sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

O Congresso Camponês, por John Reed

 


Em 18 de novembro, começou a nevar. Quando acordamos, de manhã, os beirais das janelas estavam cobertos de branco, e os flocos caíam com tanta densidade, que era impossível enxergar para além de dez passos. A lama desaparecera; em um piscar de olhos, a cidade escura se tornara toda branca, cintilante. Os droshki, com seus cocheiros agasalhados e as barbas salpicadas de branco, tinham se transformado em verdadeiros trenós, deslizando a toda velocidade, aos solavancos, pelas ruas desniveladas… Apesar da Revolução e de que a Rússia estivesse mergulhando vertiginosamente em um futuro terrível e desconhecido, a chegada da neve encheu de alegria a cidade. Todos sorriam; as pessoas saíam para as ruas, esticando os braços, sorridentes, para alcançar os flocos de neve em sua queda. Tudo o que era cinzento desaparecera; apenas as flechas e cúpulas douradas e coloridas, com seu maravilhoso esplendor potencializado, brilhavam em meio à neve branca.

Até mesmo o sol resolveu aparecer, pálido e lavado, ao meio-dia. Os resfriados e reumatismos dos meses de chuva iam embora. Alegrou-se a vida na cidade e a Revolução começou a se acelerar…

Uma noite, eu estava em um traktir — uma espécie de cabaré popular — em frente ao Smolny, do outro lado da rua; era um local barulhento e com pé-direito baixo, chamado “A Cabana do Pai Tomás”, frequentada principalmente por Guardas Vermelhos. Eles lotavam o lugar naquela noite, amontoados em torno de pequenas mesas com toalhas manchadas e enormes chaleiras de porcelana, enchendo o ar de fumaça, enquanto os garçons, exaustos, corriam para todos os lados gritando “Seichass! Seichass! Já vou! Já vou!”.

Em um dos cantos, um homem sentado, com uniforme de capitão, se dirigia a um grupo, que o interrompia a todo instante.

“Vocês não passam de uns assassinos!”, gritava ele. “Atirando nos seus próprios irmãos russos no meio das ruas!”

“Quando foi que fizemos isso?”, perguntou um operário.

“No domingo passado, quando os yunkers…”

“Pois bem, e eles não atiraram em nós?” Um dos homens exibiu o braço pendurado em uma tipoia. “E eu, não tenho algo aqui para guardar de lembrança desses demônios?”

O capitão então gritou com a força máxima de sua voz. “Vocês deveriam ficar neutros! Vocês deveriam ficar neutros! Quem vocês pensam que são para derrubar o governo legal? Quem é Lênin? Um alemão…”

“Quem é você? É um contrarrevolucionário! Um provocador!”, bradaram os outros.

Quando o grupo se acalmou um pouco, o capitão se levantou. “Muito bem!”, disse ele. “Vocês dizem que são o povo russo. Mas vocês não são o povo russo. O povo russo são os camponeses. Esperem só, até que os camponeses…”

“Sim”, gritaram, “esperemos até que os camponeses se pronunciem. Nós sabemos o que eles vão dizer… Pois não são trabalhadores, como nós?”

Em resumo, tudo dependia dos camponeses. Embora politicamente atrasados, tinham suas próprias ideias e formavam mais de 80% da população russa. Os bolcheviques contavam com relativamente poucos seguidores entre os camponeses; e seria impossível durar para sempre, na Rússia, uma ditadura dos operários industriais… O partido camponês tradicional era o Partido Revolucionário Socialista; de todos os partidos que agora apoiavam o governo soviético, os Socialistas Revolucionários de Esquerda seriam, pela lógica, os herdeiros da liderança camponesa — e os Socialistas Revolucionários de Esquerda, por sua vez, colocados à mercê do proletariado urbano organizado, precisavam desesperadamente de apoio em meio aos camponeses…

Nesse entretempo, o Smolny não negligenciara o peso dos camponeses. Depois do Decreto sobre a Terra, um dos primeiros atos do Tsik foi convocar um Congresso Camponês, passando por cima do Comitê Executivo dos Sovietes de Camponeses. Poucos dias depois, divulgou-se o regulamento detalhado dos Comitês Agrários de Volost (distritos), seguido da Instrução aos Camponeses de Lênin, que explicava, em palavras simples, a revolução bolchevique e o novo governo; no dia 16 de novembro, Lênin e Mily utin divulgaram as Instruções aos Emissários Provisórios, enviados aos milhares às províncias pelo governo soviético:

1. Assim que chegar à província da qual foi encarregado, o emissário deverá convocar uma reunião conjunta de todos os Comitês Executivos dos Sovietes de Deputados Operários, Soldados e Camponeses, para os quais deve fazer um relato a respeito das leis agrárias e em seguida pedir a convocação de uma reunião plenária dos sovietes…

2. Ele deve estudar os diversos aspectos da questão agrária da província.

(a) Foram os grandes proprietários afastados? Se sim, em quais distritos?

(b) Quem administra as terras que foram confiscadas? Os antigos proprietários ou os comitês agrários?

(c) O que foi feito dos equipamentos de uso rural e dos animais das fazendas?

3. Houve aumento da área cultivada pelos camponeses?

4. Em quanto a quantidade de terra cultivada difere da quantidade média mínima determinada pelo governo?

5. O emissário deve insistir em que, depois de os camponeses receberem a terra, é imperativo que incrementem a área cultivada o mais rápido possível e que acelerem o envio de grãos para as cidades, como única forma de combater a fome.

6. Quais são as medidas previstas ou já executadas para a transferência da terra dos grandes proprietários para os comitês agrários ou organizações similares designadas pelos sovietes?

7. É desejável que as propriedades rurais bem conduzidas e bem equipadas sejam administradas pelos sovietes compostos pelos funcionários regulares dessas propriedades sob a supervisão de engenheiros agrônomos.

Espalhou-se por todos os vilarejos o fermento da mudança, estimulado não só pelo impacto eletrizante do Decreto sobre a Terra, mas também pela presença de milhares de camponeses soldados adeptos da Revolução que retornavam do front… Esses homens, em especial, receberam muito bem a convocação do Congresso Camponês.

Como o antigo Tsik fizera em relação ao segundo Congresso de Sovietes de Operários e Soldados, o Comitê Executivo tentou esvaziar o Congresso Camponês convocado pelo Smolny. E, assim como o antigo Tsik, verificando a inutilidade de sua resistência, o Comitê Executivo espalhou telegramas frenéticos orientando que se elegessem delegados conservadores. Divulgouse até mesmo, entre os camponeses, que o Congresso seria realizado em Moghilev, e alguns delegados chegaram a ser mandados para lá; mas, em 23 de novembro, cerca de quatrocentos deles estavam em Petrogrado, e tiveram início as reuniões dos partidos.

A primeira sessão se realizou na sala Alexander do edifício da Duma, e a primeira votação mostrou que metade dos delegados era de Socialistas Revolucionários de Esquerda, enquanto os bolcheviques controlavam cerca de 20%, os socialistas revolucionários conservadores cerca de 25%, e o restante se unia apenas em torno da oposição ao antigo Comitê Executivo, dominado por Avksentiev, Tchaikovski e Peshekhonov…

A grande sala, abarrotada, se agitava com os clamores incessantes; um profundo e permanente amargor dividia os delegados em grupos raivosos. À direita, viam-se as ombreiras cintilantes dos oficiais e os rostos patriarcais e barbudos dos camponeses mais velhos e abastados; ao centro, alguns poucos camponeses, suboficiais e soldados; e, à esquerda, quase todos os delegados usavam uniformes de soldados comuns. Estes representavam a nova geração, que estivera servindo o Exército… As galerias estavam lotadas de operários — que, na Rússia, ainda se lembravam bem de sua origem camponesa…

Diferentemente do que fizera o antigo Tsik, o Comitê Executivo não reconheceu o Congresso como oficial — o Congresso oficial estava convocado para 13 de dezembro. Em meio a uma tempestade de aplausos e gritos irados, o representante do Comitê Executivo anunciou que aquele encontro era apenas uma “Conferência Extraordinária…”. A tal “Conferência Extraordinária”, porém, logo mostrou como via o Comitê Executivo, elegendo Maria Spiridonova, líder dos Socialistas Revolucionários de Esquerda, para presidir os trabalhos.

A maior parte do primeiro dia de trabalho foi tomada por um violento debate sobre se os representantes dos sovietes distritais também seriam admitidos, ou se seriam apenas os dos sovietes das províncias. Como ocorrera no Congresso dos Operários e Soldados, a imensa maioria se declarou favorável à mais ampla representação possível, o que levou o velho Comitê

Executivo a se retirar do encontro…

Em seguida, ficou evidente que a maioria dos delegados era hostil ao governo dos Comissários do Povo. Zinoviev, tentando falar em nome dos bolcheviques, foi enxotado, e, sem conseguir falar, ao deixar a tribuna em meio a muitos risos ouviu gritos de “Vejam como fugiu da raia nosso comissário do Povo!”.

