domingo, 15 de outubro de 2017

JESSÉ SOUZA E A ELITE DO ATRASO


Em “A elite do atraso: da escravidão à lava jato”, o sociólogo Jessé Souza defende a tese de que a elite brasileira, leia-se oligarquia, para assegurar seus privilégios, nunca teve compromisso com um projeto de desenvolvimento para o país. Segundo o sociólogo, com a ascensão da classe média nos anos 30, a elite tratou de capturar esta classe por meio de um acordo que visava somente garantir seus privilégios de classe dominante, em direta contradição aos interesses gerais da sociedade. Para isso formou um quadro de profissionais técnicos e especializados subjugados e oriundos da classe média, bem como açambarcou toda opinião pública, por meio do controle da imprensa e da formação de uma intelectualidade servil. É neste contexto que surge a USP, encarregada de elaborar o pensamento da formação da sociedade brasileira forjado sobre bases equivocadas – o patrimonialismo e o populismo – quando o que a caracteriza, de fato, é a escravocracia. Tal ideologia de verniz universitário contaminou toda a intelectualidade, sendo reproduzida indiscriminadamente tanto pela direita quanto pela esquerda, e desviou o foco dos verdadeiros problemas sociais. Sobre Sérgio Buarque de Hollanda e Raimundo Faoro, Jessé Souza em entrevista concedida ao vlog o Cafézinho não tem meias palavras: "Se você lê os caras (...) um liberalismo mais conservador, mais absurdo, mais pueril, mais superficial, mais mal feito do que desses caras, impossível!!!" (Jessé de Souza). 

É preciso muita coragem para um intelectual no Brasil criticar o totalitarismo desta igreja, denominada USP, que aqui chamamos de Santo Ofício Universal do Estado de São Paulo. Recusar-se ao beija-mão submisso, ao clientelismo autoritário, ao culto da autoridade, à reverência à hierarquia, ao assédio moral e até mesmo sexual, sob a sanção da USP, é o mesmo que ser excomungado de todos os círculos acadêmicos em âmbito nacional. Não é à toa que a USP é tão recalcitrante ao sistema de cotas, encontrando apoio até mesmo nos seus quadros de intelectuais supostamente de esquerda.

Jessé Souza é também autor de “A Tolice da Inteligência Brasileira” e “A Radiografia do Golpe” e pode ser considerado um dos intelectuais brasileiros mais importantes da atualidade. Portanto, o livro “A elite do atraso: da escravidão à lava jato” é imprescindível para entender a fundo as formas de dominação no Brasil, da produção ideológica e a própria sociedade brasileira, após cem anos de mentiras. Já é leitura obrigatória.

A ELITE DO ATRASO: DA ESCRAVIDÃO À LAVA JATO
Editora LeYa Brasil: São Paulo, 2017. (240 páginas).

domingo, 1 de outubro de 2017

A FAGOCITOSE DO CAPITALISMO

Como a ação das próprias leis conduz à catástrofe histórica do sistema capitalista


Alejandro Acosta

A lei do valor é o motor que regula o funcionamento da sociedade capitalista. Ela determina o fluxo e o refluxo dos capitais dos vários setores da economia, de acordo com a lucratividade.

Conforme Karl Marx demonstrou detalhadamente na sua obra prima, O Capital, o único gerador de valor é o trabalho humano. As máquinas são amortizadas e, nos procedimentos contábeis, simplesmente repassam, de maneira gradual, o investimento realizado como custo. Na circulação, no processo de compra e venda, os ganhos e perdas têm a tendência a nivelar-se. A fonte de lucro dos capitalistas é a mais-valia, a diferença entre os salários pagos e o valor criado pelos trabalhadores.

A concorrência leva a que a massa geral de mais-valia gerada na sociedade seja repartida de maneira tendencialmente homogênea entre os capitalistas, independentemente do ramo de atividades. Hoje, a taxa de lucro das operações industriais nos países desenvolvidos é extremamente baixa. Por esse motivo, o grosso das manufaturas têm sido transferido a países onde a mão de obra é, ou foi, na prática, semiescrava.

O lucro da GM, por exemplo, vem das fábricas localizadas na China e no Brasil e, ainda mais, do Banco GM que participa, em larga escala, da especulação financeira, vendendo, comprando e apostando em títulos públicos e privados, inclusive os derivativos financeiros que, entre outros, contêm os títulos dos financiamentos de automóveis.

As bolhas financeiras quando estouram têm como finalidade, própria do funcionamento do capitalismo, ajustar as taxas de lucro à média, como pode ser visto claramente na crise financeira de 2008 e como poderá ser visto nas bolhas que deverão estourar no mundo todo no próximo período. O inacreditável volume de capital fictício acumulado no mundo, devido à falta de colocação produtiva, torna esse processo muito mais explosivo.

Ao mesmo tempo, as multinacionais imperialistas impõem preços de monopólio e por meio do controle do estado burguês passaram a controlar todos os aspectos da sociedade burguesa.

A LEI DA TENDÊNCIA À QUEDA DA TAXA DE LUCRO

A concorrência entre os capitalistas conduz à procura pelo aumento da produtividade e à redução de custos, mediante a implementação de novos processos e da automação industrial, em cima de máquinas mais modernas, o que leva à redução do número de trabalhadores. Por esse motivo, a mais-valia extraída apresenta a tendência a cair o que provoca a queda dos lucros que representam o motor da economia capitalista.

Na tentativa de conter a ação da lei, os capitalistas aumentam a intensidade do trabalho, reduzem os salários, por meio de processos de terceirizações, promovem ataques por meio dos programas de austeridade e usam trabalho escravo em proporções nunca antes vistas nos últimos séculos.

