” são atribuíveis a uma lamentável paranoia se insinuando lentamente sobre um Stálin em envelhecimento. Essa interpretação (além do fato de tacitamente aceitar o próprio “culto do indivíduo” que seus defensores dizem condenar) falha, entretanto, em explicar a repressão de revolucionários e a conciliação com o imperialismo perpetrados num período muito anterior. Para outros a “degeneração” se estabeleceu com a derrota final da Oposição de Esquerda como uma força organizada (1927), ou com a morte de Lênin (1924), ou com a abolição das facções no 10º Congresso do Partido (1921). Para os bordiguistas, a proclamação da Nova Política Econômica (1921) irrevogavelmente carimbou a Rússia como “capitalismo de estado”. Outros, rejeitando corretamente essa preocupação com as minúcias da datação revolucionária, destacam fatores mais gerais, embora, em nossa opinião, alguns dos menos importantes.

Nosso propósito em publicar este texto sobre os eventos de Kronstadt em 1921 não é esboçar um calendário alternativo. Nem estamos procurando ancestrais políticos. A construção de uma sucessão apostólica ortodoxa é a menor de nossas preocupações (num mundo em constante transformação, isso apenas daria testemunho da nossa esterilidade teórica). Nossa tarefa é simplesmente documentar alguns dos enfrentamentos reais – mas menos conhecidos – que tiveram lugar contra a burocracia crescente durante os primeiros anos pós-revolucionários, num momento em que os críticos posteriores da burocracia eram eles mesmos parte integrante do aparato.

O quinquagésimo aniversário da Revolução Russa nos presenteia com a absurda visão de uma classe dominante russa (que a cada dia se assemelha mais com sua contraparte ocidental) solenemente celebrando a revolução que derrubou o poder burguês e permitiu às massas, por um breve momento, visualizar um tipo totalmente novo de ordem social.

O que tornou possível esse trágico paradoxo? O que estilhaçou aquela visão? Como a revolução degenerou?

Muitas explicações são oferecidas. A história de como a classe operária russa foi despojada não é, entretanto, uma questão de discussão esotérica entre facções políticas, que compensam sua própria irrelevância por jornadas mentais no mundo encantado do passado revolucionário. Um entendimento do que teve lugar é essencial para todo socialista sério. Não é mero arquivismo.

Nenhuma classe dominante viável domina apenas pela força. Para dominar ela deve conseguir que sua própria visão da realidade seja aceita pela sociedade de modo geral. Os conceitos pelos quais ela tenta legitimar seu domínio precisam ser projetados no passado. Os socialistas têm reconhecido corretamente que a história ensinada nas escolas burguesas revela uma visão de mundo particular e distorcida. Que a história socialista tenha permanecido na sua maior parte não escrita é uma medida de fraqueza do movimento revolucionário.

O que passa por história socialista é frequentemente apenas uma imagem espelhada da historiografia burguesa, uma infiltração dentro das fileiras do movimento operário de métodos de pensamento tipicamente burgueses. No mundo desse tipo de “historiadores”, os líderes e gênios substituem os reis e rainhas do mundo burguês. Congressos famosos, rachas e controvérsias, a ascensão e queda de partidos políticos ou sindicatos, a emergência ou degeneração dessa ou aquela liderança substituem as batalhas mortíferas dos dominadores do passado. As massas nunca aparecem independentemente no palco histórico, fazendo sua própria história. No melhor caso elas “fornecem o vapor”, habilitando outros a dirigir a locomotiva, como Stálin colocou tão delicadamente.

“Na maior parte do tempo, historiadores ‘oficiais’ não têm olhos para ver ou ouvidos para ouvir os atos e palavras que expressam a atividade espontânea da classe operária… Lhes faltam as categorias de pensamento – alguém poderia dizer até que faltam as células cerebrais – necessárias para entender ou mesmo perceber essa atividade como ela realmente é. Para eles uma atividade que não tem líder ou programa, nem instituições e nem estatutos, pode apenas ser descrita como ‘problemas’ ou ‘desordens’. A atividade espontânea das massas pertence por definição ao que a história suprime.”(11)

Essa tendência de identificar a história da classe operária com a história de suas organizações, instituições e líderes não é apenas inadequada – ela reflete uma visão tipicamente burguesa do gênero humano, dividido de maneira quase pré-ordenada entre os poucos que administram e decidem, e os muitos, a massa maleável, incapaz de agir conscientemente em seu próprio interesse, e para sempre destinada a permanecer o “objeto” (e nunca o “sujeito”) da história. A maioria das histórias da degeneração da Revolução Russa raramente alcança mais do que isso.

A burocracia stalinista foi única em ter apresentado uma visão da história baseada em mentiras absolutas, ao invés da mistura mais usual de distorção sutil e automistificação. Mas as revelações de Kruschev(12) e os desenvolvimentos subsequentes na Rússia fizeram com que as versões oficiais dos eventos (em todas as suas variações) fossem questionadas até mesmo por membros do Partido Comunista. Até os graduandos do que Trotsky chamou de “escola de falsificação de Stálin” estão agora começando a rejeitar as mentiras da era stalinista. Nossa tarefa é levar o processo de desmistificação um pouco mais adiante.

De todas as interpretações da degeneração da Revolução Russa a de Isaac Deutscher é a mais amplamente aceita na esquerda. Ela ecoa a maioria das pressuposições dos trotskistas. Apesar de ser uma melhoria em relação às versões stalinistas, está longe de ser suficiente. A degeneração é vista como sendo devida a fatores estritamente conjunturais (o isolamento da revolução em um país atrasado, a devastação causada pela guerra civil, o peso esmagador do campesinato, etc.). Esses fatores são indubitavelmente importantes. Mas o crescimento da burocracia é mais do que apenas um acidente na história. É um fenômeno de escala mundial, intimamente ligado a um certo estágio no desenvolvimento da consciência da classe operária. É o terrível preço pago pela classe operária por seu atraso em reconhecer que sua emancipação final e verdadeira só pode ser alcançada pela própria classe operária, e não pode ser confiada a outros, alegadamente agindo em seu nome. Se o “socialismo é autoconsciência total e positiva do homem” (Marx, 1844), a experiência (e rejeição) da burocracia é um passo nessa direção.

Os trotskistas negam que as oposições iniciais ao desenvolvimento da burocracia tinham qualquer conteúdo revolucionário. Ao contrário, eles denunciam a Oposição Operária e os rebeldes de Kronstadt como basicamente contrarrevolucionários. Oposição real, para eles, começa com a proclamação, dentro do partido, da Oposição de Esquerda de 1923. Mas qualquer um ao menos familiarizado com o período saberá que em 1923 a classe operária já tinha suportado uma derrota decisiva. Já tinha perdido o poder na produção para um grupo de gerentes apontados desde cima. Já tinha também perdido poder nos conselhos,(13) que eram agora apenas um fantasma da sua antiga forma, um carimbo para a burocracia emergente. A Oposição de Esquerda lutou dentro dos limites do partido, que já estava ele mesmo altamente burocratizado. Nenhum número substancial de operários marchou por sua causa. A vontade de lutar dos operários já tinha sido consumida pelos longos enfrentamentos dos anos precedentes.

