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domingo, 28 de junho de 2020
segunda-feira, 1 de junho de 2020
ENTREVISTA COM NOAM CHOMSKY
Entrevista concedida em fins de março de 2020, numa conversa com o filósofo e co-fundador do
DiEM25, Srecko Horvat.
Srecko Horvat: Você nasceu em 1928 e escreveu seu primeiro
ensaio quando tinha 10 anos de idade sobre a Guerra Civil Espanhola, após a
queda de Barcelona em 1938, o que parece bem distante. Sobreviveu à Segunda
Guerra Mundial, testemunhou Hiroshima e muitos eventos históricos e políticos
importantes, da Guerra do Vietnã, a crise do preço do petróleo, a queda do muro
de Berlin, Chernobyl, testemunhou o momento histórico que levou ao 11 de
setembro e o crash financeiro de 2007/2008. Com esse background e sendo um ator
da maioria desses processos, como vê a atual crise do Coronavírus, algo sem
precedente histórico. Surpreende você? Como observa isso tudo?
Noam Chomsky: Devo dizer que
as memórias mais tenras que me assombram agora são dos anos 1930, o artigo que
você mencionou sobre a queda de Barcelona foi sobre, aparentemente, a
inexorável propagação da praga fascista sobre a Europa e como chegou ao fim.
Descobri muito mais tarde, quando os documentos internos vieram à publico que
os analistas do Governo americano, na época e nos anos seguintes esperavam que
a guerra terminasse com mundo dividido entre regiões dominadas pelos EUA
e uma região dominada pela Alemanha.
Meus medos infantis
não estavam completamente errados. E essas memórias voltam agora. Quando era
criança, posso lembrar, ouvindo comício de Hitler em Nuremberg no rádio, podia
não compreender as palavras, mas podia facilmente entender o clima daquilo
tudo, e tenho que dizer que quando escuto os discursos de Trump hoje, soa algo
parecido. Não que ele seja fascista, não tem muito de uma ideologia, é apenas
um sociopata, um indivíduo preocupado consigo mesmo, mas o clima e o medo é
similar e a ideia de que o destino do país e do mundo está nas mãos de um
sociopata bufão é chocante.
O coronavírus é algo
sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se
aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer
coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à
frente disso, na corrida para o abismo. De fato, há duas ameaças imensas que
estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela
tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global. Ambas podem ser
resolvidas, mas não há muito tempo e o Coronavírus é terrível e pode ter
péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós
não resolvermos isso, estaremos acabados. As memórias da infância continuam
voltando para me assustar, mas em uma dimensão diferente. A ameaça de guerra
nuclear não fazia sentido com o mundo onde está, mas olhando para o passado
recente, em janeiro, o relógio do juízo final é ajustado a cada ano com os
ponteiros dos minutos a uma certa distância da meia noite, que seria o fim.
Desde que Trump foi eleito, o ponteiro tem se movido para mais perto da
meia noite. Ano passado estava a dois minutos da meia noite. O mais próximo já
alcançado. Esse ano os analistas retiraram os "minutos" e movem agora
o ponteiro em segundos, 100 segundos para a meia noite, o mais próximo que já
estivemos. Observando três questões: A ameaça da guerra nuclear, a ameaça do
aquecimento global e a deterioração da democracia, essa última que não está
tendo espaço aqui, mas é a única esperança que temos para a superação da crise.
Para que as pessoas tenham controle sobre seu destino, se isso não acontecer,
estamos condenados.
Se deixarmos nosso
destino com sociopatas bufões, será o fim. E isso está próximo, Trump é o pior,
por causa do poder dos EUA, que é esmagador. Estamos falando do declínio dos
EUA, mas você olha para o mundo e não vê quando os EUA impõem sanções,
assassinatos, sanções devastadoras, é o único país que pode fazer isso, mas
todo mundo tem de segui-lo. A Europa pode não gostar das ações odiosas contra o
Irã, mas tem que acompanhar, deve seguir o mestre, ou será chutada do sistema
financeiro internacional. Não é uma lei da natureza, é uma decisão na Europa
estar subordinada ao mestre em Washington, outros países não tem nem tem mesmo
como escolher. Voltando ao Coronavírus, um dos mais chocantes e severos
aspectos disso, é o uso de sanções para maximizar a dor, intencionalmente, o
Irã está em uma zona com enormes problemas internos pelo estrangulamento do
arrocho das sanções, que são intencionalmente desenhadas, para fazer sofrer
mais e mais agora. Cuba vem sofrendo, desde o momento em que ganhou sua
independência, mas é surpreendente que tenha sobrevivido, mas ficaram
resilientes e um dos elementos mais irônicos desta crise do virus, é que Cuba
está ajudando a Europa. Quero dizer, isso é tão chocante, que você não sabe
como descrevê-lo. Que a Alemanha não pode ajudar a Grécia, mas Cuba pode ajudar
a Europa. Se você parar pra pensar sobre o que significa isso, todas as
palavras não servirão. Quando você vê milhares de pessoas morrendo no Mediterrâneo,
fugindo de uma região que foi devastada por séculos e sendo enviadas para
morrer ali, você não sabe que palavras usar. A crise civilizacional do
ocidente neste ponto é devastadora, pensar nisso e trazer memórias de infância
de ouvir Hitler no radio enrouquecer as multidões, faz você pensar se esta
espécie é mesmo viável.
Você mencionou a
crise da democracia. Neste momento acho que devemos nos encontrar em um momento
sem precedentes no sentido de que cerca de 2 bilhões de pessoas estão de uma forma
ou de outra confinadas em casa, em isolamento, auto-isolamento ou quarentena.
Ao mesmo tempo o que nós podemos observar é que a Europa, mas também outros
países perto de suas fronteiras, internas ou externas, há um estado de exceção
em todos os países em que possamos pensar, em regressão em lugares como França,
Servia, Espanha, Itália e outros, exército nas ruas... e quero perguntar a você
como linguista. A linguagem que circula nesse momento: Ouvindo não apenas
Trump, se você ouvir Macron ou alguns outros políticos europeus, constantemente
escutará que eles falam sobre Guerra. Mesmo na mídia se fala sobre
"frontliners" e o vírus sendo tratado como inimigo. O que me lembra
também Victor Klemperer em "Lingua Tertii Imperii", livro em que
falou da linguagem do Terceiro Reich e como a linguagem e a ideologia foram
impostas. Sob sua perspectiva , o que esse discurso sobre guerra representa,
para legimitar um estado de exceção, ou algo mais profundo neste discurso?
Eu penso que não é
exagero. O significado é se nós lidamos com a crise, estamos nos movendo para
uma mobilização como as de tempos de guerra. Se você pensar, pegue um país
rico, como os Estados Unidos que tem recursos para superar a questão econômica
de imediato. A mobilização para a 2ª guerra Mundial deixou o país com uma
grande dívida que está completamente saldada hoje e a mobilização foi bem
sucedida, praticamente quadruplicou a indústria dos Estados Unidos, acabou com
a depressão e deixou o país com mais capacidade para crescer.
