domingo, 1 de novembro de 2020

A Terceira Revolução 2: Petrogrado e Kronstadt

(novembro de 1920, os bolcheviques põem fim aos sovietes livres da Ucrânia.)

Tradução: Jean Fecaloma

Fecaloma - Punk Rock

2. Petrogrado e Kronstadt

Em fevereiro de 1921, uma ruptura entre os bolcheviques e a classe operária provocou um abalo na principal base de apoio do governo. Desde o início do inverno, naquele ano inusitadamente rigoroso, mesmo para os padrões moscovitas, o frio e a fome, combinados com a austeridade do comunismo de guerra, produziram um clima tempestuoso sobre as grandes cidades da Rússia. Isto se deu particularmente em Moscou e Petrogrado, onde seria suficiente uma pequena faísca para gerar uma grande explosão. E a conjuntura do momento não tardou a produzi-la. Em 22 de janeiro, o governo acendeu o estopim da instabilidade social quando anunciou uma redução de um terço no fornecimento da já escassa ração de pão (1). Embora a medida pudesse parecer muito drástica, o corte era, sim, inevitável. As grandes nevascas e a falta de combustível paralisaram a circulação de trens que vinham carregados de alimentos da Sibéria e do norte do Cáucaso para reabastecer as cidades famintas do centro e norte do país. Nos primeiros dez dias de fevereiro, a interrupção do sistema ferroviário chegou a ser total, ao ponto de inviabilizar completamente o transporte de cereais para Moscou (2). Não atenuava em nada o fato notório acerca das circunstâncias imprevistas e emergenciais, que obrigava o governo a reduzir a porção de ração destinada às cidades, sobre o impacto devastador dessas políticas na população urbana que padecia com a fome. Nestas condições, tornava-se inevitável algum tipo de protesto popular prestes a acontecer.

Os primeiros distúrbios sociais sérios ocorreram a meados de fevereiro na cidade de Moscou. Manifestações espontâneas de operários exigiam a imediata substituição do comunismo de guerra pelo sistema de “trabalho livre”. O movimento alcançou tão grande vulto que o governo não teve escolha e cedeu à pressão, mostrando-se aberto ao diálogo. Assim, enviou emissários às fábricas a fim de convencer os operários da necessidade e da permanência das políticas de crise. Todavia, não seria tarefa fácil. Manifestantes extremamente hostis lotavam as assembleias de trabalhadores e não permitiam aos representantes do partido expor as justificativas do governo, tamanha as vaias e ofensas dispensadas, o que os obrigavam, em circunstâncias tão adversas, a se retirarem da plenária. Conforme se lê em um relatório, ao comparecer a uma dessas ruidosas reuniões, o próprio Lênin teve de ouvir de metalúrgicos que os bolcheviques estavam arruinando o país. Confrontado, Lênin questionou se eles preferiam aos brancos que os comunistas. A réplica foi contundente: “Não importa quem venha - brancos, negros ou o diabo! -, queremos que os bolcheviques caiam fora” (3).

Assim, crescia rapidamente um sentimento de grande insatisfação popular que se alastrava pelas cidades na medida em que greves e manifestações sucediam-se uma atrás da outra como num efeito dominó. Os trabalhadores saíam às ruas com bandeiras e cartazes clamando pelo restabelecimento do “livre comércio", por maiores porções de ração, pela abolição das requisições de cereais e demais demandas econômicas. Alguns reclamavam a restituição dos direitos políticos e das liberdades civis cerceadas; outros marchavam pela restauração da assembleia constituinte. Entre tantas reivindicações, algumas mensagens chocantes: “Abaixo os comunistas e os judeus” (4). No início, as autoridades tentaram conter as manifestações com promessas de afrouxamento das medidas do comunismo de guerra. Tudo em vão, porém. Diante do impasse imposto pela situação, houve a necessidade da parte do governo de convocar tropas regulares e os cadetes (kursanty) da escola militar para o restabelecimento da ordem na cidade.

Mal os distúrbios de Moscou foram controlados, outro movimento tomou proporções bem mais preocupantes. De fato, uma névoa sombria de um cenário trágico cobria a ex-capital Petrogrado. “Um fantasma do que um dia fora a capital - descreveu um contemporâneo - cuja população dizimada pela revolução e contrarrevolução perdia toda esperança ante um futuro incerto” (5). Localizada na região noroeste da Rússia e, temporariamente, isolada dos principais centros de abastecimento de alimentos e combustível do país, Petrogrado sofria ainda mais que Moscou com a fome e o frio. As reservas disponíveis de comida baixaram a apenas um quinto daquelas anteriores à Primeira Guerra Mundial (6). Os habitantes da cidade, desprovidos de casacos e calçados apropriados, marchavam a pé por quilômetros até as florestas do entorno atrás de lenha para aquecer as suas casas. No início de fevereiro, mais de 60% das fábricas de grande porte de Petrogrado foram forçadas a fechar suas portas por falta de combustível (7). O abastecimento de alimentos praticamente desapareceu. Segundo testemunhou o menchevique Feodor Dan, trabalhadores e soldados esfomeados mendigavam pelas ruas implorando por qualquer pedaço de pão (8). Exasperados, cidadãos protestavam contra o sistema desigual de racionamento, que favorecia algumas categorias em detrimento de outras. As tensões agravaram-se ainda mais quando se descobriu que membros do partido recebiam sapatos e vestimentas novos. Rumores assim, que sempre circulam em épocas de tensão e sofrimento, foram levados a sério pela população e contribuíram para uma onda de tumultos que abriu caminho para a revolta de Kronstadt.

Assim como em Moscou, as manifestações de rua foram precedidas por muitas assembleias realizadas no ambiente desolador das fábricas e oficinas vazias de Petrogrado. A crise econômica liderava a pauta de reivindicações, sobretudo, a questão relativa à falta de alimentos. Entretanto, oradores revezavam-se na tribuna para exigir também o fim das requisições de grãos, a remoção dos bloqueios nas estradas, a anulação dos privilégios quanto à distribuição de ração e a liberdade de troca de bens pessoais por alimentos. A 23 de fevereiro, uma tumultuada e numerosa assembleia numa das maiores metalúrgicas de Petrogrado, a fábrica Trubochny, contrastava com o atual quadro de funcionários da empresa, que diminuíra a uma fração do total de seu contingente de três ou quatro anos atrás. Na ocasião, os metalúrgicos aprovaram uma resolução determinando o aumento das rações alimentares e a distribuição imediata de calçados e vestimentas de inverno para todos os trabalhadores. Na amanhã seguinte, retornaram à fábrica; porém, não foram trabalhar. Largaram as ferramentas e marcharam em greve até a ilha Vasili, na margem norte do rio Neva. Reunidos em uma manifestação massiva, os trabalhadores davam uma demonstração de sua força. Uma delegação foi enviada aos quartéis do regimento da Finlândia para convencer, sem sucesso, os soldados a se juntarem ao movimento. Todavia, operários de fábricas vizinhas e também estudantes do Instituto de Mineração abandonaram suas ocupações e uniram-se em solidariedade aos grevistas. Em pouco tempo, uma multidão de 2.000 pessoas organizava um protesto contundente contra o governo. Segundo alguns relatos, o presidente bolchevique do Conselho de Sindicatos de Petrogrado N. M. Antselovitch apareceu na manifestação e aconselhou os trabalhadores a voltarem ao trabalho, mas foi derrubado de seu coche a socos e pontapés por uma multidão enfurecida (9). Nem bem a situação havia escapado de controle, e Zinoviev, o presidente do soviete e do partido em Petrogrado, mobilizou a companhia militar dos cadetes numa operação de choque para dispersar a manifestação. Logo se seguiu um tumulto, gritos e agressões mútuas, até que tiros disparados para o alto dispersaram os grevistas sem derramamento de sangue (10).

A manifestação na ilha Vasili seria o prelúdio do que ainda estava por vir. No dia seguinte, a 25 de fevereiro, os operários de Trubochny voltaram a tomar as ruas e convocar seus camaradas dos bairros industriais para a greve. O êxito foi imediato. Operários deixaram as fábricas de tabaco Laferme, de calçados Skorojod e as usinas metalúrgicas do Báltico e Patronny. Boatos de que alguns manifestantes da ilha Vasili haviam sido mortos ou feridos pelos cadetes armados no dia anterior impulsionou o movimento grevista a ocupar outras grandes empresas, incluindo o estaleiro de Admiralty e as docas de Galernaya. Em vários locais, multidões reuniam-se para ouvir discursos inflamados contra a polícia e mais uma vez o governo interveio enviando os kursanty para debandar os grevistas.

Tendo em vista as greves de Moscou, as autoridades de Petrogrado, sob a supervisão de Zinoviev, colocaram-se em estado de alerta máximo. Quando se deram as primeiras perturbações, agiram rapidamente para manter a ordem. A 24 de fevereiro, no mesmo dia em que ocorreram as manifestações da ilha Vasili, o Comitê do Partido Comunista de Petrogrado constituiu um Comitê de Defesa tripartite encabeçado por M. N. Lashevich, membro do Conselho de Guerra Revolucionário da República Soviética, D. N. Avrov, comandante do Distrito Militar de Petrogrado, e N. M. Antselovitch, do Conselho dos Sindicatos. Investido de poderes de exceção, o Comitê de Defesa de Petrogrado organizou em cada distrito da cidade uma “troika de revolucionários” responsável por impedir a propagação das manifestações contrárias ao governo. As revtroiki seguiam o mesmo modelo do Comitê de Defesa em um determinado bairro e eram compostas pelo chefe do partido local, pelo comandante militar e pelo presidente do soviete ou o comissário da escola militar. Em seguida, o Comitê Executivo do soviete de Petrogrado, presidido pelo mesmo Zinoviev, proclamou a lei marcial na cidade. O toque de recolher foi imposto a partir das onze da noite e reuniões públicas foram proibidas a qualquer hora (11).

Enquanto os grevistas de Trubochny transitam de fábrica em fábrica para convencer os trabalhadores a unir-se em um grande protesto de massas, Zinoviev e seus colegas temiam um confronto e buscavam uma maneira de evitar um banho de sangue. A 25 de fevereiro, o Soviete de Petrogrado, o Conselho de Sindicatos e o comitê do partido dirigiram uma circular “aos trabalhadores de Petrogrado Vermelho”, aconselhando-os a permanecer em seu trabalho. O comunicado admitia as muitas dificuldades por que sofriam os operários; mas explicava que este era o preço cobrado para salvar a revolução de seus inimigos. Inclusive, continuava o documento, os Guardas Brancos, amparados pelos mencheviques e os socialistas revolucionários (SR), tentam a todo custo explorar a crise em interesse próprio para pôr em prática seus planos maléficos. Acaso teriam os trabalhadores de “Pedro Vermelho” esquecido dos Yudeniches e Kolchaks, os Denikins e Wrangels? Afinal, o que poderia oferecer uma restauração branca ao povo? Apenas “o açoite do senhor feudal e da coroa czarista”. E quais seriam as consequências se por um acaso as fabricas fossem abandonadas? Apenas o agravamento da situação da fome e do frio. Os trabalhadores passavam por enormes provações, é verdade, mas essa era uma razão a mais para não se deixarem esmorecer abandonando a revolução justamente no momento em que a vitória estava a um passo de ser alcançada (12).

Com este apelo, os bolcheviques de Petrogrado lançaram uma ampla campanha de propaganda para conter os protestos na cidade. Em todos os bairros, os grevistas eram aconselhados a não fazer o jogo da contrarrevolução. Fome, exaustão e frio, segundo ditava a propaganda do governo, foram as consequências inevitáveis de uma “guerra de sete anos”. Teria algum sentido desistir agora de tão custosa vitória para entregá-la de mão-beijada aos “porcos da Guarda Branca” e seus lacaios? Os únicos beneficiários pelas greves e pelos protestos, proclamou o Soviete de Petrogrado, serão os senhores de terra polacos do Riga e os capitalistas ingleses de Londres, que exigiriam maiores concessões durante as novas rodadas na mesa de negociação. Assim também os kursanty de Petrogrado faziam coro à propaganda governamental e denunciavam o caráter nefasto das greves, que só favoreciam “os ingleses, franceses, agentes da Guarda Branca e os seus serviçais lacaios do capitalismo: os socialistas revolucionários (SR) e os mencheviques” (13). Além disso, o Comitê de Defesa de Petrogrado advertia os trabalhadores de que espias ingleses e franceses estavam infiltrados na cidade e buscavam tirar algum proveito da confusão. Ademais, a impressa publicou uma lista de resoluções aprovadas por diversas fábricas e sindicatos de Petrogrado que condenavam os “agitadores” e “vagabundos” pelos distúrbios ocorridos na cidade (14). A alcunha preferida para os “arruaceiros” era shkurniki, ou seja, “egoístas”, que só se preocupam com a própria pele. Ao invés do habitual “greve” (stachka o zabastovka), os jornais empregavam o termo pejorativo volynka, isto é, grevistas na acepção de vagabundos e subversivos. Segundo Feodor Dan, as autoridades preferiam usar expressões depreciativas a reconhecer o movimento como uma autêntica greve operária contra um “governo de trabalhadores” (15).

A 26 de fevereiro, intensificaram-se os distúrbios. O Soviete de Petrogrado organizou uma sessão extraordinária para debater a questão. O comissário da Frota do Báltico, N. N. Kuzmin, que, nas semanas seguintes, alcançará certa notoriedade por alertar sobre o clima de revolta em Kronstadt, que poderia levar a uma possível sublevação dos marinheiros, caso as greves não findassem, emitiu uma nota ameaçadora aos grevistas. Da mesma forma, Lashevich, membro do Comitê de Defesa de Petrogrado, irá propor punições severas aos trabalhadores, como a suspensão das rações e a prisão dos principais líderes operários de Trubochny. Prontamente, o soviete acolheu a proposta de Lashevich e emitiu um mandado para que se cumprissem as ordens necessárias. A fábrica Laferme, que era o segundo foco de descontentamento proletário, foi evacuada e trabalhadores de outras empresas assumiram o controle das máquinas mediante a possibilidade de incorrerem na mesma violação de seus camaradas grevistas (16).

A tentativa velada de submeter pela fome os trabalhadores só contribuiu para aumentar ainda mais as tensões. Durante os últimos dias de fevereiro, o movimento seguiu se espalhando pelas fábricas de Petrogrado. No dia 28, os protestos tomaram conta da gigante metalúrgica Putilov, na qual trabalhavam um contingente formidável de 6.000 operários, embora este número representasse uma sexta parte do que havia sido durante a Primeira Guerra Mundial.

Em meio a tudo isso, aproximava-se o quarto aniversário da Revolução de Fevereiro. O menchevique Feodor Dan observou que os ânimos na cidade lembravam os momentos que antecederam a queda da autocracia (17). Outro fator digno de nota concernia a uma mudança substantiva no teor das demandas dos trabalhadores. No início, as resoluções aprovadas pelas assembleias de fábrica expressavam, em sua maior parte, os conhecidos problemas de ordem econômica: distribuição regular de rações; entrega de calçados e vestimenta de inverno; eliminação dos destacamentos de bloqueio de estrada; liberação das viagens ao campo e livre comércio entre operários e aldeões; e distribuição equitativa da ração para todas as categorias de trabalhadores. Nos últimos dois dias de fevereiro, inclusive, as pautas econômicas ganharam ainda mais dramaticidade. Por exemplo, um panfleto circulou pela cidade relatando casos de trabalhadores que foram encontrados congelados ou mortos de fome dentro de suas casas (18). Mas o que alarmava realmente as autoridades eram reivindicações políticas, que estavam se generalizando no movimento grevista. Entre outras coisas, os trabalhadores lutavam para que os destacamentos especiais de bolcheviques armados, que exerciam uma função meramente de polícia, fossem retirados das fábricas. Da mesma forma, exigiam a substituição por operários dos soldados que trabalhavam nas fábricas, alguns dos quais recentemente empregados em grandes empresas de Petrogrado. Enfim, antes esporádicas, pautas políticas e relacionadas aos direitos civis agora adquiriam uma força inaudita e abrangente.

Portanto, não causa surpresa o fato da oposição política manifestar sem hesitação apoio aos grevistas de Petrogrado. Os poucos mencheviques e socialistas revolucionárias (SR) que não estavam presos e viviam escondidos por causa da perseguição policial saíram às ruas para distribuir panfletos aos trabalhadores. No dia 27 de fevereiro, por exemplo, apareceu o seguinte manifesto:

Uma fundamental transformação faz-se necessário na política do governo. Antes de tudo, os trabalhadores e camponeses precisam de liberdade. Não querem viver a mercê do arbítrio dos bolcheviques. Desejam apenas controlar seu próprio destino. Camaradas, apoiem as nossas palavras de ordem revolucionárias, e de maneira decidida e organizada, conclamamos:

Liberdade a todos os trabalhadores socialistas e não partidários detidos nas prisões do governo; abolição da lei marcial; liberdade de expressão, imprensa e reunião para todos os trabalhadores; eleições livres nos comitês, sindicatos e sovietes.

Convocação de assembleias, aprovações de resoluções, envio de delegados às autoridades para fazer valer nossas pautas, realização de nossas demandas (19).

Apesar do manifesto não estar subscrito, sinais inequívocos demonstravam, como veio a admitir depois o próprio Dan e os seus companheiros, que os mencheviques estavam por trás dos protestos de fevereiro. Auxiliados por jornais simpáticos à causa menchevique, os militantes do partido em Petrogrado imprimiram muitos panfletos com uma gama de reivindicações que abrangiam eleições livres nos sovietes e sindicatos, restituição das liberdades civis, fim do terror e libertação dos prisioneiros socialistas e outros políticos de esquerda. No plano econômico, os mencheviques apelavam para que se cessassem as requisições de cereais e recomendavam o fim das granjas estatais de trabalho compulsório e o restabelecimento do comércio entre a cidade e o campo, desde que regulamentado por ações preventivas contra a especulação.

Tais imposições não eram novidade e já haviam sido apresentadas pelos mencheviques Feodor Dan e David Dallincom logo no início da guerra civil ao VIII Congresso dos Sovietes, em dezembro de 1920. O que desejavam, em essência, era o cumprimento da Constituição, de modo que todos os partidos socialistas pudessem obter representatividade no regime soviético e que os trabalhadores pudessem gozar das liberdades negadas de forma arbitrária pela ditadura bolchevique. Fazendo jus ao seu papel de oposição legal, desempenhado desde 1917, os mencheviques evitavam todo tipo de campanha visando à derrubada do governo através das armas. Muito pelo contrário, como sugere o manifesto acima, orientavam os trabalhadores de Petrogrado a se manifestarem dentro da ordem jurídica através de assembleias e petições endereçadas às autoridades competentes. Resumidamente, procuravam organizar o operariado “de maneira sistemática e decidida” e, assim, exercer pressão sobre as autoridades no sentido das reformas política e econômica. Não obstante o tom moderado, as críticas da oposição menchevique despertavam não apenas preocupação ao governo mas também  indignação. Para os bolcheviques era um indício da mais abjeta traição aos princípios fundamentais da revolução. Ademais, quem poderia garantir que, uma vez provocados os trabalhadores, estes agiriam dentro da legalidade e não partiriam para uma rebelião aberta contra o governo?

Diferentemente dos mencheviques, os socialistas revolucionários (SR) depositavam todas as fichas em um levante popular contra o regime de Lênin. No lugar deste, propunham a restauração da assembleia constituinte dissolvida pelos bolcheviques em janeiro de 1918. Naquela ocasião, os socialistas revolucionários (SR) haviam obtido a maioria das cadeiras no parlamento pelo voto secreto. Portanto, a derrocada do poder bolchevique e a assembleia constituinte constituíam o núcleo do programa do partido. Um cartaz colado nas paredes de Petrogrado a 28 de fevereiro e assinado por “Trabalhadores Socialistas do Distrito de Neva” - que, ora transcrevemos - provavelmente tinha a digital dos socialistas revolucionários:

Sabemos quem tem medo da assembleia constituinte. São os mesmos que não poderão roubar mais o povo, senão responder perante os seus representantes por tantos enganos, roubos e crimes cometidos.

Abaixo os odiados comunistas! Abaixo o governo soviético! Longa vida a Assembleia Constituinte Popular! (20)

Como se pode perceber, este cartaz (e outros similares) apresentava um tom muito mais intransigente do que qualquer outro material impresso já publicado pelos mencheviques. Na verdade, o conteúdo agressivo apontava para uma organização clandestina tal como a União pelo Renascimento da Rússia, que era uma aliança entre liberais e socialistas de extrema esquerda que compartilhavam do objetivo comum de pôr fim ao domínio bolchevique.

