sábado, 2 de dezembro de 2017

JOSUÉ DE CASTRO E A FOME EM 2017


Após uma queda contínua de mais de uma década, a fome voltou a crescer mundialmente, afetando 815 milhões de pessoas em 2016, ou 11% da população mundial, segundo nova publicação do relatório anual das Nações Unidas sobre segurança alimentar e nutrição mundial. Ao mesmo tempo, múltiplas formas de desnutrição ameaçam a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo. O aumento - 38 milhões de pessoas a mais do que no ano anterior - é em grande parte devido à proliferação de conflitos armados, das mudanças climáticas e da crise econômica.

De acordo com o relatório, cerca de 155 milhões de crianças menores de cinco anos apresentam problemas de crescimento (muito pequenas para a sua idade) e peso muito abaixo do esperado. Por outro lado, estima-se que 41 milhões de crianças sofrem de obesidade. A anemia entre as mulheres e a obesidade adulta também é motivo de preocupação. Essas tendências são uma consequência não só das guerras e mudanças climáticas, mas também de alterações radicais no hábito alimentar das pessoas, bem como da desaceleração econômica dos últimos anos.

A fome atingiu algumas partes do Sul do Sudão por vários meses no início de 2017, e há um alto risco de que ela possa se repetir neste país, além de aparecer em outros locais afetados por conflitos bélicos, a saber, o nordeste da Nigéria, a Somália e o Iêmen.

Mas mesmo em regiões pacíficas, secas ou inundações ligadas em parte ao fenômeno climático do El Niño, bem como a desaceleração econômica global, também viram a segurança alimentar e a nutrição se deteriorarem.

O relatório é a primeira avaliação global da ONU sobre segurança alimentar e nutrição a ser lançada após a adoção da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável de 2030, que visa acabar com a fome e todas as formas de desnutrição até 2030, como uma prioridade política internacional.

"Na última década, os conflitos armados aumentaram dramaticamente em número e se tornaram de natureza mais complexa e de difícil solução", anuncia o prefácio do relatório das entidades envolvidas, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Reino Unido Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Mundial de Alimentos (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Destaca-se que a maior parte das crianças com insegurança alimentar e desnutridas no mundo estão concentradas em zonas de guerra.

Isso provocou um sinal vermelho que não pode ser ignorado. Pois, a fome e todas as formas de desnutrição não serão erradicadas até 2030, a menos que se enfrentem todos os fatores que prejudicam a segurança alimentar e a nutrição no mundo. Garantir a paz e a inclusão social é uma condição necessária para alcançar tal objetivo.

Fome e segurança alimentar: números oficiais

• Número global de pessoas famintas no mundo: 815 milhões, incluindo:
- Na Ásia: 520 milhões
- Na África: 243 milhões
- Na América Latina e no Caribe: 42 milhões
•  População global com fome em termos proporcionais no mundo: 11%
- Ásia: 11,7%
- África: 20% (no leste da África, 33,9%)
- América Latina e Caribe: 6,6%
Desnutrição em todas as suas formas
• Número de crianças com menos de 5 anos de idade que sofrem de crescimento atrofiado (altura baixa demais para a idade): 155 milhões
Número de pessoas que vivem em países afetados por diferentes níveis de conflito: 122 milhões
• Crianças com menos de 5 anos afetadas pelo desperdício (peso muito baixo devido a altura): 52 milhões
• Número de adultos obesos: 641 milhões (13% de todos os adultos no planeta)
• Crianças com menos de 5 anos com excesso de peso: 41 milhões
• Número de mulheres em idade reprodutiva afetadas pela anemia: 613 milhões (cerca de 33% do total)
O impacto do conflito
• 815 milhões de pessoas com fome no planeta vivem em países afetados por conflitos: 489 milhões
• A prevalência de fome nos países afetados por conflitos é 1,4 - 4,4 pontos percentuais maior que em outros países
• As pessoas que vivem em países afetados por crises prolongadas são quase 2,5 vezes mais propensas a serem subnutridas do que as pessoas em outros lugares.

*****

JOSUÉ DE CASTRO


1. O assunto deste livro é bastante delicado e perigoso. A tal ponto delicado e perigoso que se constituiu num dos tabus de nossa civilização. É realmente estranho, chocante, o fato de que, num mundo como o nosso, caracterizado por tão excessiva capacidade de escrever-se e de publicar-se, haja até hoje tão pouca coisa escrita acerca do fenômeno da fome, em suas diferentes manifestações. Consultando a bibliografia mundial sobre o assunto, verifica-se a sua extrema exiguidade. Extrema quando a pomos em contraste com a minuciosa abundância de trabalhos sobre temas outros de muito menor significação. Tal pobreza bibliográfica se apresenta ainda mais estranha e mais chocante quando meditamos acerca do conteúdo do tema da fome — de sua transcendental importância e de sua categórica finalidade orgânica.

Já outros estudiosos se tinham espantado diante deste inexplicável vazio bibliográfico: não há muito, Gregorio Marañon, recolhendo material para a elaboração de um trabalho sobre a regulação hormonal da fome [1], se surpreendeu com o número insignificante de fichas que conseguiu reunir acerca deste problema fundamental. Registrando o fato, o escritor espanhol, interessado no momento noutra ordem de ideias, não se deu ao trabalho de buscar as razões ocultas que determinaram esta quase que abstenção de nossa cultura em abordar o tema da fome. Em examiná-lo mais a fundo, não só em seu aspecto estrito de sensação — impulso e instinto que tem servido de força motriz a evolução da humanidade (Espinosa) — como em seu aspecto mais amplo da calamidade universal. Sob este último aspecto, se fizermos um estudo comparativo da fome com as outras grandes calamidades que costumam assolar o mundo — a guerra e as pestes ou epidemias — verificaremos, mais uma vez, que a menos debatida, a menos conhecida em suas causas e efeitos, é exatamente a fome. Para cada mil publicações referentes aos problemas da guerra, pode-se contar com um trabalho acerca da fome. No entanto, os estragos produzidos por esta última calamidade são maiores do que os das guerras e das epidemias juntas, conforme é possível apurar, mesmo contando com as poucas referências existentes sobre o assunto [2]. 

