quinta-feira, 4 de maio de 2023

“A Comuna de Kronstadt” de Ida Mett (prefácio para a edição inglesa)

por Maurice Brinton

novembro de 1967

Tradução: Daniel Menezes Delfino

Fonte: Crítica Desapiedada

O quinquagésimo aniversário da Revolução Russa será abordado, analisado, celebrado ou lamentado de várias maneiras.

Para os negociantes do misticismo religioso e os advogados da “liberdade de empreendimento”, a deserção sensacional (e bem cronometrada) de Svetlana Stálin(1) “provaria” a resiliência de suas respectivas doutrinas, agora demonstradas como capazes de florescer naquilo que à primeira vista pareceria solo infértil.

Para os liberais incorrigíveis, a recente e cautelosa reintrodução da motivação pelo lucro em certos setores da economia russa(2) “provaria” que o laissez-faire econômico é sinônimo da natureza humana e que uma economia racionalmente planejada seria sempre um piedoso sonho impossível.

Para aqueles “esquerdistas” (como o falecido Isaac Deutscher) que viam na industrialização da Rússia uma garantia automática de atitudes mais liberais nos dias vindouros, a prisão de Daniel e Sinyavsky(3) por crime de pensamento (e a perseguição em andamento daqueles que os apoiaram) veio como um retumbante tapa na cara.

Para os “marxistas-leninistas” da China (e Albânia), a reaproximação da Rússia com os Estados Unidos, sua passividade na recente crise do Oriente Médio,(4) sua assinatura do Tratado de Interdição de Testes(5) e sua influência reacionária nos desenvolvimentos revolucionários nos países coloniais dariam testemunho de seu acelerado deslizamento no pântano do revisionismo, após a morte do Grande Stálin(6) (Stálin, será lembrado como o autor de medidas tão revolucionárias e não revisionistas como a eliminação dos Velhos Bolcheviques, os Julgamentos de Moscou, a Frente Popular, o Pacto Nazi-Soviético, os Acordos de Teerã e Yalta e as dinâmicas lutas dos Partidos Comunistas francês e italiano no imediato pós-guerra, lutas que levaram à sua tomada direta do poder em seus respectivos países).

Para os iugoslavos, reintegrados afinal depois de sua errância adolescente fora do conjunto, a reemergência de “sanidade” em Moscou será vista como corroboração de suas piores suspeitas. Os “problemas” de 1948 foram claramente todos devidos às maquinações do maligno Beria.(7) Mihajlo Mihajlov(8) agora sucede Djilas(9) atrás das grades de uma prisão do povo… apenas para lembrar hereges políticos de que também na Iugoslávia, a “democracia proletária” está confinada àqueles que se abstém de perguntar as questões constrangedoras.

Para os trotskistas de toda laia, ao menos para aqueles capazes de pensar por si mesmos, o mero fato das celebrações do quinquagésimo aniversário deveria dar o que pensar. O que as palavras significam? O quanto uma sociedade em transição pode ser “transicional”? Quatro décadas de “bonapartismo” não podem fazer da palavra uma ninharia insignificante? Como os cristãos inabaláveis carregando sua cruz, os trotskistas inabaláveis vão seguir adiante carregando a marca da sua questão (relativa à evolução futura da sociedade russa) pelo resto da sua existência terrena? Pois por quanto tempo mais eles vão seguir adiante gargarejando com as velhas palavras de ordem de “restauração capitalista ou avanço rumo ao socialismo” propostas por seu mentor em sua Revolução Traída… trinta anos atrás! Certamente apenas os cegos podem agora deixar de enxergar que a Rússia é uma sociedade de classe de novo tipo, e tem sido por várias décadas.

Aqueles que descartaram essas mistificações – ou que nunca foram cegados por elas – verão as coisas diferentemente. Eles vão sentir que não pode haver vestígio de socialismo numa sociedade cujos governantes são capazes de aniquilar fisicamente os conselhos operários húngaros,(10) denunciar igualitarismo e controle operário da produção como desvios “pequeno-burgueses” ou “anarco-sindicalistas”, e aceitar o assassinato a sangue frio de toda uma geração de revolucionários como meras “violações da legalidade socialista”, a serem retificadas – tão cautelosamente e cheio de tato – pela técnica de “reabilitação póstuma seletiva”. Será óbvio para eles que algo deu seriamente errado com a Revolução Russa. O que foi que deu errado? E quando a “degeneração” começou?

Aqui também as respostas diferem. Para alguns os “excessos” e “enganos” são atribuíveis a uma lamentável paranoia se insinuando lentamente sobre um Stálin em envelhecimento. Essa interpretação (além do fato de tacitamente aceitar o próprio “culto do indivíduo” que seus defensores dizem condenar) falha, entretanto, em explicar a repressão de revolucionários e a conciliação com o imperialismo perpetrados num período muito anterior. Para outros a “degeneração” se estabeleceu com a derrota final da Oposição de Esquerda como uma força organizada (1927), ou com a morte de Lênin (1924), ou com a abolição das facções no 10º Congresso do Partido (1921). Para os bordiguistas, a proclamação da Nova Política Econômica (1921) irrevogavelmente carimbou a Rússia como “capitalismo de estado”. Outros, rejeitando corretamente essa preocupação com as minúcias da datação revolucionária, destacam fatores mais gerais, embora, em nossa opinião, alguns dos menos importantes.

Nosso propósito em publicar este texto sobre os eventos de Kronstadt em 1921 não é esboçar um calendário alternativo. Nem estamos procurando ancestrais políticos. A construção de uma sucessão apostólica ortodoxa é a menor de nossas preocupações (num mundo em constante transformação, isso apenas daria testemunho da nossa esterilidade teórica). Nossa tarefa é simplesmente documentar alguns dos enfrentamentos reais – mas menos conhecidos – que tiveram lugar contra a burocracia crescente durante os primeiros anos pós-revolucionários, num momento em que os críticos posteriores da burocracia eram eles mesmos parte integrante do aparato.

O quinquagésimo aniversário da Revolução Russa nos presenteia com a absurda visão de uma classe dominante russa (que a cada dia se assemelha mais com sua contraparte ocidental) solenemente celebrando a revolução que derrubou o poder burguês e permitiu às massas, por um breve momento, visualizar um tipo totalmente novo de ordem social.

O que tornou possível esse trágico paradoxo? O que estilhaçou aquela visão? Como a revolução degenerou?

Muitas explicações são oferecidas. A história de como a classe operária russa foi despojada não é, entretanto, uma questão de discussão esotérica entre facções políticas, que compensam sua própria irrelevância por jornadas mentais no mundo encantado do passado revolucionário. Um entendimento do que teve lugar é essencial para todo socialista sério. Não é mero arquivismo.

Nenhuma classe dominante viável domina apenas pela força. Para dominar ela deve conseguir que sua própria visão da realidade seja aceita pela sociedade de modo geral. Os conceitos pelos quais ela tenta legitimar seu domínio precisam ser projetados no passado. Os socialistas têm reconhecido corretamente que a história ensinada nas escolas burguesas revela uma visão de mundo particular e distorcida. Que a história socialista tenha permanecido na sua maior parte não escrita é uma medida de fraqueza do movimento revolucionário.

O que passa por história socialista é frequentemente apenas uma imagem espelhada da historiografia burguesa, uma infiltração dentro das fileiras do movimento operário de métodos de pensamento tipicamente burgueses. No mundo desse tipo de “historiadores”, os líderes e gênios substituem os reis e rainhas do mundo burguês. Congressos famosos, rachas e controvérsias, a ascensão e queda de partidos políticos ou sindicatos, a emergência ou degeneração dessa ou aquela liderança substituem as batalhas mortíferas dos dominadores do passado. As massas nunca aparecem independentemente no palco histórico, fazendo sua própria história. No melhor caso elas “fornecem o vapor”, habilitando outros a dirigir a locomotiva, como Stálin colocou tão delicadamente.

“Na maior parte do tempo, historiadores ‘oficiais’ não têm olhos para ver ou ouvidos para ouvir os atos e palavras que expressam a atividade espontânea da classe operária… Lhes faltam as categorias de pensamento – alguém poderia dizer até que faltam as células cerebrais – necessárias para entender ou mesmo perceber essa atividade como ela realmente é. Para eles uma atividade que não tem líder ou programa, nem instituições e nem estatutos, pode apenas ser descrita como ‘problemas’ ou ‘desordens’. A atividade espontânea das massas pertence por definição ao que a história suprime.”(11)

Essa tendência de identificar a história da classe operária com a história de suas organizações, instituições e líderes não é apenas inadequada – ela reflete uma visão tipicamente burguesa do gênero humano, dividido de maneira quase pré-ordenada entre os poucos que administram e decidem, e os muitos, a massa maleável, incapaz de agir conscientemente em seu próprio interesse, e para sempre destinada a permanecer o “objeto” (e nunca o “sujeito”) da história. A maioria das histórias da degeneração da Revolução Russa raramente alcança mais do que isso.

A burocracia stalinista foi única em ter apresentado uma visão da história baseada em mentiras absolutas, ao invés da mistura mais usual de distorção sutil e automistificação. Mas as revelações de Kruschev(12) e os desenvolvimentos subsequentes na Rússia fizeram com que as versões oficiais dos eventos (em todas as suas variações) fossem questionadas até mesmo por membros do Partido Comunista. Até os graduandos do que Trotsky chamou de “escola de falsificação de Stálin” estão agora começando a rejeitar as mentiras da era stalinista. Nossa tarefa é levar o processo de desmistificação um pouco mais adiante.

De todas as interpretações da degeneração da Revolução Russa a de Isaac Deutscher é a mais amplamente aceita na esquerda. Ela ecoa a maioria das pressuposições dos trotskistas. Apesar de ser uma melhoria em relação às versões stalinistas, está longe de ser suficiente. A degeneração é vista como sendo devida a fatores estritamente conjunturais (o isolamento da revolução em um país atrasado, a devastação causada pela guerra civil, o peso esmagador do campesinato, etc.). Esses fatores são indubitavelmente importantes. Mas o crescimento da burocracia é mais do que apenas um acidente na história. É um fenômeno de escala mundial, intimamente ligado a um certo estágio no desenvolvimento da consciência da classe operária. É o terrível preço pago pela classe operária por seu atraso em reconhecer que sua emancipação final e verdadeira só pode ser alcançada pela própria classe operária, e não pode ser confiada a outros, alegadamente agindo em seu nome. Se o “socialismo é autoconsciência total e positiva do homem” (Marx, 1844), a experiência (e rejeição) da burocracia é um passo nessa direção.

Os trotskistas negam que as oposições iniciais ao desenvolvimento da burocracia tinham qualquer conteúdo revolucionário. Ao contrário, eles denunciam a Oposição Operária e os rebeldes de Kronstadt como basicamente contrarrevolucionários. Oposição real, para eles, começa com a proclamação, dentro do partido, da Oposição de Esquerda de 1923. Mas qualquer um ao menos familiarizado com o período saberá que em 1923 a classe operária já tinha suportado uma derrota decisiva. Já tinha perdido o poder na produção para um grupo de gerentes apontados desde cima. Já tinha também perdido poder nos conselhos,(13) que eram agora apenas um fantasma da sua antiga forma, um carimbo para a burocracia emergente. A Oposição de Esquerda lutou dentro dos limites do partido, que já estava ele mesmo altamente burocratizado. Nenhum número substancial de operários marchou por sua causa. A vontade de lutar dos operários já tinha sido consumida pelos longos enfrentamentos dos anos precedentes.

A oposição às medidas antioperárias tomadas pela liderança bolchevique nos anos imediatamente seguintes à revolução tomou muitas formas e se expressou por muitos canais diferentes e em muitos níveis. Ela se expressou dentro do próprio partido, através de numerosas tendências de oposição, das quais a Oposição Operária (Kollontai, Lutovinov, Shlyapnikov) é a mais conhecida.(14) Fora do partido a oposição revolucionária encontrou expressão heterogênea, na vida de numerosos grupos, frequentemente ilegais (alguns anarquistas, alguns anarcossindicalistas, outros professando ainda uma fidelidade básica ao marxismo).(15) Ela também encontrou expressão na atividade espontânea e frequentemente “não organizada” da classe, como as grandes greves em Leningrado(16) em 1921 e a revolta de Kronstadt. Ela encontrou expressão na crescente resistência dos operários à política industrial bolchevique (e em particular à tentativa de Trotsky de militarizar os sindicatos). Ela também encontrou expressão na resistência proletária às tentativas bolcheviques de expulsar todas as outras tendências dos conselhos, dessa forma efetivamente amordaçando todos aqueles que buscavam reorientar a construção socialista conforme linhas inteiramente diferentes.

Num estágio inicial, várias tendências lutaram contra a degeneração burocrática da Revolução. Ao excluí-los postumamente das fileiras revolucionárias, trotskistas, leninistas e outros cometem uma dupla injustiça. Primeiramente eles excomungam todos aqueles que previram e enfrentaram a burocracia nascente antes de 1923, dessa forma se tornando surdos a algumas das mais pertinentes e válidas críticas já enunciadas contra a burocracia. Secundariamente, eles enfraquecem sua própria causa, pois se as demandas por conselhos livremente eleitos, por liberdade de expressão (democracia proletária) e por gestão operária da produção estavam erradas em 1921, por que elas se tornaram parcialmente corretas em 1923? Por que são corretas agora? Se em 1921 Lênin e Trotsky representavam os “reais interesses” dos operários (contra os próprios operários), por que Stalin não poderia? Por que Kadar(17) não poderia na Hungria em 1956? A escola trotskista de santificação tem ajudado a obscurecer as verdadeiras lições da luta contra a burocracia.