A oposição às medidas antioperárias tomadas pela liderança bolchevique nos anos imediatamente seguintes à revolução tomou muitas formas e se expressou por muitos canais diferentes e em muitos níveis. Ela se expressou dentro do próprio partido, através de numerosas tendências de oposição, das quais a Oposição Operária (Kollontai, Lutovinov, Shlyapnikov) é a mais conhecida.(14) Fora do partido a oposição revolucionária encontrou expressão heterogênea, na vida de numerosos grupos, frequentemente ilegais (alguns anarquistas, alguns anarcossindicalistas, outros professando ainda uma fidelidade básica ao marxismo).(15) Ela também encontrou expressão na atividade espontânea e frequentemente “não organizada” da classe, como as grandes greves em Leningrado(16) em 1921 e a revolta de Kronstadt. Ela encontrou expressão na crescente resistência dos operários à política industrial bolchevique (e em particular à tentativa de Trotsky de militarizar os sindicatos). Ela também encontrou expressão na resistência proletária às tentativas bolcheviques de expulsar todas as outras tendências dos conselhos, dessa forma efetivamente amordaçando todos aqueles que buscavam reorientar a construção socialista conforme linhas inteiramente diferentes.

Num estágio inicial, várias tendências lutaram contra a degeneração burocrática da Revolução. Ao excluí-los postumamente das fileiras revolucionárias, trotskistas, leninistas e outros cometem uma dupla injustiça. Primeiramente eles excomungam todos aqueles que previram e enfrentaram a burocracia nascente antes de 1923, dessa forma se tornando surdos a algumas das mais pertinentes e válidas críticas já enunciadas contra a burocracia. Secundariamente, eles enfraquecem sua própria causa, pois se as demandas por conselhos livremente eleitos, por liberdade de expressão (democracia proletária) e por gestão operária da produção estavam erradas em 1921, por que elas se tornaram parcialmente corretas em 1923? Por que são corretas agora? Se em 1921 Lênin e Trotsky representavam os “reais interesses” dos operários (contra os próprios operários), por que Stalin não poderia? Por que Kadar(17) não poderia na Hungria em 1956? A escola trotskista de santificação tem ajudado a obscurecer as verdadeiras lições da luta contra a burocracia.

Quando se estuda seriamente os anos cruciais após 1917, quando o destino da Revolução Russa ainda estava em ebulição no caldeirão, tem-se a atenção repetidamente voltada para os trágicos eventos da revolta de Kronstadt de 1921. Esses eventos são, de uma maneira sangrenta e dramática, a epítome da luta entre dois conceitos de Revolução, dois métodos revolucionários, dois tipos de ethos revolucionário. Quem decide o que é e o que não é interesse da classe operária em longo prazo? Quais métodos são permitidos para acertar as diferenças entre revolucionários? E quais métodos têm dois gumes e são capazes de, na longa duração, prejudicar a própria Revolução?

Há notavelmente pouco de natureza detalhada disponível em inglês sobre os eventos de Kronstadt. As histórias stalinistas, revisadas e reeditadas de acordo com as fortunas flutuantes dos funcionários do partido, não valem o papel em que são escritas. Elas são um insulto à inteligência de seus leitores, tratados como incapazes de comparar os mesmos fatos descritos em edições anteriores e posteriores do mesmo livro.

Os escritos de Trotsky sobre Kronstadt são poucos e mais preocupados com justificação retrospectiva e com a marcação de pontos no debate contra os anarquistas,(18) do que em analisar seriamente esse episódio particular da Revolução Russa. Trotsky e os trotskistas são particularmente atentos ao perpetuar o mito de que eles foram a primeira e única tendência anti-burocrática coerente. Todos os seus escritos buscam esconder o quanto a burocratização tanto do partido como dos conselhos já tinha ido longe em 1921, isto é, o quanto já tinham ido longe durante o período em que Lênin e Trotsky tinham controle total e indisputado. A tarefa para os revolucionários sérios hoje é ver a ligação entre as atitudes e pronunciamentos de Trotsky antes e durante o “grande debate sindical” de 1920-21 e a saudável hostilidade ao trotskismo das camadas mais avançadas e revolucionárias da classe operária industrial. Essa hostilidade se manifestaria, de armas na mão, durante a revolta de Kronstadt. Ela se manifestaria também dois ou três anos depois, dessa vez de braços cruzados, quando essas camadas avançadas deixaram de marchar em apoio a Trotsky, quando ele finalmente decidiu desafiar Stálin, dentro dos estreitos limites da máquina do partido, para cuja burocratização ele tinha contribuído significativamente.(19)

Deutscher no “Profeta Armado” retrata o pano de fundo da Rússia durante os anos da Guerra Civil, o sofrimento, o deslocamento econômico, a exaustão física absoluta da população. Mas o retrato é unilateral, ele se propõe a afirmar que a “vontade de ferro dos bolcheviques” era o único elemento de ordem, estabilidade e continuidade numa sociedade que estava pairando à beira do colapso total. Ele presta atenção reduzida às tentativas feitas por grupos de operários e revolucionários, tanto dentro do partido como fora de suas fileiras, de tentar a reconstrução social numa base inteiramente diferente, desde baixo.(20) Ele não discute a permanente oposição e hostilidade dos bolcheviques à gestão operária da produção(21) ou na verdade a qualquer empreendimento em larga escala que escapasse à sua dominação e controle. Dos eventos de Kronstadt em si, das calúnias dos bolcheviques contra Kronstadt e da repressão frenética que se seguiu aos eventos de março de 1921, Deutscher diz quase nada, a não ser que as acusações dos bolcheviques contra Kronstadt eram “infundadas”. Deutscher falha totalmente em enxergar a relação direta entre os métodos usados por Lênin e Trotsky em 1921 e aqueles outros métodos, aperfeiçoados por Stálin e depois usados contra os próprios velhos bolcheviques durante os notórios julgamentos de Moscou de 1936, 1937 e 1938.

Nas “Memórias de um Revolucionário” de Victor Serge há um capítulo dedicado a Kronstadt.(22) Os escritos de Serge são particularmente interessantes pelo fato de que ele estava em Leningrado (sic) em 1921 e apoiava o que os bolcheviques estavam fazendo, mesmo que relutantemente. Entretanto, ele não recorreu às difamações e deturpações de outros membros da liderança do partido. Seus comentários trazem luz ao estado mental quase esquizofrênico dos militantes de base do partido naquele momento. Por diferentes razões, nem os trotskistas nem os anarquistas perdoaram em Serge sua tentativa de reconciliar o que havia de melhor em suas respectivas doutrinas: a preocupação com a realidade e a preocupação com princípios.

