quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Um Ano Novo Difícil para a Economia

 


por Desmond Lachman

A complacência generalizada de hoje sobre as perspectivas econômicas dos EUA nos lembra a situação que existia na véspera da Grande Recessão Econômica de 2008-2009. Assim como naquela época, quando a visão consensual esperava crescimento econômico contínuo apesar dos grandes riscos econômicos visíveis, hoje o consenso é de que continuaremos a ver crescimento econômico no próximo ano. Isso ocorre apesar dos níveis recordes de dívida pública, dos ataques à independência do banco central, do desmoronamento da ordem comercial internacional e das condições de bolha no mercado de ações dos EUA e no mercado de crédito privado. Se a história servir de guia, a visão econômica consensual de hoje se mostrará tão equivocada quanto a de 2008.

Se há algo sobre o qual a visão consensual de hoje está surpreendentemente complacente, é o estado alarmante das finanças públicas do país. Não importa que o Fundo Monetário Internacional esteja alertando que o déficit orçamentário dos EUA permanecerá em torno de 7% do PIB por tempo indeterminado. Não importa que nossa dívida pública esteja em um caminho para atingir cerca de 128% do PIB até 2030. Esse é um nível que superaria o final da Segunda Guerra Mundial e que é mais associado a países como Grécia ou Itália.

Uma vulnerabilidade chave da economia dos EUA é sua alta dependência de estrangeiros para financiar seus déficits orçamentário e de comércio. De fato, de acordo com o Tesouro dos EUA, estrangeiros atualmente detêm US$ 8,5 trilhões, ou cerca de 30% dos US$ 29 trilhões de títulos do Tesouro dos EUA em circulação. Isso torna imperativo que mantenhamos a confiança dos investidores estrangeiros de que iremos honrar nossa dívida corretamente, caso queiramos que eles renovem seus títulos do Tesouro que estão vencendo e ajudem a financiar nosso déficit orçamentário de US$ 2 trilhões por ano.

Um risco importante para nossa economia no próximo ano é que, em um momento de grandes déficits orçamentários, o presidente Trump continue a minar a independência do Federal Reserve e a exigir cortes significativos nas taxas de juros, apesar da inflação estar acima da meta de 2% do Fed. Isso poderia fazer com que tanto investidores domésticos quanto estrangeiros acreditassem que os EUA tentariam inflacionar sua maneira de sair sob sua montanha de dívidas. Se isso acontecer, poderíamos ver um aumento acentuado nos custos de empréstimos de longo prazo, o que reverberaria por toda a economia e pelos mercados financeiros globais.

Se em 2008 tivemos uma bolha no mercado imobiliário, hoje temos uma bolha da Inteligência Artificial (IA). O investimento em IA agora representa cerca de metade do crescimento do PIB e impulsionou o mercado de ações para condições de bolha semelhantes à bolha da internet de 2001. Medido pela Razão Preço/Lucro Ajustada Ciclicamente (CAPE), o S&P 500 de hoje tem um valor CAPE de 40. Isso é mais que o dobro da sua média de longo prazo. Enquanto isso, as chamadas “Magnificent Seven” – as sete empresas que dominam o setor de IA – agora representam cerca de 35% do valor total do S&P 500. Não é surpresa, então, que o Banco de Pagamentos Internacionais e lendas do investimento como Warren Buffett e Ray Dalio estejam alertando sobre os perigos da bolha da IA.

No contexto das condições de bolha no mercado de ações e no mercado de crédito privado, a última coisa que a economia dos EUA precisa são taxas de juros mais altas a longo prazo. Essas taxas provavelmente estourariam a bolha da IA, causando um declínio abrupto nos investimentos em IA e uma queda acentuada nos preços das ações dos EUA. Por sua vez, a combinação de investimento em declínio e uma grande perda de riqueza das famílias poderia levar a economia dos EUA à recessão. No entanto, as chances de um aumento nas taxas de juros de longo prazo nos EUA parecem altas, considerando nosso enorme déficit orçamentário e a tentativa de Trump de minar a independência do Fed.

Vulnerabilidades econômicas no exterior podem adicionar desafios econômicos àqueles que enfrentamos internamente. A dependência excessiva da China de exportações e investimentos para impulsionar sua economia poderia provocar uma reação protecionista dos EUA e da Europa. Isso poderia levar a uma maior quebra no sistema comercial internacional. Ao mesmo tempo, as políticas orçamentárias irresponsáveis do novo primeiro-ministro do Japão, Sanae Takaichi, poderiam causar um dia de acerto de contas para a economia altamente endividada do Japão. Isso poderia levar a um aumento nos rendimentos dos títulos de longo prazo do Japão e à repatriação de capital japonês dos Estados Unidos.

Tudo isso não parece bom para Trump nas próximas eleições de meio de mandato. Já com problemas de acessibilidade, a última coisa de que ele precisa é de um revés econômico na forma do estouro da bolha da IA.

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O Fim do Imperialismo Estadunidense: Uma Análise Marxista

 

E os Estados Unidos. se tomarmos sua economia, da aveia aos couraçados de último tipo, ocupam o primeiro lugar. Eles produzem todas as necessidades da vida até a metade ou dois terços de tudo que é produzido pela humanidade.
Leon Trotski, Izvestia, 5 de agosto de 1924.

O Deslocamento Histórico do Centro Capitalista: Da Inglaterra à China

A dinâmica histórica do modo de produção capitalista é, em sua essência, a história da busca incessante pela valorização do valor, pela acumulação. Esse processo, longe de ser estático, provoca contínuos deslocamentos geográficos do epicentro da produção mundial. O capital fixa seu coração onde encontra as condições mais propícias para a extração de mais-valia, apenas para, mais tarde, seguir em frente quando as contradições internas de seu sucesso se tornam barreiras intransponíveis. Foi assim que o centro se moveu da Inglaterra para os Estados Unidos e, agora, estabeleceu-se de forma incontestável na China.

A Inglaterra: O Berço da Produção Capitalista e a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro

Foi na Inglaterra que a Revolução Industrial concretizou plenamente as relações capitalistas de produção. A introdução maciça de maquinário – a forma material mais pura do Capital Constante (CC) – revolucionou o processo produtivo. No entanto, essa mesma mecanização, que elevava produtivamente a composição orgânica do capital (a relação entre CC e Capital Variável (CV), este último representando a força de trabalho viva), continha em si uma contradição fatal. Conforme o CC aumenta em proporção ao CV, a fonte única de todo o lucro – o trabalho não pago, a mais-valia extraída do CV – vê sua base relativa diminuir. Esta é a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro, postulada por Marx. A elevação da composição orgânica do capital, necessária para a competição interimperialista da época, acabou por expulsar trabalhadores da produção, criando um exército industrial de reserva e, paradoxalmente, minando a própria taxa de lucro do sistema em sua configuração inglesa.