Mas todas essas tentativas não conseguem abortar a ação da lei, apenas a contem temporariamente. Ela provoca o aumento das lutas operárias. Na China, por exemplo, o salário médio dos trabalhadores passou de US$ 30 na década de 1980, para mais de US$ 400 nas principais cidades do país. No Vietnam, que se pretendia que substituísse, parcialmente, à China, nos últimos seis anos, os salários passaram de US$ 45 para US$ 100. Agora, os monopólios tentam, sempre com “mais do mesmo”, a mesma operação na Birmânia.

A tentativa de agilizar os processos de vendas e a diminuição dos estoques, para acelerar a rotação do capital, tem se chocado com o crescente empobrecimento das massas. A crise de superprodução está na base da crise capitalista atual. O aumento exponencial do crédito, em cima de recursos públicos, está levando o mundo inteiro a enormes bolhas financeiras. No Brasil, o “modelo de crescimento Lula” se esgotou e deixou como saldo a disparada da inadimplência em níveis históricos, com o governo fomentando-o ainda mais devido à falta de alternativas.

A desvalorização do capital constante empregado (principalmente, as máquinas e equipamentos) e, fundamentalmente, a crise capitalista, que leva à destruição em larga escala das forças produtivas permitem, junto com superexploração dos trabalhadores, que os mecanismos capitalistas não engripem. Ao mesmo tempo, as crises aumentam as compras e consolidações, reforçando ainda mais a monopolização da economia. O grosso da competição agora se processa em escala mundial por grandes multinacionais imperialistas que, na disputa do mercado mundial, levam o parasitismo a níveis absurdos, além de impulsionarem o militarismo e as guerras.

O AUMENTO DA INTERVENÇÃO DO ESTADO BURGUÊS NA ECONOMIA

O principal mecanismo que permitiu ao capitalismo superar a depressão da década de 1930 foi a escalada da intervenção do estado burguês na economia. O keynesianismo foi a corrente da economia burguesa que deu corpo teórico à necessidade do estado promover investimentos com o objetivo de servir como motor da economia. Os gastos militares dispararam e se estruturou o chamado complexo industrial militar nos países desenvolvidos que disparou o parasitismo em cima dos recursos públicos pelas multinacionais.

A crise capitalista de 2007-2008 enterrou o papel redentor do estado burguês, que agora aparece como o grande concentrador da crise capitalista mostrando o crescimento, nas entranhas da velha sociedade, da nova sociedade socialista. O gigantesco e crescente endividamento público demonstra que as crises não reciclam o capitalismo. Elas permitem a continuidade do funcionamento, mas ao custo do contínuo enfraquecimento. A comparação que ilustra graficamente este fenômeno seria o envelhecimento de um ser humano que na velhice continua vivendo, mas com doenças, e turbinado com remédios e pontes de safena.

Trata-se de um conteúdo cada vez mais parasitário e podre protegido por uma casca que é o estado burguês. O papel histórico da revolução proletária, que representa o último ato da evolução histórica do capitalismo, reside na destruição dessa casca e na expropriação dos meios de produção do punhado de parasitas financeiros que domina o mundo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

EXCLUÍDOS DIGITAIS

Se você está assustado com tanto ódio na internet, talvez os dados abaixo o ajudem a entender um pouco a origem dele.

Segundo pesquisas por domicílios realizadas por diversos institutos de pesquisa, dentre os quais o PNAD-IBGE, no Brasil em 2015:

54,9% domicílios estavam conectados à internet. Equivalente a 102 milhões de habitantes (a população total do Brasil é de 190 milhões de habitantes).

- Perfil dos internautas por classe social:
Classe A: 95%;
Classe B: 82%,
Classe C; 57%;
Classe D/E, 28%.

- Domicílios conectados à internet por região:
Sudeste: 17,4 milhões de domicílios conectados e 11,7 milhões desconectados.
Nordeste: 7 milhões de domicílios com internet e 10,5 milhões sem internet.
Região Sul: 5,4 milhões conectados e 4,9 milhões desconectados.
Centro-Oeste: 2,5 milhões com internet e 2,7 milhões desconectados.
Norte: 1,9 milhões de domicílios conectados e 3,1 milhões desconectados.

- Domicílios que têm computador, por classe social:
Classe A: 99%;
Classe B: 84%;
Classe C, 47%;
Classe D/E: 13%.

Os celulares passaram a ser o único telefone de 58% das casas brasileiras. O fenômeno é mais forte nas regiões Norte (74,7%) e Nordeste (72,8%).

- Estudantes:
Rede privada: 97,3%.
Rede pública: 73,7%.

- Por rendimento:
92,1% das pessoas que ganham mais de 10 salários mínimos acessaram a internet.
32,7% das pessoas sem rendimento ou que ganham até um quarto do salário mínimo acessaram a internet.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

REVOLUÇÃO 4.0 OU A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


A Quarta Revolução Industrial, de Klaus Schwab

Supercomputadores móveis, cada vez mais onipresentes. Robôs inteligentes. Carros autoguiados. Aperfeiçoamento do cérebro através da neurotecnologia. Manipulação genética. São algumas das evidências de uma mudança dramática que está ocorrendo à nossa volta a uma velocidade inimaginada.

