segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Trotsky reclama demais, por Emma Goldman

 

Trotsky reclama demais [1]

(julho de 1938)

por Emma Goldman

Traduçãode Marcelo Coelho – Revista Rosa

Nota do editor

Este panfleto foi escrito a partir de um artigo para Vanguard, revista mensal anarquista publicada em Nova York. O artigo apareceu na edição de julho de 1938, mas como o espaço da revista é limitado, utilizou-se apenas parte do manuscrito. Aqui ele é apresentado numa versão revista e aumentada.

Tenho diante de mim dois números, o de fevereiro e o de abril de 1938, da New International, revista oficial de Trotsky. Trazem artigos de John G. Wright, trotskista dos quatro costados, e do próprio mandachuva, pretendendo refutar as acusações feitas contra ele a respeito de Kronstadt. O sr. Wright está apenas ecoando a voz do dono, e seu conteúdo não tem nada de primeira mão, de um contato pessoal com os acontecimentos de 1921. Prefiro prestar meus respeitos a Leon Trotsky. Ele tem ao menos o duvidoso mérito de ter sido partícipe da “liquidação” de Kronstadt.

Existem, contudo, diversas distorções grosseiras no artigo de Wright, fazendo-o merecedor de uma bordoada também. Faço isso de imediato, portanto, e lido com o chefe dele depois.

John G. Wright afirma que The Kronstadt Rebellion, de Alexander Berkman, “é apenas a repetição dos supostos fatos e das interpretações dos social-revolucionários de direita, com algumas poucas e insignificantes alterações” — (“colhidas de ‘A Verdade Sobre a Rússia’ em Volia Rossii, Praga, 1921”).

Mais adiante, Wright acusa Alexander Berkman de “irresponsabilidade, plagiarismo, e [de] fazer, como é seu costume, umas poucas alterações insignificantes, escondendo a fonte verdadeira daquilo que surge como sua avaliação própria”. A vida e a obra de Alexander Berkman colocaram-no entre os grandes pensadores e combatentes revolucionários, completamente entregues ao seu ideal. Os que o conheceram irão testemunhar a qualidade inatacável de todas as suas ações, assim como sua integridade como escritor sério. Irão certamente achar graça ao serem informados pelo sr. Wright que Alexander Berkman era “plagiário” e “irresponsável”, e que seu costume é “fazer umas poucas alterações insignificantes…”.

O comunista típico, seja da estirpe de Stalin, seja da de Trotsky, conhece tanto da literatura anarquista e de seus autores quanto, digamos, o católico típico sabe alguma coisa de Voltaire ou de Thomas Paine. A simples sugestão de que se deveria conhecer as posições de seus oponentes antes de insultá-los há de ser considerada herética pela hierarquia comunista. Não acho, portanto, que John G. Wright esteja deliberadamente mentindo a respeito de Alexander Berkman. Acho mais que ele é de uma espessa ignorância.

Alexander Berkman escreveu um diário durante toda a vida. Mesmo durante os catorze anos de purgatório por que passou na penitenciária de Pittsburgh, nos Estados Unidos, Alexander Berkman conseguiu manter seu diário, que enviava secretamente para mim. No S.S. Buford, que nos transportou em nossa perigosa viagem de 28 dias, meu camarada continuou a escrever o diário e manteve seu velho hábito nos 23 meses de nossa estadia na Rússia.

Memórias de prisão de um anarquista, que críticos conservadores admitem ser comparável até mesmo à Casa dos mortos, de Dostoiévski, é uma adaptação de seu diário. A rebelião de Kronstadt e O mito bolchevique são também resultados de seu registro diário do que via na Rússia. É estupidez, portanto, atacar a brochura de Berkman como “meramente a repetição dos supostos fatos” colhidos no trabalho dos SR que foi publicado em Praga.

No mesmo nível de exatidão desse ataque está a acusação de Wright de que meu velho companheiro tinha negado a presença do general Koslovsky em Kronstadt.

A rebelião de Kronstadt, na página 15, afirma: “existia de fato um ex-general Koslovsky em Kronstadt. Fora Trotsky quem o pusera lá, na condição de especialista em artilharia. Não teve absolutamente nenhum papel nos eventos de Kronstadt.” Isso foi divulgado por ninguém menos do que Alexander Zinoviev, que ainda estava no auge de sua glória. Na sessão extraordinária do soviete de Petrogrado do dia 4 de março de 1921, convocada para decidir a sorte de Kronstadt, Zinoviev disse: “claro que Koslovsky está velho e não pode fazer nada, mas os oficiais brancos estão por trás dele e estão desencaminhando os marinheiros”. Alexander Berkman, contudo, ressaltou o fato de os marinheiros não queriam saber do general queridinho de Trotsky, e que tampouco iriam aceitar a oferta de mantimentos e de ajuda feita por Victor Tchernov, líder dos social-revolucionários de direita em Paris.

Sem dúvida, os trotskistas consideram uma sentimentalidade burguesa permitir que os marinheiros acusados tenham o direito de falar por si mesmos. Insisto que tratar assim um adversário é um jesuitismo detestável, que fez mais para desintegrar todo o movimento operário do qualquer outra das “sagradas” táticas do bolchevismo.

Para que o leitor possa decidir entre a acusação criminosa feita a Kronstadt e aquilo que os marinheiros tinham a dizer em sua defesa, reproduzo aqui a mensagem radiofônica aos operários de todo o mundo, de 6 de março de 1921:

Nossa causa é justa: defendemos o poder dos sovietes, não deste ou daquele partido. Defendemos os representantes livremente eleitos das massas trabalhadoras. Os sovietes substitutos, manipulados pelo Partido Comunista, sempre foram surdos a nossas necessidades e reivindicações; a única resposta que recebemos tem sido a bala… Camaradas! Eles não estão apenas enganando vocês: estão deliberadamente pervertendo a verdade e recorrem às difamações mais desprezíveis… Em Kronstadt todo o poder está exclusivamente nas mãos dos marinheiros, soldados e operários revolucionários — não de contrarrevolucionários liderados por algum Koslovsky, como a mentirosa rádio de Moscou tenta fazer acreditar… Não demorem, camaradas! Juntem-se a nós, entrem em contato conosco; peçam a seus delegados o direito de entrar em Kronstadt. Somente aí vocês saberão de toda a verdade e das calúnias a respeito de pão trazido da Finlândia e de ofertas da Entente.

Longa vida ao proletariado revolucionário e ao campesinato!

Longa vida ao poder de sovietes livremente eleitos!

Eis os marinheiros “liderados” por Koslovsky, apelando, contudo, aos operários de todo o mundo para enviar delegados que pudessem verificar se havia alguma verdade na pestilenta calúnia espalhada contra eles pela imprensa soviética!

Leon Trotsky se mostra surpreso e indignado quando alguém tem a audácia de começar uma “gritaria” sobre Kronstadt. Afinal, tudo aconteceu há tanto tempo, na verdade se passaram dezessete anos e aquilo foi apenas um “episódio na história das relações entre a cidade proletária e a aldeia pequeno-burguesa”. Por que alguém haveria de fazer esse escarcéu tardio, a não ser que fosse para “comprometer a única corrente genuinamente revolucionária, que nunca repudiou suas bandeiras, nunca fez concessões a seus adversários e que é a única a representar o futuro”? A egolatria de Trotsky, amplamente conhecida por seus amigos e por seus adversários, nunca foi pequena. Depois que seu inimigo mortal não lhe deixou entre as mãos mais do que uma varinha mágica, seu convencimento atingiu proporções alarmantes.

Leon Trotsky fica ultrajado com o fato de que alguém reviva o “episódio” de Kronstadt e questione o papel que ele teve ali. Não lhe passa pela cabeça que aqueles que vieram em sua defesa, contra seu detrator, têm o direito de perguntar quais os métodos de que ele se valia quando estava no poder e como é que ele lidava com aqueles que não subscreviam seus mandatos como se fossem verdades do Evangelho. Seria ridículo, é claro, esperar que ele batesse no peito e dissesse “eu também fui apenas humano e cometi equívocos. Eu também pequei, matei meus irmãos e mandei que fossem mortos.” Somente os profetas sublimes e os visionários chegaram a tais altitudes de coragem. Leon Trotsky não é certamente um deles. Ao contrário, ele continua a proclamar sua onipotência em todos seus atos e julgamentos, dirigindo anátemas sobre as cabeças de quem levianamente sugere que o grande Leon Trotsky também tem pés de barro.

Ele menospreza as evidências documentais deixadas pelos marinheiros de Kronstadt e por aqueles que viram com seus próprios olhos o terrível sítio de Kronstadt. Para ele, trata-se de “falsos rótulos”. Isto não o dissuade, porém, de assegurar a seus leitores que sua explicação da revolta de Kronstadt poderia ser “comprovada e ilustrada por muitos fatos e documentos”. Pessoas inteligentes poderiam bem perguntar por que Leon Trotsky não tem a decência de apresentar os seus “falsos rótulos” para que possam formar uma opinião correta a partir deles.

Ora, o fato é que mesmo tribunais capitalistas asseguram ao réu o direito de apresentar provas em sua defesa. Não Leon Trotsky, porta-voz da única verdade definitiva, que “nunca repudiou suas bandeiras e nunca fez concessões a seus adversários”.

Pode-se entender essa falta de decência básica em John G. Wright. Como eu já disse, ele está apenas citando a sagrada escritura bolchevique. Mas para uma figura de dimensões internacionais como Leon Trotsky, silenciar as provas a favor dos marinheiros me parece indicar um caráter muito diminuto. A velha imagem do leopardo que muda suas manchas, mas não sua natureza aplica-se perfeitamente a Leon Trotsky. O calvário pelo qual ele passou em seus anos de exílio, a trágica perda das suas pessoas próximas e queridas e, ainda mais pungente, a traição de seus camaradas de luta, nada lhe ensinaram. Sequer um relance de gentileza e suavidade humana passa por seu espírito rancoroso.

É triste que o silêncio dos mortos por vezes fale mais alto que a voz dos vivos. Na verdade, as vozes sufocadas em Kronstadt cresceram em volume durante esses dezessete anos. Será por esta razão, pergunto-me, que Leon Trotsky se ressente desse som?

Leon Trotsky cita a ideia de Marx, segundo a qual “é impossível julgar partidos ou pessoas a partir do que dizem a respeito de si mesmos”. É patético que ele não perceba o quanto isso se aplica a ele! Nenhuma pessoa, entre todos os habilidosos escritores bolcheviques, conseguiu se manter tanto no palco ou se gabar tão incansavelmente de seu papel durante e depois da Revolução Russa quanto Leon Trotsky. Pelos critérios do seu grande mestre, teríamos de considerar sem valor todos os escritos de Leon Trotsky, o que obviamente seria absurdo.

Ao desacreditar os motivos que conduziram à insurreição de Kronstadt, Leon Trotsky registra o seguinte:

Enviei dúzias de telegramas de diversas frentes, tratando da mobilização de novos destacamentos “confiáveis” dos operários de Petrogrado e dos marinheiros da frota do Báltico, mas já em 1918, e em todo caso no mais tardar em 1919, as frentes começaram a se queixar de que os novos contingentes de “kronstadtianos” deixavam a desejar: eram cheios de exigências, indisciplinados, inconfiáveis no campo de batalha; mais prejudicavam do que ajudavam.

Mais adiante, na mesma página, Trotsky faz uma acusação.