Quando se estuda seriamente os anos cruciais após 1917, quando o destino da Revolução Russa ainda estava em ebulição no caldeirão, tem-se a atenção repetidamente voltada para os trágicos eventos da revolta de Kronstadt de 1921. Esses eventos são, de uma maneira sangrenta e dramática, a epítome da luta entre dois conceitos de Revolução, dois métodos revolucionários, dois tipos de ethos revolucionário. Quem decide o que é e o que não é interesse da classe operária em longo prazo? Quais métodos são permitidos para acertar as diferenças entre revolucionários? E quais métodos têm dois gumes e são capazes de, na longa duração, prejudicar a própria Revolução?

Há notavelmente pouco de natureza detalhada disponível em inglês sobre os eventos de Kronstadt. As histórias stalinistas, revisadas e reeditadas de acordo com as fortunas flutuantes dos funcionários do partido, não valem o papel em que são escritas. Elas são um insulto à inteligência de seus leitores, tratados como incapazes de comparar os mesmos fatos descritos em edições anteriores e posteriores do mesmo livro.

Os escritos de Trotsky sobre Kronstadt são poucos e mais preocupados com justificação retrospectiva e com a marcação de pontos no debate contra os anarquistas,(18) do que em analisar seriamente esse episódio particular da Revolução Russa. Trotsky e os trotskistas são particularmente atentos ao perpetuar o mito de que eles foram a primeira e única tendência anti-burocrática coerente. Todos os seus escritos buscam esconder o quanto a burocratização tanto do partido como dos conselhos já tinha ido longe em 1921, isto é, o quanto já tinham ido longe durante o período em que Lênin e Trotsky tinham controle total e indisputado. A tarefa para os revolucionários sérios hoje é ver a ligação entre as atitudes e pronunciamentos de Trotsky antes e durante o “grande debate sindical” de 1920-21 e a saudável hostilidade ao trotskismo das camadas mais avançadas e revolucionárias da classe operária industrial. Essa hostilidade se manifestaria, de armas na mão, durante a revolta de Kronstadt. Ela se manifestaria também dois ou três anos depois, dessa vez de braços cruzados, quando essas camadas avançadas deixaram de marchar em apoio a Trotsky, quando ele finalmente decidiu desafiar Stálin, dentro dos estreitos limites da máquina do partido, para cuja burocratização ele tinha contribuído significativamente.(19)

Deutscher no “Profeta Armado” retrata o pano de fundo da Rússia durante os anos da Guerra Civil, o sofrimento, o deslocamento econômico, a exaustão física absoluta da população. Mas o retrato é unilateral, ele se propõe a afirmar que a “vontade de ferro dos bolcheviques” era o único elemento de ordem, estabilidade e continuidade numa sociedade que estava pairando à beira do colapso total. Ele presta atenção reduzida às tentativas feitas por grupos de operários e revolucionários, tanto dentro do partido como fora de suas fileiras, de tentar a reconstrução social numa base inteiramente diferente, desde baixo.(20) Ele não discute a permanente oposição e hostilidade dos bolcheviques à gestão operária da produção(21) ou na verdade a qualquer empreendimento em larga escala que escapasse à sua dominação e controle. Dos eventos de Kronstadt em si, das calúnias dos bolcheviques contra Kronstadt e da repressão frenética que se seguiu aos eventos de março de 1921, Deutscher diz quase nada, a não ser que as acusações dos bolcheviques contra Kronstadt eram “infundadas”. Deutscher falha totalmente em enxergar a relação direta entre os métodos usados por Lênin e Trotsky em 1921 e aqueles outros métodos, aperfeiçoados por Stálin e depois usados contra os próprios velhos bolcheviques durante os notórios julgamentos de Moscou de 1936, 1937 e 1938.

Nas “Memórias de um Revolucionário” de Victor Serge há um capítulo dedicado a Kronstadt.(22) Os escritos de Serge são particularmente interessantes pelo fato de que ele estava em Leningrado (sic) em 1921 e apoiava o que os bolcheviques estavam fazendo, mesmo que relutantemente. Entretanto, ele não recorreu às difamações e deturpações de outros membros da liderança do partido. Seus comentários trazem luz ao estado mental quase esquizofrênico dos militantes de base do partido naquele momento. Por diferentes razões, nem os trotskistas nem os anarquistas perdoaram em Serge sua tentativa de reconciliar o que havia de melhor em suas respectivas doutrinas: a preocupação com a realidade e a preocupação com princípios.

Escritos anarquistas de algum valor e facilmente disponíveis (em inglês) sobre o assunto são virtualmente inexistentes, apesar do fato de que muitos anarquistas consideram essa área relevante para suas ideias. “Vivendo Minha Vida” de Emma Goldman e “O Mito Bolchevique” de Berkman contém algumas páginas vívidas mas altamente subjetivas sobre a rebelião de Kronstadt. “A Revolta de Kronstadt” de Anton Ciliga (produzido como panfleto em 1942) é um excelente relato curto que encara diretamente algumas das questões fundamentais. Está indisponível há anos. O relato de Voline, por outro lado, é muito simplista. Fenômenos complexos como a revolta de Kronstadt não podem ser significativamente interpretados por generalizações carregadas do tipo “como marxistas, autoritários e estatistas, os bolcheviques não poderiam permitir nenhuma liberdade ou ação independente às massas”. (Muitos argumentaram que há fortes traços blanquistas(23) e até mesmo bakuninistas no bolchevismo, e que é precisamente esses afastamentos do marxismo que estão na raiz da ideologia e prática “elitistas” dos bolcheviques). Voline até mesmo reprova os rebeldes de Kronstadt por “falarem em poder (o poder dos conselhos) ao invés de se livrarem da palavra de uma vez…” A luta prática, entretanto, não era contra “palavras” ou “ideias”. Era uma luta física contra sua encarnação concreta na história (na forma de instituições burguesas). É um sinal da confusão dos anarquistas nessa questão que eles possam igualmente reprovar os bolcheviques por terem dissolvido a assembleia constituinte(24) e os rebeldes de Kronstadt por proclamarem que defendiam o poder dos conselhos! Os anarquistas nos conselhos claramente percebiam o que estava em jogo, mesmo que muitos dos seus sucessores falhem em fazê-lo. Eles lutaram para defender a conquista mais profunda de outubro, o poder dos conselhos, contra todos os seus usurpadores, incluindo os bolcheviques.

Nossa contribuição às celebrações do quinquagésimo aniversário não consiste nos usuais panegíricos às aquisições dos mísseis e foguetes russos. Nem cantaremos odes às estatísticas da produção russa de aço. A expansão industrial pode ser um pré-requisito para uma vida melhor e mais completa, mas não é de forma alguma um sinônimo de uma tal vida, a menos que todas as relações sociais tenham sido revolucionadas. Nós estamos mais preocupados com os custos sociais das conquistas russas.

Alguns perceberam quais seriam esses custos num estágio bem inicial. Nós estamos interessados em trazer suas advertências proféticas a uma audiência bem mais ampla. O massacre final em Kronstadt teve lugar em 18 de março de 1921, exatamente cinquenta anos depois do extermínio dos comunardos por Thiers e Callifet. Os fatos sobre a Comuna são bem conhecidos. Mas cinquenta anos depois da Revolução Russa nós ainda temos que buscar informações básicas sobre Kronstadt. Os fatos não são fáceis de obter. Eles quedaram soterrados por montanhas de calúnias e distorções despejados sobre eles por stalinistas e trotskistas igualmente.

A publicação deste panfleto em inglês, neste momento particular, é parte deste empreendimento. O livro de Ida Mett “A Comuna de Kronstadt” foi publicado pela primeira vez em 1938. Ele foi republicado na França dez anos depois, mas esteve indisponível por muitos anos. Em 1962 e 1963 certas partes dele foram traduzidas em inglês e apareceram em Solidarity (II, 6 a 11). Nós agora temos o prazer de trazer aos leitores falantes de inglês uma versão levemente abreviada do livro como um todo, que contém materiais até agora indisponíveis na Inglaterra.

Além de vários textos publicados no próprio local em março de 1921, o livro de Ida Mett contém a carta aberta de Petrichenko de 1926, endereçada ao Partido Comunista Britânico. Petrichenko foi o presidente do Comitê Revolucionário Provisório de Kronstadt. Sua carta se refere às discussões no Bureau Político do Partido Comunista Britânico sobre a questão de Kronstadt, discussões que parecem ter aceito que não houve intervenções estranhas durante a revolta (membros do partido e outros podem buscar esclarecimento adicional sobre a questão em King Street,(25) cujos arquivos sobre o assunto devem proporcionar uma leitura interessante).

Ida Mett escreve de um ponto de vista anarquista. Seus escritos, entretanto, representam o que há de melhor na tradição revolucionária do “anarquismo de luta de classes”. Ela pensa em termos de uma solução coletiva, proletária, aos problemas do capitalismo. A rejeição da luta de classes, o anti-intelectualismo, a preocupação com moralidade transcendental e salvação pessoal que caracteriza tantos dos anarquistas de hoje não deve desviar os “marxistas” de prestar atenção seriamente ao que ela escreve. Nós não necessariamente endossamos todos os seus julgamentos e em algumas notas de rodapé corrigimos uma ou duas imprecisões factuais menores em seu texto. Algumas das suas generalizações parecem para nós muito sumárias e algumas das suas análises do fenômeno burocrático muito simples para ter algum uso real. Mas como uma crônica do que teve lugar antes, durante e depois de Kronstadt, seu relato permanece insuperável.

Seu texto joga uma luz interessante sobre a atitude em relação à revolta de Kronstadt mostrada no momento por várias tendências políticas russas (anarquistas, mencheviques, Socialistas Revolucionários – SR – de esquerda e de direita, bolcheviques, etc.). Alguns para quem a abordagem da política é superficial ao extremo (e para quem uma difamação ou palavra de ordem é substituto para o entendimento real) vão apontar acusadoramente para alguns desses testemunhos, para alguns desses manifestos e resoluções, como uma evidência condenando irrevogavelmente os rebeldes de Kronstadt. “Veja”, eles vão dizer “o que os mencheviques e SR de direita estão dizendo. Veja como eles estão defendendo um retorno à Assembleia Constituinte, e ao mesmo tempo proclamando sua solidariedade com Kronstadt. Isso não é uma prova positiva de que Kronstadt era um levantamento contrarrevolucionário? Vocês mesmos admitem que renegados como Victor Tchernov, presidente eleito da Assembleia Constituinte, ofereceu ajuda a Kronstadt? Que evidência adicional é necessária?”

Nós não temos medo de apresentar todos os fatos aos nossos leitores. Deixe que julguem por si mesmos. Temos a firme convicção de que a maioria dos leninistas e trotskistas é mantida tão ignorante desse período da história russa quanto os stalinistas do período dos julgamentos de Moscou. No melhor dos casos eles pressentem vagamente a presença de esqueletos no armário. No pior, eles papagaiam vagamente o que seus líderes lhes contam, intelectualmente preguiçosos demais ou politicamente muito bem condicionados demais para pesquisar por si mesmos. Revoluções reais nunca são “puras”. Elas desencadeiam as paixões mais profundas dos homens. As pessoas participam ativamente e são tragadas ao vórtice de tais acontecimentos por uma variedade de razões frequentemente contraditórias. Consciência e falsa consciência estão inextricavelmente misturadas. Um rio em plena cheia inevitavelmente carrega consigo uma certa quantidade de escombros. Uma revolução em plena vazão carrega inúmeros cadáveres políticos, e pode até mesmo momentaneamente dar-lhes um aspecto de vida.

Durante a Revolução Húngara de 1956 foram muitas as mensagens de apoio verbal ou moral aos rebeldes, emanando do ocidente, piedosamente pregando as virtudes da democracia burguesa e da livre empresa. O objetivo daqueles que falavam nesses termos era qualquer coisa menos a instituição de uma sociedade sem classes. Mas o seu apoio aos rebeldes permaneceu puramente verbal, particularmente quando se tornou claro para eles que os verdadeiros objetivos da revolução eram: uma democratização fundamental das instituições húngaras sem a reversão para a propriedade privada dos meios de produção.

A espinha dorsal da Revolução Húngara era a rede de conselhos operários. Sua principal demanda era por gestão operária da produção e um governo baseado nos conselhos. Esses fatos justificavam o apoio dos revolucionários ao redor do mundo. Apesar dos Mindszentys.(26) Apesar dos pequenos proprietários e socialdemocratas, ou suas sombras, agora tentando pegar carona no bonde revolucionário. O critério de classe é o decisivo.

Considerações similares se aplicam também à rebelião de Kronstadt. Seu núcleo eram os marinheiros revolucionários. Seus principais objetivos eram do tipo com os quais nenhum revolucionário de verdade poderia discordar. Que outros buscassem tirar vantagem da situação é inevitável, e irrelevante. A questão é quem está decidindo a melodia.