“Nós, Socialistas Revolucionários de Esquerda”, disse Nazariev, um delegado das províncias, “nos recusamos a reconhecer esse autodenominado Governo Operário e Camponês enquanto os camponeses não estiverem realmente representados nele. Até o momento, ele não é outra coisa senão uma ditadura dos operários… Insistimos na necessidade da formação de um novo governo que represente a democracia como um todo!”

Os delegados reacionários estimularam habilmente essa atitude, declarando, diante dos protestos das fileiras dos bolcheviques, que o Conselho dos Comissários do Povo estava procurando ou controlar o Congresso ou então dissolvê-lo com o uso da força — afirmação que foi recebida com grande fúria pelos camponeses.

No terceiro dia, Lênin subiu de repente à tribuna. Durante dez minutos, a sala foi à loucura.

“Tirem-no daí!”, gritavam. “Não ouviremos nenhum de seus comissários do Povo! Não reconhecemos seu governo!”

Lênin permaneceu ali, calmo, segurando o púlpito com as duas mãos, pensativo, os olhos pequeninos observando o tumulto à sua frente. Finalmente, com exceção da ala direita, as manifestações cessaram por si só, quase por inteiro.

“Não estou aqui como membro do Conselho dos Comissários do Povo”, disse Lênin, e aguardou novamente que o silêncio voltasse. “Mas sim como membro da facção bolchevique, devidamente eleita para este Congresso.” E ergueu sua credencial, de modo a que todos pudessem vê-la.

“No entanto”, retomou com uma voz monocórdia, “ninguém poderá negar que o atual governo da Rússia foi formado pelo Partido Bolchevique” — teve de aguardar um momento — “o que, para todos os propósitos, dá na mesma…” Nesse instante, das fileiras da direita emanou uma barulheira ensurdecedora, mas o centro e a esquerda, que se mostravam curiosos, impuseram o silêncio.

O argumento de Lênin era simples. “Digam-me francamente, vocês, camponeses, a quem nós transferimos as terras dos pomieshchiki. Vocês gostariam de impedir que os operários assumissem o controle das fábricas? Trata-se de uma guerra de classes. É evidente que os pomieshchiki se opõem aos camponeses assim como os industriais se opõem ao operários. Vocês permitirão que as fileiras do proletariado se dividam? De que lado vocês ficarão?

“Nós, bolcheviques, somos o partido do proletariado — tanto do proletariado camponês quanto do proletariado industrial. Nós, bolcheviques, somos defensores dos sovietes, tanto dos sovietes camponeses quanto dos sovietes operários e de soldados. O atual governo é um governo dos sovietes; não apenas convidamos os sovietes camponeses a integrar esse governo, como também convidamos representantes dos Socialistas Revolucionários de Esquerda a integrar o Conselho dos Comissários do Povo…

“Os sovietes são a forma mais perfeita de representação do povo — dos operários das fábricas e das minas e dos trabalhadores do campo. Quem quer que procure destruir os sovietes é culpado de ato antidemocrático e contrarrevolucionário. E devo alertá-los aqui, camaradas Socialistas Revolucionários de Direita — e também aos senhores do Cadete —, de que, se a Assembleia Constituinte tentar acabar com os sovietes, não permitiremos, em hipótese alguma, que ela o faça!”

Na tarde de 25 de novembro, Tchernov chegou esbaforido de Moguilev, chamado pelo Comitê Executivo. Considerado apenas dois meses antes um revolucionário radical, e bastante popular entre os camponeses, fora chamado, agora, para evitar o perigoso deslocamento operado pelo Congresso para a esquerda. Assim que chegou, Tchernov foi preso e levado ao Smolny, onde, depois de uma breve conversa, foi liberado.

Seu primeiro ato foi repreender severamente os membros do Comitê Executivo pela decisão de se retirar do Congresso. Eles concordaram, então, em retornar, e Tchernov adentrou a sala, recebido com fortes aplausos pela maioria e com gritos e vaias pelos bolcheviques.

“Camaradas! Eu estava fora, participando da Conferência do 12º. Exército sobre a questão da convocação de um congresso de todos os delegados dos exércitos da frente ocidental, e sei muito pouco a respeito da insurreição que ocorreu aqui…”

Zinoviev se levantou e gritou: “Sim, você estava fora… por alguns minutos!”. Um tumulto enorme, e gritos de “Abaixo o bolchevique!”.

Tchernov prosseguiu falando. “A acusação de que ajudei a conduzir um exército contra Petrogrado não tem fundamento e é absolutamente mentirosa. De onde veio essa informação?

Digam-me qual é a fonte!”

Zinoviev: “Do Izvestia e do Dielo Naroda — seu próprio jornal. Daí que veio a informação!”.

O rosto de Tchernov, grande, com olhos pequeninos, cabelos ondulados e barba grisalha, ficou corado de raiva, mas ele conseguiu se controlar e seguiu em frente. “Repito que não sei quase nada sobre o que se passou aqui, e que não liderei nenhum exército, a não ser este [e indicou os delegados camponeses], por cuja presença, aqui, sou amplamente responsável!” Risos e gritos de “Bravo!”.

“Assim que cheguei, estive no Smolny. Essa acusação não foi feita a mim ali… Saí de lá depois de uma rápida conversa — e é só! Que alguém presente nesta sala tenha a ousadia de repetir tal acusação!”

Seguiu-se um tumulto generalizado, durante o qual os bolcheviques e alguns Socialistas Revolucionários de Esquerda se mantiveram de pé brandindo os punhos e gritando, enquanto o restante da assembleia tentava calá-los gritando ainda mais.

“Isto é uma vergonha, não uma reunião!”, exclamou Tchernov, deixando a sala. Devido ao tumulto e à desordem que se instalou, o encontro foi suspenso…

Enquanto isso, a questão do papel e das atribuições do Comitê Executivo ocupava todas as cabeças. Ao se chamar a reunião de “Conferência Extraordinária”, a intenção era impedir uma nova eleição para o Comitê Executivo. Tal postura, porém resultou em uma faca de dois gumes: os Socialistas Revolucionários de Esquerda decidiram que, uma vez que o Congresso não teria poderes sobre o Comitê Executivo, este, então, também não poderia ter poderes em relação ao Congresso. Em 25 de novembro, a assembleia aprovou que os poderes do Comitê Executivo seriam assumidos pela Conferência Extraordinária, na qual apenas membros do comitê eleitos como delegados teriam direito a voto…

No dia seguinte, a despeito da forte oposição dos bolcheviques, a resolução sofreu uma emenda que dava aos membros do Comitê Executivo, eleitos delegados ou não, o direito de voz e de voto na assembleia.

No dia 27, deu-se o debate sobre a questão da terra, no qual se revelaram as diferenças entre os programas agrários dos bolcheviques e dos Socialistas Revolucionários de Esquerda.

Kolchinski, falando pelos Socialistas Revolucionários de Esquerda, traçou um panorama histórico de como a questão da terra se desenvolveu no decorrer da Revolução. O I Congresso dos Sovietes de Camponeses, disse ele, aprovara uma resolução oficial explícita a favor da imediata transferência dos domínios dos proprietários rurais para as mãos dos Comitês Agrários.

Mas os dirigentes da Revolução, e os burgueses do governo, insistiram em que nada fosse decidido sobre a questão até que a Assembleia Constituinte se reunisse… O segundo período da Revolução, o período do “compromisso”, foi marcado pela entrada de Tchernov no Ministério.

Os camponeses estavam convencidos, então, de que finalmente a questão da terra seria tratada; mas, apesar da decisão impositiva aprovada pelo I Congresso Camponês, os reacionários e conciliadores do Comitê Executivo impediram qualquer passo nesse sentido. Essa política provocou uma série de levantes rurais, que surgiram como uma expressão natural da impaciência e da energia reprimida dos camponeses. Estes compreenderam o claro sentido da Revolução e tentaram transformar as palavras em ações…

“Os últimos acontecimentos”, disse o orador, “não foram um simples levante ou uma ‘aventura bolchevique’, mas, ao contrário, uma verdadeira insurreição popular, recebida com simpatia em todo o país…

“Os bolcheviques, de modo geral, adotaram uma postura correta em relação à questão da terra; porém, ao recomendar que os camponeses tomassem as terras à força, cometeram um grave erro… Desde o primeiro dia, os bolcheviques declararam que os camponeses deveriam ocupar as terras ‘pela ação revolucionária das massas’. Isso não é outra coisa senão a anarquia; a terra pode ser tomada de forma organizada… Para os bolcheviques, o que importava era que os problemas da Revolução fossem resolvidos da maneira mais rápida possível — e não estavam interessados em saber como essas questões seriam resolvidas…

“O decreto do Congresso dos Sovietes sobre a terra é idêntico, em seus fundamentos, às decisões do I Congresso Camponês. Por que, então, o novo governo seguiu as táticas delineadas por aquele Congresso? Porque o Conselho dos Comissários do Povo queria acelerar a resolução da questão agrária, de modo a que a Assembleia Constituinte já não pudesse fazer mais nada a respeito…

“Mas o governo também percebeu que era preciso adotar medidas práticas. Então, sem muito refletir, adotou a Regulamentação dos Comitês Agrários, criando, com isso, uma situação estranha; pois, se o Conselho dos Comissários do Povo abolira a propriedade privada da terra, a regulamentação definida para os Comitês Agrários se baseava na propriedade privada… Isso, no entanto, não ocasionou maiores problemas, porque os Comitês Agrários não deram muita atenção aos decretos do soviete, optando por colocar em prática suas próprias decisões — decisões baseadas nos anseios da ampla maioria dos camponeses.