A Ascensão dos EUA: O Novo Centro e a Fuga para a Frente

Os Estados Unidos emergiram como o novo centro hegemônico ao absorver e recombinar as forças produtivas em uma escala continental. Com uma fronteira aberta à "acumulação primitiva" interna e um fluxo constante de imigrantes que servia como um exército industrial de reserva renovável e barato, o capital americano pôde, por um tempo, contrabalançar a queda da taxa de lucro através da expansão extensiva e intensiva. A produção em massa, notadamente o fordismo, representou o ápice desta fase, integrando o trabalhador também como consumidor. No entanto, a mesma lógica da mecanização e da elevação do CC persistiu. A busca por produtividade levou, mais uma vez, à expulsão progressiva de trabalhadores do chão de fábrica, preparando o terreno para a próxima grande contradição.

A Desindustrialização e a Financeirização: A Economia dos EUA como um Banco Quebrado

Incapaz de sustentar taxas de lucro elevadas na produção industrial face à concorrência emergente e aos próprios limites internos da lei de Marx, o capital estadunidense engajou-se em uma "fuga para a frente" histórica: a desindustrialização e a financeirização. A produção real, geradora de valor, foi progressivamente terceirizada para nações com custos de CV drasticamente inferiores, culminando no deslocamento para a China. O que restou nos EUA foi uma economia voltada para o setor de serviços, de baixo valor agregado, e, sobretudo, para o domínio do capital fictício.

O capital fictício – ações, títulos, derivativos e todo tipo de título de dívida – é uma reivindicação sobre riqueza futura, não riqueza real presente. A economia dos EUA tornou-se um gigantesco cassino financeiro, onde a valorização parece ocorrer sem a mediação da produção. Esta é uma ilusão perigosa. A dívida nacional de quase 40 trilhões de dólares é o testemunho mais claro deste fenômeno: é um montante que, em última instância, não pode ser quitado pela base produtiva real, definhada do país. Uma economia que substitui fábricas por bancos e inovação técnica por alavancagem financeira é, em essência, um banco quebrado, sustentado apenas pela confiança e pela hegemonia do dólar, que se enfraquece a cada dia.

O Imperialismo Fantasma e o Colapso da Acumulação Primitiva Interna

A noção de um imperialismo estadunidense todo-poderoso é, hoje, um fantasma. O imperialismo real, no sentido clássico de exportação de capital e dominação de cadeias produtivas, tem hoje seu centro em Pequim, não em Washington. O que resta aos EUA é um imperialismo militarista capenga e financeiro, uma casca vazia que tenta manter pela força e pela especulação o que perdeu em capacidade produtiva. Neste contexto, políticas anti-imigração, como as defendidas por Trump, são um tiro no pé do já debilitado organismo econômico norte-americano.

A imigração foi, e sempre será, um componente vital da "acumulação primitiva" descrita por Marx. É o camponês expulso de suas terras, o trabalhador do Sul global em fuga da miséria, que tradicionalmente forma a massa de Capital Variável barato e superexplorável, permitindo a extração de mais-valia absoluta em setores-chave. Expulsar o imigrante, em uma economia que já expulsou sua própria base industrial, é agravar a escassez de CV em setores de baixo salário, acelerar a crise de reprodução da força de trabalho e aprofundar a estagnação. É uma política que ignora por completo a história do capitalismo e a função do trabalhador migrante como uma das alavancas primordiais da acumulação.

A Bolha da IA: O Ápice do Capital Constante e a Expulsão Final do Trabalhador

A atual euforia em torno da Inteligência Artificial representa o ápice histórico da tendência de elevação do Capital Constante. Um data center de IA é a materialização mais pura e avançada deste conceito: uma infraestrutura de custo astronômico (CC extremamente elevado) que requer uma quantidade ínfima de trabalhadores (CV tendendo a zero) para operar. Enquanto gera lucros extraordinários para uns poucos monopólios, a IA, enquanto força produtiva sob relações capitalistas, é um motor brutal de expulsão de trabalhadores de setores intelectuais e criativos, replicando em escala ampliada o que a mecanização fez com o trabalho manual.

Esta não é a solução, mas a culminação da contradição. A bolha da IA, alimentada por capital fictício especulativo, está prestes a explodir porque sua base de valorização é ilusória. Ela não cria novo valor em escala correspondente ao capital nela investido; pelo contrário, ao eliminar massivamente postos de trabalho, ela destrói a própria base consumidora e a fonte de toda mais-valia. A promessa de uma nova era de prosperidade baseada na IA é a mesma promessa falida de todas as bolhas tecnológicas anteriores, só que agora em um contexto de economia já profundamente financeirizada e desindustrializada.

As Políticas Mercantilistas de Trump: O Caminho Acelerado para o Colapso

Neste panorama de fragilidade extrema, as políticas econômicas mercantilistas e protecionistas de um eventual novo governo Trump atuam como um acelerador do colapso. Guerras comerciais, tarifas e a ilusão de "trazer os empregos de volta" ignoram a lógica elementar do capital globalizado. Elas não revertem a composição orgânica do capital; pelo contrário, ao encarecerem insumos e desorganizarem cadeias produtivas globais, elas elevam ainda mais o Capital Constante necessário para a produção residual nos EUA, acelerando a queda da taxa de lucro. O resultado não será a reindustrialização, mas uma inflação galopante, uma crise de abastecimento e um aprofundamento dramático da crise do capital fictício, já que a dívida de 40 trilhões se tornará impagável em um ambiente de recessão e perda de confiança global. A tentativa de resgatar um capitalismo produtivo que não existe mais, através de métodos do século XVIII, só pode levar a economia dos EUA a um colapso ainda mais drástico e definitivo. O centro do capitalismo já se moveu, e o que resta no antigo núcleo é um castelo de cartas prestes a desmoronar.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Censura nas redes: O Ocidente contra o mundo

 

Sob um céu baixo e pesado, como o que pairou sobre o vale de Elá, erguem-se duas realidades que se confrontam num palco de areia e ruína. De um lado, uma figura frágil, uma Davi dos nossos tempos, cuja arma não é a funda de couro, mas a verdade nua e crua que corta o ar como um seixo. Greta, com o lenço palestino — a Keffiyeh — enrolado no pescoço como um símbolo de identidade roubada e resiliência, não está sozinha. À sua frente, uma multidão de rostos marcados pela ocupação, cada mão fechada em torno de uma pedra. Não são meros pedregulhos; são a materialização da Intifada, o grito de um povo que, sem tanques nem aviões, ergue as próprias montanhas contra o aço. É a revolução do improvável, onde a pedra, arma primordial, desafia a lógica da destruição moderna.