Escritos anarquistas de algum valor e facilmente disponíveis (em inglês) sobre o assunto são virtualmente inexistentes, apesar do fato de que muitos anarquistas consideram essa área relevante para suas ideias. “Vivendo Minha Vida” de Emma Goldman e “O Mito Bolchevique” de Berkman contém algumas páginas vívidas mas altamente subjetivas sobre a rebelião de Kronstadt. “A Revolta de Kronstadt” de Anton Ciliga (produzido como panfleto em 1942) é um excelente relato curto que encara diretamente algumas das questões fundamentais. Está indisponível há anos. O relato de Voline, por outro lado, é muito simplista. Fenômenos complexos como a revolta de Kronstadt não podem ser significativamente interpretados por generalizações carregadas do tipo “como marxistas, autoritários e estatistas, os bolcheviques não poderiam permitir nenhuma liberdade ou ação independente às massas”. (Muitos argumentaram que há fortes traços blanquistas(23) e até mesmo bakuninistas no bolchevismo, e que é precisamente esses afastamentos do marxismo que estão na raiz da ideologia e prática “elitistas” dos bolcheviques). Voline até mesmo reprova os rebeldes de Kronstadt por “falarem em poder (o poder dos conselhos) ao invés de se livrarem da palavra de uma vez…” A luta prática, entretanto, não era contra “palavras” ou “ideias”. Era uma luta física contra sua encarnação concreta na história (na forma de instituições burguesas). É um sinal da confusão dos anarquistas nessa questão que eles possam igualmente reprovar os bolcheviques por terem dissolvido a assembleia constituinte(24) e os rebeldes de Kronstadt por proclamarem que defendiam o poder dos conselhos! Os anarquistas nos conselhos claramente percebiam o que estava em jogo, mesmo que muitos dos seus sucessores falhem em fazê-lo. Eles lutaram para defender a conquista mais profunda de outubro, o poder dos conselhos, contra todos os seus usurpadores, incluindo os bolcheviques.

Nossa contribuição às celebrações do quinquagésimo aniversário não consiste nos usuais panegíricos às aquisições dos mísseis e foguetes russos. Nem cantaremos odes às estatísticas da produção russa de aço. A expansão industrial pode ser um pré-requisito para uma vida melhor e mais completa, mas não é de forma alguma um sinônimo de uma tal vida, a menos que todas as relações sociais tenham sido revolucionadas. Nós estamos mais preocupados com os custos sociais das conquistas russas.

Alguns perceberam quais seriam esses custos num estágio bem inicial. Nós estamos interessados em trazer suas advertências proféticas a uma audiência bem mais ampla. O massacre final em Kronstadt teve lugar em 18 de março de 1921, exatamente cinquenta anos depois do extermínio dos comunardos por Thiers e Callifet. Os fatos sobre a Comuna são bem conhecidos. Mas cinquenta anos depois da Revolução Russa nós ainda temos que buscar informações básicas sobre Kronstadt. Os fatos não são fáceis de obter. Eles quedaram soterrados por montanhas de calúnias e distorções despejados sobre eles por stalinistas e trotskistas igualmente.

A publicação deste panfleto em inglês, neste momento particular, é parte deste empreendimento. O livro de Ida Mett “A Comuna de Kronstadt” foi publicado pela primeira vez em 1938. Ele foi republicado na França dez anos depois, mas esteve indisponível por muitos anos. Em 1962 e 1963 certas partes dele foram traduzidas em inglês e apareceram em Solidarity (II, 6 a 11). Nós agora temos o prazer de trazer aos leitores falantes de inglês uma versão levemente abreviada do livro como um todo, que contém materiais até agora indisponíveis na Inglaterra.

Além de vários textos publicados no próprio local em março de 1921, o livro de Ida Mett contém a carta aberta de Petrichenko de 1926, endereçada ao Partido Comunista Britânico. Petrichenko foi o presidente do Comitê Revolucionário Provisório de Kronstadt. Sua carta se refere às discussões no Bureau Político do Partido Comunista Britânico sobre a questão de Kronstadt, discussões que parecem ter aceito que não houve intervenções estranhas durante a revolta (membros do partido e outros podem buscar esclarecimento adicional sobre a questão em King Street,(25) cujos arquivos sobre o assunto devem proporcionar uma leitura interessante).

Ida Mett escreve de um ponto de vista anarquista. Seus escritos, entretanto, representam o que há de melhor na tradição revolucionária do “anarquismo de luta de classes”. Ela pensa em termos de uma solução coletiva, proletária, aos problemas do capitalismo. A rejeição da luta de classes, o anti-intelectualismo, a preocupação com moralidade transcendental e salvação pessoal que caracteriza tantos dos anarquistas de hoje não deve desviar os “marxistas” de prestar atenção seriamente ao que ela escreve. Nós não necessariamente endossamos todos os seus julgamentos e em algumas notas de rodapé corrigimos uma ou duas imprecisões factuais menores em seu texto. Algumas das suas generalizações parecem para nós muito sumárias e algumas das suas análises do fenômeno burocrático muito simples para ter algum uso real. Mas como uma crônica do que teve lugar antes, durante e depois de Kronstadt, seu relato permanece insuperável.

Seu texto joga uma luz interessante sobre a atitude em relação à revolta de Kronstadt mostrada no momento por várias tendências políticas russas (anarquistas, mencheviques, Socialistas Revolucionários – SR – de esquerda e de direita, bolcheviques, etc.). Alguns para quem a abordagem da política é superficial ao extremo (e para quem uma difamação ou palavra de ordem é substituto para o entendimento real) vão apontar acusadoramente para alguns desses testemunhos, para alguns desses manifestos e resoluções, como uma evidência condenando irrevogavelmente os rebeldes de Kronstadt. “Veja”, eles vão dizer “o que os mencheviques e SR de direita estão dizendo. Veja como eles estão defendendo um retorno à Assembleia Constituinte, e ao mesmo tempo proclamando sua solidariedade com Kronstadt. Isso não é uma prova positiva de que Kronstadt era um levantamento contrarrevolucionário? Vocês mesmos admitem que renegados como Victor Tchernov, presidente eleito da Assembleia Constituinte, ofereceu ajuda a Kronstadt? Que evidência adicional é necessária?”

Nós não temos medo de apresentar todos os fatos aos nossos leitores. Deixe que julguem por si mesmos. Temos a firme convicção de que a maioria dos leninistas e trotskistas é mantida tão ignorante desse período da história russa quanto os stalinistas do período dos julgamentos de Moscou. No melhor dos casos eles pressentem vagamente a presença de esqueletos no armário. No pior, eles papagaiam vagamente o que seus líderes lhes contam, intelectualmente preguiçosos demais ou politicamente muito bem condicionados demais para pesquisar por si mesmos. Revoluções reais nunca são “puras”. Elas desencadeiam as paixões mais profundas dos homens. As pessoas participam ativamente e são tragadas ao vórtice de tais acontecimentos por uma variedade de razões frequentemente contraditórias. Consciência e falsa consciência estão inextricavelmente misturadas. Um rio em plena cheia inevitavelmente carrega consigo uma certa quantidade de escombros. Uma revolução em plena vazão carrega inúmeros cadáveres políticos, e pode até mesmo momentaneamente dar-lhes um aspecto de vida.

Durante a Revolução Húngara de 1956 foram muitas as mensagens de apoio verbal ou moral aos rebeldes, emanando do ocidente, piedosamente pregando as virtudes da democracia burguesa e da livre empresa. O objetivo daqueles que falavam nesses termos era qualquer coisa menos a instituição de uma sociedade sem classes. Mas o seu apoio aos rebeldes permaneceu puramente verbal, particularmente quando se tornou claro para eles que os verdadeiros objetivos da revolução eram: uma democratização fundamental das instituições húngaras sem a reversão para a propriedade privada dos meios de produção.