E há mais, a favor deste triste primado da fome sobre as outras calamidades, o fato universalmente comprovado de que ela constitui a causa mais constante e efetiva das guerras e a fase preparatória do terreno, quase que obrigatória, para a eclosão das grandes epidemias. Quais são os fatores ocultos desta verdadeira conspiração de silêncio em torno da fome? Será por simples obra do acaso que o tema não tem atraído devidamente o interesse dos espíritos especulativos e criadores dos nossos tempos? Não cremos. O fenômeno é tão marcante e se apresenta com tal regularidade que, longe de traduzir obra do acaso, parece condicionado às mesmas leis gerais que regulam as outras manifestações sociais de nossa cultura. Trata-se de um silêncio premeditado pela própria alma da cultura: foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente. O fundamento moral que deu origem a esta espécie de interdição baseia-se no fato de que o fenômeno da fome, tanto a fome de alimentos como a fome sexual, é um instinto primário e por isso um tanto chocante pura uma cultura racionalista como a nossa, que procura por todos os meios impor o predomínio da razão sobre o dos instintos na conduta humana. Considerando o instinto como o animal e só a razão como o social, a nossa civilização, em sua fase decadente, vem procurando negar sistematicamente o poder criador dos instintos, tidos como forças desprezíveis. Aí encontramos uma das imposições da alma coletiva da cultura, que fez do sexo e da fome assuntos tabus — impuros e escabrosos — e por isto indignos de serem tocados. Sobre o problema do sexo, foi mantido um silêncio opressor, até o dia em que um homem de gênio, num gesto inconveniente e providencial, afirmou, diante do fingido espanto da ciência e da moral oficiais, que o instinto sexual é uma força invencível, tão intensa que atinge a consciência e a domina inteiramente. Freud demonstrou com tal genialidade o primado do instinto, que é essencial, sobre o racional, que é acessório, no desempenho do comportamento humano, que não houve remédio senão aceitar-se, mesmo a contragosto, a sua teoria e deixar-se abrir os diques com que se procurava ingenuamente afogar as raízes da própria vida. Desde então foi possível debater-se em altas vozes o problema do sexo.

Quanto à fome, foram necessárias duas terríveis guerras mundiais e uma tremenda revolução social — a revolução russa — nas quais pereceram dezessete milhões de criaturas, dos quais doze milhões de fome, para que a civilização ocidental acordasse do seu cômodo sonho e se apercebesse de que a fome é uma realidade demasiado gritante e extensa, para ser tapada com uma peneira aos olhos do mundo.

Ao lado dos preconceitos morais, os interesses econômicos das minorias dominantes também trabalhavam para escamotear o fenômeno da fome do panorama espiritual moderno. É que ao imperialismo econômico e ao comércio internacional a serviço do mesmo interessava que a produção, a distribuição e o consumo dos produtos alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fenômenos exclusivamente econômicos — dirigidos e estimulados dentro dos seus interesses econômicos — e não como fatos intimamente ligados aos interesses da saúde pública. E a dura verdade é que as mais das vezes esses interesses eram antagônicos.
Veja-se o caso da Índia, por exemplo. Segundo nos conta Réclus [3], nos últimos trinta anos do século passado morreram de inanição naquele país mais de vinte milhões de habitantes; só no ano de 1877 pereceram de fome cerca de quatro milhões.

E, no entanto, de acordo com a sugestiva observação de Richard Temple — “enquanto tantos infelizes morriam de fome, o porto de Calcutá continuava a exportar para o estrangeiro quantidades consideráveis de cereais. Os famintos eram demasiado pobres para comprar o trigo que lhes salvaria a vida”. É lógico que os grandes importadores, negociantes de Londres, Rotterdam e outras grandes praças europeias, que tiravam grandes proventos de suas importações da Índia, faziam o possível para abafar na Europa os rumores longínquos desta fome longínqua, a qual, se tomada na devida consideração, poderia atrapalhar os seus lucrativos negócios.

Também os governos nazistas que se haviam apoderado do poder em vários países e de cuja política fazia parte obrigatória a propaganda intempestiva de prosperidades inexistentes, não podiam ver com bons olhos quaisquer tentativas que viessem mostrar, às claras, aos outros países, em que extensão a fome participava dos destinos de seus povos. A própria ciência e a técnica ocidentais, envaidecidas por suas brilhantes conquistas materiais, no domínio das forças da natureza, se sentiram humilhadas, confessando abertamente o seu quase absoluto fracasso em melhorar as condições de vida humana no nosso planeta, e com o seu reticente silêncio sobre o assunto faziam-se, consciente ou inconscientemente, cúmplices dos interesses políticos que procuravam ocultar a verdadeira situação de enormes massas humanas envolvidas em caráter permanente no círculo de ferro da fome.

2. Hoje, tendo sido possível realizar com a aquiescência oficial4 uma série de pesquisas bem orientadas nas mais diferentes regiões da terra acerca das condições de nutrição dos povos, e tendo-se evidenciado, dentro de um critério rigorosamente científico, o fato de que cerca de dois terços da humanidade vivem num estado permanente de fome, começa a mudar a atitude do mundo. É claro que para essa mudança de atitude muito tem contribuído a pressão de fatos inexoráveis. Há a consciência universal de que atravessamos uma hora decisiva, na qual só reconhecendo os grandes erros de nossa civilização podemos reencontrar o caminho certo e fazê-la sobreviver à catástrofe. Desses erros, um dos mais graves é, sem nenhuma dúvida, este de termos deixado centenas de milhões de indivíduos morrendo à fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização desse aumento.