Do outro lado do campo, Golias não é um só. É uma legião de poderes vestidos em ternos caros e uniformes imaculados. Netanyahu, de pé como um comandante de uma fortaleza inexpugnável, carrega não uma espada, mas o peso esmagador de um aparato militar. Ao seu lado, Donald Trump, com o tacape do negacionismo e a bolsa de comércio que corrói alianças; Friedrich Merz, com a frieza calculista de quem ergue muros burocráticos; Keir Starmer, com a espada embotada de um pragmatismo que trai princípios; Ursula von der Leyen, brandindo o cetro de uma União que prega valores enquanto firma acordos sob escombros; e Macron, com a armadura reluzente de um projeto europeu que muitas vezes soa como eco vazio perante o clamor dos oprimidos. Todos eles, Filisteus da ordem vigente, fortemente armados com exércitos, leis, drones, sanções econômicas e a narrativa inabalável do status quo.

A batalha, porém, não se trava na lógica deles. A força de Davi nunca residiu na musculatura, mas na precisão do seu gesto. O estilingue que Greta empunha é a sua voz — uma funda que lança não pedras, mas perguntas incômodas, verdades que furam escudos de aço e blindagens de indiferença. Cada palavra sua é um seixo arredondado pelo rio da ciência e da justiça, e quando parte do estilingue da consciência coletiva, não busca matar um gigante, mas acertar-lhe na testa da sua própria contradição. A pedra que ela lança é a pergunta: "Como se atrevem?". E essa pedra, ao atingir o frontal da complacência global, não derruba um homem, mas expõe a fragilidade de todo um sistema construído sobre a exploração e o silêncio.

Os palestinos com as suas pedras não são um exército no sentido convencional; são a encarnação da resistência desesperada. As suas pedras são o último recurso dos que não têm nada a perder, o argumento final quando todas as outras palavras foram soterradas sob bulldozers e assentamentos. E juntos, a jovem com o lenço e o povo com as pedras, formam um só corpo — um Davi coletivo que desafia não um, mas todos os Golias do mundo. Eles representam o poder disruptivo daqueles que são demasiado pequenos para serem vistos como ameaças, até que o seu desafio ecoa tão alto que abala os alicerces dos tronos.

Nesta analogia bíblica revisitada, o conflito não é entre nações, mas entre a voz da casa e a força da fortaleza; entre a pedra da dignidade e o míssil da dominação. E enquanto o gigante avança, confiante no seu poderio, não percebe que a verdadeira batalha já está perdida para ele no momento em que uma criança com um lenço e um povo com pedras se tornam o espelho no qual o mundo é forçado a ver o seu próprio reflexo quebrado. O estilingue já foi armado. E o ar, carregado de um silêncio que precede o estrondo, aguarda o arremesso que, independentemente do desfecho imediato, já mudou para sempre a geometria do campo de batalha.

*****

É inegável que a internet, em sua gênese, foi idealizada como um território livre, um espaço democrático onde todas as vozes poderiam ecoar sem barreiras. No entanto, a realidade contemporânea revela um panorama mais complexo e menos idílico: o surgimento de uma forma sutil, porém poderosa, de censura, não imposta por decretos explícitos, mas administrada silenciosamente pelos algoritmos controlados por grandes corporações do Ocidente. Esta não é a censura tradicional, com tesouras e editais, mas uma moderação algorítmica e assimétrica que, sob o pretexto de combater a desinformação e o discurso de ódio, acaba por moldar o consenso e silenciar visões dissidentes.

Esses algoritmos, desenvolvidos e mantidos por gigantes da tecnologia como Meta, Google, Twitter (X) e outras plataformas, são as portas de entrada para a informação moderna. Eles decidem o que vemos nas nossas redes sociais, nos resultados de busca e nos feeds de notícias. A sua programação, contudo, não é neutra. Ela é impregnada por valores culturais, políticos e comerciais específicos do ambiente societário em que essas empresas estão inseridas. O que é considerado "discurso de ódio", "desinformação" ou "conteúdo perigoso" é frequentemente definido por um conjunto de padrões ocidentais que podem não levar em conta nuances culturais, contextos históricos ou perspectivas geopolíticas alternativas.

O mecanismo é insidioso. Um post, um vídeo ou um perfil pode ser "rebaixado" nos algoritmos, tornando-se praticamente invisível, sem que o usuário sequer seja notificado. Canais inteiros são desmonetizados no YouTube, contatos têm seu alcance drasticamente reduzido no Facebook e Instagram, e tuítes são marcados com avisos no X, tudo por decisão automatizada ou por moderadores que seguem diretrizes opacas. O efeito é a criação de um "consenso artificial". O usuário médio, ao ver apenas um espectro específico de opiniões sendo promovido e engajado, passa a acreditar que aquela visão representa a maioria, a normalidade, enquanto visões alternativas são marginalizadas e transformadas em tabus.

Esta dinâmica tem um impacto profundo no discurso político global. Narrativas que se alinham com os interesses e a visão de mundo hegemônica do Ocidente são amplificadas, enquanto perspectivas críticas a essas mesmas estruturas de poder—sejam elas provenientes do Sul Global, de países sob sanções ou de movimentos dissidentes internos—são sistematicamente sufocadas. A justificativa é quase sempre técnica e bem-intencionada: manter a comunidade segura. No entanto, o resultado prático é a erosão da pluralidade de ideias, criando uma esfera pública digital que, longe de ser um ágora aberta, assemelha-se mais a um jardim murado, podado de acordo com os critérios de seus jardineiros.

Portanto, falar de censura na internet hoje é ir além da figura clássica do censor estatal. É reconhecer a existência de um controle soft, privatizado e algorítmico, exercido a partir de polos de poder tecnológico no Ocidente. Esta censura não precisa de um rosto ou de um édito; ela opera na sombra do código, moldando silenciosamente a opinião pública global e definindo, sem alarde, os limites do que é permitido pensar e dizer no mercado de ideias do século XXI.

Exemplo:

Eu solicitei uma charge ao Gemini IA através do seguinte prompt:

Faça uma ilustração (charge) que deverá ser uma analogia a Davi e Golias. De um lado, Greta Thunberg (Davi), com um estilingue na mão, à frente de palestinos. Greta usa um lenço palestino (Keffiyeh) no pescoço) e os palestinos seguram pedras (Intifada). De outro lado, Netanyahu (Golias), Donald Trump, Friedrich Merz, Keir Rodney Starmer,  Ursula von der Leyen e Macron (filisteus), todos fortemente armados.

Resposta:

Posso ajudar com imagens de pessoas, mas não consigo representar algumas figuras públicas. Há mais alguém que gostaria de tentar?

Foi para o ChatGPT e refiz o pedido. Resposta:

Posso fazer essa ilustração, sim — mas antes preciso confirmar alguns detalhes importantes: a imagem que você descreveu tem forte conteúdo político e envolve figuras públicas em um contexto de conflito real. Para garantir que ela siga as diretrizes de uso responsável de imagens, posso criar uma charge alegórica, mantendo a mensagem simbólica (a luta entre o pequeno e o poderoso), sem representar violência direta nem incitação contra pessoas reais.