As atitudes em relação aos eventos de Kronstadt, expressas quase cinquenta anos depois do evento, fornecem uma visão profunda sobre o pensamento político de revolucionários contemporâneos. Elas podem de fato fornecer uma visão mais profunda do interior de seus alvos conscientes e inconscientes do que muitas discussões eruditas sobre economia ou filosofia, ou sobre outros episódios da história revolucionária.

É uma questão das atitudes básicas a respeito do que é o socialismo afinal de contas. O que foi sintetizado nos eventos de Kronstadt são alguns dos problemas mais difíceis de estratégia e ética revolucionárias: o problema dos meios e fins, das relações entre partido e massas, ou mesmo de que sequer um partido é necessário afinal de contas.

A classe operária pode desenvolver por si mesma apenas uma consciência sindical?(27) Ela deveria até mesmo ser autorizada, em qualquer circunstância, a ir tão longe?(28)

Ou a classe operária pode desenvolver uma consciência e compreensão mais profundas de seus interesses do que qualquer organização alegadamente agindo em seu nome? Quando os stalinistas e trotskistas falam em Kronstadt como uma “ação essencial contra um inimigo de classe”, quando revolucionários mais “sofisticados” se referem a isso como uma “necessidade trágica”, tem-se o direito de pausar por um momento. Tem-se o direito de perguntar o quão seriamente eles aceitam o dito de Marx de que “a emancipação da classe operária é uma tarefa da própria classe operária”. Eles levam isso a sério ou apenas repetem as palavras da boca para fora? Eles identificam o socialismo com a autonomia (organizacional e ideológica) da classe operária? Ou eles veem a si mesmos, com sua sabedoria sobre os “interesses históricos” dos outros, e com seus julgamentos sobre o que deveria ser “permitido”, como a liderança em torno da qual a futura elite vai se desenvolver e cristalizar? Tem-se o direito não apenas de perguntar… mas também de sugerir a resposta!

Notas:

(1) [N.T.] Svetlana Stalin (1926-2011) era a filha mais nova de Stalin, sendo formada em inglês e história dos Estados Unidos. Em 1967, justamente o ano da comemoração do 50º aniversário da Revolução Russa, ela desertou para os Estados Unidos, evento que foi explorado de maneira sensacionalista pela imprensa anticomunista. Na década de 1980 ela chegou a retornar para a URSS, e viveu alternadamente entre Inglaterra e Estados Unidos, até morrer naquele país. (retornar ao texto)

(2) [N.T.] Em 1965 o governo recém-empossado de Brejnev (1964-1982) lançou medidas de descentralização da economia, dando maior autonomia aos dirigentes das empresas para planejar suas metas de acordo com parâmetros que simulassem a busca do lucro (evidentemente, a burocracia jamais cogitaria em medidas que dessem algum poder aos operários). Entretanto, essas medidas foram logo hostilizadas pela burocracia do partido e refreadas, de modo que a economia soviética entrou num longo período de estagnação, até a adoção definitiva de reformas de mercado por Gorbatchev na década de 1980. (retornar ao texto)

(3) [N.T.] Andrei Sinyavsky e Yuli Daniel foram dois escritores russos condenados em 1966 ao confinamento em campos de trabalho forçado (gulags) por publicarem no exterior e sob pseudônimo obras satíricas contra a sociedade russa. Receberam a solidariedade de vários intelectuais no país, no que foi um dos pontos de partida do movimento de dissidência no campo da literatura e das artes. (retornar ao texto)

(4) [N.T.] Evento depois conhecido como Guerra dos Seis Dias, em que Israel, apoiado pelos Estados Unidos, derrotou Egito, Síria, Jordânia e Iraque e ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza (os chamados “territórios palestinos ocupados”, os quais retêm até hoje e nos quais aplica uma política de limpeza étnica contra a população palestina) e a península do Sinai (depois devolvida ao Egito em 1982). A URSS não interveio no conflito. (retornar ao texto)

(5) [N.T.] O Tratado de Interdição Parcial de Testes Nucleares foi assinado em 1963 entre Estados Unidos, Reino Unido e URSS, sendo depois aberto para a assinatura e ratificação por mais de uma centena de países (inclusive o Brasil), como uma forma de tentar impedir a proliferação de armas nucleares e refrear a corrida armamentista. (retornar ao texto)

(6) [N.T.] O autor ironiza o discurso dos governos da China sob a liderança de Mao Tsé-Tung e da Albânia de Enver Hoxha, que supostamente se mantinham fiéis aos princípios do socialismo, que teriam sido abandonados pela URSS. Eles atribuíam o abandono do socialismo na URSS ao “revisionismo” de Kruschev (ver nota 11), que sucedeu Stálin e introduziu algumas reformas cosméticas no regime de terror policial com o qual a burocracia submetia o conjunto da sociedade. Na sequência, o autor também ironiza as medidas ditas revolucionárias de Stálin. (retornar ao texto)

(7) [N.T.] Laurenti Beria (1899-1953) foi um dos chefes da policia soviética, na sua época chamada de NKVD (depois KGB), sendo assim um dos braços direitos de Stálin, responsável por inúmeras perseguições e massacres contra adversários reais ou supostos do dirigente máximo. Era uma das pessoas mais temidas da antiga URSS, até ele próprio ser condenado à morte e executado pouco depois da morte de seu líder. O autor alude à versão de que as intrigas de Beria seriam responsáveis pela ruptura entre Stálin e Josip Broz “Tito” (dirigente máximo da Iugoslávia desde o fim da II Guerra até a sua morte em 1980). Na realidade, a relativa independência da Iugoslávia em relação ao restante do bloco soviético deveu-se ao fato de que naquele país a guerrilha comunista (partisans) foi responsável por expulsar a ocupação nazista do país, sem depender do apoio dos aliados ou do Exército Vermelho da URSS (assim como na Albânia). Isso deu autoridade a Tito, dirigente militar e político do PC iugoslavo, para não se submeter totalmente a Stálin e buscar um rumo próprio para o socialismo (que na realidade não era muito diferente do da própria URSS, no sentido de que também não permitia nenhum grau de controle direto dos operários sobre a produção e sobre as demais instituições). Posteriormente, Tito chegou a um acordo com Kruschev em 1955 e seu país se reconciliou com a URSS. (retornar ao texto)

(8) [N.T.] Mihajlo Mihajlov (1934-2010) foi um acadêmico iugoslavo estudioso de literatura russa condenado em 1965 por publicar no exterior um texto que “difamava” a URSS, que já era então um país aliado. (retornar ao texto)

(9) [N.T.] Milovan Djilas (1911-1995) foi um dos dirigentes do PC iugoslavo e do movimento partisan, que divergiu de Tito em razão da forma centralizadora do regime político, tendo sido expulso do partido em 1954. Djilas foi preso por vários períodos nas décadas de 1950 e 1960 por suas declarações contrárias ao regime iugoslavo e ao stalinismo. Na prisão ele dedicou-se a escrever história e literatura e, ao contrário de outros dissidentes, nunca emigrou e viveu até o fim em seu país. (retornar ao texto)

(10) [N.T.] Referência à revolta húngara de 1956, em que o governo stalinista do país foi derrubado, num movimento em que o protagonismo coube aos conselhos de operários das fábricas. Entretanto, a URSS interveio com tropas para reprimir a revolta, dissolver os conselhos e reinstalar um governo fantoche. Até a altura em que o texto foi escrito, em 1967, essa revolta permanecia sendo o principal exemplo de luta contra o sistema stalinista em um país do leste europeu, uma vez que a Primavera de Praga, que teve igual destino, só aconteceria no ano seguinte, e ficou mais famosa devido ao contexto dos diversos outros acontecimentos marcantes de 1968.  (retornar ao texto)

(11) Paul Cardan, Do Bolchevismo à Burocracia (Solidarity Pamphlet 24). (retornar ao texto)

(12) [N.T.] Referência ao discurso de Nikita Kruschev (1894-1971) em fevereiro de 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da URSS. Kruschev tinha sucedido Stálin desde 1953 e permaneceria como dirigente máximo até 1964. Depois de haver expurgado os colaboradores mais diretos do antigo líder, tornou pública a denúncia dos “crimes contra a legalidade socialista” cometidos por Stálin (referência ao extermínio dos antigos dirigentes do partido, os chamados velhos bolcheviques) e repudiou o que foi chamado de “culto da personalidade” do líder. Na verdade, tratava-se de uma forma da burocracia stalinista “mudar para que tudo continuasse como antes”, ou seja, fazer algumas concessões e distensionar o clima de terror e desconfiança em que viviam os integrantes do próprio aparato do partido, do Estado e o conjunto da sociedade russa, mas sem abrir mão do poder político e privilégios. Na prática, reconheceram-se “erros” e “excessos” de Stálin, mas atribuiu-se tudo à pessoa do antigo líder, e manteve-se inalterada a estrutura de uma ditadura de partido único, sem qualquer margem de autonomia para a classe operária, nem na gestão da produção, nem nas demais instituições. Naquele mesmo ano, a repressão à revolta húngara mostrou que a mal chamada “desestalinização” não significaria também abrir mão do controle da URSS sobre os seus chamados estados-satélites do leste europeu. (retornar ao texto)

(13) [N.T.] Optamos por traduzir “soviets”, como está no texto original em inglês, e também como já vem sendo usado em português há várias décadas; diretamente como conselhos. O uso da palavra russa soviet para designar os conselhos operários, embora já esteja consagrado na nossa língua, acaba por atenuar impacto e o significado profundo do destino dessas instituições. Dizer que o poder dos “soviets” foi usurpado pelos bolcheviques não causa tanto impacto quanto dizer que os bolcheviques suprimiram e usurparam o poder de conselhos operários. É esse impacto que buscamos realçar ao traduzir diretamente soviet como conselho. (retornar ao texto)

(14) Para informações sobre o seu programa ver A Oposição Operária por Alexandra Kollontai. Essa obra foi pela primeira vez publicada em inglês em Workers Deadnough de Sylvia Pankhurst em 1921 e republicado em 1961 em Solidarity Pamphlet 8. (retornar ao texto)

(15) A história de grupos como Verdade Operária e Luta Operária ainda precisa ser escrita. (retornar ao texto)

(16) [N.T.] A cidade de São Petersburgo foi fundada pelo Czar Pedro, o Grande, em 1703, e foi capital do império russo até 1918, em plena Revolução, quando a sede foi transferida para Moscou, que é até hoje a capital. De 1914 a 1924 a cidade de São Petersburgo foi rebatizada como Petrogrado (era esse o seu nome no momento dos acontecimentos citados pelo autor), e só a partir de 1924 ela teve o nome de Leningrado, que é como aparece no texto, com certa imprecisão, portanto. Desde 1991, com a queda da URSS, ela voltou a ter o nome original de São Petersburgo. (retornar ao texto)

(17) [N.T.] Janos Kadar (1912-1989) foi o burocrata colocado pela URSS como ditador da Hungria depois que as tropas soviéticas derrotaram a Revolução dos Conselhos de 1956. A revolução tinha temporariamente derrubado o governo stalinista anterior, até ser sufocada pela URSS. Kadar permaneceu no cargo até 1988. (retornar ao texto)

(18) Uma tarefa fácil depois de 1936, quando alguns bem conhecidos “líderes” anarquistas (sic!) entraram no governo da Frente Popular na Catalunha no começo da Guerra Civil Espanhola e foram autorizados a continuar lá pelos anarquistas de base. Essa ação, numa área em que os anarquistas tinham uma base de massas no movimento dos trabalhadores, condenou-os irrevogavelmente, assim como os desenvolvimentos da Revolução Russa condenaram irrevogavelmente os mencheviques, como incapazes de resistir ao teste dos eventos. (retornar ao texto)

(19) Três declarações de Comunismo e Terrorismo de Trotsky (Ann Harbor: University of Michigan Press, 1961), publicadas originalmente em 1920, vão ilustrar esse ponto: “a criação de uma sociedade socialista significa a organização dos operários sobre novas fundações, sua adaptação a essas fundações e sua reeducação ao trabalho, com uma finalidade inalterável de aumentar a produtividade do trabalho…” (p. 146). “Eu considero que se a Guerra Civil não tivesse espoliado a nossa economia de todos que eram mais fortes, mais independentes, mais dotados com iniciativa, nós deveríamos indubitavelmente ter seguido o caminho da gerência por um homem só na esfera da administração econômica muito mais cedo e muito menos dolorosamente” (p.162-163). “Nós temos sido mais de uma vez acusados de ter substituído a ditadura dos conselhos pela ditadura de nosso próprio partido… Na substituição do poder da classe operária pelo poder do partido não há nada acidental, e na realidade não há substituição nenhuma. Os comunistas expressam os interesses fundamentais da classe operária…” (p. 109). Eis aí os antecedentes anti-burocráticos do trotskismo. É interessante que o livro tenha sido altamente exaltado por Lênin. Lênin apenas entrou em discussão com Trotsky sobre a questão sindical na reunião do comitê central de 8 e 9 de novembro de 1920. Durante a maior parte de 1920 Lênin endossou todos os decretos burocráticos de Trotsky em relação aos sindicatos. (retornar ao texto)