Isso é menos do que
precisamos provavelmente, não naquela escala, isso não é uma guerra mundial,
mas nós precisamos da mentalidade desse movimento, nessa crise que essa é
severa aqui nós também podemos lembrar da epidemia da gripe suína em 2009,
originada nos Estados Unidos. Centenas de milhares de pessoas se recuperaram do
pior, mas tem que lidar com isso em um país rico como os Estados Unidos.
Agora dois bilhões de
pessoas, a maioria está na Índia. O que acontece para os indianos, eles vivem
"da mão para a boca", estão isolados e morrem de fome. O que irá
acontecer? Em um mundo civilizado os países ricos dariam assistência, aqueles
que estivessem em necessidade ao invés de estrangulá-los, que é o que estamos
fazendo particularmente na Índia e em muitos dos países no mundo.
Se a atual tendência
persiste no sul da Ásia, se tornará inabitável em poucas décadas. A temperatura
alcançou 50 graus no Rajastão, neste verão está aumentando. A questão das águas
agora pode piorar, há dois núcleos de poder que irão lutar por recursos reduzidos
de água. Eu digo que que o Coronavírus é muito sério, nós não podemos
subestima-lo, mas nós temos que lembrar que isso é uma pequena fração da crise
que está vindo. Pode talvez não ameaçar a vida o que o coronavírus faz hoje
mas, (tais fatos) irão perturbar a vida ao ponto de tornar a espécie inviável
em um futuro não muito distante.
Então nós temos que
lidar com muitos problemas, problemas imediatos, o coronavírus é sério, como
muitos outros maiores, vastamente maiores, e que são eminentes. Agora há uma
crise civilizacional, temos que ver o lado bom do coronavírus, o que pode fazer
as pessoas pensarem sobre que tipo de mundo nós queremos? Nós queremos um mundo
que nos leva a isso? Devemos pensar sobre a origem desta crise, por quê há uma
crise do coronavírus? É uma falha colossal do mercado, leva direto a essência
dos mercados exacerbados pelo neoliberalismo selvagem, a intensificação
neoliberal, os problemas socioeconômicos. Isso era sabido há muito tempo, que a
pandemia era muito provável, entendemos muito bem a probabilidade da pandemia
do coronavírus, uma modificação epidemia da SARS, que foi superado há 15 anos
atrás, o vírus foi identificado, sequenciado, vacinas estavam disponíveis,
laboratórios ao redor do mundo poderiam trabalhar diretamente em desenvolver
uma proteção para uma potencial pandemia do coronavírus.
Por que não fizeram
isso? As companhias farmacêuticas. Nós temos entregado nosso destino a
tiranias privadas, corporações, que são inexplicadas para o público, nesse
caso, o Big Farma. Para eles fazer novos cremes corporais é mais lucrativo do
que encontrar uma vacina que proteja as pessoas da destruição total. É possível
para o governo entrar nisso, voltar às mobilizações dos tempos de guerra, foi o
que o que aconteceu com a pólio naquele tempo, eu posso me lembrar muito bem, a
terrível ameaça que foi extinta pela descoberta da vacina Salk, por uma
instituição do governo, apoiada pela administração Roosevelt. Sem patentes,
disponível a todos.
Que pode ser feito
agora, mas a praga neoliberal bloqueia isso. Estamos vivendo sobre uma
ideologia para qual os economistas tem uma boa parte de responsabilidade, que
vem do setor corporativo. Uma ideologia que é tipificada por aquilo que Ronald
Reagan colocou no script, pelo seu Mestres corporativos com seus sorrisos
reluzentes, dizendo que governo é o problema. Vamos nos livrar do governo que
quer dizer "vamos deixar as decisões nas mãos das tiranias privadas que
não tem responsabilidade com o público". Do outro lado do Atlântico Margaret
Thatcher nos mostra que há uma sociedade, em que apenas indivíduos jogados
dentro do mercado podem sobreviver de alguma forma e para além disso não há
alternativa. O mundo tem sofrido sob o poder dos ricos por anos, e agora é o
ponto onde as coisas podem estar acabadas. Com intervenção direta do governo no
escopo da invenção da vacina salk, mas que é bloqueado por razões ideológicas
da praga neoliberal e o ponto é que essa epidemia de coronavírus poderia ter
sido prevenida.
A informação estava
ali para ser lida era bem conhecida em outubro de 2019 logo antes do surto.
Houve uma grande simulação em escala nos Estados Unidos para uma possível
pandemia Mundial deste tipo. Nada foi feito, agora a crise ficou bem pior pela
traição do sistema político. Nós não prestamos atenção a informação que estavam
cientes em 31 de dezembro, a China informou À OMS sobre uma pneumonia com
sintomas com etiologia desconhecida. Uma semana depois eles identificaram,
alguns cientistas chineses, como um coronavírus, também sequenciaram e deram a
informação ao mundo pelos seus virologistas, outros que ficaram incomodados em
ler o report da OMS. Os países naquela área, China, Coreia do Sul, Taiwan,
Singapura começaram a fazer algo e contiveram o surgimento da crise. Na Europa
o que aconteceu, Alemanha foi capaz de agir de maneira egoísta, não ajudando os
outros. Outros países apenas ignoraram. Um dos piores deles o Reino Unido e o
pior de todos, os Estados Unidos, que disseram um dia que não havia crise,
diziam "ser apenas uma gripe", e no dia seguinte era uma terrível
crise, que sabiam de tudo. No dia seguinte: "nós temos que tratar de
negócios, porque tenho que vencer a eleição..."
A ideia de que o
mundo está nessas mãos é chocante, mas, o ponto é que começou com uma,
novamente, colossal falha do mercado ao ponto fundamental da ordem
econômico-social deixada muito pior pela praga neoliberal e ela continua por
causa do colapso nas estruturas institucionais que poderiam lidar com isso, se
estivessem funcionando.
Esses são os pontos
que nós temos que pensar seriamente e pensando mais profundamente digo, em que
tipo de mundo nós queremos viver? Se superarmos de qualquer forma haverá
opções. O alcance das opções vão da instalação de Estados altamente
autoritários por todas as partes até a reconstrução da sociedade em
termos mais humanos, preocupados com as necessidades humanas ao invés do lucro
privado. Isso é o que nós devemos ter em mente, que estados altamente
autoritários e viciados são bastante compatíveis com o neoliberalismo, os
teóricos do neoliberalismo como Hayek e o resto eram perfeitamente felizes com
o estado massivo de violência apoiada pela economia. O neoliberalismo tem suas
origens em 1920 em Viena.. no estado protofascista austríaco que esmagou a
união dos trabalhadores e a social-democracia austríaca e fez parte do governo
proto fascista e louvou o fascismo e sua economia protecionista. Quando
Pinochet instalou ditadura assassina brutal no Chile eles amaram, eles lutaram
lá, auxiliando esse "milagre maravilhoso", que que trouxe "solidez
da economia", grandes lucros, para uma pequena parte da população.