Posso, por exemplo, representar:

Greta Thunberg como uma jovem com um estilingue e um lenço no pescoço, ao lado de figuras genéricas simbolizando resistência civil (sem armas ou pedras explícitas).

Do outro lado, figuras que representam o poder — sem usar os rostos reconhecíveis de Netanyahu, Trump, Merz, Starmer, von der Leyen e Macron, mas com traços que simbolizam políticos ocidentais (terno, bandeiras, símbolos de poder).

A cena pode ser montada como uma charge metafórica, intitulada “O Novo Davi e Golias”, com o contraste entre a juventude/clima/justiça e o poder/armas/política.

Quer que eu faça a ilustração dessa forma — mantendo o simbolismo e a crítica política, mas sem retratar diretamente essas pessoas reais?

Resultado:

Estranhamente o Chat suprimiu o protagonista, o Satanyahu “Golias”!!!

Fiz então uma adaptação com uma outra charge que eu busquei na internet. 

Tentei publicar no Instagram, mas o “post” não publicava o texto. Tentei várias vezes sem sucesso, resultado: apenas 12 curtidas.

No creo en brujas pero que las hay, las hay!


sábado, 4 de outubro de 2025

Uma Análise sobre o Irã e a Estratégia dos Sete Países

 

O livro "Which Path to Persia?", produzido por especialistas da Brookings Institution, representa muito mais do que um simples exercício acadêmico. Esta obra constitui um documento fundamental para compreender a arquitetura estratégica que orientou a política externa norte-americana no Médio Oriente no pós-11 de setembro. A sua análise meticulosa das opções relativas ao Irã não pode ser dissociada do contexto mais amplo da chamada "Estratégia dos Sete Países", um plano real e discutido em círculos neoconservadores e no aparato de segurança nacional dos EUA. A premissa de que se tratava de um projeto de reordenamento radical da região, onde o Irã surgia como o último e mais complexo elo da cadeia, é essencial para uma leitura correta do livro.

O Irã no Contexto do Grande Tabuleiro

A análise apresentada em "Which Path to Persia?" deve ser entendida como o capítulo final de um livro de estratégia mais vasto. A chamada "Estratégia dos Sete Países" - que incluía Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã - não era uma teoria conspiratória, mas sim uma diretriz de ação, conforme atestado por fontes de alto nível como o General Wesley Clark. O seu testemunho sobre a existência de um memorando do Pentágono, que delineava a derrubada destes sete governos em cinco anos, fornece a chave para contextualizar a análise da Brookings. O Iraque foi o primeiro grande teste; o Irã era sempre o prêmio final, o eixo da resistência antiamericana na região. O livro, portanto, não surge no vazio. Ele opera dentro deste paradigma estratégico, procurando a melhor forma de completar um projeto já em andamento.

As Vias Estratégicas para o Objetivo Final

Ao examinar as cinco vias estratégicas para o Irã, o livro revela a evolução do pensamento estratégico americano após os reveses no Iraque e no Afeganistão. A via da Dissuasão ou Contenção representava uma posição mais cautelosa, um reconhecimento de que a campanha de remodelação regional tinha encontrado obstáculos maiores que o esperado. No entanto, esta opção era vista como um plano B, uma forma de gerir o ambiente até que novas oportunidades para ação mais decisiva surgissem. A Opção Militar, analisada em detalhe, era a continuação lógica da lógica aplicada anteriormente ao Iraque. Os autores, embora listando os riscos de uma retaliação iraniana - o encerramento do Estreito de Ormuz, ataques de procuração - estavam a mapear os custos de uma operação considerada inevitável por certos setores, não a rejeitá-la de forma absoluta. Era um exercício de antecipação de problemas, não de dissuasão da ação.

A via da Mudança de Regime refletia as lições aprendidas com as longas e dispendiosas ocupações do Iraque e do Afeganistão. Em vez de uma invasão terrestre massiva, preferia-se explorar fraturas internas no Irã, fomentar agitação étnica e apoiar grupos de oposição para provocar um colapso do sistema a partir de dentro. Esta abordagem de "guerra híbrida" era vista como um meio mais eficaz e com menor custo político para alcançar o mesmo objetivo final: a neutralização do regime teocrático. A via Diplomática, por sua vez, era apresentada não como um genuíno desejo de entendimento, mas como um instrumento tático. A oferta de negociações servia para isolar internacionalmente o Irã e criar um pretexto para a escalada subsequente de pressões, caso o regime, como esperado, se mostrasse intransigente.

A estratégia híbrida de "Engajamento com Sanções" emergia assim como a opção operacionalmente mais sofisticada. Esta era a "cenoura e o bastão" concebida para o estágio final da estratégia mais ampla. O objetivo não era chegar a um acordo, mas sim asfixiar economicamente a República Islâmica, fomentar o descontentamento interno e criar condições para uma intervenção mais direta, justificada pela suposta intransigência iraniana. A conclusão do livro, que aponta esta via como a mais realista, confirmava a transição para uma abordagem de guerra econômica e política como prelúdio para a confrontação final, alinhando perfeitamente com o objetivo de longo prazo de concluir a remodelação do "Grande Médio Oriente".

A Confirmação de um Padrão Estratégico

A ligação entre "Which Path to Persia?" e a Estratégia dos Sete Países é, portanto, direta e orgânica. O livro não é a origem do plano, mas sim um dos seus refinamentos técnicos mais elaborados. Ele trata do último e mais difícil alvo da lista. A negação desta conexão ignora o testemunho de atores-chave como Wesley Clark e o padrão consistente de ações norte-americanas na região durante a primeira década do século XXI. A análise da Brookings não era um mero exercício hipotético; era a blueprint para a fase final de um projeto geopolítico concertado, que visava desmantelar sistematicamente todas as fontes de poder autônomo e resistência à hegemonia dos EUA no coração do mundo islâmico. A história subsequente, com as intervenções e mudanças de regime na Líbia, Síria e Iêmen, e a pressão máxima contínua sobre o Irã, veio confirmar a persistência desta arquitetura estratégica, da qual o livro foi um dos documentos definidores.

domingo, 31 de agosto de 2025

A Geografia como Arma: Uma Resenha de "A Geografia Serve em Primeiro Lugar para Fazer a Guerra" de Yves Lacoste

 

Introdução: Desvendando a Fachada de uma Disciplina

Em 1976, o geógrafo francês Yves Lacoste publicou um livro cujo título, explosivo e direto, funcionava como um manifesto e uma denúncia: "A Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra". Esta obra não é apenas um tratado acadêmico; é um libelo contra a geografia tradicional, uma arma desconstrucionista lançada contra o establishment intelectual da época. Lacoste, com a acuidade de um estrategista e a paixão de um polemista, propõe uma revisão radical da função e da história da disciplina geográfica. Ele argumenta que, por trás de uma fachada apolítica e enfadonha, escondia-se um saber estratégico crucial, um poder de dominação e um instrumento de controle territorial utilizado pelas elites políticas, econômicas e militares. A tese central do livro é que a geografia, longe de ser o estudo inocente de rios, capitais e produções agrícolas, foi e continua sendo um conhecimento fundamental para o exercício do poder, em especial para a prática da guerra, em seu sentido mais amplo.