Mundo capaz de produzir alimentos para cinco e meio bilhões de homens, segundo os cálculos de East, oito bilhões, segundo os de Penk, e onze bilhões, segundo os de Kucszinski; portanto, pelo menos para o dobro da população atual [5]. A demonstração mais efetiva da mudança radical da atitude universal, em face do problema, encontra-se na realização da Conferência de Alimentação de Hot Springs, a primeira das conferências convocadas peias Nações Unidas para tratar de problemas fundamentais à reconstrução do mundo de após-guerra. Nesta conferência reunida em 1943, e que deu origem à atual Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas — a FAO — quarenta e quatro nações, através dos depoimentos de eminentes técnicos no assunto, confessaram, sem constrangimento, quais as condições reais de alimentação dos seus respectivos povos e planejaram as medidas conjuntas a serem levadas a efeito para que sejam apagadas ou pelo menos clareadas, nos mapas mundiais de demografia qualitativa, estas manchas negras que representam núcleos de populações subnutridas e famintas, populações que exteriorizam, em suas características de inferioridade antropológica, em seus alarmantes índices de mortalidade e em seus quadros nosológicos de carências alimentares — beribéri, pelagra, escorbuto, xeroftalmia, raquitismo, osteomalácia, bócios endêmicos, anemias, etc. — a penúria orgânica, a fome global ou específica de um, de vários e, às vezes, de todos os elementos indispensáveis à nutrição humana.

Para que as medidas projetadas possam atingir o seu objetivo, faz-se necessário, no entanto, intensificar e ampliar, cada vez mais, os estudos sobre a alimentação no mundo inteiro; donde a obrigação, em que se encontram os estudiosos deste problema, de apresentarem os resultados de suas observações pessoais, como contribuições parciais pura o levantamento do plano universal de combate à fome, de extermínio ã mais aviltante das calamidades, uma vez que a fome traduz sempre um sentimento de culpa, uma prova evidente de que as organizações sociais vigentes se encontram incapazes de satisfazer a mais fundamental das necessidades humanas — a necessidade de alimentos.

Um dos grandes obstáculos ao planejamento de soluções adequadas ao problema da alimentação dos povos reside exatamente no pouco conhecimento que se tem do problema em conjunto, como um complexo de manifestações simultaneamente biológicas, econômicas e sociais. A maior parte dos estudos científicos sobre o assunto se limita a um dos seus aspectos parciais, projetando uma visão unilateral do problema. São quase sempre trabalhos de fisiólogos, de químicos ou de economistas, especialistas em geral limitados por contingência profissional ao quadro de suas especializações.

Foi diante desta situação que resolvemos encarar o problema sob uma nova perspectiva, de um plano mais distante, donde se possa obter uma visão panorâmica de conjunto, visão em que alguns pequenos detalhes certamente se apagarão, mas na qual se destacarão de maneira compreensiva as ligações, as influências e as conexões dos múltiplos fatores que interferem nas manifestações do fenômeno. Para tal fim pretendemos lançar mão do método geográfico, no estudo do fenômeno da fome. Único método que, a nossa ver, permite estudar o problema em sua realidade total, sem arrebentar-lhe as raízes que o ligam subterraneamente a inúmeras outras manifestações econômicas e sociais da vida dos povos. Não o método descritivo dá antiga geografia, mas o método interpretativo da moderna ciência geográfica, que se corporificou dentro dos pensamentos fecundos de Ritter, Humboldt, Jean Brunhes, Vidal de La Blanche, Criffith Taylor e tantos outros.

Não queremos dizer com isto que o nosso trabalho seja estritamente uma monografia geográfica da fome, em seu sentido mais restrito, deixando à margem os aspectos biológicos, médicos e higiênicos do problema: mas, que, encarando esses diferentes aspectos, sempre o faremos orientados pelos princípios fundamentais da ciência geográfica, cujo objetivo básico é localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície a terra. É dentro desses princípios geográficos, da localização, da extensão, da causalidade, da correlação e da unidade terrestre, que pretendemos encarar o fenômeno da fome. Por outras palavras, procuraremos realizar uma sondagem de natureza ecológica, dentro deste conceito tão fecundo de “Ecologia”, ou seja, do estudo das ações e reações dos seres vivos diante das influências do meio. Nenhum fenômeno se presta mais para ponto de referência no estudo ecológico destas correlações entre os grupos humanos e os quadros regionais que eles ocupam, do que o fenômeno da alimentação — o estudo dos recursos naturais que o meio fornece para subsistência das populações locais e o estudo dos processos através dos quais essas populações se organizam para satisfazer as suas necessidades fundamentais em alimentos. Já Vidal de La Blanche havia afirmado há muito tempo que “entre as forças que ligam o homem a um determinado meio, uma das mais tenazes é a que transparece quando se realiza o estudo dos recursos alimentares regionais” [6].

Neste ensaio de natureza ecológica tentaremos, pois, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos ligados a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as causas naturais e as causas sociais que condicionaram o seu tipo de alimentação, com suas falhas e defeitos característicos, e, de outro lado, procurando verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico-social dos diferentes grupos estudados. Assim fazendo, acreditamos poder trazer alguma luz explicativa a inúmeros fenômenos de natureza social até hoje mal compreendidos por não terem sido levados na devida conta os seus fundamentos biológicos.