Não é errado pensar
que sistema neoliberal selvagem pode ser reinstalado por auto-proclamados
liberais por forte violência do Estado, um pesadelo que pode vir. mas é
necessário a possibilidade de que as pessoas se organizem, se tornem engajados
para um mundo muito melhor, que também enfrentará os enormes problemas que
estamos lidando... Problema da guerra nuclear que está mais próximo do que
nunca esteve, o problema da catástrofe ambiental do qual pode não haver retorno
uma vez que chegamos em tal estágio e não está em uma distância tão grande, a
menos que nós arranjamos decisivamente. Então é um momento crítico da história
humana não apenas por causa do coronavírus, mas deve nos trazer a consciência
das profundas falhas, de forma mais profunda, as características disfuncionais
de todo sistema sócio-econômico. Pode ser um sinal de alerta em uma lição para
nos prevenir de uma explosão, mas pensando sobre isso e como essas vai nos levar
a mais crises piores que essas com um preço extra a se pagar.
Como se dará a
resistência em tempos de distanciamento social e o que se esperar de um futuro
pós-Coronavírus?
Primeiro de tudo nós
devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento
social que é muito danosa. Você vai ao McDonald's e vê adolescentes sentados ao
redor da mesa comendo hambúrguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou
alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem
atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais
tem tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente,
as universidades nos Estados Unidos onde os passeios tem placas dizendo
"olhe para frente" porque cada jovem ali está grudado em si mesmo,
essa é uma forma de isolamento social auto-induzido, o que é muito prejudicial.
Estamos agora em situação real de isolamento social. Que deve ser superada com
recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito. Qualquer coisa
que puder ajudar as pessoas em necessidades, desenvolvendo organizações,
expandindo análises... Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para
perto... Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles.
Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil,mas os humanos tem
encarado seus problemas. Soberania para todas as pessoas em português.
***
Originalmente em
DiEM25
Fonte: DossierSul
sexta-feira, 15 de maio de 2020
BRASIL: CONTRASTE SOCIAL PNAD 2019
PNAD Contínua 2019:
rendimento do 1% que ganha mais equivale a 33,7 vezes o da metade da população
que ganha menos
Em
2019, o rendimento médio mensal real do trabalho do 1% da população com os
rendimentos mais elevados era de R$ 28.659, o que corresponde a 33,7 vezes o
rendimento dos 50% da população com os menores rendimentos (R$ 850).
Em
2019, a massa mensal de rendimento habitual foi de aproximadamente R$ 213,4
bilhões, 2,2% maior que a estimada para 2018 e 12,0% maior que a de 2012. Já a
massa mensal de rendimento domiciliar per capita alcançou R$ 294,4 bilhões. A
parcela dos 10% com os menores rendimentos da população detinha 0,8% dessa
massa, enquanto os 10% com os maiores rendimentos detinham 42,9%.
O
número de pessoas com rendimento de
todos os trabalhos subiu de 43,4% da população (90,1 milhões) em 2018 para
44,1% (92,5 milhões) em 2019.
Já
a aposentadoria ou pensão era
recebida por 14,7% da população em 2019, mantendo estabilidade em relação a
2018 (14,6%) e subindo 1,6 ponto percentual em relação a 2012 (13,1%).
O
rendimento médio real de todas as fontes, após subir 2,8% em 2018 (para R$
2.247), manteve-se praticamente inalterado em 2019 (R$ 2.244). O Sudeste
registrou o maior valor (R$ 2.645), seguido pelo Sul (R$ 2.499) e pelo
Centro-Oeste (R$ 2.498), enquanto os menores valores estavam no Nordeste (R$
1.510) e no Norte (R$ 1.601).
Em
2019, permanecem as grandes discrepâncias entre o rendimento médio mensal real
de todos os trabalhos das pessoas brancas
(R$ 2.999), pardas (R$ 1.719) e pretas (R$ 1.673). Também perduram as
diferenças de gênero: o rendimento de todos os trabalhos dos homens (R$ 2.555) é 28,7% mais alto que
o das mulheres (R$ 1.985).
O
rendimento médio dos trabalhadores com ensino superior completo (R$ 5.108) era,
aproximadamente, 3 vezes maior que o daqueles com somente o ensino médio
completo (R$ 1.788) e cerca de 6 vezes o daqueles sem instrução (R$ 918).
O
percentual de domicílios atendidos pelo Bolsa Família caiu de 13,7% em 2018
para 13,5% em 2019. Em 2012, 15,9% dos domicílios do país recebiam o Bolsa
Família. Já o BPC-LOAS era recebido em 3,7% dos domicílios do país em 2019,
percentual praticamente igual ao de 2018 (3,6%) e 1,1 ponto percentual acima do
de 2012 (2,6%).
O
Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita teve ligeira queda entre
2018 e 2019, variando de 0,545 para 0,543. Já o Gini para o rendimento de todos
os trabalhos ficou estável em 0,509 no mesmo período, mantendo-se no maior
nível, desde 2012.
Essas
e outras informações fazem parte do módulo Rendimento de Todas as Fontes da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua.
Em
2019, havia 209,5 milhões de pessoas residentes no País, sendo que o Sudeste
concentrava a maior parte da população (42,2%) e o Centro-Oeste (7,7%), a menor
parte. Os demais representam 27,2% (Nordeste), 14,3% (Sul) e 8,6% (Norte).
Os
que possuíam algum tipo de rendimento
eram 131,2 milhões (62,6% da população), tendo o Sul apresentado o maior
percentual em todos os anos da série (68,1%), enquanto Norte (54,5%) e Nordeste
(58,5%), os menores.
14,7% da população
recebem aposentadoria ou pensão
O
contingente de pessoas que possuíam rendimento
de todos os trabalhos subiu de 43,4% da população (90,1 milhões) em 2018
para 44,1% (92,5 milhões) em 2019. Já o percentual com rendimento proveniente de outras fontes passou de 24,9% (51,8
milhões) para 25,1% (52,7 milhões) no período.
A
região Sul tem o maior percentual de pessoas com rendimento habitualmente
recebido de todos os trabalhos (49,1%) e o segundo maior percentual com
rendimento proveniente de outras fontes (26,5%). Por outro lado, o Nordeste
permaneceu com o menor percentual de pessoas com rendimento recebido de todos
os trabalhos (36,6%) em 2019 e o maior percentual daquelas que recebiam de
outras fontes (28,4%).
Entre
as outras fontes, a aposentadoria ou
pensão alcançou 14,7% da população em 2019. Houve certa estabilidade nesse
índice em relação a 2018 (14,6%), mas alta de 1,6 ponto percentual em relação a
2012 (13,1%). Para esta categoria, o maior percentual está no Sul (18,3%) e o
menor no Norte (8,8%).
Seguro-desemprego,
programas de transferência de renda do governo e rentabilidade da poupança (outros rendimentos) são alguns dos
rendimentos de 7,8% dos brasileiros; pensão
alimentícia, doação ou mesada, de 2,5%; e aluguel e arrendamento, de 2,1%..