A Geografia dos Estados-Maiores versus a Geografia dos Professores

Lacoste estabelece uma dicotomia crucial para compreender sua crítica: a distinção entre a "Geografia dos Estados-Maiores" e a "Geografia dos Professores". A primeira, como o nome indica, é a geografia prática, precisa e valiosa utilizada por militares, estrategistas e planejadores. É um conhecimento operacional sobre relevo, hidrografia, recursos, populações e redes de comunicação – informações vitais para mobilizar tropas, conquistar territórios, controlar populações ou explorar economicamente uma região. Esta geografia é poder.

Já a "Geografia dos Professores" seria a versão empobrecida, despolitizada e amplamente difundida nas escolas. Lacoste a vê como uma cortina de fumaça, uma forma de ocultar o verdadeiro poder da geografia sob um amontoado de descrições monótonas e nomes para decorar. Esta geografia escolar, segundo ele, não serve para capacitar o cidadão a entender as relações de poder que moldam o espaço, mas sim para torná-lo um sujeito passivo, incapaz de decifrar as estratégias geopolíticas que afetam sua vida. Ao reduzir a disciplina a uma mera enumeração de fatos, a geografia tradicional desarma intelectualmente a população, impedindo-a de perceber como o espaço é um campo de batalha permanente de forças políticas e econômicas.

Uma Arqueologia do Saber Geográfico: A Longa História da Geografia-Militar

Para sustentar sua tese, Lacoste mergulha numa espécie de "arqueologia do saber geográfico". Ele demonstra que a associação entre geografia e guerra não é uma invenção moderna, mas sim a origem mesma da disciplina. Desde os tempos mais remotos, conquistadores e generais foram os primeiros e mais importantes geógrafos. Alexandre, o Grande, levava consigo bematistas (mensuradores de passos) para cartografar os territórios conquistados. O Império Romano produziu o Itinerarium Provinciarum, um manual de estradas essencial para o deslocamento rápido das legiões.

Lacoste destaca figuras como o cartógrafo francês do século XVIII, Jean-Baptiste Bourguignon d'Anville, cujos mapas extremamente precisos eram cobiçados por cortes e exércitos europeus. Ele argumenta que a própria expansão colonial europeia foi um empreendimento profundamente geográfico, dependente de mapas, relatos de exploradores (muitos deles patrocinados por sociedades geográficas com interesses econômicos e estratégicos) e do conhecimento do terreno para dominar e explorar continentes inteiros. A geografia, nesse contexto, foi o braço intelectual do colonialismo.

Do Poder Militar ao Poder Econômico: A Guerra não Declarada

Um dos aspetos mais perspicazes do livro é a ampliação do conceito de "guerra". Lacoste não se restringe ao conflito armado clássico. Ele expande a noção para incluir as lutas econômicas e sociais pelo espaço. A "guerra" também é a luta de classes territorializada, a concorrência econômica entre nações e empresas pelo controle de recursos (petróleo, água, minerais), os processos de segregação urbana e a especulação imobiliária.

Nesta perspectiva, a geografia serve para travar uma guerra econômica permanente. As decisões sobre onde construir uma barragem, uma autoestrada, um bairro de luxo ou um aterro sanitário são decisões geográficas com profundas implicações sociais e políticas. Quem tem o poder de decidir o uso do espaço utiliza um saber geográfico estratégico para manter e ampliar seu domínio. A geografia, portanto, é indispensável para planejar não apenas um cerco militar, mas também um embargo econômico, uma rota comercial hegemônica ou a expulsão de uma comunidade pobre de uma área valorizada.

A Geopolítica e a Crítica ao Determinismo

Lacoste também dirige seus ataques à geopolítica clássica e às suas derivações deterministas, como a teoria do "espaço vital" (Lebensraum), que serviu de justificativa intelectual para a expansão nazista. Ele alerta para os perigos de uma geografia que, ao invés de analisar as relações de poder, se presta a naturalizá-las, apresentando a dominação de certos povos sobre outros como um destino inevitável ditado pelo meio físico ou pela localização. A sua crítica é um antídoto contra visões essencialistas e fatalistas do espaço.

No entanto, é importante notar que Lacoste não condena a geopolítica per se, mas a sua má utilização. Ele defende a necessidade de uma "geopolítica crítica", uma análise das rivalidades de poder sobre os territórios, mas feita de forma transparente e com um olhar voltado para a emancipação, e não para a dominação.

Aspectos Controversos e Legado Duradouro

"A Geografia serve em primeiro lugar para fazer a guerra" não está isento de críticas. Alguns acadêmicos apontam que Lacoste, em seu ímpeto polemista, pode ter simplificado em excesso a história complexa da geografia, ignorando correntes de pensamento que sempre tiveram uma preocupação social e crítica. A dicotomia entre a "geografia dos estados-maiores" e a "dos professores" pode ser demasiado rígida, subestimando o potencial mesmo da geografia escolar para, se bem ensinada, formar cidadãos críticos.

Além disso, a ênfase quase exclusiva na geografia como instrumento de poder pode obscurecer outras dimensões igualmente importantes da disciplina, como sua contribuição para a compreensão cultural, ecológica e humanista do mundo.

Apesar dessas possíveis limitações, o legado do livro é imenso e incontestável. Ele funcionou como um choque de realidade para a geografia francesa e mundial. Foi um texto fundador da geografia crítica e radical, que floresceu nas décadas seguintes. Lacoste conseguiu o que pretendia: politizar a disciplina, tirá-la de uma suposta neutralidade e recolocá-la no centro dos debates sobre poder, conflito e desigualdade.

Conclusão: Um Clássico da Crítica e um Chamado à Ação

Mais de quatro décadas após sua publicação, "A Geografia serve em primeiro lugar para fazer a guerra" permanece um texto vibrante e extremamente relevante. Num mundo marcado por guerras convencionais, conflitos híbridos, guerras comerciais, crises ambientais e profundas desigualdades urbanas, a advertência de Lacoste soa profética.