(20) Para um relato interessante do crescimento do Movimento dos Comitês de Fábrica e da oposição a eles pelos bolcheviques no Primeiro Congresso dos Sindicatos de toda a Rússia (janeiro de 1918) ver A Guilhotina em Ação de Maximov (Chicago, 1940). (retornar ao texto)

(21) No Nono Congresso do Partido (março de 1920) Lênin apresentou uma resolução para efetivar que a tarefa dos sindicatos fosse explicar a necessidade de uma “máxima redução da administração colegiada e a introdução gradual da gerência individual nas unidades engajadas diretamente na produção” (Robert V. Daniels, A Consciência da Revolução, Cambridge, Massachussets, 1960, p. 124). (retornar ao texto)

(22) Os escritos de Serge sobre esse assunto foram trazidos a atenção dos leitores no Reino Unido pela primeira vez em 1961 (Solidarity I, 7). Esse texto foi depois reimpresso como panfleto. (retornar ao texto)

(23) [N.T.] Louis August Blanqui (1805-1881) foi uma figura célebre nos movimentos revolucionários franceses do século XIX, sendo a representação mais acabada do projeto de que a tomada do poder depende muito mais da ação de um pequeno grupo de indivíduos muito determinados, do que de uma ampla base de apoio social e de um projeto de transformação geral, baseado em alguma leitura prévia da sociedade, etc. Foi uma espécie de precursor daquilo que no século XX ficaria conhecido como “foquismo”, a ideia de que um pequeno grupo armado, inicialmente clandestino, pode dar início a uma revolução. Como encarnação desse tipo de concepção, ele dedicou sua vida a inúmeras conspirações para tomar o poder, sempre acompanhado de um pequeno punhado de colaboradores, todas fracassadas, resultando em que ele passou boa parte de sua vida (ao todo 37 anos) na prisão. Nesse mesmo trecho, o autor também se refere a Bakunin, um dos pilares do anarquismo, que era bem menos alheio do que Blanqui à teoria social e ao estudo, mas igualmente propenso a organizar pequenas seitas conspirativas de seguidores. (retornar ao texto)

(24) Ver o artigo de Nicolas Walter em Liberdade (28 de outubro de 1967) intitulado “Outubro de 1917: revolução de forma alguma”. (retornar ao texto)

(25) [N.T.] Endereço da sede do Partido Comunista Britânico em Londres. (retornar ao texto)

(26) [N.T.] József Mindszenty (1892-1975) foi cardeal da Igreja Católica na região da capital húngara, Budapeste. Ele foi opositor da República dos Conselhos de 1919-1920 e depois, já no posto de cardeal, também se colocou contra o regime stalinista instalado em 1945, pelo qual foi preso em 1949. Durante a Revolução de 1956, na qualidade de preso político, ele foi retirado da prisão e se refugiou na embaixada dos Estados Unidos, de onde se exilou para a Áustria, onde morreu, como uma espécie de mártir católico anticomunista. (retornar ao texto)

(27) Lênin disse explicitamente que sim em seu Que Fazer? (1902) (retornar ao texto)

(28) Numa declaração ao Décimo Congresso do Partido (1921) Lênin se refere a uma mera discussão sobre os sindicatos como um “luxo absolutamente inadmissível” que “nós” não deveríamos ter permitido. Essas observações revelam involuntariamente volumes inteiros não escritos sobre o assunto (e incidentalmente resolvem decisivamente a questão daqueles que buscam desesperadamente por uma “evolução” no seu Lênin). (retornar ao texto)

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terça-feira, 7 de março de 2023

Em memória da Revolta de Kronstadt - por Nestor Makhno no Dyelo Truda

por Nestor Makhno

Sete de março é uma data angustiante para os trabalhadores da chamada “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas” que participaram de uma forma ou de outra dos eventos que ocorreram em Kronstadt. Sua comemoração é igualmente dolorosa para os trabalhadores de todos os países do mundo, pois traz de volta à memória os trabalhadores e marinheiros livres de Kronstadt que protestaram contra o seu carrasco vermelho, o “Partido Comunista Russo”, que transformou o governo “Soviético” em um mero instrumento e pôs fim à revolução russa.

Kronstadt exigia aos seus carrascos estatistas que devolvessem tudo o que foi roubado dos trabalhadores da cidade e do campo, os verdadeiros artífices da revolução. De fato, os Kronstadtinos insistiam na implementação total dos princípios fundamentais da revolução de outubro, a saber:

Sovietes livremente eleitos, liberdade de expressão e de imprensa para trabalhadores e camponeses, anarquistas e socialistas revolucionários de esquerda.

O Partido Comunista Russo encarou suas reivindicações como uma afronta imoral ao monopólio político recém-conquistado por ele no país e, escondendo o rosto covarde de um carrasco por trás da máscara de revolucionário e amigo dos trabalhadores, declarou os marinheiros e trabalhadores livres de Kronstadt contrarrevolucionários, enviando contra eles dezenas de milhares de policiais e escravos obedientes para reprimi-los. Tchekistas, Kursanty (cadetes oficiais do Exército Vermelho - nota de Alexandre Skirda), membros do Partido... foram mobilizados para massacrar aqueles combatentes e revolucionários íntegros – os Kronstadtinos –, que não tinham nada para ser censurados diante das massas revolucionárias, pois sua única ofensa foi sentir indignação ante as mentiras e a covardia do Partido Comunista Russo, o qual pisoteava nos direitos dos trabalhadores e na própria revolução.

Em 7 de março de 1921, às 18h45, uma tempestade de fogo de artilharia foi desencadeada sobre Kronstadt. Como era natural e inevitável, Kronstadt reagiu. Revidaram, não apenas em nome de suas reivindicações, mas também em nome de todos os trabalhadores do país, que lutavam por seus direitos conquistados na revolução, arbitrariamente pisoteados pelas autoridades bolcheviques.

Sua luta ecoou por toda a Rússia escravizada, que estava em prontidão para apoiar uma luta tão justa e heroica, mas que, infelizmente, se mostrou impotente para a vitória, porque havia sido desarmada, constantemente explorada e mantida em cativeiro pelos destacamentos repressivos do Exército Vermelho e da Tcheka, formada especialmente para alquebrantar o espírito livre e o livre arbítrio dos trabalhadores da nação.

É difícil estimar todas as perdas sofridas pelos combatentes de Kronstadt e massa cega do Exército Vermelho. Todavia, podemos ter a certeza de que somaram mais de dez mil mortos. Em sua maioria, trabalhadores e camponeses, os mesmos que o Partido da Mentira havia usado para tomar o poder com falsas promessas de um futuro melhor. Fazia anos que os utilizava exclusivamente em benefício de seus próprios interesses partidários, a fim de difundir e consolidar um domínio todo-poderoso sobre a vida econômica e política do país.

Contra a oligarquia bolchevique, Kronstadt combateu pelo melhor da luta operária e camponesa na revolução russa. Por isso mesmo, os oligarcas exterminaram os kronstadtinos, alguns logo após a vitória militar e o restante nas masmorras e fortificações herdadas do regime czarista e burguês. Compreendida assim, a data de 7 de março deve aparecer como um aniversário profundamente doloroso para os trabalhadores de todos os países. Portanto, não é apenas entre os trabalhadores russos que a memória dolorosa dos revolucionários de Kronstadt, que tombaram em combate ou dos sobreviventes que apodreceram nas prisões bolcheviques, deve ser lembrada. Mas este assunto não será resolvido com lamúrias: além da comemoração de 7 de março, os trabalhadores de todas as terras devem organizar comícios por toda parte para protestar contra os ultrajes perpetrados pelo Partido Comunista Russo em Kronstadt contra os trabalhadores e marinheiros revolucionários, e exigir a libertação dos que ainda sobrevivem e definham nas prisões bolcheviques e internados nos campos de concentração da Finlândia.

Dyelo Truda No. 10, março de 1926, pp. 3-4.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Lições e significados de Kronstadt, por Alexander Berkman

por Alexander Berkman

Tradução: Ateneu Diego Giménez / COB-AIT Piracicaba/SP.

O movimento de Kronstadt foi espontâneo, sem preparativos preliminares e pacífico. A sua transformação em um conflito armado de fim trágico e sangrento foi devido unicamente ao despotismo da ditadura comunista.

A despeito de se dar conta do caráter geral dos bolcheviques, Kronstadt, não obstante, ainda tinha fé na possibilidade de uma solução amistosa. Crendo que o governo comunista viria à razão, lhe creditava um certo espírito de justiça e de liberdade.

A experiência de Kronstadt prova uma vez mais que o governo, o Estado – qualquer que seja seu nome e sua forma – é sempre o inimigo mortal da liberdade e da autodeterminação. O Estado não tem nem alma nem princípios. Ele tem um único objetivo: assegurar o poder e conservá-lo, a qualquer preço. Esta é a lição política de Kronstadt.

Outra lição, uma lição estratégica, nos é ensinada por qualquer rebelião. O êxito da revolta depende de sua determinação, de sua energia, e de sua agressividade. Os insurretos têm do seu lado a simpatia das massas. Esta simpatia se acelera com a onda crescente da insurreição. Não deve ser permitido que ela seja apaziguada, que se debilite por um retorno à monotonia cotidiana.

Por outro lado, toda revolução tem contra ela o aparato poderoso do Estado. O governo pode concentrar em suas mãos as fontes de provisões e os meios de comunicação. Não se deve dar tempo ao governo para que faça uso de seus poderes. A rebelião deve ser vigorosa, atacando inesperadamente e determinadamente. Ela deve se alastrar e se desenvolver. Uma rebelião que fica localizada, usando a política da espera, ou que se coloca na defensiva, está inevitavelmente condenada à derrota.

Especialmente neste ponto, Kronstadt repetiu os erros estratégicos fatais dos comunardos de Paris. Estes últimos não quiseram seguir a opinião dos que propuseram um ataque imediato a Versalhes, quando o governo de Thiers estava desorganizado. Não estenderam a revolução para todo o país. Nem os operários parisienses de 1871 nem os marinheiros de Kronstadt tinham por objetivo a abolição do Governo. Os comunardos não queriam, em suma, mais que certas liberdades republicanas, e quando o governo tentou desarmá-los, expulsaram os Ministros de Thiers de Paris, estabeleceram suas liberdades e se prepararam para defendê-las – nada mais. Assim como Kronstadt também exigiu apenas eleições livres para os Sovietes. Tendo prendido alguns Comissários, os marinheiros se dispuseram a se defenderem contra o ataque. Kronstadt recusou-se a seguir a opinião dos especialistas militares de apoderar-se imediatamente de Oranienbaum. Este forte era da maior importância militar e tinha também 50.000 puds [5] de trigo pertencentes a Kronstadt. A tomada de Oranienbaum era fácil, dado que os bolcheviques, surpreendidos, não teriam tempo de enviar reforços. Porém, os marinheiros se recusaram tomar a ofensiva, e logo se perdeu o momento psicológico.

Alguns dias depois, quando as declarações e os atos do Governo bolchevique convenceram Kronstadt de que ela era arrastada a uma luta de vida ou morte, era muito tarde para corrigir o erro [6].

O mesmo aconteceu com a Comuna de Paris. Quando a lógica da luta a que foram levados demonstrou aos comunardos a necessidade de abolir o regime de Thiers não só em Paris mas em toda a extensão do país, já era muito tarde. Na Comuna de Paris, assim na revolta de Kronstadt, a tendência à tática passiva e defensiva se provou fatal.

Kronstadt caiu. O movimento de Kronstadt pelos Sovietes livres foi afogado em sangue, no mesmo momento em que o governo bolchevique fazia concessões para os capitalistas europeus, assinando a paz de Riga, graças à qual uma população de doze milhões foi descartada à mercê da Polônia, ajudando o imperialismo turco a estrangular a república do Cáucaso.

Porém o “triunfo” dos bolcheviques sobre Kronstadt carregava em suas entranhas a derrota do bolchevismo. Ele expõe o caráter verdadeiro da ditadura comunista. Os comunistas mostraram que estavam dispostos a sacrificar o comunismo, para selar quase qualquer compromisso com o capitalismo internacional, no entanto recusaram as justas exigências de seu próprio povo – exigências que repetiam os lemas de Outubro dos próprios bolcheviques: Sovietes eleitos pelo voto direto e secreto, segundo a constituição da R.S.F.S.R.; e liberdade de expressão e de imprensa para os partidos revolucionários.

O Décimo Congresso de Todas as Rússias do Partido Comunista se reunia em Moscou no momento da rebelião de Kronstadt. Nesse congresso, toda a política econômica bolchevique mudou devido aos acontecimentos de Kronstadt e à atitude similarmente ameaçadora do povo em várias outras partes da Rússia e da Sibéria. Os bolcheviques preferiram reverter sua política fundamental, abolir a razverstka (requisição forçada), introduzir a liberdade de comércio, fazer concessões aos capitalistas e desfazer-se do próprio comunismo – o comunismo pelo qual foi proclamada a Revolução de Outubro, pelo qual se derramaram mares de sangue e pelo qual a Rússia foi levada para a ruína e para o desespero – mas não para permitir Sovietes livremente eleitos.

Há alguém, no atual momento, que possa duvidar das intenções reais dos bolcheviques? Eles perseguiram Ideais Comunistas ou o Poder Governamental?