“Esses Comitês Agrários não buscavam tratar da questão legislativa relacionada às terras, que deve ser vista pela Assembleia Constituinte… Mas será que a Assembleia Constituinte agirá conforme o desejo dos camponeses russos? Não podemos ter nenhuma certeza em relação a isso… Tudo o que podemos dizer é que a determinação revolucionária dos camponeses agora aflorou, e que a Constituinte se verá forçada a tratar da questão agrária da maneira como os camponeses querem que ela trate… A Assembleia Constituinte não se atreverá a se chocar com os anseios do povo…”

Lênin falou em seguida, sendo ouvido, dessa vez, com uma atenção intensa. “Neste momento, não estamos tentando resolver apenas a questão agrária, mas também a questão da Revolução Social — e não apenas aqui, na Rússia, mas em todo o mundo. A questão da terra não pode ser solucionada separadamente dos outros problemas da Revolução Social… Por exemplo, o confisco das grandes propriedades de terra provocarão resistência não apenas por parte dos grandes proprietários russos, mas também do capital externo, ao qual os grandes proprietários de terras estão vinculados por intermédio dos bancos…

“A propriedade da terra na Rússia está na base de uma grande opressão, e o confisco da terra pelos camponeses é o passo mais importante de nossa Revolução. Mas ele não pode ser visto em separado dos outros passos, como ficou claramente demonstrado nos diferentes estágios pelos quais a Revolução teve de passar. O primeiro estágio foi aniquilar a autocracia e o poder dos capitalistas industriais e grandes proprietários rurais, cujos interesses estão estreitamente ligados entre si. O segundo estágio foi o fortalecimento dos sovietes e o compromisso político estabelecido com a burguesia. O erro dos Socialistas Revolucionários de Esquerda, naquele momento, foi não se terem oposto à política de compromisso, por defenderem a teoria de que a consciência das massas ainda não estava suficientemente desenvolvida…

“Se o socialismo só puder ser concretizado quando o desenvolvimento intelectual de todo o povo o tornar possível, então não teremos socialismo pelo menos nos próximos quinhentos anos… O partido político socialista constitui a vanguarda da classe operária; não pode frear a si mesmo por causa da ausência de educação da média das massas, e sim liderar as massas, usando os sovietes como órgãos que adotam iniciativas revolucionárias… Mas, para arrastar consigo aqueles que vacilam, os Socialistas Revolucionários de Esquerda têm de acabar com suas próprias hesitações…

“No último mês de julho, iniciou-se uma série de conflitos abertos opondo as massas populares aos ‘conciliadores’; mas mesmo agora, em novembro, os Socialistas Revolucionários de Esquerda ainda estendem suas mãos a Avksentiev, que, com o dedo mindinho, puxa o povo junto… Se a política do compromisso permanecer, é a Revolução que irá desaparecer. Nenhuma conciliação com a burguesia é possível; seu poder deve ser totalmente aniquilado…

“Nós, bolcheviques, não mudamos nosso programa agrário; não abrimos mão da abolição da propriedade privada da terra, e não pretendemos fazê-lo. Adotamos as regulamentações para os Comitês Agrários — que não são, de modo algum, baseadas na propriedade privada — porque queremos fazer cumprir os anseios populares da maneira como o próprio povo decidiu fazer isso, como uma forma de aproximar as forças de coalizão de todos os elementos que estão em luta pela Revolução Social.

“Convidamos os Socialistas Revolucionários de Esquerda a fazer parte desta coalizão, insistindo, no entanto, em que parem de ficar olhando para trás e rompam com os ‘conciliadores’ de seu partido…

“No que concerne à Assembleia Constituinte, é verdade, como disse o orador que me precedeu, que os trabalhos da Assembleia Constituinte dependerão da determinação revolucionária das massas. Pois eu afirmo: ‘Conte com a determinação revolucionária, mas não esqueça de levar o fuzil!’.”

Em seguida, Lênin passou a ler a proposta de resolução dos bolcheviques:

O Congresso Camponês aprova irrestritamente o Decreto sobre a Terra de 8 de novembro […] aprovado pelo Governo Provisório de Operários e Camponeses da República Russa, instituído pelo II Congresso Pan-Russo dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados.

O Congresso Camponês […] conclama todos os camponeses a dar apoio a esta lei e a implementá-la imediatamente, por conta própria; ao mesmo tempo, convida os camponeses a eleger para os postos e posições de responsabilidade apenas pessoas que tenham provado, não em palavras mas por meio de atos, sua absoluta devoção aos interesses dos trabalhadores explorados do campo, seu desejo e sua habilidade para defender esses interesses contra toda e qualquer resistência por parte dos grandes proprietários, dos capitalistas, seus acólitos e cúmplices.

O Congresso Camponês, ao mesmo tempo, exprime sua forte convicção de que a realização completa de todas as medidas previstas no Decreto sobre a Terra só poderá ter sucesso em conjunto com a Revolução Social dos Operários, que teve início em 7 de novembro de 1917; pois apenas a Revolução Social pode consolidar de modo definitivo, sem possibilidade de retorno, a transferência da terra para os trabalhadores do campo; o confisco das fazendas-modelo e sua entrega às comunas; o confisco das máquinas pertencentes aos grandes proprietários; a proteção dos interesses dos trabalhadores agrícolas através da abolição completa da escravidão assalariada; a distribuição regular e sistemática, para todas as regiões da Rússia, dos produtos industriais e agrícolas; e a tomada dos bancos (sem o que a tomada da terra pelo povo se tornará impossível após a abolição da propriedade privada), e [consolidar] todo tipo de apoio, por parte do Estado, aos operários…

Por essas razões, o Congresso Camponês decide apoiar integralmente a revolução de 7 de novembro […] como uma revolução social, e expressa seu inabalável desejo de colocar em ação, com todas as modificações que se fizerem necessárias, mas sem hesitação, a transformação social da República Russa.

As condições indispensáveis para a vitória da Revolução Socialista, única capaz de assegurar o êxito duradouro e a completa aplicação do Decreto sobre a Terra, são a forte união dos trabalhadores do campo com a classe operária industrial e com o proletariado de todos os países avançados. A partir de agora, em toda a República Russa, toda a organização e a administração do Estado, de alto a baixo, deve estar baseada nessa união. Somente essa união, ao sufocar qualquer tentativa direta ou indireta, aberta ou dissimulada, de retorno à velha política de conciliação com a burguesia — conciliação já condenada pela experiência prática—, poderá garantir a vitória do socialismo no mundo inteiro.

Os reacionários do Comitê Executivo já não se atreviam a se expor abertamente. Tchernov, porém, falou várias vezes, com uma imparcialidade modesta e cativante. Foi convidado a tomar parte da mesa… Na segunda noite do Congresso, um texto anônimo chegou às mãos do presidente dos trabalhos, propondo que Tchernov fosse eleito presidente honorário. Ustinov leu a nota em voz alta. Imediatamente, Zinoviev se ergueu, gritando que se tratava de uma manobra do velho Comitê Executivo para controlar o encontro; de uma hora para outra, a sala se tornou um mar de braços em movimento e de rostos irados. Ainda assim, Tchernov manteve sua forte popularidade.

No decorrer dos acirrados debates sobre a questão agrária e a resolução de Lênin, por duas vezes os bolcheviques estiveram prestes a deixar a sala, sendo contidos por suas lideranças… Parecia-me que o Congresso se encontrava em um impasse inescapável.

Mas nenhum de nós sabia que, àquela altura, uma série de reuniões secretas já estava se realizando no Smolny entre os Socialistas Revolucionários de Esquerda e os bolcheviques. Inicialmente, os Socialistas Revolucionários de Esquerda exigiam que fosse constituído um governo composto por todos os partidos socialistas, estivessem ou não dentro dos sovietes, que responderia a um Conselho do Povo composto em igual número de delegados das organizações operárias e dos soldados, além das organizações dos camponeses, e complementado por representantes das Dumas municipais e dos zemstvos; Lênin e Trótski ficariam de fora, e o Comitê Militar Revolucionário, juntamente com outros órgãos repressivos, seria dissolvido.

Na quarta-feira de manhã, 28 de novembro, após uma noite inteira de fortes disputas, chegouse a um acordo. O Tsik, composto por 108 membros, seria ampliado para mais 108 membros eleitos proporcionalmente pelo Congresso Camponês; por cem delegados eleitos diretamente pelo Exército e pela Marinha; e por cinquenta representantes dos sindicatos (35 das federações nacionais, dez dos ferroviários, e cinco dos Correios e Telégrafos). As Dumas e os zemstvos não participariam. Lênin e Trótski permaneciam no governo, e o Comitê Militar Revolucionário continuaria a existir.