O livro é um convite permanente a desconfiar dos mapas, a questionar quem os produz e com que intenção. É um apelo para que se leia o espaço não como um palco neutro, mas como o próprio produto e campo de batalha de forças políticas em constante disputa. Lacoste não nos oferece um manual de respostas, mas uma caixa de ferramentas para perguntas incômodas. Ele nos ensina que dominar o saber geográfico não é apenas sobre conhecer o mundo, mas sobre ter o poder de interpretá-lo e, consequentemente, de transformá-lo. A geografia, afinal, é demasiado importante para ser deixada apenas para os generais e os grandes estrategistas; ela deve ser reapropriada como um instrumento de libertação e de crítica por todos aqueles que desejam entender e lutar por um espaço mais justo.

terça-feira, 1 de julho de 2025

O Iêmen e a Salvaguarda do Direito Internacional

O Iêmen está agindo de forma responsável para impedir o genocídio, e os EUA estão bombardeando o país por isso (*)

O bloqueio do Iêmen no Mar Vermelho em defesa dos palestinos é totalmente respaldado pelo direito internacional. Mas o país está sendo implacavelmente bombardeado pelos EUA para garantir a impunidade israelense pelo cerco e genocídio contínuos em Gaza.

por CRAIG MOKHIBER

Os EUA estão bombardeando o Iêmen porque o país está agindo, conforme exigido pelo direito internacional, para impedir o genocídio e o cerco ilegal na Palestina.

Esta não é uma opinião editorial. É uma declaração de direito e de fato.

Nenhum desses fatos foi divulgado em reportagens ou comentários de empresas de mídia ocidentais, muito menos em declarações de governos perpetradores como os EUA.

Porque perpetrar um genocídio à vista de todos exige a supressão da verdade e o obscurecimento da lei.

Mas o direito internacional é claro. A Corte Internacional de Justiça (CIJ) concluiu, e a Assembleia Geral da ONU (AGNU) afirmou, que todos os Estados são obrigados a cortar todo o apoio militar e econômico tanto à ocupação de Gaza e da Cisjordânia pelo regime israelense, incluindo Jerusalém, quanto ao seu ataque genocida à população da Gaza ocupada.

Essas decisões legais estão enraizadas nas regras de mais alto nível do direito internacional (as chamadas obrigações de jus cogens e erga omnes), incluindo a proibição de genocídio, de agressão, da aquisição de território pela força e de atos que violem o direito à autodeterminação.

E essas obrigações vinculam todos os Estados. O Iêmen agiu concretamente para enfrentá-los, impondo um bloqueio a navios destinados a reabastecer o regime israelense no porto de Eilat, no Mar Vermelho, e explicitamente em resposta ao cerco e genocídio impostos por Israel na Palestina.

Em suma, o Iêmen está sendo implacavelmente bombardeado pelos Estados Unidos para garantir a impunidade israelense pela prática contínua de seus crimes internacionais na Palestina.

Ao fazer isso, os próprios EUA violam as decisões legais da Corte Internacional de Justiça e são culpados de dois crimes internacionais: o crime supremo de agressão e o crime de cumplicidade em genocídio.

Os iemenitas, por outro lado, desempenharam o papel de defensores dos direitos humanos e intervenientes humanitários nessa situação.

Claramente, a narrativa de mocinho e bandido do governo americano e de suas subservientes corporações de mídia é uma inversão direta da verdade.

Um chamado internacional à ação

Os alarmes internacionais sobre o genocídio na Palestina começaram a soar em outubro de 2023 e se tornaram cada vez mais altos à medida que o genocídio prosseguia.

Os 193 Estados do mundo responderam de diversas maneiras.

Alguns, incluindo EUA, Reino Unido, Alemanha e outros Estados ocidentais, juntaram-se a Israel na perpetração ativa do genocídio.

Outros, também principalmente Estados ocidentais, optaram pela cumplicidade no genocídio, fornecendo à máquina genocida combustível, peças de reposição, cobertura diplomática e outras necessidades.

Um grande número de Estados de todas as regiões optou por simplesmente permanecer em silêncio e passivos, o que também constitui uma violação de suas obrigações legais internacionais de agir afirmativamente para prevenir e interromper o genocídio e de aplicar o direito internacional humanitário.

Um quarto grupo de Estados se opôs ao regime israelense em declarações públicas e em ações diplomáticas no Conselho de Segurança e na Assembleia Geral da ONU, ou juntando-se a processos contra os perpetradores na CIJ e no Tribunal Penal Internacional (TPI), mas não fez nada para cortar o apoio material ao regime ofensor ou para defender o povo palestino do ataque dos soldados e colonos israelenses.

Mas há outro grupo, o menor de todos, que tomou medidas concretas para cumprir ativamente suas obrigações perante o direito internacional.

Os principais entre eles foram a África do Sul, que levou Israel a julgamento por genocídio na CIJ, e, muito significativamente, o Iêmen.

O Iêmen (ou seja, a capital e a maior parte da população que estão sob o controle de fato da Ansar Allah, enquanto o sul é controlado por um grupo rival com reconhecimento da ONU), anunciou, em resposta ao genocídio de Israel na Palestina, que bloquearia o transporte marítimo no Mar Vermelho que se dirigia para reabastecer o regime israelense enquanto este continuasse o cerco e o genocídio em Gaza.

Ele utiliza o ponto de estrangulamento de Bab al-Mandab (que significa, apropriadamente, "Portão das Lágrimas"), o estreito entre o Iêmen e o Djibuti, na abertura do Mar Vermelho.

O Iêmen iniciou esse bloqueio parcial e direcionado em novembro de 2023 com a abordagem de um navio israelense e, em seguida, manteve o bloqueio até o anúncio do cessar-fogo mais recente em Gaza, retomando-o somente quando Israel rompeu o cessar-fogo e reinstituiu o cerco ilegal a Gaza.

De fato, os iemenitas provaram a pura intenção humanitária do bloqueio ao interrompê-lo completamente durante o cessar-fogo de janeiro em Gaza e somente ao anunciar sua retomada quando Israel reimpôs o cerco e o ataque em larga escala a Gaza em março.

É claro que os navios que abasteciam o regime poderiam evitar o bloqueio navegando ao redor da África, mas isso significou um aumento considerável nos custos de transporte. Alguns navios com destino a Israel tentaram romper o bloqueio e foram advertidos, abordados, requisitados ou engajados militarmente pelas forças armadas iemenitas (houthis), assim como navios militares ocidentais que atacaram os iemenitas ou enfrentaram o bloqueio.

E o bloqueio funcionou, interrompendo mais de 80% do transporte para o regime israelense, levando à falência o porto israelense de Eilat e reduzindo o abastecimento através de Ashdod (via Canal de Suez), obstruindo significativamente o reabastecimento do regime.

Por sua vez, os EUA iniciaram uma campanha massiva de bombardeios para atacar o Iêmen, o país mais pobre da região, um país que vem bombardeando há mais de duas décadas, violando o direito internacional ao fazê-lo, massacrando civis no processo, agravando a fome, a crise médica, o deslocamento interno, colocando os soldados americanos em risco, arriscando uma guerra regional mais ampla, gastando bilhões de dólares do dinheiro do contribuinte americano no processo e mentindo para seu próprio povo sobre o que está acontecendo, tudo com o único propósito de ajudar o genocídio de Israel na Palestina.