Autor do livro “A quarta revolução industrial” (The Fourth Industrial Revolution), o professor alemão Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, há mais de quatro décadas envolvido nos assuntos de interesse global, está convencido de que estamos no início de uma nova revolução industrial que vem mudando fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

As revoluções industriais anteriores libertaram a humanidade das limitações naturais, possibilitando pela primeira vez a produção em massa e a aproximação de milhares de pessoas por meio da rede internacional de computadores. A Quarta Revolução Industrial é, no entanto, profundamente diferente, pois se define por uma série de inovações tecnológicas que estão diluindo as fronteiras entre o mundo físico, a robótica e a biologia, o que alteraria drasticamente a ciência, a economia, a produção e até mesmo as ideias sobre o que é o ser humano.

Conforme o autor, estas mudanças poderiam indicar uma nova era extremamente promissora para a humanidade. O desenvolvimento atual produziu um enorme potencial tecnológico para unir milhões e milhões de pessoas ao redor do planeta, melhorou drasticamente a eficiência das instituições e organizações sociais, além de gerar ativos para a regeneração do meio ambiente devastado pelas revoluções industriais anteriores.

Entretanto, Schwab aponta muitas reservas, algumas perturbadoras. Segundo ele, é muito provável que as instituições sociais não estejam prontas para se adaptarem às rápidas mudanças em curso; os governos poderão negligenciar o emprego e a regulamentação das novas tecnologias na economia, o que afetaria o desenvolvimento econômico; as inconstâncias políticas poderiam criar instabilidades à segurança mundial; a desigualdade poderá aumentar ainda mais; e as sociedades tenderiam a se fragmentar.

No livro, o autor delimita a nova revolução ao contexto histórico atual e detalha as principais tecnologias que impulsionaram as transformações, discutindo seus impactos no cenário político, empresarial, social e mesmo na esfera dos indivíduos, sugerindo respostas para enfrentá-los. No cerne de sua análise está a convicção de que esses impactos podem estar sob o controle da humanidade desde que se fomente um dialogo interdisciplinar entre as diversas áreas do conhecimento e, daí, aproveitar as oportunidades surgidas das propostas vislumbradas.

Neste sentido, Schwab faz um apelo para que todos diversos setores da sociedade e da política “se unam para construir um futuro comum, colocando as pessoas acima de tudo, pois, lembra o autor, que a tecnologia é, antes de mais nada, uma ferramenta criada por pessoas para pessoas”.

Entender como a humanidade pode se beneficiada e superar os desafios desta revolução foi o tema principal da reunião anual do Fórum Econômico Mundial em 2016, realizado justamente sob o lema "Controlar a Quarta Revolução Industrial".

Os dados das pesquisas de grande amplitude, as grandes ideias e o conhecimento das redes globais, por líderes empresariais, governamentais, da sociedade civil e de jovens líderes, no Fórum Econômico Mundial, é analisado em profundidade pelo livro, numa perspectiva de como a humanidade pode assumir a responsabilidade coletiva de garantir um futuro melhor para todos.

NOTA DO BLOG: Se a teoria das etapas da Revolução Industrial já é em si bastante controvertida, o que pensar então de uma nova fase industrial? Mais estranho ainda é quem propõe a ideia: o Fórum Econômico Mundial. A questão principal é saber por que o Fórum Econômico Mundial trabalha com esta hipótese, que poderia ser compreendida como uma agenda capitalista com fins estratégicos e de mercado. Por isso o tema foi postado, porque se entende que, falso ou verdadeiro, o assunto é atual e fomenta o debate num terreno teórico tão movediço. Mas vindo de quem vem, não pode ser boa coisa.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

LULA: CULPADO OU INOCENTE? NA OPINIÃO DE UM ANARQUISTA


Por João Monti

Todas as manchetes dos jornalões do país repercutiram – com júbilo disfarçado – a sentença condenatória do juiz Sérgio Moro no processo do qual Lula é réu com a seguinte frase: pela primeira vez na história do Brasil um ex-presidente da república foi condenado pela justiça.

O que é surpreendente, em se tratando de um país onde a corrupção é regra e não exceção!

Não apenas surpreendente, revela um significado de cunho perverso próprio da realidade brasileira. A questão correta deveria ser: por que na história do Brasil apenas um presidente foi condenado por corrupção?

Pouco surpreendente, por sinal, é a sentença de Lula, que nada tem a ver com corrupção.

Lula foi condenado porque, como tantos outros brasileiros condenados, é de origem pobre. Não é de hoje que o senso comum reza o velho adágio, de tão verdadeiro: no Brasil, só vai para a cadeia pobre, preto e mulato. As oligarquias burguesas do sudeste “branco” jamais engoliram a presença de um trabalhador, nordestino e ex-retirante, no mais alto cargo mandatário do país. Por isso, estas elites, de mentalidade escravocrata, exigiam punição exemplar a Lula.

Lula foi condenado e seus bens confiscados. Para a casa grande, não basta apenas esquartejar, é preciso salgar a terra e amaldiçoar até a terceira e quarta geração.

Se então a condenação de Lula já era um pressuposto, qual o pretexto para justificá-la?

Ao que parece, seu crime foi ter supostamente comprado um apartamento triplex no decadente Guarujá. Pelo menos, este é o entendimento da maior parte da população. E a plebe faz coro aos senhores: Que ousadia, um ex-metalúrgico, um reles trabalhador, como nós, comprar um triplex! Nada mais odioso, um pobretão querer dar uma de magnata. Pobre é pobre... Rico é rico... Como água e óleo.

E assim o povo esbravejou: o apedrejamento, em praça pública!

Para quem tem um pingo de inteligência e não é muito invejoso, esse argumento não convence.