A abundante propaganda anticomunista difundida durante as greves de fevereiro levantou a questão sobre quem eram os líderes dos movimentos grevistas. Teriam os mencheviques e socialistas revolucionários (SR) liderados as manifestações de rua, como acusava o governo? Evidentemente ambos os partidos fizeram o possível para insuflar as greves. Não há a menor sombra de dúvida da participação dos mencheviques nos eventos de fevereiro, pois, no ano de 1921, conseguiram recuperar boa parte do apoio da classe trabalhadora perdido em 1971. Nas greves de Petrogrado, a influência dos mencheviques entre os trabalhadores da fábrica Trubochny e outras empresas foi considerável (21). Oradores mencheviques eram ouvidos com simpatia e seus panfletos e manifestos corriam de mão em mão nas assembleias operárias. Todavia, apesar da benevolência que os operários nutriam por eles e do papel relevante que desempenharam na disseminação das manifestações de rua, não há qualquer evidência da participação menchevique na preparação do movimento grevista – o mesmo vale para qualquer outro grupo de oposição. Os trabalhadores de Petrogrado, como vimos, tinham razões de sobra para iniciar um protesto contra o governo. No entanto, não houve qualquer planejamento - ainda que sobrasse motivo para isso - e as greves foram resultado de um movimento espontâneo nascido do descontentamento popular.

Depois de uma semana de tumultos, as autoridades de Petrogrado finalmente conseguiram controlar a situação. Não foi tarefa fácil, porém, e só se obteve êxito mediante arranjos favoráveis na correlação das forças envolvidas e por meio de uma série de concessões que Zinoviev e seus companheiros impuseram eficazmente. Isto era particularmente verdadeiro porque uma boa parte da guarnição regular foi contagiada pelo calor das manifestações e mostrava-se pouco digna de confiança e relutante em cumprir as ordens do governo. As unidades consideradas desleais foram então desarmadas e confinadas aos quartéis. Rumores a respeito da proibição do uso de botas para impedir preventivamente os soldados de saírem dos quartéis e se misturarem à multidão, repetindo os episódios funestos ocorridos há quatro anos, circulavam entre os soldados (22). Em lugar das tropas regulares, as autoridades confiaram a patrulha da cidade aos cadetes da escola de oficiais comunistas, os kursanty, convocados às centenas nas academias militares mais próximas. Ademais, todos os membros do partido da região foram mobilizados ante a necessidade do restabelecimento da ordem.

De um dia para o outro, Petrogrado transformou-se em um acampamento militar. Em cada esquina, pedestres eram parados e revistados. Teatros e restaurantes tiverem as portas fechadas. O toque de recolher foi decretado. Aqui e ali, tiroteios isolados quebravam o silêncio da noite na cidade desolada. À medida que as tensões iam se acumulando, suscitava, entre os trabalhadores industriais, um forte sentimento antissemita, que o Soviete de Petrogrado imputava à literatura racista dos agitadores brancos (23). Acusação que em certa medida era procedente, muito embora o antissemitismo fosse, em tempos de crise, uma constante na sociedade russa, principalmente entre as classes camponesas e trabalhadoras. De qualquer forma, os judeus assistiam à situação apreensivos e alguns deles realmente deixaram a cidade temendo um novo pogrom com a queda do governo (24).

Após mobilizar forças militares consideráveis dentro da cidade, os bolcheviques trataram de quebrar a onda de protestos impedindo o acesso dos grevistas às dependências internas das fábricas. Como consequência, os trabalhadores foram demitidos e perderam o direito à ração – em especial, nos casos das fábricas Trubochny e Laferme. Ao mesmo tempo, a Tcheka de Petrogrado realizava inúmeras prisões. Oradores que, nas assembleias de fábrica ou manifestações de rua, questionaram o regime bolchevique, eram presos em sinal de represália. No final de fevereiro, segundo calculou Feodor Dan, cerca de uns 500 operários e funcionários sindicais acabaram atrás das grades (25). Caíram também nas garras da Tcheka milhares de estudantes, intelectuais e muitas outras pessoas que pertenciam a partidos e grupos de oposição. Assim, a tomada de assalto de Petrogrado por oficiais da temida polícia secreta representou um duro golpe às organizações mencheviques. Virtualmente, todos os líderes em atividade, que ainda não estavam encarcerados, foram então capturados. Entre eles se encontravam Kazukov e Kamensky, detidos em fins de fevereiro, depois de organizarem um protesto de trabalhadores. Poucos deles, incluindo Rozhkov e Dan, permaneceram livres por um ou mais dias. Neste curto espaço de tempo, dedicavam-se febrilmente a escrever e distribuir panfletos e cartazes, até que foram finalmente alcançados pela polícia. Em suma, estima-se que durante os primeiros três meses de 1921, pelo menos uns 5.000 mencheviques, incluindo todo o comitê central do partido, foram feitos prisioneiros (26). Também os socialistas revolucionários (SR) e anarquistas que ainda se encontravam em liberdade logo se viram vítimas da persecução penal e caíram em desgraça nas prisões do governo. Em sua obra Memoirs of a Revolutionary, Victor Serge relata que a Tcheka responsabilizou os prisioneiros mencheviques pelas greves de Petrogrado e pretendia fuzilá-los, mas a intervenção de Máximo Gorki em favor dos condenados acabou por salvá-los (27).

Entretanto, os bolcheviques intensificaram a propaganda ideológica em torno dos inimigos do regime numa tentativa derradeira de persuadir os grevistas a retomar o trabalho e evitar as consequências de um eventual derramamento de sangue. Para isso, mobilizaram a imprensa e os membros do partido que desfrutavam do apreço popular em uma campanha destinada a recuperar a boa imagem do partido nas ruas, nas fábricas e nos quartéis. É provável que, sim, às origens plebeias do presidente do Conselho Pan-Russo dos Sovietes, Mikhael Kalinin, gozasse de alguma boa vontade por parte dos operários e militares. No geral, porém, a acolhida dos agentes do governo não era lá nem um pouco cordial. Como tema central, a propaganda oficial condenava as greves como parte de uma conspiração contrarrevolucionária articulada pela Guarda Branca e seus aliados mencheviques e socialistas revolucionários (SR). Como notou Emma Goldman, depois de tanta repetição, as teses do governo iam perdendo seu efeito de persuasão (28), não obstante alguma margem de dúvida que certamente ainda devia restar, principalmente, porque os mencheviques e os socialistas revolucionários (SR) não faziam a menor questão de esconder seu envolvimento direto nas manifestações de rua.

Mas não seria unicamente pelo emprego da força ou da propaganda que a autoridades restabeleceriam a ordem em Petrogrado. O governo sinalizou uma série de concessões de relativa importância como forma de neutralizar a força dos movimentos de oposição. De imediato, distribui-se uma quantidade extra de ração aos soldados e operários, algo equivalente a uma lata de carne em conserva e um pouco mais de meio quilo de pão. Segundo informou o cônsul norte-americano em Viborg, a distribuição de alimentos “produziu uma diminuição considerável nos armazéns já parcamente abastecidos de Petrogrado” (29). Assim, para evitar o esgotamento das reservas estocadas, houve a necessidade de remanejar alimentos de outras localidades da Rússia para reabastecer Petrogrado.

Paralelamente, no dia 27 de fevereiro, Zinoviev anunciou muitas outras concessões que satisfaziam às demandas mais urgentes dos trabalhadores. Desde então, o governo autorizou aos cidadãos a permissão para sair da cidade em busca comida. Como prova de boa vontade, Zinoviev prometeu aumentar o número de trens para facilitar as viagens com destino à zona rural. Ademais, os destacamentos de bloqueio de estradas, distribuídos ao redor de Petrogrado, foram instruídos a não confiscar alimentos transportados pelos operários, desde que não se configurassem casos flagrantes de especulação. Zinoviev também anunciou a compra de cerca 18 milhões de poods de carvão do exterior (1 pood equivale a 16kg – N.T.), que chegariam brevemente e contribuiriam para aliviar a escassez de combustível em Petrogrado e outra cidades. Mas, o mais importante, conforme revelou o comissário, era um projeto, ainda em fase de estudo, que tencionava substituir a requisição forçada de cereais por uma taxa em espécie (30). Em outras palavras, o sistema do comunismo de guerra estava em vias de ser alterado por uma nova política econômica que devia restabelecer, pelo menos em parte, a liberdade do comércio entre a cidade e o campo. A 19 de Março, para dar mostras de credibilidade, o Soviete de Petrogrado anunciou a retirada de todos os bloqueios de estrada na província de Petrogrado. Nesse mesmo dia, foram dispensados todos os soldados do Exército Vermelho empregados nas fábricas de Petrogrado – mais ou menos uns dois ou três mil – e liberados para que retornassem às aldeias de sua residência. De acordo com a explicação oficial, cortes na produção tornavam a presença do exército desnecessária no emprego da mão de obra na indústria (31).

Como resultado, após vários dias de negociações tensas, as manifestações em Petrogrado foram diminuindo rapidamente. A dois ou três de março, quase todas as fábricas voltaram a funcionar normalmente. Não há a menor dúvida, as concessões do governo produziram um efeito positivo na retomada da produção. Entretanto, a mudança na conturbada conjuntura social de Petrogrado deveu-se muito mais às terríveis consequências do frio e da fome do que as políticas do governo. Também não foi desprezível os impactos do uso da força militar e das prisões em massa, para não falar da incansável propaganda empreendida pelas autoridades governamentais, que foram indispensáveis para o restabelecimento da ordem na cidade. Mas ainda mais impressionante foi a disciplina da organização partidária da cidade. Deixando de lado as disputas internas, os bolcheviques de Petrogrado demonstraram uma união admirável ao assumir a responsabilidade, diga-se de passagem, bastante desagradável, de reprimir prontamente o povo nas ruas. Tal foi o mérito de Zinoviev, chefe do partido local, e de todos os seus subordinados. A despeito de sua reputação de covarde, Zinoviev entrava facilmente em pânico em situações de perigo, o chefe do partido em Petrogrado agiu com notável presença de espírito em um momento que a repressão das manifestações de rua tornava-se dramática.

Ademais, o movimento não entraria em colapso tão rapidamente se uma profunda desmoralização não se abatesse sobre a população de Petrogrado. Os trabalhadores estavam simplesmente esgotados para manter por mais alguns dias qualquer tipo de atividade política de enfrentamento. A fome e o frio haviam reduzido muitos deles a um estado de indiferença total muito próximo a uma apatia profunda. Mais ainda, careciam de liderança efetiva e de um programa coerente de ação. No passado, contavam com o apoio da intelligenstia radical... Mas, agora, em 1921, como muito bem percebeu Emma Goldman, os intelectuais de Petrogrado não estavam em condições de prestar aos trabalhadores qualquer tipo de apoio, muito menos uma liderança ativa? Para quem no passado havia sido linha de frente nos protestos revolucionários, no presente momento sentia-se fatigado e aterrorizado. Como erguer a voz, abatidos que estavam pelo resultado inútil do seu esforço individual? Como a maioria de seus camaradas presos ou exilados, quando não executados, poucos estavam dispostos a arriscar um destino parecido, especialmente quando as probabilidades de derrota eram esmagadoras e o menor gesto de rebeldia poderia privar sua família da preciosa ração (32). Ademais, para muitos intelectuais e trabalhadores, os bolcheviques, em que pese todos os seus defeitos, formavam ainda a barreira mais poderosa contra uma ofensiva branca que poderia colocar em risco a vitória da revolução.

Por estas razões, as greves de Petrogrado estavam predestinadas a uma curta duração. Na verdade, terminaram quase tão repentinamente como começaram; sem esboçar qualquer perigo ao regime. Todavia, suas consequências foram imensas. Os marinheiros da vizinha Kronstadt, sintonizados com os recentes acontecimentos na velha capital, colocaram em cena aquela que seria sob muitos aspectos a mais séria rebelião da história soviética.

Kronstadt é, ao mesmo tempo, cidade fortificada e base naval. Localizada na ilha de Kotlin, no Golfo da Finlândia, a uns 30 quilômetros a oeste de Petrogrado, foi construída por Pedro, o Grande, no início do século XVIII. A fortaleza original destinava-se a proteger a nova capital da Rússia às margens do rio Neva - a celebrada “janela de Pedro para o Ocidente”. Todavia, a partir do século IX, a ilha ganhou importância estratégica, pois, desde os tempos da famosa rota marítima que ia dos “vikings (varegues ou, no original, varangianos – N.T.) aos gregos”, formava a desembocadura de saída da Rússia para o Ocidente. Atualmente, quem visita Peterhof, o majestoso Palácio de Pedro, no continente, ao sudeste de Kotlin, pode caminhar pela costa e ver ao longe o contorno cinzento da ilha que protege pelo mar a antiga capital. É uma estreita faixa de terra de uns treze quilômetros de comprimento por dois quilômetros e meio de largura, apresentando contornos irregulares de um triângulo alargado. Inacessível pelo exterior, a faixa costeira está bem defendida por uma série de fortes e baterias construídos sobre formações rochosas que, de norte a sul, se alongam mar adentro.

No extremo oriente da ilha, bem na frente de Petrogrado, está situada a cidade de Kronstadt, rodeada por uma grossa e antiga muralha. Seu principal ponto de acesso é o Portão de Petrogrado, a leste da ilha. Ao lado sul, encontram-se os portos e diques secos que recebem os navios da Frota do Báltico. O Golfo da Finlândia permanece congelado durante mais de quatro meses ao ano, de novembro até fins de março ou início de abril. Nos meses de verão, antes da Primeira Guerra Mundial, navios a vapor de turismo realizavam rotas de cruzeiros regularmente entre Petersburgo e Kronstadt. No inverno, as viagens eram feita de trem a Oranienbaum, cidade e base militar continental situada a uns 8 km ao sul da ilha de Kotlin; dali em diante se seguia de trenó por uma estrada sobre a grossa camada de gelo na superfície do golfo. No começo do século XX, Kronstadt era, sob todos os aspectos, um lugar muito pitoresco: numerosos canais, ruas ladeadas por árvores e majestosos edifícios públicos muito parecidos com os da capital Imperial embelezavam a cidade. Entre suas principais construções, destacava-se a notável Catedral de Santo André, construída com uma cúpula dourada e cercada por muros cor de ocre. Mas também merecem a nossa menção os velhos edifícios do Arsenal e do Almirantado e a Escola de Engenharia Naval (rebatizada de Casa da Educação, em 1917). No centro da cidade, a imensa Praça da Âncora em frente à enorme Catedral dos Marinheiros (Morskoi Sobor) [Catedral de São Nicolau dos Marinheiros, N.T.], construída em fins do século XIX. A praça recebeu este nome a partir de meados do século XVIII quando ali foram construídos grandes armazéns para guardar âncoras de navios (33). A vasta área que recobre a praça tem capacidade para receber mais de 25 mil pessoas e foi muito utilizada para exercícios de recrutas e desfiles militares. Durante 1905 e 1917, a Praça da Âncora converteu-se no foro revolucionário de Kronstadt; palco de reuniões diárias, por onde se aglomeravam uma multidão de entusiásticos marinheiros, soldados e trabalhadores, um tipo de democracia tosca, direta e eficaz, resquício da época das assembleias populares cossacas, caracterizavam esses encontros.

Em 1921, Kronstadt era a principal base da Frota do Báltico. A população total estava estimada em umas 50.000 pessoas, das quais mais ou menos metade era formada por civis e a outra, militares. Estes últimos se dividiam, por sua vez, entre a tripulação de marinheiros da frota (a maioria) e os soldados da guarnição, em sua maior parte artilheiros que integravam o bastião principal, os fortes periféricos e o paiol. Muitos civis mantinham vínculos com a fortaleza e a base naval, seja como empregados do exército, seja como operários que trabalhavam nos estaleiros, armazéns e outros estabelecimentos do litoral. O resto era constituído, sobretudo, por operários de fábrica, artesões, pescadores, pequenos comerciantes, empregados de cooperativas e funcionários das instituições governamentais da cidade propriamente dita (34).

O nome de Kotlin - chaleira ou caldeirão – era bastante adequado para a ilha, pois seus habitantes mais notórios, os marinheiros do Báltico, estavam sempre em ebulição, dado o seu temperamento irascível. Constituíam uma estirpe rebelde e independente que abominava todo tipo de autoridade e privilégios. Estavam sempre com os nervos à flor da pele, inclinados a violentas explosões contra os oficiais ou mesmo o governo. Por seu humor bilioso, tinham um quê daqueles audazes piratas do passado, ou dos cossacos e strel'tsy (mosqueteiros) dos séculos XVII e XVIII, cuja soldadesca era foco de buntarstvo, isto é, rebelião espontânea. Assim como os seus antecessores, os marinheiros também eram vol'nitsy, ou seja, espíritos indomados. Resistiam instintivamente à disciplina e amavam a liberdade e a aventura. Quando inflamados por boatos ou pela vodka, davam vazão à sua fúria saciando-a com o sangue dos ricos e poderosos. E, tais quais seus predecessores, qualquer coisa era pretexto para um bom motim.

Kronstadt possuía uma história de um radicalismo volátil, que datava ao primeiro grande levante ocorrido na Rússia do século XX, a Revolução de 1905. No ano de 1901, livros proibidos começaram a circular pela tripulação. Pouco tempo depois, os marinheiros formavam grupos de discussão sobre temas políticos e sociais. Passaram então a formular reivindicações concernentes às questões de seu cotidiano, como os baixos salários, a má alimentação e a rigorosa disciplina à que estavam continuamente submetidos. A onda de greves, jacqueries e terrorismo, que varreu o país entre 1902 e 1905, encontrou ressonância entre os marinheiros, principalmente no que tange à formação crítica de uma consciência política e social. Daí por diante, insubordinação à hierarquia e outras transgressões disciplinares tornaram-se ocorrências rotineiras. Em 1905, deflagrada a guerra russo-japonesa e tendo iniciado a revolução, o que restava da disciplina se perdeu quando os japoneses afundaram grande parte da frota russa nos estreitos de Tsushima. Como se não fosse o bastante, em junho de 1905, um episódio dramático envolvendo exercícios militares no Mar Negro agravou ainda mais a predisposição rebelde dos marinheiros de Kronstadt: o famoso motim do encouraçado Potemkin.

No ápice da revolução, um dos primeiros transtornos registrados em Kronstadt teve início em outubro de 1905, inaugurando uma pauta de contestação que iria perdurar pelos anos seguintes. Numa grande assembleia realizada na Praça da Âncora, milhares de marinheiros e soldados descontentes manifestaram suas queixas que, dessa vez, iam além das habituais reivindicações por melhores alimentação e vestimentas, soldo mais alto, turnos menores e relaxamento da disciplina. Ouviram-se gritos pela derrubada da autocracia e a favor de uma república democrática com plenas liberdades civis para todos. Nos dias seguintes, os ânimos exaltaram-se ainda mais. A 25 de outubro, uma reclamação corriqueira sobre a péssima qualidade da comida servida no bandejão desencadeou uma baderna generalizada. “Matem o comandante”, berravam os marinheiros, ao som de um estrondoso bater de botas e de incessantes golpes de talheres nas bandejas (31). No dia seguinte, Kronstadt estava em polvorosa. A revolta completamente espontânea degenerou-se rapidamente em uma orgia de pilhagem e destruição que só encontrou paralelo nos motins dos strel'tsy no reinado de Pedro, o Grande. Uma turba formada por marinheiros e soldados ensandecidos corria pelas ruas da cidade estilhaçando vidraças e incendiando edifícios. Barricadas foram erguidas e casas ocupadas ante a chegada das forças punitivas de São Petersburgo. Até que as tropas imperiais pudessem reestabelecer a ordem, o motim já havia resultado em dezessete mortos e oitenta e dois feridos. Foram presos quase 3.000 amotinados, muitos dos quais condenados a anos de prisão ou ao exílio. No entanto, nenhuma sentença de morte foi decretada (36).

A 19 de julho de 1906, quando os raios crepusculares da revolução de 1905 esmaeciam na escuridão da noite, uma segunda e mais explosiva rebelião popular tomou o porto de Sveaborg, em Kronstadt. Como em outubro, a revolta foi espontânea e desorganizada, escapando do controle por dois dias seguidos antes dos reforços policiais conseguirem conter os revoltosos. As reivindicações dos rebeldes seguiam essencialmente as mesmas, acrescidas, no entanto, de uma gota amarga de desilusão pelo fracasso do movimento anterior. Entretanto, o ódio à autoridade e à disciplina seguirá sendo a tônica da rebeldia dos marinheiros. “Vocês beberam o nosso sangue por tempo demais!”, gritava um marinheiro a um oficial em meio ao tumulto. Gritos assim sintetizavam o sentimento dos insurgentes (37). A luta foi travada com uma ferocidade nunca vista. De um lado, um sentimento de frustração e os sucessivos ultrajes impulsionavam os rebeldes; de outro, a confiança em uma rápida vitória, num momento em que a maré revolucionária começara a baixar na Rússia, inspirava as autoridades. Envoltos em uma atmosfera asfixiante emanada pela repressão, 36 líderes rebeldes foram executados e centenas encarcerados ou desterrados para a Sibéria (38).