A lei está do lado do Iêmen

O direito internacional está claramente do lado do Iêmen neste caso.

Primeiro, os ataques dos EUA ao Iêmen constituem crime de agressão segundo o direito internacional.

Eles não se enquadram nos rigorosos requisitos de legítima defesa previstos na Carta da ONU, não foram autorizados pela Carta e nem sequer se alega que sejam em defesa das regras de jus cogens, mas sim que visam "proteger o comércio".

Em segundo lugar, tanto a CIJ quanto a Assembleia Geral da ONU consideraram que todos os países são legalmente obrigados a cessar qualquer apoio ao regime de ocupação israelense, a proibir quaisquer produtos dos assentamentos e a cortar todas as relações militares, diplomáticas, econômicas, comerciais, financeiras, de investimento e comerciais com a ocupação israelense.

Afirmaram também que todos os Estados devem respeitar as ordens provisórias da CIJ no caso do genocídio de Israel e respeitar suas obrigações como terceiros Estados, sob a Convenção sobre Genocídio, de agir para prevenir e punir o Genocídio.

Isso inclui a obrigação de todos os terceiros Estados de usar todos os meios à sua disposição para influenciar o Estado que potencialmente comete genocídio e garantir que suas próprias ações não auxiliem ou incitem tais atos.

Como observado acima, essas regras são jus cogens (as normas peremptórias de mais alto nível, das quais não há derrogação) e erga omnes (o que significa que vinculam todos os Estados, incluindo o Iêmen e os Estados Unidos).

Além disso, tanto o Iêmen quanto os EUA são obrigados, pelas Convenções de Genebra de 1949, a fazer tudo o que estiver ao seu alcance "para garantir o respeito" de suas disposições por outras partes, incluindo Israel.

Embora o Iêmen tenha agido para cumprir essas obrigações, os EUA o criticaram por isso.

Contornando a obstrução dos EUA ao direito internacional

Assim, reconhecendo que os Estados são obrigados a agir individual e coletivamente para impedir o genocídio de Israel e que graves violações do direito internacional (apoio a um regime que perpetra genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e violações graves e sistemáticas dos direitos humanos) estão ocorrendo em ou perto das áreas que controla, o Iêmen agiu para impedir essas violações.

É claro que os defensores dos ataques dos EUA contestarão o direito do Iêmen de intervir, alegando que (1) Ansar Allah no Iêmen não é reconhecido como uma autoridade estatal e (2) o Conselho de Segurança não autorizou o Iêmen a usar a força.

De fato, o Iêmen é um país dividido, com forças concorrentes controlando várias regiões. Embora o país tenha permanecido dividido durante a maior parte de sua história pós-colonial, a crise atual no Iêmen começou com os protestos da Primavera Árabe em 2011. Assim como na Síria, esses protestos foram reprimidos e, posteriormente, se transformaram em uma guerra civil que se arrasta desde pelo menos 2015.

Os efeitos devastadores do conflito foram severamente exacerbados pelos ataques e bloqueios brutais dos EUA e da Arábia Saudita, criando uma situação em que, antes do genocídio palestino atingir seu pico em 2023, o Iêmen foi declarado o pior desastre humanitário do planeta por agências internacionais.

Como resultado, o sul do país é dominado pelo Conselho de Liderança Presidencial, reconhecido pela ONU, que também conta com o apoio do Ocidente e das monarquias do Golfo.

No entanto, o Conselho Político Supremo de Ansar Allah controla a capital e maior cidade, Sanaa, todo o território do norte do Iêmen, 80% da população do país e a região estratégica de Bab al-Mandab.

Assim, dos dois, o Iêmen controlado pelos Houthis é, de fato, a entidade mais poderosa. E é a entidade adjacente a Bab al-Mandab e com a capacidade real de implementar o bloqueio humanitário.

Essa "capacidade de influenciar" sugere uma responsabilidade maior de agir, especialmente em caso de genocídio, como reconhecido pela CIJ. Assim, como existe tanto um dever (maior) de agir quanto uma capacidade de agir, o fato de o país estar dividido não pode ser razoavelmente considerado determinante em um caso em que o genocídio esteja em jogo.

E mesmo que a condição de Estado do Iêmen controlado por Ansar Allah seja negada, atores não estatais, incluindo grupos armados, também são reconhecidos como tendo obrigações perante o direito internacional, principalmente as regras do direito internacional humanitário.

Quanto à falta de autorização do Conselho de Segurança, o Conselho de Segurança da ONU foi totalmente desativado pelos EUA, como parte no conflito, e, como resultado, está totalmente inoperante para os propósitos da situação na Palestina. (Apenas mais um exemplo de como os EUA estão destruindo a ordem jurídica internacional em nome deste regime estrangeiro opressor).

Mas, como o Conselho de Segurança da ONU obtém seu mandato da Carta da ONU, um tratado que é parte do direito internacional, ele está sujeito ao direito internacional, não acima dele. E tanto a proibição do genocídio quanto o direito à autodeterminação são regras de jus cogens e erga omnes. Estes são os mais altos princípios jurídicos internacionais, normas peremptórias, universais e inderrogáveis. O Conselho de Segurança não pode substituir essas regras de direito internacional.

E se a ação do Conselho de Segurança da ONU não pode substituir as normas de jus cogens, então a inação ou omissões do Conselho de Segurança da ONU não podem substituir (ou apagar) as normas de jus cogens, cuja força é contínua em todas as circunstâncias.

Simplificando, as regras de jus cogens e erga omnes do direito internacional não derivam, não podem ser anuladas, nem dependem da autoridade do Conselho de Segurança.

Além disso, neste caso, a comunidade internacional de Estados expressou suas intenções ao adotar a resolução da Assembleia Geral da ONU sobre a implementação das conclusões da CIJ na Palestina.

E esta não foi uma resolução comum, mas sim uma adotada (1) por maioria esmagadora e (2) sob os poderes reforçados de uma sessão especial de emergência convocada sob a chamada resolução "Unidos pela Paz", projetada para superar a obstrução do veto em circunstâncias extraordinárias como estas.

Desnecessário dizer que o Iêmen também tem o direito à autodefesa contra ataques armados dos EUA, assim como todos os países, nos termos do Artigo 51 da Carta da ONU. E os ataques dos EUA ao Iêmen já acontecem há décadas.

Além disso, em relação a algumas de suas ações, o Iêmen poderia argumentar que está aplicando a lei marítima em suas águas territoriais, o que geralmente não requer autorização do Conselho de Segurança da ONU. De fato, a Guarda Costeira dos EUA intercepta, aborda e apreende navios, mesmo em águas internacionais, por mera suspeita de delitos muito menores, incluindo suspeita de tráfico de drogas. E que função mais importante de aplicação da lei marítima poderia haver do que impedir um genocídio?