Quando as condições se tornaram muito críticas com a fome em Petrogrado, o burô político mais de uma vez discutiu a possibilidade de conseguir um “empréstimo interno” junto a Kronstadt, onde ainda havia uma quantidade de antigos mantimentos, mas os delegados dos operários de Petrogrado responderam: “vocês nunca conseguirão nada deles por gentileza: eles especulam com roupas, carvão e pão. No momento, todo tipo de escória levanta a cabeça em Kronstadt”.

Como é bolchevique essa tática de não só massacrar os oponentes, mas também de conspurcar o seu caráter. De Marx, Engels, Lênin e Trotsky a Stalin, esses métodos sempre foram os mesmos.

Pois bem, não pretendo indagar o que eram os marinheiros de Kronstadt em 1918 ou 1919. Só cheguei à Rússia em janeiro de 1920. Daquele momento em diante, até a “liquidação” de Kronstadt, os marinheiros da frota do Báltico eram enaltecidos como exemplo de valor e coragem indemovível. Sem descanso, o que não apenas anarquistas, mencheviques e social-revolucionários, mas também muitos comunistas me diziam era que os marinheiros eram a espinha dorsal da Revolução. Nas comemorações do Primeiro de Maio de 1920, e nas outras festividades organizadas para a primeira delegação trabalhista inglesa, os marinheiros de Kronstadt eram apresentados como um contingente grande e diferenciado, e identificados entre os grandes heróis que salvaram a Revolução do controle de Kerensky, e Petrogrado do de Yudenich. No aniversário de outubro os marinheiros estavam novamente nas primeiras fileiras, e a reencenação da tomada do Palácio de Inverno era aplaudida com fervor por uma massa compacta.

Será possível que todos os líderes do partido, exceto Leon Trotsky, ignoravam a corrupção e a desmoralização de Kronstadt que ele aponta? Não creio. Mais ainda, duvido que o próprio Trotsky tivesse essa visão a respeito dos marinheiros de Kronstadt antes de março de 1921. Sua narrativa deve ser, portanto, uma reavaliação — ou uma racionalização para justificar a “liquidação” sem sentido de Kronstadt.

Mesmo admitindo que a composição do pessoal da fortaleza tivesse mudado, o fato é que os kronstadtianos de 1921 estavam longe de corresponder à descrição feita por Leon Trotsky e seu papagaio. A verdade é que os marinheiros encontraram seu fim unicamente devido à sua profunda proximidade e solidariedade com os operários de Petrogrado, cuja capacidade para enfrentar o frio e a fome tinham chegado a um ponto de ruptura com a série de greves ocorridas em fevereiro de 1921. Por que Leon Trotsky e seus seguidores deixaram de mencionar isso? Se Wright não sabe, Leon Trotsky sabe perfeitamente que a primeira cena do drama de Kronstadt ocorreu em Petrogrado no dia 24 de fevereiro e que seus atores não foram os marinheiros, mas, sim, os grevistas. Pois foi nessa data em que os grevistas expressaram sua raiva acumulada contra a dura indiferença dos homens que tinham tagarelado a respeito da ditadura do proletariado, que há bastante tempo se corrompera numa impiedosa ditadura do partido comunista.

O diário de Alexander Berkman, nesse dia histórico, diz:

Os operários da fábrica Trubochny entraram em greve. Reclamam que, na distribuição de roupas para o inverno, os comunistas tiveram vantagens indevidas em comparação com os que não eram do partido. O governo se recusa a considerar essas queixas enquanto os homens não retornarem ao trabalho.

Multidões de grevistas se reuniram nas ruas perto da fábrica, e soldados foram mandados para dispersá-los. Eram os kursanti, jovens comunistas da academia militar. Não houve violência.

Agora os grevistas receberam a adesão de homens das oficinas do almirantado e das docas de Calernaya. Há muito ressentimento com a atitude arrogante do governo. Tentou-se organizar uma manifestação na rua, mas as tropas a suprimiram.

Foi depois do relatório de seu comitê a respeito da real situação entre os operários de Petrogrado que os marinheiros de Kronstadt fizeram em 1921 o que tinham feito em 1917. Adotaram imediatamente a causa dos operários. O papel dos marinheiros em 1917 foi saudado como o orgulho e a glória vermelha da Revolução. O mesmo papel em 1921 foi denunciado ao mundo inteiro como um ato de traição contrarrevolucionária. Naturalmente, em 1917 Kronstadt ajudou os bolcheviques a montarem no cavalo. Em 1921 eles exigiam satisfação pelas falsas esperanças criadas entre as massas, e a grande promessa foi quebrada quase que imediatamente assim que os bolcheviques se viram entrincheirados no poder. Um crime hediondo, não há dúvida. O momento mais importante desse crime, contudo, é que Kronstadt não se “amotinou” a partir do nada. Seus motivos estavam profundamente enraizados no sofrimento dos trabalhadores russos: do proletariado urbano assim como do campesinato.

Por certo, o ex-comissário nos garante que “os camponeses aceitaram as requisições como um mal temporário”, e que “os camponeses aprovavam os ‘bolcheviques’, mas se tornaram cada vez mais hostis aos ‘comunistas’”. Porém, essas afirmações são puramente fictícias, como inúmeras provas demonstram — não sendo a menor delas a liquidação do soviete dos camponeses, liderado por Maria Spiridonova, e a imposição a ferro e fogo da entrega de tudo o que fora produzido pelos camponeses, inclusive os grãos para o plantio da primavera.

Em termos de verdade histórica, os camponeses odiavam o regime quase que desde o começo e certamente a partir do momento em que o slogan de Lênin, “roubem quem rouba”, se transformou em “roubem os camponeses pela glória da ditadura bolchevique”. Eis a razão de eles estarem em constante ebulição contra a ditadura bolchevique. Um exemplo disso foi o levante dos camponeses da Karelia, afogada em sangue pelo general czarista Slastchev-Krimsky. Se os camponeses tinham tanto amor pelo regime soviético, como Leon Trotsky nos quer fazer acreditar, não teria sido necessário mandar correndo esse homem terrível à Karelia.

Ele tinha lutado contra a Revolução desde o comecinho e liderara algumas das forças de Wrangel na Crimeia. Era culpado de vilanias bárbaras contra os prisioneiros de guerra e era um notório organizador de pogroms. Agora Slastchev-Krimsky virara casaca e retornara à sua “Pátria Mãe”. Esse arquirreacionário e perseguidor de judeus, ao lado de vários generais czaristas e membros do exército branco, era recebido pelos bolcheviques com honras militares. Sem dúvida, era uma retribuição justa que o antissemita agora tivesse de bater continência para um judeu, Trotsky, seu superior militar. Mas para a Revolução e para o povo russo o retorno triunfal do imperialista era um ultraje.

Como recompensa para seu recém-descoberto amor à pátria socialista, Slastchev-Krimsky foi encarregado de esmagar os camponeses da Karelia, que exigiam autodeterminação e melhores condições de vida e trabalho.

Leon Trotsky nos conta que os marinheiros de Kronstadt em 1919 não teriam entregado mantimentos “por gentileza” — não que se tivesse tentado isso em algum momento. Na verdade, essa palavra não existe no jargão bolchevique. E, contudo, aí estão esses marinheiros desmoralizados, essa escória de especuladores etc., ao lado do proletariado urbano em 1921, e sua primeira exigência é a de rações iguais para todos. Que vilões esses kronstadtianos, com efeito!

Em seus ataques a Kronstadt, os dois autores tiram muito proveito do fato de que os marinheiros — os quais, como insisto, não premeditaram a rebelião, mas se reuniram no dia 1 de março para discutir a ajuda a seus camaradas de Petrogrado — rapidamente se organizaram num comitê revolucionário provisório. A resposta a essa iniciativa é exposta pelo próprio John G. Wright. Ele escreve:

não se exclui de modo nenhum a hipótese de que as autoridades locais se atrapalharam no manejo da situação… Não é segredo que Kalinin e o comissário Kuzmin não eram tidos em alta estima por Lênin e seus colegas… Na medida em que as autoridades locais ignoravam a real dimensão do perigo ou falharam em tomar medidas adequadas e efetivas para enfrentar a crise, a amplitude de seus erros teve um papel nos eventos que se seguiram…

A afirmação de que Lênin não tinha Kalinin ou Kuzmin em alta estima é, infelizmente, um velho truque do bolchevismo para pôr toda a culpa em algum incompetente de modo que os cabeças se mantenham puros como a neve.

Certamente, as autoridades locais em Kronstadt se “atrapalharam”. Kuzmin atacou vilmente os marinheiros e ameaçou-os com graves consequências. Os marinheiros evidentemente sabiam o que esperar de tais ameaças. Não podiam senão prever que, se Kuzmin e Vassiliev tivessem as mãos livres, seu primeiro passo seria confiscar as armas e mantimentos de Kronstadt. Foi por isso que os marinheiros formaram seu comitê revolucionário provisório. Outro fator foi a notícia de que uma delegação de trinta marinheiros enviada a Petrogrado para se encontrar com os operários fora impedida de voltar a Kronstadt, tendo seus membros presos e levados à Tcheka.

Os dois autores fazem uma tempestade em copo d’água a respeito dos rumores, divulgados na reunião de 1 de março, de que um caminhão com soldados fortemente armados estava a caminho de Kronstadt. Wright evidentemente nunca viveu sob uma ditadura ferrenha. Eu vivi. Quando todos os canais de contato humano estão bloqueados, quando todo pensamento é reprimido e toda expressão sufocada, os boatos crescem como cogumelos e adquirem dimensões terrificantes. Ademais, caminhões cheios de soldados e agentes da Tcheka, armados até os dentes, percorrendo as avenidas durante o dia, e lançando à noite suas redes para arrastar suas presas humanas até a Tcheka, eram uma visão frequente em Petrogrado e em Moscou no tempo que passei por lá. Na tensão do encontro depois da fala ameaçadora de Kuzmin, era perfeitamente natural que se desse crédito a tais rumores.

As notícias na imprensa de Paris sobre o levante de Kronstadt, duas semanas antes de ele acontecer, foram destacadas na campanha contra os marinheiros como prova positiva de que eles haviam sido instrumentalizados pela gangue imperialista e que a rebelião havia na realidade sido tramada em Paris. É totalmente óbvio que essa história foi usada apenas para desacreditar os kronstadtianos aos olhos dos trabalhadores.

Na realidade, essa notícia antecipada era semelhante a outras notícias de Paris, de Riga ou Helsingfors, e que raramente, ou nunca, coincidia com qualquer coisa que tivesse sido anunciada por agentes contrarrevolucionários no exterior. Por outro lado, ocorreram muitos acontecimentos na Rússia soviética que teriam alegrado a Entente, e dos quais nunca se veio a saber nada — acontecimentos muito mais desabonadores para a Revolução Russa e causados pelo próprio partido comunista. Por exemplo, a existência da Tcheka, que corroeu as bases de muitos avanços de outubro e que já em 1921 se tornara uma excrescência maligna no corpo da Revolução, e muitos outros acontecimentos cuja menção nos levaria muito além do assunto que tratamos aqui.

Não, as notícias antecipadas na imprensa de Paris não tinham relação nenhuma com o levante de Kronstadt. Na verdade, na Petrogrado de 1921 ninguém acreditava nessa conexão, nem mesmo boa parte dos comunistas. Como já disse, John G. Wright não passa de um competente pupilo de Leon Trotsky e não tem culpa quanto ao que a maioria das pessoas dentro e fora do partido pensavam sobre essa suposta “conexão”.

Historiadores do futuro irão sem dúvida examinar o “motim” de Kronstadt de acordo com seu real significado. Se e quando fizerem isso, sem dúvida chegarão à conclusão de que o levante não poderia ter surgido em momento mais oportuno se tivesse sido planejado de propósito.