É importante ressaltar os primeiros casos de rebelião espontânea em Kronstadt, porque, sob muitos aspectos, como veremos a seguir, pressagiavam os tormentosos acontecimentos de março de 1921. Isto é especialmente verdadeiro quando se trata da rebelião sucedida em 1917. Nessa ocasião, Kronstadt mais uma vez foi palco de um movimento revolucionário desenfreado. Sob a influência da extrema esquerda, que ao longo daquele ano teve grande ascendência ideológica sobre a tempestuosa população da ilha Kotlin, Kronstadt principiou uma comuna revolucionária aos moldes da Comuna de Paris de 1871 - relíquia histórica e lendária das revoluções sociais no imaginário popular. Em março de 1917, o soviete independente de Kronstadt, dirigido por bolcheviques, anarquistas, socialistas revolucionários (SR) de extrema esquerda e radicais de tendência anarcopopulista não afiliados a nenhum partido, recusou-se a obedecer à autoridade do governo provincial ao se proclamar “o único poder na cidade” (39). Desde então, o soviete de Kronstadt exerceu uma autoridade política plena, baseado apenas nas assembleias realizadas diariamente na Praça da Âncora. Aliás, a Praça da Âncora, segundo descreveu Elfim Yarchuk, um anarquista do soviete de Kronstadt, transformou-se em uma “universidade livre”, onde oradores revolucionários de todas as tendências defendiam suas teses perante grandes multidões ansiosas por ouvi-los. Um líder bolchevique local, Ivan Flerovsky, apelidou orgulhosamente as reuniões de marinheiros, soldados e operários de “veche de Kronstadt”, uma referência às tumultuosas assembleias populares que floresciam nas cidades russas durante a Idade Média (40).

O soviete e o foro da Praça da Âncora tornaram-se juntos a instância política que satisfazia as necessidades dos habitantes de Kronstadt sem a necessidade de recorrer a qualquer mediação de um parlamento nacional ou outro organismo central de governo. Em grande parte, a vida social e econômica da cidade prosperava sob a atmosfera libertária da cidade, que era administrada pelos próprios cidadãos mediante o funcionamento de comitês locais de toda a classe – comitê executivo, comitê naval, comitê de alimentação, comitê de fábricas e de oficinas. Para defender a soberania da ilha das intromissões exteriores, uma milícia popular foi organizada. De fato, os kronstadtinos demonstravam um genuíno talento para criar e gerir organizações espontâneas. Além dos diversos comitês espalhados pela cidade, homens e mulheres, que trabalhavam em um mesmo ofício ou residiam na mesma vizinhança, formavam pequenas comunas agrícolas com aproximadamente 50 integrantes a fim de cultivar toda sorte de terra arável disponível nas áreas isoladas da ilha. Durante a guerra civil, relatou Yarchuck, essas hortas coletivas ajudaram a salvar a cidade da inanição (41).

Portanto, zelosa de sua autonomia local, a população de Kronstadt respondia calorosamente ao apelo lançado por Lênin em 1917 de “todo poder aos sovietes”. Os kronstadtinos interpretaram o slogan em sentido literal, segundo o qual cada localidade trataria de cuidar de seus próprios assuntos, com pouca ou nenhuma interferência de qualquer autoridade central. Assim eles compreendiam, disse Yarchuck, a verdadeira essência do “socialismo” (42). Consideravam a sua comuna revolucionária como um autêntico modelo de autogestão descentralizada que deveria servir de exemplo a todo o resto do país. “Em que pese todas as virtudes revolucionárias de Kronstadt - observava Ivan Flerovsky - os marinheiros detinham de uma fragilidade séria: acreditavam ingenuamente que bastava a força de vontade para instituir o poder dos sovietes em toda a Rússia” (43). Claro, tais esperanças se mostrariam vãs e, nos anos subsequentes à ditadura bolchevique, a comuna libertária de Kronstadt se tornaria um espectro da utopia perdida. No fundo, a revolta de 1921 foi um esforço titânico dos kronstadtinos para refundar a idade de ouro de uma vida social espontânea sob a égide do “todo poder aos sovietes locais”.

Durante a revolução de 1917, a Frota do Báltico manteve-se em constante estado de erupção. De quando em quando, violentas explosões sociais atingiam toda forma de autoridade política e militar. Assim como no ano de 1905, ocasião em que os marinheiros dirigiram toda a sua fúria contra os oficiais, a quem tinham por representantes de uma era de privilégios arcaicos e poder arbitrário, os kronstadtinos estavam especialmente ansiosos por se libertar da rígida disciplina e da servidão penal, pelas quais Kotlin devia sua reputação de “Sakhalin dos marinheiros” (44). Portanto, quando estourou a revolução de fevereiro, os marinheiros aproveitaram a primeira oportunidade para quebrar os grilhões que os prendiam ao recrutamento obrigatório e acertar as contas com os odiados superiores. A 28 de fevereiro, uma multidão de marinheiros enfurecidos arrastou o comandante da base, o almirante R. N. Viren, até a Praça da Âncora e lá o executaram. O ato extremo desencadeou uma festa sangrenta na qual mais de quarenta oficiais da armada e do exército de Kronstadt foram assassinados e outros duzentos, presos. Enfim, durante os distúrbios de fevereiro, uma onda de violência varreu todo o complexo de bases da Frota do Báltico. Sem contar as vítimas do exército, cerca de setenta e seis oficiais da marinha foram assassinados, dentre eles, o almirante Butakov - equivalente a Viren, em Sveaborg - e o almirante Nepenin, comandante-em-chefe de toda a Frota do Báltico, cujo quartel-general estava estabelecido em Helsingfors (Helsinki) (45).

A sede de vingança revelou apenas um dos muitos aspectos do extremismo revolucionário que a sublevação de fevereiro suscitou em Kronstadt. Um espírito libertário irrefreável apoderou-se da cidade. Presumivelmente, bolcheviques, anarquistas, maximalistas socialistas revolucionários (SR) e outros grupos ultrarradicais fizeram todo o possível para incitá-los à rebelião e, em pouco tempo, passaram a exercer sobre eles e a população da ilha uma influência avassaladora. O alvo principal na mira dos heterogêneos grupos extremistas não era definitivamente os oficiais militares, mas o governo provisório. Nos meses seguintes, os marinheiros participaram de toda manifestação revolucionária organizada por eles contra o novo regime. Em abril de 1917, os kronstadtinos compareceram às manifestações de rua de Petrogrado. Em junho, marcharam em apoio a um grupo de anarquistas que havia levantado barricadas em resposta a um contra-ataque do governo. Novamente, durante as tormentosas Jornadas de Julho, avançaram sobre Petrogrado ao primeiro sinal de revolução social e ali desempenharam um papel de capital importância na insurreição que, no entanto, acabou por fracassar. Pelos feitos heroicos de julho, mereceram de Trotsky o epíteto de “orgulho e glória da revolução”. (Em um incidente muito conhecido, um grupo de marinheiros apoderou-se de Victor Chernov, socialista revolucionário (SR) e ministro da agricultura, que, não fosse a rápida intervenção de Trotsky, teria sido linchado) (46).

Em fins de agosto, durante a marcha do general Kornilov sobre a capital, os marinheiros reagruparam-se em defesa da revolução. A tripulação do Petropavlovsk, navio de guerra que esteve na vanguarda dos acontecimentos de julho, mostrou-se intransigente quanto à transferência imediata do poder aos sovietes. Além disso, os marinheiros queriam a prisão e execução de Kornilov. Quatro oficiais de opinião contrária foram capturados e justiçados no ato (47). Nas semanas seguintes, fiéis à reputação de revolucionários irredutíveis, os marinheiros continuaram exercendo pressão para derrubar do governo provisório. A 25 de outubro, chegara o momento tão esperado; Lênin lança sua bem-sucedida escalada ao poder. Os marinheiros com suas embarcações precipitam-se até a capital em auxílio aos revolucionários e unem-se aos guardas vermelhos de Petrogrado no assalto ao Palácio de Inverno, enquanto o cruzador Aurora disparava salvas de tiros de festim para desmoralizar a pífia resistência que ainda restava do governo provisório. Pelo papel que desempenharam em outubro, os homens de Kronstadt fizeram jus ao título de “orgulho e glória da revolução”, com o qual foram honrados por Trotsky nas Jornadas de Julho.

No entanto, mesmo após a queda de Kerensky, a militância revolucionária de Kronstadt manteve-se efervescente. Na verdade, a vitória só havia excitado a sanha por vingança dos marinheiros contra as classes sociais depostas do poder. A afamada propensão por ações violentas da frota ocasionou desfechos particularmente trágicos, como os dos dias 6 e 7 de janeiro de 1918. Naquela noite, um bando de marinheiros impetuosos invadiu o hospital de Petrogrado e assassinou dois ex-ministros Kadets do governo provisório, Shingarev e Kokoshkin, que estavam mantidos em custódia hospitalar. O comissário de justiça L. N. Steinberg, seguindo instruções de Lênin, instaurou procedimento de investigação para apurar o caso. Porém, Lênin reconsiderou a acusação e arquivou a denúncia, receoso de uma reação intempestiva dos marinheiros (48). Na verdade, Lênin aproveitava-se estrategicamente da crueldade dos marinheiros enquanto uma espécie de guarda petroriana sempre pronta a defender os sovietes. De fato, na noite em que antecedeu os assassinatos no hospital, Lênin enviara um destacamento de homens de Kronstadt, liderado por Anatoli Zhelezniakov, um bravo e jovem anarquista, para dissolver a assembleia constituinte em que os bolcheviques não haviam conquistado maioria parlamentar (49). Mas os marinheiros tinham suas próprias razões para se oporem à assembleia constituinte. Como temos visto, para eles, as instituições políticas eram absolutamente inúteis, ainda mais quando dominadas por partidos conservadores. Na opinião dos marinheiros, a sociedade futura seria regida pela democracia direta dos sovietes locais. Ao contrário, o parlamento nacional só podia significar um passo para trás, um retrocesso “burguês”, imposto pelo governo provisório, tão arduamente derrubado por eles.

Durante toda a guerra civil de 1918-1920, os marinheiros de Kronstadt e toda a Frota do Báltico seguiram sendo o porta-estandarte da revolução. Mais de 40.000 marinheiros se lançarão numa luta atroz contra os inimigos brancos (50). Notáveis por sua coragem e ferocidade, navegando flotilhas fluviais ou percorrendo por terra em trens blindados, estavam presentes, ao lado do Exército Vermelho, em todos os fronts de combate. Na batalha crucial de Sviiazhsk - “o Valmy da Revolução Russa” [Batalha de Valmy, travada a 20 de setembro de 1792, durante as guerras no contexto da Revolução Francesa – N.T.] -, proporcionaram a Trotsky sua mais destemida tropa de choque e ajudaram-no a rechaçar a poderosa força inimiga que ameaçava penetrar o coração do território bolchevique.

Ao mesmo tempo, foi se desenvolvendo pouco a pouco um sério atrito entre os marinheiros e o governo. As primeiras notas dissonantes ressonaram quando, imediatamente após o golpe de outubro, Lênin anunciou um gabinete composto exclusivamente de bolcheviques. O soviete de Kronstadt, temeroso pela excessiva concentração de poder nas mãos de um único partido, passou a pressionar os bolcheviques em favor de um governo de coalizão representado por todos os grupos socialistas – um presságio do programa de Kronstadt de março de 1921. Rumores ameaçadores circulavam entre os marinheiros, alarmados que estavam com a possibilidade do surgimento de uma nova ditadura no país. Se o atual Conselho de Comissários do Povo incorresse numa pérfida traição aos ideais democráticos da revolução, concordavam os marinheiros, os mesmos canhões que subjugaram o Palácio de Inverno em outubro se voltariam facilmente contra o quartel general da nova administração, o instituto Smolny (51). Aparentemente, Lênin desdenhou das hostilidades da frota quando, em novembro de 1917, por alguma ironia do destino, ameaçou alguns de seus correligionários, que se empenhavam pela admissão de outros grupos socialistas no governo, com um resoluto basta, caso contrário, “chamaremos os marinheiros” (52).

No início de 1918, as queixas em relação ao caráter arbitrário e burocrático do governo comunista já não eram um fato isolado. Em março, a situação agravou-se ainda mais com o fechamento e transferência das funções do comitê central (Tsentrobalt) eleito pela frota a um conselho de comissários designados pelo partido. Multiplicavam-se os marinheiros que desconfiavam dos bolcheviques por traírem os princípios da revolução. Impressão que se intensificou com o Tratado de Brest-Litovsk, assinado no mesmo mês de março. Muitos marinheiros bandearam-se para o lado daqueles que, como os comunistas de esquerda, anarquistas e socialistas revolucionários (SR) de esquerda, opunham-se ao tratado por considerá-lo uma rendição ao imperialismo alemão ou mesmo um abandono do ideal da revolução mundial. No mês seguinte, a tripulação de vários navios do Báltico aprovou uma resolução redigida em termos decididos em que acusava o governo de planejar a destruição da frota a mando dos alemães. A resolução chegou ao ponto de expor expressamente um programa revolucionário para derrubar o governo bolchevique e implantar no lugar um regime fiel aos princípios da revolução. Nada disso aconteceu. Porém, em julho de 1918, muitos marinheiros uniram-se aos socialistas revolucionários (SR) de esquerda que se sublevaram em Moscou. Na ocasião, os insurgentes tomaram de assalto o quartel general da Tcheka e aprisionaram por um breve período o oficial de alta patente M. I. Latsis (53).

Em outubro, novos tumultos ganharam as ruas. Uma assembleia realizada na base naval de Petrogrado aprovou uma deliberação determinando, ao mesmo tempo, o rompimento do acordo de Brest-Litovsk e a luta de resistência contra as forças alemãs que haviam ocupado a Ucrânia - país de onde se recrutavam, a propósito, muitos marinheiros (54). Paralelamente, os marinheiros manifestaram publicamente seu repúdio ao monopólio do poder político pelos bolcheviques. Condenavam a repressão aos elementos anarquistas e socialistas de oposição e postulavam eleições livres para os sovietes com representação plena a todos os partidos de esquerda. Finalmente, denunciavam a recém-inaugurada política emergencial de confisco de cereais, chamando os destacamentos encarregados de “ladrões” e “saqueadores de camponeses” (55).

O motim de outubro de 1918 foi rapidamente reprimido pelas tropas do governo. Porém, as reivindicações do movimento surpreendentemente antecipavam o programa da rebelião de Kronstadt de 1921, até mesmo no que diz respeito aos seus lemas de “sovietes livres” e “fora a comissariocracia”. Na verdade, os dois episódios constituíam-se conjunturas distintas de uma única e ampla agenda histórica. Se observarmos a movimentação da Frota do Báltico de 1905 até 1921, notaremos a existência de muitos elos de um mesmo continuum, comprovando o que Pavel Dybenko, líder militar bolchevique e ex-marinheiro em Kronstadt, chamava de “o eterno espírito rebelde" dos marinheiros de Kronstadt (56). Descobriremos desde sempre o mesmo repúdio ao privilégio e à autoridade, o mesmo ódio à arregimentação obrigatória, o mesmo sonho de autonomia local e autogestão. Sublinharemos, ademais, o forte antagonismo a tudo que envolvia um governo central profundamente enraizado na tradição anarquista e populista das classes baixas que datava da construção de um poderoso aparato burocrático de Estado entre os séculos XVII e XVIII. Isolada do continente, a cidade-fortaleza de Kronstadt chegou a se transformar, mais do que qualquer outra de suas bases-irmãs do Báltico, no baluarte de um primitivo inconformismo anárquico. Os marinheiros de Kronstadt, famosos pelo ardor revolucionário e espírito independente, nunca toleraram o arbítrio ou a sujeição, fossem quais fossem. Ostentavam um sacrossanto modo de ser, espontâneo e avesso a todo tipo de centralização. Os marinheiros desejavam viver em uma sociedade livre, baseada nos sovietes locais e numa democracia direta e popular, tal como rezavam as tradições do círculo cossaco (Kazachiy Krug) e do veche medieval [assembleias e conselhos do povo – N.T.]. Sempre propensos a uma recaída repentina em momentos de paroxismo violento contra os donos do poder, fossem estes oficiais, burocratas, latifundiários ou privilegiados de qualquer espécie, no mês de março do ano de 1921, o instinto indomável dos marinheiros irá encontrar a sua forma última e mais acabada.

Entretanto, à medida que se prolongava a guerra civil, a insatisfação dos marinheiros assumia contornos desproporcionais. Eternamente aborrecidos, descontavam seu ódio contra a disciplina militar. A revolução de 1917 desestruturou completamente a organização do exército e da marinha. A tradicional hierarquia de comando desmoronou-se como um castelo de cartas e deixou um vácuo de autoridade que seria preenchido por inúmeros comitês de soldados e marinheiros. Estes elegiam seus próprios líderes e descumpriam qualquer ordem vinda de cima. A situação caótica no meio militar seguia, a par e passo, a confusa conjuntura econômica industrial, encampada por comitês locais de fábrica que submetiam ao “controle operário” uma empresa atrás da outra. Nos primeiros meses que se passaram à revolução de outubro, a política bolchevique promovia um processo espontâneo de descentralização em todas as instituições sociais. Por decreto do governo, a hierarquia militar e as patentes tradicionais foram abolidas e substituídas por uma força “socialista” de combate “organizada de abaixo para cima através de eleições para os postos de comando e baseada na disciplina da camaradagem e do respeito mútuo” (57). Na prática, isto levou ao colapso da autoridade central e uma pane no circuito regular de mando, dando ensejo ao hábito inveterado dos recrutas russos para incursões violentas dedicadas ao saque e à pilhagem.

Não obstante, a guerra civil em 1918 abriu caminho para uma rápida inversão na política militar bolchevique. A sobrevivência do regime requeria, de um lado, o fim da caótica situação resultante do vácuo de poder nas instituições e, de outro, a restauração de uma rígida disciplina militar nas forças armadas. Na qualidade de comissário de guerra, Trotsky surgia como o principal opositor do “espírito guerrilheiro” (partzanshchina) que contaminava indiscriminadamente os soldados e marinheiros. Seguindo os procedimentos militares tradicionais, Trotsky prontamente reestruturou uma nova e efetiva força de combate. Evidentemente, não restituiu a antiga hierarquia militar. Todavia, trouxe de volta à ativa milhares de ex-oficiais imperiais que passaram a exercer a função de “especialistas militares” (voenspety), ainda que sob a atenta supervisão de comissários políticos. Desta maneira, supria a falta de experiência e conhecimento técnico necessários até que se formasse um novo regimento de comandantes vermelhos. O sistema de comitês dentro do Exército Vermelho foi então eliminado e uma estrita obediência às ordens superiores foi imposta incondicionalmente. Chegava ao fim de forma rápida e repentina o período da indisciplina (58).

Não demorou muito para que o governo ampliasse essas medidas a todas as forças armadas. Encontrou, todavia, uma obstinada resistência entre os marinheiros. Como observou Dybenko, os esforços realizados pelos bolcheviques para pôr fim aos comitês de embarcação e garantir a obediência hierárquica suscitaram uma avalanche de protestos na Frota do Báltico (59). Para os marinheiros, cuja aversão à autoridade era um proverbial estado de espírito, qualquer tentativa no sentido de restaurar a disciplina significava uma traição aos princípios de liberdade por que tanto lutaram no ano de 1917. Não só remetia ao implacável recrutamento dos tempos czaristas, como também minava a autonomia do serviço militar que os marinheiros entendiam ser a mais eficiente. Ademais, os marinheiros não estavam dispostos a entregar todos os frutos da vitória ao partido que tanto ajudaram a chegar ao poder e que precisamente agora parecia querer abandoná-los. Assim, foi se desenvolvendo de forma progressiva um constante atrito entre os marinheiros e os comissários e comandantes bolcheviques. Enquanto isso, escaramuças ocasionais ocorreriam com frequência envolvendo a frota e unidades da Tcheka, que, no ápice da guerra civil, estavam lado a lado na luta pela revolução.