A espinha dorsal da Revolução Húngara era a rede de conselhos operários. Sua principal demanda era por gestão operária da produção e um governo baseado nos conselhos. Esses fatos justificavam o apoio dos revolucionários ao redor do mundo. Apesar dos Mindszentys.(26) Apesar dos pequenos proprietários e socialdemocratas, ou suas sombras, agora tentando pegar carona no bonde revolucionário. O critério de classe é o decisivo.

Considerações similares se aplicam também à rebelião de Kronstadt. Seu núcleo eram os marinheiros revolucionários. Seus principais objetivos eram do tipo com os quais nenhum revolucionário de verdade poderia discordar. Que outros buscassem tirar vantagem da situação é inevitável, e irrelevante. A questão é quem está decidindo a melodia.

As atitudes em relação aos eventos de Kronstadt, expressas quase cinquenta anos depois do evento, fornecem uma visão profunda sobre o pensamento político de revolucionários contemporâneos. Elas podem de fato fornecer uma visão mais profunda do interior de seus alvos conscientes e inconscientes do que muitas discussões eruditas sobre economia ou filosofia, ou sobre outros episódios da história revolucionária.

É uma questão das atitudes básicas a respeito do que é o socialismo afinal de contas. O que foi sintetizado nos eventos de Kronstadt são alguns dos problemas mais difíceis de estratégia e ética revolucionárias: o problema dos meios e fins, das relações entre partido e massas, ou mesmo de que sequer um partido é necessário afinal de contas.

A classe operária pode desenvolver por si mesma apenas uma consciência sindical?(27) Ela deveria até mesmo ser autorizada, em qualquer circunstância, a ir tão longe?(28)

Ou a classe operária pode desenvolver uma consciência e compreensão mais profundas de seus interesses do que qualquer organização alegadamente agindo em seu nome? Quando os stalinistas e trotskistas falam em Kronstadt como uma “ação essencial contra um inimigo de classe”, quando revolucionários mais “sofisticados” se referem a isso como uma “necessidade trágica”, tem-se o direito de pausar por um momento. Tem-se o direito de perguntar o quão seriamente eles aceitam o dito de Marx de que “a emancipação da classe operária é uma tarefa da própria classe operária”. Eles levam isso a sério ou apenas repetem as palavras da boca para fora? Eles identificam o socialismo com a autonomia (organizacional e ideológica) da classe operária? Ou eles veem a si mesmos, com sua sabedoria sobre os “interesses históricos” dos outros, e com seus julgamentos sobre o que deveria ser “permitido”, como a liderança em torno da qual a futura elite vai se desenvolver e cristalizar? Tem-se o direito não apenas de perguntar… mas também de sugerir a resposta!

Notas:

(1) [N.T.] Svetlana Stalin (1926-2011) era a filha mais nova de Stalin, sendo formada em inglês e história dos Estados Unidos. Em 1967, justamente o ano da comemoração do 50º aniversário da Revolução Russa, ela desertou para os Estados Unidos, evento que foi explorado de maneira sensacionalista pela imprensa anticomunista. Na década de 1980 ela chegou a retornar para a URSS, e viveu alternadamente entre Inglaterra e Estados Unidos, até morrer naquele país. (retornar ao texto)

(2) [N.T.] Em 1965 o governo recém-empossado de Brejnev (1964-1982) lançou medidas de descentralização da economia, dando maior autonomia aos dirigentes das empresas para planejar suas metas de acordo com parâmetros que simulassem a busca do lucro (evidentemente, a burocracia jamais cogitaria em medidas que dessem algum poder aos operários). Entretanto, essas medidas foram logo hostilizadas pela burocracia do partido e refreadas, de modo que a economia soviética entrou num longo período de estagnação, até a adoção definitiva de reformas de mercado por Gorbatchev na década de 1980. (retornar ao texto)

(3) [N.T.] Andrei Sinyavsky e Yuli Daniel foram dois escritores russos condenados em 1966 ao confinamento em campos de trabalho forçado (gulags) por publicarem no exterior e sob pseudônimo obras satíricas contra a sociedade russa. Receberam a solidariedade de vários intelectuais no país, no que foi um dos pontos de partida do movimento de dissidência no campo da literatura e das artes. (retornar ao texto)

(4) [N.T.] Evento depois conhecido como Guerra dos Seis Dias, em que Israel, apoiado pelos Estados Unidos, derrotou Egito, Síria, Jordânia e Iraque e ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza (os chamados “territórios palestinos ocupados”, os quais retêm até hoje e nos quais aplica uma política de limpeza étnica contra a população palestina) e a península do Sinai (depois devolvida ao Egito em 1982). A URSS não interveio no conflito. (retornar ao texto)

(5) [N.T.] O Tratado de Interdição Parcial de Testes Nucleares foi assinado em 1963 entre Estados Unidos, Reino Unido e URSS, sendo depois aberto para a assinatura e ratificação por mais de uma centena de países (inclusive o Brasil), como uma forma de tentar impedir a proliferação de armas nucleares e refrear a corrida armamentista. (retornar ao texto)

(6) [N.T.] O autor ironiza o discurso dos governos da China sob a liderança de Mao Tsé-Tung e da Albânia de Enver Hoxha, que supostamente se mantinham fiéis aos princípios do socialismo, que teriam sido abandonados pela URSS. Eles atribuíam o abandono do socialismo na URSS ao “revisionismo” de Kruschev (ver nota 11), que sucedeu Stálin e introduziu algumas reformas cosméticas no regime de terror policial com o qual a burocracia submetia o conjunto da sociedade. Na sequência, o autor também ironiza as medidas ditas revolucionárias de Stálin. (retornar ao texto)

(7) [N.T.] Laurenti Beria (1899-1953) foi um dos chefes da policia soviética, na sua época chamada de NKVD (depois KGB), sendo assim um dos braços direitos de Stálin, responsável por inúmeras perseguições e massacres contra adversários reais ou supostos do dirigente máximo. Era uma das pessoas mais temidas da antiga URSS, até ele próprio ser condenado à morte e executado pouco depois da morte de seu líder. O autor alude à versão de que as intrigas de Beria seriam responsáveis pela ruptura entre Stálin e Josip Broz “Tito” (dirigente máximo da Iugoslávia desde o fim da II Guerra até a sua morte em 1980). Na realidade, a relativa independência da Iugoslávia em relação ao restante do bloco soviético deveu-se ao fato de que naquele país a guerrilha comunista (partisans) foi responsável por expulsar a ocupação nazista do país, sem depender do apoio dos aliados ou do Exército Vermelho da URSS (assim como na Albânia). Isso deu autoridade a Tito, dirigente militar e político do PC iugoslavo, para não se submeter totalmente a Stálin e buscar um rumo próprio para o socialismo (que na realidade não era muito diferente do da própria URSS, no sentido de que também não permitia nenhum grau de controle direto dos operários sobre a produção e sobre as demais instituições). Posteriormente, Tito chegou a um acordo com Kruschev em 1955 e seu país se reconciliou com a URSS. (retornar ao texto)

(8) [N.T.] Mihajlo Mihajlov (1934-2010) foi um acadêmico iugoslavo estudioso de literatura russa condenado em 1965 por publicar no exterior um texto que “difamava” a URSS, que já era então um país aliado. (retornar ao texto)