Os
percentuais de pessoas que recebiam outros rendimentos se destacaram no Norte
(10,2%) e no Nordeste (12,1%) com valores superiores à média do País (7,8%). No
Norte, inclusive, esse percentual foi superior ao dos que recebiam quaisquer
das outras fontes de rendimento não oriundas do trabalho, o que não é observado
nas demais regiões.
Rendimento de todas as
fontes do Sudeste é 75,2% maior que o do Nordeste
O
rendimento médio real de todas as fontes
manteve estabilidade. O valor teve crescimento de 5,0% de 2012 a 2014, passando
de R$ 2.150 para R$ 2.258; queda de 3,1% em 2015, passando para R$ 2.188 e se
mantendo relativamente estável até 2017; e alta de 2,8% em 2018, quando passou
de R$ 2.185 para R$ 2.247. Em 2019, ficou em R$ 2.244.
O
Sudeste registrou o maior valor (R$ 2.645), seguido pelo Sul (R$ 2.499) e pelo
Centro-Oeste (R$ 2.498). Já os menores valores foram verificados no Nordeste
(R$ 1.510) e no Norte (R$ 1.601), com diferenças acima de R$ 1 mil em relação
às demais regiões.
De
2018 para 2019, houve redução de 6,4% no rendimento de todas as fontes no Norte
e aumento de 3,1% no Nordeste. Nas demais regiões as variações ficaram abaixo
de 1,0%.
Já
o rendimento médio mensal real de todos
os trabalhos foi de R$ 2.308 em 2019. O maior valor da série ocorreu em
2014, quando foi de R$ 2.364. Após queda de 4,1% em 2015 (R$ 2.267), ficou
praticamente estável nos anos de 2016 e 2017, registrou expansão de 2,3% em
2018 (R$ 2.317) e teve recuo (R$ 2.308) em 2019.
Nordeste
(R$ 1.588) e Norte (R$ 1.687) também registraram os menores valores para o
rendimento habitual do trabalho, ao passo que as Regiões Sudeste (R$ 2.650),
Centro-Oeste (R$ 2.506) e Sul (2.549), os maiores.
Já
o rendimento médio mensal real proveniente
de outras fontes acumulou ganho de 1,9% de 2012 (R$ 1.442) a 2015 (R$
1.469). Em 2016, registrou perda de 1,2% (R$ 1.452), que foi revertida nos dois
anos seguintes, atingindo valor médio de R$ 1.534 em 2018 e R$ 1.539 em 2019. O
Norte registrou a menor média (R$ 1.014) e o Sudeste (R$ 1.891), a maior, em
2019.
A
aposentadoria ou pensão foi a
categoria de maior média dentre as outras fontes (R$ 1.963), em todas as
regiões. O Centro-Oeste apresentou o maior valor (R$ 2.403) e o Nordeste, o
menor (R$ 1.625). O crescimento dessa categoria de rendimento entre 2018 e 2019
foi de 1,1% e de 8,5% em relação a 2012.
Os
rendimentos provenientes de aluguel e
arrendamento tiveram valor médio de R$ 1.679, apresentando queda de 0,7%
frente a 2018 e de 5,0% frente a 2012. A pensão
alimentícia, doação ou mesada de não morador totalizavam, em média, R$ 642,
valor 2,6% menor que o estimado para 2018 e 6,3% maior no confronto com 2012.
Já
as pessoas que declararam possuir outros rendimentos, recebiam em média R$ 606,
que representam estabilidade em relação a 2018 (0,3%) e queda (10,4%) frente a
2012. O valor dos outros rendimentos foi maior na Região Sudeste (R$ 888) e
menor na Região Nordeste (R$ 396).
Rendimento domiciliar
per capita tem trabalho como principal fonte
O
rendimento médio mensal domiciliar per
capita em 2019 foi 72,5% composto por rendimento de todos os trabalhos. Os
27,5% provenientes de outras fontes se dividiam em rendimentos de aposentadoria
ou pensão (20,5%) em sua maioria, mas também em aluguel e arrendamento (2,5%),
pensão alimentícia, doação ou mesada (1,1%) e outros (3,4%).
Até
2014 houve aumento da parcela do rendimento de todos os trabalhos no rendimento
domiciliar per capita, quando atingiu 75,2%. A partir de 2015, aumentou a
parcela relativa a outras fontes de rendimento, motivado pelo comportamento de
alta das aposentadorias e pensões, que alcançou 20,5% em 2018 e 2019.
A
participação do rendimento de todos os trabalhos foi mais baixo no Nordeste
(65,8%) e mais alto no Centro-Oeste (76,3%). Já o rendimento proveniente de
aposentadoria ou pensão teve menor participação no Norte (16,7%) e Centro-oeste
(17,5%) e maior no Nordeste (25,5%), no Sul (20,4%) e no Sudeste (19,7%).
O
rendimento médio mensal real domiciliar per capita foi de R$ 1.406 em 2019,
contra R$ 1.387 em 2018. O Norte e o Nordeste apresentaram os menores valores
(R$ 872 e R$ 884) e o Sudeste, o maior (R$ 1.720).
De
2018 para 2019, apenas a região Norte apresentou redução no rendimento médio
domiciliar per capita (-5,3%). Já o Nordeste obteve o maior incremento no
período (4,5%).
Gini do rendimento
domiciliar per capita tem ligeira queda
Em
2019, o índice de Gini do rendimento médio mensal real domiciliar per capita
para o Brasil foi estimado em 0,543. Entre 2012 e 2015 houve redução do índice
de Gini do rendimento domiciliar per capita (de 0,540 para 0,524), que foi
revertida a partir de 2016, quando o índice aumentou para 0,537, chegando ao
maior valor da série em 2018 (0,545).
A
Região Nordeste tinha a maior desigualdade medida pelo índice de Gini em 2019
(0,559), e foi a única onde o índice cresceu, entre 2018 e 2019. A Região Sul
apresentou o menor índice (0,467) e a Região Norte apresentou a maior redução
no período (de 0,551 para 0,537).
Gini do trabalho se
mantém no maior nível da série
O
índice de Gini do rendimento médio mensal real habitualmente recebido de todos
os trabalhos foi de 0,509 em 2019. Entre 2012 e 2015 houve uma tendência de
redução deste indicador, passando de 0,508 para 0,494. A partir de 2016,
entretanto, o índice voltou a aumentar para 0,501, valor no qual se manteve em
2017, chegando a 0,509 nos dois últimos anos da série.
As
Regiões Sul (0,451) e Centro-Oeste (0,485) apresentaram os menores índices e,
na Região Nordeste, ele alcançou 0,531 em 2019. De 2018 para 2019, as Regiões
Norte (de 0,517 para 0,504) e, em menor medida, Sudeste (de 0,508 para 0,504) e
Centro--Oeste (de 0,486 para 0,485) tiveram redução desse indicador, enquanto
nas Regiões Nordeste e Sul houve elevação do índice, com destaque para a
primeira, que passou de 0,520 para 0,531.