Porém, quando a guerra civil terminou, ao invés de melhorar, a situação piorou ainda mais. Da noite para o dia, as severas políticas do governo perderam a sua razão de ser. Os camponeses não viam mais necessidade do confisco da produção nem da proibição do livre comércio. Da mesma forma, a subordinação dos sindicatos ao Estado, a férrea disciplina nas fábricas, a direção unipessoal, bem como a gestão verticalizada, com o retorno dos especialistas e técnicos “burgueses” aos postos de supervisão, pareciam injustificáveis, o que irritava demais os operários. Também os marinheiros e soldados mantinham a expectativa de uma institucionalização dos princípios democráticos na vida militar. Assim, a resistência à disciplina, a abolição dos comitês de embarcação e a nomeação de comissários e “especialistas militares” em posições de mando somavam fatores de uma ameaçadora instabilidade. Afora isto, entraram em cena elementos residuais que alimentariam ainda mais o espírito rebelde da tripulação e das guarnições do Báltico. Em primeiro lugar, uma vez eliminado para sempre o perigo representado pelos brancos, pela primeira os homens obtiveram licença em muitos meses e, ao voltarem para suas aldeias, testemunharam a olhos vistos a violência empregada nos procedimentos de confisco de cereais pelos destacamentos armados. Alguns soldados, inclusive, foram detidos pelas patrulhas de inspeção de estrada e submetidos à humilhante revista, a fim de se verificar se não transportavam alimentos ilegalmente. Já nas cidades, os recrutas puderam constatar toda a miséria humana que a guerra é capaz de produzir. Em toda parte, encontravam uma população descontente e insatisfeita. Ouviram queixas de seus pais e irmãos, que em vários aspectos eram as suas próprias. “Durante anos - observava Stepan Petrichenko, figura líder na sublevação de Kronstadt - a censura bolchevique ocultou o que se sucedia em nossas casas, enquanto estávamos no front ou no mar. Quando regressamos aos nossos lares, nossos pais indagavam porque tínhamos lutado ao lado dos opressores. Assim começamos a refletir” (60). É fácil imaginar em que medida argumentos como os de Petrichenko inspiraram a indignação de seus camaradas quando retrocediam aos seus postos. Na verdade, houve um efeito tão drástico sobre o moral daqueles homens, que o governo tomou providências para restringir as licenças na frota. Em dezembro de 1920, a situação por si só conduziu a protestos furiosos a bordo do Sebastopol, um dos grandes encouraçados atracados no porto de Kronstadt. O descontentamento da tripulação do Sebastopol terá um efeito de gatilho deflagrador dos eventos de fevereiro e março. Durante o inverno de 1920-1921, a taxa de deserções entre os marinheiros do Báltico cresceu a níveis alarmantes e, no início de 1921, a frota desintegrava-se como força militar organizada (61).

Outro perigo tomou grande vulto durante o período: o impacto da crise de alimentos e de combustível sobre a frota. Os marinheiros só não passavam mais fome e frio que a população civil em geral. Com o início do inverno, a vida nos quartéis e nas embarcações tornou-se insuportável por falta de calefação. Tampouco havia botas ou abrigos de inverno para os marinheiros enfrentar os terríveis efeitos de um frio inusitadamente rigoroso que afetou toda a região do Báltico entre novembro e abril. Pior ainda era a péssima qualidade das rações alimentares que se entregavam aos homens em quantidade insuficiente (62). Motivo de queixas frequentes na armada russa, a má nutrição havia originado revoltas no passado. E, no presente momento, fins de 1920, um surto de escorbuto grassou pela tripulação da Frota do Báltico. Em dezembro, segundo fontes de emigrados em Helsingfors, os marinheiros de Kronstadt enviaram uma delegação a Moscou a fim de solicitar rações de melhor qualidade. Mas os delegados acabaram detidos pelas autoridades moscovitas. F. F. Raskolnikov, comandante da frota, intercedeu por seus homens e advertiu que, a menos que se libertassem imediatamente a delegação dos marinheiros, Kronstadt podia apontar seus canhões em direção a Petrogrado. Todavia, não se deram ouvidos as palavras que algum tempo depois se revelariam proféticas (63).

Até mesmo os marinheiros que pertenciam ao Partido Comunista não estavam imunes à crescente onda de oposição que se avolumava entre a frota de Kronstadt. Como comungavam do mesmo espírito independente de seus camaradas, também eles nunca se curvaram à disciplina partidária ou militar. Em fins de 1920, surgiu uma “oposição da frota” à semelhança da “oposição militar” no Exército Vermelho e da “oposição dos trabalhadores” nas fábricas. Estes movimentos compartilhavam da autodeterminação local e da democracia partidária e rejeitavam com veemência a arregimentação compulsória e o rígido controle central. A “oposição da frota" advogava pela criação de uma marinha organizada no soviete segundo delineamentos “socialistas”; ideia pela qual eram considerados antiquados os conceitos de hierarquia e autoridade. Propugnava a implementação de comitês de embarcações mediante eleições simples. Por último, não aceitava a presença de “especialistas militares” e a “conduta ditatorial” (diktatorstvo) de certos funcionários bolcheviques na administração política da frota (64).

Fato ainda mais estarrecedor verificou-se quando um número crescente de marinheiros bolcheviques, para os quais a “oposição da frota” sequer contemplava uma fração de todo o seu descontentamento, deu um passo atrevido ao rasgar seus carnês partidários. Em janeiro de 1921, pelo menos uns cinco mil marinheiros do Báltico abandonaram o Partido Comunista. Entre agosto de 1920 e março de 1921, o partido perdeu metade de seus quatro mil filiados em Kronstadt (65). Funcionários bolcheviques acusavam elementos suspeitos pela debandada geral. Segundo eles, estes haviam abarrotado as colunas do partido durante a guerra civil, período em que a inscrição partidária fora facilitada e liberada de qualquer restrição regulamentar, como ocorreu, por exemplo, em agosto de 1919, durante a campanha assim intitulada “semana do partido”. Os interlocutores partidários justificavam o excesso de deserções pelo grande número de militantes de última hora. Como medida de precaução, centenas de filiados suspeitos tiveram seus registros cassados ou transferidos para as frotas do Mar Negro e do Mar Cáspio ou, ainda, do extremo Oriente (66).

As autoridades do partido dividiram-se na luta pelo controle político da frota, opondo Trotsky, Comissário de Guerra, a Zinoviev, chefe do partido em Petrogrado. A querela não era nova. Em outubro de 1917, Trotsky substituiu Zinoviev na função de adjunto de Lênin, o que trouxe grande ressentimento para o chefe do partido de Petrogrado. Durante os meses de 1920, segundo Feodor Raskolnikov, comandante da frota, e E. I. Batis, chefe do diretório político (Pubalt) - ambos leais a Trotsky -, Zinoviev tratou de desqualificar seu rival chamando-o de “ditador” e apresentando-se a si próprio como um campeão da democracia partidária e da autodeterminação local. Em novembro de 1920, por insistência de Zinoviev, o comitê partidário de Petrogrado solicitou a transferência da administração política da Frota do Báltico para a jurisdição do Pubalt; tramitação burocrática que encontrou resistência tenaz dos apoiadores de Trotsky (67).

Como resultado da disputa, os comissários e outros administradores do partido perderam boa parte de sua influência sobre os marinheiros. Isto já era evidente no início de dezembro, quando na ocasião de uma assembleia geral celebrada na base naval de Petrogrado, um grupo expressivo de marinheiros retirou-se em sinal de protesto à maneira como foram eleitos os delegados no VIII Congresso dos Sovietes (eleição que, segundo parece, foi dominada por funcionários do partido que pertenciam ao departamento político local). No começo do inverno, a tensão seguirá crescendo até atingir um clímax na Segunda Conferência dos Comunistas da Frota do Báltico, promovido em Petrogrado a 15 de fevereiro. A “oposição da frota”, que tinha emergido como uma poderosa força na conjuntura de então, obteve esmagadora maioria e exigiu a imediata descentralização do controle político. Isto convergia com a transferência da sede da autoridade do Pubalt [Politicheskoye Upravleniye Baltiyskogo Flota: Diretoria Política da Frota do Báltico - N.T.] e de seus departamentos políticos para os comitês partidários locais, tal como proposto por Zinoviev e seus companheiros no mês de novembro. A resolução aprovada desferia críticas ao Pubalt por seu alheamento em relação à grave situação vivida pelas massas populares e também pelo distanciamento dessa diretoria das bases partidárias. O Pubalt havia se transformado, segundo afirmava a resolução, em um “órgão burocrático sem legitimidade alguma”; e para restabelecer a autodeterminação local seria necessário reelaborar toda a estrutura política da frota “segundo princípios democráticos”. Alguns delegados pleiteavam também a abolição dos departamentos políticos da frota, uma demanda que encontrava eco entre os rebeldes de Kronstadt. Um funcionário do partido advertiu que, a menos que se fizessem alguma reforma, “em dois ou três meses haverá uma revolta” (68).

Em meados de fevereiro de 1921, as tensões na Frota do Báltico alcançaram um ponto crítico. Antes de terminar o mês, uma onda de greves inundou a cidade de Petrogrado. Quase ao mesmo tempo, notícias de tumultos ocasionados pelas greves chegaram a Kronstadt. A tradicional solidariedade revolucionária à classe trabalhadora de “Pedro Vermelho” era para os kronstadtinos uma regra desde pelo menos 1905 e 1917. A chegada das primeiras notícias sobre os incidentes de Petrogrado acarretou uma série de boatos que inflamou ainda mais o caráter passional dos marinheiros. Por exemplo, corriam rumores de que as tropas governamentais haviam atirado em manifestantes na ilha Vasili e que líderes grevistas estavam sendo fuzilados nas masmorras da Tcheka (69). Um clima eletrizante pairava no ar. Não é de se admirar, portanto, que histórias assim se propagavam como um relâmpago na tempestade. Alarmado, Kuzmin advertiu ao soviete de Petrogrado sobre uma possível irrupção na frota, caso as greves não fossem esmagadas o quanto antes. Mas a advertência chegou tarde demais. No mesmo dia, 26 de fevereiro, as tripulações do Petropavlovsk e do Sebastopol organizaram uma reunião de emergência e decidiram enviar uma delegação a Petrogrado para averiguar o que estava se passando de fato na cidade. Os dois navios de guerra, então aprisionados lado a lado nas águas congeladas do porto de Kronstadt, sempre foram um termômetro do sentimento dos rebeldes. Durante os dias de julho de 1917, segundo vimos, o Petropavlovsk tornou-se um símbolo da oposição militar ao governo provisório e, no mês seguinte, quatro de seus oficiais foram fuzilados em meio à duvidosa acusação de apoio ao general Kornilov. Portanto, não exagera Pavel Dybenko, ex-membro da tripulação, ao comentar em suas memórias acerca da “eterna rebeldia do Petropavlovsk” (70). O Sebastopol também partilhava de uma história de comportamento indomável; sua tripulação mal acabara de amotinar-se em razão da revogação das licenças.

Quando a delegação de Kronstadt chegou a Petrogrado, encontrou as fábricas cercadas por tropas e cadetes militares. Nos setores que ainda funcionavam, batalhões comunistas mantinham vigilância estrita e os operários emudeciam constrangidos com o aproximar dos marinheiros. “Alguém podia pensar - observava Petrichenko, líder da revolta prestes a estourar - que não eram trabalhadores, mas prisioneiros condenados a trabalhos forçados da época czarista” (71). A 28 de fevereiro, indignados com as cenas testemunhadas, os emissários voltaram a Kronstadt e apresentaram um relatório para uma assembleia histórica realizada a bordo do Petropavlovsk.

O relatória expressava total simpatia pelas demandas dos grevistas e reivindicava ampla autodeterminação das fábricas e também da frota. A assembleia então votou uma longa resolução que se transformou no estatuto político da rebelião de Kronstadt:

Depois de ter ouvido o informe dos representantes enviados a Petrogrado pela Assembleia Geral das Equipagens para examinar a situação, os marinheiros decidiram:

1. Considerando que os atuais sovietes não expressam a vontade dos operários e camponeses, estabelecemos o que se segue: proceder imediatamente a novas eleições mediante o voto secreto, com plena liberdade de palavra e ação a todos os operários e camponeses durante a campanha eleitoral;

2. Estabelecer a liberdade de expressão e de imprensa para todos os operários e camponeses, para os anarquistas e partidos socialistas de esquerda;

3. Assegurar a liberdade de reunião para os sindicatos e as organizações camponeses;

4. Convocar uma conferência não partidária com a participação de todos operários, soldados do exército vermelho e marinheiros de Petrogrado, Kronstadt e da província de Petrogrado, para a data de 10 de março de 1921, o mais tardar;

5. Libertar todos os prisioneiros políticos de partidos socialistas, assim como todos os operários, camponeses, soldados e marinheiros presos em consequência dos movimentos operários e campesinos;

6. Eleger uma comissão para revisar os processos referentes às detenções injustificadas em presídios e campos de concentração;

7. Abolir todos os departamentos políticos, porque a nenhum partido político deve se conceder privilégios especiais para a propaganda de suas ideias nem receber apoio financeiro do Estado para tais propósitos. Em lugar disso, devem se estabelecer comissões de cultura e de educação eleitas localmente e financiadas pelo Estado;

8. Desobstruir de imediato todos os bloqueios de inspeção de estrada;

9. Ajustar equitativamente as rações para todos os trabalhadores, excetuando os que realizam tarefas insalubres;

10. Abolir os destacamentos comunistas de choque em todas as unidades do exército, assim como a guarda comunista nas fábricas e usinas. Em caso de necessidade, estes guardas ou destacamentos poderão ser designados no exército pelas companhias e nas usinas e fábricas pelos próprios operários;

11. Conceder aos camponeses plena liberdade de ação no que concerne às suas terras e também ao direito de possuir gado, com a condição de que os mesmos executem suas tarefas sem empregar trabalho assalariado;

12. Requerer a todas as unidades do exército, assim como aos nossos camaradas cadetes (kursanty), que aprovem a nossa resolução;

13. Requisitar à imprensa a ampla publicidade de todas as nossas resoluções;

14. Designar uma comissão itinerante de controle;

15. Permitir a livre produção do artesanato, desde que isento do emprego de mão de obra assalariada;

Petrichenko, presidente da Assembleia da Esquadra

Perepelkin, Secretário (72).

A resolução do Petropavlovsk repercutia não apenas o descontentamento da Frota do Báltico, mas também de toda a população russa das cidades e aldeias do país. Portanto, os marinheiros, que eram de origem plebeia, sonhavam com uma vida melhor para os seus camaradas camponeses e operários. Na verdade, dos quinze pontos da resolução, apenas um - a abolição dos departamentos políticos da frota – restringia-se especialmente à situação dos marinheiros. O restante do documento aparecia como uma saraivada de críticas às políticas do comunismo de guerra, cuja justificativa perdera de todo sentindo há muito tempo. O fato de que alguns dos responsáveis pela resolução terem recebido licença há pouco tempo e testemunhado as condições precárias dos aldeões, dentre eles, o próprio presidente da assembleia Petrichenko, obviamente, influenciou bastante na elaboração das proposições de modo a incluir a pauta camponesa. Isto é especialmente verdadeiro no que tange ao item 11, que trata da permissão aos camponeses de usufruir livremente de sua terra desde que o uso de mão de obra assalariada fosse dispensado. O que implicava nada mais nada menos que a abolição das requisições de alimentos e também, talvez, a extinção das granjas estatais. Do mesmo modo, a função de capataz atribuída aos marinheiros nas fábricas de Petrogrado pode ter influenciado também para a inclusão no programa das principais demandas dos operários: o fim dos bloqueios de estrada, do racionamento de ração com porções privilegiadas e da vigilância das fábricas por militares.

Não foram, entretanto, as questões econômicas que tanto alarmaram as autoridades bolcheviques quando estas tomaram conhecimento das proposições do Petropavlovsk. Algumas das propostas, na verdade, como a retirada dos bloqueios de estrada (item 8), já estavam em fase de conclusão. Ademais, naquele momento, o governo estudava uma política econômica que visava atender aos anseios populares de um modo muito mais amplo que o tímido programa dos marinheiros. O que escandalizou o governo foram as pautas de ordem política, que apareciam como um tiro certeiro no coração da ditadura bolchevique. Nascia daí a necessidade de repremir imediatamente o movimento de Kronstadt. Curiosamente, os marinheiros não queriam a derrubada do governo soviético, muito menos a restauração da assembleia constituinte ou a reabilitação dos direitos políticos da alta burguesia e das classes médias. Por seu gênio indócil, sentiam verdadeiro desprezo pelos elementos moderados ou conservadores da sociedade russa, que, a depender de sua vontade inclemente, não mereciam sequer de um minuto de paz e tranquilidade. Mas a declaração inicial da resolução - “os atuais sovietes não expressam a vontade dos operários e camponeses” -, soava como um claro desafio ao monopólio político do poder bolchevique. Novas eleições para os sovietes locais, associadas à liberdade de expressão dos trabalhadores, camponeses e grupos políticos da ala esquerda em geral, era algo que Lênin e seus seguidores não podiam a tolerar. Com efeito, a resolução do Petropavlovsk significava uma séria advertência para que o governo soviético cumprisse a sua própria constituição, o que equivalia a uma repetição dos mesmos direitos e liberdades que Lênin defendera em 1917. De acordo com o raciocínio lógico dos marinheiros, portanto, expressava um retorno a outubro, e evocava a velha consigna leninista de “todo poder aos sovietes”. Mas, obviamente, não era a perspectiva bolchevique: confrontados em suas pretensões de guardiões da revolução, de representantes exclusivos do proletariado, a declaração dos marinheiros aparecia como um claro manifesto contrarrevolucionário, e assim devia ser compreendida.

A aprovação da resolução do Petropavlovsk precipitou a marcha dos acontecimentos. No dia primeiro de março, uma multidão de marinheiros, soldados e trabalhadores reuniram-se na Praça da Âncora. Cerca de 15.000 pessoas compareceram à assembleia, mais de um quarto do total da população militar e civil de Kronstadt. Chegaram até nós vários relatos de testemunhas oculares que estiveram no encontro, tanto comunistas como não comunistas (73), proporcionando-nos em seu conjunto um quadro vívido e detalhado sobre o que se sucedeu naquele dia. Na tribuna, discursavam dois funcionários bolcheviques pertencentes ao alto escalão, nomeadamente, M. I. Kalinin e N. N. Kuzmin. De acordo com algumas dessas narrativas, Zinoviev havia acompanhado os dois colegas até Oranienbaum, mas decidiu não prosseguir, pois temia ser maltratado pelos marinheiros. Mas, não à toa, Kalinin foi um dos enviados de Petrogrado para tentar salvar a situação. O então presidente da República Soviética, ao que parece, despertava o afeto da gente simples por ter sido ex-operário de fábrica e filho de uma família camponesa da província de Tver. Na semana anterior, Kalinin havia sido um dos poucos oradores bolcheviques a cativar a atenção dos grevistas. Assim sendo, sua popularidade podia fazer com que os marinheiros recobrassem a consciência de quão insensato estavam sendo ao confrontar o governo. Bandas, bandeiras e uma guarda militar de honra aguardavam a chegada do presidente, um claro sinal de boa vontade por parte dos kronstadtinos. A recepção acolhedora trazia certa esperança ao governo, pois proporcionava a oportunidade de evitar o agravamento da situação. Aliás, uma atmosfera amistosa marcou o início da assembleia na Praça da Âncora, presidida pelo chefe bolchevique do soviete de Kronstadt P. D. Vasiliev. Mas os ânimos começaram a se alterar quando o informe dos delegados destacados para a investigação das manifestações grevistas de Petrogrado foi apresentado aos presentes. Entretanto, a assembleia atingiu seu ponto crítico com a leitura na íntegra da resolução do Petropavlovsk. Imediatamente, Kalinin pôs-se em pé e tomou a palavra contra o documento. Ato contínuo, o presidente foi interrompido pelos marinheiros e virou alvo de zombarias: “Basta, Kalinych, sua casa deve ser realmente bem confortável e muito aquecida”. “Olhe para todos os cargos que você conseguiu... Aposto que ganhou muito dinheiro com eles”. “Nós sabemos perfeitamente do que necessitamos, camarada Kalinin; quanto a você, meu velho, faça o favor de ir embora e voltar para a companhia de sua senhora esposa”. Kalinin esforçou-se ainda por se fazer ouvir, mas suas palavras foram silenciadas por assobios e vaias ensurdecedores.