(9) [N.T.] Milovan Djilas (1911-1995) foi um dos dirigentes do PC iugoslavo e do movimento partisan, que divergiu de Tito em razão da forma centralizadora do regime político, tendo sido expulso do partido em 1954. Djilas foi preso por vários períodos nas décadas de 1950 e 1960 por suas declarações contrárias ao regime iugoslavo e ao stalinismo. Na prisão ele dedicou-se a escrever história e literatura e, ao contrário de outros dissidentes, nunca emigrou e viveu até o fim em seu país. (retornar ao texto)

(10) [N.T.] Referência à revolta húngara de 1956, em que o governo stalinista do país foi derrubado, num movimento em que o protagonismo coube aos conselhos de operários das fábricas. Entretanto, a URSS interveio com tropas para reprimir a revolta, dissolver os conselhos e reinstalar um governo fantoche. Até a altura em que o texto foi escrito, em 1967, essa revolta permanecia sendo o principal exemplo de luta contra o sistema stalinista em um país do leste europeu, uma vez que a Primavera de Praga, que teve igual destino, só aconteceria no ano seguinte, e ficou mais famosa devido ao contexto dos diversos outros acontecimentos marcantes de 1968.  (retornar ao texto)

(11) Paul Cardan, Do Bolchevismo à Burocracia (Solidarity Pamphlet 24). (retornar ao texto)

(12) [N.T.] Referência ao discurso de Nikita Kruschev (1894-1971) em fevereiro de 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da URSS. Kruschev tinha sucedido Stálin desde 1953 e permaneceria como dirigente máximo até 1964. Depois de haver expurgado os colaboradores mais diretos do antigo líder, tornou pública a denúncia dos “crimes contra a legalidade socialista” cometidos por Stálin (referência ao extermínio dos antigos dirigentes do partido, os chamados velhos bolcheviques) e repudiou o que foi chamado de “culto da personalidade” do líder. Na verdade, tratava-se de uma forma da burocracia stalinista “mudar para que tudo continuasse como antes”, ou seja, fazer algumas concessões e distensionar o clima de terror e desconfiança em que viviam os integrantes do próprio aparato do partido, do Estado e o conjunto da sociedade russa, mas sem abrir mão do poder político e privilégios. Na prática, reconheceram-se “erros” e “excessos” de Stálin, mas atribuiu-se tudo à pessoa do antigo líder, e manteve-se inalterada a estrutura de uma ditadura de partido único, sem qualquer margem de autonomia para a classe operária, nem na gestão da produção, nem nas demais instituições. Naquele mesmo ano, a repressão à revolta húngara mostrou que a mal chamada “desestalinização” não significaria também abrir mão do controle da URSS sobre os seus chamados estados-satélites do leste europeu. (retornar ao texto)

(13) [N.T.] Optamos por traduzir “soviets”, como está no texto original em inglês, e também como já vem sendo usado em português há várias décadas; diretamente como conselhos. O uso da palavra russa soviet para designar os conselhos operários, embora já esteja consagrado na nossa língua, acaba por atenuar impacto e o significado profundo do destino dessas instituições. Dizer que o poder dos “soviets” foi usurpado pelos bolcheviques não causa tanto impacto quanto dizer que os bolcheviques suprimiram e usurparam o poder de conselhos operários. É esse impacto que buscamos realçar ao traduzir diretamente soviet como conselho. (retornar ao texto)

(14) Para informações sobre o seu programa ver A Oposição Operária por Alexandra Kollontai. Essa obra foi pela primeira vez publicada em inglês em Workers Deadnough de Sylvia Pankhurst em 1921 e republicado em 1961 em Solidarity Pamphlet 8. (retornar ao texto)

(15) A história de grupos como Verdade Operária e Luta Operária ainda precisa ser escrita. (retornar ao texto)

(16) [N.T.] A cidade de São Petersburgo foi fundada pelo Czar Pedro, o Grande, em 1703, e foi capital do império russo até 1918, em plena Revolução, quando a sede foi transferida para Moscou, que é até hoje a capital. De 1914 a 1924 a cidade de São Petersburgo foi rebatizada como Petrogrado (era esse o seu nome no momento dos acontecimentos citados pelo autor), e só a partir de 1924 ela teve o nome de Leningrado, que é como aparece no texto, com certa imprecisão, portanto. Desde 1991, com a queda da URSS, ela voltou a ter o nome original de São Petersburgo. (retornar ao texto)

(17) [N.T.] Janos Kadar (1912-1989) foi o burocrata colocado pela URSS como ditador da Hungria depois que as tropas soviéticas derrotaram a Revolução dos Conselhos de 1956. A revolução tinha temporariamente derrubado o governo stalinista anterior, até ser sufocada pela URSS. Kadar permaneceu no cargo até 1988. (retornar ao texto)

(18) Uma tarefa fácil depois de 1936, quando alguns bem conhecidos “líderes” anarquistas (sic!) entraram no governo da Frente Popular na Catalunha no começo da Guerra Civil Espanhola e foram autorizados a continuar lá pelos anarquistas de base. Essa ação, numa área em que os anarquistas tinham uma base de massas no movimento dos trabalhadores, condenou-os irrevogavelmente, assim como os desenvolvimentos da Revolução Russa condenaram irrevogavelmente os mencheviques, como incapazes de resistir ao teste dos eventos. (retornar ao texto)

(19) Três declarações de Comunismo e Terrorismo de Trotsky (Ann Harbor: University of Michigan Press, 1961), publicadas originalmente em 1920, vão ilustrar esse ponto: “a criação de uma sociedade socialista significa a organização dos operários sobre novas fundações, sua adaptação a essas fundações e sua reeducação ao trabalho, com uma finalidade inalterável de aumentar a produtividade do trabalho…” (p. 146). “Eu considero que se a Guerra Civil não tivesse espoliado a nossa economia de todos que eram mais fortes, mais independentes, mais dotados com iniciativa, nós deveríamos indubitavelmente ter seguido o caminho da gerência por um homem só na esfera da administração econômica muito mais cedo e muito menos dolorosamente” (p.162-163). “Nós temos sido mais de uma vez acusados de ter substituído a ditadura dos conselhos pela ditadura de nosso próprio partido… Na substituição do poder da classe operária pelo poder do partido não há nada acidental, e na realidade não há substituição nenhuma. Os comunistas expressam os interesses fundamentais da classe operária…” (p. 109). Eis aí os antecedentes anti-burocráticos do trotskismo. É interessante que o livro tenha sido altamente exaltado por Lênin. Lênin apenas entrou em discussão com Trotsky sobre a questão sindical na reunião do comitê central de 8 e 9 de novembro de 1920. Durante a maior parte de 1920 Lênin endossou todos os decretos burocráticos de Trotsky em relação aos sindicatos. (retornar ao texto)

(20) Para um relato interessante do crescimento do Movimento dos Comitês de Fábrica e da oposição a eles pelos bolcheviques no Primeiro Congresso dos Sindicatos de toda a Rússia (janeiro de 1918) ver A Guilhotina em Ação de Maximov (Chicago, 1940). (retornar ao texto)