Não se deduza daí que, num exagero descabido de especialista obcecado pela importância de seus problemas, iremos tentar a criação de qualquer nova teoria alimentar das civilizações, num novo broto desta escola bissocial de inesgotável fecundidade. Estamos longe desta maneira de ver, de tentativas como a do famoso escritor e jornalista mexicano Francisco Bulnes, que, no fim do século passado, um tanto influenciado pelas ideias das hierarquias sociais, procurou explicar todas as diferenças entre os grupos culturais por seus tipos de alimentação: “A humanidade, de acordo com uma severa classificação econômica, deve ser dividida em três grandes raças — a raça do trigo, a raça do milho, e a raça do arroz. Qual delas é indiscutivelmente superior?” Com esta pergunta iniciava Bulnes o desenvolvimento do seu raciocínio para demonstrar que só a raça do trigo é capaz de atingir as etapas da alta civilização. No seu livro extraordinariamente interessante, se anotarmos a época do seu aparecimento no século passado — El Porvenir de lãs Naciones Hispano-Americanas ante las Conquistas de Europa y Estados Unidos (1889) — Bulnes revela-se um paciente investigador e inteligente renovador do panorama mental americano, mas também um apaixonado de suas próprias ideias, capaz de forçar os argumentos para demonstrar a mais absurda das teses. No nosso ensaio não pretendemos provar nada de parecido. Não queremos convencer ninguém de que a fome seja a mola única da evolução social, nem que sejam os alimentos a única matéria-prima para fabricação das tintas com que são coloridos os diferentes quadros culturais do mundo, mas tão somente destacar desses quadros os traços negros da fome e da miséria que tarjam quase todos eles com um friso mais ou menos acentuado.

3. Acreditamos que já é tempo de precisar bem o nosso conceito demasiado extenso e, portanto, suscetível de grandes confusões. Não constitui objeto deste ensaio o estudo da fome individual, seja em seu mecanismo fisiológico, já hoje bem conhecido graças aos magistrais trabalhos de Schiff, Lucciani, Turró, Cannon e outros fisiólogos; seja em seu aspecto subjetivo de sensação interna, aspecto este que tem servido de material psicológico para as magníficas criações dos chamados romancistas da fome. Escritores corajosos que resolveram violar o tabu e nos legaram páginas geniais e heroicas, como as de um Knut Hamsun, no seu romance Fome — verdadeiro relatório minucioso e exato das diferentes, contraditórias e confusas sensações que a fome produziu no espírito do autor; como as de um Panait Istrati, vagando esfomeado nas luminosas planícies da Romênia; como as de um Felekhov e um Alexandre Neverov, narrando com dramática intensidade a fome negra da Rússia em convulsão social; como as de um George Fink, sofrendo fome nos subúrbios cinzentos e sórdidos de Berlim; e como as de um John Steinbeck, contando, em Vinhas da Ira, a epopeia de fome da “família Joad”, através das mais ricas regiões do país mais rico do mundo — os Estados Unidos da América.

Não é esse tipo excepcional de fome, simples traço melodramático no emaranhado desenho da fome universal, que interessa ao nosso estudo [7].

O nosso objetivo é analisar o fenômeno da fome coletiva — da fome atingindo endêmica ou epidemicamente as grandes massas humanas. Não só a fome total, a verdadeira inanição que os povos de língua inglesa chamam de starvation, fenômeno, em geral, limitado a áreas de extrema miséria e a contingências excepcionais, como o fenômeno muito mais frequente e mais grave, em suas consequências numéricas, da fome parcial, da chamada fome oculta, na qual, pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, em seus regimes habituais, grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias.

É principalmente o estudo dessas coletivas fomes parciais, dessas fomes específicas, em sua infinita variedade, que constitui o objetivo nuclear do nosso trabalho.

Nos últimos dez anos após a publicação deste nosso livro, este conceito já ganhou foros internacionais. Por toda parte hoje se reconhece a existência desses vários tipos de fome, e se fala sem maior constrangimento na luta universal contra a fome, na batalha da fome etc. Deve-se, em grande parte, a implantação destes conceitos, até bem pouco considerados como revolucionários e heterodoxos, à própria FAO, que, a princípio discreta e reticente em falar em fome, preferindo em seus relatórios referir-se à subnutrição dos povos, acabou por aceitar a nomenclatura de fome, e a usá-la largamente como conceitos ortodoxos, rigorosamente científicos.

Visamos com a publicação deste ensaio contribuir com uma parcela infinitesimal para a construção do plano de ressurgimento de nossa civilização, através da revalorização fisiológica do homem. Poderá, à primeira vista, parecer uma desmedida pretensão que o autor de um estudo de categoria tão modesta como este, lhe atribua qualquer interferência — por mínima que seja — nos destinos universais da humanidade. Encontramos, porém, uma explicação e uma justificativa para nossa atitude, na afirmativa recente do filósofo inglês Bertrand Russell de que “nunca houve momento histórico no qual o concurso do pensamento e da consciência individuais fosse tão necessário e importante para o mundo como em nossos dias”. E mais ainda “que todo homem, qualquer homem comum, poderá contribuir para a melhoria do mundo” [8].

 É com esta mesma crença na obra de cooperação de cada um, de coparticipação ativa na busca de um mundo melhor, que planejamos esta obra abordando o tema da fome em sua expressão universal, mostrando com que intensidade e em que extensão o fenômeno se manifesta nas diferentes coletividades humanas.