As sessões do Congresso tinham sido agora transferidas para o prédio da Faculdade Imperial de Direito, no número 6 do cais de Fontanka, sede dos sovietes camponeses. Os delegados se reuniram ali, quarta-feira à tarde, na grande sala de assembleias. O antigo Comitê Executivo, que fora destituído, fazia uma reunião própria, paralela, em uma sala do mesmo edifício, com a participação de delegados dissidentes e representantes dos Comitês do Exército.

Tchernov circulava entre as duas reuniões, observando de perto o desenrolar de cada uma. Ele sabia que um acordo com os bolcheviques estava sendo discutido, mas não sabia que este já tinha sido feito.

Tomou a palavra, na reunião paralela, dizendo: “Agora que todos se colocam a favor da formação de um governo com todos os socialistas, muitos se esquecem do primeiro ministério, que não era um governo de coalizão, que tinha no seu seio apenas um socialista — Kerenski — e que foi, ao seu tempo, bastante popular. Agora as pessoas atacam Kerenski; esquecem que ele foi levado ao poder não só pelos sovietes, mas também pelas massas populares…

“Por que a opinião pública mudou em relação a Kerenski? Os selvagens inventam deuses para os quais rezam, mas também punem esses deuses caso não atendam a suas orações… É isso que está acontecendo agora… Ontem era Kerenski; hoje, Lênin e Trótski; amanhã serão outros…

“Nós propusemos aos dois lados, Kerenski e os bolcheviques, que deixassem o poder. Kerenski aceitou — hoje mesmo ele anunciou, de seu esconderijo, a renúncia ao posto de primeiro ministro; mas os bolcheviques querem manter o poder, sendo que não sabem o que fazer com ele…

“Sejam ou não bem-sucedidos os bolcheviques, o destino da Rússia não vai se alterar. Os camponeses de toda a Rússia sabem perfeitamente o que querem, e estão tomando suas próprias medidas… Ao final, serão eles que nos salvarão a todos…”

Nesse entretempo, na grande sala, Ustinov anunciava o acordo selado entre o Congresso Camponês e o Smolny, que foi recebido pelos delegados com uma alegria selvagem. Subitamente, Tchernov apareceu e pediu a palavra.

“Entendo”, começou, “que um acordo está sendo concluído entre o Congresso Camponês e o Smolny. Esse acordo, porém, seria ilegal, visto que o verdadeiro Congresso dos Sovietes Camponeses só se reunirá a partir da próxima semana…

“Mais do que isso, gostaria de alertá-los de que os bolcheviques jamais aceitarão suas exigências…”

Foi interrompido, então, por enormes gargalhadas, e, percebendo a situação, deixou a tribuna e a sala, levando junto sua popularidade…

No final da tarde de 29 de novembro, o Congresso promoveu uma sessão extraordinária. Havia no ar um clima de festa; em todos os rostos se via um sorriso… Aceleraram-se as demais questões da ordem do dia, e então o velho Nathanson, o decano de barbas brancas da ala esquerda dos socialistas revolucionários, com a voz trêmula e lágrimas nos olhos, passou a ler o relatório sobre o “casamento” dos sovietes camponeses com os sovietes dos operários e soldados. A cada vez que mencionava a palavra “união”, choviam aplausos de êxtase… Ao final, Ustinov anunciou a chegada de uma delegação do Smolny, acompanhada de representantes da Guarda Vermelha, recebidos com uma enorme ovação. Um operário, um soldado e um marinheiro sucederam-se na tribuna para saudar todos os presentes.

Falou em seguida Boris Reinstein, delegado do Partido Trabalhista Socialista NorteAmericano: “O dia da união do Congresso Camponês e dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados é um dos grandes dias da Revolução. O som deste encontro ecoará em todo o mundo — em Paris, em Londres e, atravessando o oceano, em Nova York. Esta união encherá de alegria os corações de todos os trabalhadores do mundo.

“É o triunfo de uma grande obra. O Ocidente e a América esperavam do proletariado russo algo grandioso… O proletariado internacional aguarda a Revolução Russa, aguarda os grandes feitos que ela está consolidando…”

Sverdlov, presidente do Tsik, veio então saudar a todos. E ao grito de “Viva o fim da guerra civil! Viva a Democracia Unida!”, os camponeses foram deixando o edifício.

Já era noite, e a luz pálida da lua e das estrelas se refletia na neve branca. Ao longo do canal, marchavam enfileirados os soldados do regimento de Pavlovski, com sua banda, que tocava a Marseillaise. Recebidos pelos gritos roucos e profundos dos soldados, os camponeses também se enfileiravam, portando o grande estandarte vermelho do Comitê Executivo Pan-Russo dos Sovietes Camponeses, recém-bordado em dourado com os seguintes dizeres: “Viva a união das massas revolucionárias e trabalhadoras!”. Seguiam-se outros estandartes, dos sovietes distritais e também da fábrica Putilov, que dizia: “Saudamos esta bandeira, garantia da fraternidade de todos os povos!”.

Tochas apareceram, tingindo a noite de uma coloração alaranjada e refletindo-se milhares de vezes, espalhando-se em nuvens de fumaça entre a multidão, enquanto esta avançava ao longo do canal Fontanka cantando em meio a espectadores que se mantinham em silêncio, perplexos.

“Longa vida ao Exército Revolucionário! Longa vida à Guarda Vermelha! Longa vida aos camponeses!”

A enorme passeata percorreu a cidade, aumentando aos poucos e empunhando mais estandartes com dizeres bordados a ouro. Dois velhos camponeses, os corpos encurvados de tanto trabalho acumulado, caminhavam de mãos dadas, os rostos iluminados por uma alegria infantil.

“Bem”, disse um deles, “agora é que eu quero ver eles tomarem de volta as nossas terras!”

Nas proximidades do Smolny, a Guarda Vermelha estava alinhada nos dois lados da rua, esfuziante de felicidade. O outro camponês idoso se dirigiu a seu camarada: “Não me sinto cansado”, disse ele, “andei o dia inteiro como se estivesse voando!”.

Na escadaria do Smolny, agrupavam-se cerca de cem deputados operários e de soldados, com seu estandarte, escuro em contraste com a luminosidade que se espalhava pelas arcadas. Como uma onda, desceram correndo para receber os camponeses com beijos e abraços; o cortejo então avançou para dentro do portão e subiu a escadaria, produzindo o som de um turbilhão…

Na imensa sala branca de reuniões, o Tsik aguardava, em conjunto com todo o Soviete de Petrogrado e cerca de mil espectadores, tomados pela solenidade que acompanha os grandes momentos da história quando seus protagonistas têm consciência dele.

Zinoviev anunciou o acordo selado com o Congresso Camponês, sendo saudado por uma vibração que fazia tremer as paredes e que se transformou em verdadeira tempestade de ovações quando chegou do corredor o som da banda e, atrás dela, os que encabeçavam o cortejo. Na tribuna, a mesa dos trabalhos se levantou e abriu espaço para acomodar a mesa dos camponeses, todos se abraçando uns aos outros. Atrás deles, as duas bandeiras se entrelaçavam tendo como pano de fundo a parede branca, de onde fora retirado o retrato do tsar…

Abriu-se, então, a “sessão solene”. Depois de algumas palavras de boas-vindas pronunciadas por Sverdlov, subiu à tribuna Maria Spiridonova, esquálida, pálida, com óculos enormes e os cabelos lisos sobre os ombros e um ar de professora universitária da Nova Inglaterra — era a mais amada e mais poderosa mulher de toda a Rússia.

“Abrem-se para os trabalhadores da Rússia novos horizontes, jamais vistos pela História… Todos os movimentos de trabalhadores foram derrotados no passado. Mas o atual movimento é internacional, e por isso mesmo se torna invencível. Não há força no mundo capaz de apagar o fogo da Revolução! O velho mundo desaba, o novo mundo começa…”

Veio então Trótski, altamente inflamado: “Dou-lhes as boas-vindas, camaradas camponeses! Vocês estão aqui não como visitantes, mas como senhores desta casa, que abriga o coração da Revolução Russa. Os anseios de milhões de trabalhadores estão agora concentrados nesta sala… Só existe um senhor da terra russa: a união dos operários, soldados e camponeses…”.

Com um sarcasmo amargo, ele prosseguiu falando dos diplomatas dos Aliados, que até então vinham desdenhando a proposta de armistício feita pela Rússia, proposta que fora aprovada pelas Potências Centrais.

“Uma nova humanidade nascerá desta guerra… Diante desta sala, juramos aos trabalhadores de todos os países que nos manteremos em nosso posto revolucionário. Se formos derrotados, será lutando em defesa de nossa bandeira…”

Em seguida falou Kry lenko, relatando a situação no front, onde Dukhonin preparava a resistência ao Conselho dos Comissários do Povo. “Logo faremos Dukhonin e seus aliados entenderem muito bem que não trataremos com delicadeza aqueles que querem obstaculizar o caminho para a paz!”