(21) No Nono Congresso do Partido (março de 1920) Lênin apresentou uma resolução para efetivar que a tarefa dos sindicatos fosse explicar a necessidade de uma “máxima redução da administração colegiada e a introdução gradual da gerência individual nas unidades engajadas diretamente na produção” (Robert V. Daniels, A Consciência da Revolução, Cambridge, Massachussets, 1960, p. 124). (retornar ao texto)

(22) Os escritos de Serge sobre esse assunto foram trazidos a atenção dos leitores no Reino Unido pela primeira vez em 1961 (Solidarity I, 7). Esse texto foi depois reimpresso como panfleto. (retornar ao texto)

(23) [N.T.] Louis August Blanqui (1805-1881) foi uma figura célebre nos movimentos revolucionários franceses do século XIX, sendo a representação mais acabada do projeto de que a tomada do poder depende muito mais da ação de um pequeno grupo de indivíduos muito determinados, do que de uma ampla base de apoio social e de um projeto de transformação geral, baseado em alguma leitura prévia da sociedade, etc. Foi uma espécie de precursor daquilo que no século XX ficaria conhecido como “foquismo”, a ideia de que um pequeno grupo armado, inicialmente clandestino, pode dar início a uma revolução. Como encarnação desse tipo de concepção, ele dedicou sua vida a inúmeras conspirações para tomar o poder, sempre acompanhado de um pequeno punhado de colaboradores, todas fracassadas, resultando em que ele passou boa parte de sua vida (ao todo 37 anos) na prisão. Nesse mesmo trecho, o autor também se refere a Bakunin, um dos pilares do anarquismo, que era bem menos alheio do que Blanqui à teoria social e ao estudo, mas igualmente propenso a organizar pequenas seitas conspirativas de seguidores. (retornar ao texto)

(24) Ver o artigo de Nicolas Walter em Liberdade (28 de outubro de 1967) intitulado “Outubro de 1917: revolução de forma alguma”. (retornar ao texto)

(25) [N.T.] Endereço da sede do Partido Comunista Britânico em Londres. (retornar ao texto)

(26) [N.T.] József Mindszenty (1892-1975) foi cardeal da Igreja Católica na região da capital húngara, Budapeste. Ele foi opositor da República dos Conselhos de 1919-1920 e depois, já no posto de cardeal, também se colocou contra o regime stalinista instalado em 1945, pelo qual foi preso em 1949. Durante a Revolução de 1956, na qualidade de preso político, ele foi retirado da prisão e se refugiou na embaixada dos Estados Unidos, de onde se exilou para a Áustria, onde morreu, como uma espécie de mártir católico anticomunista. (retornar ao texto)

(27) Lênin disse explicitamente que sim em seu Que Fazer? (1902) (retornar ao texto)

(28) Numa declaração ao Décimo Congresso do Partido (1921) Lênin se refere a uma mera discussão sobre os sindicatos como um “luxo absolutamente inadmissível” que “nós” não deveríamos ter permitido. Essas observações revelam involuntariamente volumes inteiros não escritos sobre o assunto (e incidentalmente resolvem decisivamente a questão daqueles que buscam desesperadamente por uma “evolução” no seu Lênin). (retornar ao texto)

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terça-feira, 7 de março de 2023

Em memória da Revolta de Kronstadt - por Nestor Makhno no Dyelo Truda

por Nestor Makhno

Sete de março é uma data angustiante para os trabalhadores da chamada “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas” que participaram de uma forma ou de outra dos eventos que ocorreram em Kronstadt. Sua comemoração é igualmente dolorosa para os trabalhadores de todos os países do mundo, pois traz de volta à memória os trabalhadores e marinheiros livres de Kronstadt que protestaram contra o seu carrasco vermelho, o “Partido Comunista Russo”, que transformou o governo “Soviético” em um mero instrumento e pôs fim à revolução russa.

Kronstadt exigia aos seus carrascos estatistas que devolvessem tudo o que foi roubado dos trabalhadores da cidade e do campo, os verdadeiros artífices da revolução. De fato, os Kronstadtinos insistiam na implementação total dos princípios fundamentais da revolução de outubro, a saber:

Sovietes livremente eleitos, liberdade de expressão e de imprensa para trabalhadores e camponeses, anarquistas e socialistas revolucionários de esquerda.

O Partido Comunista Russo encarou suas reivindicações como uma afronta imoral ao monopólio político recém-conquistado por ele no país e, escondendo o rosto covarde de um carrasco por trás da máscara de revolucionário e amigo dos trabalhadores, declarou os marinheiros e trabalhadores livres de Kronstadt contrarrevolucionários, enviando contra eles dezenas de milhares de policiais e escravos obedientes para reprimi-los. Tchekistas, Kursanty (cadetes oficiais do Exército Vermelho - nota de Alexandre Skirda), membros do Partido... foram mobilizados para massacrar aqueles combatentes e revolucionários íntegros – os Kronstadtinos –, que não tinham nada para ser censurados diante das massas revolucionárias, pois sua única ofensa foi sentir indignação ante as mentiras e a covardia do Partido Comunista Russo, o qual pisoteava nos direitos dos trabalhadores e na própria revolução.

Em 7 de março de 1921, às 18h45, uma tempestade de fogo de artilharia foi desencadeada sobre Kronstadt. Como era natural e inevitável, Kronstadt reagiu. Revidaram, não apenas em nome de suas reivindicações, mas também em nome de todos os trabalhadores do país, que lutavam por seus direitos conquistados na revolução, arbitrariamente pisoteados pelas autoridades bolcheviques.

Sua luta ecoou por toda a Rússia escravizada, que estava em prontidão para apoiar uma luta tão justa e heroica, mas que, infelizmente, se mostrou impotente para a vitória, porque havia sido desarmada, constantemente explorada e mantida em cativeiro pelos destacamentos repressivos do Exército Vermelho e da Tcheka, formada especialmente para alquebrantar o espírito livre e o livre arbítrio dos trabalhadores da nação.

É difícil estimar todas as perdas sofridas pelos combatentes de Kronstadt e massa cega do Exército Vermelho. Todavia, podemos ter a certeza de que somaram mais de dez mil mortos. Em sua maioria, trabalhadores e camponeses, os mesmos que o Partido da Mentira havia usado para tomar o poder com falsas promessas de um futuro melhor. Fazia anos que os utilizava exclusivamente em benefício de seus próprios interesses partidários, a fim de difundir e consolidar um domínio todo-poderoso sobre a vida econômica e política do país.

Contra a oligarquia bolchevique, Kronstadt combateu pelo melhor da luta operária e camponesa na revolução russa. Por isso mesmo, os oligarcas exterminaram os kronstadtinos, alguns logo após a vitória militar e o restante nas masmorras e fortificações herdadas do regime czarista e burguês. Compreendida assim, a data de 7 de março deve aparecer como um aniversário profundamente doloroso para os trabalhadores de todos os países. Portanto, não é apenas entre os trabalhadores russos que a memória dolorosa dos revolucionários de Kronstadt, que tombaram em combate ou dos sobreviventes que apodreceram nas prisões bolcheviques, deve ser lembrada. Mas este assunto não será resolvido com lamúrias: além da comemoração de 7 de março, os trabalhadores de todas as terras devem organizar comícios por toda parte para protestar contra os ultrajes perpetrados pelo Partido Comunista Russo em Kronstadt contra os trabalhadores e marinheiros revolucionários, e exigir a libertação dos que ainda sobrevivem e definham nas prisões bolcheviques e internados nos campos de concentração da Finlândia.