4. De fato, o conhecimento exato da situação alimentar dos povos, dos recursos de que poderão dispor para satisfazer suas necessidades de nutrição, é absolutamente indispensável para que se leve a bom termo a revolução social que se processa com incrível velocidade nos dias em que vivemos. Revolução que, segundo se vislumbra pelas transformações já processadas, está criando universalmente um novo sistema de vida política, que poderemos chamar, como sugere Julian Huxley [9], a era do homem social, em contraposição a essa outra era que terminou com a Segunda Guerra Mundial, a era do homem econômico. O que caracteriza fundamentalmente esta nova era é uma focalização muito mais intensa do homem biológico como entidade concreta e a prioridade concedida aos problemas humanos sobre os problemas de categoria estritamente econômica no sentido da clássica economia do lucro. Realmente, enquanto até a última guerra a nossa civilização ocidental, em seu exagero de economismo, quase esquecera o homem e seus problemas, preocupando-se morbidamente em conquistar pela técnica todas as forças naturais, pondo todo o seu interesse nos problemas de exploração econômica e de produção de riqueza, vislumbra-se hoje o estabelecimento de formas políticas dispostas a sacrificar os interesses do lucro pelos interesses reais das coletividades. É a tentativa cada vez mais promissora de pôr o dinheiro a serviço do homem e não o homem escravo do dinheiro. De dirigir a produção de forma a satisfazer as necessidades dos grupos humanos e não deixar o homem matando-se estupidamente para satisfazer os insaciáveis lucros da produção.

Aparecendo na aurora dessa nova era social, onde a tenebrosa noite do fascismo ainda projeta as suas sombras, este livro pretende ser um documentário científico desta tragédia biológica, na qual inúmeros grupos humanos morreram e continuam morrendo de fome, ao finalizar-se esta escabrosa era do homem econômico.

Para que se compreenda bem e se possa perdoar o uso que faz o autor, em certas passagens do seu livro, de tintas um tanto negras, é bom que o leitor se lembre de que esta obra, documentário de uma era de calamidade, foi pensada e escrita sob a influência psicológica da pesada atmosfera que o mundo vem respirando nos últimos vinte anos. Atmosfera abafada pela fumaceira das bombas e dos canhões, pela pressão das censuras políticas, pelos gritos de terror e de revolta dos povos oprimidos e pelos gemidos dos vencidos e aniquilados pela fome. Atmosfera que o sociólogo Sorokin pinta com as seguintes palavras: “vivemos e agimos numa era de grandes calamidades. A guerra, a revolução, a fome e a peste cavalgam novamente em nosso planeta. Novamente elas cobram seu mortífero tributo à humanidade sofredora. Novamente elas influenciam cada momento da nossa existência: nossa mentalidade e nossa conduta, nossa vida social e nossos processos culturais” [10].

Devemos confessar honestamente que não nos foi possível fugir na elaboração do nosso trabalho a tão dominadora influência.

5. Várias foram as razões que nos levaram a planejar a realização desta obra em mais de um volume. A primeira delas é a desmedida extensão do seu campo de observação, abrangendo todos os continentes, investigando as condições de vida nos mais variados recantos da superfície da terra. Por mais impressionista que seja o retrato que tentamos pintar de cada uma das regiões estudadas, não é possível sintetizar os seus traços característicos atém de certos limites. A segunda razão se fundamenta na evidência de que um estudo de tal envergadura, mesmo quando as condições são as mais favoráveis à sua execução, leva vários anos para ser completado e a paciente espera para publicar todo o trabalho em conjunto tornaria um tanto antiquadas certas indicações bibliográficas e certos aspectos de atualidade do problema em suas manifestações regionais.

Considerando que o Brasil constituiu o nosso laboratório natural de observação sobre o problema a cujo estudo nos dedicamos há mais de vinte e cinco anos, achamos de toda a conveniência concentrarmo-nos de início na análise do fenômeno da fome no nosso país, de sua influência como fator biológico na formação e evolução dos nossos grupos humanos. Estudando o fenômeno da fome no nosso meio, daremos um balanço geral das influências de categoria biológica que têm interferido e pesado na modelagem de nossa cultura e de nossa civilização.

Buscando essa valorização dos fatores de categoria biológica, não quer dizer que desprezemos a importância dos fatores de natureza cultural, fatores da categoria do latifundismo agrário-feudal que tanto deformou o desenvolvimento da sociedade brasileira. Isto é inegável. O que tentaremos mostrar é que, mesmo quando se trata da pressão modeladora de forças econômicas ou culturais, elas se fazem sentir sobre ò homem e sobre o grupo humano, em última análise, através de um mecanismo biológico: através da deficiência alimentar que a monocultura impõe, através da fome que o latifúndio gera, e assim por diante. Não defenderemos, pois, nenhuma primazia na interpretação da evolução social brasileira. Nem o primado do biológico sobre o cultural, nem o do cultural sobre o biológico. O que pretendemos é pôr ao alcance da análise sociológica certos elementos do mecanismo biológico de ajustamento do homem brasileiro aos quadros naturais e culturais do país [11].

Não temos a pretensão de investigar a fundo, numa sondagem definitiva, a influência de todos os fatores dessa categoria: raça, clima, meio biótico, etc., que constituem a base orgânica da estrutura social dos nossos grupos humanos.

Estudando, porém, os recursos e os hábitos alimentares de várias regiões, teremos forçosamente que levar em consideração todos esses fatores ecológicos que participam ativamente na interação do elemento humano e dos quadros geográficos brasileiros. Caracterizando o tipo de alimentação e os variados tipos de fome que tem sofrido a nossa gente, estamos certos de que faremos refletir nessas características biológicas, com maior exatidão do que através do estudo de quaisquer outras manifestações de natureza ecológica, o grau de adaptação e ajustamento dos diferentes grupos regionais de nossas populações às variadas zonas geográficas do país. E são exatamente as expressões dessas variadas formas de adaptação que dão relevo à fisionomia cultural de uma nação. É por isso que julgamos ser este volume, até certo ponto, uma tentativa de interpretação biológica de determinados aspectos da formação e da evolução histórico-sociais brasileiras.