Kronstadt é de uma grande importância histórica. Tocou o sino fúnebre do bolchevismo com sua ditadura de partido, sua centralização insensata, seu terrorismo tchekista e suas castas burocráticas. Ele atacou sobre o próprio coração da autocracia russa. Chocou ao mesmo tempo as mentes inteligentes e honradas da Europa e da América, e as obrigou a um exame crítico das teorias e dos fatos bolcheviques.

Explodiu o mito bolchevique do Estado Comunista como sendo o “Governo dos Operários e Camponeses”. Demonstrou que a ditadura do Partido Comunista e a Revolução Russa eram fenômenos opostos, contraditórios, que se excluíam reciprocamente. Demonstrou que o regime bolchevique é uma tirania e uma reação implacáveis, e que o Estado Comunista é ele mesmo a contrarrevolução mais poderosa e perigosa.

Kronstadt caiu. Porém caiu vitoriosa em seu idealismo e sua força moral, em sua generosidade e sua humanidade superiores. Kronstadt foi esplêndida. Com razão, estava orgulhosa de não ter derramado o sangue de seus inimigos, os comunistas que se encontravam em seu seio. Os marinheiros mal educados e incultos, toscos em suas maneiras e em sua linguagem, eram nobres demais para seguir o exemplo bolchevique da vingança: não fuzilaram nem aos odiosos Comissários. Kronstadt encarna o espírito generoso e clemente da alma eslava e do movimento emancipador secular da Rússia.

Kronstadt foi a primeira tentativa popular e inteiramente independente de libertar-se do jugo do Socialismo de Estado – uma tentativa feita diretamente pelo povo, pelos próprios operários, soldados e marinheiros. Era o primeiro passo em direção à Terceira Revolução, a qual é inevitável e que, assim esperamos, levará para a infeliz Rússia a liberdade permanente e a paz.

NOTAS

(5) Um pud equivale a 16.4 quilos.

(6) A negativa de Kronstadt a se apoderar de Oranienbaum deu ao governo a possibilidade de reforçar a fortaleza com seu regimento fiel, de eliminar as partes “infectadas” da guarnição e de fuzilar os chefes da esquadra aérea que estavam prestes a se unirem aos rebeldes de Kronstadt. Mais tarde, os bolcheviques fizeram uso da fortaleza como um ponto de vantagem contra Kronstadt. Entre os fuzilados em Oranienbaum se encontravam: Kolossov, chefe da divisão de aviadores da Marinha Vermelha e presidente do Comitê Revolucionário Provisório que acabara de organiza-se em Oranienbaum; Balachanov, secretário do Comitê, e os membros do Comitê Romanov, Vladimirov etc.

* Este texto é originalmente parte do livro The Kronstadt Rebellion (Berlin, Der Sindikalist, 1922). No Brasil, foi publicado como Kronstadt (Ateneu Diogo Giménez, 2011: http://anarkio.net/Pdf/kronstadt.pdf). Tradução: Ateneu Diego Giménez / COB-AIT Piracicaba/SP. Seleção e edição por Pablo Mizraji. ITHA, 2017.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Kronstadt: Lamanov, Anatoli Nikolaevich

 

Rebelião de Kronstadt
Lamanov (ou A. H. Лamahob) é o primeiro, à esquerda.

Lamanov, Anatoli Nikolaevich 1889-1921

Uma breve biografia de Anatoli Lamanov, a voz do ideólogo da Revolta de Kronstadt

por Nick Heath

Anatoli Lamanov nasceu em 3 de julho de 1889. Seu pai, Nikolai P. Lamanov, era, em 1913, tenente-coronel e chefe de tripulação da frota russa na principal base naval de Kronstadt. Sua mãe tinha simpatias populistas e seu irmão mais velho era o tenente da frota Piotr Lamanov, que também comandou e participou das primeiras agitações revolucionárias em Kronstadt durante o ano de 1917.

Aluno do terceiro ano da Universidade Nacional de Química, conhecido por ministrar palestras sobre história natural, geografia e tecnologia, durante os anos da guerra, Anatoli Lamanov angariou grande simpatia dos trabalhadores, marinheiros e soldados de Kronstadt. Mas ao contrário de seu irmão mais velho, que tinha envolvimento com os socialistas revolucionários, Anatoli, aparentemente, não manteve ligações diretas com nenhum grupo político.

Ele é descrito pelo inglês Morgan Phillips Price, correspondente em Moscou do Manchester Guardian, como tendo “cabelos compridos, olhos sonhadores e o olhar distante de um idealista”, além de “sério, amigável e um tanto enigmático”.

Lamanov se tornou chefe do treinamento vocacional do departamento municipal de educação em Kronstadt. Ao mesmo tempo, foi eleito para o Comitê do Movimento pelos funcionários do laboratório químico de Kronstadt. Foi presidente do Soviete de Trabalhadores de Kronstadt em março e abril e, a partir de maio, do Soviete de Trabalhadores e Soldados. Nas sessões do Soviete, proferia discursos contundentes, assumindo a liderança, ao lado de Ippolitov, Rivkin e Zverin, de uma facção apartidária. Em agosto, o grupo sem partido mudou de nome ao juntar-se à esquerda radical e à divisão antiparlamentar dos Socialistas Revolucionários, a União dos SR-Maximalistas. Como Getzler afirma: “...o grupo rejeitou o facciosismo partidário, defendeu o sovietismo puro e assim se adaptou admiravelmente na paisagem revolucionária e marcadamente soviética de Kronstadt...” (p. 37).

Lamanov também foi editor do jornal de Kronstadt, o Izvestia. Foi descrito nas memórias do astuto bolchevique F. F. Raskolnikov como sendo um “cem por cento filisteu” (filisteu era uma palavra muito usada na época pelos bolcheviques, especialmente por Lênin e Trotsky, para desqualificar seus oponentes políticos). Entretanto, longe de ser um filisteu, Lamanov foi um incansável defensor da democratização (por falta de uma palavra melhor) da revolução e de uma iniciativa educacional e cultural de massa, inclusive por meio do teatro: “... o teatro complementa o que vemos e ouvimos na vida e lemos nos livros; injeta novas ideias nas mentes dos espectadores, ideias que são novas não por causa de seu conteúdo, mas pelo palco, diante de nós, proporcionar-nos a sua plena incorporação”.

O Soviete abriu-se a muitos oradores de todos os grupos revolucionários, bolcheviques, socialistas revolucionários e anarquistas.

Os bolcheviques sempre foram uma minoria dentro do Soviete de Kronstadt, ainda que tenham feito grandes esforços para manipular e controlar a organização. Mas Lamanov lembrava aos bolcheviques que foi o povo, e não o partido, que fez a Revolução de Fevereiro.

Muito embora os maximalistas mantivessem um grande número de delegados no soviete, ao longo de sua história, Lamanov renunciou ao grupo no final de 1919, já que não queria se associar ao atentado à sede do Partido Comunista de Moscou, condenado e compreendido por ele como sendo obra dos maximalistas.

Lamanov se candidatou a membro candidato do partido bolchevique em algum momento do ano de 1920. Durante o levante dos marinheiros, não participou dos movimentos iniciais da revolta e tampouco integrou o Comitê Revolucionário. No entanto, continuou a editar o Izvestia de Kronstadt e, em suas páginas, sugeriu os lemas “Terceira Revolução” e comunismo sem “comissariocracia”. Lamanov anunciou sua renúncia ao Partido Comunista em março (de 1921), justificando que sempre foi um maximalista. Assim, o Izvestia tornou-se porta-voz dos insurgentes de Kronstadt, enchendo suas páginas com cartas e declarações de muitos dos rebeldes envolvidos na revolta.

Foi preso em 18 de março de 1921, pelas tropas soviéticas. Os rigores do interrogatório da Tcheka parecem tê-lo alquebrantado, pois Lamanov prontamente apresentou provas contra os outros líderes da revolta. A princípio, forneceu o seguinte testemunho: “O motim de Kronstadt foi uma surpresa para mim. Eu o vi como um movimento espontâneo”. Porém, mais tarde, em seu depoimento, afirmou que o motim havia sido planejado desde o início pelos SRs de Esquerda!

Condenado à morte em 20 de abril pela Tcheka de Petrogrado, como “contrarrevolucionário”, foi fuzilado no dia seguinte e seu corpo enterrado em Petrogrado.

Nick Heath

8 de outubro de 2009

Referência:

Getzler, I. Kronstadt 1917-1921: The Fate of a Soviet Democracy. (“Kronstadt 1917-1921: O Destino de um Soviete Democrático”).

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Sobre os autores de "A Verdade sobre Kronstadt" do Volia Rossii

Volia Rossii

Sobre os autores

por Scott Zenkatsu Parker

(Tradução: Fecaloma – punk rock)

Pravda o Kronshtadte, texto original de A Verdade sobre Kronstadt, é uma obra de muitas mãos e fonte primária indispensável para qualquer discussão sobre a Rebelião de Kronstadt de 1921. Partindo-se destas duas perspectivas e a fim de obter uma melhor compreensão do texto, seria útil discorrer sobre várias questões decorrentes da tradução. Quem eram os autores e editores originais das diferentes seções e subseções da obra e quais eram suas visões políticas? Como diferentes pontos de vista concernentes às mudanças na Rússia, o cenário internacional e os objetivos dos autores se combinam para moldar suas interconexões uns com os outros e demais grupos envolvidos durante as grandes convulsões que marcaram a era da Revolução Russa e da Guerra Civil de 1917 a 1921?

Todos os autores do Pravda pertencem a vários ramos do movimento socialista que se desenvolveu a partir do populismo russo do final do século XIX. Para os propósitos deste ensaio, os autores serão descritos e diferenciados politicamente por dois aspectos específicos em suas crenças: suas interpretações de socialismo e do próprio papel das forças não socialistas na revolução. Tais aspectos, entretanto, não descrevem definitivamente as crenças ideológicas dos grupos em questão. São, no entanto, questões importantes para o contexto político da época e que nos ajudam a explicar os principais conflitos e divisões entre os socialistas russos coexistentes. Diferentes grupos socialistas tinham visões muito distintas de como o socialismo poderia e deveria ser alcançado, além de divergirem sobre o que caracterizaria o estado socialista resultante. Ademais, enquanto alguns endossavam a intervenção de forças externas e não recusavam o auxílio de grupos conservadores russos, outros se opunham veementemente a qualquer tipo de concessão do gênero. Essas diferenças contribuíram fortemente para muitas das alianças e inimizades políticas do período, especificamente, para os autores do Pravda.

Mas as condições internacionais e internas mudaram muito durante o período. Além disso, uma vez que uma reivindicação ou objetivo comum era finalmente alcançado, muitas vezes antigos aliados divergiam entre si através novas demandas de caráter oposto à resolução precedente. Em meio ao estresse de tais condições e alianças voláteis, as opiniões dos autores sobre as duas questões colocadas acima, a natureza do socialismo e o papel das forças não socialistas na revolução, também estava suscetível a mudar. As relações dos autores entre si e com outros grupos serão discutidas no âmbito de uma rede de condições, interesses e crenças em transformação.

Quem eram então os autores do Pravda e quais eram suas visões políticas? O primeiro grupo de autores a ser discutido são os rebeldes propriamente ditos, que aparecem frequentemente nas páginas do Izvestiia, por meio de suas declarações e apelos. Em segundo lugar, há os editores do jornal, representados por Anatolii Lamanov, autor de artigos tão importantes como “Por que lutamos” e “Etapas da revolução” (Getzler, p. 232, nota 112). Os líderes militares e civis dos rebeldes, representados por Stepan Petrichenko, presidente do Comitê Provisório Revolucionário, também desempenharam um papel importante por meio de declarações e entrevistas posteriores concedidas ao Volia Rossii. Apesar de algumas questões concernentes às afiliações políticas de Petrichenko, estes três primeiros grupos manifestam opiniões fundamentalmente semelhantes e, muitas vezes, podem ser considerados como um único corpo. Finalmente, há o prefácio do próprio Volia Rossii, que foi um jornal publicado em Praga, pelos socialistas revolucionários de direita (SR), incluindo A. F. Kerensky.

Os marinheiros, soldados e trabalhadores de Kronstadt, cidade portuária, sede da Frota do Báltico, eram talvez o segmento mais educado, politicamente consciente e rebelde de todos os trabalhadores da Rússia. Da população civil de Kronstadt, 50.000 pessoas, a força de trabalho industrial era de 17.000 operários. Havia também 20.000 marinheiros alistados na Frota do Báltico em Kronstadt e, devido às demandas tecnológicas cada vez mais exigidas por uma marinha moderna, trabalhadores industriais compunham cerca de 31% dos convocados entre 1904 e 1916, em comparação com os 3,43% recrutados pelo exército. Apenas 6% dos recrutas da frota eram analfabetos. Os trabalhadores industriais constituíram o principal núcleo de agitação política nos partidos socialistas. Getzler cita uma reclamação do diretor pré-revolucionário do Departamento de Polícia:

“trazer para a marinha... homens que cultivam uma atitude hostil a toda autoridade desde a idade de 12-15 anos; desde quando essa gente se mistura com operários propagandistas?” (p. 10).

Ele observa também que os marinheiros foram largamente educados em escolas navais para cargos técnicos (pp. 1, 10-11).