O fato mais importante a decidir o destino de Kronstadt foi a nep (Nova Política Econômica). Consciente que haveria uma considerável oposição dentro do partido a seu recém-arquitetado esquema “revolucionário”, Lênin precisava de alguma ameaça iminente para garantir uma aceitação suave e rápida da nep. A eclosão de Kronstadt foi de máxima conveniência. Toda a esmagadora máquina de propaganda foi imediatamente posta para funcionar, de modo a provar que os marinheiros estavam aliados a todas as potências imperialistas e a todos os elementos contrarrevolucionários para destruir o Estado comunista. Isso funcionou como mágica. A nep foi implementada sem nenhum percalço.

Só o tempo dirá qual o custo assustador dessa manobra. Os trezentos delegados, a fina flor da juventude comunista, que saíram correndo do congresso do partido para esmagar Kronstadt, foram apenas um punhado entre os milhares vitimados por capricho. Acreditavam com fervor na campanha de descrédito. Os que sobreviveram tiveram um duro despertar.

Registrei um encontro que tive com um comunista ferido num hospital, no livro Minha desilusão. Passados todos esses anos, aquelas palavras continuam pungentes:

Muitos dos feridos no ataque a Kronstadt, kursanti [cadetes] na maioria, foram levados ao mesmo hospital. Tive ocasião de falar com um deles. Seu sofrimento físico, dizia ele, não era nada em comparação com sua agonia psicológica. Percebera tarde demais que tinha sido enganado pelos gritos de “contrarrevolução”. Nenhum general czarista, nenhum membro do exército branco tinha liderado os marinheiros — lá, ele só encontrara seus próprios camaradas, marinheiros, soldados e operários, que tinham lutado heroicamente pela revolução.

Ninguém em plena consciência haverá de encontrar qualquer semelhança entre a nep e as reivindicações dos marinheiros de Kronstadt em prol do direito de um livre intercâmbio de produtos. A nep veio reintroduzir os graves malefícios que a Revolução Russa tentara erradicar. A livre troca de produtos entre operários e camponeses, entre a cidade e o campo, representava a verdadeira raison d’être da revolução. Naturalmente “os anarquistas estavam contra a nep”. Mas a livre troca, como Zinoviev me afirmara em 1920, “não pertence a nosso plano de centralização”. O pobre Zinoviev não poderia imaginar em que ogro monstruoso a centralização do poder iria se transformar.

Foi a idée fixe da centralização da ditadura que logo começou a dividir o campo e a cidade, os operários e os camponeses. Não, como quer Leon Trotsky, porque “um é proletário… e o outro é pequeno-burguês”, mas sim porque a ditadura paralisou a iniciativa tanto do proletariado urbano quanto do campesinato.

Leon Trotsky quer fazer crer que os operários de Petrogrado rapidamente perceberam “o caráter pequeno-burguês do levante de Kronstadt e assim recusaram-se a ter qualquer coisa em comum com ele”. Ele omite a razão mais importante para a aparente indiferença dos operários de Petrogrado. É importante, assim, ressaltar que a campanha de difamação, de mentira e de calúnia contra os marinheiros começou em 2 de março de 1921. A imprensa soviética destilou veneno alegremente contra os marinheiros. As acusações mais desprezíveis foram bradadas contra eles, e isso se manteve até a liquidação de Kronstadt em 17 de março. Além disso, Petrogrado foi posta sob lei marcial. Muitas fábricas foram fechadas, e os operários, roubados assim de seu sustento, começaram a se reunir. No diário de Alexander Berkman, encontro o seguinte:

Muitas prisões acontecendo. É comum ver grupos de grevistas sendo levados à prisão por guardas da Tcheka. Há muita tensão nervosa na cidade. Precauções detalhadas se tomaram para proteger as instituições do governo. Metralhadoras foram postas no Astoria, nas residências de Zinoviev e de outros bolcheviques importantes. Anúncios oficiais ordenam a volta imediata dos grevistas às fábricas — e advertem contra ajuntamentos de povo nas ruas.

O comitê de defesa começou uma “limpeza da cidade”. Muitos operários suspeitos de simpatizar com Kronstadt foram detidos. Todos os marinheiros de Petrogrado e parte da guarnição que se considera “inconfiável” foram enviados a pontos distantes, enquanto os familiares dos marinheiros de Kronstadt que vivem em Petrogrado foram tomados como reféns. O comitê de defesa notificou Kronstadt que “os prisioneiros foram mantidos ‘como garantidores’ da segurança do comissário da frota do Báltico, N. Kuzmin, do secretário geral do soviete de Kronstadt, T. Vassiliev, e de outros comunistas. Se tocarem minimamente em nossos camaradas, os reféns pagarão com suas vidas.”

Sob essas férreas disposições, era fisicamente impossível para os operários de Petrogrado uma aliança com Kronstadt, especialmente porque nem uma só palavra dos manifestos lançados pelos marinheiros em seu jornal podia chegar aos operários em Petrogrado. Em outras palavras, Leon Trotsky deliberadamente falsifica os fatos. Os operários certamente teriam ficado do lado dos marinheiros, pois sabiam que eles não eram baderneiros ou contrarrevolucionários. Tinham, isto sim, tomado posição em favor dos operários, assim como seus camaradas tinham feito desde 1905, e em março e outubro de 1917. Trata-se, portanto, de uma calúnia grotescamente criminosa contra a memória dos marinheiros de Kronstadt.

Na New International, página 106, segunda coluna, Trotsky garante a seus leitores que ninguém, “seja dito de passagem, se importava com os anarquistas naqueles dias”. Infelizmente, isso não condiz com a incessante perseguição aos anarquistas iniciada em 1918, quando Leon Trotsky liquidou o quartel-general anarquista de Moscou com metralhadoras. Foi então que começou o processo de eliminação dos anarquistas. Ainda hoje, tantos anos depois, os campos de concentração soviéticos estão repletos de sobreviventes anarquistas. Na verdade, antes do levante de Kronstadt, em outubro de 1920 para ser mais exato — quando Leon Trotsky mais uma vez mudara de ideia sobre Makhno, porque precisava dele para liquidar Wrangel, e quando ele autorizou a conferência anarquista em Kharkov —, muitas centenas de anarquistas sofreram um arrastão e foram despachados para o presídio de Boutirka, onde ficaram detidos sem nenhuma acusação até abril de 1921, momento em que, ao lado de outros políticos de esquerda, foram removidos a força na calada da noite e enviados a várias prisões e campos de concentração na Rússia e na Sibéria. Mas esta é uma página separada na história soviética. O que vem ao caso aqui é que muita gente se importava com os anarquistas, pois sem isso não havia razão para prendê-los e mandá-los, no velho estilo czarista, para regiões distantes da Rússia e da Sibéria.

Leon Trotsky ridiculariza as reivindicações dos marinheiros em favor de sovietes livres. Era ingênuo da parte deles, com efeito, pensar que sovietes livres podem coexistir com uma ditadura. Na verdade, os sovietes livres tinham deixado de existir numa fase anterior do jogo comunista, assim como os sindicatos e as cooperativas. Todos foram atropelados pelas rodas da máquina de Estado bolchevique. Lembro-me bem de Lênin me dizer, com grande satisfação: “o grande e velho líder de vocês, Enrico Malatesta, é a favor dos nossos sovietes”. Apressei-me em dizer: “você quer dizer sovietes livres, camarada Lênin. Eu também sou a favor deles.” Lênin conduziu a conversa para outro assunto. Mas logo descobri que os sovietes livres tinham cessado de existir na Rússia.

John G. Wright pretende que não havia nenhum distúrbio em Petrogrado antes de 22 de fevereiro. Isso se coaduna com sua outra reciclagem do material “histórico” do partido. A inquietação e o descontentamento dos operários já eram bastante nítidos quando chegamos. Em cada indústria que visitei, encontrei extrema insatisfação e ressentimento com o fato de que a ditadura do proletariado havia se transformado numa devastadora ditadura do partido comunista, com suas rações diferentes e suas discriminações. Se o descontentamento dos operários não chegou a uma ruptura antes de 1921, isso foi apenas porque eles ainda se agarravam tenazmente à esperança de que quando as frentes de guerra fossem liquidadas a promessa da revolução seria cumprida. Foi Kronstadt que perfurou a última bolha de sabão.

Os marinheiros tinham ousado se aliar aos operários descontentes. Tinham ousado exigir que a promessa da revolução — todo poder aos sovietes — fosse cumprida. A ditadura política assassinara a ditadura do proletariado. Isto, e somente isto, tinha sido ofensa imperdoável contra o sacrossanto espírito do bolchevismo.

No artigo de Wright, há uma nota de rodapé na página 49, segunda coluna, na qual ele afirma que Victor Serge, num recente comentário sobre Kronstadt, “admite que os bolcheviques, uma vez confrontados com o motim, não tinham outra saída a não ser esmagá-lo”. Victor Serge está agora longe das acolhedoras fronteiras da “pátria dos trabalhadores”. Não considero, portanto, uma indiscrição se eu disser que, se Victor Serge fez a declaração que Wright lhe imputa, isso simplesmente não é verdade. Victor Serge era um dos que, na seção comunista francesa, estava tão chocado e horrorizado quanto Alexander Berkman, eu mesma e muitos outros revolucionários diante da iminente carnificina determinada por Leon Trotsky para “atirar nos marinheiros como se atira em faisões”. Ele costumava passar todas as suas horas livres em nosso quarto andando de um lado para outro, arrancando os cabelos, cerrando os punhos com indignação, e repetindo que “algo precisa ser feito, algo precisa ser feito para impedir esse massacre terrível”. Quando lhe perguntaram por que ele, como um membro do partido, não levantou sua voz na reunião sobre o assunto, sua resposta foi que isso não ajudaria os marinheiros e haveria de marcá-lo junto à Tcheka e selar até mesmo seu desaparecimento sigiloso. A única desculpa para Victor Serge é que naquele momento ele tinha uma mulher e um bebê pequeno. Mas ele afirmar agora, depois de dezessete anos, que “os bolcheviques, uma vez confrontados com o motim, não tinham outro recurso a não ser esmagá-lo” é, para dizer o mínimo, indesculpável. Victor Serge sabe tão bem quanto eu que não havia motim em Kronstadt, que os marinheiros na verdade não usaram armas de nenhum tipo ou formato até ter começado o bombardeio de Kronstadt. Ele também sabe que os marinheiros não tocaram nem nos comissários comunistas detidos, nem em quaisquer outros comunistas. Conclamo Victor Serge, portanto, a vir falar a verdade. Que ele tenha conseguido continuar na Rússia sob o regime fraternal de Lênin, Trotsky e de todos os infelizes que foram recentemente assassinados, ciente de todos os horrores que se passam por lá, é problema dele, mas não posso silenciar diante da acusação de que ele considera os bolcheviques justificados ao esmagar os marinheiros.

Leon Trotsky faz sarcasmo diante da acusação de que ele fuzilou 1.500 marinheiros. Não, ele não fez o trabalho sujo ele mesmo. Encarregou Tuchachevsky, seu lugar-tenente, de “atirar nos marinheiros como se atira em faisões”, conforme a ameaça que fizera. Os números de mortos subiram às centenas, e os que resistiram depois do incessante ataque da artilharia bolchevique foram entregues aos cuidados de Dibenko, famoso por sua humanidade e seu senso de justiça.

Tuchachevsky e Dibenko, os heróis e salvadores da ditadura! A história parece ter seus próprios caminhos de escarnecer a justiça.