Dyelo Truda No. 10, março de 1926, pp. 3-4.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Lições e significados de Kronstadt, por Alexander Berkman

por Alexander Berkman

Tradução: Ateneu Diego Giménez / COB-AIT Piracicaba/SP.

O movimento de Kronstadt foi espontâneo, sem preparativos preliminares e pacífico. A sua transformação em um conflito armado de fim trágico e sangrento foi devido unicamente ao despotismo da ditadura comunista.

A despeito de se dar conta do caráter geral dos bolcheviques, Kronstadt, não obstante, ainda tinha fé na possibilidade de uma solução amistosa. Crendo que o governo comunista viria à razão, lhe creditava um certo espírito de justiça e de liberdade.

A experiência de Kronstadt prova uma vez mais que o governo, o Estado – qualquer que seja seu nome e sua forma – é sempre o inimigo mortal da liberdade e da autodeterminação. O Estado não tem nem alma nem princípios. Ele tem um único objetivo: assegurar o poder e conservá-lo, a qualquer preço. Esta é a lição política de Kronstadt.

Outra lição, uma lição estratégica, nos é ensinada por qualquer rebelião. O êxito da revolta depende de sua determinação, de sua energia, e de sua agressividade. Os insurretos têm do seu lado a simpatia das massas. Esta simpatia se acelera com a onda crescente da insurreição. Não deve ser permitido que ela seja apaziguada, que se debilite por um retorno à monotonia cotidiana.

Por outro lado, toda revolução tem contra ela o aparato poderoso do Estado. O governo pode concentrar em suas mãos as fontes de provisões e os meios de comunicação. Não se deve dar tempo ao governo para que faça uso de seus poderes. A rebelião deve ser vigorosa, atacando inesperadamente e determinadamente. Ela deve se alastrar e se desenvolver. Uma rebelião que fica localizada, usando a política da espera, ou que se coloca na defensiva, está inevitavelmente condenada à derrota.

Especialmente neste ponto, Kronstadt repetiu os erros estratégicos fatais dos comunardos de Paris. Estes últimos não quiseram seguir a opinião dos que propuseram um ataque imediato a Versalhes, quando o governo de Thiers estava desorganizado. Não estenderam a revolução para todo o país. Nem os operários parisienses de 1871 nem os marinheiros de Kronstadt tinham por objetivo a abolição do Governo. Os comunardos não queriam, em suma, mais que certas liberdades republicanas, e quando o governo tentou desarmá-los, expulsaram os Ministros de Thiers de Paris, estabeleceram suas liberdades e se prepararam para defendê-las – nada mais. Assim como Kronstadt também exigiu apenas eleições livres para os Sovietes. Tendo prendido alguns Comissários, os marinheiros se dispuseram a se defenderem contra o ataque. Kronstadt recusou-se a seguir a opinião dos especialistas militares de apoderar-se imediatamente de Oranienbaum. Este forte era da maior importância militar e tinha também 50.000 puds [5] de trigo pertencentes a Kronstadt. A tomada de Oranienbaum era fácil, dado que os bolcheviques, surpreendidos, não teriam tempo de enviar reforços. Porém, os marinheiros se recusaram tomar a ofensiva, e logo se perdeu o momento psicológico.

Alguns dias depois, quando as declarações e os atos do Governo bolchevique convenceram Kronstadt de que ela era arrastada a uma luta de vida ou morte, era muito tarde para corrigir o erro [6].

O mesmo aconteceu com a Comuna de Paris. Quando a lógica da luta a que foram levados demonstrou aos comunardos a necessidade de abolir o regime de Thiers não só em Paris mas em toda a extensão do país, já era muito tarde. Na Comuna de Paris, assim na revolta de Kronstadt, a tendência à tática passiva e defensiva se provou fatal.

Kronstadt caiu. O movimento de Kronstadt pelos Sovietes livres foi afogado em sangue, no mesmo momento em que o governo bolchevique fazia concessões para os capitalistas europeus, assinando a paz de Riga, graças à qual uma população de doze milhões foi descartada à mercê da Polônia, ajudando o imperialismo turco a estrangular a república do Cáucaso.

Porém o “triunfo” dos bolcheviques sobre Kronstadt carregava em suas entranhas a derrota do bolchevismo. Ele expõe o caráter verdadeiro da ditadura comunista. Os comunistas mostraram que estavam dispostos a sacrificar o comunismo, para selar quase qualquer compromisso com o capitalismo internacional, no entanto recusaram as justas exigências de seu próprio povo – exigências que repetiam os lemas de Outubro dos próprios bolcheviques: Sovietes eleitos pelo voto direto e secreto, segundo a constituição da R.S.F.S.R.; e liberdade de expressão e de imprensa para os partidos revolucionários.

O Décimo Congresso de Todas as Rússias do Partido Comunista se reunia em Moscou no momento da rebelião de Kronstadt. Nesse congresso, toda a política econômica bolchevique mudou devido aos acontecimentos de Kronstadt e à atitude similarmente ameaçadora do povo em várias outras partes da Rússia e da Sibéria. Os bolcheviques preferiram reverter sua política fundamental, abolir a razverstka (requisição forçada), introduzir a liberdade de comércio, fazer concessões aos capitalistas e desfazer-se do próprio comunismo – o comunismo pelo qual foi proclamada a Revolução de Outubro, pelo qual se derramaram mares de sangue e pelo qual a Rússia foi levada para a ruína e para o desespero – mas não para permitir Sovietes livremente eleitos.

Há alguém, no atual momento, que possa duvidar das intenções reais dos bolcheviques? Eles perseguiram Ideais Comunistas ou o Poder Governamental?

Kronstadt é de uma grande importância histórica. Tocou o sino fúnebre do bolchevismo com sua ditadura de partido, sua centralização insensata, seu terrorismo tchekista e suas castas burocráticas. Ele atacou sobre o próprio coração da autocracia russa. Chocou ao mesmo tempo as mentes inteligentes e honradas da Europa e da América, e as obrigou a um exame crítico das teorias e dos fatos bolcheviques.

Explodiu o mito bolchevique do Estado Comunista como sendo o “Governo dos Operários e Camponeses”. Demonstrou que a ditadura do Partido Comunista e a Revolução Russa eram fenômenos opostos, contraditórios, que se excluíam reciprocamente. Demonstrou que o regime bolchevique é uma tirania e uma reação implacáveis, e que o Estado Comunista é ele mesmo a contrarrevolução mais poderosa e perigosa.

Kronstadt caiu. Porém caiu vitoriosa em seu idealismo e sua força moral, em sua generosidade e sua humanidade superiores. Kronstadt foi esplêndida. Com razão, estava orgulhosa de não ter derramado o sangue de seus inimigos, os comunistas que se encontravam em seu seio. Os marinheiros mal educados e incultos, toscos em suas maneiras e em sua linguagem, eram nobres demais para seguir o exemplo bolchevique da vingança: não fuzilaram nem aos odiosos Comissários. Kronstadt encarna o espírito generoso e clemente da alma eslava e do movimento emancipador secular da Rússia.