Na verdade, para configurar crime a suposta compra do apartamento, Lula deveria oferecer em contrapartida vantagens indevidas à empreiteira OAS, receber propina em troca e usar o imóvel para lavar dinheiro. Isso nunca foi comprovado durante o processo. Na sentença, apenas suposições e indícios (ou como disse o juiz, “provas indiretas”). De fato, Moro se valeu do depoimento de duas testemunhas (ignorando dezenas de outras que inocentavam Lula) para condenar o ex-presidente. No direito, o testemunho é a prova de menor credibilidade, a prova mais frágil, no jargão preconceituoso da advocacia, é a prostituta de todas as provas. Conheci um rapaz que teve problemas na justiça e comprou cinco testemunhas com garotas de programa. É abominável, mas é verdade. Resultado da sentença: ele foi absolvido, mesmo sendo culpado. Portanto, a condenação de Lula, que deverá ser confirmada em segunda instância, carece de qualquer fundamentação jurídica. (Acredito até que Lula poderá ser absolvido no Supremo, mas até lá já vai estar fora do páreo eleitoral e condenado em outros processos).

Assim, se paira alguma sombra de dúvida, no direito vale a máxima de Voltaire: Mas vale absolver um culpado do que condenar um inocente.

É ingênuo, no entanto, creditar ao judiciário a faculdade de justiça. O poder judiciário não é nada mais do que uma instância superior de polícia e, como tal, tem função de reprimir o povo, em defesa das classes endinheiradas. O direito é uma ficção, não é ciência, não é lógica, e está sujeito à interpretação de pessoas passíveis de crenças, paixões, convicções, ideologias políticas etc. Programas de computadores poderiam julgar com muito mais imparcialidade, rapidez, eficiência e, o que é extraordinário, a custo quase zero.

Todavia, o que seduz o poder judiciário não é o ideal da justiça, não sejamos ingênuos, mas o dinheiro, que faz pender o fiel da balança sempre para o lado dos cifrões. Não é à toa que escritórios de advocacia ganham tanto, geralmente driblando a lei, e a magistratura constituir-se por uma casta de marajás acima da lei.

A “justiça” está a serviço dos grandes interesses econômicos e do Estado, que, por sua vez, serve a estes.

Mas, se a estrutura é tão fechada, então por que deixaram Lula chegar à presidência da república e não mataram a erva daninha pela raiz?

Porque, apesar de tudo, Lula nunca foi um rebelde.

Lula fez nome não como um revolucionário, ao modo de um Che Guevara, mas como um grande apaziguador, um mediador, um negociador dos interesses do patronado e do operariado.

Na política, Lula acreditou que poderia conciliar classes antagônicas, através de um governo de frente popular capaz de realizar um pacto social, e sempre julgou contar com a benevolência da mídia monopolista. Afinal, Lula nunca foi comunista. Basta analisar sua trajetória de vida, suas declarações, entrevistas, mesmo nos anos 80. Vide seus filhos: todos optaram por ser patrão, não empregado. Nenhum deles militou em causa dos trabalhadores. Mesmo Lula chegou a ser um empresário bem sucedido. Sua empresa de palestras e eventos, a LILS, faturou entre 2011 e 2015 27 milhões de reais, realizando palestras no mundo todo, que chegavam ao valor de 300 mil a 800 mil reais (todas declaradas à receita federal), tendo por clientes as empreiteiras Odebrecht, OAS, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, UTC Engenharia e Queiroz Galvão, os bancos BTG Pactual, Itaú, Bancomer e Bank of America, as cervejarias Ambev e Petrópolis, além das empresas Microsoft, Grupo Globo, Nestlé, LG Electronics, Pirelli, Lojas Americanas, entre outras. (Perto do que a empresa de consultoria do Ministro Henrique Meirelles faturou apenas no ano de 2016, R$ 217 milhões de lucro, dos quais 50 milhões aplicados no exterior, tendo entre clientes a JBS [Friboi], a empresa de Lula é café pequeno. Mas, claro, vão dizer os moralistas, Meirelles recebeu honestamente, assim como FHC e suas palestras; já com Lula... é propina. Quer saber, só tonto acredita nisso).

É possível compreender um Lula deslumbrado por ter se tornado um novo rico. Mas ainda assim, um rico modesto. Nada de apartamentos na avenida mais cara de Paris, fazendas, contas na Suíça, empresas de fachada, malas de dinheiro...

Sem dúvida, em determinado momento, Lula era útil.

Lula jamais quis mudar nada. Para Lula, não importa que os bancos tenham lucros recordes e a classe média ganhe muito dinheiro se em compensação os trabalhadores puderem se reunir no domingo para assistir uma partida de futebol e, depois, fazer um churrasquinho na laje, regado a muita cerveja e ao som de uma boa batucada de samba. Na mentalidade de Lula, os pobres se contentam com pouco e todos podem ganhar cada um ao seu modo. Lula é, na verdade, um defensor de um capitalismo soft.

O próprio PT, um partido de dirigentes burocratas, brancos, de classe média alta ou ricos, como o playboy Haddad, entre outros, sem um único trabalhador de fato, com exceção de Lula (e Vicentinho), e uma legião de filiados sem nenhuma expressão, verdadeiro curral eleitoral, abandonou totalmente a bandeira da ética, que o estigmatizou nos anos 80, e participou de toda sorte de falcatruas em nome da permanência no poder e da governabilidade, isto é, da manutenção do establishment. Aparelhando os movimentos sociais e esvaziando suas reais reivindicações, por meio de programas sociais baratos, cargos e favores, em nenhum momento o PT pôs em questão a derrubada do capitalismo. Ao contrário, tentou encarnar um projeto desenvolvimentista estrangulado pelo capital rentista e fomentou um capitalismo como há muito não se via por estas bandas. Nem é preciso fazer menção ao fato do governo PTista não ter feito as reformas agrária, urbana, política – fim do financiamento de campanha e paridade entre os partidos – e tributária – taxação dos mais ricos –, a auditoria da dívida pública, o fim dos super salários de funcionários públicos etc. O PT fez aquilo que podia fazer no contexto da democracia burguesa. Ficar amargurando o que os governos de Lula e Dilma poderiam ter feito e não fizeram, como a lei de mídia, é meramente especulativo. Ao contrário, o fato é que o governo Lula salvou o Grupo Globo da falência, injetando dinheiro público, via BNDES, na empresa. No máximo, o PT é um partido reformista, dentro dos limites rígidos do Estado de bem estar social em um país de economia dependente, como o brasil.