Leon Trotsky lança seu trunfo, quando pergunta: “onde e quando seus grandes princípios se confirmaram, na prática, mesmo de forma parcial, mesmo como uma tendência?”. Essa cartada, como outras que ele já jogou em sua vida, não lhe servirá para ganhar o jogo. Na verdade, os princípios anarquistas foram confirmados, na prática e como tendência, na Espanha. Concordo que apenas parcialmente. Como poderia ser diferente, com todas as forças conspirando contra a revolução espanhola? O trabalho construtivo levado a cabo pela Confederação Nacional do Trabalho (CNT) é algo jamais imaginado pelos bolcheviques em todos os seus anos de poder, e, contudo, a coletivização das indústrias e das terras se destacam como a maior realização de qualquer período revolucionário. Mais ainda, mesmo se Franco vier a ganhar, e se os anarquistas espanhóis forem exterminados, a obra que eles iniciaram continuará a viver. Os princípios e tendências anarquistas estão enraizados de tal modo no solo espanhol que não serão arrancados jamais.

Leon Trotsky, John G. Wright e os anarquistas espanhóis

Durante os quatro anos de guerra civil na Rússia, os anarquistas defenderam os bolcheviques como um só homem, ainda que a cada dia se tornassem mais conscientes do iminente colapso da revolução. Sentiram-se no dever de se manterem em silêncio e de evitar tudo o que pudesse representar ajuda e consolo aos inimigos da revolução.

Certamente, a Revolução Russa lutou em muitas frentes, contra muitos inimigos, mas enfrentou desafios tão extremos quanto os que se antepuseram ao povo espanhol, aos anarquistas e à revolução. A ameaça de Franco, auxiliado pelos homens e armas da Alemanha e da Itália, pelas bênçãos de Stálin, pela conspiração dos poderes imperialistas, pela traição das chamadas democracias e, não em menor escala, pela apatia do proletariado internacional, ultrapassam em muito os perigos que rodeavam a revolução russa. O que faz Trotsky diante de tragédia tão terrível? Adere à turba enfurecida e assesta seu punhal envenenado nas entranhas dos anarquistas espanhóis na hora mais crucial. Não há dúvida de que os anarquistas espanhóis cometeram um grave erro. Esqueceram-se de convidar Leon Trotsky para tomar conta da revolução espanhola e para mostrar-lhes o sucesso que ele obteve na Rússia, de modo a repeti-lo nas terras da Espanha. Essa parece ser a sua grande mágoa.

Nota

Publicado originalmente pela Federação Anarquista de Glasgow, 1938.

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Publicadono 3º número do volume 4 da Revista Rosa em 20/12/2021.

Revista Rosa, S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.com, issn 2764-1333.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Kronstadt, outra vez! por Dwight MacDonald

 

Kronstadt, mais uma vez [1]

(julho de 1938)

por Dwight MacDonald

Tradução de Marcelo Coelho – Revista Rosa

O artigo de Trotsky na edição de abril da New International foi, para mim, motivo de desapontamento e embaraço. Desapontamento, porque eu esperava uma explicação franca e razoavelmente objetiva do caso Kronstadt. Embaraço, porque admiro Trotsky e aceito muitas de suas teorias. Um artigo como aquele — essencialmente uma peça de autodefesa casuística, apesar de brilhante — torna mais difícil defender Trotsky da frequente acusação de que seu pensamento é sectário e inflexível.

Para os que, como eu, acreditam que a revolução proletária é o único caminho para o socialismo, a questão que se coloca hoje é: podemos evitar o tipo de degeneração que se deu na Rússia? Especificamente, em que medida a teoria bolchevique carrega a responsabilidade pela ascensão do stalinismo? Em A Revolução traída, Trotsky demonstra que o stalinismo é fundamentalmente um reflexo do baixo nível de produtividade e de desenvolvimento econômico da Rússia. Mas, mesmo se aceitarmos essa análise, como é o meu caso, uma importante causa auxiliar pode ser identificada em algumas debilidades da teoria política bolchevique. Não será dever dos marxistas hoje em dia procurar sem descanso essas debilidades, para reconsiderar toda a linha bolchevique com distanciamento científico? Minha impressão é de que Trotsky mostrou pouco interesse por essa reconsideração básica. Ele parece mais interessado em defender o leninismo do que em aprender com seus equívocos.

O artigo sobre Kronstadt é um bom exemplo do que quero dizer. É apaixonado, eloquente, e não convence. Trotsky pode estar certo em todas as suas afirmações. Mas ele aborda o assunto de uma maneira que impossibilita o observador distanciado de formar uma opinião inteligente. Não tenho nem o tempo nem o conhecimento — e a New International não tem o espaço — para discutir a questão de Kronstadt aqui. Mas eu gostaria de indicar algumas apreensões quanto ao tom do artigo. Em geral, parece-me que Trotsky adota uma posição polêmica numa questão que deveria ser considerada desapaixonadamente, com algum respeito pelo lado contrário. O próprio título é desdenhoso: “A gritaria em torno de Kronstadt”. A oposição é caracterizada com uma fraseologia de promotor numa corte criminal — “essa variegada fraternidade”, “essa campanha de verdadeiro charlatanismo”. Para justificar esse tom abusivo, Trotsky precisaria trazer à tona provas muito mais fortes para desmontar as afirmações de Serge, Thomas, Berkman e Souvarine do que ele (ou Wright) dispõem no momento.

Trotsky começa seu artigo com um amálgama digno de Vishinsky: “participam da campanha… anarquistas, mencheviques russos, social-democratas de esquerda… trapalhões individuais, o jornal de Miliukov, e, por vezes, a grande imprensa capitalista. Uma ‘frente popular’ sui generis!” (A única categoria que se aplica a mim é a de ‘trapalhão individual’. Trotsky parece incapaz de imaginar qualquer pessoa criticando Kronstadt, a não ser que esteja a serviço de algum interesse escuso ou seja um iludido, enquanto os stalinistas caracterizam todos os críticos dos processos de Moscou como trotskistas, fascistas, assassinos, e — meu rótulo pessoal — fantoches de Trotsky). Não consigo ver tanta diferença quanto gostaria entre, de um lado, a insistência de Trotsky na tese de que, uma vez que os inimigos da Revolução usaram Kronstadt para desacreditar o bolchevismo, então todos os que expressam dúvidas sobre Kronstadt são (considerados ‘objetivamente’) aliados da contrarrevolução, e, de outro, a insistência de Vishinsky na tese de que a Quarta Internacional e a Gestapo são camaradas em armas porque ambas se opõem ao regime stalinista. Essa exclusão dos motivos individuais como irrelevantes, essa recusa a considerar objetivos, programas, teorias, qualquer coisa exceto o fato objetivo de estar em oposição — essa forma de pensar me parece perigosa e irrealista. Insisto que tenho dúvidas sobre Kronstadt sem ser um canalha ou um estúpido.

Tendo criado esse amálgama, Trotsky define seu menor denominador comum — e é dos menores, com efeito. “Como é que o levante de Kronstadt pode causar tanto desconforto em anarquistas, mencheviques, e contrarrevolucionários ‘liberais’ ao mesmo tempo?”, ele pergunta. “A resposta é simples: todos esses grupos estão interessados em comprometer a única corrente genuinamente revolucionária, que nunca repudiou suas bandeiras…”. A resposta é algo simples demais — outro aspecto que me incomoda, aliás, nas respostas de Trotsky. Até onde eu próprio saiba, não estou interessado em “comprometer” o bolchevismo; ao contrário, gostaria de poder aceitá-lo cem por cento. Mas, infelizmente, tenho algumas dúvidas, objeções, críticas. Será que é impossível expressá-las sem ser acusado de contrarrevolucionário e incluído na salada de anarquistas, mencheviques e jornalistas capitalistas?

A maior parte do artigo de Trotsky tenta mostrar que a base social do levante de Kronstadt era pequeno-burguesa. Ele aponta um fato importante: os marinheiros de Kronstadt, em 1921, eram um grupo bem diferente daqueles heróis revolucionários de 1917. Mas o resto de sua longa argumentação se resume a identificar todos os elementos que se opunham aos bolcheviques como sendo “pequeno-burgueses”. Ele apresenta poucas provas para justificar essa rotulação, além do fato de que eram todos antibolcheviques. Seu raciocínio parece ser o seguinte: somente a política bolchevique podia salvar a Revolução; os grupos de Makhno, os verdes, os social-revolucionários, os kronstadtianos etc., eram contra os bolcheviques; portanto, eram objetivamente contrarrevolucionários; portanto, estavam objetivamente trabalhando para a burguesia. O raciocínio dá por resolvida a própria questão que queria resolver. Mas ainda que aceitássemos seu postulado inicial, estaríamos diante de um processo perigoso do ponto de vista político. Ele racionaliza uma desagradável necessidade administrativa — a supressão de opositores políticos que também estão agindo em favor do que consideram os melhores interesses das massas — transformando-a numa luta entre o Bem e o Mal. Uma medida de governo se torna uma cruzada política, simplesmente recusando-se a distinguir entre categorias objetivas e subjetivas — como se um assaltante de banco devesse ser acusado de querer derrubar o capitalismo! Stalin aprendeu o truque até bem demais.

Trotsky tem pouco a dizer sobre o modo com que os bolcheviques lidaram com o caso de Kronstadt em si mesmo. Não apresenta nenhuma defesa para as execuções em massa, que, de acordo com Victor Serge, ocorreram meses depois de os rebeldes terem sido esmagados. Com efeito, não menciona absolutamente esse aspecto. Tampouco ele dá muita atenção ao problema crucial: com que seriedade os bolcheviques tentaram um acordo pacífico antes de colocarem as armas em campo? Ele desconsidera esse ponto: “Ou será que teria sido suficiente apenas informar os marinheiros de Kronstadt a respeito dos decretos da nep, achando que isso iria apaziguá-los? Ilusão! Os insurgentes não tinham um programa consciente, e não podiam tê-lo, dada a própria natureza da pequena burguesia.”

Aqui Trotsky admite, implicitamente, o que afirma Souvarine: Lênin estava dando os últimos retoques na nep durante o décimo congresso do partido, que foi interrompido para permitir aos delegados que tomassem parte no ataque a Kronstadt. A decisão tomada por Lênin e Trotsky foi séria: suspender o anúncio da nep até que a rebelião, que reivindicava algumas das concessões que a própria nep iria garantir, fosse afogada em sangue. Como eles poderiam estar tão seguros de que teria sido impossível chegar a um acordo com os kronstadtianos com base na nep? Algumas frases antes, Trotsky admite que “a introdução da nep um ano antes teria evitado o levante de Kronstadt”. Mas os kronstadtianos, escreve Trotsky, sendo pequeno-burgueses, não tinham “programa consciente” e, portanto, não poderiam ser sensíveis ao apelo de concessões programáticas. Pequeno-burgueses ou não, os kronstadtianos tinham um programa. Souvarine, por exemplo, resume-o em sua vida de Stalin como: “eleições livres para os sovietes; liberdade de expressão e uma imprensa livre para os operários, camponeses, socialistas de esquerda, anarquistas e sindicalistas; a libertação dos operários e camponeses detidos como prisioneiros políticos; a abolição dos privilégios para o partido comunista; rações iguais para todos os trabalhadores; o direito dos camponeses e artesãos autônomos de dispor do produto de seu trabalho”. Talvez Trotsky use o termo “programa consciente” com algum sentido especial.

Para mim, a afirmação mais interessante do artigo é: “É verdade… que eu já tinha proposto a transição para a nep em 1920… Quando me defrontei com a oposição dos líderes do partido, não apelei para as fileiras, pois não queria mobilizar a pequeno burguesia contra os trabalhadores.”