Dy benko saudou os presentes em nome da Marinha, e Krushinski, membro do Vikzhel, afirmou: “A partir de agora, quando se consolida a união de todos os verdadeiros socialistas, o exército de ferroviários se coloca totalmente à disposição da democracia revolucionária!”. Falaram em seguida Lunatcharski, com lágrimas nos olhos, e Proshian, em nome dos Socialistas Revolucionários de Esquerda, e, por fim, Saharashvili, pelos Social-Democratas Internacionalistas Unidos, formados pelos grupos de Martov e de Górki, que declarou:

“Nós nos retiramos do Tsik por causa da política intransigente dos bolcheviques e para forçálos a concessões para se forjar a união de toda a democracia revolucionária. Agora que essa união se realizou, consideramos um dever sagrado de nossa parte voltar a integrar o Tsik… Defendemos que todos aqueles que haviam se retirado do Tsik devem agora retornar”.

Stachkov, um velho e venerável camponês, integrante da mesa de trabalhos do Congresso Camponês, voltou o olhar para os quatro cantos da sala. “Saúdo a todos com o batismo de uma nova vida e de uma nova liberdade na Rússia!”

Seguiram-se Gronski, em nome da Social-Democracia da Polônia; Skripnik, pelos Comitês de Fábrica; Tifonov, pelos soldados russos de Salonika; e outros, interminavelmente, falando com o coração aberto, com a alegre eloquência da esperança realizada…

Já era tarde da noite quando foi submetida, e aprovada por unanimidade, a seguinte resolução:

O Tsik, reunido em sessão extraordinária com o Soviete de Petrogrado e com o Congresso Camponês, reafirma os Decretos sobre a Terra e a Paz aprovados pelo II Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados, bem como o Decreto sobre Controle Operário aprovado pelo Tsik.

A sessão conjunta do Tsik e do Congresso Camponês expressa sua firme convicção de que a união dos operários, soldados e camponeses — essa fraterna união de todos os trabalhadores e de todos os explorados — consolidará o poder por ela conquistado para em seguida adotar todas as medidas revolucionárias necessárias para acelerar a transferência do poder para as mãos da classe operária em outros países e dessa maneira assegurar a consolidação duradoura de uma paz justa e a vitória do socialismo.

Fonte: John Reed, “O congresso camponês” (capítulo 12), in: 10 Dias que Abalaram o Mundo. Tradução: Bernardo Ajzenberg. Editora Companhia das Letras (Pinguim), São Paulo. 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Memorial ao 100º aniversário da Revolta de Kronstadt

“Esta tragédia do passado deve nos unir em torno do pensamento de que nada disso deve acontecer novamente” (V. Putin).

A revolta dos marinheiros de Kronstadt (28 de fevereiro a 18 de março de 1921) foi motivada pela ditadura dos bolcheviques e pela política do “comunismo de guerra”, durante a Guerra Civil na Rússia Soviética. Durante a repressão do levante de Kronstadt, no Golfo da Finlândia, mais de 2.000 pessoas morreram e mais de 6.000 foram enviadas para a prisão.

Em 2020, o RVIO anunciou um concurso para eleger o melhor design de um memorial dedicado ao 100º aniversário da revolta de Kronstadt. Cinco projetos arquitetônicos e artísticos foram apresentados. O Conselho Criativo RVIO, presidido por A.S. Konchalovsky, escolheu um projeto de Denis Stritovich e Timur Yurchenko. Os autores descreveram a ideia de seu memorial da seguinte forma:

O espaço da composição arquitetônica metafórica forma um volume triangular de mármore branco com uma diagonal dominante. O ritmo progressivo dos pilares de mármore localizados nas laterais aumenta a dinâmica do movimento. Os pilares são cobertos por contrarrelevos tingidos de preto – figuras de marinheiros armados com rifles em casacos e boinas.

A solução plástica é lacônica, as imagens são desprovidas de individualidade, despersonalizadas, generalizadas e quase simbólicas. As figuras retratadas fizeram sua escolha, estão avançando para seu destino predeterminado - para onde as bordas convergentes do mármore se assemelham aos contornos da popa de um navio ou aos montes erguidos pelo elemento relativo ao ambiente gelado. O olhar do espectador capta apenas reflexos negros no ‘gelo’ branco do mármore.

Da frente do monumento, uma via branca como a neve, cortada por uma rachadura, se abre para o futuro. Essa quebra no gelo é uma metáfora para a divisão da sociedade, o trágico colapso de ideais, a quebra de destinos.

O centro semântico da composição é a figura de um marinheiro. Ele é jovem, cheio de energia, tem toda uma vida pela frente, mas também caminha por esta via simbólica para o Gólgota. Mas algo o fez parar e se virar para nós. E neste movimento para o espectador; neste olhar pensativo reside a nossa esperança de que a sociedade tire conclusões das trágicas lições da história e das convulsões revolucionárias, que caminhe para o desenvolvimento e a consolidação da democracia e que não permita a repetição de situações em que o próprio povo mate a si mesmo.


Que este memorial sirva de lembrança da tragédia da Guerra Civil, que dividiu o povo e deixou inúmeras vítimas.

O memorial foi erguido pela Sociedade Histórica Militar Russa com o apoio do Governo de São Petersburgo em dezembro de 2021.

No entanto, meses antes, no dia 18 de março de 2021, já havia sido inaugurado um monumento em memória ao levante de Kronstadt, na ponta oeste da Ilha de Kotlin, perto do Forte Rif – local por onde teriam fugido os marinheiros para a Finlândia no final do conflito. O autor da escultura, Pavel Ignatiev, criou a instalação a partir de fragmentos de metal descobertos nos arredores do forte. Os objetos encontrados, com a sua estética brutal, superfícies curvas e perfuradas, contam mais do que palavras e slogans os trágicos acontecimentos de 1921.

Na cerimônia de inauguração do memorial, o prefeito de Kronstadt, Oleg Dovganyuk, discursou com espírito conciliatório, enfatizando que os dois lados beligerantes possuíam sua própria verdade. Não é por acaso que o evento solene foi programado para coincidir com o fim do levante - 18 de março, e não com seu início - 28 de fevereiro de 1921.




segunda-feira, 2 de outubro de 2023

A repressão ao anarquismo na rússia soviética

 

por Anarquistas russos exilados na Alemanha

Tradução do francês por Dorothea Voegeli Passetti

Os anarquistas russos surpreenderam-se ao constatar, em 1917, que os bolchevistas, seus adversários de sempre,  voltaram  a  se  reencontrar  com  eles  para  pregar palavras de ordem libertárias como “todo o poder aos sovietes” ou “a terra aos camponeses, a fábrica ao operário”.

Daí a luta comum.

O primeiro divórcio ocorreu em outubro, na criação do “governo soviético”. Quando anunciado no II Congresso dos Sovietes, em outubro de 1917, Efim Yartchouk, delegado anarquista de Kronstadt, exclamou: “Que governo? Nós não necessitamos de  nenhum  governo!”, e ainda, quando do anúncio do “soviete dos comissários do povo”: “Que soviete dos comissários? Que invenção é esta? Todo o poder deve ir aos comissários locais!...”[2]. A continuação não fez senão aumentar essa divergência, que se transformou em um fosso quando houve o ataque das tropas tchekistas [3] contra as comunas e os clubes anarquistas de Moscou, Petrogrado e outras cidades, em abril de 1918, depois de um verdadeiro abismo criado em sequência a numerosas repressões governamentais exercidas contra os libertários de todas as tendências. Enquanto isso, os dissimulados do novo poder dividiam muito o movimento anarquista russo. Certos anarquistas, e não os menores nem os menos experientes, colaboraram com as autoridades oficiais, chegando a se aliarem à tcheka: Alexandre  Gay, que sempre foi seguro e inabalável em suas convicções, dirigiu a tcheka em uma cidade do Cáucaso;  um  certo  Samsonov,  anarquista emigrado aos Estados Unidos, antes de 1917, retornou para se ocuparmais tarde da “seção dos anarquistas” da tcheka, provavelmente em função de sua competência sobre o assunto.

Esse fenômeno é traduzido quantitativamente pela presença, em 1922, de 633 ex-anarquistas no seio do partido comunista russo [4]. Contudo, um bom número de libertários continuou consequente com suas convicções e foi objeto de contínuas perseguições do poder. Mostraremos dois exemplos significativos dessa repressão.