Kuzmin, alto comissário adjunto ao Conselho Revolucionário de Guerra da frota, recebeu tratamento similar. Em seu esforço para ganhar a atenção da multidão, lembrou aos marinheiros do seu papel heroico na revolução e na guerra civil. Mas, de repente, alguém gritou: “Acaso se esqueceu de que um em cada dez de seus homens tombou no massacre da Frente Norte? Chega, fora daqui!” A frase é nebulosa, mas talvez lance insinuações sobre a atuação de Kuzmin como comissário durante a guerra civil na Frente Norte (área de Arcangel e Murmansk). Ao que parece, Kuzmin teria participação no fuzilamento de bolcheviques amotinados ou indisciplinados. (Tais incidentes não eram incomuns. Um caso famoso ocorreu quando um grupo de recrutas de Petrogrado apoderou-se de um navio no Volga e fugiu para Nizhni Novgorod. Por ordem de Trotsky, uma canhoneira improvisada interceptou os desertores. Instaurada a corte marcial, foram condenados à pena de morte o comandante, o comissário e um em cada dez homens escolhidos aleatoriamente) (75). Seja como for, Kuzmin não se intimidou e respondeu de modo ameaçador: “O trabalhadores nunca perdoaram os traidores da causa, e assim continuará no futuro. Em meu lugar, vocês teriam matado um homem a cada cinco, e não um a cada dez”. “Basta!”, gritou alguém. “Você não pode nos ameaçar. Chutem ele daí!" Por vários minutos, chacotas de todos os tipos e perguntas capciosas forçaram Kuzmin a um silêncio constrangedor. Então, numa última tentativa de se manifestar, o comissário denunciou a resolução de Petropavlovsk como um documento contrarrevolucionário; em seguida, alertou dizendo que a indisciplina e a traição seriam esmagadas com a mão de ferro do proletariado. Enfim, acabou expulso do palanque em meio a um ruidoso coro de vaias e impropérios (76).

Mal os dois bolcheviques desceram do estrado, marinheiros e soldados assumiram o lugar. Um atrás do outro, questionavam as autoridades sobre a falta de alimentos e de combustível, denunciavam o confisco de cereais, os bloqueios de estradas e, sobretudo, indagavam o porquê do governo manter em vigor medidas emergências mesmo depois de meses do término da guerra civil. Enquanto o povo sofria, acusavam os oradores, os comissários possuíam abrigo decente e boa alimentação. Uma das principais vozes de acusação era a de Petrichenko, antigo funcionário do Petropavlovsk e líder da revolta. Fazendo eco às míticas tradições eslavas relativas ao folclore boiardo e aos lendários oficiais da velha Moscóvia, Petrichenko acusou os bolcheviques de “esconder a verdade do povo”. As lendas populares, como veremos, estavam profundamente enraizadas na psicologia inconformista dos marinheiros e formavam o núcleo de uma ideologia profundamente primitiva. Assim sendo, Petrichenko convenceu a assembleia a aprovar a resolução do Petropavlovsk (que levava a sua assinatura) e a conclamar eleições livres em todo o país.

A despeito dos protestos veementes dos bolcheviques Kalinin, Kuzmin e Vasiliev, a votação foi realizada e a resolução aprovada por esmagadora maioria. Em seguida, decidiram convocar uma conferência especial, que, ao que parece, devia expirar naquele mesmo dia. A conferência devia providenciar novas eleições para o soviete de Kronstadt. Finalmente, a assembleia deliberou o envio de uma delegação de trinta homens para Petrogrado com o objetivo de comunicar a população da cidade a respeito das resoluções dos marinheiros e, ao mesmo tempo, requerer a presença de observadores imparciais para fiscalizar as eleições em primeira mão. Mas, ao chegar ao continente, os delegados foram presos e nunca mais se ouviu falar neles (77).

Encerrada a assembleia, Kalinin e Kuzmin dirigiram-se ao quartel general local do partido onde se reuniriam para estudar os próximos movimentos no tabuleiro a serem realizados. Conforme relatou a célebre anarquista Emma Goldman, que acompanhava os acontecimentos do Hotel Astoria, em Petrogrado, Kalinin partiu de Kronstadt ainda sob um clima bastante fraternal (78). Diante do que acabara de ocorrer, isto parecia difícil de acreditar. Segundo fontes soviéticas, antes de deixar a ilha, Kalinin foi detido no Portão de Petrogrado. Sabemos pelos insurgentes, entrevistados posteriormente na Finlândia, que muitos marinheiros desejavam prender Kalinin, mas foram dissuadidos porque isto violaria o princípio de liberdade enunciado pela própria resolução. Em todo caso, tal questão não é relevante. O que de fato importa é que, com a aprovação da resolução dos marinheiros na Praça da Âncora, as circunstâncias tomaram rapidamente a direção inevitável de um motim.

Dado o desfecho desastroso da assembleia, Victor Serge culpou Kalinin e Kuzmin pelo fracasso nas negociações, pois, segundo suas palavras, nem um nem outro fez a menor questão em evitar uma atitude truculenta ao proferir discursos torpes e intransigentes que só podiam incitar a fúria dos marinheiros. Longe de apaziguar os revoltosos de Kronstadt, escreveu Serge em suas memórias, os dois oficiais trataram-nos como patifes e traidores. Além disso, ameaçaram os marinheiros com represálias implacáveis, ordenando-os de modo autoritário a ter prudência (80). Há seguramente um exagero nas descrições de Serge. A rebelião seguia causas internas muito mais poderosas que meros discursos e provocações poderiam insuflar numa tumultuosa assembleia. Ademais, os marinheiros pareciam predispostos a desafiar os comunistas, interrompendo-os com gritos e assobios a cada palavra por eles pronunciada. Por outro lado, é inegável que Kalinin e Kuzmin poderiam ter assumido uma postura mais condescendente perante um auditório tão suscetível. Há poucas dúvidas de que a falta de diplomacia de ambos reforçou ainda mais o sentimento hostil da frota em relação à burocracia bolchevique.

Entretanto, as autoridades estavam apavoradas demais com o fiasco das tratativas com os marinheiros de Kronstadt. Apesar do grande número de militantes do partido na frota, estes também foram tragados pela correnteza irresistível da rebelião. Mesmo quando Kalinin e Kuzmin mal esboçaram um gesto em desacordo à volúpia transgressora da assembleia, sendo, por isso, achincalhados, não houve uma única manifestação em apoio por parte de seus companheiros bolcheviques (excetuando Vasiliev). Na verdade, a maioria dos comunistas de Kronstadt votou a favor da resolução do Petropavlovsk, enquanto uns poucos se abstiveram. Este racha interno, como observa Leonard Shapiro, distinguiu o levante de Kronstadt de todas as rebeliões anteriores contra o governo soviético (81).

No dia seguinte, a dois de março, a incipiente revolta avançou mais um passo ao realizar a conferência (convocada pela assembleia da Praça de Âncora) referente à reeleição do soviete de Kronstadt. Participaram cerca de 300 delegados, escolhidos apressadamente em número par, através de cada navio, unidade militar, fábrica, sindicato etc., logo na parte da manhã ou mesmo durante a noite anterior. Ao que parece, não se permitiu aos comunistas presidir assembleias eleitorais ou mesmo eleger delegados, como ocorria no passado. Aliás, os comunistas passaram a receber o mesmo tratamento que seus camaradas Kalinin e Kuzmin: eram interpelados e censurados quando se manifestavam. Por exemplo, o comissário bolchevique responsável pela guarnição principal sequer pôde objetar sobre procedimentos irregulares que estavam sendo executados antes mesmo de ser advertido por um “especialista militar” responsável pela artilharia, o ex-general czarista Kozlovsky, um dos protagonistas do nosso relato. “O tempo dos comunistas acabou - declarou Kozlovsky ao comissário - a partir de agora, sou eu quem vai fazer o que tem de ser feito”. É provável que cenas como esta se repetiram durante toda manhã em muitas outras unidades. Todavia, ainda que a maioria dos delegados eleitos não fosse filiado ao partido, os comunistas articulavam-se para obter uma minoria muito importante que chegava talvez a um terço do número total (82).

A conferência teve início no grande auditório da Casa de Educação, outrora Escola de Engenharia Naval, um dos edifícios mais notáveis da cidade. Grupos de marinheiros armados do navio de guerra Petropavlovsk foram posicionados em lugares-chave de acesso aos salões para impedir qualquer interferência externa no decorrer a reunião. A presença dos marinheiros no local também servia de aparato intimidatório no sentido de coibir eventuais manifestações em defesa do regime bolchevique. Como era de se esperar, a conferência foi presidida pelo camarada Petrichenko. Desde o início, segundo temos visto, até o final da revolta, duas semanas depois, sua figura assumirá um papel de destaque na organização do movimento de Kronstadt. Nascido em uma família camponesa ucraniana, Stepan Maximovich Petrichenko reunia em si qualidades inerentes de um líder rebelde. Era um jovem vibrante, na casa dos seus 30 anos, bonito e de sólida compleição. Além disso, era dotado de um forte caráter magnético que lhe rendia um grande séquito de devotos. Em que pese o seu sotaque ucraniano, discursava com aptidão e desenvoltura, através de uma linguagem simples e direta que não escondia sua educação camponesa. Marinheiro experiente, Petrichenko ingressou na armada em 1912, quase uma década antes dos trágicos acontecimentos de que será protagonista. Antes disso, trabalhou como funileiro em seu distrito de origem. Segundo todas as nossas fontes consultadas, Petrichenko demonstrava uma aguda inteligência que contrariava os parcos dois anos de escola formal a que havia estudado durante a infância. A propósito, todos os que o conheceram afirmaram categoricamente que possuía grande energia e criatividade (83).

A conferência presidida por Petrichenko principiou com a eleição de um comitê formado por cinco homens. Em seguida, os delegados ouviram uns poucos discursos antes de iniciarem os trabalhos pertinentes à preparação das novas eleições para o soviete. Os oficiais comunistas Kuzmin e Vasiliev foram os primeiros a subir na tribuna e, obviamente, opunham-se à resolução do Petropavlovsk. Para a consternação de todos, os dois oficiais repetiram o mesmo tom dos discursos do dia anterior. Kuzmin, em particular, provocou indignação dos delegados ao recordar que ainda não havia sido formalizado um tratado de paz com a Polônia; fato que, naquele momento, em face de uma divisão na autoridade governamental - qualquer dvoevlastie ou poder paralelo -, poderia instigar o marechal Pilsudski a reavivar as hostilidades contrarrevolucionárias latentes. Os olhos do Ocidente, argumentava Kuzmin, estão fixados na Rússia Soviética, espreitando para contra-atacar a qualquer sinal de debilidade interna. Quanto às greves de Petrogrado, prosseguiu o comissário, Kronstadt estava grosseiramente mal informada sobre a gravidade e a extensão dos distúrbios. Ocorrera, sem dúvida, um atrito momentâneo, mas muito breve, e agora, a cidade estava em paz. Em um dado momento, ao se questionar sobre a extrema tensão que reinava na Frota do Báltico, Kuzmin defendeu a conduta dos comissários, como ele mesmo, a quem os marinheiros, em assembleias recentes, tomaram como objeto de escárnio. Tal discurso dificilmente poderia agradar uma assembleia tão irredutível a qualquer defesa em prol do governo. Mas o que irritou mais que qualquer outra coisa os marinheiros foram as considerações finais de Kuzmin. Este encerrou sua fala fazendo a mesma ameaça implícita de seu discurso anterior. “Vocês me têm aqui de peito aberto - disse o oficial -, podem inclusive até me fuzilar, se assim por bem entenderem. Mas ai de vocês se por um acaso atreverem-se a levantar um dedo contra o governo... Os bolcheviques lutarão até sua última gota de sangue em defesa da revolução” (84).

O tom desafiante do discurso de Kuzmin deixou o auditório completamente atordoado. Dada à atmosfera explosiva que contaminava a conferência, a situação extrema exigia todo o cuidado necessário. Mas cautela foi exatamente o que faltou a Kuzmin, preocupado que estava com as negociações do acordo de paz com a Polônia (vigorava um armistício desde outubro e as conversações tinham lugar em Riga). A ameaça de uma nova intervenção polaca auxiliada por tropas francesas era real e nem um pouco desprezível. Petrogrado encontrava-se particularmente venerável e os oficiais soviéticos temiam que qualquer indício de divisões internas pudessem modificar as disposições da Polônia sobre a mesa de negociações ou mesmo conduzir os dois países a uma guerra aberta. Ademais, após atingir um pico no último dia de fevereiro, as greves de Petrogrado perdiam força pouco a pouco. Mas os boatos envolvendo os episódios de fuzilamento e conflitos em grande escala lançavam os marinheiros num caminho tortuoso. A 2 de março, quando as manifestações em Petrogrado quase cessavam de todo, os rebeldes redigiram um pronunciamento totalmente equivocado (a ser publicado no dia seguinte), no qual versavam sobre uma “insurreição geral” prestes a acontecer na capital (85). Este mal-entendido encorajou os kronstadtinos a tomar atitudes drásticas, das quais não poucos se arrependeriam alguns dias depois.

O presidente do então extinto soviete de Kronstadt, Vasiliev, proferiu um discurso tão ameaçador quanto o de Kuzmin. Ao encerrar, a assembleia voltou-se ostensivamente contra os bolcheviques, apesar do grande número de delegados comunistas presentes na conferência. Como observou Alexander Berkman, as hostilidades dos marinheiros não se destinava ao partido propriamente dito, senão aos burocratas e comissários, cuja arrogância - assim diziam os marinheiros - estava estampada nos discursos de Kuzmin e Vasiliev. Segundo Beckman, o discurso de Kuzmin, em particular, foi “uma fagulha em um barril de pólvora” (86). Os rebeldes ficaram tão enfurecidos que mandaram prender os dois oficiais, além do comissário da esquadra de Kronstadt (um bolchevique chamado Korshunov, supervisor do Petropavlovsk e do Sebastopol). Isto representava um flagrante ato de insubordinação, muito mais grave do que a breve detenção de Kalinin no dia anterior. Assim, os marinheiros davam mais um passo em direção a um dissenso inconciliável. Por outro lado, os delegados rebeldes recusaram uma moção cujo teor propunha a prisão e a deposição de armas de todos os comunistas de Kronstadt. Embora uma pequena minoria vociferasse contra eles, a maioria estava decidida a cumprir os princípios da resolução do Petropavlovsk, ou seja, o estatuto previsto pelo movimento que garantia a liberdade de expressão a todos os grupos políticos de esquerda, o que incluía os bolcheviques.

Por mais grave que pudesse parecer, a prisão dos três oficiais ainda não significava uma irreversível declaração de guerra. No entanto, esta não tardaria a chegar. Após a retirada dos prisioneiros, Petrichenko restabeleceu a ordem na assembleia. Em seguida, a resolução do Petropavlovsk foi lida em voz alta e aprovada mais uma vez por aclamação, selando um pacto sem volta. A conferência tratou de pôr em prática a proposta fundamental do movimento: a eleição de um novo soviete. De repente, ouviu-se um grito no auditório, e os trabalhos foram interrompidos abruptamente. Um marinheiro do Sebastopol anunciava aos berros que estava a caminho uma composição de quinze vagões lotados de comunistas fortemente armados com fuzis e metralhadoras. A notícia produziu o efeito de uma bomba devastadora, transformando a conferência numa grande balbúrdia. Só depois de transcorrido um longo período de comoção intensa, é que foi restabelecida a tranquilidade necessária para retomar a assembleia. No debate que se seguiu, alguns propuseram enviar outra delegação a Petrogrado, com o fim de articular uma aliança com os grevistas, mas o temor de novas detenções inviabilizou a proposta. Assim, perturbados ante a perspectiva de um ataque bolchevique, a conferência deu o seu passo fatal: aprovaram a formação de um Comitê Revolucionário Provisório encarregado de administrar a cidade e as guarnições até que um novo soviete estivesse eleito. Em virtude do exíguo tempo disponível para a realização do pleito eleitoral, cinco membros da comissão, escolhidos pela assembleia, compuseram o Comitê Revolucionário Provisório. A formação do Comitê Revolucionário Provisório arrastou o movimento dos marinheiros para além dos limites do simples protesto. Tinha início a rebelião de Kronstadt (87).

Mais uma vez boatos selaram o destino dos marinheiros de Kronstadt. Realmente, o discurso dos dois oficiais bolcheviques não podia provocar mais que a indignação dos delegados e uma reação intempestiva da assembleia. Mas a história de que os comunistas estavam preparando um ataque à assembleia lançou a sorte dos marinheiros pela travessia do Rubicão da insurreição com a formação do Comitê Revolucionário Provisório. Quem inventou o boato? Segundo Petrichenko, os próprios comunistas, com o propósito de esvaziar a conferência (88). Embora isso fosse possível, não há nenhuma prova que sustente a explicação do líder da rebelião. É igualmente provável que o marinheiro que divulgou a notícia falsa desejava agitar as coisas contra os comunistas. Porém, é de se notar que Petrichenko deu total crédito ao boato e, mais, anunciou à assembleia que dois mil comunistas estavam a caminho para reprimir o movimento de Kronstadt. Mais uma vez a reunião acabou num verdadeiro pandemônio e os delegados extremamente exaltados deixaram às pressas o auditório (89).

O boato dos dois mil comunistas pode ter surgido durante a ocasião em que se observou um grupo de recrutas comunistas, liderados por um membro da Tcheka de Kronstadt, saírem da Escola Superior do Partido exatamente no momento em que se realizava a conferência na Casa de Educação. Longe de esboçarem a menor intenção em atacar a reunião, os recrutas fugiam de Kronstadt para o forte de Krasnaya Gorka, localizado ao sudoeste do continente. Outro incidente, ocorrido no dia anterior, pode ter contribuído também para suscitar a crença dos marinheiros num ataque comunista. Após o término da assembleia na Praça da Âncora, um grande número de bolcheviques legalistas considerou a possibilidade real de empreender uma ação militar contra os insurgentes. Para tanto, um comissário da fortaleza de Kronstadt, um certo Novikov, apoderou-se do arsenal em busca de artilharia leve e metralhadoras. Quando se constatou que não haveria apoio suficiente para a campanha, Novikov e seus homens decidiram abandonar a ilha. Próximo à costa de Carelia, no Forte Totleben, Novikov foi interceptado mas conseguiu escapar a cavalo através do gelo (90).

Porém, os insurgentes não permaneceram impassíveis. O Comitê Revolucionário Provisório recém-criado estabeleceu um quartel-general a bordo do Petropavlovsk, o centro da conjuração apenas dois dias antes. Atuando de forma expedita, o comitê enviou destacamentos armados com a missão de ocupar os arsenais de guerra, a central telefônica, os depósitos de alimentos, a estação de água, a estação de eletricidade, o quartel da Tcheka, entre outros pontos estratégicos. À meia-noite, as tropas se apoderaram de toda cidade sem encontrar resistência alguma. Ademais, todos os navios de guerra, os fortes e as baterias militares reconheceram de imediato a autoridade do Comitê Revolucionário. À primeira hora do dia, cópias da resolução do Petropavlovsk foram remetidas pelo correio para serem distribuídas em Oranienbaum, Petrogrado e outras cidades da vizinhança. Durante a noite, a Esquadrilha Aérea Naval, situada em Oranienbaum, reconheceu a legitimidade do Comitê Revolucionário e enviou uma delegação a Kronstadt. A revolta começava a se espalhar.

No dia seguinte, a três de março, o Comitê Revolucionário Provisório inaugurou o jornal Izvestiia Vremennogo Revoiutsionnogo Komiteta Matrosov, Krasnoarmeitsev i Rabochikh gor. Kronshtadta [Notícias do Comitê Revolucionário Provisório dos Marinheiros, Soldados e Trabalhadores da Cidade de Kronstadt). O diário foi publicado sem interrupção até o dia 16, véspera do assalto decisivo contra os rebeldes. No primeiro número, Petrichenko, como chefe do comitê, pedia apoio à população de Kronstadt: “Camaradas e concidadãos: o Comitê Provisório está determinado a evitar o derramamento de uma só gota de sangue... a tarefa do Comitê Revolucionário Provisório consiste em organizar condições para que ocorram na cidade e nas fortalezas um esforço amigável e cooperativo de todos os concidadãos para que haja eleições limpas e justas para um novo soviete. ENTÃO, CAMARADAS, APOIEMOS A ORDEM, A SERENIDADE, A FIRMEZA, A NOVA E IGUALITÁRIA SOCIEDADE SOCIALISTA, QUE PROMOVERÁ O BEM-ESTAR DE TODOS E O PODER DO POVO TRABALHADOR” (91). No mesmo dia, o Comitê Revolucionário proibiu a saída da cidade sem a apresentação de uma permissão especial. Ato contínuo, foram canceladas todas as licenças militares. Além disso, passou a vigorar o toque de recolher a partir das 11 horas da noite e foi restabelecido a retroivki local (92), uma imitação ad hoc do Comitê de Defesa de Petrogrado, de Zinoviev. Assim, Kronstadt ultrapassou uma linha sem retorno. Com três líderes bolcheviques no cárcere e rebeldes controlando a cidade, um confronto direto contra o governo fazia da rebelião inevitável.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A Terceira Revolução - A revolta dos marinheiros de Kronstadt

 (12 de outubro de 1920, Armistício entre a Rússia Soviética e a Polônia.)