Como aponta Trotsky, Lênin admitia que a política do “comunismo de guerra” tinha se prolongado mais do que deveria. Tratava-se apenas de um erro de julgamento, como sugere implicitamente Trotsky, ou foi um erro nascido da própria natureza da organização política bolchevique, que concentra o poder nas mãos de um pequeno grupo tão perfeitamente isolado (por um aparato partidário burocrático e hierarquizado) da pressão política das massas que termina sem responder às necessidades das massas — exceto quando é tarde demais? Mesmo quando um dos líderes tem condições de avaliar corretamente as necessidades das massas, ele não pode fazer mais do que tentar convencer seus colegas acerca do acerto de sua visão. Se eles não se convencem, ele se vê inibido por sua própria filosofia política de buscar apoio nas bases. É verdade, como escreve Trotsky, que a burguesia teria procurado se aproveitar de qualquer divisão nas fileiras bolcheviques. Mas não são ainda maiores os perigos de uma ditadura férrea, isolada da pressão das massas? Não são episódios como o de Kronstadt inevitáveis nessas condições? E teria sido possível a uma camarilha stalinista usurpar o controle do partido se houvesse maior participação das massas e maior liberdade para a oposição de esquerda, tanto dentro quanto fora do partido dominante?

 

Estas são as questões que Kronstadt levanta. Trotsky não as responde quando resume: “Em essência, os veneráveis críticos se opõem à ditadura do proletariado e, com isso, são adversários da revolução. Nisso está a chave do segredo.”

 

O segredo é mais complicado do que essa formulação. Rosa Luxemburgo se opôs durante toda a vida à concepção de Lênin da ditadura do proletariado. Mas os oficiais da guarda que a assassinaram em 1919 sabiam muito bem qual era a sua atitude com respeito à Revolução de 1917.

 

Nova York, 26 de abril de 1938.

Nota

Publicado originalmente em New International, vol. 4, nº 7, julho de 1938, pp. 212–213.

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Publicadono 3º número do volume 4 da Revista Rosa em 20/12/2021.

Revista Rosa, S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.com, issn 2764-1333.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Kronstadt, de novo! por Victor Serge

 Kronstadt, de novo!

Kronstadt, mais uma vez [1]

(julho de 1938)

por Victor Serge

Tradução de Marcelo Coelho – Revista Rosa

Recebi a revista com grande prazer. Trata-se, com certeza, da melhor publicação marxista revolucionária de nossos dias. Todas as minhas simpatias, creiam-me, estão com vocês, e, se me for possível prestar-lhes algum serviço, irei fazê-lo com entusiasmo.

Algum dia irei responder aos artigos de Wright e de L.D. Trotsky sobre Kronstadt. Esse grande tema merece ser retomado em profundidade, e os dois estudos que a revista publicou até agora estão longe, muito longe, de exauri-lo. Antes de tudo, surpreende-me ver nossos camaradas Wright e L.D. Trotsky valer-se de um raciocínio que, me parece, deve nos inspirar cuidado e rejeição. Eles observam que o drama de Kronstadt em 1921 atualmente inspira comentários, ao mesmo tempo, dos social-revolucionários, dos mencheviques, dos anarquistas e de outros grupos; deste fato, natural numa época de confusão ideológica, de revisão de valores, de batalhas entre seitas, eles constroem um tipo de amálgama. Desconfiemos dos amálgamas e de raciocínios mecânicos. Houve grande abuso disso na Revolução Russa e sabemos aonde isso leva. Liberais burgueses, mencheviques, anarquistas e marxistas revolucionários avaliam o drama de Kronstadt a partir de pontos de vista diferentes, e com objetivos diferentes, o que se deve levar em conta, em vez de fundir todas as vozes críticas sob um único rótulo, imputando a todas a mesma hostilidade contra o bolchevismo.

O problema, na verdade, é muito mais vasto do que os acontecimentos de Kronstadt, que foram apenas um caso isolado. Wright e L.D. Trotsky defendem uma tese extremamente simples: o levante de Kronstadt era objetivamente contrarrevolucionário e a política de Lênin e de Trotsky no Comitê Central foi correta antes, durante e depois de tudo. Numa escala histórica e, mais ainda, grandiosa, essa política era correta, o que fez com que fosse trágica e perigosamente falsa e errônea em várias circunstâncias específicas. Eis o que seria útil e corajoso reconhecer hoje em dia, em vez de afirmar a infalibilidade de uma linha geral de 1917 a 1923. De modo geral, subsiste o fato de que as insurreições de Kronstadt e de outros lugares representavam para o partido a absoluta impossibilidade de perseverar nos rumos do comunismo de guerra. O país estava morrendo de uma “estatificação” levada às últimas consequências. Quem estava certo, então? O Comitê Central, que se aferrava a um caminho sem saída ou as massas, levadas pela fome a atos extremos? Parece-me inegável que Lênin, naquele momento, cometeu o maior equívoco de sua vida. Será necessário lembrarmos que, poucas semanas antes da introdução da NEP, Bukharin produziu um trabalho de economia mostrando que o sistema vigente era na verdade a primeira fase do socialismo? Por ter defendido, em suas cartas a Lênin, medidas de conciliação com os camponeses, o historiador Rozhkov tinha sido recentemente deportado para Pskov. Uma vez iniciada a rebelião de Kronstadt, era necessário sufocá-la, por certo. Mas o que havia sido feito para prevenir a insurreição? Por que foi rejeitada a mediação dos anarquistas de Petrogrado? Pode alguém, finalmente, justificar o insensato e, repito, abominável massacre dos vencidos de Kronstadt, que ainda estavam sendo fuzilados em execuções coletivas três meses depois do fim do levante?

Eram filhos do povo russo, atrasados talvez, mas que pertenciam às massas da própria revolução.

L.D. Trotsky enfatiza que os marinheiros e soldados da Kronstadt de 1921 não eram mais os mesmos, no que diz respeito à consciência revolucionária, do que os de 1918. É verdade. Mas o partido de 1921 — era o mesmo de 1918? Já não estava sofrendo de um apodrecimento burocrático que frequentemente o afastava das massas e tornava-o desumano frente a elas? Valeria a pena reler, neste aspecto, as críticas ao regime burocrático formuladas há muito pela Oposição Operária e lembrar também as práticas malignas que surgiram durante as discussões sobre os sindicatos em 1920. De minha parte, sentia-me ultrajado ao ver as manobras da maioria em Petrogrado para abafar as vozes dos trotskistas e da Oposição Operária (que defendiam teses simetricamente opostas).

A questão que hoje domina toda a discussão é, em essência, a seguinte: quando e como o bolchevismo começou a degenerar?

Quando e como começou a empregar, sobre as massas trabalhadoras, cujas energias e consciência o bolchevismo expressava, aqueles métodos não socialistas que devem ser condenados, uma vez que terminaram assegurando a vitória da burocracia sobre o proletariado?

Posta essa questão, pode-se ver que os primeiros sintomas desse mal vêm de antes. Em 1920, os social-democratas mencheviques foram falsamente acusados, num comunicado da Tcheka, de manter entendimentos com o inimigo, de fazer sabotagem etc. Esse comunicado, monstruosamente falso, serviu para colocá-los fora da lei. Naquele mesmo ano, anarquistas foram presos em toda parte da Rússia, depois da promessa formal de legalizar o movimento; mais tarde, o tratado de paz assinado com Makhno foi deliberadamente rasgado pelo Comitê Central, que não mais precisava do Exército Negro. A justeza revolucionária não justifica, a meus olhos, essas práticas nefastas. E os fatos que cito estão longe, infelizmente, de serem os únicos.

Voltemos ainda mais no tempo. Não terá chegado o momento de dizer que foi fatídico o dia do glorioso ano de 1918 em que o Comitê Central do partido decidiu permitir às comissões extraordinárias a aplicação da pena de morte com base em processos secretos, sem ouvir os acusados, que não podiam se defender? Naquele dia o Comitê Central podia escolher entre restaurar ou não um procedimento inquisitorial que já havia sido esquecido pela civilização europeia. Seja como for, cometeu um equívoco. Não convém a um partido socialista vitorioso cometer um equívoco desses. A revolução poderia ter-se defendido melhor sem isso.

Estaríamos sem dúvida errados se escondêssemos de nós mesmos o fato de que todo ganho histórico da revolução russa está sendo colocado em questão. De toda a vasta experiência do bolchevismo, os marxistas revolucionários só poderão salvar o essencial, o duradouro, enfrentando todos os seus problemas desde o início, com genuína liberdade de espírito, sem vaidades de partido, sem hostilidade irredutível (ainda mais no campo da investigação histórica) face às outras tendências do movimento dos trabalhadores. Ao contrário, sem reconhecer antigos erros, cuja gravidade a história não cessa de trazer à cena, o risco que se corre é comprometer todos os ganhos do bolchevismo. O episódio de Kronstadt coloca, simultaneamente, as questões da relação entre o partido do proletariado e as massas, a questão do regime interno do partido (a oposição operária foi esmagada), a questão da ética socialista (enganou-se toda Petrogrado falando de um movimento branco em Kronstadt), do tratamento humano na luta de classes e, sobretudo, na luta interna entre as nossas classes. Por último, coloca-se em teste a nossa capacidade de autocrítica.

 

Sem poder no momento responder com maior profundidade aos camaradas Wright e L.D. Trotsky, espero que tenham a bondade de submeter esta carta aos leitores de New International. Contribuirá talvez para aprimorar uma discussão que deveríamos saber como conduzir a bom termo num saudável espírito de camaradagem revolucionária.

 

Paris, 28 de abril de 1938.

 

Nota

[1] Publicado originalmente em New International, vol. 4, nº 7, julho de 1938.

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Publicado no 3º número do volume 4 da Revista Rosaem 20/12/2021.

Revista Rosa, S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.comissn 2764-1333.

domingo, 1 de maio de 2022

A verdade sobre Kronstadt, por John G. Wright

A verdade sobre Kronstadt

por John G. Wright (Joseph Vanzler)

Do The New International, Vol. IV, No. 2 , fevereiro de 1938, pp. 47-53.

O artigo a seguir é uma apresentação resumida do material contido em um panfleto sobre o assunto pelo escritor, que está previsto para publicação antecipada.

Quanto mais indefensável e iníquo se torna o curso seguido pelos anarquistas na Espanha, mais alto seus confrades no exterior clamam por Kronstadt. Durante os anos de ascensão revolucionária, os anarquistas, os mencheviques, os SRs et al., estavam na defensiva. Hoje, o stalinismo deu-lhes uma cobertura demagógica para uma ofensiva contra aqueles princípios que sozinhos tornaram possível outubro. Eles procuram comprometer o bolchevismo, identificando-o com o stalinismo. Eles tomam Kronstadt como seu ponto de partida. Seu teorema é o mais “elementar”: Stalin atira nos trabalhadores apenas porque é a essência do bolchevismo abater trabalhadores; por exemplo, Kronstadt! Lenin e Stalin são a mesma pessoa. QED [quod erat demonstrandum]

Toda a arte está em distorcer os fatos históricos, exagerando monstruosamente cada questão ou questão subsidiária em que os bolcheviques possam ter errado, e jogando um véu sobre o programa e objetivos do motim e a revolta armada contra o poder soviético. Nossa tarefa é principalmente expor as distorções e falsificações em ato através dos “fatos” históricos que os servem de base para a acusação contra o bolchevismo.