Pessoas pretas têm
rendimento 27,5% menor que a média nacional
O
rendimento médio mensal real de todos os trabalhos dos homens (R$ 2.555) é cerca de 28,7% mais alto que o das mulheres (R$ 1.985) na média
brasileira. No Norte e no Nordeste, as diferenças de rendimento entre os sexos
são bem menores: R$ 1.736 contra R$ 1.608 no primeiro e 1.683 contra R$ 1.456
no segundo. No Sul, a diferença é a maior: R$ 2.894 dos homens contra R$ 2.107
das mulheres.
Há
discrepâncias também entre o rendimento médio mensal real de todos os trabalhos
das pessoas brancas (R$ 2.999), pardas (R$ 1.719) e pretas (R$ 1.673). Em 2019, as pessoas
de cor branca apresentaram rendimentos 29,9% superiores à média nacional (R$
2.308), enquanto as pardas, 25,5% inferiores e as pretas, 27,5% inferiores.
Ensino superior eleva
renda em até 3 vezes em relação a quem só tem ensino médio
Quanto
maior o nível de instrução, maior o rendimento. As pessoas que não possuíam instrução apresentaram o
menor rendimento médio (R$ 918). Por outro lado, o rendimento das pessoas com ensino fundamental completo ou
equivalente foi 60,3% maior, chegando a R$ 1.472. Por fim, aqueles que tinham ensino superior completo registraram
rendimento médio aproximadamente três vezes maior (R$ 5.108) que o daqueles que
tinham somente o ensino médio completo
(R$ 1.788) e cerca de seis vezes o daqueles sem instrução.
Massa de rendimento do
Sudeste é três vezes maior que a de outras regiões
Em
2019, o rendimento médio mensal real habitualmente recebido de todos os
trabalhos resultou em uma massa mensal de rendimento 2,2% maior que a
estimada para 2018, ficando em aproximadamente R$ 213,4 bilhões. A massa de
rendimento teve movimento de expansão entre 2012 e 2014, de queda entre 2015 e
2017 e de recuperação de 6,2% entre 2017 e 2019. Frente a 2012, a massa de
rendimento registrou expansão de 12,0%.
O
Sudeste registrou a maior massa de rendimento mensal em 2019 (R$ 111,5
bilhões), seguida pelo Sul (R$ 37,4 bilhões), cujo valor, no entanto,
correspondia a um terço do registrado na primeira. A menor massa foi registrada
no Norte (33,1 bilhões).
Já
a massa mensal de rendimento domiciliar
per capita alcançou R$ 294,4 bilhões em 2019, ao passo que em 2018, esse
valor foi de R$ R$ 288,1 bilhões. A parcela dos 10% com os menores rendimentos
da população detinha 0,8% da massa. Por outro lado, os 10% com os maiores
rendimentos detinham 42,9%, parcela que foi superior à dos 80% da população com
os menores rendimentos (41,5%).
O
Sudeste apresentou a maior massa de rendimento domiciliar per capita do país
(R$ 151,9 bilhões), o que correspondia a 51,6% da massa total e cerca de três
vezes a massa do Sul (R$ 50,9 bi) ou do Nordeste (R$ 50,3 bi). A massa do Norte
(R$ 15,8 bi), a menor do país, representou 10,4% da do Sudeste e, a do
Centro-Oeste (R$ 25,5 bi), 16,8%.
Entre
2018 e 2019, apenas a Região Norte apresentou redução na massa de rendimento
domiciliar per capita (-4,0%), ao passo que a Região Nordeste foi a que
apresentou maior crescimento (5,1%), seguida pela Região Sul (3,2%).
Rendimento do 1% mais
rico da população é 33,7 vezes o dos 50% mais pobres
Metade
dos trabalhadores com menores
rendimentos receberam, em média, R$ 850. Em relação a 2018, esse rendimento
ficou praticamente estável (R$ 851); já na comparação com 2012, registrou-se
aumento de 4,3% na média nacional (R$ 815).
Na
análise regional, observam-se diferenças importantes na ordem de grandeza dos
rendimentos locais. O Sul (R$ 1.102), em 2019, apresentou a maior média de
rendimento habitual do trabalho para a metade da população com menor
rendimento, e Norte (R$ 633) e Nordeste (R$ 569), as menores. Entre 2018 e
2019, apenas o Norte não apresentou aumento neste indicador (queda de 5,0%).
Entre as demais regiões, o Sul apresentou o maior crescimento do rendimento
médio dos 50% da população com menores rendimentos (9,0%).
A
análise da concentração de rendimento
mostrou, em 2019, que as pessoas que estavam no último percentil de rendimento,
ou seja, aquelas que faziam parte do 1% da população com rendimentos mais
elevados (cujo rendimento médio mensal real era R$ 28.659) recebiam, em média,
33,7 vezes o rendimento da metade da população com os menores rendimentos (R$
850) – a segunda maior razão da série, ficando abaixo apenas da estimada para
2018 (33,8 vezes).
De
2012 para 2019, as classes compostas pelos 20% com menores rendimentos
registraram variação negativa, sobretudo a primeira faixa (queda de 3,0%); já
aquelas de 20% a 30% em diante tiveram ganhos que chegaram a 8,5% para este
grupo e a 6,3% para a parcela de 1% da população com rendimentos mais elevados.
Por
outro lado, na comparação entre 2018 e 2019, as duas primeiras classes de rendimento
(até 10%) apresentaram crescimento em torno de 1,5%, havendo uma oscilação nas
classes subsequentes com uma pequena redução do rendimento da parcela de 1% da
população com rendimentos mais elevados (-0,5%).
Indicador de
desigualdade permanece no nível mais alto da série
O
índice de Gini é um indicador que
mede concentração e desigualdade econômica e varia de 0 (perfeita igualdade)
até 1 (máxima concentração e desigualdade). Quando calculado para o rendimento
médio mensal recebido de todos os trabalhos, ele se manteve em 0,509 em 2019. O
índice tinha caído entre 2012 (0,508) e 2015 (0,494), mas subiu para 0,501 em
2016, mantendo-se o valor em 2017, e depois para 0,509 em 2018.
O
Sul (0,451) e o Centro-Oeste (0,485) apresentaram os menores índices e o
Nordeste o maior (0,531). De 2018 para 2019, o Norte (de 0,517 para 0,504) e,
em menor escala, o Sudeste (de 0,508 para 0,504) e o Centro-Oeste (de 0,486
para 0,485) tiveram redução desse indicador, enquanto no Nordeste e no Sul
houve elevação do índice, com destaque para a primeira, que passou de 0,520
para 0,531.
Já
o índice de Gini do rendimento
domiciliar per capita para o Brasil foi estimado em 0,543 – uma queda com
relação ao maior valor da série, de 0,545 em 2018. O Nordeste, com a maior
desigualdade (0,559), foi a única região onde houve aumento do índice em 2019.
Por outro lado, o Sul apresentou o menor índice (0,467) e o Norte a maior
redução (de 0,551 para 0,537).