Tradução: Jean Fecaloma

Fecaloma - Punk Rock

Introdução

“Um efêmero e ofuscante clarão de relâmpago - disse Lênin sobre a rebelião - assim foi Kronstadt, revelando toda a real situação na Rússia Soviética” (1). Em março de 1921, os marinheiros da fortaleza naval do Golfo da Finlândia, o “orgulho e glória” da Revolução Russa, levantaram-se em uma revolta contra o governo bolchevique, que eles próprios ajudaram a conquistar o poder. Entoando o lema “sovietes livres”, fundaram uma comuna revolucionária, que perdurou por 16 dias, até que um exército, enviado pelo governo, atravessou a superfície de água congelada do golfo com a missão de debelar a rebelião. Depois de uma longa e encarniçada batalha, com perdas para ambos os lados, os rebeldes foram, enfim, subjugados.

O levante provocou de imediato uma apaixonada controvérsia que nunca se apaziguou de todo. Por que os marinheiros se sublevaram? Segundo os bolcheviques, eram agentes de uma conspiração tramada no oeste da Europa, pela guarda branca, por emigrados russos e potências aliadas. Já para os entusiastas de Kronstadt, estes marinheiros foram na verdade mártires revolucionários, que lutavam para restaurar a autonomia dos sovietes contra a ditadura que se afigurava. Segundo esta perspectiva, a repressão não foi apenas um ato de extrema brutalidade, significou também a dessacralização do mito da Rússia Soviética enquanto um “Estado de trabalhadores e camponeses”. Assim, o governo bolchevique, capaz de reprimir tão impiedosamente um protesto oriundo das massas populares, abalou a fé de muitos comunistas estrangeiros, transformando Kronstadt no precursor de muitos outros eventos que levariam radicais desiludidos a romper com o bolchevismo e reclamar a pureza original dos ideais aparentemente abandonados. O massacre dos kulaks, o grande expurgo, o pacto nazi-soviético, a denúncia de Kruschev à era stalinista, enfim, tudo isso resultou num grande êxodo do partido, no qual simpatizantes e militantes saíram convencidos de que a revolução fora de fato traída. “O que conta de forma decisiva - escreveu Louis Fischer, em 1949 - é ‘Kronstadt’. Antes de ‘Kronstadt’, um ou outro podia vacilar no plano emocional, titubear intelectualmente ou mesmo contemporizar os fatos para si mesmo e, assim, recusar-se a enxergar o que estava realmente acontecendo. Eu não tive nada como ‘Kronstadt’ durante muitos anos” (2).

Outros encontraram seu “Kronstadt”, ainda mais tarde, na rebelião húngara de 1956. Em Budapeste, assim como em Kronstadt, os rebeldes lutaram para transformar o regime autoritário e burocrático do Partido Comunista em uma autêntica democracia socialista. Todavia, para os bolcheviques, a heresia dos revoltosos constituía, eventualmente, uma ameaça ainda maior que a própria oposição contrária aos princípios socialistas. À semelhança dos marinheiros da cidade-fortaleza de Kronstadt, a Hungria – e, depois, a Tchecoslováquia, em 1968 - representou perigo não porque era contrarrevolucionária, mas por causa de uma concepção de revolução e socialismo que divergia drasticamente daquela dos líderes soviéticos. Moscou, então, repetindo 1921, denunciou o levante húngaro como um complô contrarrevolucionário. A repressão de Budapeste - observou um crítico da política soviética - demonstrou mais uma vez que os comunistas não se detinham diante de nada para calar a quem quer que desafiasse a sua autoridade (3).

Mas não deveríamos levar tão longe tais comparações. Kronstadt e Hungria, separados por um lapso temporal de 35 anos, ocorridos em diferentes países, envolvendo uma composição social distinta, não podem nos oferecer senão uma pálida semelhança da realidade. A Rússia Soviética não era, em 1921, o Leviatã das décadas recentes. O Estado bolchevique ainda era jovem e periclitante, em meio a rebeliões domésticas e ameaças de implacáveis inimigos estrangeiros que a todo custo visavam destituir o governo revolucionário do poder. Ainda mais relevante era o fato de que, em Kronstadt, os bolcheviques enfrentavam um motim de sua própria armada, situada em um ponto especialmente estratégico de seu território: o acesso pelo exterior a Petrogrado. Além disso, temiam que a rebelião de Kronstadt pudesse acender o pavio de pólvora da insurreição, incendiando as massas populares e alastrando a chama da insubordinação pelo interior do extenso território continental da Rússia. Temiam, na pior das hipóteses, que o levante servisse de trampolim para uma provável invasão internacional antissoviética. Havia evidências consistentes de que emigrados russos tramavam em benefício próprio um amotinamento de grupos descontentes. Isso não que dizer, porém, que uma conspiração branca pudesse desculpar as atrocidades que viriam a ser cometidas contra os marinheiros. Mas a situação de extrema urgência da ocasião constituía-se em uma justificativa bastante razoável para os bolcheviques sufocar a rebelião o quanto antes. Somava-se a tudo isso ainda mais um agravante: a superfície congelada do Golfo da Finlândia em breve derreteria, possibilitando aos emigrados a oportunidade para abastecer os rebeldes e enviar reforços em seu auxílio. Neste caso, a fortaleza ficaria convertida em uma base inimiga, servindo de entreposto a uma futura intervenção militar. Desconsiderando-se os motivos óbvios e inerentes a qualquer propaganda de guerra, Lênin e Trotsky realmente pareciam ter motivos bem fundamentados para intervir numa situação bastante delicada.

Lamentavelmente, poucos historiadores ocidentais têm levado em conta a preocupação legítima dos líderes soviéticos. Já os autores soviéticos, por sua parte, falseiam consideravelmente os fatos ao tratar os rebeldes como, na melhor das hipóteses, simples incautos ou, na pior, agentes de uma conspiração branca. O presente estudo, ao contrário, busca examinar a rebelião através de um panorama objetivo e imparcial. Para realizá-lo, foi necessário situar Kronstadt num contexto mais amplo, tanto em seus aspectos políticos como sociais, pois a revolta emerge como a ponta de um iceberg de uma crise maior, que marcou a transição do comunismo de guerra à Nova Política Econômica (NEP). Neste sentido, tal conjuntura foi considerada por Lênin como a mais grave desde a chegada dos bolcheviques ao poder. É necessário, ademais, identificar os vínculos do levante de 1921 a larga tradição de rebeliões espontâneas recorrentes em Kronstadt e em toda a Rússia. Esperamos que, sob este enfoque, lancemos alguma luz sobre as ações e condutas dos insurgentes.

À parte isso, há um acúmulo de problemas específicos que requerem cuidadosa análise. Entre os mais importantes, a composição social da frota, o papel desempenhado pelo descontentamento nacional, a questão da participação branca na revolta e a natureza ideológica dos rebeldes. Por suposto, algumas questões ficarão em aberto, notadamente, as que não podem ser respondidas em definitivo, até que sejam abertos para exame os arquivos soviéticos pertinentes, fato que provavelmente não ocorrerá por algum tempo. Entretanto, neste livro, trataremos de oferecer uma exposição completa da rebelião, à medida que nos permitirem as fontes disponíveis. Para tanto, utilizamo-nos de um acervo documental procedente de arquivos no Ocidente e também de publicações soviéticas, frequentemente descartadas como mera propaganda, mas que, se analisadas com o devido cuidado, detêm de um inestimável valor ao esclarecerem alguns dos problemas mais significativos da rebelião.

É importante, sobretudo, examinar as contradições envolvendo os insurgentes e seus adversários bolcheviques. Os marinheiros, por um lado, eram revolucionários fanáticos, e, como revelam episódios de fanatismo ao longo história, desejavam restaurar uma remota idade de ouro, na qual a pureza de seus ideais não havia sido maculada pelas exigências do poder. Os bolcheviques, inversamente, vitoriosos em uma sangrenta guerra civil, não estavam dispostos a tolerar mais nenhum ato de insubordinação à sua autoridade. Durante o conflito, cada lado reagiu de acordo com seus próprios interesses e aspirações particulares. Afirmar isto não significa negar a necessidade de um juízo moral sobre ambos oponentes. Todavia, Kronstadt apresenta uma situação peculiar, pela qual o historiador pode tanto simpatizar com os rebeldes, como justificar a ações dos bolcheviques no seu afã desesperado de submeter a rebelião ao seu controle. Na verdade, ao se reconhecer a natureza do conflito, compreende-se toda a tragédia que foi Kronstadt.

1. A crise do comunismo de guerra

No outono de 1920, a Rússia Soviética passava por um período inquietante de transição entre a guerra e a paz. Durante mais de seis anos, o país vivenciou uma contínua agitação, mas, neste ano, depois de findada a guerra mundial, a fumaça da revolução e da guerra civil começava lentamente a se dissipar. A 12 de outubro, o governo soviético firmou um armistício com a Polônia, e, três semanas depois, o último dos generais brancos, o barão Peter Wrangel, fugiu a bordo de um navio entregando a vitória aos bolcheviques, em meio a um país destroçado e banhado de sangue. No sul, Nestor Makhno, o guerrilheiro anarquista, seguia em liberdade, mas em novembro de 1920, seu exército, outrora temível, dispersou-se e não representou mais ameaça significativa para o governo de Moscou. Nesse ínterim, as regiões da Sibéria, da Ucrânia e do Turquestão, além das minas carboníferas do Donetz e dos campos petrolíferos de Baku, foram recuperados pelos bolcheviques. Em fevereiro de 1921, um exército bolchevique completou a conquista do Cáucaso ao capturar a província de Tiflis, ante a capitulação do governo menchevique na Geórgia. Assim, após três anos de existência precária, em que o destino da revolução esteve diariamente por um fio, o regime soviético pôde finalmente jactar-se de exercer um controle absoluto sobre a maior parte do vasto território russo.

O fim da guerra civil assinalou uma nova era nas relações internacionais do regime soviético. Os bolcheviques, abrindo mão do projeto de uma imediata revolução mundial, conseguiram, enfim, um “momento de respiro”, uma trégua, algo impossível, desde pelo menos os anos de 1918, quando irrompeu a guerra civil. As potências ocidentais, pela mesma razão, perderam as esperanças de um colapso do governo de Lênin. No fundo, tanto um como outro aspiravam ao retorno da normalidade e, a partir daí, restabelecer as relações já bastante deterioradas pelas hostilidades. De fato, ao final do ano de 1920, não havia mais razões para que se perpetuassem as agressões. Levantados os embargos à Rússia e abandonada a campanha de intervenção armada contra o governo soviético, automaticamente, foram eliminados os obstáculos mais sérios que opunham o restabelecimento diplomático e a reabertura do comércio entre os países contendores. Ademais, durante o transcorrer de um ano, foram consagrados tratados com os vizinhos da Rússia no Báltico – Finlândia, Estônia, Letônia e Lituânia. Em fevereiro de 1921, pactos de paz e amizade foram assinados com a Pérsia e o Afeganistão, e um acordo similar com os turcos estava na ordem do dia para ser concluído. Nesse meio-tempo, emissários soviéticos, sobretudo, Krasin, em Londres, e Vorovsky, em Roma, negociavam acordos comerciais com numerosas nações europeias, sob um panorama promissor de conciliação.

Todavia, em que pesem todas as condições favoráveis, o inverno de 1920-1921 foi um período extremamente crítico para a história soviética. Lênin tinha consciência dos percalços envolvendo uma transição por via pacífica quando, no VIII Congresso dos Sovietes, em dezembro de 1920, afirmou que uma reconstrução econômica e social não seria tarefa fácil (1). A despeito do triunfo no campo militar e da célere estabilização da política externa, os bolcheviques enfrentavam graves dificuldades internas. A Rússia estava esgotada e arruinada. A guerra civil deixara cicatrizes abertas em todos os rincões do país. Durante os últimos dois anos, a taxa de mortalidade havia subido bruscamente. A fome e epidemias faziam milhões de vítimas, somando-se àqueles que tombaram em combate. Desde o Tempo das Perturbações, no século XVII, o país não testemunhava tantos sofrimentos e devastação. A produção agrícola diminuía drasticamente e a indústria e o transporte entravam em estado de calamidade. A Rússia, segundo palavras de um contemporâneo, emergiu da guerra civil em uma circunstância de colapso econômico “sem paralelo na história da humanidade” (2).

Era chegado o momento de curar as feridas da nação. Para isso, seria necessário uma mudança radical na orientação da política interna, concomitante aos bem-sucedidos acordos no plano externo. Sobretudo, isto significava o abandono do “comunismo de guerra”: programa político feito de improviso visando dar conta dos problemas emergenciais surgidos durante a guerra civil. Como o próprio nome sugeria, o comunismo de guerra carregava o duro estigma do recrutamento involuntário e da compulsoriedade. Ditado pela escassez econômica e necessidade militar, caracterizava-se por uma centralização extrema dos controles governamentais em todos os setores da vida social. A pedra angular dessa política residia no confisco de cereais produzidos pelos camponeses. Com o fim de abastecer as cidades e prover o Exército Vermelho - que naquela altura contava com uns cinco milhões de homens -, destacamentos armados enviados ao campo confiscavam o excedente da produção agrícola. Ainda que houvesse a recomendação expressa para resguardar ao camponês o suficiente para que este suprisse suas necessidades, frequentemente, pelotões de requisição apreendiam, à mira de pistola, as sementes destinadas ao consumo pessoal ou separadas para a semeadura. “A essência do ‘comunismo de guerra’ - admitia Lênin – constituiu na apropriação do excedente agrícola e, às vezes, não apenas isso, mas também dos cereais de que o camponês necessitava para a sua alimentação. Assim foi feito para satisfazer as necessidades do exército e a subsistência dos operários nas fábricas” (3). Ademais, os destacamentos de alimentação confiscaram também cavalos, forragem, carros e outros utensílios para uso militar sem qualquer compensação em troca, de modo que os camponeses careciam de artigos elementares, como açúcar, sal, querosene, sabão, botas, fósforo e tabaco, ou, ainda, pregos e ferramentas, utilizadas pelos trabalhadores rurais em reparações corriqueiras.

Quase não há dúvidas de que a requisição compulsória (chamada em russo prodrazverstka) salvou o regime bolchevique de um desastre. Sem as políticas do comunismo de guerra, não seria possível a subsistência nem do exército nem da população urbana, base de sustentação política do governo. Não obstante, a consequência inevitável das medidas emergenciais redundou no distanciamento do campesinato em relação ao projeto bolchevique. Forçados pelas armas a entregar os excedentes da produção agrícola e privados dos artigos de consumo de extrema necessidade, os aldeões reagiram de um modo nem um pouco surpreendente. Portanto, quando não topavam com a resistência aberta, os destacamentos descobriam-se burlados pelas artimanhas e astúcia camponesas. Em 1920, uma autoridade importante estimou que pelo menos um terço do total da colheita fora armazenado clandestinamente pelos camponeses (4). Ademais, os camponeses passaram a cultivar apenas o necessário para satisfazer suas próprias necessidades básicas, de modo que, ao final de 1920, a proporção de hectares de terras aradas na Rússia Europeia não excedia a três quintas partes da área correspondente ao ano de 1913, ocasião em que a produção ainda se manteve dentro dos níveis de normalidade de antes do começo da guerra e da revolução propriamente dita (5). Supostamente, a queda nos índices foi resultado, em parte, da devastação por que passou a zona rural nesse período. Por outra parte, a política da prodrazverstka certamente contribuiu em muito para o declínio catastrófico da produção durante a guerra civil. Em 1921, a produção agrícola total havia caído a menos da metade das cifras do pré-guerra, e a soma de cabeças de gado a mais ou menos dois terços do total. Em particular, produtos básicos, como o linho e a beterraba-sacarina, foram gravemente afetados, diminuindo em cerca de um quinto a um décimo em relação à produção em níveis normais (6).

Ao mesmo tempo, a requisição forçada de alimentos reacendeu a luta secular na Rússia entre a população rural e autoridade estatal de base urbana. Lênin compreendera desde muito cedo que, dado o atraso econômico e social da Rússia, uma aliança tática com o campesinato tornava-se condição necessária para que o partido pudesse não apenas conquistar o governo mas consolidar um projeto de poder. Neste sentido, os bolcheviques deviam, ao menos, tentar manter a neutralidade dos camponeses. Daí a necessidade, de um lado, da formação de um governo de coalizão, em dezembro de 1917, contemplando a participação dos socialistas revolucionários de esquerda (SR) nos assuntos de gestão e, do outro, da eleição para o cargo de presidente da República Soviética de M. I. Kalinin - um dos poucos bolcheviques de certa proeminência cujas origens camponesas eram bem conhecidas. Mas para assegurar o apoio daquele segmento social seria necessário antes transformar em realidade o velho sonho camponês, a saber, a chernyi peredel, isto é, uma ampla reforma agrária. Para tanto, os bolcheviques promulgaram dois decretos, o primeiro, em 26 de outubro de 1917 e, o segundo, em 19 de fevereiro de 1918, pelos quais se determinava a distribuição imediata de terras. Tais medidas reverberavam os imprescindíveis anseios populistas e igualitários da população rural. Assim, adotando um programa agrário feito sob medida às ambições do campesinato e inspirado nas doutrinas dos socialistas revolucionários (SR), o jovem governo soviético aboliu toda forma de propriedade privada no campo e ordenou que a terra fosse repartida igualmente entre aqueles que realmente labutavam com suas próprias mãos calejadas o solo sem nenhuma garantia formal de contrato de trabalho (7). Os decretos deram um novo impulso a um processo que havia sido iniciado pelos próprios agricultores vários meses antes, no verão de 1917. Em 1920, a terra já estava dividida em unidades familiares recobrindo 20 milhões de pequenas propriedades.

Não é de se admirar, portanto, que a população rural recebesse com grande entusiasmo a iniciativa dos bolcheviques, contida tão somente pela costumeira desconfiança perante os éditos oficiais do Estado. Para o campesinato, a revolução bolchevique significou, antes de qualquer coisa, a saciedade de sua fome de terra, através da eliminação da nobreza parasitária e da divisão da propriedade fundiária. Porém, agora, na condição de pequenos proprietários, os camponeses só queriam que os deixassem em paz. Entrincheirados pelas cercas ao redor de suas terras, encaravam com suspeita qualquer intromissão exterior. E esta não tardou a chegar. Quando a guerra civil se intensificou, as equipes de requisição chegaram ao campo e, então, os camponeses mudaram rapidamente sua opinião sobre os bolcheviques, passando a considerá-los mais como inimigos do que benfeitores. As objeções giravam em torno da ideia de que Lênin e seu partido aboliram a antiga nobreza feudal, entregando terra ao povo, só para depois cobrar o excedente do trabalho e o direito de usufruto. Ademais, os camponeses viam com maus olhos as granjas estatais que as autoridades haviam implementado nas grandes fazendas expropriadas durante o período da guerra civil. Para os aldeões, uma verdadeira chernyi peredel significava a divisão de toda a terra rural. Significava, além disso, a abolição da “escravidão assalariada”, que também se perpetuava nas granjas estatais. Como Lênin mesmo disse: “O pensamento camponês conclui que, se existem grandes fazendas, então o trabalho mediante soldo não desapareceu realmente” (8).

Como resultado das políticas emergenciais, muitos camponeses chegaram a pensar que bolcheviques e comunistas não eram a mesma coisa. Aos primeiros, louvavam-nos por ter repartido uma dádiva tão preciosa como a terra; enquanto, aos segundos, recriminavam amargamente - particularmente Trotsky, Zinoviev e outras lideranças, cuja origem “estrangeira” era bem conhecida -, por estes terem imposto uma nova forma de escravatura, desta vez, tendo o Estado assumido o lugar da nobreza. “Somos bolcheviques, não comunistas. Somos a favor dos bolcheviques, porque expulsaram os senhores feudais; mas não estamos a favor dos comunistas, pois são contra a propriedade individual da terra” (9). Assim descreveu Lênin, em 1921, sobre a percepção dos camponeses em torno dos supostos agentes distintos envolvendo o governo. Um ano mais tarde, a mentalidade camponesa pouco mudou, como demonstra um boletim policial da província de Smolensko: “Entre os camponeses não há limites para queixas contra o governo soviético e os comunistas. Na conversa jogada fora, os camponeses, desde aqueles de rendimento médio até os mais pobres, para não falar dos kulaks, amaldiçoavam aos quatro cantos o governo: ‘Eles não querem a nossa liberdade, mas a nossa servidão. Os  tempos de Godunov voltaram, época em que os camponeses estavam presos aos donos da terra. Agora nós [estamos presos] à burguesia judia, representada por gente como Modkovisk, Aronson etc.” (10).