Primeiro, quanto ao pano de fundo do motim. Longe de ocorrer em um momento em que o poder soviético estava fora de perigo (como sugerem os adversários ideológicos do bolchevismo), ocorreu no ano de 1921, um ano crucial na vida do Estado operário. Em dezembro de 1920, as frentes da Guerra Civil foram liquidadas. Não havia “frentes”, mas o perigo permanecia ainda. A terra com a herança bárbara do czarismo asiático havia sido literalmente dissecada pelos estragos da guerra imperialista, dos anos da Guerra Civil e do bloqueio imperialista. A crise dos alimentos foi agravada pela crise dos combustíveis. Vastas seções da população enfrentavam a perspectiva imediata de morrer de fome ou congelar até a morte. Com a indústria em ruínas, o transporte interrompido, milhões de homens do exército ficaram desmobilizados e as massas à beira da exaustão.

Longe de se reconciliar com a derrota, os Guardas Brancos e seus aliados imperialistas foram estimulados a uma nova ofensiva diante das dificuldades objetivas que os bolcheviques enfrentavam. Eles fizeram tentativa após tentativa de forçar uma brecha “de dentro”, contando em grande parte com o apoio da reação pequeno-burguesa, descontente com as dificuldades e privações que acompanham a revolução proletária. [1] O episódio mais importante desta série de eventos aconteceu no coração da fortaleza revolucionária. Na fortaleza naval de Kronstadt, um motim explodiu em 2 de março de 1921.

Hoje em dia um Dan diz tranquilamente: “Os habitantes de Kronstadt não começaram a insurreição. É um mito calunioso.” [2] Mas em 1921, os SRs rastejaram para fora de suas peles para atenuar a revolta e tudo o que ela implicava, enquanto os mencheviques tentaram minimizá-la e explicá-la como algo em si realmente sem importância. Os SRs juraram que “o caráter pacífico do movimento de Kronstadt estava acima de qualquer dúvida”; se quaisquer medidas insurgentes fossem tomadas, eram apenas “medidas de autodefesa”. Eis o que os mencheviques escreveram não no ano de 1937, mas em 1921, quando os eventos ainda estavam frescos:

O fato de que a ruptura de Kronstadt com o poder soviético tenha assumido o caráter de uma insurreição armada e terminado em uma tragédia sangrenta é de importância secundária em si mesmo e, até certo ponto, acidental. Se o poder soviético tivesse manifestado um pouco menos de dureza em relação à Kronstadt, o conflito com os marinheiros teria se desdobrado de modo menos graves. Isso, no entanto, em nada mudaria seu significado histórico ... Somente em 2 de março, em resposta a repressões, ameaças e ordens para obedecer incondicionalmente, a frota respondeu com uma resolução que não reconhecia o poder dos soviéticos e, a partir daí, dois comissários foram presos. [3]

Quando os mencheviques apresentaram originalmente sua versão dos eventos de Kronstadt, eles não negaram de forma alguma que os kronstadtinos iniciaram o motim. Certamente, eles tentaram transmitir a impressão de que havia justificativa mais do que suficiente para isso nas supostas “repressões, ameaças e comandos”. Mas pode se notar que eles simultaneamente tentaram fugir do cerne da questão, quando afirmaram o próprio levante como um fato de pouca importância, secundário e até “acidental”. Por que essa contradição gritante? Eles mesmos fornecem a resposta. É a sua confissão aberta de que esse motim se desenrolou com base em objetivos e programas antissoviéticos. [4] Sendo a verdade evidente por si só, não é de se surpreender que Berkman tenha se apressado em nos jurar que os amotinados de Kronstadt eram realmente “aderentes convictos do sistema soviético” e estavam “procurando seriamente encontrar, por meios amistosos e pacíficos, uma solução dos problemas urgentes”. [5] Em qualquer caso, todos esses fornecedores de “verdade” estão todos de acordo em uma coisa, a saber, que esses “convictos” partidários do poder soviético procederam no mais amigável espírito de paz quando decidiram pegar em armas – com base em uma resolução de “não reconhecimento do poder soviético”. Mas eles fizeram isso, veja-se, “só no dia 2 de março”.

“Só no dia 2 de março”! Cada detalhe pertinente deve ser embelezado, caso contrário, a verdade pode não ser assim tão palatável. Com esta formulação, os mencheviques, que apenas fazem eco ao RS, pretendem evocar na mente do leitor, senão anos e meses, pelo menos semanas de “provocação”, “ameaças”, “comandos”, “repressões”, etc., etc. Mas estendendo sua cronologia ao bel prazer, esses historiadores, juntamente com seus neófitos, não podem antecipar 2 de março, exceto por referência a eventos “no final de fevereiro”. Sua história de Kronstadt remonta a (e não mais do que) 22 de fevereiro – a partir de ocorrências não em Kronstadt, mas em Petrogrado. Quanto à própria Kronstadt, eles só podem antecipar o 2 de março a 28 de fevereiro! Contando como bem entendem, eles têm à sua disposição três dias e três resoluções. O 2 de março, com sua resolução de não reconhecimento do poder soviético, é precedido apenas pelo 1º de março e sua resolução pelos “soviéticos livremente eleitos”. O que aconteceu nesse intervalo de menos de 24 horas para causar essa oscilação de um suposto pólo para seu oposto diametral? A única resposta que recebemos da boca dos adversários é a seguinte: realizou-se uma conferência em Kronstadt. E o que aconteceu lá?

Cada “historiador” dá seu próprio relato. Lawrence [6] gostaria que a conferência tivesse sido convocada com o propósito de elaborar e aprovar uma resolução. Berkman insiste que foi mais uma reunião “para se aconselhar com os representantes do governo”. [7] Os SRs juram que era um órgão eleitoral, reunido com o propósito específico de eleger um novo soviete, muito embora o mandato do soviete em exercício ainda não tivesse sido expirado. [8] A se acreditar em Berkman (e Lawrence), os habitantes de Kronstadt foram provocados a realizar o motim devido ao discurso de Kuzmin. Nisso, são melhores que os SRs, que culpam Kuzmin e Vassiliev. [9]

O relato mais completo do discurso de Kuzmin pode ser encontrado no Izvestia de Kronstadt, ou seja, no órgão de testemunhas oculares e principais participantes da conferência. Aqui está:

Em vez de acalmar a reunião, o camarada Kuzmin irritou-a. Falou da posição equívoca de Kronstadt, das patrulhas, do poder dividido, do perigo ameaçador da Polônia e do fato de que os olhos de toda a Europa estavam sobre nós; assegurou-nos que tudo estava tranquilo em Petrogrado; ressaltou que ele, Kuzmin, estava totalmente à mercê dos delegados que tinham o poder até de matá-lo se assim o desejassem. Ele concluiu seu discurso com uma declaração de que, se os delegados quisessem uma luta armada aberta, esta ocorreria – os comunistas não renunciariam voluntariamente ao poder e lutariam até a última trincheira. [10]

Deixamos para os futuros psicólogos decidir por que os SRs escolheram tratar o discurso de Kuzmin de maneira diferente do de Berkman, e por que se abstiveram de recorrer a aspas como Berkman e Lawrence fazem ao se referirem à declaração final de Kuzmin. Não podemos aqui detalhar as gritantes discrepâncias nas várias versões. Basta dizer que quanto mais aprendemos sobre o discurso de Kuzmin, mais agudamente a questão se coloca: quem desempenhou o papel de um provocador nesta reunião?

Um ponto especial são todos os relatos de que Kuzmin insistiu sobre o fato de Petrogrado estar tranquila (Berkman acrescenta – sob a autoridade de quem? – “e os trabalhadores satisfeitos”). Por que isso deveria ter provocado alguém que não estava sendo incitado à provocação? Kuzmin estava dizendo a verdade? Ou o Izvestia de Kronstadt mentiu quando em seu primeiro número, no dia seguinte, trazia uma manchete sensacionalista, Insurreição Geral em Petrogrado? Além disso, por que o Izvestia continuou mentindo sobre essa e outras supostas insurreições? Por que reimprimiu despachos de Helsingfors para reforçar sua campanha de calúnia? Resumindo, veja o discurso de Kuzmin ponto a ponto conforme relatado pelo Izvestia – ou em qualquer um dos supostos resumos dele – sim, com ou sem as aspas insidiosas de Berkman – e não diga se vocês eram “homens simples”, “homens e não mulheres velhas”, etc., etc., mas se vocês fossem delegados nesta reunião para “eleger um novo Soviete”, vocês teriam ficado e nomeado um “Comitê Revolucionário Provisório”? Diga-nos, além disso, se vocês teriam pegado em armas em um motim contra o Estado soviético? Se não, por que você espalha esse lixo SR e procura confundir a vanguarda da classe trabalhadora em relação ao que realmente aconteceu em Kronstadt – e especialmente esta reunião?

Um incidente muito mais sinistro e elucidativo do que qualquer coisa que Kuzmin possa ou não ter dito ocorreu nesta reunião, que todos os Berkmans desprezam de maneira muito reveladora. A Conferência foi lançada em um frenesi não por qualquer coisa dita por Kuzmin ou Vassiliev (ou Kalinin que não estava presente), mas por uma declaração feita do plenário de que os bolcheviques estavam marchando de armas em punho para atacar a reunião. Foi isso que precipitou a “eleição” de um Comitê Revolucionário Provisório. Procuramos em vão nos escritos dos historiadores “verdadeiros” qualquer esclarecimento quanto à origem desses “rumores”. Mais do que isso, eles convenientemente “esquecem” (Berkman, entre outros) de que o Comitê Revolucionário Provisório colocou oficialmente esse boato na porta dos próprios bolcheviques. “Esse boato foi divulgado pelos comunistas para dissolver a reunião.” (Izvestia, No. 11.) O Izvestia admitiu ainda que o “relatório” de que os bolcheviques estavam prestes a atacar a reunião com “quinze carros carregados de soldados e comunistas, armados com fuzis e metralhadoras” foi feito por “um delegado do Sebastopol”. Mesmo após a supressão do motim, os SRs insistiram que, “segundo o testemunho de um dos líderes autorizados do movimento de Kronstadt”, o boato sobre Dulkis e os Kursanti era verdadeiro. Não apenas os rumores se espalharam durante a reunião, mas o presidente concluiu com a mesma nota. A partir do relato do Izvestia de Kronstadt aprendemos que: “No último momento, o camarada presidente fez um anúncio de que um destacamento de 2.000 homens estava marchando para atacar a reunião, que se dispersou com emoções misturadas de alarme, excitação e indignação...” ( Nº 9, 11 de março de 1921.)

Quem espalhou esses rumores e por quê? Dizemos: Quem os fez circular foram aqueles mesmos que espalharam as mentiras sobre a insurreição de Petrogrado; os mesmos que, no início, levantaram a palavra de ordem pela Assembleia Constituinte e depois entoaram a palavra de ordem “mais realista” de “Abaixo a Comuna Falida!” (resolução adotada em Kronstadt, em 7 de março); os mesmos que acusavam o “poder bolchevique de nos levar à fome, ao frio e ao caos”; aqueles que, disfarçados de apartidários, estavam enganando as massas de Kronstadt; aqueles que procuravam capitalizar as dificuldades do poder soviético e que encabeçavam o movimento para guiá-lo pelos canais da contrarrevolução.

Não há sombra de dúvida de que os SRs foram os primeiros, senão os únicos, a impulsionar esta campanha de “rumores”, que brotou tão infame fruto. Qualquer possibilidade de solução pacífica da crise de Kronstadt foi eliminada, uma vez que um poder paralelo foi estabelecido na fortaleza. O tempo era realmente urgente, como provaremos em breve. Por mais que se especule sobre as chances de evitar derramamento de sangue, o fato é que os líderes do motim levaram apenas 72 horas para levar seus seguidores (tolos) a um conflito direto com os soviéticos.