Kronstadt já evidenciava uma longa e ardente história de rebelião espontânea mesmo antes dos levantes de 1917. Durante as duas primeiras décadas do século XX, grupos clandestinos operavam atividades subversivas na esquadra de Kronstadt. Revoltas espontâneas eclodiram em 1905, e uma rebelião liderada por uma coalizão de partidos ocorreu em 1906. Os marinheiros de Kronstadt desempenharam um papel de liderança nos eventos revolucionários de 1917, culminando em 25 de outubro quando participaram do assalto ao Palácio de Inverno, derrubando o Governo Provisório liderado por Kerensky e colocando efetivamente os bolcheviques no poder.

Apesar das dezenas de milhares de marinheiros da Frota do Báltico que foram lutar nas frentes da Guerra Civil, Getzler relata que a composição da guarnição de Kronstadt não havia mudado significativamente em 1921. De uma população de 50.000, havia 27.000 marinheiros e soldados e 13.000 trabalhadores civis. Trabalhando com fontes ocidentais e soviéticas, incluindo dados de AS Pukhov, estima-se que 75,5% dos que serviram na frota em 1º de janeiro de 1921 foram convocados antes de 1918 (Getzler, pp. 205, 208, nota de rodapé 11). Deve-se notar que, no entanto, o próprio Pukhov, em sua obra, tira conclusões muito diferentes, afirmando que, sem precisar números exatos, “ao longo dos 2 e 3 anos anteriores ao motim, e especialmente no ano de 1920, ocorreram processos na formação da frota que mudaram significativamente o caráter da estrutura de pessoal, essencialmente em relação a uma queda acentuada do indicador qualitativo, tanto da perspectiva da classe social quanto das ideologias políticas” (Pukhov, p. 39).

Acima de tudo, estes marinheiros e trabalhadores de Kronstadt educados, independentes e politicamente conscientes queriam e agiam como baluartes de uma democracia socialista radical e espontânea. As formas clássicas de organização de Kronstadt eram tanto a reunião de massas quanto o comitê (soviete) de deputados com mandatos sujeitos à revogação imediata. Havia livre participação envolvendo todas as classes e partidos socialistas. Os kronstadtinos rejeitavam toda e qualquer autoridade além de seu próprio Soviete e não era incomum que os participantes de uma reunião de massa, inflamada por oradores inspirados, forçassem o próprio Soviete a mudanças políticas repentinas e embaraçosas. Os marinheiros e trabalhadores nutriam um ódio vigoroso e violento à classe burguesa, à nobreza e ao oficialato, rejeitando a mínima participação de qualquer dessas categorias sociais na vida política e econômica de Kronstadt, em seu Soviete e na República em geral. Pois bem, acreditavam na instituição de um governo quase puramente operário, como, de fato, se testemunhou em Kronstadt durante grande parte do ano de 1917. Eles pensavam que instituições geridas por trabalhadores poderiam ser imediatamente implantadas em toda a Rússia pela ação das classes trabalhadoras sem qualquer participação de grupos não socialistas.

Anatolii Lamanov entrou em cena com a Revolução de Fevereiro de 1917 quando o estudante do terceiro ano de química tornou-se presidente do Soviete de Deputados Operários de Kronstadt. Mais tarde, foi eleito presidente do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Kronstadt (“Soviete de Kronstadt”) e do conselho editorial do jornal do soviete. Lamanov também liderou o Grupo Sem Partido de Kronstadt, que, em agosto de 1917, juntou-se à União dos Socialista-Revolucionários Maximalistas (Getzler, pp. 30, 37-38, 135).

No que concerne as posições de lideranças exercidas por Lamanov na altamente democrática Kronstadt, é razoável supor que a filosofia propalada por ele refletia também as crenças de um enorme contingente da população da cidadela. Pelos cálculos de Getzler, o Grupo Sem Partido/Maximalistas elegeu 77 delegados dos 280 eleitos do primeiro Soviete em março; 68 delegados no segundo, em maio; e 96 delegados no terceiro, em agosto (p. 36, 65-66, 134). Segundo Getzler, o Grupo Sem Partido de Lamanov:

“... rejeitou o facciosismo partidário, defendeu o sovietismo puro e, por isso, adaptava-se admiravelmente na paisagem revolucionária e marcadamente soviética de Kronstadt...” (p. 37).

“... o seu apelo à moderação, aos laços estreitos com o Soviete de Petrogrado, à ‘unidade do movimento revolucionário nacionalista’; numa palavra, uma voz que alertava sempre contra a ‘desunião e discórdia partidária' que tinha ‘arruinado a revolução da França’” (p.55-56).

Adeptos dos Socialista-Revolucionários Maximalistas, Lamanov, seu grupo e os kronstadtinos em geral, que os apoiavam, faziam parte de um movimento que recebia seu nome em razão ao programa “máximo” do Partido Socialista Revolucionário. Este programa exigia a socialização imediata das fábricas e das terras agrárias. De muitas maneiras, os maximalistas concordaram com os bolcheviques e, em outubro de 1918, apoiaram a derrubada do Governo Provisório. No entanto, como aponta V. V. Garmiz, um escritor soviético, eles diferiam dos bolcheviques porque “não reconheciam absolutamente a ditadura do proletariado, muito menos a necessidade da administração centralizada da economia do país; posicionavam-se também contra o Tratado de Brest [-Litovsk] com a Alemanha”, considerado por eles uma concessão ao imperialismo internacional. Ademais, como sugere seu programa básico, os maximalistas não consideravam necessário um período intermediário de transição, sob a égide de um governo burguês capitalista, para a realização do socialismo (ver Nicoll, 1980a; Garmiz et. al., p. 255).

Assim, Lamanov e os maximalistas, como os marinheiros e trabalhadores de Kronstadt, viam o socialismo como a transformação imediata do país em uma república soviética dominada e liderada por trabalhadores, que varreria o latifúndio e os proprietários de fábricas sem qualquer necessidade de um período de transição ou compensação. Muito embora possam ter concebido um “protagonismo de uma minoria” (Garmiz et al.) que trabalhava na vanguarda para acender a faísca da revolução social, sempre se opuseram a qualquer participação de grupos não socialistas e governos ocidentais nos destinos da Rússia revolucionária.

Com relação a outros líderes de Kronstadt, o caso é um pouco menos claro. Quanto a Petrichenko, sabe-se com certeza que era originário de uma família camponesa ucraniana e um veterano que exercia a função de escriturário. Antes de ingressar na marinha, em 1912, em virtude de sua formação incompleta – cursou apenas dois anos no ensino formal – trabalhou como encanador. Mas, durante a rebelião, foi eleito presidente da assembleia do Petropavlovsk, cuja tripulação aprovou a resolução que serviu de fundação da revolta. Pouco depois, foi presidente do Presidium na Conferência de Delegados que formou o Comitê Provisório Revolucionário. Esses fatos lhe dão a aparência de um trabalhador soviético honesto que se ergue para liderar um movimento de libertação, estando, portanto, de pleno acordo com as opiniões de Lamanov e demais marinheiros de Kronstadt (Avrich, pp. 72-74, 80-82).

No entanto, em um dos primeiros relatos soviéticos sobre a rebelião, Petrichenko é acusado de ser um nacionalista ucraniano, simpatizante dos SRs e dos anarquistas (Pukhov, p. 76-77). Se isso for verdade, poder-se-ia propor que, ao contrário do que ele ou outros kronstadtinos declaravam, isto é, sua postura ideológica não alinhada com nenhum partido, Petrichenko ultrapassou a mera simpatia filosófica para com os SRs e realmente estabeleceu contatos secretos com forças partidárias a fim de realizar sua pretensão de instrumentalizar a rebelião para dar um passo à frente na consolidação de um governo SR sobre a Rússia. Ademais, um simples acordo com a filosofia dos Socialistas Revolucionários de Direita, tal como existia até 1918, apareceria aos olhos de muitos trabalhadores como uma autoacusação condenatória, por razões que serão discutidas abaixo.

Anatolii Lamanov também foi acusado de inclinação partidária, na qual, insinuava-se, era membro de uma determinada organização política (Pukhov, p. 77). Neste caso, porém, a filiação política de Lamanov com os maximalistas não é de forma alguma secreta, sendo anunciada claramente em sua carta de desfiliação do PCR (b.), publicada na terceira edição do Izvestiia do Com. Prov. Rev. (Pravda, pp. 59-60). De qualquer maneira, uma possível conexão secundária com os SRs não significava que as declarações de Petrichenko não devam ser primeiro consideradas e analisadas através das lentes de seu papel indiscutível na liderança do movimento de Kronstadt, de sua qualidade de marinheiro eleito, bem como de sua convivência no meio democrático de Kronstadt. Por causa disso, os trabalhadores e marinheiros de Kronstadt, Lamanov e seu Grupo Sem Partido/Maximalistas e Petrichenko podem ser considerados principalmente partes de uma unidade política e filosófica na maioria dos casos. No entanto, Petrichenko e o Comitê Provisório Revolucionário também devem ser discutidos separadamente, de modo a lançar luz no seu possível papel como apoiador de um ou outro ramo não maximalista do Partido Socialista Revolucionário.

Volia Rossii, editora do Pravda, é ela a própria uma publicação braço direito do Partido SR. Ao contrário de todos os outros livros publicados pelo jornal e vendidos por meio de seus anúncios, o Pravda não tem assinatura. O autor ou autores nunca são indicados, nem no próprio livro nem nas páginas do Volia Rossii. Assim, os artigos podem ser entendidos, tais como os editoriais não assinados da primeira página, em consonância com a linha editorial das principais figuras do jornal.

O que o Volia Rossii expressa em seu cabeçalho é na verdade a opinião “de V. M. Zenzinov, V. I. Lebedev e O. S. Minor”. O crítico literário Marc Slonim, então secretário editorial do jornal, descreve essas três figuras como os editores e observa que A. F. Kerensky também esteve estreitamente envolvido com o jornal (Slonim, p. 291).

Uma discussão histórica destas figuras fornece as respostas para as duas questões colocadas acima: quais eram suas visões de socialismo e que papel na revolução sobrava para os grupos não socialistas. Aparentemente, o membro mais antigo e menos conhecido do grupo editorial era Osip Solomonovich Minor. Estudante da Universidade de Moscou, Minor foi atraído para o círculo revolucionário liderado por V. l. Rosenberg, em 1883, época do assassinato do Coronel Sudeikin. Sudeikin era o chefe de polícia de Kiev e um inimigo ferrenho dos terroristas da Vontade do Povo (Minor, p. 9; Nicoll, 1980b, p. 170). Enquanto o grupo de Rosenberg se autodenominava parte da Vontade do Povo, o assassinato de Sudeikin representava os últimos estertores da organização original fundada em 1879, e presumivelmente foi uma das várias tentativas para dar nova vida a essa divisão moribunda do movimento populista (ver Tvardovskaya, p. 255).

Relatos residuais de que depois de ter sido repetidamente preso e libertado, Minor foi condenado em 1885 a dez anos de exílio no nordeste da Sibéria por “influenciar prejudicialmente a juventude”. Em Yakutsk, conheceu vários antigos populistas e ativistas da Vontade do Povo que o impressionaram profundamente. Lá, ele participou do levante de 22 de março de 1889. Foi condenado à forca por sua participação no levante, mas a sentença foi comutada para trabalhos forçados ilimitados e, posteriormente, para dez anos de exílio a partir do dia da sentença. Em 1898, ele conseguiu retornar à Rússia central, mas permaneceu longe das capitais de São Petersburgo e Moscou (ver Minor).

Tvardovskaya, um escritor soviético, lamenta em relação à Vontade do Povo que, embora seus membros “tivessem reconhecido a necessidade da luta política contra a autocracia”, eles compartilhavam as visões “utópicas socialistas” dos populistas em geral, “sobretudo, a crença na possibilidade da Rússia, contornando o capitalismo, chegar ao socialismo através de uma revolução camponesa” (Tvardovskaya, p. 254). A Vontade Popular e os Populistas também apoiavam a intelligentsia, da qual o movimento populista era amplamente composto. A intelligentsia, por sua vez, estava intimamente ligada à baixa nobreza e à burguesia. P. A. Alekseev, um populista de família camponesa, foi um dos ativistas que conheceu e muito impressionou Minor em Yakutsk. Em discurso de seu julgamento de 1878, Minor declarou que era “óbvio que o trabalhador russo só poderia ter esperança em si mesmo e que só podia esperar ajuda de nossa jovem intelectualidade” (Venturi, p. 534).

Entre as políticas adotadas pela Vontade do Povo, ao menos publicamente, estavam uma Assembleia Constituinte, amplas liberdades fundamentais e transferência de todas as terras e fábricas para o povo. Os populistas e presumivelmente Minor desejavam uma revolução social que derrubasse as classes dominantes. Eles próprios não se consideravam como parte das classes dominantes, mas como uma intelectualidade revolucionária trabalhando ao lado dos trabalhadores e camponeses ou, se necessário fosse, liderando às massas sua luta por emancipação (ver Nicoll, 1980b e Blakely para discussões concisas sobre Populismo e Vontade do Povo).