Todavia, durante a guerra civil, a maioria dos camponeses continuou tolerando o regime soviético como um mal menor em meio a uma possível restauração branca. Em que pese a profunda antipatia dirigida ao partido do governo, os camponeses temiam ainda mais a volta dos nobres e, por consequência, a perda da terra. Os pelotões de confisco de alimento encontravam frequentemente muita resistência nas aldeias, que custavam muitas vidas aos bolcheviques. Entretanto, os camponeses jamais intentaram realizar uma oposição armada em uma escala suficientemente grande ao ponto de ameaçar a existência do governo. Com a derrota do exército de Wrangel, no verão de 1920, a situação mudou rapidamente. Uma vez dissipado o perigo branco, cresceu além do controle o ressentimento camponês quanto a prodrazverstka e as granjas estatais. Sucessivas ondas revoltosas varreram toda a Rússia rural. Os distúrbios mais sérios ocorreram na província de Tambov, na zona média do Volga, na Ucrânia, na região norte do Cáucaso e no oeste da Sibéria, zonas periféricas nas quais o controle governamental era relativamente débil e a violência popular registrava recorrências de longa data (11).

As rebeliões recobraram rapidamente força no inverno de 1920-1921. Neste período, segundo observou Lênin, “dezenas e centenas de milhares de soldados dispensados” voltaram para as suas aldeias de origem e engrossaram as fileiras das guerrilhas (12). No início de 1921, foram desmobilizados cerca de 2.500.000 homens - quase a metade do total do efetivo militar do Exército Vermelho -, sob uma atmosfera de violência e caos social que ameaçava toda estrutura do Estado. Tratava-se de uma situação frequente na Europa nos anos que se sucederam imediatamente a Primeira Guerra Mundial. A desmobilização militar em grande escala agravou as tensões econômicas existentes e intensificou o descontentamento popular. Mas, na Rússia, a situação era particularmente grave. Em quase sete anos de guerra, revolução e desordem civil, um espírito de ilegalidade difícil de erradicar incutiu nas massas populares. O povo transtornado e à deriva, por conta da dispersão das tropas, como bem observou Lênin, agrupou-se em hordas de homens irrequietos, cuja única ocupação era a guerra e, diante da nova conjuntura, a bandidagem e rebelião. Para Lênin, esta nova situação era um revival da guerra civil, reencarnada, no entanto, por uma forma distinta e ainda mais perigosa - mais perigosa porque, segundo o seu ponto de vista, estava sendo protagonizada não por segmentos sociais arruinados e anacrônicos, para os quais o tempo histórico havia passado há muito, senão pelas massas populares propriamente ditas. O espectro de uma enorme jacquerie, uma nova revolta à la Pugachev, “cega e impiedosa”, na célebre expressão de Pushkin, parecia acossar o governo justamente num momento em que as cidades, centros tradicionais de apoio bolchevique, encontravam-se em uma situação de esgotamento e fragilidade, padecendo também de um profundo desassossego.

Entre novembro de 1920 e março de 1921, houve um crescimento exponencial de revoltas no campo. Só em fevereiro de 1921, às vésperas da rebelião de Kronstadt, a Tcheca registrou cento e dezoito distúrbios camponeses em diversas regiões do país (13). No oeste da Sibéria, a maré de rebeliões assolou quase toda a região de Tiumen e boa parte das províncias vizinhas de Cheliabinsk, Orenburg e Omsk. As vias ferroviárias da transiberiana foram seriamente obstruídas, agravando a escassez de alimentos já bastante crítica nas grandes cidades da Rússia europeia. Na zona média do Volga, de onde Stenka Razin e Pugachev haviam recrutado o grosso de seus seguidores, bandoleiros armados - camponeses, veteranos do exército, desertores - vagavam pelo campo em busca de comida ou alguma oportunidade para um botim. Apenas uma tênue linha separava a criminalidade da rebelião social. Em outras paragens, homens desesperados armavam emboscadas com o intuito de pilhar os destacamentos de requisição e lutavam selvagemente contra todos aqueles que ousavam detê-los. Os confrontos mais sérios ocorreram, talvez, na fértil província de Tambov, foco de revoltas camponesas desde pelo menos o século XVII. Tendo à frente o caudilho e ex-socialista revolucionário A. S. Antonov, cujos talentos como guerrilheiro lhe renderam a reputação de um Robin Hood e cujos feitos poderiam competir com os de Nestor Makhno, um conflito de grandes proporções escapou de todo controle por mais de um ano, até que o experiente comandante vermelho Mikhail Tukhachevsky - que há pouco sufocara a revolta dos marinheiros de Kronstadt - foi enviado com um grande exército e reprimiu exitosamente a rebelião (14).

A ocorrência de insurreições camponesas durante o inverno de 1920-1921 surpreende pelo elevado número de homens que ingressaram nas fileiras rebeldes. No auge de seu movimento, Antonov contava com uns 50.000 cobatentes; enquanto que em um único distrito do oeste da Sibéria, as guerrilhas, de acordo com fontes que provavelmente não exageraram, somavam cerca de 60.000 homens (15). Camponeses simplórios, mas armados com machados, paus, forquilhas e até rifles e pistolas, travavam verdadeiras batalhas campais contra os batalhões regulares do exército. Movidos por um profundo desespero, estes homens rústicos exprimiam uma bravura notável em combate, ao ponto de causar um efeito de deserção em massa nas tropas governamentais – aliás, muitos soldados compartilhavam das mesmas origens sociais e hábitos guerrilheiros. Sob tais circunstâncias, as unidades especiais da Tcheka e os cadetes da escola de oficiais comunistas, cuja lealdade estava à prova de qualquer suspeita, bateram muitas vezes em retirada. Mas, por carecer de armas modernas e organização efetiva, os grupos dispersos de camponeses não puderam enfrentar as experientes forças vermelhas. Ademais, os insurgentes não possuíam nenhum programa alternativo coerente às medidas do governo, embora seus slogans fossem os mesmos em toda a parte: “abaixo a requisição”, “fora os destacamentos de confisco de alimentos”, “não entreguem seus excedentes”, “abaixo os comunistas e os judeus”. Assim sendo, compartilhavam do mesmo ódio às cidades, de onde provinham os comissários e destacamentos de requisição, e, claro, ao governo, que enviava esses forasteiros. A população de Tambov, conforme observou um comandante militar bolchevique dessa província, considerava a autoridade soviética uma força tirânica indiferente à vida do povo e da qual brotavam “comissários e funcionários de requisição”. Não é surpreendente, portanto, que um dos grupos rebeldes de Tambov estabeleceu como objetivo principal da revolta “a derrocada do governo comunista bolchevique, que tem reduzido o país à pobreza, à devastação e à desgraça" (16).

Embora a resistência violenta e a sonegação fossem as armas mais contundentes empregadas pela maioria camponesa, muitos outros se utilizavam de um meio mais tradicional de protesto, tipicamente russo: as humildes petições endereçadas ao governo central. Entre novembro de 1920 e março de 1921, as autoridades de Moscou foram bombardeadas por milhares de requerimentos em caráter de urgência que provinham de todas as partes do país. As cartas em uníssono invocavam o fim das políticas coercitivas do comunismo de guerra. Os suplicantes argumentavam que, em virtude da derrota dos brancos, as requisições forçadas de cereais careciam de justificativas. Em seu lugar, os camponeses propunham uma taxa fixa sobre a produção e o direito de livre dispor dos excedentes da produção. Para aumentar o rendimento, demandavam, ainda, como incentivo, um maior fornecimento de bens de consumo à população agrária (17).

Não obstante esses apelos insistentes, as reivindicações camponesas encontraram ouvidos moucos nos círculos administrativos do regime soviético. O pequeno proprietário de terra era considerado, em grande medida, um tipo pequeno burguês incurável, que, após obter a posse de um torrão de terra, logo deixava de apoiar a revolução. Mais do que tudo, os bolcheviques temiam um enraizamento do capitalismo nos aldeamentos russos. Sempre atentos aos paralelos históricos, recordavam os episódios envolvendo os camponeses de 1848. Naquela ocasião, o campesinato serviu de baluarte à reação conservadora na Europa ocidental. Portanto, o governo bolchevique evitava qualquer concessão que, por ventura, pudesse fortalecer a independência dos camponeses proprietários. Ademais, para muitos bolcheviques, o sistema do comunismo de guerra, com sua direção estatal e econômica centralizadora, imprimia as insígnias inerentes da sociedade socialista que tanto sonhavam. Por isso, não estavam dispostos a abandoná-lo para restabelecer o livre mercado ou fortalecer um campesinato recalcitrante.

Um enérgico defensor do comunismo de guerra foi Valerian Osinsky (cujo nome verdadeiro era Obolensky). Líder do grupo Centralismo Democrático da ala esquerda, dentro do Partido Comunista, Osinsky expressou sua posição em uma série de influentes artigos publicados na segunda metade dos anos de 1920. Rechaçando qualquer concessão referente à fixação de uma taxa em espécie ou mesmo à reabertura do livre comércio, exigia, ao contrário, maior intervenção estatal na economia rural. A única solução para a crise agrária, escreveu Osinsky, reside na “obrigatoriedade da organização massiva da produção”, sob a direção e o controle de encarregados do governo (18). Propunha a formação de “comitês de plantio” em cada localidade, com a missão principal de aumentar a produção através da ampliação da área de cultivo. Os novos comitês regulamentariam também o uso dos equipamentos necessários, os métodos de plantação, a criação de gado e outras questões relativas à maior eficiência da produção. Osinsky sugeriu também a estocagem das sementes num banco comum de grãos, bem como sua distribuição, que também ficaria a cargo do governo. Por último, idealizava um sistema de exploração socializada, no qual todas as pequenas propriedades seriam coletivizadas e o trabalho realizado sobre uma base global.

As recomendações de Osinsky não significavam meramente a conservação do comunismo de guerra, mas a possibilidade de sua expansão a todas as fases da vida rural. Portanto, longe de pacificar, suas propostas alarmaram ainda mais os camponeses. E estes não tardaram a se fazer escutar pela ocasião do VIII Congresso dos Sovietes, realizado em Moscou, em dezembro de 1920. Evidentemente, o plano de Osinsky ocupou lugar de destaque nos debates. Muito embora a maioria comunista aprovasse por uma grande margem de votos as propostas de Osinsky, o descontentamento camponês encontrou voz nas admoestações dos mencheviques e socialistas revolucionários (SR), que, no entanto, faziam sua última aparição de relevo no cenário político nacional. Feodor Dan e David Dallin, pelos mencheviques, e V. K. Volsky e I. N. Steinberg, pelos socialistas revolucionários (SR) de direita e de esquerda, respectivamente, foram unânimes em condenar as políticas de “crise” do comunismo de guerra. Exigiam a imediata substituição das requisições de alimentos por uma taxa fixa em espécie e a liberdade de comércio dos excedentes que ultrapassassem as obrigações estipuladas aos camponeses pelo Estado. Qualquer medida baseada na compulsoriedade, argumentava Dan, só poderá resultar numa redução da área cultivada e, por conseguinte, na diminuição da já escassa produção de grãos. A manutenção do uso da força, dizia, ampliará ainda mais o abismo entre as cidades e o campo, levando consequentemente o campesinato a se bandear para o lado contrarrevolucionário. Do mesmo modo, Volsky exortava para o governo estimular a formação voluntária de cooperativas e abandonar o sistema de granjas estatais. Dallin, por sua vez, ao mencionar os comitês de plantio de Osinsky, advertia que qualquer novo instrumento de coerção somente agravaria ainda mais a crise (19).

Outras objeções às políticas agrícolas foram formuladas pelos próprios camponeses em uma sessão a portas fechadas dos delegados rurais do congresso. Lênin esteve presente e enviou notas ao Comitê Central do Partido e ao Conselho de Comissários o Povo - que são de enorme interesse. A oposição ao projeto de Osinsky era unânime e contundente, como mostram as anotações de Lênin. Com um desprezo não dissimulado, um camponês da Sibéria - região profundamente afetada pelas rebeliões camponesas - denunciou os comitês de plantio e a intervenção do Estado nos assuntos das aldeias: “Osinsky não conhece a Sibéria. Eu tenho plantado lá por mais de 38 anos; mas Osinsky não sabe nada”. Outros delegados atacaram os esforços do governo para coletivizar a agricultura. Todavia, os ânimos exaltavam-se quanto vinha à baila o tema do confisco de cereais mediante o uso de força pelos destacamentos armados, os quais, determinados a cumprir ordens arbitrárias, não faziam nenhuma distinção entre o camponês ocioso daquele que trabalhava com afinco. A quantidade de cereais confiscada foi tão grande, relatou um dos delegados, que, agora, nem seres humanos nem animais terão o que comer. Um camponês de Tula protestou, dizendo que, devido aos excessos de operações de confisco, pelo menos dez províncias férteis da Rússia Central (incluindo a sua própria) não teriam mais grãos para a próximo plantio. Para elevar a produção de alimentos, arrematou um delegado de Perm, temos que nos libertar deste flagelo da requisição compulsória.

Os oradores protestavam um após o outro; reclamavam que recebiam apenas uma pequena compensação por sua produção e, às vezes, não recebiam nada. “Se querem que plantemos - declarou um camponês da província de Misk – então que nos ofereçam sal e ferro, somente sal e ferro. Dito isso, não preciso dizer mais nada”. Necessitamos de cavalos, rodas, ancinho; replicavam em coro outras vozes. Ofereçam-nos amparo para reparar nossas ferramentas e galpões ou moeda para contratar ferreiro e carpinteiro. Um delegado da província de Kostroma expressou uma opinião compartilhada por todos quando ponderou: “Os camponeses precisam de incentivos, caso contrário, não trabalharão. É possível serrar madeira debaixo do açoite, mas não é possível cultivar debaixo do açoite”. “Como proporcionar incentivos? - perguntava um camponês de Novgorod -. É muito simples, é só estipular uma porcentagem fixa de requisição de grão e de gado” (20).

O próprio Lênin não era de modo algum insensível à situação por que passava o campesinato. Quando foi informado, por exemplo, de que camponeses de um determinado distrito foram submetidos a confiscos abusivos e privados dos grãos necessários para plantar, interveio pessoalmente em socorrê-los (21). Em novembro de 1920, Lênin considerara a possibilidade de “transformar as requisições de alimentos em uma taxa fixa em espécie” (22) - que era precisamente o que os aldeões pleiteavam. Mas, naquele momento, rejeitou tal proposta por julgá-la prematura. Com efeito, o perigo de uma retomada da guerra civil, disse Lênin, ao VIII Congresso dos Sovietes, ainda não se dissipou completamente. Na ocasião, as negociações relativas à assinatura de um pacto de paz com a Polônia ainda estavam em vias de conclusão e o exército de Wrangel, abastecido na vizinha Turquia pelos franceses, preparava-se para uma ofensiva assim que se vislumbrasse a primeira oportunidade. Obviamente, nesta conjuntura, seria demasiadamente temerária uma transição econômica pressupondo por base um programa de tempos de paz (23). Anteriormente, Lênin havia ilustrado a situação peculiar da Rússia com uma fábula folclórica típica. Falando a uma assembleia de representantes rurais da província de Moscou, em outubro de 1920, Lênin admitiu (com gritos de aprovação por parte do auditório) o pesado fardo da contribuição compulsória sobre os ombros do camponês combalido, situação que agravava a cisão entre cidade e campo, entre operários e camponeses. Mas se o carneiro e o bode brigavam, perguntou Lênin, aludindo ao proletário e ao camponês, devemos acaso permitir que o lince da contrarrevolução devore a ambos? (24)

Assim, a despeito das hesitações cada vez mais profundas, Lênin manteve em vigor a política do comunismo de guerra. Em dezembro de 1920, no VIII Congresso dos Sovietes, Lênin chancelou o projeto de Osinsky, criando um banco público de sementes e lançando uma campanha de plantio na primavera seguinte. O congresso aprovou ainda outra resolução determinando “um grande plano estatal de plantio obrigatório” sob a direção geral do Comissariado da Agricultura. Foram criados comitês de plantio em cada província, distrito e município, com função administrativa sobre toda mão de obra e ampliação da área cultivada (25). Mas, para Lênin, pelo menos até aquele momento, não era exequível qualquer tentativa de coletivizar a agricultura. O líder bolchevique já não acreditava mais na possibilidade do socialismo ser alcançado em um futuro próximo. A Rússia, segundo afirmou ao VIII Congresso dos Sovietes, continuava um país de pequenos camponeses; e os camponeses “não são socialistas”. Assim sendo, construir o futuro da Rússia sobre esse terreno, seria o mesmo que lançar fundações na areia movediça. Mesmo fechado o Sukharevka (famoso mercado negro de Moscou), seu espírito vivia no coração de todo pequeno proprietário russo. “Enquanto o país estiver povoado por pequenos camponeses - disse Lênin -, o capitalismo encontrará na Rússia uma base econômica mais sólida que o comunismo”. Mas se a transição ao socialismo for longa e difícil, acrescentava, então não há razão para suprimir as forças capitalistas do campo. Assim, a compulsoriedade seguirá sendo a palavra de ordem da política agrícola bolchevique (26).

A situação nas cidades, até então o bastião do apoio bolchevique, no entanto, era em muitos aspectos pior que a do campo. Seis anos de distúrbios haviam aniquilado a economia industrial da nação e, muito embora as estatísticas variassem em muitos detalhes, o cenário era quase de colapso total (27). Em fins de 1920, a produção industrial total havia baixado ao redor de um quinto dos níveis de 1913. O abastecimento de petróleo e matérias-primas alcançou um estado particularmente crítico. Ainda que na primavera e no outono de 1920 os campos petrolíferos de Baku e a mina carbonífera do Donetz retomassem a todo vapor a produção, o prejuízo era enorme e de difícil recuperação. Muitas minas estavam inundadas e outros empreendimentos em curso, completamente destruídos. A produção total de carvão da Rússia, em fins de 1920, era só de um quarto em relação aos níveis do pré-guerra, e a de petróleo não passava de um terço. Pior ainda, a produção de ferro fundido baixara a menos de 3% dos níveis de 1913 e a de cobre permanecia quase parada. Por falta de insumos, os principais centros industriais do país viram-se forçados a reduzir a produção drasticamente. Muitas fábricas grandes só puderam funcionar parcialmente e a força de trabalho empregada diminuiu a uma fração do que havia sido quatro ou cinco anos antes. Alguns setores importantes da indústria pesada chegaram a parar por completo. E, nas empresas de bens de consumo, a produção total diminuiu a menos de um quarto dos níveis do pré-guerra. A manufatura de calçado caiu a um décimo do normal e, apenas em vinte plantas têxteis, as máquinas seguiam funcionando.

Somavam-se a esta situação desastrosa dois fatores adicionais: os efeitos asfixiantes do recente bloqueio internacional e a desorganização do sistema de transportes do país. O bloqueio imposto depois do Tratado de Brest-Litovsk, de 1918, seria levantado apenas no ano de 1920. Mas o comércio interno não se reavivou senão no ano seguinte, muito embora em pequena escala. Como resultado, a Rússia Soviética descobriu-se privada de uma equipe técnica, maquinárias e matérias-primas, que tanto necessitava e de cuja falta obstava a rápida recuperação do parque industrial. Para piorar, em pouco tempo, os meios de transporte ficaram gravemente danificados. Em boa parte do país os trilhos foram arrancados e as pontes destruídas pelos exércitos em retirada. Trotsky, ao informar-se sobre a situação dos transportes durante o VIII Congresso dos Sovietes, observara que mais da metade das locomotivas na Rússia estava descarrilada e a produção de motores havia caído a 15 por cento da cifra correspondente aos anos de 1913 (28). Pelo fato do fornecimento de petróleo ser intermitente, os ferroviários viram-se obrigados a abastecer os trens com lenha, o que resultou num maior número de avarias e interrupções do serviço. As vias de acesso estavam quase todas deterioradas e, em alguns distritos, a paralisia era total.