O que pode escandalizar a classe média de direita e anticomunista é que o projeto PTista em essência é o mesmo dos neoliberais, evidentemente, sem o conteúdo moralista da meritocracia, a saber, pressupõe a utopia do mercado como solução para resolver todos os problemas da humanidade e do universo.

Agora pensemos por um outro ângulo. Mesmo sem provas e supondo-se, no entanto, que os indícios na sentença realmente indicam que Lula praticou crime, embora sem ter deixado rastros, será que isto é motivo para o perseguirem unicamente? Pois, se de fato houvesse um combate à corrupção no Brasil, não iria sobrar uma única instituição e empresa de pé. E, se tal comparação tiver algum valor ilustrativo, Lula seria como um batedor de carteira se comparado a outros políticos e notórios empresários, verdadeiros assaltantes de banco.

Seja como for, Lula é apenas um bode expiatório, que deve ser exterminado, para purgar todas as culpas da hipócrita sociedade brasileira.

Diante de tudo que foi dito, cabe ainda mais uma pergunta: se Lula agradava a gregos e troianos, então por que condená-lo?

A marolinha de 2008 com o tempo se tornou um tsunami devastador, e diante da grave crise, os setores que realmente mandam no país, em ato de desespero, abriram a caixa de pandora, de onde saiu uma legião de demônios, para tentar salvar os seus estimados lucros. Alguém tinha de pagar essa conta e, como diz o dito popular, a corda sempre quebra no lado mais fraco: os trabalhadores, para não variar, foram os escolhidos mais uma vez.

Portanto, um governo conciliador perdia a razão de ser.

Daí por diante, ao som das panelas enfurecidas, atropelou-se tudo, para a desilusão daqueles que acreditavam que, enfim, no Brasil, as instituições estavam funcionando. A presidenta Dilma foi afastada por um imbróglio político-jurídico que ninguém entendeu; enquanto os usurpadores, mesmo flagrados com malas de dinheiro e em conversas mafiosas grampeadas, dão as cartas no congresso, com o apoio do STF e da complacência das, agora, condescendentes classes médias.

Eis, o coup d’état de 2016: a máscara da democracia liberal cai e uma escrachada pornochanchada bem brasileira, típica de uma republiqueta das bananas, bem ao gosto das comédias hollywoodianas, dá sonoras gargalhadas macunaímicas.


Na verdade, na verdade, não interessa se Lula é corrupto ou não, a justiça e a política venais, a impunidade dos poderosos ou mesmo a conjuntura atual, de Estado de exceção e arrocho aos trabalhadores. O sistema é podre. Não tenhamos ilusões. Num mundo em que em que somente oito homens (Bill Gates, Amancio Ortega, Warren Buffett, Carlos Slim, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Ellison e Michael Bloomberg) concentram uma riqueza equivalente a mais da metade da população mundial (3,6 bilhões de pessoas) e 1% da população detém de uma renda compatível a dos 99% restantes, considerando-se que pelo menos 2,2 bilhões de pessoas vivem em estado de pobreza (um bilhão em estado de miséria extrema), não é apenas injusto, é moralmente deplorável. A corrupção não vai parar enquanto isso não mudar.

Mas Lula ainda merece a minha sentença.

Voltemos, enfim, à pergunta que intitula o texto.

Lula: culpado ou inocente?


Veredito: Inocente, daquilo que lhe acusam. Culpado, por ter se aliado àqueles que agora lhe acusam.