Acesso a bens e
serviços é menor entre beneficiários de programas do governo
No
Brasil, 13,5% dos domicílios particulares permanentes recebiam, em 2019,
dinheiro referente ao Programa Bolsa
Família, contra 13,7% em 2018. Esta proporção era de 15,9% dos domicílios
em 2012 e vem se reduzindo a cada ano.
As
regiões Norte e Nordeste tinham as maiores proporções de domicílios com
beneficiários do programa: 25,0% e 27,6%, respectivamente. Por outro lado, o
Sul tinha a menor proporção (4,7%). O Nordeste sofreu a maior redução
proporcional (-6,1%) de domicílios com beneficiários do programa entre 2012 e
2019.
O
Benefício de Prestação Continuada
(BPC-LOAS) era recebido por 3,7% dos domicílios do país em 2019, percentual
praticamente igual ao de 2018 (3,6%) e 1,1 ponto percentual acima do de 2012
(2,6%).
O
Norte e o Nordeste novamente apresentaram os maiores percentuais (6,0% e 5,6%,
respectivamente). Mas, entre 2012 e 2019, houve aumento na proporção de
domicílios com beneficiários do BPC em todas as regiões, sobretudo no Norte (2
pontos percentuais).
O
rendimento mensal domiciliar per capita
nos domicílios que recebiam o Programa Bolsa Família foi de R$ 352 e naqueles
que não recebiam foi de R$ 1.641. Para os domicílios que recebiam o BPC-LOAS o
rendimento médio domiciliar per capita foi de R$ 755 e, para os que não
recebiam, R$ 1.433.
O
acesso a serviços básicos nos
domicílios que recebiam algum programa também era diferente daqueles que não
recebiam. Entre aqueles com o Bolsa família, por exemplo, 39,5% tinham
esgotamento sanitário com rede geral ou fossa séptica ligada a rede geral, já
nos domicílios que não recebiam 72,2% tinham o serviço.
O
mesmo comportamento foi verificado em relação à posse de bens, principalmente máquina de lavar e microcomputador.
Enquanto entre os domicílios que recebiam o Bolsa Família em 2019, 32,0% tinham
máquina de lavar e 12,6% tinham microcomputador, entre os que não recebiam
71,4% tinham máquina e 45,6%, computador.
Fonte:
Agência IBGE de Notícias – Editoria: Estatísticas Sociais - 06/05/2020
sexta-feira, 1 de maio de 2020
COLETIVIDADES LIBERTÁRIAS NA ESPANHA - GASTÓN LEVAL
Governo e partidos
A colaboração política
(tradução: Jean
Fecaloma)
Muito embora o objetivo
deste livro seja a descrição, tão exata quanto possível, das realizações
socioeconômicas da revolução libertária espanhola no período de 1936-1939, o
autor crê necessário expor, ainda que de modo muito resumidamente - para
facilitar a melhor compreensão de alguns fatos - as condições políticas dentro
das quais estas realizações têm sido levadas a cabo. Já entramos neste aspecto
no capítulo intitulado Materiais para uma
revolução, mas é necessário acrescentar, especialmente para os leitores correntes
das ideias e doutrinas libertárias, algumas precisões indispensáveis.
Temos insistido
repetidas vezes que esta revolução expressava a resistência da extrema esquerda
ao ataque fascista. Esta extrema esquerda, composta, nesse caso, pela CNT e FAI,
havia professado, e continua a professar, um antigovernamentalismo e um anti-estatismo
intransigentes. Todavia, pela primeira vez na história, vemos a organização
libertária mais poderosa do mundo, que sempre havia proclamado a superioridade
da ação direta e que, portanto, havia rechaçado como uma piada de mau gosto a
hipótese de um dia tomar parte de um ministério governamental, enviar ao governo
quatro ministros: Juan Peiró, ministro da Indústria; Federica Montseny, ministra
da Saúde; Juan Garcia Oliver, Ministro da Justiça; e Juan Lopes, Ministro do
Comércio Exterior.
Sem dúvida, anteriormente,
outros três ministros, chamados conselheiros, já haviam entrado no governo
Catalão residente em Barcelona, chamado Generalidad.
Quando estas decisões
foram tomadas, o autor deste livro não se encontrava na Espanha, já que residia
na República da Argentina, e não teve a menor responsabilidade nessa extraordinária
metamorfose. Quando pôde desembarcar em Gibraltar, e transladar-se logo a
Málaga, com vários meses de atraso, causado pela situação ilegal perante as
autoridades consulares de seu país, os novos ministros já haviam tomado posse
de seus cargos. Portanto, esta contingência confere ao autor maior objetividade
para desenvolver uma explicação que lhe parece necessária. Pois, a colaboração
ministerial e a participação até então inédita na administração dos municípios
têm exercido uma influência negativa – sobretudo, no primeiro caso - ou
positiva - no segundo caso -, tendo sido, frequentemente, decisiva no movimento
libertário e no curso da revolução.
Digamos, então, que o
que motivou a organização libertária a tomar parte do governo espanhol foi a
guerra propriamente dita, o ataque franquista e o temor ante a consolidação na
Espanha de um governo fascista cujas consequências catastróficas podiam ser
facilmente prevista, como de fato se verificou depois.
Com efeito, apesar das
mentiras e dos excessos retóricos a que se davam os governantes republicanos,
os oradores, os periodistas, os porta-vozes dos partidos e, também, certos tribunos
libertários – acredito que para conceder algum alento à resistência -, a dúvida
sobre a vitória final vicejou em certos espíritos antes mesmo das forças franquistas
chegarem a Madrid, ao aeroporto de Gatafe, e, ao norte, tomado certas cidades
ou sitia-las. É bem verdade que foram bloqueadas na Sierra de Guadarrama; mas a
posição dos antifascistas era defensiva e carecia dos elementos de ataque necessários
para intentar uma contraofensiva vitoriosa. Por outra parte, a ajuda da Itália
fascista e da Alemanha nazista às tropas de Franco fez com que surgissem numerosas
interrogações a todo espírito reflexivo sobre o êxito das forças antifascistas.
Era perfeitamente
lógico que a grande maioria da população da Espanha republicana estivesse
dominada pelo temor da vitória franquista, e não compreendesse que as forças
políticas e sociais organizadas em partidos e setores revolucionários antifascistas
não constituiam uma frente única necessária para fazer frente ao assédio
fascista. Indiferente aos problemas de índole filosófica, desejava que a CNT e
a FAI - esta última muito menos poderosa - entrassem no governo a fim de
assegurar a união de um bloco que podia assegurar a vitória.
Os líderes da CNT e, depois,
os da FAI, que frequentemente eram os mesmos, começaram por resistir a dar
passo nessa direção; sem dúvida alguma, inspirados por sua oposição tradicional
a todo governamentalismo e, por conseguinte, à política partidária. Mas como,
com efeito, ante o perigo cada vez maior, e, daí, a mais ampla unificação
parecia se impor, imaginaram eles uma solução revolucionária: o governo
deixaria de existir e seria substituído por um conselho de defesa composto por
cinco membros da CNT, cinco da UGT e quatro membros dos partidos políticos. Isso
estabeleceria a supremacia das organizações sindicais sobre todos os partidos,
matando dois coelhos com uma cajadada só.