O nosso projeto inicial era escrever vários volumes sobre o fenômeno da fome universal — um volume sobre cada continente assolado por este flagelo social. A marcha dos trabalhos, a repercussão internacional que provocou o primeiro volume acerca do Brasil e a necessidade um tanto urgente de apresentar um panorama universal da matéria nesta hora grave do mundo, em que a humanidade se confronta com dois trágicos problemas — o da guerra e do medo da guerra e o da fome e do medo da fome — todos estes fatores em conjunto alteraram o nosso plano inicial. Chegamos, pois, à conclusão de que, após apreciar regionalmente o problema da fome no Brasil, seria útil apresentar o panorama do mundo em conjunto, dentro do mesmo método de estudo, embora sem a mesma riqueza de detalhes que um trabalho de categoria universal não poderia comportar. Assim, escrevemos e publicamos a nossa Geopolítica da Fome, que dentro do nosso esquema geral constituiu a segunda parte do nosso estudo do problema da fome em sua significação biológica, econômica e social.

NOTAS:

1. Marañon. Gregorio, “La Regulación Hormonal del Hambre”, in Estudios de Endocrinología,
1938.
2 Waldorf, Cornelius. The Famines of the World, 1878.
3 Réclus. Elisée, Nouvelle Géographie Universelle, 1875-94.
4 Desde 1928 a Liga das Nações inscreveu o problema da alimentação no programa de seus trabalhos, fazendo realizar, sob o patrocínio de sua Organização de Higiene, estudos detalhados em diferentes países e dando publicidade a uma série de valiosos relatórios sobre o assunto.
5 Ferenczi, Imre, L’Optimum Synthétique du Peuplement, 1938.
6 Blanche, Vidal de La, Príncipes de Géographie Humaine, 1922.
7 Sobre os aspectos fisiológicos da fome. consulte-se a obra recente de Masseyeff. René. La Faim, 1956.
8 Russell, Bertrand, Essais Sceptiques, Paris.
9 Huxley, Julian, On Living in a Revolution, 1944.
10 Sorokin, Pitirim A., Man and Society in Calamity, 1942.
11 Sobre a participação do biológico no mecanismo social consulte-se a série de interessantes estudos reunidos pelo eminente antropólogo R. Redfield, no livro Leveis of Integracion in Biological and Social Systems (1942). De grande valia para uma orientação firme nesse campo cientifico é também a obra de G. F. Gause — The Struggle for Exis-tence (1934). Alexander Lipschütz, no seu interessante livro El Indo-americanismo y el Problema Racial en lãs Américas, apresenta-nos um bom exemplo de aplicação bem orientada dos mais modernos conceitos de sociologia, na análise do biológico e do social na organização dos diferentes grupos de população deste continente.

(Prefácio de “Geografia da Fome).

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O QUE PODEMOS APRENDER COM RACISMO NO BRASIL


No mês do Dia da Consciência Negra o país foi surpreendido por um vídeo cujo conteúdo apresentava o âncora de um dos Jornais de maior audiência da TV, Willian Waack, numa clara manifestação de racismo. No vídeo, o jornalista prepara-se para realizar uma entrevista com um convidado quando alguém ao lado de fora do estúdio toca uma buzina de um automóvel várias vezes. Willian Waack olha para o lado de fora e diz: “Tá buzinando por quê, seu merda?” Depois diz: “Eu sei quem você é”, olha para o entrevistado e completa, quase sussurrando: “É preto”. O convidado faz-se de desentendido e aproxima-se de Waack que repete, “é preto”. O homem solta uma risada, talvez consentindo, talvez constrangido, e Waack conclui, entre risos: “É coisa de preto. Com certeza!”

As imagens viralizaram na internet e soube-se, então, que o vídeo havia sido abafado pela emissora de televisão responsável pelo jornal por mais de um ano. Diante da repercussão negativa, a emissora de televisão, que, aliás, quase não tem negros em seu quadro de funcionários de destaque, afastou o repórter e emitiu uma nota em tom formal na qual afirmava que a política da empresa é “visceralmente contra o racismo e afasta o jornalista Willian Waack até que a situação seja esclarecida... no vídeo alguém dispara uma buzina e Waack, contrariado, faz comentários, ao que tudo indica, de cunho racista... Waack afirma não se lembrar do que disse já que o áudio não tem clareza mas pede sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação. Willian Waack é um dos mais respeitados profissionais brasileiros, com um extenso currículo de serviços prestados ao jornalismo [retifica-se: à emissora em questão] e blá, blá blá para conversar com Waack e decidir como se desenrolarão os próximos passos”. Ou seja, tergiversou, tergiversou, e não admitiu o erro do apresentador. Tal nota não poderia ser mais oportuna, Willian Waack é conhecido por suas posições de direita e defesa intransigente dos interesses da emissora na qual trabalha, como as reformas impopulares do governo Temer. Porém, não deixa de ser descabida. Se, “ao que tudo indica”, Waack não se lembra e o áudio não tem clareza, então por que as sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados, não pela situação, mas por comentários de cunho racista? E o fato do jornalista ser considerado pela emissora um dos mais respeitados profissionais brasileiros não justifica sua atitude. No mais, passos não se enrolam nem se desenrolam... Ganhar tempo e esperar baixar a poeira é o real conteúdo da nota. Mas temos uma sugestão ainda melhor à emissora: contratar um perito, destes mercenários, como aquele ex-professor, que conseguem provar até que o 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa do Mundo foi miragem provocada por uma ilusão de óptica graças a um defeito coletivo na lente das câmaras...

O mais espantoso, porém, é que toda a imprensa marrom se solidarizou com o jornalista. Alguns colegas de profissão, todas brancos, também vieram em sua defesa. Notórios pela parcialidade e discursos que fomentam o ódio, estes colegas tentaram desviar o foco da polêmica com argumentos dos mais estapafúrdios e disparatados, minimizando o fato do repórter ter cometido um crime. Pouco importa se Waack é ou foi racista, a culpa é da esquerda, dos policamente corretos, das feministas, dos negros!