domingo, 2 de julho de 2017

GÊNIOS VS. CHARLATÕES: MILLÔR CONTRA FHC


INTRODUÇÃO DE JOÃO MONTI

No campo científico ou artístico, há dois tipos extremos: os gênios e os charlatões. Entre eles, acotovela-se a multidão dos medíocres. Embora seja equivocado estigmatizar, o gênio se enquadra bem no perfil popularizado pela ficção: é um sujeito excêntrico, abstraído do mundo, desinteressado pelas coisas cotidianas, desregrado e, de certa forma, guarda um quê de maluquice. O que faz o gênio ser gênio não é o trabalho exaustivo, metódico e disciplinado; mas aquele 1% de inspiração que falta aos outros. De nada adianta ao medíocre e ao charlatão exaustivas horas de estudo e trabalho se estes não tiverem – e eles de fato não têm – aquele bendito 1% de inspiração do gênio. Podem transpirar à vontade: 100%. Vão morrer secos! No caso específico dos medíocres, estes são os famosos CDFs, tão aferrados às regras do chefe e dos deveres da lição de casa: pobrezinhos, nunca dão em nada. Aliás, ambos, tanto o medíocre como charlatão, podem trabalhar muito, muitíssimo, por anos a fio e, tão certo como o dia vai nascer, nunca vão propor durante toda sua carreira uma só ideia interessante. Não é o que ocorre em absoluto com o gênio, que, do nada, pode conceber um pensamento capaz de mudar o mundo. É o famoso “eureka!”, exclusividade dessa coisa meio indefinível que se chama genialidade. A obra do gênio é a obra-prima, fica para sempre. O gênio será sempre lembrado por seus feitos, não pelo elogio de si mesmo que, porventura, poderia fazer, como recorrentemente faz o charlatão. Os outros, o medíocre e o charlatão, serão esquecidos assim que se aposentarem, não passam de sua própria geração (geralmente alunos ávidos por uma bolsa de pesquisa), ou serão lembrados por sua insignificância. O charlatão, sabedor de sua redundante mediocridade, mas ganancioso que é, procura suprir sua falta de gênio (o tal do 1% ao qual nos referimos e que realmente faz uma baita diferença), procura suprir sua falta de gênio através da política, ou melhor, da politicagem. É aí que o velhaco tem liberdade para agir de modo inescrupuloso, esgueirando-se pelos bastidores, comprando e vendendo apoio, para angariar prestígio pessoal. O gênio não liga para isso, faz o seu trabalho, e é incompreendido pelos medíocres, que, normalmente, lhe invejam, embora não confessem jamais. Por isso, os medíocres vão isolar o gênio, vão desclassificá-lo, depreciá-lo, taxá-lo de lunático, talvez até expulsá-lo, porque o gênio os faz perceber como são tão e irremediavelmente medíocres. Enquanto isso, o charlatão continua incansável nas sombras, barganhando favores, chantageando, até concentrar em suas mãos poder demasiado e imerecido. Na verdade, há muito ele abandonou a ciência ou arte, seu trabalho é meramente protocolar, atua deveras somente na burocracia. A burocracia, eis o habitat natural do medíocre e do charlatão! É aí onde eles se sentem mais à vontade, chafurdando em sua pequenez. Porém, enquanto o charlatão se destaca, devido às suas práticas antiéticas, o medíocre fica pelo meio do caminho. O medíocre é honesto demais. Evidentemente, não é o caso do vil charlatão, que faz da falsidade a condição de seu sucesso. Pois o charlatão é tão sórdido e sem limites, que, para atingir seus objetivos, frequentemente, ao corromper, trair, mentir etc. e tal, acaba por conquistar posições importantes na hierarquia institucional. Daí o fato de receber prêmios das mais diversas organizações, todas elas corruptas. Pode ser até analfabeto, mas não raro é agraciado com importantes prêmios literários! O que prova que não só o Nobel é uma fraude, mas 99,9999...% dos concursos de premiação que existem por aí, também. Sim, não só o esporte e a música pop vivem de jabá, a ciência e a arte estão repleta dele. Mas isso não importa, o charlatão sorri, cínica e exitosamente, e é bajulado por uma horda de puxa-sacos que não se cansa de elogiá-lo, de chamá-lo de gênio!!! Por outro lado, o gênio, ignorado por todos, não desanima, é um obstinado, conhece o seu valor e o valor de sua obra, vai em frente, solitário. Sim, uma hora vem a história, justiceira implacável, e passa como um trator em cima do medíocre e do charlatão, não restando nem um traque deles. Para, porém, respeitosa, diante do gênio, se curvar.

A inspiração para escrever este texto veio de dois fatores que descrevo a seguir. Um diz respeito às intrigas do Departamento de Geografia da USP, no qual convivi durante muito tempo e farei um breve comentário. O outro, refere-se ao texto abaixo, do qual também farei breve considerações.

Quando se conhece melhor o Departamento mencionado (acredito que pode se generalizar a outros departamentos também), e isso só se dá totalmente na pós-graduação, aprende-se que existem alguns grupos de pessoas, capitaneados por uma aliança de professores e sua tropa de pós-graduandos, que disputam ferrenhamente o poder departamental. O embate, no entanto, nunca é direto. Primeiro, são as piadinhas, o comentário espirituoso, a ironia, as insinuações, o falar por trás. Disso decorre uma séria de práticas sorrateiras, combinações insidiosas, conluios, culminando, enfim, num jogo extremamente sujo que a princípio não conviria a pessoas de tão alta instrução cultural. O problema é que quanto mais se disputa poder na burocracia, menos a produção acadêmica ou artística é relevante.

Gostaria de deixar registrado um exemplo concreto, pois, para a minha perplexidade, a iniciativa veio de alunos de pós-graduação! Lembro-me de que o grupo dos kurzianos passou a participar das comissões de avaliação de projeto de pesquisa justamente para pleitearem melhor classificação aos seus colegas de grupo no ranking de bolsa de estudo! Não só isso, lançavam-se a RD e, para serem eleitos, como de fato foram, aparelhavam assembleia (algo que sempre criticavam no movimento estudantil), ao mesmo tempo em que deslegitimavam a greve de trabalhadores por reajuste salarial. Tudo isso, para usar os termos deles, “para marcar posição”.

O segundo fator é sobre um texto muito divulgado na internet mas que fiz questão de publicar neste blog e que mostra como um gênio desmascara com simplicidade ímpar um charlatão tão pomposo que chega a dar náuseas. O gênio é o escritor Millôr Fernandes. O charlatão é o político Fernando Henrique Cardoso. FHC – juntamente com Enzo Faleto – é injustamente considerado o teórico da “teoria da dependência”. Na verdade, FHC apenas elaborou uma apologia da dependência – tal como atuou na política, esvaziando todo conteúdo crítico feito por teóricos pioneiros da "dependência", como Vânia Bambirra, Andrew Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, entre outros. O fato é que, ao contrário de seu mestre, Florestan Fernandes, FHC não é e nunca será bibliografia obrigatória. Sua verdadeira face é a de um coronel udnista truculento, autoritário, patriarcal e avesso à modernidade.