Baseada nas forças
numéricas dos distintos setores, esta representação podia parecer justificada.
Mas também era verdade que, se os partidos políticos tinham, comparativamente,
pouquíssimos aderentes, tinham com eles o apoio de seu eleitorado. Numa Espanha
em que metade de seu território encontrava-se invadido pelo fascismo, a CNT e a
UGT contavam ainda com 1.200.000 aderentes cada uma - talvez o número nas
fileiras da UGT era menor. No entanto, os militantes da UGT estavam, em sua
grande maioria, sobre a influência de seus quadros socialistas. Já a CNT
contava com quadros libertários e a maioria de seus aderentes não aceitariam
uma manobra tão demasiadamente explícita, pelo qual significaria uma
capitulação de princípios.
Tampouco aceitariam se
submeter a homens de estado, políticos, profissionais do governo, republicanos,
socialistas e regionalistas - catalães ou bascos -, cuja influência perdurava
sobre a maioria da população regional ou nacionalmente considerada. A
participação no governo estava fadada ao fracasso.
Todavia, a necessidade
de um bloco unificado se impunha inclusive a certos libertários ou
sindicalistas revolucionários. Um deles, Horácio Pietro – que, então, era
secretário da CNT e que se encontrava em Madrid - decidiu convencer os seus
companheiros da necessidade de dar um passo que lhe parecia necessário, aderindo
ao gabinete de união antifascista. Com efeito, tomou contato com Largo
Caballero, a quem acabava de ser nomeado presidente do Conselho porque era
considerado, nas altas esferas políticas, como o homem que - por sua
verbosidade revolucionária – podia melhor incitar as massas para a luta. E Largo
Caballero, velho profissional do poder e da politicagem, que, para manter sua
popularidade nas massas, havia tomado atitudes de um esquerdismo intransigente
no Partido Socialista antes do ataque franquista, pensou que poderia formar uma
aliança com os ministros cenetistas contra seus adversários do momento, que eram
especialmente comunistas, cuja influência crescia rapidamente após a Rússia
(URSS) enviar armas... devidamente vendidas mediante pagamento adiantado em
ouro do Banco da Espanha.
Assim, os dois homens se
puseram de acordo. A CNT decidiu então integrar o governo e ocupar cargos (dois
sindicalistas revolucionários e dois militantes faístas). Por outra parte, dois
anarquistas e um sindicalista cenetista haviam entrado no governo Regional de
Catalunha.
Pode se atribuir, esse
abandono de princípios, a razões subjetivas, de caráter discutível. Contudo,
quem analisa os fatos com o desejo sincero de compreender e explicar o que
realmente aconteceu, deve reconhecer que a situação era sumamente complexa. O
único modo de escapar ao dilema da colaboração governamental ou enfraquecimento
da resistência perante o franquismo seria a formação de uma organização autônoma
de combate, ainda que solidária ao exército oficial republicano, mas mantendo
uma força própria e aplicando o método de uma amplíssima guerra de guerrilha.
Mas, digamos, sem ressalvas, faltavam as qualidades de organização, a
envergadura e a preparação necessárias para tanto. Desde 1931, no livro Problemas Económicos de La Revoluçión Española,
o autor destas linhas havia dedicado um capítulo referente à luta armada, de
onde, sem querer dar lições de estratégia militar - pois nunca foi um soldado -,
recordava a forma de combate pelo qual se distinguiam tantos caudilhos, como El
Empecinado, durante a guerra antinapoleônica, na qual os mais destacados
generais (Massena e outros "meninos mimados da vitória", como os
chamava o Imperador) foram batidos por camponeses armados de foices e facões. Explicava
aos companheiros o erro que implicaria adotar métodos dos exércitos modernos em
lugar de recorrer às táticas da guerra revolucionária, nascidas muito antes que
Mao-tse Tung houvesse intentado a definir à sua maneira.
Os que se improvisavam
chefes e comandantes de tropa não tinham consciência formada sobre esses problemas
e careciam de iniciativas. Deixou-se ao adversário tempo suficiente para
aumentar o seu armamento, a possibilidade de ganhar terreno e o momento mais favorável
para atacar. O gênio tático de um Makhno, que obrigou o general Denikin na
Ucrânia interromper sua marcha sobre Moscou, faltou por completo.
E, desgraçadamente, os
homens destacados pelo nosso movimento não puderam estar à altura no terreno
político tanto quanto no terreno militar. Sendo quatro ministros contra doze,
sua influência foi nula.
A única obra séria que
se fez durante a guerra civil foi, precisamente, a revolução, à margem do
poder. As coletivizacões industriais, as sindicalizacões da indústria e dos
serviços públicos, a socialização agrária, enfim, tudo o que resistiu por cerca
de três anos, sem o qual Franco teria triunfado em algumas semanas, tem sido
obra dos libertários, que criaram e organizaram tais realizações sem se
preocupar com os ministros e os ministérios. Do ponto de vista da dinâmica da guerra
- a resistência a Franco - nossos ministros não puderam lograr nada de útil. E,
às vezes, enganados por falsas notícias oficiais, fizeram eco à
responsabilização dos nossos combatentes por derrotas inevitáveis provocadas
pelo abandono deliberado das frentes de batalha, como foi o caso da queda de
Málaga. Não puderam impedir a sabotagem da frente de Aragão, ao qual o governo
de Madrid deixou sem artilharia, sem aviação, sem defesa antiaérea. Durante o
primeiro ano da guerra era possível desfazer o ataque fascista; as forças
militares inimigas se compunham de alguns milhares de homens, dirigindo suas
caminhonetes, acudindo aqui e ali, onde o perigo surgia. Com cinquenta mil
combatentes, devidamente equipados, seria possível conquistar Saragoça. E,
precisamente, esta era a intenção de Durruti. Mas foi impossível, pela ausência
de granadas e balas, o que impediu afrouxar o cerco de Madrid. As armas
disponíveis, sempre pagas adiantado com ouro do Banco de Espanha, eram enviadas
à frente do Centro - invulnerável, se temos em conta as posições estratégicas
ocupadas pelos fascistas - mas de onde os generais russos ditavam a lei e de
onde mandavam quase unicamente os comunistas. A mesma situação se produziu na
frente andaluz e extremenho, onde as ofensivas tinham lugar, em condições tais,
que estavam condenadas ao fracasso. Frequentemente,
nossas forças enviadas ao ataque se encontravam com as forças inimigas
infinitamente mais numerosas que as obrigavam a abrir caminho à baioneta calada
para evitar o aniquilamento, mas deixando assim inumeráveis companheiros
tombados. Era como se os generais fascistas e stalinistas estabelecessem um
acordo para desencadear tais matanças. Há de se reconhecer que Stalin era capaz
disso e muito mais: muitos relatos da guerra permitem conjeturar esta hipótese.