E, de fato, mesmo que isso fosse contestado sob as regras do direito do mar (o tratado internacional que, aliás, o Iêmen ratificou, mas os EUA se recusam a assinar ou ratificar), os iemenitas estão agindo sob a autoridade do direito internacional, conforme declarado pela CIJ, reforçado pela resolução de implementação da AGNU e codificado em tratados dos quais o Iêmen é parte (incluindo a Convenção sobre o Direito do Mar, a Convenção sobre Genocídio e as Convenções de Genebra).

Ilegalidade ou Estado de Direito

É claro que, se os EUA discordarem, sua solução legal é buscar uma decisão sobre a disputa em um caso contencioso na CIJ ou, alternativamente, convencer a AGNU a solicitar um parecer consultivo da CIJ sobre a questão. Mas não têm o direito legal de declarar guerra ao Iêmen.

E o que está claro na lei é que todos os Estados, incluindo o Iêmen e os EUA, têm o dever de respeitar as decisões da CIJ e suas interpretações autoritativas do direito internacional. Sobre isso, a CIJ já emitiu várias conclusões claras sobre a lei que vincula todos os terceiros Estados, primeiro no parecer consultivo sobre o muro do apartheid de Israel, depois em uma série de medidas provisórias ordenadas no caso de genocídio contra Israel e, finalmente, em seu parecer consultivo que concluiu pelo apartheid israelense e pela ocupação ilegal da Palestina.

Fornecer, facilitar o fornecimento ou não agir para impedir o fornecimento da ocupação da Palestina pelo regime israelense ou do seu genocídio na Palestina são violações graves do direito internacional.

O Iêmen está cumprindo essas obrigações. Os EUA as estão violando.

A liberdade de expressão está sob ataque — especialmente quando se trata da Palestina.

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* Embora este artigo tenha sido publicado com um lapso de atraso, ao retomarmos as atividades do blog, optamos pela sua publicação pela pertinência do tema. Segue o link do texto original:

MondoweissYemen is acting responsibly to stop genocide and the U.S. is bombing them for it

sábado, 1 de março de 2025

A Grande Barganha: A Rússia e os EUA podem reescrever a história?

por Andrey Kortunov, Doutor em História, Membro da RIAC
por Andrey Kortunov, Doutor em História, Membro da RIAC

Durante anos, as relações russo-americanas pareciam estar em coma irreversível. A diplomacia estava morta, tomada pela hostilidade, sanções e um risco crescente de confronto militar. Muitos insistiam que nada poderia quebrar essa trajetória — Moscou e Washington estavam presos em um curso imutável de conflito.

No entanto, hoje, o ritmo da mudança é espantoso. A recente reunião de alto nível entre autoridades russas e americanas em Riad, seguida pelas últimas declarações de Donald Trump, sugere que nada na geopolítica é predeterminado.

Essa reviravolta nos eventos traz à mente uma cena icônica de Terminator 2, na qual Sarah Connor esculpe “Não há destino” em uma mesa de madeira. Seu filho, John, expande o pensamento: “Não há destino exceto aquele que criamos para nós mesmos.” A mensagem é clara — nosso futuro é moldado por escolhas, não pelo destino.

Durante anos, analistas e políticos tanto na Rússia quanto no Ocidente insistiram que o impasse EUA-Rússia era inevitável. Alguns estrategistas americanos viam a Rússia como um adversário irredimível, enquanto os “turbopatriotas” da Rússia alertavam que qualquer envolvimento com Washington seria uma armadilha. As vozes mais extremas de ambos os lados até sugeriram que o confronto só poderia terminar em catástrofe nuclear.

Mas os eventos que se desenrolam agora sugerem o contrário. Se não há destino senão o que fazemos, então as escolhas diante de Moscou e Washington hoje são de significância histórica.

A ilusão de um Ocidente monolítico

As negociações de Riad já começaram a desmantelar suposições de longa data sobre a suposta unidade do “Ocidente coletivo”. Durante anos, os formuladores de políticas russos acreditaram que a política global era controlada por uma única estrutura de poder “anglo-americana” centralizada, operando perfeitamente de Washington a Bruxelas. A realidade, como a era Trump demonstrou repetidamente, é muito mais fragmentada.

A América de Trump não é a América de Joe Biden. Mesmo dentro de Washington, divisões profundas são evidentes. Enquanto isso, a Europa Ocidental — há muito assumida como inabalavelmente alinhada com os EUA — agora se vê lutando com desacordos internos e ressentimento sobre a pressão americana.

Para a Rússia, essa fragmentação é uma oportunidade. O desmantelamento do consenso transatlântico apresenta aberturas que não existiam nem um ano atrás.

Compromisso vs. Capitulação

Claro, o ceticismo permanece. Os críticos argumentarão que qualquer acordo com Washington é uma armadilha — que os EUA farão grandes promessas apenas para renegá-las mais tarde, como aconteceu no passado. Que, uma vez que a Rússia baixe a guarda, o Ocidente retornará aos seus velhos hábitos de traição e acordos quebrados.

Esta não é uma preocupação infundada. A história ensinou a Rússia a ser cautelosa. Mas a diplomacia não é sobre garantias — é sobre oportunidades. Não existe acordo inabalável em geopolítica. Todo acordo pode ser quebrado, toda promessa pode ser revertida. A verdadeira questão é se a Rússia está preparada para aproveitar o momento em que uma rara oportunidade se apresenta.

E este momento pode ser exatamente isso.

Mesmo que os enviados de Trump — Marco Rubio, Mike Waltz e Steve Witkoff — sejam negociadores habilidosos, é difícil imaginar que eles possuam uma compreensão superior da diplomacia do que figuras como Sergey Lavrov ou Yury Ushakov. A Rússia tem diplomatas experientes que passaram décadas navegando nas complexidades da política de poder global. Se a equipe dos EUA acredita que pode superar Moscou, está muito enganada.

Um momento de oportunidade histórica

O caminho à frente é incerto, e haverá vozes insistindo que a Rússia deve rejeitar qualquer envolvimento com Washington de cara. Mas recusar-se a negociar por medo seria um erro. A Rússia não está na posição em que estava na década de 1990 — ela é mais forte, mais autossuficiente e reconhecida como uma potência global. Desta vez, Moscou entra nas negociações não como um suplicante, mas como um igual.

Oportunidades na diplomacia são raras. É fácil deixá-las escapar; muito mais difícil aproveitá-las. Se a Rússia e os EUA puderem avançar em direção a um compromisso razoável — um que garanta os interesses centrais de Moscou enquanto reduz as tensões — pode ser o momento que remodelará o cenário geopolítico nos próximos anos.

(*) Este artigo foi publicado originalmente pelo  Kommersant e foi traduzido e editado pela equipe da RT.