Mas, já me alonguei demais, fiquemos agora com um tira gosto deste fantástico escritor que foi Millôr Fernandes e suas engraçadíssimas e verdadeiras lições sobre FHC.

Em tempo (1): Por que não indicar Michel Temer para uma cadeira na ABL? Tem tudo a ver! (Evidentemente, Machado de Assis não tem culpa nenhuma disso aí. Ah, se ele soubesse no que ia dar! Ah, se ele soubesse!!!).

Em tempo (2): Quando peguei "Casa Grande & Senzala" e li, no título do prefácio de FHC, "Um livro perene", fechei o livro naquele mesmo instante e rapidamente procurei a edição prefaciada por Dary Ribeiro (cujo prefácio, segundo minha ex-orientadora, é melhor do que o livro). FHC provavelmente deve ter um dicionário de sinônimos que lhe deve servir para trocar palavras do uso cotidiano por termos, digamos assim, tão pomposos quanto ele. Já descrevi neste blog como esta é uma tática típica daqueles que não tem nada para dizer. É o que eu chamo de fetichismo da postura e da linguagem acadêmica, ardil para iludir incautos que se impressionam com pedantes de vocabulário difícil e texto obscuro. Para esse tipo de gente, a verdade está tão oculta, mais tão oculta, que já nem está neste mundo, e somente hieroglifos que surgem inventados da cabeça de um professor profeta podem decifrá-la sem jamais explicar. Haja!
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O PENSAMENTO DE FHC ANALISADO POR MILLÔR FERNANDES

LIÇÃO PRIMEIRA

De uma coisa ninguém podia me acusar — de ter perdido meu tempo lendo FhC (superlativo de PhD).

Achava meu tempo melhor aproveitado lendo o Almanaque da Saúde da Mulher.

Mas quando o homem se tornou vosso Presidente, achei que devia ler o Mein Kampf (Minha Luta, em tradução literal) dele, quando lutava bravamente, no Chile, em sua Mercedes (“A mais linda Mercedes azul que vi na minha vida”, segundo o companheiro Weffort, na tevê, quando ainda não sabia que ia ser Ministro), e nós ficávamos aqui, numa boa, papeando descontraidamente com a amável rapaziada do Dops-DOI-CODI.

Quando, afinal, arranjei o tal Opus Magno — Dependência e Desenvolvimento na América Latina — tive que dar a mão à palmatória.

O livro é muito melhor do que eu esperava.

De deixar o imortal Sir Ney morrer de inveja.

Sem qualquerpartipri, e sem poder supervalorizar a obra, transcrevo um trecho, apanhado no mais absoluto acaso, para que os leitores babem por si:

“É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em que qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação “casual-analítica”, nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo. Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos. Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas. É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de “causal-significante’ — implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente “mecânico-causal”, que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria ‘consequências internas’.”

Concurso – E-mail:

Qualquer leitor que conseguir sintetizar, em duas ou três linhas (210 toques), o que o ociólogo preferido por 9 entre 10 estrelas da ociologia da Sorbonne quis dizer com isso, ganhará um exemplar do outro clássico, já comentado na primeira parte desta obra: Brejal dos Guajas — de José Sarney.

LIÇÃO SEGUNDA

Como sei que todos os leitores ficaram flabbergasted (não sabem o que quer dizer? Dumbfounded, pô!) com a Lição primeira sobre Dependência e Desenvolvimento da América Latina, boto aqui outro trecho — também escolhido absolutamente ao acaso — do Opus Magno de gênio da “profilática hermenêutica consubstancial da infraestrutura casuística”, perdão, pegou-me o estilo.

Se não acreditam que o trecho foi escolhido ao acaso, leiam o livro todo. Vão ver o que é bom!

Estrutura e Processo: Determinações Recíprocas

“Para a análise global do desenvolvimento não é suficiente, entretanto, agregar ao conhecimento das condicionantes estruturais a compreensão dos ‘fatores sociais’, entendidos estes como novas variáveis de tipo estrutural. Para adquirir significação, tal análise requer um duplo esforço de redefinição de perspectivas: por um lado, considerar em sua totalidade as ‘condições históricas particulares’ — econômicas e sociais — subjacentes aos processos de desenvolvimento no plano nacional e no plano externo; por outro, compreender, nas situações estruturais dadas, os objetivos e interesses que dão sentido, orientam ou animam o conflito entre os grupos e classes e os movimentos sociais que ‘põem em marcha’ nas sociedades em desenvolvimento. Requer-se, portanto, e isso é fundamental, uma perspectiva que, ao realçar as mencionadas condições concretas — que são de caráter estrutural — e ao destacar os móveis dos movimentos sociais — objetivos, valores, ideologias —, analise aquelas e estes em suas relações e determinações recíprocas. (…) Isso supõe que a análise ultrapasse a abordagem que se pode chamar de enfoque estrutural, reintegrando-a em uma interpretação feita em termos de ‘processo histórico’ (1). Tal interpretação não significa aceitar o ponto de vista ingênuo, que assinala a importância da sequência temporal para a explicação científica — origem e desenvolvimento de cada situação social — mas que o devir histórico só se explica por categorias que atribuam significação aos fatos e que, em consequência, sejam historicamente referidas.

(1) Ver, especialmente, W. W. Rostow, The Stages of Economic Growth, A Non-Communist Manifest, Cambridge, Cambridge University Press, 1962; Wilbert Moore, Economy and Society, Nova York, Doubleday Co., 1955; Kerr, Dunlop e outros, Industrialism and Industrial Man, Londres, Heinemann, 1962.”