Kronstadt foi a primeira tentativa popular e inteiramente independente de libertar-se do jugo do Socialismo de Estado – uma tentativa feita diretamente pelo povo, pelos próprios operários, soldados e marinheiros. Era o primeiro passo em direção à Terceira Revolução, a qual é inevitável e que, assim esperamos, levará para a infeliz Rússia a liberdade permanente e a paz.

NOTAS

(5) Um pud equivale a 16.4 quilos.

(6) A negativa de Kronstadt a se apoderar de Oranienbaum deu ao governo a possibilidade de reforçar a fortaleza com seu regimento fiel, de eliminar as partes “infectadas” da guarnição e de fuzilar os chefes da esquadra aérea que estavam prestes a se unirem aos rebeldes de Kronstadt. Mais tarde, os bolcheviques fizeram uso da fortaleza como um ponto de vantagem contra Kronstadt. Entre os fuzilados em Oranienbaum se encontravam: Kolossov, chefe da divisão de aviadores da Marinha Vermelha e presidente do Comitê Revolucionário Provisório que acabara de organiza-se em Oranienbaum; Balachanov, secretário do Comitê, e os membros do Comitê Romanov, Vladimirov etc.

* Este texto é originalmente parte do livro The Kronstadt Rebellion (Berlin, Der Sindikalist, 1922). No Brasil, foi publicado como Kronstadt (Ateneu Diogo Giménez, 2011: http://anarkio.net/Pdf/kronstadt.pdf). Tradução: Ateneu Diego Giménez / COB-AIT Piracicaba/SP. Seleção e edição por Pablo Mizraji. ITHA, 2017.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Kronstadt: Lamanov, Anatoli Nikolaevich

 

Rebelião de Kronstadt
Lamanov (ou A. H. Лamahob) é o primeiro, à esquerda.

Lamanov, Anatoli Nikolaevich 1889-1921

Uma breve biografia de Anatoli Lamanov, a voz do ideólogo da Revolta de Kronstadt

por Nick Heath

Anatoli Lamanov nasceu em 3 de julho de 1889. Seu pai, Nikolai P. Lamanov, era, em 1913, tenente-coronel e chefe de tripulação da frota russa na principal base naval de Kronstadt. Sua mãe tinha simpatias populistas e seu irmão mais velho era o tenente da frota Piotr Lamanov, que também comandou e participou das primeiras agitações revolucionárias em Kronstadt durante o ano de 1917.

Aluno do terceiro ano da Universidade Nacional de Química, conhecido por ministrar palestras sobre história natural, geografia e tecnologia, durante os anos da guerra, Anatoli Lamanov angariou grande simpatia dos trabalhadores, marinheiros e soldados de Kronstadt. Mas ao contrário de seu irmão mais velho, que tinha envolvimento com os socialistas revolucionários, Anatoli, aparentemente, não manteve ligações diretas com nenhum grupo político.

Ele é descrito pelo inglês Morgan Phillips Price, correspondente em Moscou do Manchester Guardian, como tendo “cabelos compridos, olhos sonhadores e o olhar distante de um idealista”, além de “sério, amigável e um tanto enigmático”.

Lamanov se tornou chefe do treinamento vocacional do departamento municipal de educação em Kronstadt. Ao mesmo tempo, foi eleito para o Comitê do Movimento pelos funcionários do laboratório químico de Kronstadt. Foi presidente do Soviete de Trabalhadores de Kronstadt em março e abril e, a partir de maio, do Soviete de Trabalhadores e Soldados. Nas sessões do Soviete, proferia discursos contundentes, assumindo a liderança, ao lado de Ippolitov, Rivkin e Zverin, de uma facção apartidária. Em agosto, o grupo sem partido mudou de nome ao juntar-se à esquerda radical e à divisão antiparlamentar dos Socialistas Revolucionários, a União dos SR-Maximalistas. Como Getzler afirma: “...o grupo rejeitou o facciosismo partidário, defendeu o sovietismo puro e assim se adaptou admiravelmente na paisagem revolucionária e marcadamente soviética de Kronstadt...” (p. 37).

Lamanov também foi editor do jornal de Kronstadt, o Izvestia. Foi descrito nas memórias do astuto bolchevique F. F. Raskolnikov como sendo um “cem por cento filisteu” (filisteu era uma palavra muito usada na época pelos bolcheviques, especialmente por Lênin e Trotsky, para desqualificar seus oponentes políticos). Entretanto, longe de ser um filisteu, Lamanov foi um incansável defensor da democratização (por falta de uma palavra melhor) da revolução e de uma iniciativa educacional e cultural de massa, inclusive por meio do teatro: “... o teatro complementa o que vemos e ouvimos na vida e lemos nos livros; injeta novas ideias nas mentes dos espectadores, ideias que são novas não por causa de seu conteúdo, mas pelo palco, diante de nós, proporcionar-nos a sua plena incorporação”.

O Soviete abriu-se a muitos oradores de todos os grupos revolucionários, bolcheviques, socialistas revolucionários e anarquistas.

Os bolcheviques sempre foram uma minoria dentro do Soviete de Kronstadt, ainda que tenham feito grandes esforços para manipular e controlar a organização. Mas Lamanov lembrava aos bolcheviques que foi o povo, e não o partido, que fez a Revolução de Fevereiro.

Muito embora os maximalistas mantivessem um grande número de delegados no soviete, ao longo de sua história, Lamanov renunciou ao grupo no final de 1919, já que não queria se associar ao atentado à sede do Partido Comunista de Moscou, condenado e compreendido por ele como sendo obra dos maximalistas.

Lamanov se candidatou a membro candidato do partido bolchevique em algum momento do ano de 1920. Durante o levante dos marinheiros, não participou dos movimentos iniciais da revolta e tampouco integrou o Comitê Revolucionário. No entanto, continuou a editar o Izvestia de Kronstadt e, em suas páginas, sugeriu os lemas “Terceira Revolução” e comunismo sem “comissariocracia”. Lamanov anunciou sua renúncia ao Partido Comunista em março (de 1921), justificando que sempre foi um maximalista. Assim, o Izvestia tornou-se porta-voz dos insurgentes de Kronstadt, enchendo suas páginas com cartas e declarações de muitos dos rebeldes envolvidos na revolta.

Foi preso em 18 de março de 1921, pelas tropas soviéticas. Os rigores do interrogatório da Tcheka parecem tê-lo alquebrantado, pois Lamanov prontamente apresentou provas contra os outros líderes da revolta. A princípio, forneceu o seguinte testemunho: “O motim de Kronstadt foi uma surpresa para mim. Eu o vi como um movimento espontâneo”. Porém, mais tarde, em seu depoimento, afirmou que o motim havia sido planejado desde o início pelos SRs de Esquerda!

Condenado à morte em 20 de abril pela Tcheka de Petrogrado, como “contrarrevolucionário”, foi fuzilado no dia seguinte e seu corpo enterrado em Petrogrado.

Nick Heath

8 de outubro de 2009

Referência:

Getzler, I. Kronstadt 1917-1921: The Fate of a Soviet Democracy. (“Kronstadt 1917-1921: O Destino de um Soviete Democrático”).