Não é de forma alguma excluído que as autoridades locais de Kronstadt tenham feito um erro ao lidar com a situação. O fato de que os melhores revolucionários e combatentes fossem urgentemente necessários para centros vitais tenderia a sustentar a afirmação de que aqueles designados para um setor relativamente “seguro” como Kronstadt não eram homens de qualificações notáveis. Não é segredo que Kalinin – muito menos o comissário Kuzmin – não era muito estimado por Lenin e seus colegas. A associação entre “erros” e indivíduos como Kalinin é realmente maravilhosa, mas não pode servir como substituto para a análise política. Na medida em que as autoridades locais estavam cegas para a extensão total do perigo ou não tomaram as medidas adequadas e eficazes para enfrentar a crise; na medida em que seus erros tiveram um papel no desenrolar dos acontecimentos, ou seja, facilitaram para os contrarrevolucionários o trabalho de utilizar as dificuldades objetivas para atingir seus fins.

Como foi possível que os líderes políticos transformassem Kronstadt tão rapidamente em um campo armado contra a revolução de outubro? Qual era o objetivo dos amotinados? A suposição de que os soldados e marinheiros se aventuraram em uma insurreição apenas por causa da palavra de ordem “Sovietes Livres” é absurda em si mesma. É duplamente absurdo em vista do fato de que o resto da guarnição de Kronstadt consistia de pessoas retrogradas e pacatas que não podiam ser usadas na Guerra Civil. Essas pessoas só poderiam ter sido levadas à insurreição por profundas necessidades e interesses econômicos. Esses eram as necessidades e interesses dos pais e irmãos desses marinheiros e soldados, ou seja, dos camponeses como comerciantes de produtos alimentícios e matérias-primas. Em outras palavras, por trás do motim havia uma reação de caráter pequeno-burguês contra as dificuldades e privações impostas pelas condições da revolução proletária. Ninguém pode negar esse caráter de classe dos dois campos. Todas as outras questões são apenas de importância secundária. Que os bolcheviques tenham cometido erros de caráter geral ou concreto, não pode alterar o fato de que defenderam as aquisições da revolução proletária contra a reação burguesa (e pequeno-burguesa). É por isso que todo crítico deve ser examinado do ponto de vista de que lado da linha de fogo se encontra. Se ele fecha os olhos ao conteúdo social e histórico do motim de Kronstadt, então ele próprio é um elemento da reação pequeno-burguesa contra a revolução proletária. (É o caso de Alexander Berkman, os mencheviques russos e assim por diante.) Um sindicato, digamos, de trabalhadores agrícolas, pode cometer erros em uma greve contra os agricultores. Podemos criticá-los, mas nossa crítica deve se basear em uma solidariedade fundamental com o sindicato dos trabalhadores e em nossa oposição aos exploradores dos trabalhadores, mesmo que esses exploradores sejam pequenos agricultores.

Os bolcheviques nunca afirmaram que sua política era infalível. Isso é um credo stalinista. Victor Serge, em sua afirmação de que a NEP (isto é, uma concessão limitada a demandas burguesas ilimitadas) foi introduzida tardiamente, apenas repete de forma branda a crítica de um importante erro político que o próprio Lenin reconheceu nitidamente na primavera de 1921. Nós estamos prontos para admitir tal erro. Mas como isso poderia mudar nossa estimativa mais básica? Superando em muito a especulação por parte de Serge ou de qualquer outra pessoa de que a rebelião poderia ter sido evitada se os bolcheviques tivessem concedido a concessão da NEP a Kronstadt, o motim em si e a declaração categórica do Izvestia de Kronstadt acerca da exigência dos amotinados: “não ao livre comércio, mas, sim, a uma verdadeira potência soviética” (nº 12, 14 de março de 1921).

O que esse “genuíno poder soviético” poderia significar? Já ouvimos dos SRs e mencheviques suas avaliações sobre a natureza do motim. Os SRs e os mencheviques sempre sustentaram que seus objetivos eram idênticos aos dos bolcheviques, mas que apenas pretendiam alcançá-los de uma maneira “diferente”. Conhecemos o conteúdo de classe dessa “diferença”, Lenin e Trotsky sustentavam que a palavra de ordem dos “Sovietes Livres” significava material e praticamente, tanto em princípio quanto em essência, a abolição da ditadura do proletariado, instituída e representada pelo partido bolchevique. Isso só pode ser negado por aqueles que negam que, com todos os seus erros parciais, a política dos bolcheviques esteve sempre a serviço da revolução proletária. Será que Serge vai negar? No entanto, Serge se esquece do dever elementar de uma análise científica não é tomar slogans abstratos de diferentes grupos, mas descobrir seu conteúdo social real. [11] Neste caso, tal análise não apresenta grandes dificuldades.

Ouçamos o porta-voz mais autorizado da contrarrevolução russa sobre sua avaliação do programa de Kronstadt. Em 11 de março de 1921, no calor da revolta, Miliukov escreveu:

Este programa pode ser expresso no breve slogan: “Abaixo os bolcheviques! Viva os soviéticos!”... "Viva os sovietes", na atualidade significa muito provavelmente que o poder passará dos bolcheviques aos socialistas moderados, que receberão a maioria nos sovietes... Temos muitas outras razões para não protestar contra o slogan de Kronstadt... É evidente para nós que, deixando de lado uma instalação forçada de poder da direita ou da esquerda, esta sanção [do novo poder – JV] que é obviamente temporária, só pode ser efetuada através de instituições do tipo dos soviéticos. Só assim a transferência pode ser efetuada sem dor e ser reconhecida pelo país como um todo. [12]

Em uma edição posterior, o órgão de Miliukov, Poslednya Novosti, insiste que o poder bolchevique só poderia ser suplantado por meio de soviéticos “libertados” dos bolcheviques. [13]

Em sua defesa do motim de Kronstadt, os mencheviques, como partidários ferrenhos da restauração capitalista, mantinham essencialmente o mesmo ponto de vista de Miliukov. Juntamente com estes últimos, os mencheviques defenderam em Kronstadt um passo para a restauração do capitalismo. [14] Nos anos que se seguiram, eles não puderam deixar de favorecer o curso principal de Stalin (aconselhado por Abramovich e outros em 1921) de “romper decididamente com todos os planos aventureiros de espalhar a 'revolução mundial'”, e empreender, em vez disso, a construção do socialismo em um país. Com uma reserva aqui e um queixume ali, são hoje bastante a favor do evangelho do socialismo de Stalin em um só país. Nisso, ao permanecerem fiéis à bandeira levantada pelo motim de Kronstadt, eles apenas permanecem fiéis a si mesmos – como os arqui-suportes de todas as tendências abertas ou veladas para a restauração capitalista na Rússia e a estabilização capitalista no resto do mundo.

A conexão entre a contrarrevolução e Kronstadt pode ser estabelecida não apenas pela boca dos adversários do bolchevismo, mas também com base em fatos irrefutáveis. No início de fevereiro, quando não havia nenhum sinal de distúrbios em Petrogrado, ou nas proximidades de Kronstadt, a imprensa capitalista no exterior publicou despachos supostamente relacionados a sérios problemas em Kronstadt, dando detalhes sobre uma revolta na frota e a prisão do comissário do Báltico. [15] Esses despachos, embora falsos na época, se materializaram com incrível precisão algumas semanas depois.

Referindo-se a esta “coincidência”, Lenin em seu relatório ao X Congresso do Partido, em 8 de março de 1921, disse o seguinte:

Testemunhamos a passagem do poder dos bolcheviques para algum tipo de conglomerado indefinido ou aliança de elementos heterogêneos, presumivelmente apenas um pouco à direita e talvez até à “esquerda” dos bolcheviques – tão indefinida é a soma de grupos políticos que tentaram tomar o poder em Kronstadt. Não há dúvida de que, ao mesmo tempo, o General da Guarda Branca, como todos sabem, desempenhou um papel importante nessas ações. Isso tem sido provado ao máximo. Duas semanas antes dos acontecimentos de Kronstadt, a imprensa parisiense já trazia a notícia de uma insurreição em Kronstadt. (Works, Vol. XXVI, p. 214.)

É um fato facilmente estabelecido que quando esses despachos chegaram ao conhecimento de Trotsky, antes de qualquer convulsão em Kronstadt, ele imediatamente se comunicou com o comissário da frota do Báltico, alertando-o para tomar precauções, porque o aparecimento de despachos semelhantes na imprensa burguesa referindo-se a outras supostas revoltas foram logo seguido por tentativas contrarrevolucionárias em regiões específicas. Escusado será dizer que todos os historiadores “verdadeiros” preferem passar em silêncio a esta “coincidência”, juntamente com o fato de que a imprensa capitalista aproveitou o motim para conduzir uma “campanha histérica sem precedentes” (Lenin). [16] As notícias desta campanha poderiam ser adicionadas a qualquer número, mas nenhuma lista estaria completa sem as reportagens sobre o mesmo assunto que apareceram no Izvestia de Kronstadt:

Primeira edição, 3 de março: “INSSURREIÇÃO GERAL EM PETROGRADO”.

 

7 de março: Manchete “Notícias de última hora de Petrogrado” – “As prisões em massa e execuções de trabalhadores e marinheiros continuam. Situação muito tensa. Todas as massas trabalhadoras aguardam uma reviravolta a qualquer momento.”

8 de março: "O jornal de Helsingfors Hufvudstadsbladet... imprime as seguintes notícias de Petrogrado ... Os trabalhadores de Petrogrado estão em greve e deixando as fábricas de modo ostensivo, multidões carregam bandeiras vermelhas exigindo uma mudança de governo - a derrubada dos comunistas". [17]

11 de março: “O governo em pânico”. “Nosso clamor foi ouvido. Marinheiros revolucionários, homens do Exército Vermelho e trabalhadores em Petrogrado já estão vindo em nosso auxílio... O poder bolchevique sente o chão escorregar sob seus pés e, por isso, emitiu ordens em Petrogrado para abrir fogo contra qualquer grupo de cinco ou mais ruas...”

Não é de se surpreender que a imprensa da Guarda Branca no exterior tenha lançado uma intensa campanha para arrecadar fundos, roupas, alimentos etc., sob o lema: “Por Kronstadt! ”

Como explicar essa série de fatos e evidências incontestáveis? Muito simplesmente: acusando os bolcheviques de calúnia! Ninguém é mais descarado do que Berkman em negar a conexão entre a contrarrevolução e o motim. Ele chega a declarar categoricamente que o general czarista Kozlovsky “não desempenhou nenhum papel nos eventos de Kronstadt”. As confissões dos próprios SRs e as declarações de Kozlovsky em uma entrevista que ele deu à imprensa estabelecem, sem sombra de dúvida, que Kozlovsky e seus oficiais se associaram abertamente desde o início ao motim. O próprio Kozlovsky foi “eleito” para o “Conselho de Defesa”. Aqui está como os mencheviques relataram a entrevista de Kozlovsky:

“No primeiro dia da insurreição, o Conselho de Especialistas Militares havia elaborado um plano para um ataque imediato a Oranienbaum, que tinha todas as chances de sucesso na época, pois o governo foi pego de surpresa e não poderia ter trazido tropas confiáveis a tempo... Os líderes políticos da insurreição não concordaram em tomar a ofensiva e a oportunidade foi deixada escapar.” [18]

Se o plano falhou, foi apenas porque Kozlovsky e seus colegas não conseguiram convencer os “líderes políticos”, ou seja, seus aliados do SR, que o momento era propício para expor seu verdadeiro rosto e programa. Os SRs acharam melhor preservar a máscara da “defesa” e contemporizar. Quando Berkman escreveu seu panfleto, ele sabia desses fatos. De fato, ele reproduziu a entrevista de Kozlovsky quase literalmente em suas páginas, fazendo, como é de seu costume, algumas alterações significativas e ocultando a fonte real do que parece ser sua própria avaliação.