I. S. Bleikhman, operário funileiro tornado anarquista quando emigrou, volta para a Rússia à época do czar. É preso e deportado para a Sibéria. Libertado pela Revolução de Fevereiro, torna-se muito popular entre os operários de Petrogrado e os marinheiros de Kronstadt. É eleito ao soviete de Petrogrado e sua atividade lhe vale a perseguição de Kérensky. Ele de fato desempenha, com Efim Yartchouk,um eminente papel nas jornadas insurrecionais de julho de 1917. Depois de outubro ele é constantemente perseguido pelos bolchevistas, que o prendem em 1918 e o deportam para um campo de concentração, forçando-o a trabalhos humilhantes e penosos na lama e com a água até a cintura. Uma vez que já havia adoecido na prisão czarista, sua saúde agora se arruína e morre em 1921. “Porque teríamos necessidade de dinheiro — dizia I.S. Bleikhman — toda Petrogrado está nas mãos dos operários; todos os apartamentos, todas as lojas de roupas, todas as usinas e fábricas, as tecelagens, as lojas de comida, tudo está nas mãos das organizações sociais. A classe operária não necessita de dinheiro” [5].

Essa era uma língua que o novo poder não podia nem entender, nem tolerar.

O outro exemplo vem da feroz repressão submetida ao movimento makhnovista na Ucrânia, movimento insurrecional de camponeses pobres de tendência libertária, defendendo os sovietes livres e a livre organização das comunas autônomas. Em uma obra publicada há alguns anos na França com o título Memórias de um bolchevista-leninista [6], o autor relata:

“Os bandos de Makhno se abasteciam impunemente de armas nas cidades e vilas da região de Ekaterinoslav. Era impossível descobrir os esconderijos desses bandidos e de seus chefes. Os camponeses ricos simpatizavam comeles e os escondiam; o restante da população estava aterrorizado e não ousava revelar que eles os escondiam em suas casas.

Nosso comando e os soldados rasos estavam impacientes. Sob a iniciativa de nossos soldados, os órgãos locais da tcheka com os destacamentos da seção especial e lançaram ao trabalho. Um belo dia, eles detiveram e prenderam uma centena de reféns escolhidos entre a população abastada, comerciantes, kulaks [7], padres etc.

Após o interrogatório, foram levados ao pátio da prisão, e se exigiu que eles revelassem quem eram os chefes dobando, escondidos em algum lugar: em suas casas, em suas granjas e em outros esconderijos. Os reféns foram avisados de que se se recusassem a colaborar, vinte e cinco deles seriam fuzilados ali mesmo, como responsáveis por assassinatos e pilhagens.

Os reféns se calaram. Os vinte e cinco primeiros, por ordem alfabética, foram conduzidos a vinte passos e fuzilados diante dos outros.

No segundo dia a mesma coisa se repetiu. Os reféns silenciaram outra vez e, de novo, vinte e cinco foram fuzilados perante os olhos daqueles que sobraram. No terceiro dia, a mesma cena.

Quando, no quarto dia, os vinte e cinco reféns restantes foram levados ao pátio, disseram para eles que a coragem de seus amigos fuzilados certamente seria digna de louvor se tivessem permitido que pessoas boas e honestas pudessem escapar às perseguições, mas que eles escondiam os assassinos de soldados inocentes do exército vermelho, que vieram libertar o povo ucraniano dos proprietários fundiários czaristas e dos generais que espezinhavam os libertos do povo russo e ucraniano. Os reféns pediram um dia para pensar.

No dia seguinte a essa discussão, os reféns tiveram medo e deram os nomes dos chefes do bando de Makhno e de seus esconderijos na região. Verificou-se que esses chefes eram agentes de Makhno infiltrados nos órgãos do poder soviético e na direção local do partido: particularmente o presidente do soviete da cidade, o secretário do comitê da cidade do partido, que tinha reunido em torno de si os inimigos do poder soviético” [8].

Qualquer comentário se torna supérfluo. Assinalamos simplesmente que esse gênero de operação reproduziu-se em uma escala muito maior, com o propósito de acossar e exterminar os que estavam aliados por três vezes ao exército vermelho para combater e vencer os brancos.

Alexandre Skirda

As perseguições aos anarquistas pelo poder soviético começaram de determinada forma na primavera de 1918.

As causas fundamentais e gerais dessas perseguições foram suficientemente esclarecidas acima, e nos deteremos, portanto, apenas brevemente em seu histórico.

O crescimento rápido do sucesso do movimento anarquista irritava e assustava já havia algum tempo o partido comunista, que acabava de se instalar no poder. Não se sentindo suficientemente dono da situação e não tendo ainda conquistado completamente as massas, o novo poder não se decidia a passar para a ofensiva. Foi apenas após o tratado de Brest-Litovsk que sentiu o terreno firme e viu a possibilidade de agir com muitas chances de sucesso.

Levando-se em consideração que a revolução corria um perigo mortal e que necessitava de uma pausa para poder criar um exército revolucionário, o poder comunista conseguiu aterrorizar as massas, apoderar-se da vontade delas e submetê-las a sua própria, quando firmou o tratado Brest-Litovsk, em despeito de seus desejos claramente expressos de não assinar a paz com o imperialismo alemão e continuar a resistência revolucionária, única capaz de fazer triunfar a revolução.

O tratado Brest-Litovsk foi assim imposto ao povo trabalhador pelo poder comunista. Este pôde, dessa maneira, pela primeira vez, após uma longa e obstinada resistência dos operários e camponeses, submeter grandes massas laboriosas e constrangê-las à passividade.

Isto foi apenas um primeiro passo, o mais difícil. Tendo tomado a iniciativa da ação e transgredido impunemente a vontade das massas, o poder pôde sufocar a revolução. Em seguida foi-lhe fácil continuar nesse caminho, aterrorizando e submetendo mais e mais as massas, aumentando sua pressão sobre elas, para logo reduzir a revolução aos limites de sua ditadura.

Os anarquistas protestaram energicamente contra o tratado de Brest-Litovsk e a limitação das perspectivas revolucionárias, que desvirtuava o próprio sentido da revolução. O poder então resolveu desfechar um primeiro golpe decisivo aos anarquistas, aproveitando-se da passividade adquirida pelas massas e dispondo já de uma certa força militar organizada.

Sob uma ordem vinda de cima, a imprensa comunista começou a dirigir dia após dia uma campanha recheada de acusações mentirosas e de calúnias contra os anarquistas.  Um preparo sólido do terreno acontecia igualmente nas usinas, nas assembleias, nas unidades militares etc.

As disposições das massas também eram testadas na mesma ocasião. Pôde-se prever que o poder poderia contar com suas tropas e que as massas permaneceriam mais ou menos passivas. Finalmente, na noite de12 de abril de 1918, sob um pretexto absurdo e completamente inventado, as organizações anarquistas de Moscou foram atacadas, particularmente a Federação dos Grupos Anarquistas de Moscou. Esse ataque serviu de sinal aos posteriores proferidos contra as organizações anarquistas de toda a Rússia. Depois de ter preparado seu golpe e conduzido ele mesmo uma agitação infringida nos regimentos contra os “anarcobandidos”, Trotsky pôde proferir com satisfação sua famosa declaração: “Enfim o poder soviético varre o anarquismo da Rússia com uma vassoura de ferro”.

Entretanto, o poder ainda não tinha declarado ser a ideia de anarquismo fora da lei: as liberdades de palavra, de imprensa e de pensamento ainda não estavam definitivamente suprimidas. Ainda era possível existir por todo lado uma certa atividade libertária.

Os movimentos de protesto dos operários e camponeses contra os procedimentos terroristas, esboçados em 1918 e empregados contra eles pelo poder comunista, cresceram em 1919 e 1920. O poder, mais e mais cínico e despótico, respondeu com uma repressão obstinada e crescente, não parando frente a nada.

Os anarquistas, naturalmente, estavam de corpo e alma do lado das massas traídas e oprimidas que lutavam contra seus novos mestres.

Eles exigiam, com os operários e suas organizações profissionais, o direito destes conduzirem diretamente a produção.

Com os camponeses exigiam o direito de autoadministração e de manterem relações diretas com os operários. Com uns e outros exigiram a restituição de tudo que os trabalhadores haviam conquistado pela revolução e que o poder comunista lhes roubara: a restauração de uma ordem soviética livre, o restabelecimento das liberdades civis para as correntes revolucionárias...

Em uma palavra: exigiam a restituição das conquistas de Outubro ao próprio povo, por meio das organizações de operários e camponeses. Evidentemente, assim desvendavam a política criminosa do poder. Nisso residia a base da atividade revolucionária dos anarquistas e foi somente isso que serviu de fundamento para a declaração de uma guerra de morte ao anarquismo, e para declará-lo fora da lei.

Após o primeiro grande ataque aos anarquistas na primavera de 1918, as perseguições sucederam-se em uma cadeia ininterrupta, em toda a Rússia, durante os anos seguintes, caracterizando-se cada vez mais como desenfreadas e sem pudor.

Assim, ao final do mesmo ano de 1918, numerosas organizações anarquistas do interior foram outra vez atacadas. Das organizações que conseguiram se manter intactas, as autoridades tiraram toda possibilidade de ação.

Em 1919, ao mesmo tempo em que as perseguições contra os anarquistas na Rússia continuavam a todo vapor, começaram as repressões sistemáticas aos anarquistas da Ucrânia. Cidade após cidade, vilarejo após vilarejo, seus grupos eram liquidados, seus militantes presos, os jornais proibidos e as conferências suprimidas.