Embora a autobiografia de Minor termine bem antes dos eventos de 1917 e 1921, a obra é interessante a título de ilustração no que diz respeito às ligações entre o Volia Rossii e o populismo, bem como por tratar a crença dos populistas em assumir um papel de liderança entre a intelligentsia, tanto na revolução social quanto no estado socialista resultante dela. Todos os principais partidos socialistas russos da era revolucionária, incluindo os comunistas, tinham pelo menos algumas raízes no populismo. No entanto, a crença em uma revolução baseada no campesinato, tendo por auxílio ou direção da intelectualidade, foi preservada e defendida de forma particularmente vigorosa pelo Partido Socialista Revolucionário. Esta agremiação incluía as principais figuras da Volia Rossii.

Já Vladimir Mikhailovich Zenzinov, Vladimir I. Lebedev e Aleksandr Fedorovich Kerensky eram figuras mais novas e proeminentes no Partido Socialista Revolucionário do que Minor. Segundo Perrie, Zenzinov tornou-se um membro ativo desde quando ingressou como estudante em 1904. Participou de atividades terroristas e das revoltas de 1905 e 1906. Foi preso e fugiu muitas vezes. Em 1910, foi finalmente condenado a cinco anos de exílio em uma aldeia remota próxima ao rio Indigirka, na Sibéria. Perrie relata que Zenzinov retornou à Rússia no início da Guerra Mundial, ingressando na ala mais conservadora, “defensista” ou de apoio à guerra no círculo do movimento socialista e do Partido SR. Nessa mesma época, tornou-se amigo íntimo de Kerensky (ver Perrie, 1980b; Melancon também fornece um artigo interessante sobre as relações entre os descendentes socialistas do populismo e as divisões intrapartidárias direita-esquerda desencadeadas pela Guerra Mundial).

De acordo com Perrie, após a Revolução de Fevereiro, Zenzinov serviu no Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado e recebeu uma nomeação para o Governo Provisório. Na época da Revolução de Outubro, juntou-se ao Comitê de Salvaguarda da Pátria e da Revolução, que lutava contra o golpe bolchevique. Ainda conforme Perrie, após a dissolução da Assembleia Constituinte, em janeiro de 1918, Zenzinov acabou se juntando ao Comitê da Assembleia Constituinte (Komuch) e ao “Diretório Ufa”, que formou um governo de oposição com a participação dos democratas-constitucionais burgueses, constituindo, fundamentalmente, a mesma base do governo que existia antes de outubro. Em novembro de 1918, o Diretório foi derrubado por elementos reacionários e substituído por Kolchak, um comandante branco. Zenzinov fugiu para o exterior (Perrie, 1980b, pp. 17-21).

Segundo Sack, Lebedev lutou na Guerra Russo-Japonesa e, depois de fugir da Rússia por motivos políticos, serviu no Exército Francês desde o início da Guerra Mundial até a Revolução de Fevereiro. Ele retornou à Rússia e ingressou no Governo Provisório como Ministro Adjunto da Marinha no Gabinete da Segunda Coalizão, formado em julho de 1917, muito embora tenha deixado a pasta por discordar com aquilo que acreditava ter sido um tratamento fraco conferido aos bolcheviques após as Jornadas de Julho. Lebedev fez parte da malfadada Assembleia Constituinte e também se uniu a Komuch e ao Diretório, no qual trabalhou como líder militar em coordenação com a Legião Tcheca. Presumivelmente, Lebedev foi deposto na mesma ocasião que os outros socialistas (ver Sack, pp. 3-5).

Kerensky ficou famoso como o primeiro-ministro socialista da coalizão de Governos Provisórios. Segundo Rollins, ele seguiu um caminho semelhante ao de Zenzinov, ingressando no movimento socialista quando era estudante em São Petersburgo, de 1899 a 1904. Participou de atividade revolucionária socialista e liberal, serviu na Duma do Estado, fez-se proeminente como advogado de defesa criminal e foi vítima das prisões costumeiras. Era maçom desde 1912 e membro da ala direita do movimento socialista, apoiando a guerra contra a Alemanha, compreendida por ele como um passo para a libertação política. Ao longo de sua carreira, Kerensky cultivou ardentemente os princípios liberais, em vez daqueles estritamente socialistas. Rollins diz da maçonaria russa que “[seu] objetivo ... não era a democracia popular buscada pela esquerda, mas, sim, uma república dirigida pela intelectualidade liberal. Rejeitando a ação das massas, visava destruir a monarquia, infiltrando-se no governo e transformando a burocracia do alto escalão em instrumento da revolução” (Rollins, p. 109). Servindo em vários governos provisórios como Ministro da Justiça, da Guerra e, finalmente, Primeiro-Ministro, Kerensky foi um dos principais apoiadores da política oficial de concessões aos proprietários de terras e fábricas e de coalizão com os partidários da democracia constitucional e outros grupos não socialistas. Naquela época, nenhum partido, exceto os bolcheviques, acreditava na capacidade dos sovietes para realizar a revolução social sem o envolvimento e a cooperação dos elementos burgueses. Daí porque Kerensky não quis ou não pôde tomar as medidas necessárias para satisfazer as massas em seus anseios de liberdade. Junto com o Governo Provisório, foi apeado do poder na Revolução de Outubro e, como se constatou, foram os marinheiros e soldados de Kronstadt que contribuíram fortemente para derrubar o governo (ver Rollins).

Como proeminentes socialistas revolucionários, Zenzinov, Lebedev e Kerensky se juntaram a Minor em apoio aos velhos ideais populistas de uma revolução social unificada pela base dos operários, camponeses e também pela intelectualidade. O programa oficial do SR aprovado na Primeira Conferência do Partido, em 1905-1906, reivindicava a “substituição da propriedade individual [da terra]... pela criação da propriedade comum do povo" (Sbornik..., pp. 45-46) e reiterava que “o fardo da luta contra o czarismo deve recair sobre os ombros do proletariado – o campesinato, o operariado e a intelectualidade revolucionária” (citado em Melancon, p. 244). Segundo fontes contemporâneas, este programa continuou a ser a visão oficial do partido em 1917 (Morokhovets, pp. 73-74).

Assim, partindo de suas raízes populistas, mantidas pelo menos até 1918, as principais figuras de Volia Rossii acreditavam em um socialismo pelo qual um estado socialista liderado por uma intelectualidade atendesse aos desejos dos trabalhadores. Eles também estavam dispostos a permitir que grupos não socialistas desempenhassem um papel na revolução (ver Perrie, 1980a para uma discussão mais completa do Partido Socialista Revolucionário).

Quando Pukhov acusa Petrichenko de simpatizar com as crenças socialistas-revolucionárias, está se referindo aquelas descritas no parágrafo anterior. Como mencionado acima, com relação a Petrichenko, tal acusação, se verdadeira, seria de fato condenatória para muitos trabalhadores soviéticos e especificamente para a população de Kronstadt, porque as proposições SR estavam em conflito direto com as convicções políticas dos marinheiros de Kronstadt e seus líderes.

Além das diferenças apontadas, havia também outras questões que separavam Kronstadt e seus líderes dos SRs de direita e seu Governo Provisório. Sack descreve Lebedev, ministro da Marinha, ao tomar “medidas rígidas para restabelecer a disciplina da frota russa”. Esta foi uma política extremamente impopular entre os marinheiros independentes de Kronstadt. Prossegue o autor: “Em julho de 1917, o SR de direita estava à frente das forças que reprimiram a revolta bolchevique” (Sack, p. 4). Aqui, novamente, os marinheiros de Kronstadt não foram meros coadjuvantes das Jornadas de Julho, mas protagonistas das manifestações (ver Getzler, pp. 111-124).

Levando-se em conta o desacordo entre Kronstadt e os SRs de direita, relativas às duas questões colocadas acima, isto é, a concepção de socialismo fraco e do papel de grupos não socialistas na Revolução, bem como outros conflitos fundamentais de interesse e princípios, a oposição, em julho e outubro de 1917, de Kronstadt a Kerensky, aos socialistas revolucionários de direita e aos governos provisórios que estes ajudaram a formar é bem explicada.

Em março de 1921, no entanto, a situação mudou drasticamente. Wrangell, o último comandante branco, foi expulso da Crimeia. Os governos ocidentais abdicaram das tímidas tentativas de intervenção e estavam começando a negociar acordos com o novo governo soviético. Ao não permitirem o menor exercício da crítica ao seu governo, os bolcheviques afastaram cada vez mais da vida pública seus aliados socialistas e anarquistas de esquerda da Revolução e da Guerra Civil. Entretanto, rebeliões camponesas despontavam aqui e ali contra a razverstka, a expropriação à mão armada de grãos e outros suprimentos para sustentar o Comunismo de Guerra. Com o término das ameaças internas e externas à República, os camponeses estavam cada vez menos dispostos a aceitar essas políticas coercitivas de requisições.

Operários e marinheiros também foram profundamente afetados com tais adversidades, não só porque o abastecimento de alimentos escasseava ante a ruína econômica provocada pela Guerra Civil e o Comunismo de Guerra, mas pelo fato de que em muitos casos ainda mantinham laços estreitos com as aldeias. Por fim, o Partido Comunista foi acusado de autoritarismo, de burocratizar-se e afastar-se do povo, de ser incapaz de lidar com a ruína econômica que avassalou a Rússia. As declarações de marinheiros, soldados e trabalhadores publicadas no “Izvestiia do Com. Prov. Rev.” tratam reiteradamente dessas questões. Foram repetidos também por Lamanov em sua declaração por ocasião de sua saída do Partido Comunista e nos artigos que escreveu para explicar a causa do movimento de Kronstadt. Algumas dessas questões também são levantadas por Petrichenko no primeiro artigo da primeira edição (ver também “Deixando o RCP”, “Pelo que Lutamos”, “Voz de um iludido”, “Abandonar o Partido”; Pravda, pp. 45, 59, 76, 82, 105, 132). Tais eram as questões que afastaram Kronstadt e seus líderes dos comunistas.

O Izvestiia também indicou que a liderança do levante mantinha algum grau de relação com os emigrados socialistas revolucionários de direita. Na terceira edição, são impressas "saudações à guarnição de Kronstadt", publicadas no Reval (Pravda, p. 57). Aparentemente, este é o texto omitido de uma publicação que Avrich atribui a um grupo que incluía Zenzinov e Kerensky. O texto completo é o seguinte:

“O presidente da Assembleia Constituinte, Victor Chernov, envia suas saudações fraternas aos heroicos camaradas marinheiros, homens do Exército Vermelho e trabalhadores, que pela terceira vez, desde 1905, estão se libertando do jugo da tirania. O presidente oferece ajuda com homens e provisões, através das cooperativas russas situadas no exterior. Informe-nos o que e quanto será necessário para que possamos devidamente auxiliá-los. Disponho-me, em pessoa, a colocar todas as minhas energias e autoridade a serviço da revolução popular. Tenho fé na vitória final das massas trabalhadoras. Salve aquele que primeiro levantou a bandeira da libertação do povo! Abaixo o despotismo da esquerda e da direita!”

Em resposta, Kronstadt replicou: “O Comitê Provisório Revolucionário de Kronstadt expressa a todos os nossos irmãos no exterior sua profunda gratidão pela simpatia que nos é devotada. O Comitê Revolucionário Provisório agradece a oferta de Chernov, mas a recusa momentaneamente, até que novos desdobramentos sejam esclarecidos, tudo será levado em consideração” (Avrich, pp. 124-25).

Assim, Kronstadt não apelou para qualquer ajuda do exterior senão quando o levante já estava perto da derrota, e nunca recebeu nenhum alimento ou socorro dos SRs e grupos mais conservadores, que tanto ansiavam por oferecer (ver Avrich, pp. 115-127). No entanto, os líderes da rebelião não estavam totalmente dispostos a rejeitar a proposta de Chernov. Havia várias razões para sua objeção cautelosa, mas de maneira nenhuma hostil. Em primeiro lugar, apesar dos discursos e publicações afirmando o contrário, a escassez de alimentos em Kronstadt era claramente perceptível nas publicações do Izvestiia (ver “Refutando a calúnia” e “Distribuição”, no Pravda, pp. 156, 169-170). Os líderes rebeldes não estavam dispostos a desperdiçar esta oportunidade de receber ajuda alimentar, se a assistência se tornasse necessariamente dramática.

Em segundo lugar, é provável que os líderes de Kronstadt não considerassem mais os Socialistas Revolucionários um obstáculo tão grande como haviam sido em 1917 e 1918, no que tange o objetivo de Kronstadt de fundar uma república livre. Isso porque fontes soviéticas reportavam seguramente que as forças brancas haviam sido esmagadas e os governos ocidentais negociavam uma paz iminente. Ademais, a conjuntura havia tornado a participação da Rússia em qualquer nova guerra contra a Alemanha uma questão fora de cogitação.