Sim, a culpa é dos negros, que ousam reivindicar por direitos iguais... De fato, é coisa de preto!

A reação da imprensa apenas expressa bem a mentalidade perversa e escravocrata de alguns setores da sociedade brasileira. O que podemos aprender com o racismo brasileiro é que o Brasil é um grande latifúndio tal como descreve José Saramago no seu romance “Levantado do chão”. A mensagem é implícita, mas inequívoca. Diz o seguinte: um homem branco e rico pode ser, sim, racista, mas desde que em seu foro íntimo, entre amigos e familiares, nunca em público, pois é preciso manter o manto da hipocrisia, o mito do homem cordial e a democracia racial, e outras bobagens do gênero.

Nada mais racista do que afirmar que no Brasil não existe racismo.


A Liberdade é Negra
Fecaloma
 
Vivemos numa democracia racial
A lei diz que o branco é meu igual
A estatística diz que sou a maioria
A ideologia diz que sou a minoria
A mídia diz que no Brasil não há preconceito
Não há luta de classes, tudo é perfeito
Mas a televisão não é meu espelho
A televisão não é meu espelho
O galã da novela não é negro
Mas parece gringa aquela modelo
Na revista de bacana só lourinho na capa
Sorrisos indígnos sem vergonha na Caras

Na política , não sou eu que estou lá
Na universidade não me deixaram entrar
Na rua ou no shopping, seguem meus passos
A polícia espreita tudo que eu faço
E a história esconde que fomos seqüestrados
Por uma elite de brancos civilizados
Que a custa do nosso trabalho enriqueceu
Nos expulsou da festa e a maior fatia do bolo comeu

Negro, negro é lindo mas se tenta ser alguém
Acusam-lhe de racista e não pode ser ninguém
Negro, ponha-se no seu lugar
E o seu lugar é a liberdade, lutar por identidade
Negro, negro é lindo mas se tenta ser alguém
Acusam-lhe de fascista e não pode ser ninguém
Mas você, você tem raça
E eu também, também sou negro
E me chamo, me chamo Liberdade

E ninguém vai descolorir

Porque eu sou livre
Livre! Livre! Livre! Livre!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

ATRAVESSANDO A GEOGRAFIA, MARX, LEFEBVRE E OS SITUACIONISTAS


Atravessando a Geografia, Marx, Lefebvre e os Situacionistas (volume 1 – 2017), publiciza artigos cuja marca é a formação de longa duração propiciada pelo encontro dos pesquisadores no Laboratório de Geografia Urbana – LABUR – do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O livro é composto por nove artigos que, valendo-se dos conteúdos mais íntimos da Geografia – principalmente a Geografia Urbana -, de Karl Marx e de Henri Lefebvre, apresentam uma leitura possível do real. Metodologicamente, a costura mais interna consiste em “partir de”: os textos partem dos autores lidos, sem com eles se conformar, pois buscam atualizar – seja a ciência, seja o pensamento de Marx, seja o de Henri Lefebvre. Por fim, trata-se do primeiro volume da série, ou volume de inauguração de um projeto editorial que pretende, igualmente, ser persistente – e de longa duração – motivando assento aos novos pesquisadores, bem como assegurando espaço àqueles que são as referências, a partir de quem tudo foi possível.

Compreende o livro os seguintes escritos:

Prefácios
O conhecimento como histórico, social e coletivo e os grupos de formação acadêmica do LABUR  – Amélia Luisa Damiani
Atravessados pela Geografia, invadidos pela autogestão – Ricardo Baitz


Atravessando a Geografia, Marx, Lefebvre e os Situacionistas

Ou é centro, ou é não centro. Ou é centro, ou é periferia. – Alexandre Souza da Rocha

(Des)encontros entre a Geografia e o urbano: a contribuição de Henri Lefebvre – Amélia Luisa Damiani

Espaço e Paisagem: rascunhos para estudo “espaço” e da “paisagem” – Jean Pires de Azevedo Gonçalves (colaborador deste blog).

Diferença e diferencialismo: para uma crítica da homogeinização – Marcio Rufino Silva

Urbanização e Marxismo – Odette Carvalho de Lima Seabra

O trabalho de campo em geografia urbana: da quantidade à qualidade, ou dos procedimentos formais à implicação e transdução – Ricardo Baitz

O espaço contraditório da mobilidade urbana – Evânio dos Santos Branquinho


Cartografia influencial: notas de um trabalho de campo – Alessander David Figueiredo Junior, Guilherme Leria Sanches, Marcelo Baliú Fiamenghi, Marcus Vinicius Bortoli de Moraes e Tomás Carrera Massabki

Outros escritos

Momento Situacionista Autônomo Temporário: notas sobre as possibilidades de um espaço-tempo revolucionário – Rachel Pacheco Vasconcellos

Exílios e pseudo-vida: ações possíveis entre hegemonias totalizantes – José Dario Vargas Parra

Permissão de reprodução


As orelhas do livro, que anunciam os termos que articularam os autores e a perspectiva dos textos, é feita pelo Memorial de Concurso de Alexandre Souza da Rocha, a quem a obra é dedicada.