Durante o verão do mesmo ano, após a famosa ordem nº. 1824 de Trotsky, que declarou fora da lei o movimento makhnovista, anarquistas foram detidos e fuzilados ao mesmo tempo que os makhnovistas. E assim por diante...

Convém notar que na maioria dos casos os ataques às organizações anarquistas eram acompanhados de atos de extrema selvageria por parte dos tchekistas e de soldados vermelhos iludidos, loucos de raiva e de ódio: agressões brutais a camaradas detidos, destruição da literatura apreendida, demolição dos locais etc.

Fora essas repressões constantes e cotidianas, o poder comunista organizava de tempos em tempos ataques em grande escala aos anarquistas, semelhantes ao da primavera de 1918. Assim, no verão de 1920, aconteceu a destruição geral, na Ucrânia, das organizações anarquistas do Nabat [9].

No final de novembro de 1920, o poder comunista, obrigado a concluir, um pouco antes, um tratado de aliança com Makhno e a parar com as perseguições antianarquistas, retomou com toda a força sua repressão, fazendo deter em Kharkov a todos os anarquistas que vinham para participar de um congresso legal, e simultaneamente prendendo todos os anarquistas da Ucrânia, organizando uma verdadeira perseguição em meio a emboscadas e buscas, detendo até mesmo adolescentes de quatorze a dezesseis anos e tomando como reféns pais, mulheres e filhos. Para justificar esse comportamento, o poder antecipou seu rompimento com Makhno e inventou um “fantástico complô anarquista” contra o poder soviético [10].

Em março de 1921, durante as jornadas insurrecionais de Kronstadt, o poder procedia outra vez a detenções maciças de anarquistas (e de anarcossindicalistas), e os acossou de novo por toda a Rússia.

Todo movimento de massas — seja uma greve, uma manifestação de camponeses ou até um movimento dedes contentamento entre soldados ou marinheiros — produzia um efeito imediato sobre a sorte dos anarquistas.

Doravante, prendia-se qualquer um que cometesse o erro de partilhar ideias libertárias ou de ser parente ou conhecido de anarquistas. O simples fato de ter ideias anarquistas e de divulgá-las abertamente era com frequência o suficiente para alguém ser preso.

Em 1919 e 1921, as organizações de juventude libertárias foram desmanteladas. A operação de 1921 foi provocada pelo desejo de destruir na raiz a aspiração da juventude ao conhecimento dos fundamentos do ensino libertário.

No inverno de 1921, as organizações de anarquistas universalistas de Moscou são atacadas.

Na primavera de 1922, ocorrem novas detenções em massa de anarquistas em toda a Rússia.

Nossa lista de repressões está longe de se completar.

É possível afirmar, sem nenhum exagero, que durante esses últimos anos toda a Rússia revolucionária foi presa ou assassinada, e teve os anarquistas em primeiro lugar.

Nessas condições, a partir de 1919, foi-lhes impossível desenvolver a menor atividade: suas reuniões, conferências e congressos não puderam ocorrer. Sua imprensa foi sufocada. Toda tomada de posição pública tornou-se mesmo impensável.

De fato, o anarquismo, as ideias libertárias e a palavra livre foram declaradas fora da lei após 1919 [11].

Uma tal infâmia não poderia produzir-se sem provocar vivos protestos pessoais da parte de algumas individualidades fortes. Perto do final de 1919, Casimir Kovalévitch, operário das oficinas das ferrovias de Moscou, anarquista muito popular em seu bairro, lançou uma bomba em uma assembleia de dirigentes comunistas, em Moscou, na travessa Léontiev, com a ajuda de alguns camaradas [12]. Esse ato de protesto contra a ditadura bolchevista não provocou nenhuma tomada de consciência no partido dirigente.  Bem ao contrário, ele começou a perseguir os anarquistas e todos os revolucionários em geral com mais obstinação ainda, recorrendo aos mais escandalosos meios de fraude e de inquisição.

Se atualmente subsiste, na Rússia, uma atividade anarquista clandestina, e se essa atividade pode levar a atos de terror antigovernamental, convém entender que esses atos sempre aconteceram e inevitavelmente serão produzidos ali onde reinam o arbítrio e um monstruoso terror comandado do alto, ali onde todo pensamento é sufocado, toda palavra é proscrita e ali onde todo outro meio de luta é impossível.

Os horrores cometidos na Rússia começam, enfim, a saltar aos olhos dos que chegam ao país e se tornam pouco a pouco conhecidos além de suas fronteiras. Isto porque o poder comunista recorre a toda sorte de meios a fim de criar uma justificativa aos seus crimes.  Ele não para diante dos meios mais infames como, por exemplo, as “ciladas”.

Uma dessas ciladas tem como protagonistas Leon Tcherny e Fanya Baron [13].

No verão de 1921, um grupo de delegados anarquistas estrangeiros, vindos para o Congresso da Internacional Sindical Vermelha, interpelou o governo soviético sobre os anarquistas russos presos na Taganka [14], que faziam greve de fome para exigir sua liberação assim como a de todos os anarquistas presos. Como os delegados insistiam sobre a liberação destes anarquistas, Trotsky e outros representantes do poder lhes responderam: “São bandidos!”

Mesmo se o poder foi obrigado a soltar finalmente esses anarquistas e de expulsá-los para o estrangeiro, montou todo um caso para justificar frente aos operários estrangeiros sua tática terrorista a respeito deles, um processo baseado em uma cilada da tcheka, sobre delitos de direito comum relativos à fabricação de dinheiro falso, e que terminou por fuzilar dois dos mais honestos camaradas: Leon Tcherny e Fanya Baron.

Revelou-se que não somente os camaradas fuzilados eram inocentes desses delitos de direito comum, mas ainda que a ideia de imprimir dinheiro falso veio da tcheka de Moscou. Dois de seus agentes — Steiner (Kamenny) e um motorista tchekista — entraram em contato com os falsificadores e depois se infiltraram em um grupo anarquista, incitando-os a fazer dinheiro falso e a organizar expropriações. Tudo isso desenvolveu-se com a concordância da tcheka que, em seguida, graças a essa cilada, exigiu a vida dos libertários, manchando suas memórias [15].

Fonte: "Verve", no. 11:  95-108,  2007.

Notas

1 Traduzido do russo para o francês por Alexandre Skirda. Publicado em Berlim, em 1923.

2  S.  N.  K anev.  Oktiabrskaya  revoliutsia  I  Krakh  anarkhisma  [A  Revolução  de Outubro e a derrocada do anarquismo]. Moscou, 1974, p. 103.

3 Conforme Jacques Baynac, “em dois anos o câncer policial tomou conta da revolução. Apenas dois meses após o golpe de Estado bolchevista de 1917, foi promulgado o decreto — mantido secreto durante sete anos — que criou a Vetcheka (abreviação de Vserossiskaïa Tchesvytchainaia Komissia — Comissão Extraordinária Pan-russa). O mal progrediu tão rapidamente que, no segundo  aniversário  da  tomada  do  poder,  o  Pravda  diagnosticou  que  ‘todo  o poder aos soviets’ transformou-se em ‘todo o poder aos tchekas’. Uma década mais tarde, a doença tomou conta de tudo. Em 16 de dezembro de 1927, mais uma  vez  no  Pravda,  o  historiador  Pokrovsky  escreveu  que  a  polícia  secreta conserva a ‘essência da revolução proletária’, e que o terror é uma ‘consequência inevitável’.” Jacques Baynac (org. en collaboration avec Alexandre Skirda et  Charles  Urjewicz). La terreur sous Lénine. Paris, Le Sagittaire, 1975. (NT)

4 Idem, p. 383. O mesmo fenômeno vale para as outras organizações operárias e revolucionárias; bundistas mencheviques, socialistas-revolucionários de esquerda e outros. (Os bundistas formaram movimentos revolucionários judeus, criados no final do século XIX na Europa Oriental. NT).