Não é por acaso que Berkman e seus neófitos têm de plagiar todos os Kozlovskys, os SRs e os mencheviques. A rejeição pelos anarquistas da análise marxista do Estado inevitavelmente os leva a aceitar todas e quaisquer outras visões contrárias, incluindo até a sua participação em um governo de um Estado burguês.

Quanto tempo havia para “negociar”? Os amotinados estavam no controle da fortaleza em 2 de março. Tanto Kozlovsky quanto Berkman atestam que os bolcheviques foram “pegos de surpresa”. Trotsky chegou a Leningrado apenas em 5 de março. O primeiro ataque contra Kronstadt foi lançado em 8 de março. Os bolcheviques poderiam ter esperado mais?

Muitos especialistas militares sustentam a opinião de que o fracasso do motim foi em grande parte devido ao fracasso do degelo da primavera. Se as águas tivessem começado a fluir livremente entre Kronstadt e Leningrado, as tropas terrestres não poderiam ter sido usadas pelo governo soviético, enquanto os reforços navais poderiam ter sido enviados aos insurgentes já no controle de uma fortaleza naval de primeira classe, com navios de guerra, artilharia pesada, metralhadoras, etc., à sua disposição. O perigo desta operação não é um “mito” nem uma “calúnia bolchevique”.

Nas ruas de Kronstadt o gelo já estava derretendo. Em 15 de março, três dias antes da tomada da fortaleza em um assalto heroico em que participaram 300 delegados do X Congresso do Partido. O nº 13 do Izvestia de Kronstadt publicava em sua primeira página uma ordem para limpar as ruas “em vista do degelo”. Se os bolcheviques tivessem contemporizado, teriam precipitado uma situação que custaria um preço incomensuravelmente maior de vidas e sacrifícios, sem falar em colocar em risco o próprio destino da revolução.

Quando todos esses historiadores citam os nomes da fortaleza e os nomes dos navios de guerra Petropavlovsk e Sebastopol – os navios que em 1917 haviam sido o principal apoio dos bolcheviques [19] – eles evitam cuidadosamente mencionar o fato de que o pessoal da fortaleza, bem como dos navios de guerra, não poderia ter permanecido inalterado ao longo dos anos entre 1917 e 1921. Enquanto a fortaleza e os navios permaneceram quase intactos fisicamente, muita coisa aconteceu com os marinheiros revolucionários no período da Guerra Civil, na qual desempenharam um papel heroico em praticamente todas as frentes. É claro que é impossível pintar um quadro no qual os marinheiros de Kronstadt tivessem participado da revolução de outubro de 1917 apenas para permanecerem na retaguarda na fortaleza e nos navios enquanto seus camaradas de armas lutavam contra os Wrangels, Kolchaks, Denikins, Yudenitches, etc. .

Mas isso é, com efeito, o que os oponentes do bolchevismo tentam insinuar com suas insistências nas palavras “Kronstadt”, “marinheiros revolucionários” e assim por diante. O truque é muito óbvio. A recente resposta de Trotsky a Wendelin Thomas, que fura essa bolha, não poderia deixar de despertar sua ira. Com hipocrisia desprezível, todos eles se levantam em falsa indignação contra o pretenso insulto de Trotsky às “massas”. No entanto, ao responder a Thomas, Trotsky apenas reformulou os fatos que apresentou em 1921: “Muitos dos marinheiros revolucionários, que desempenharam um papel importante na revolução de outubro de 1917, foram nesse ínterim transferidos para outras esferas de atividade. Eles foram substituídos em grande parte por elementos fortuitos, entre os quais muitos marinheiros letões, estonianos e finlandeses, cuja atitude para com seus deveres era apenas a de manter um emprego temporário, sendo que a maioria não participou da luta revolucionária”.

Não há espetáculo mais revoltante do que o de pessoas que, como os anarquistas e mencheviques, foram entre outras coisas coparceiros do stalinismo em seu frontismo popular, e que carregam a responsabilidade pelo massacre da flor do proletariado espanhol, apontando um dedo acusador para os líderes da revolução de outubro por terem desbaratado um motim contra a revolução: Foi tudo culpa dos bolcheviques. Eles provocaram os kronstadtinos, etc., etc.

Não há como negar que os SRs e os mencheviques são especialistas, se não autoridades acabadas, em provocação. Nada do que Kerensky e Cia fizeram provocou-os sequer para justificar um levante das armas contra o Governo Provisório. Pelo contrário, os mencheviques foram muito enfáticos em 1917 em suas demandas de que a revolucionária Kronstadt – e os bolcheviques em geral – fosse “contida”. Quanto aos SRs, eles não hesitaram em pegar em armas na luta contra outubro. O bolchevismo sempre “provocou” esses senhores que invariavelmente se posicionaram do outro lado das barricadas.

Esses são os fatos incontestáveis. Os marinheiros compunham a maior parte das forças insurgentes. A guarnição e a população permaneceram passivas. Pego de surpresa pelo motim, o comando do Exército Vermelho a princípio procurou contemporizar, esperando uma mudança no humor dos insurgentes. O tempo estava pressionando. Quando se tornou óbvio que não havia possibilidade de arrancar a massa cinzenta da liderança dos SRs e seus capangas, Kronstadt foi tomada de assalto. Ao fazê-lo, os bolcheviques apenas cumpriram o seu dever. Defendiam as conquistas da revolução contra as tramas da contrarrevolução. Esse é o único veredicto que a história pode e vai passar.

Notas de rodapé

1. Em janeiro-março de 1921, ocorreu o motim de Tumensk na área de Tobolsk na Sibéria. Os insurgentes somavam 20.000 homens. Em maio de 1921, destacamentos da Guarda Branca auxiliados pelos japoneses desembarcaram em Vladivostok, que mantiveram por um curto período de tempo. Após a assinatura do tratado de Riga (18 de março de 1921), bandos da Guarda Branca, alguns milhares, outros meros punhados, invadiram a Ucrânia e outros pontos do território soviético. Outra série de ataques seguiu em Karelia, iniciado em 23 de outubro de 1921, e liquidada apenas em fevereiro de 1922. Ainda em outubro de 1922, o território soviético estava pontilhado de bandos de guerrilheiros da contrarrevolução.

2. Sotsialisticheski Vestnik , 25 de agosto de 1937.

3. Sotsialisticheski Vestnik , 5 de abril de 1921. Nossa ênfase.

4. Os SRs foram um pouco menos precisos no lado político e obscuro do motim. Eles diziam: “As organizações operárias exigiam uma mudança drástica de poder: algumas na forma de sovietes livremente eleitos, outras na forma de convocação da Assembleia Constituinte”. (A verdade sobre a Rússia , Volya Rossii , Praga 1921, p. 5). Ao publicar este livro, os SRs no exterior fizeram apenas um reconhecimento tardio de sua participação política no motim, embora seus porta-vozes na Rússia na época se escondessem atrás de uma máscara de não-partidarismo. Este livro serviu como a principal, se não a única, fonte utilizada por todos os críticos passados ​​e presentes do bolchevismo. Panfleto de Berkman A Rebelião de Kronstadt (1922) é meramente uma reafirmação dos supostos fatos e interpretações das RS com algumas alterações significativas.

5. A Rebelião de Kronstadt , p. 12, destaque no original.

6. Vanguarda , fevereiro-março de 1937.

7. Local. Cit. , pp. 12–13.

8. Local. Cit. , pág. 11.

9. Victor Serge acredita que foi tudo culpa de Kalinin. “O Comitê Central cometeu o enorme erro de enviar Kalinin...” (La Révolution Prolétarienne , setembro de 1937).

10. Izvestia da Prov. Rev. Com. de Kronstadt , nº 11, 13 de março de 1921.

11. Em seus comentários recentes sobre Kronstadt, Victor Serge admite que os bolcheviques, uma vez confrontados com o motim, não tiveram outro recurso senão esmagá-lo. Nisto ele se demarca das muitas variedades de anarcomenchevismo. Mas a substância de sua contribuição para a discussão é lamentar as experiências da história em vez de procurar entendê-las como marxista. Serge insiste que teria sido “fácil” evitar o motim – se o Comitê Central não tivesse enviado Kalinin para falar com os marinheiros! Uma vez deflagrado o motim, teria sido “fácil” evitar o pior – se ao menos Berkman tivesse falado com os marinheiros! Adotar tal abordagem aos eventos de Kronstadt é assumir um ponto de vista superficial: “Ah, se a história tivesse nos poupado Kronstadt!” Isso leva apenas ao ecletismo e à perda de todas as perspectivas políticas.

12. Poslednya Novosti , 11 de março de 1921.

13. Idem. , 18 de março de 1921.

14. Nas teses programáticas sobre a Rússia propostas pelo Comitê Central dos Mencheviques, em 1921, encontramos o seguinte: A República não pode deixar de estar em consonância com as relações capitalistas prevalecentes nos países avançados da Europa e da América...” ( Sots. Vestnik , 2 de dezembro de 1921.)

15. A Revolta da Frota do Báltico Contra o Governo Soviético – um artigo assinado em l'Echo de Paris , 14 de fevereiro de 1921. No mesmo dia, o Matin, outro jornal parisiense, publicou um despacho sob o título: Moscou toma medidas contra os Insurgentes de Kronstadt. A imprensa russa da Guarda Branca publicou despachos semelhantes. A fonte especificada foi Helsingfors, de onde os despachos foram enviados em 11 de fevereiro.

16. Em seu discurso de encerramento em 16 de março, Lenin leu para o Congresso um relatório sobre a campanha na imprensa. Aqui estão algumas manchetes nos jornais referidos por Lenin:

“Relatado o Levantamento de Moscou. Combate de Petrogrado.” ( London Times , 2 de março de 1921)

“L'Agitation Antibolchévique. Petrograd et Moscou Seraient aux Maine des Insurgés qui ont Formé un Gouvernement Provisoire.” ( Matina , 7 de março)

“Kronstadt gegen Petrogrado, Sinowjew Verhaftet.” ( Berliner Tageblatt , 7 de março)

“Les Marins Revoltés Débarquent à Petrograd.” ( Matina , 8 de março)

“Der Aufstand in Russland.” ( Vossische Zeitung , 10 de março)

“Combate em Petrogrado. Bajulações vermelhas silenciadas.” ( London Times , 9 de março)

17. Os mencheviques na Rússia não tinham imprensa própria e, portanto, só podiam participar clandestinamente na campanha dos imperialistas no exterior e seus aliados SR em Kronstadt. Aqui está um parágrafo de abertura em um de seus folhetos, datado de 8 de março de 1921, e publicado em nome do “Petersburg Committee of SDLPD”:

“A estrutura da ditadura bolchevique está rachando e desmoronando. Revoltas camponesas na Ucrânia, na Sibéria, no Sudoeste da Rússia... Greves e efervescência entre trabalhadores em Petersburgo e Moscou... Os marinheiros em Kronstadt se levantaram... Fome, frio, miséria e amargura sem precedentes predominam entre a população arrendatária da Rússia ... Este é o quadro nada atraente da República Soviética três anos após a tomada do poder pelos bolcheviques. A estrutura da ditadura bolchevique está rachando e desmoronando...” ( Sots. Vestnik , 20 de abril de 1921.)

18. Sot. Vestnik , 5 de abril de 1921. Nossa ênfase.

19. Berkman, The Kronstadt Rebellion , p. 8.

(Trad.: J.M.)