O lançamento do livro está programado para a ocasião do XV Simpósio Nacional de Geografia Urbana (SIMPURB) que ocorrerá entre os dias 20 a 23 de novembro, em Salvador, Bahia.


sábado, 4 de novembro de 2017

A ESTÓRIA DA RIQUEZA DO BRASIL


Mal o livro do sociólogo Jessé Souza “A elite do atraso: da escravidão à lava jato” saiu do prelo, a reação das elites não se fez por esperar, com a publicação de “História da riqueza do Brasil”, de Jorge Caldeira. O lançamento do referido livro não poderia ter sido mais bizarro: no televisivo Programa do Bial, e contou com a aparição de uma das figuras mais sinistras do mundo universitário. Quem? FHC. Elementar, meu caro Watson! O coronel tucano, que se tornou, graças aos dólares da CIA, via Fundação Ford, o “príncipe da sociologia (sic)”... quer dizer, “privataria”, foi convocado pelo intelectual de Big Brother... [pausa para rir]... Pedro Bial, numa das situações mais insólitas e patéticas da sociologia made in Brazil, para referendar o tal livro como, em suas palavras, um “clássico”. (Em se tratando de Fernando Henrique, melhor seria dizer crássico). Como se um livro se tornasse clássico, de um dia para a noite, por decreto, e prescindisse do debate intelectual, do tempo histórico, da repercussão acadêmica e social etc. etc. etc. Curiosamente, assim como o livro de Jesse Souza, o de Caldeira também se pretende revisionista, mas, sub-repticiamente, reforça todos os preconceitos da literatura canônica que “A elite do atraso” joga por terra. Na verdade, a “História da riqueza do Brasil” é uma total impostura. Nietzsche costumava criticar a tendência moderna em que o estilo jornalístico torna-se modelo de professores universitários como degeneração da cultura e da arte em entretenimento. Mas o que diria o grande filósofo alemão do marketing substituir a pesquisa acadêmica? É bem disso que se trata a “História da riqueza do Brasil”: uma obra de marqueteiro. Primeiro, porque o autor trata a velha econometria como se fosse uma grande novidade metodológica. Sim, o tal Jorge Caldeira relativiza a exaustiva pesquisa documental e deduz suas conclusões de preguiçosos modelos matemáticos e estatísticos. (Diga-se de passagem, nem os neoliberais da Escola Austríaca dão qualquer crédito à econometria, facilmente manipulável). Daí em diante tudo é permitido, como a singular afirmação de que os tupis eram empreendedores... (Desculpem-me, mas vou ter de usar de um expediente adequado a tamanha, digamos assim, trollagem: kkkkkkkkkkkkkkkkkk). Sim, pois, tais quais as inúmeras pérolas de FHC, nas palavras do autor, “tecnicamente, um catador de papelão é um empreendedor”. (kkkkkkkkkkkkk). Talvez, deva ter sido por isso que o capitalismo desenvolvido no Brasil nunca vingou, haja vista que, após o genocídio indígena, apenas 0,4 da população brasileira é atualmente composta por estes arrojados empreendedores nativos que, suponha-se, graças à catequese jesuítica (não a calvinista!), descobriram em si, no fundo de suas almas, o espírito capitalista na fumaça do cachimbo do pajé. Mas o genocídio é apenas um detalhe e racismo é tudo que não existe na sociedade brasileira, como todos nós, obviamente, sabemos! Continuando, segundo Caldeira, no Brasil, desde tempos imemoriais... sempre reinou a boa e velha democracia!... quer dizer, excetuando o “Estado Novo” (Getúlio). A julgar por esta afirmação, o voto de cabresto e de clientela é a mais pura definição de democracia e que Rousseau vai plantar batatas! Depois destes e outros disparates, que Marx chamaria de robsonadas e um historiador sério, anacronismos, o autor sustenta que, entre o fim do século XIX e 1970, o Brasil foi o país que mais cresceu economicamente no mundo e coloca todos os governos nacionalistas como responsáveis por desastres econômicos, ou melhor, as figurinhas carimbadas de Jango, Geisel, Lula e Dilma. Elementar, meu caro Watson! Na verdade, o livro de Caldeira segue a tradição que vai desde Joaquim Nabuco, Barão de Rio Branco e, claro, FHC, e, portanto, apregoa uma estreita dependência do Brasil aos EUA, sob o eufemismo de globalização. Outro argumento interessante é a afirmação de que, enquanto o executivo sempre foi instável, o parlamento sempre funcionou muito bem. Sem dúvida, com os milhões de reais pelos quais cada parlamentar recebe à surdina para legislar em causa própria e a favor da impunidade, nada poderia ser mais estável! Ora, se o executivo é frágil e o parlamento é forte, então presidente para quê? Sim, se você pensou no parlamentarismo, touché! Eis o programa completo do PSDB!!! Mas você deve estar se perguntando quem é esse Jorge Caldeira – e eu também me fiz essa pergunta – e a resposta, depois de muito procurar no Google, pode ser encontrada num verbete de cinco linhas da Wikipédia. Aqui vai o principal sobre o autor: “consultor do Projeto Brasil 500 Anos, da Rede Globo, editor-executivo da Revista Exame, editor do Caderno Ilustrada e da Revista da Folha, do jornal Folha de S. Paulo, editor de economia da Revista Isto É e editor da Revista do Cebrap” (Fonte: Wikipédia). Viu? Só gente fina. Quanto ao Cebrap, de FHC, é o caminho mais fácil para ser aprovado num concurso do prédio do meio... Ainda na entrevista ao intelectual de Big Brother Bial, o tal Jorge Caldeira mostrou-se alinhado com as reformas do governo Temer, e vangloriou-se por ter trabalhado 45 anos (o número não é apenas uma coincidência) e estar prestes a se aposentar com 50, contribuindo religiosamente a previdência social. (Evidentemente, FHC, em sua catedrática manifestação, omitiu o detalhe de que ele, FHC, se aposentou aos 37 anos). Esta afirmação de Jorge Caldeira é mais uma de suas sandices. Como se a atividade suave e bem remunerada de porta voz da mídia pudesse ser comparada ao trabalho suado e mal remunerado de um trabalhador braçal da construção civil, da metalurgia, da agroindústria canavieira, ou de motorista do transporte coletivo, ou mesmo professor do ensino público etc., etc., etc. O destino da miséria de a “História da riqueza do Brasil” já está traçado. Vai parar ao lado dos crássicos de seu mestre FHC: ninguém lê.