Recordemos também o pacto firmado com Hitler.
Outro aspecto da
sabotagem que contribuiu com a derrota foi a negativa do governo de Valência a
prestar ajuda financeira a Barcelona para a compra armas ou o material para a
sua fabricação. Este fato, ao qual fomos informados tão prontamente quando
chegamos a Barcelona, nos fez duvidar da vitória derradeira, que não podia se
assegurar com manifestações de rua cujos participantes desfilavam com o punho
cerrado para o alto e gritavam: “Não passarão!”
Contra tais manobras e
muito mais, nossos ministros nada puderam. Seus protestos caíram no vazio, e
comprometidos pela solidariedade antifascista sabiamente explorada, evitaram “o
espetáculo das nossas divergências”. Atitudes de homens como o stalinista Jesus
Hernandes, que, por ordem de Moscou, derrubaram o ministro Largo Caballero,
denunciavam, um pouco tarde demais, o modo como a política do governo era dirigida,
por maioria, segundo as ordens do Komintern, e puderam assegurar que esses mestres
da intriga não davam o menor caso aos desacordos e protestos dos nossos
ministros. Enfim, esta inserção no mundo governamental oferece um balanço
absolutamente negativo.
Nota sobre a tradução:
Fiz uma tradução quase literal, alterando apenas os trechos de difícil compreensão.
O prazo de entrega no Primeiro de Maio, a tradução feita na véspera e uma forte
enxaqueca me impediram de fazer uma revisão. Peço desculpas de antemão. Jean
Fecaloma
LEVAL, Gastón. Gobierno y partidos: La colaboración política
in: “Colectividades libertarias en españa” - Tomo 2, Editorial Proyección:
Buenos Aires.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
MARCO POLO A CAMINHO DA CHINA – OUTRA VEZ
Todos
os caminhos parecem levar a Roma. Itália manifesta o mais puro amor pela
Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).
por Pepe Escobar
Traduzido pelo
Coletivo Vila Mandinga
O
presidente Xi Jinping é esperado na Itália em visita oficial, dia 22 de março.
Principal tema de discussão será a Nova Rota da Seda, ou a Iniciativa Cinturão
e Estrada (ICE).
Um
dia antes, em Bruxelas, a União Europeia deve debater uma estratégia comum
relacionada aos investimentos chineses na Europa.
Parte
substancial da União Europeia já está conectada de facto com a ICE. Incluem-se
nisso Grécia, Portugal, 11 nações da União Europeia que constituem o Grupo
16+1, de China plus Europa Central e Oriental e, para todas as finalidades
práticas, Itália.
E
ainda assim, quando uma subsecretária no Ministério de Desenvolvimento
Econômico da Itália, Michele Geraci, disse ao Financial Timesque durante a
visita de Xi será assinado um memorando de entendimento de apoio à ICE, o
inferno (Casa Branca) desabou sobre o mundo.
O
FT não se acanha de opinar pesadamente, e apresenta a ICE como "discutível
programa de infraestrutura" [ing. contentious infrastructure program]. A
Iniciativa Cinturão e Estrada é projeto vasto, de longo alcance e longo prazo
de integração da Eurásia, pode-se dizer, o único programa de desenvolvimento
quase global que há no mercado, qualquer mercado. É especialmente
"discutível" no caso de Washington – porque o governo dos EUA, como
detalhei noutro artigo, decidiu
trabalhar contra o programa, em vez de tratar de lucrar com ele.
Um
porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca tentando zombar da
ICE ("iniciativa made by China, para proveito da China") não facilita
as coisas. Se fosse projeto tão daninho, nada menos que 152 países e organizações
internacionais – e o número continua a aumentar –, já não teriam apoiado
formalmente a ICE.
A
resposta semioficial da China à Casa Branca, diferente das expressões
diplomáticas de sempre do Ministério de Relações Exteriores, veio num editorial
mordaz, não assinado, publicado no Global Times ["Se Europa continua a
seguir as loucuras dos EUA, todos perdem", traduzido no Blog do Alok], que
acusa a Europa de deixar-se submeter à política exterior dos EUA e a uma
aliança transatlântica senil, que não corresponde às suas reais necessidades no
século 21.
Geraci
diz o óbvio: o elo com a ICE permitirá que mais produtos Made in Italy sejam
exportados para a China. Como alguém que vive entre Europa e Ásia, sempre
discute a ICE quando na Itália, vejo exatamente isso o tempo todo. O apelo do
Made in Italy para o consumidor chinês – comida, moda, arte, design de
interiores, para nem falar daqueles Ferraris e Lamborghinis – é fantásico,
maior, até que o apelo das marcas francesas. Turistas chineses amam Veneza,
Florença e Roma, querem sempre mais. Como também amam fazer compras em Milão.
Washington
nada conseguirá com sua ladainha de que a ICE obra contra os EUA na guerra
comercial – dado que, seja como for, pode ser iminente algum tipo de acordo
Xi-Trump. E Bruxelas, por seu lado, já está profundamente dividida,
especialmente por causa da França.
O
business alemão sabe que a China é o mercado preferencial, presente e futuro;
além do mais, um dos principais terminais da Nova Rota da Seda é Duisburg, no
vale do Ruhr.
Estamos
falando da conexão Yuxinou para trem de transporte de contêineres, ferrovia de
cerca de 11 mil km, ativa desde 2014; Chongqing, Cazaquistão, Rússia, Belarus,
Polônia, direto até Duisburg. Yuxinou (sigla de Chongqing-Xinjiang-Europa), um
dos corredores chaves das Novas Rotas da Seda, deve passar por upgrade que o
converterá em ferrovia para trens de alta velocidade na próxima década.
Há
quase um ano, expliquei com algum detalhe em Asia Times o modo como a Itália já
está conectada à ICE.
Essencialmente,
trata-se da Itália – 3ª nação europeia em comércio marítimo – já configurada
como o principal terminal do sul da Europa, na ICE; porta de entrada para rotas
de conectividade que vêm o leste e do sul, ao mesmo tempo em que também serve,
de modo custo-efetivo, a quase incontáveis destinos no oeste e norte.
Absolutamente
chave no projeto é a atual modernização do porto de Veneza – canalizando linhas
de suprimento que vêm da China, pelo Mediterrâneo, para Áustria, Alemanha,
Suíça, Eslovênia e Hungria. Veneza está sendo reconfigurada como superporto
alternativo a Rotterdam e Hamburgo – que também são conectadas à Iniciativa
Cinturão Estrada. Chamei de a Batalha dos Superportos.
Independentemente
do que Washington, a City de Londres e inclusive Bruxelas possam pensar, tudo
isso é assunto que Roma – e Milão – identificam como questão de interesse
nacional italiano. E considerando o imorredouro caso de amor que liga os
chineses com todas as manifestações de Made in Italy, o ganha-ganha mais uma vez
ganha.*******
Pepe
Escobar, Asia Times, 9/3/2019
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