5 Ibidem, pp. 261-262.

6  Paris,  1970.

7 Kulak é um termo soviético, identificando uma classe social de proprietários rurais russos e ucranianos, donos de fazendas que usavam trabalho assalariado em suas terras. Posteriormente, durante a coletivização stalinista de 1928 a 1932, os kulaks foram desapropriados em benefício dos kolkozes (cooperativas agrícolas), levando a deportações, prisões e à morte de 5 milhões de camponeses. (NT)

8 Op. cit., pp. 38-39.

9 Nabat foi um grupo anarquista ucraniano ligado aos makhnovistas, que também mantinha uma publicação com o mesmo nome. (NT)

10 Necessitando da cooperação do exército insurrecional revolucionário dos makhnovitas para lutar contra Wrangel, o poder bolchevista firmou um acordo com Makhno no início de outubro de 1920, acordo no qual uma cláusula estipulava que os anarquistas teriam liberdade e o direito de manter  uma atividade  militante  livre. Após a vitória contra Wrangel, o poder comunista atacou Makhno traiçoeiramente e ao mesmo tempo voltou-se, mais uma vez, contra o movimento anarquista da Ucrânia. Assinalamos a seguinte circunstância característica: alguns dias antes dessa nova repressão, uma vez que a escapatória de Wrangel parecia ser certa, a estação central da rádio de Moscou telegrafou a todas as estações de província a ordem governamental de desligar seus aparelhos, salvo para as estações centrais de Kharkov e da Criméia, que deveriam receber um telegrama secreto urgente. Um simpatizante anarquista, empregado em uma estação de província, não executou a ordem de desligamento. Interceptou o seguinte telegrama: “Estabelecer os efetivos dos anarquistas na Ucrânia, em particular na região makhnovista.  Lênin.” Alguns dias depois, quase na véspera da repressão, chegou um segundo telegrama nas mesmas condições: “Exercer uma  vigilância reforçada sobre todos os anarquistas e preparar os documentos, se possível de caráter de direito comum, utilizáveis para acusar. Manter os documentos e as ordens em segredo. Divulgar por toda parte as instruções necessárias.” Algumas horas mais tarde seguiu o terceiro e último telegrama, desta vez lacônico. “Deter todos os anarquistas e acusá-los.” Todos os telegramas eram endereçados ao presidente do soviete dos comissários do povo da Ucrânia, Rakovsky, assim como ao nome de outros representantes civis e militares do poder da Ucrânia. Após o terceiro telegrama, um dos camaradas, tendo conhecimento dos fatos, partiu a Krakhov para avisar os anarquistas locais sobre a ação que se preparava. Mas chegou tarde demais: a ação já havia ocorrido. Esse foi o chamado “complô” dos anarquistas ucranianos contra o poder soviético. O Barão Piotr Nikolayevich Wrangel foi o último general a comandar o Exército Branco contra as forças comunistas. Após o armistício da Rússia com a Polônia, em outubro de 1920, os soviéticos conseguiram juntar mais forças, fazendo com que ele recuasse para a Criméia e, em novembro, se retirasse com suas tropas para Constantinopla, dando fim à Guerra Civil Russa (NT).

11 Não podemos, nesta obra, ocuparmo-nos do exame de todas as razões que permitiram ao poder comunista destruir com certa facilidade (com exceção da Ucrânia) um movimento anarquista russo bastante forte. Isso nos distanciaria muito de nosso propósito. Limitamo-nos, pois, a dar aqui um breve esclarecimento do momento decisivo da paz de Brest-Litovsk e de suas consequências. A questão como um todo representa um tema particular, ao qual pretendemos consagrar um estudo específico.

12 Pode-se encontrar detalhes deste acontecimento assim como a identidade de seus participantes no famoso Livro vermelho da Tcheka, rapidamente retirado de circulação pelo próprio poder, pois, entre outros motivos, segundo as palavras do próprio Lênin, “Fala-se demasiadas verdades a propósito destes anarquistas”.

13 Sobre Fanya Baron ver adiante o artigo de Emma Goldman (NE).

14 Taganka, é uma prisão localizada em um bairro com o mesmo nome, no centro de Moscou (NT).

15 Segue uma lista de 182 nomes de anarquistas vítimas da tcheka. (NE da tradução  francesa  de  1975).

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Emma Goldman



Por muitos anos, Emma Goldman foi uma pedra no sapato do governo norte-americano. Mas também não dá para dizer que seu relacionamento com o poder soviético fosse muito melhor.

“Proteste diante dos palácios dos ricos; exija trabalho. Se não te derem trabalho, exija pão. Se eles negarem ambos, tomem o pão”, proclamou Goldman, febrilmente, em uma manifestação de trabalhadores em Nova York em 1893. Para ‘Emma Vermelha’, uma das líderes mais reconhecidas do movimento anarquista do início do século 1920, nenhum método de buscar a justiça social estava fora de questão.

Seu ativismo turbulento, direcionado ao regime norte-americano da época, a transformou em inimiga de Estado. O primeiro diretor do FBI, John Edgar Hoover, chegou a se referir a Goldman como “a mulher mais perigosa da América”.

Luta contra o poder

Emma Goldman nasceu em uma família judia na periferia ocidental do Império Russo, mas aos 17 anos se mudou para os EUA, onde imediatamente se juntou ao movimento anarquista local.

Goldman logo se tornou uma oponente eloquente do poder tradicional e das instituições religiosas, fazendo campanha pela igualdade de gênero e pela oposição ao casamento, que, segundo ela, limitava os direitos das mulheres.

“Eu quero liberdade, o direito de expressão, o direito de todos a coisas bonitas e radiantes. Anarquismo significava isso para mim, e eu o viveria apesar do mundo inteiro – prisões, perseguições, tudo. Sim, apesar da condenação de meus companheiros mais próximos, eu viveria meu belo ideal”, escreveu Emma em sua autobiografia de 1931, “Vivendo minha Vida”.

Em 1892, ela ajudou seu amante e aliado, Alexander Berkman, a atentar contra a vida “do homem mais odiado da América”, Henry Clay Frick – um industrialista cruel e pior pesadelo dos sindicatos. A missão foi um fracasso, com Berkman condenado a 14 anos de prisão. Goldman conseguiu se safar, mas depois foi detida várias vezes por incitar tumultos, distribuir literatura proibida e tentar assassinar também o presidente William McKinley (embora sua cumplicidade nunca tenha sido comprovada).

Goldman foi destituída da cidadania dos EUA em 1908, mas continuou a viver no país, lutando por seus ideais. No entanto, o governo norte-americano enfim conseguiu encontrar uma maneira de se livrar de sua “pior inimiga”.

Arca soviética

Em junho de 1919, uma série de ataques terroristas ocorreu em várias cidades dos EUA, perpetrados pelos seguidores do anarquista italiano Luigi Galleani como uma demonstração de oposição a juízes e promotores.

Embora sem vítimas, o pânico resultante dos acontecimentos deixou elevou a tensão em todo o país. O período ficou conhecido como “O Primeiro Susto Vermelho”.

Medidas emergenciais sem precedentes foram aplicadas, que levaram aos chamados Invasões de Palmer – por conta do nome de seu organizador, o procurador-geral Alexander Mitchell Palmer. No total, 249 radicais da esquerda e anarquistas foram detidos; a maioria deles, imigrantes russos sem cidadania americana, incluindo Goldman, acusada de incitar um motim. Ela e seus companheiros foram rapidamente colocados no USAT Buford e enviados para a Rússia Soviética. O navio ficou conhecido na imprensa como a “Arca soviética”. Hoover, então assistente especial do procurador-geral, foi uma voz importante na campanha para eliminar Emma.

Desilusão na URSS

Embora o anarquismo de Goldman tivesse há muito se separado do marxismo (uma ideologia que ela chamou de “fórmula fria, mecânica e escravizadora”), ela ainda nutria grandes esperanças na “terra do vitorioso socialismo”. Não demorou muito, no entanto, para que essas esperanças também fossem frustradas.

‘Emma Vermelha’ não ficou nada satisfeita com a campanha de intimidação bolchevique contra seus camaradas-anarquistas, especialmente o aparato burocrático pesado que os bolcheviques haviam criado.

Durante encontro com Vladímir Lênin, o “pai” da Revolução Russa, ela ficou desencantada com a posição do líder sobre liberdade de expressão como algo que poderia ser sacrificado diante de circunstâncias atenuantes.

A repressão da rebelião dos marinheiros de Kronstadt em 1921 foi a gota d’água para Goldman, embora ela mesmo não criticasse o uso de meios violentos para alcançar fins políticos. “Não há como ser extremo demais ao lidar com os males sociais; além disso, o extremo é geralmente o verdadeiro”, escreveu certa vez. Apesar desse posicionamento, a violência registrada em Kronstadt foi demasiada para ela. “Eu vi diante de mim o Estado bolchevique, formidável, esmagando os esforços revolucionários construtivos, suprimindo, degradando e desintegrando tudo”, descreveu Ema em outro ensaio, intitulado “Minha desilusão na Rússia”.

O não retorno

Depois de mais esse caminho tortuoso, Goldman e Berkman deixaram a Rússia para nunca mais voltar. Pela frente, foram anos perambulando em países estrangeiros em busca de um novo lar. Paralelamente, a maioria dos seguidores de Goldman acabou se afastando dela, por sua recusa em apoiar o regime bolchevique.

Emma Goldman faleceu em 14 de maio de 1940, em Toronto. O governo dos EUA fez as pazes com sua antiga inimiga e deu permissão para que seus restos mortais descansassem em solo norte-americano. Gravada em seu local de descanso final em Forest-Park, no estado de Illinois, está uma de suas famosas citações: “A Liberdade não descerá para um povo, um povo deve se elevar à Liberdade”.

Emma Goldman e Alexander Berkman

Fonte: "'Emma Vermelha', a anarquista que lutou pela liberdade nos EUA (e se tornou sua maior inimiga", do Russia Beyond.