Comentário do Millôr, intimidado:

A todo momento, conhecendo nossa precária capacitação para entender o objetivo e desenvolvimento do seu, de qualquer forma, inalcançável saber, o professor FhC faz uma nota de pata de página.

Só uma objeçãozinha, professor.

Comprei o seu livro para que o senhor me explicasse sociologia.

Se não entendo o que diz, em português tão cristalino, como me remete a esses livros todos? Em inglês!

Que o senhor não informa onde estão, como encontrar.

E outra coisa, professor, paguei uma nota preta pelo seu tratado, sou um estudante pobre, não tenho mais dinheiro.

Além do que, confesso com vergonha, não sei inglês.

Olha, não vá se ofender, me dá até a impressão, sem qualquer malícia, que o senhor imita um velho amigo meu, padre que servia na Paróquia de Vigário-Geral, no Rio.

Sábio, ele achava inútil tentar explicar melhor os altos desígnios de Deus pra plebe ignara do pequeno burgo e ensinava usando parábolas, epístolas, salmos e encíclicas.

E me dizia: “Millôr, meu filho, em Roma, eu como os romanos. Sendo vigário em Vigário-Geral, tenho que ensinar com vigarice”.

LIÇÃO TERCEIRA

Há vezes, e não são poucas, em que FhC atinge níveis insuperáveis.

Vejam, pra terminar esta pequena explanação, este pequeno trecho ainda escolhido ao acaso.

Eu sei, eu sei — os defensores de FhC, a máfia de beca, dirão que o acaso está contra ele. Mas leiam:

“É oportuno assinalar aqui que a influência dos livros como o de Talcot Parsons, The Social System, Glencoe, The Free Press, 1951, ou o de Roberto K. Merton, Social Theory and Social Structure, Glencoe, The Free press, 1949, desempenharam um papel decisivo na formulação desse tipo de análise do desenvolvimento. Em outros autores enfatizaram-se mais os aspectos psicossociais da passagem do tradicionalismo para o modernismo, como em Everett Hagen, On the Theory of Social Change, Homewood, Dorsey Press, 1962, e David MacClelland, The  Achieving Society, Princeton, Van Nostrand, 1961. Por outro lado, Daniel Lemer, em The Passing of Traditional Society: Modernizing the Middle East, Glencoe, The Free Press, 1958, formulou em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento, o enfoque do tradicionalismo e do modernismo como análise dos processos de mudança social”.

Amigos, não é genial? Vou até repetir pra vocês gozarem (no bom sentido) melhor: “formulou (em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento) o enfoque (do tradicionalismo e do modernismo) como análise (dos processos de mudança social)”.

Formulou o enfoque como análise!

É demais! É demais! E sei que o vosso sábio governando, nosso FhC, espécie de Sarney barroco-rococó, poderia ir ainda mais longe.

Poderia analisar a fórmula como enfoque.

Ou enfocar a análise como fórmula.

É evidente que só não o fez em respeito à simplicidade de estilo.

Tópico avulso sobre imodéstia e pequenos disparates do eremita preferido dos Mamonas Assassinas.

Vaidade todos vocês têm, não é mesmo? Mas há vaidades doentias, como as das pessoas capazes de acordar às três da manhã para falar dois minutos num programa de tevê visto por exatamente mais ou menos ninguém.

Há vaidades patológicas, como as de Madonas e Reis do Roque, só possíveis em sociedades que criaram multidões patológicas.

Mas há vaidades indescritíveis.

Vaidade em estado puro, sem retoque nem disfarce, tão vaidade que o vaidoso nem percebe que tem, pois tudo que infla sua vaidade é para ele coisa absolutamente natural. Quem é supremamente vaidoso, se acha sempre supremamente modesto.

Esse ser existe materializado em FhC (superlativo de PhD). Um umbigo delirante.

O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal — se aquilo é escrever bem o meu poodle é bicicleta — e fala pessimamente — seu falar é absolutamente vazio, as frases se contradizem entre si, quando uma frase não se contradiz nela mesma, é considerado o maior sociólogo brasileiro.

Nunca vi nada que ele fizesse (Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro que o elevou à glória, é apenas um Brejal dos Guajas, mais acadêmico) e dissesse que não fosse tolice primária.

“Também tenho um pé na cozinha”, “(os brasileiros) são todos caipiras”, “(os aposentados) são uns vagabundos”, “(o Congresso) precisa de uma assepsia”, “Ser rico é muito chato”, “Todos os trabalhadores deviam fazer checape”, “Não vou transformar isso (a moratória de Itamar) num fato político”. “Isso (a violência, chamada de Poder Paralelo) é uma anomia”. E por aí vai.

Pra não lembrar o vergonhoso passado, quando sentou na cadeira da prefeitura de São Paulo, antes de ser derrotado por Jânio Quadros, segundo ele “um fantasma que não mete mais medo a ninguém”.

Eleito prefeito, no dia seguinte Jânio Quadros desinfetou a cadeira com uma bomba de Flit.

E, sempre que aproxima mais o país do abismo no qual, segundo a retórica política, o Brasil vive, esse FhC (superlativo de PhD) corre à televisão e deita a fala do trono, com a convicção de que, mais do que nunca, foi ele, the king of the black sweetmeat made of coconuts (o rei da cocada preta), quem conduziu o Brasil à salvação definitiva e à glória eterna.

E que todos querem ouvi-lo mais uma vez no Hosana e na Aleluia. Haja!

Millôr Fernandes, em "Crítica da razão impura ou o primado da ignorância".