Portanto, como muitas pessoas em Kronstadt eram de fato ex-membros dos partidos SR e dos mencheviques e, como aponta Pukhov, o ativismo político era frequentemente realizado pelos SRs e mencheviques à época, em Petrogrado, o Comitê provavelmente tinha ciência das mudanças de posição dos socialistas revolucionários de direita, claramente constatadas nas páginas do Volia Rossii (Pukhov, pp. 28-29, 34). Por causa dessa traição de seus editores em favor das forças brancas em 1918, o abandono que lhes foi relegado pela Entente, beneficiando os bolcheviques, e também a natureza socialista do novo governo alemão, que suscitava uma atitude dura da Entente em relação à Alemanha (ver, por exemplo, No 127, p. 1, Pered londonskoi konferentsiei), os socialistas revolucionários de direita não perderam nenhuma oportunidade de atacar seus ex-aliados, entre os democratas constitucionais e comandantes brancos (um exemplo particularmente interessante é o nº 2, p. 1, Vse Malo). Por tudo isso, o Comitê Provisório Revolucionário provavelmente acreditava que os socialistas revolucionários de direita não tinham o desejo nem a capacidade de continuar sua linha política de 1917, e, por isso, seriam menos ameaçadores aos objetivos de Kronstadt do que os comunistas. Na verdade, Kronstadt e os SRs agora descobriram que tinham um interesse em comum – a oposição contra os comunistas.

Os editores do Volia Rossii, por sua vez, não acreditando mais no papel da intervenção estrangeira e numa reação dos grupos não socialistas, depositaram todas as suas esperanças na derrubada imediata do comunismo, baseando-se unicamente em suas convicções populistas mais fundamentais referentes ao despertar do caráter revolucionário das massas trabalhadoras. Nos comentários sobre o levante e em entrevistas com refugiados de Kronstadt, o Volia Rossii mostrou como os eventos de Kronstadt e a ação dos rebeldes demonstravam a confirmação de suas convicções, a saber: que o comunismo seria derrubado muito em breve por iniciativa dos trabalhadores e que os trabalhadores também se confrontariam com os inimigos não-comunistas da SR. Em uma história da revolta dividida em série, que está intimamente relacionada ao Pravda, o Volia Rossii cita extensivamente artigos como “Por que estamos lutando” – um das teses definitivas de Kronstadt contra os comunistas – e cita o lema: “Em Kronstadt não há Kolchak, nem Denikin, nem Yudenich. Em Kronstadt há tão somemente trabalhadores” (Volia Rossii, NoNo 160-162, p. 3, “Istoriia Kronshtadtskago vozstaniia”). Um resumo da posição do Volia Rossii, e do que eles acreditavam o que seria o objetivo de Kronstadt, pode ser encontrado no editorial principal de 30 de março de 1921, que afirma:

“... o partido [SR] em sua luta contra o bolchevismo, imbuído de um único espírito, rejeita o trabalho conjunto com partidos não socialistas. Será necessário dizer que os eventos do período recente, e em particular o levante de Kronstadt, corroboram a justeza do ponto de vista do partido?

As massas trabalhadoras russas começaram a reagir através da luta armada contra o bolchevismo, mas rejeitam o trabalho conjunto com... partidos que defendiam objetivos e psicologias estranhas a elas” (Volia Rossii, No 165, p. 1 , “Bolchevique i es-ery”).

O Volia Rossii também sustentava repetidas vezes que os comunistas deviam perder o poder em breve e que as concessões econômicas e políticas impostas a eles por Kronstadt e pelo movimento operário em geral não apenas não poderiam impedir a sua derrocada, mas iriam até acelerá-la. Yakovenko, vice-presidente do Comitê Provisório Revolucionário e camarada muito próximo de Petrichenko, resume melhor essa visão quando diz em uma entrevista: “Os comunistas chegaram ao fim. Digo em alto e bom som: antes que este ano termine, os comunistas serão derrubados do poder” (No 187, p. 1, “Beseda s kronshtadtsami”). Os socialistas-revolucionários estavam ansiosos para saudar como adversários dos comunistas os kronstadtinos, compostos por trabalhadores simples, cujas ações e declarações escritas ou orais eram concordantes com as posições do Volia Rossii.

Este acordo de última hora não era perfeito, no entanto. Enquanto Kronstadt e os socialistas revolucionários de direita compartilhavam um interesse comum contra os comunistas, no qual perpassavam certos conflitos políticos, outras questões ainda separavam os dois grupos. A Assembleia Constituinte é uma dessas questões particularmente evidente em a Verdade, pois revela tanto um conflito contínuo entre os dois grupos quanto os esforços do Volia Rossii para convencer seus leitores de que tais desavenças não representavam um abismo intransponível.

O Izvestiia assume uma posição forte anti-Assembleia Constituinte. Em “Etapas da Revolução”, Lamanov afirma que, antes da Revolução de Outubro, os “[c]apitalistas e proprietários de terras... estavam certamente no controle” (Pravda, p. 127). Quando os membros do Comitê Provisório Revolucionário foram questionados por “Zritel”, um repórter do Volia Rossii, por que não apoiaram a Assembleia Constituinte depois da Revolução, eles responderam que os comunistas conquistariam a maioria das cadeiras através das listas fixas de candidatos apresentados aos eleitores (Pravda, p. 31).

A pergunta de “Zritel” não era retórica, não pretendia mostrar que a Assembleia Constituinte não era avessa a pessoas comuns que o Volia Rossii tomava por representantes de Kronstadt. O jornal era, de fato, fortemente a favor de uma Assembleia Constituinte. A “proclamação dos socialistas trabalhadores da região de Nevsky”, publicada no Izvestiia (Pravda, p. 7), afirmava:

“Sabemos quem tem medo da Assembleia Constituinte. São aqueles que não mais poderão roubar e que serão levados a responder perante os representantes do povo por fraude, roubo e todos os tipos de crimes cometidos. Abaixo os odiados comunistas! Abaixo o poder soviético! Viva a Assembleia Nacional Constituinte."

Esta proclamação também foi impressa no Volia Rossii (No 163, p. 3, “Vozzvaniia sotsialistov v dni petrogradskikh i kronshtadtskikh sobytii”). Lá o texto é atribuído ao “Comitê dos Socialdemocratas de Petrogrado (mencheviques) e aos grupos socialistas de Petrogrado”. A referência a “grupos socialistas”, sem nomeá-los, sugere que os Socialistas Revolucionários podem ter desempenhado um papel direto na publicação original do panfleto. De qualquer forma, a relação entre Volia Rossii e os mencheviques era muito próxima. Os mencheviques nunca receberam os duros ataques que Volia Rossii dirigia aos Kadetes e comandantes brancos. Além disso, o Sotsialisticheskii Vestnik, um órgão do partido menchevique no exterior, chega até mesmo a anunciar no Volia Rossii (ver, por exemplo, n. 224, p. 6) a convocação da proclamação para uma Assembleia Constituinte, em concordância com o editorial do próprio jornal.

O Volia Rossii, portanto, achou necessário explicar por que os marinheiros de Kronstadt e seus líderes, que se opunham à Assembleia Constituinte, não eram iguais aqueles culpados por “fraude, roubo e todos os tipos de crimes”. Tal como acontece com outras situações, em que os operários e camponeses não agiam de acordo com as expectativas dos socialistas revolucionários de direita, o Volia Rossii contornavam isso em parte apontando para a influência corruptora do ativismo comunista na classe trabalhadora (ver, por exemplo, a explicação sobre o malogro dos trabalhadores de Petrogrado quando do auxílio prestado por Kronstadt, em Volia Rossii, n.º 164, página 1, “Petrograd i Kronshtadt”). Em resposta à rejeição da Assembleia Constituinte por Kronstadt, o Volia Rossii afirmava:

“Durante três anos, com o uso das ‘listas’, os bolcheviques conseguiram perverter a própria ideia de eleições livres... [Os trabalhadores] temiam que..., com a dominação comunista nos sovietes, ou na Assembleia Constituinte, eleitos por métodos comunistas, não seria uma assembleia constituinte, mas uma nova variedade do comissariado” (Pravda, pp. 31-32).

O Volia Rossii afirmava que Kronstadt, tendo suas crenças distorcidas pelos comunistas, estava se aproximando da democracia a curtos passos, por meio de novas eleições para os sovietes, e não pelo caminho direto da Assembleia Constituinte. Relevou ainda mais o erro de Kronstadt ao afirmar que os marinheiros, isolados das localidades onde os trabalhadores convocavam a Assembleia Constituinte, “à sua maneira, defendiam o direito do povo ao autogoverno e à autorregulação. Queriam avançar – e já avançavam – rumo ao autogoverno por caminhos diferentes” dos demais trabalhadores (Pravda, p. 35), mas “o objetivo deles... era um e o mesmo, a emancipação do povo. Por isso, independentemente de como eles interpretavam a demanda do ‘poder popular’, todo o movimento de Kronstadt possuía uma grande força de atração” (Pravda, p. 35). O Volia Rossii justificava sua diferença com Kronstadt em relação à Assembleia Constituinte alegando que, por causa da campanha comunista e do isolamento de Kronstadt, os marinheiros e seus líderes estavam relativamente enganados sobre os métodos adequados para a emancipação popular, mas que fundamentalmente desejavam o mesmo que os socialistas revolucionários.

Os autores e editores originais do Pravda o Kronshtadte, ou “A Verdade sobre Kronstadt”, variavam entre marinheiros comuns da Frota do Báltico a até ex-ministros de governo. Eles eram todos descendentes políticos do populismo russo do final do século XIX, mas se dividiram em ramos separados sob a influência de diferentes interesses, crenças e de eventos como o da Primeira Guerra Mundial. A população de Kronstadt era democrata radical e intimamente relacionada à União dos Socialistas-Revolucionários Maximalistas, que lhes forneceu uma de suas principais figuras, Anatolii Lamanov. Os editores do Volia Rossii eram socialistas revolucionários de direita, de orientação liberal e inclinados a fazer concessões e alianças com grupos aos quais Kronstadt rejeitava. Stepan Petrichenko, presidente do Comitê Revolucionário Provisório de Kronstadt, foi influenciado até certo ponto pelas ideias socialistas revolucionárias, mas foi principalmente um representante e um exemplo dos marinheiros de Kronstadt que foram liderados por ele.

Diferenças políticas relacionadas às visões dos autores sobre o socialismo e o papel apropriado das forças não socialistas, juntamente com outras questões, como apoio ou oposição à guerra, motivaram a tornar Kronstadt e o Governo Provisório Socialista-Revolucionário de Direita violentos inimigos em 1917. Em 1921, no entanto, no contexto de uma combinação de realidades internas e externas alteradas, visões e interesses transmutados, um inimigo comum, constituído pelos comunistas, forneceu-lhes uma base para a cooperação mútua. Kronstadt decidiu que seus antigos inimigos não eram mais tão perigosos quanto antes e que a necessidade potencial de suprimentos de comida exigia que as propostas fornecidas socialistas revolucionárias não fossem completamente rejeitadas. Por sua vez, o Volia Rossii descobriu que, apesar da necessidade de explicar as divergências contínuas sobre questões como a Assembleia Constituinte, os rebeldes ganhavam para eles um status de grande importância, pois proporcionavam uma fonte de ações ou declarações, tanto escritas como orais, que legitimavam as convicções do SR de direita.

Notas

Nota do editor

A Rebelião de Kronstadt

O Pravda o Kronshtadte é uma descrição da rebelião de marinheiros que ocorreu em março de 1921, no porto naval de Kronstadt, localizado na ilha de Kotlin, perto do Golfo da Finlândia.

A rebelião foi organizada e conduzida em grande parte pelos marinheiros da base naval. Inicialmente, eles apoiaram os bolcheviques na Revolução de Outubro, mas, diante das greves dos trabalhadores que despontavam no período, formaram o Comitê Provisório Revolucionário, sob a orientação anarquista, depois da recusa do governo bolchevique em suspender as políticas que provocavam uma escassez crítica de alimentos e energia, em consequência da repressão política e de uma regulamentação trabalhista irracional.

A tomada efetiva do governo da cidade de Kronstadt foi pacífica; não os fatos subsequentes.

Leon Trotsky e Mikhail Tukhachevsy enviaram tropas para esmagar a revolta. Ao longo do cerco de duas semanas, a maioria dos rebeldes foi capturada ou morta, enquanto alguns conseguiram fugir para a Finlândia.

Embora os bolcheviques tenham reprimido com sucesso a rebelião, eles finalmente perceberam que precisavam lidar com as crises econômicas que alimentavam o desencanto da população para com o governo. Eles adotaram a Nova Política Econômica no mesmo mês em que ocorreu a rebelião.

Pravda o Kronshtadte

Sem surpresa, a maioria dos documentos soviéticos existentes dão um relato negativo da Rebelião de Kronstadt – que é descrita como um exemplo de que os corajosos bolcheviques prevaleceram sobre um bando de criminosos.

O fato de Pravda o Kronshtadte ser uma peça rara de propaganda pró-rebelião é uma das razões pelas quais seu interesse enquanto documento histórico apresenta um valor ímpar. Foi publicado após a revolta pelo jornal Volia Rossii (“Vontade da Rússia”) e inclui no apêndice todos os quatorze números do diário pró-rebelião Izvestiia, do Comitê Provisório Revolucionário. De acordo com a página de rosto, todos os lucros da venda da publicação foram destinados aos “refugiados de Kronstadt e suas famílias”.

Este trabalho também é interessante por apresentar um relato das condições políticas e econômicas durante os anos de 1921. O conteúdo do Izvestiia fornece informações sobre a escassez de alimentos, a resposta do povo perante os estado calamitoso gerado pela crise econômica, a estrutura política dos órgãos governamentais e as atividades dos habitantes de Kronstadt na época da revolta.

Volia Rossii

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