A falência do sistema ferroviário interrompeu a entrega de produtos alimentícios às cidades famintas. As provisões chegaram a ser tão escassa, que os operários e outros habitantes das cidades tiveram de se contentar com uma porção de ração digna de fome. As pequenas quantidades de alimentos disponíveis eram distribuídas de acordo com um sistema ordenado conforme níveis de preferência, idealizado originalmente para favorecer aos trabalhadores das indústrias bélicas, mas que se perpetuou mesmo após o fim da guerra civil. Assim, no início de 1921, os trabalhadores das siderúrgicas de Petrogrado e altos fornos (goriachie tsekhi) recebiam uma ração diária de 800 gramas de pão preto, enquanto que os demais, que trabalhavam em tarefas excepcionalmente pesadas (udarniki), recebiam 600 gramas. Às categorias consideradas menores, porém, a cota não passava de 400 ou, às vezes, 200 gramas apenas (29). Assim, as medidas de racionamento da escassez constituíam-se sobre uma base extremamente desigual. Segundo nossas fontes, a dieta dos trabalhadores do transporte correspondia a uma média de 700 a 1000 calorias por dia (30), cifras muito abaixo do mínimo necessário relativo a uma jornada diária de trabalho.

A crise alimentícia nas cidades piorou muito com fechamento do mercado regular durante o período da guerra civil. Sob o sistema do comunismo de guerra, o comércio privado foi abolido e a troca de mercadorias entre cidade e campo praticamente deixou de existir. Em seu lugar, surgiu rapidamente um mercado negro. Um enxame de vendedores ambulantes contrabandeava, de aldeia em aldeia, comprando pão e vegetais para vendê-los ou trocá-los com os esfomeados habitantes das cidades. Em fins de 1920, o comércio ilegal chegara a proporções tais que suplantou em larga medida os canais oficiais de distribuição de produtos de consumo. Ao mesmo tempo, a inflação alcançou níveis vertiginosos. Somente no decorrer do ano 1920, o preço do pão aumentou mais de dez vezes (31). O governo soviético, para cobrir gastos administrativos, passou a imprimir dinheiro em ritmo frenético e, como resultado da política inflacionária, o rubro de ouro, que, em 1917, valia sete rubros e 85 kopecks, alcançou em três anos 10000 rubros (32). No final de 1920, de acordo com estimativas oficiais, o salário real dos trabalhadores fabris de Petrogrado desvalorizou 8,6% em relação aos níveis do pré-guerra (33). À medida que a moeda se desvalorizava, os operários recebiam uma proporção cada vez maior de salário em espécie. A ração de comida (payok), que o governo entregava aos operários, chegou a constituir o núcleo do salário, ao qual se agregava sapatos e vestimentas, e, às vezes, algumas ferramentas, que eram trocadas naturalmente por comida.

Portanto, os operários raramente recebiam o necessário para alimentar a si mesmos e suas famílias. Habitantes das cidades abandonavam suas casas formando ondas migratórias que rumavam para as zonas rurais à procura de alimentos. Entre outubro de 1917 e agosto de 1920 (período em que se retomou o censo), a população de Petrogrado, de quase 2.500.000 habitantes, decresceu a mais ou menos 750000, ou seja, uma redução de quase dois terços. Durante o mesmo período, Moscou perdeu quase a metade de seus habitantes, enquanto a população urbana de toda a Rússia declinava aproximadamente a um terço do total. Uma boa parte dos migrantes compunha de trabalhadores industriais que retornavam às suas aldeias de origem, onde retomavam seu antigo modo de vida camponês. Em agosto de 1920, por exemplo, apenas um terço dos 300.000 operários de Petrogrado permaneceu na cidade e a redução total do contingente de operário em toda a Rússia excedeu os cinquenta por cento (34). Parte deste dramático declínio foi supostamente atribuído à alta taxa de mortalidade no front e, parcialmente, à grande quantidade de pessoas que voltavam às suas aldeias para serem beneficiadas pela reforma agrária. A desarticulação da indústria e a falta de combustível e vestimentas contribuíram também para o êxodo urbano. A maioria das pessoas saía em busca de comida, especialmente durante os anos de 1919 e 1920, quando o abastecimento das cidades se aproximava rapidamente aos níveis de fome.

Mesmo aqueles operários que permaneceram nas cidades mantiveram vínculos com as suas aldeias de origem, realizando viagens periódicas atrás de alimento, fugindo de epidemias ou para ajudar na colheita. É bastante irônico que isso ocorria justamente no momento em que o país deveria alcançar um caráter majoritariamente urbano e industrial, tal como previam os cânones ideológicos do partido bolchevique. Mas em lugar disso, os efeitos da redistribuição de terras e da guerra civil transformaram a Rússia novamente na primitiva sociedade agrária da qual só em tempos recentes deixara para trás. Para o regime soviético, que governava em nome do proletariado industrial, tal situação imprevista acarretava perigosas consequências. Não apenas o êxodo urbano desintegrava a base social pela qual se sustentava a autoridade bolchevique. Contatos estabelecidos entre camponeses e operários também colaboravam em muito para aumentar as tensões populares existentes. As frequentes queixas dos camponeses acabavam por provocar fortes reações entre os forasteiros da cidade, que puderam ver com seus próprios olhos os impactos desastrosos produzidos pelo comunismo de guerra nas zonas rurais. A insatisfação mútua rapidamente se espalhou para os seus primos plebeus que integravam o exército e a marinha. O resultado foi uma onda crescente de distúrbios rurais, industriais e militares, que, em março de 1921, alcançaria um clímax explosivo na rebelião de Kronstadt.

Enquanto isso, a situação das cidades e dos pequenos vilarejos continuava se deteriorando. No início de 1921, toda a estrutura urbana estava em vias de um grande desmonte. Devido à crise de abastecimento de combustível, as oficinas, as vivendas e as agências de serviço não dispunham mais de aquecimento para atravessar os severos meses do inverno. Rumores circulavam sobre casos de pessoas que morriam congeladas por falta de calefação em suas casas, num momento em que não se podiam comprar casacos e botas em qualquer parte. O tifo e a cólera varreram as cidades. Ainda assim a alimentação continuou sendo o problema mais grave das áreas urbanas, apesar do grande déficit populacional, pois o abastecimento nunca era suficiente. Neste contexto, os operários enfraquecidos fisicamente tornavam-se passíveis de uma desmoralização sem precedentes. Em fins de 1920, a produtividade média registrou uma queda de um terço da taxa de 1913 (35). Impulsionados pelo frio e a fome, os homens abandonavam as máquinas durante dias inteiros para coletar lenha e víveres no cinturão campestre ao redor da cidade. Viajavam a pé ou em vagões de trem por quilômetros, carregando consigo objetos pessoais e instrumentos que roubavam das fábricas para trocá-los por qualquer coisa que pudesse matar a fome. O governo fez de todo o possível para coibir o tráfico ilegal envolvendo utensílios fabris. Destacamentos de estrada (zagraditel'nye otriady) bloqueavam as vias e vigiavam os acessos à cidade para apreender os preciosos sacos de alimentos que os “especuladores” levavam para as suas famílias. Nisso, a brutalidade dos destacamentos tornara-se notória em todo o país e, por conseguinte, os comissariados de Moscou viram-se inundados por petições denunciando os métodos arbitrários que eram aplicados (36).

Outra demanda comum da classe trabalhadora referia-se à crescente arregimentação do trabalho sob o sistema do comunismo de guerra. Trotsky, o comissário de guerra, estava por trás dessas medidas. Encorajado pela rápida e improvisada formação do Exército Vermelho sob seu comando, Trotsky tratou de empregar métodos similares de disciplina militar na organização da cambaleante economia industrial. Em janeiro de 1920, o Conselho de Comissários do Povo decretou, em grande medida por sua inspiração, a obrigatoriedade da jornada de trabalho a toda população ativa; ao mesmo tempo em que se autorizou o serviço civil obrigatório a todo militar da reserva. À medida que se aproximava o fim da guerra civil, batalhões inteiros de soldados do Exército Vermelho, ao invés de receberem baixas nos quartéis, foram mantidos enquanto “exército de trabalho”, incumbido das tarefas relativas à resolução da crise de transporte e combustível, bem como salvar a indústria do colapso iminente. Mil veteranos foram empregados no corte de madeira, ensacamento de carvão nas minas e reparo das vias férreas; enquanto outros milhares foram encarregados de realizar o trabalho pesado nas grandes fábricas urbanas. Paralelamente, para elevar a produção industrial a patamares produtivos, realizaram-se providências para reforçar a disciplina da força de trabalho civil e, assim, reduzir furtos e evitar a ociosidade. Todavia, os resultados foram desanimadores. Como era de se esperar, o recrudescimento da disciplina e a presença de tropas nas fábricas provocaram um forte ressentimento entre os operários. Nas reuniões de fábricas e de sindicato multiplicavam-se as objeções furiosas contra a “militarização do trabalho”. Por seu turno, uma vez terminada a guerra, os soldados ansiavam por voltar às suas casas. Para muitos russos, a “militarização do trabalho” parecia algo injustificável no momento mesmo em que o governo trabalhava para ampliá-la. Os líderes mencheviques compararam a arregimentação à escravidão do Egito, quando os faraós utilizaram o trabalho forçado para construir as grandes pirâmides. Insistiam que a compulsoriedade do trabalho não lograria êxito na produtividade industrial, assim como não alcançou na agricultura. Estes argumentos defendidos pela oposição obtinham uma ressonância muito positiva entre os operários das indústrias, cuja desilusão com os bolcheviques e o seu programa de comunismo de guerra transformava-se em frequentes manifestações contra o regime, algo que alarmava demais os espias do governo.

A “militarização do trabalho” foi parte de um esforço mais amplo para impor o controle central sobre a crise econômica da nação. Durante os anos de 1917 e 1918, os trabalhadores industriais colocaram em prática o slogan sindicalista de “controle operário” (38). O que significava dizer que os assuntos ligados à esfera do trabalho, como contratação e demissão, ajuste salarial, jornada de trabalho e atividades administrativas em geral, seriam de responsabilidade exclusiva dos comitês locais de fábrica e oficinas. Assim sendo, em algumas empresas foram demitidos diretores, engenheiros e capatazes impopulares. No lugar deles, comissões de trabalhadores assumiram a direção da produção. Os resultados foram, amiúde, desastrosos. No verão de 1918, quadros administrativos qualificados quase haviam desaparecido da indústria russa e o país encontrava-se à beira da bancarrota. Os bolcheviques, que, em 1917, encorajavam o controle operário como um meio de minar o governo provisório, viram-se obrigados a interferir para não serem tragados pela mesma maré que arrastou seus predecessores. Assim, a partir de junho de 1918, as grandes fábricas foram nacionalizadas e o controle operário gradualmente abandonado em favor de uma direção monocrática e uma rígida disciplina de trabalho. Em novembro de 1920, de cada cinco grandes empresas, quatro estavam sob a administração de um único gestor e a nacionalização fora estendida à maioria das pequenas fábricas e oficinas (39). Sempre que possível, os “especialistas burgueses” retornavam a seus antigos cargos de supervisão técnica. Antes de findar o ano, a razão de empregados burocráticos em relação à de trabalhadores manuais chegava aproximadamente ao dobro de 1917 (40). Uma nova burocracia surgia recomposta por um grupo heterogêneo formado por funcionários veteranos e novatos inexperientes. Todavia, apesar das diferenças que os anos de formação representavam, estes funcionários compartilhavam em comum de interesses particulares que nada tinham a ver com a vida dos operários.

Para operários, entretanto, a reabilitação do inimigo de classe no comando da fábrica significou uma verdadeira traição aos ideais da revolução. O sonho de democracia proletária, realizado momentaneamente em 1917, era lhes arrebatado e substituído por métodos capitalistas coercitivos e burocráticos. Realmente, os bolcheviques instauraram uma “disciplina férrea” sobre o chão de fábrica, através do odioso “sistema Taylor”, supervisionado e imposto à força pelos destacamentos armados, que seguiam a risca o comando de diretores e capatazes. Uma gestão empresarial assim, de cima para baixo, determinada por um governo que se pretendia governar em nome dos trabalhadores e que, por isso, despertou-lhes tanta confiança, descia pela goela do operário como um gole de uma bebida amarga. Não é de se estranhar, portanto, que durante o inverno de 1920-1921, período no qual a desorganização econômica e social alcançou um ponto crítico, as lamentações corriqueiras dos trabalhadores não puderam mais ser silenciadas nem por meio de ameaças de expulsão ou perda de ração. Nas reuniões de fábricas, oradores denunciavam em tom colérico a militarização e burocratização da indústria. Criticavam as comodidades e os privilégios dos quais gozavam os funcionários bolcheviques. E a cada denúncia, arrancavam gritos indignados de apoio dos operários reunidos em assembleia. Os comunistas, afirmavam aqueles, sempre obtêm os melhores trabalhos, nunca parecem ter fome ou frio, já nós... Sob essa atmosfera carregada de insatisfação, despontavam, aqui e ali, sentimentos de antissemitismo e anti-intelectualismo cada vez mais frequentes. Aventou-se a ideia de que os bolcheviques pertenciam a uma raça estrangeira de intelectuais judeus que havia traído o povo russo e contaminado a pureza da revolução.

O crescente sentimento de desilusão do operariado coincidiu com um período de agudas controvérsias dentro do Partido Comunista. Tendências opositoras às políticas do comunismo de guerra tornaram-se cada vez mais participativas. A controvérsia perdurou pelos meses de dezembro de 1920 até março de 1921. Durante o X Congresso do Partido - ocasião em que estourava a rebelião de Kronstadt -, atingiu seu ápice na questão do papel dos sindicatos na sociedade soviética (41). Três posições antagônicas disputavam hegemonia nas prolongadas e turbulentas sessões. Trotsky, inspirado pela militarização da mão-de-obra trabalhadora, formulada quando de sua atuação como comissário de guerra, defendia a subordinação total dos sindicatos ao Estado, que deveria ser a única entidade dotada de prerrogativas para designar e dispensar funcionários sindicais. Faziam-lhe ferrenha oposição os membros da Oposição Operária, grupo composto em grande parte por operários e ex-operários leais ao proletariado (sobretudo, Alexander Shliapnikov e Yuri Lutovionov). Estes se opunham aos rumos do regime soviético, que ia em direção a um novo burocratismo dominado por uma minoria não proletária. Assim, Shliapnikov, Lutovionov, Alexandra Kollontai e simpatizantes rejeitavam a militarização da força de trabalho e a administração monocrática das fábricas. Exigiam não só a total independência dos sindicatos, como também a transferência da gerência industrial da esfera estatal para o controle dos sindicatos e comitês locais de fábrica, organizados, segundo eles, por um Congresso Pan-Russo de produtores. O partido, insistiam os membros da Oposição Operária, não deveria permitir que a autonomia criadora dos trabalhadores fosse “mutilada pela máquina burocrática estatal, reduzida a uma mentalidade amesquinhada pela rotina e que tanto caracteriza o sistema burguês capitalista de produção e gestão” (42).

Já Lênin e seus partidários - a terceira posição, que constituía a grande maioria do partido - trataram de minimizar a sua discordância tanto em relação à proposta de Trotsky como ao programa sindicalista da Oposição Operária. Conciliavam pelo entendimento de que os sindicatos não podiam realmente ser absorvidos pelo aparato estatal, mas nem tampouco tomar o controle das indústrias. Assim, de um lado, o sindicalismo deveria assegurar uma boa dose de autonomia real por meio de eleições internas e da livre decisão sobre os problemas trabalhistas. Por outro, o governo seguiria mantendo em suas mãos as rédeas da economia. Lênin tinha a expectativa de que sua mediação pudesse de fato unir as duas tendências divergentes. Estava profundamente perturbado com a divisão, que ameaçava quebrar a frágil unidade partidária em um momento tão crítico como aquele da recente história soviética. “Devemos ter a coragem de olhar a amarga verdade”, disse o líder bolchevique no momento mais acirrado da controvérsia, em janeiro de 1921. “O partido está doente. O partido treme de febre”; a menos que se curem suas feridas, “de forma rápida e radical”, advertia Lênin, correremos o risco de “uma cisão inevitável”, que poderá ser fatal para a revolução (43).

Os debates dentro do Partido Comunista refletiam as crescentes tensões da sociedade russa em seu conjunto, à medida que avançava o inverno. Durante os três anos anteriores, o povo empenhou-se numa luta desesperada para preservar os frutos da revolução e conquistar a liberdade e uma vida confortável. Com efeito, uma vez derrotado o inimigo, o governo deveria abandonar imediatamente os rigores da disciplina militar e, deste modo, o sistema do comunismo de guerra se transformaria em pouco tempo numa lembrança longínqua de uma época muito dolorosa que entrara para a história. Nada disso ocorreu, porém. A guerra foi vencida, mas não se abandonou as políticas do comunismo de guerra, que sequer foram mitigadas. Meses após a vitória sobre Wrangel, o governo não deu sinais de que as liberdades mais elementares seriam restabelecidas, fossem econômicas, fossem políticas. A política bolchevique seguiu orientada pela compulsoriedade e por um rigoroso controle social, que resultou num rápido descontentamento popular. Um sentimento de desapontamento refletia o âmago da crise. Ainda que o comunismo de guerra tivesse servido ao seu propósito, salvando o exército da derrota e as cidades da fome, a compulsoriedade, nas atuais circunstâncias, já não tinha razão de ser. O comunismo de guerra devia ser encarado como um expediente temporário, um paliativo para enfrentar a situação de emergência causada pela guerra civil. Em época de paz, tornava-se num tremendo fracasso, um fardo que o povo não podia mais tolerar.

Não obstante, os bolcheviques não estavam dispostos a abrir mão deste recurso, como tampouco renunciar as políticas de represália à oposição. Para justificar medidas impopulares, o partido insistia no perigo de uma reação contrarrevolucionária iminente. Dada à situação dramática em que o país se encontrava, isolado, cercado e acossado por poderosos inimigos externos, sempre à espreita e prontos para uma invasão ao menor sinal de cisão interna, os argumentos pareciam razoáveis. Mas a cada passo em direção a um programa repressivo, ainda que ditado pela urgência econômica ou política, as pretensões democráticas e igualitárias do governo ficavam cada vez mais distantes. Vozes se levantavam contra os bolcheviques, acusando-os de trair os ideais da revolução. Para Alexander Berkman, líder anarquista que havia apoiado o regime soviético durante a guerra civil, os bolcheviques haviam abjurado os lemas de 1917 e pisoteado nas mais profundas esperanças populares. Em todos os lugares, reina a injustiça, escreveu Berkman, em 1921, desculpada sempre por uma suposta necessidade, que, na verdade, só serve para encobrir a traição, a mentira e a opressão. Os bolcheviques, prosseguia o anarquista, a despeito de governarem em nome dos operários e camponeses, estão destruindo a liberdade e a confiança do povo, atributos pelos quais dependem o desenvolvimento e a sobrevivência da revolução (44).

A opinião de Beckman era amplamente compartilhada por outros campos da esquerda, que, como os anarquistas, foram relegados ao ostracismo, após a vitória bolchevique. Com um discurso inflamado e bastante ousado, pela ocasião do VIII Congresso dos Sovietes, o líder menchevique Feodor Dan denunciou a supressão da liberdade popular, que levaria o declínio de todo o sistema dos sovietes, não permanecendo este senão como uma mera fachada de uma ditadura unipartidária. A liberdade de expressão e de reunião foi proibida, alertava Dan, cidadãos foram presos ou desterrados sem julgamento e execuções políticas são aplicadas em larga escala. O líder menchevique prosseguiu ainda condenando as perseguições como atos terroristas e exigiu a imediata restauração das liberdades políticas e civis através de novas eleições para os sovietes regionais. O apelo de Dan encontrou eco no discurso proferido pelo proeminente socialista revolucionário (SR) de esquerda, I. N. Steinberg. Antigo comissário de justiça do governo soviético, Steinberg reivindicava o restabelecimento da “democracia soviética” com ampla autonomia e autogestão em nível local.

Na verdade, as demandas apresentadas pela oposição repetiam a antigo adágio leninista de “todo o poder aos sovietes”, que agora se voltava contra os bolcheviques. Até mesmo nas fileiras do Partido Comunista surgiam críticos. O Centralismo Democrático defendia a concessão de maior poder aos sovietes como o único remédio para a excessiva concentração de autoridade política cumulada pelos bolcheviques durante a guerra civil. Porém, tais invocações não se limitavam a um punhado de intelectuais radicais. Durante os meses de inverno, a ira popular irrompeu-se numa frente ampla que reunia marinheiros, soldados, camponeses e operários, ansiosos por resgatar a anárquica liberdade de 1917. Mobilizados em torno da restauração da estabilidade social e pelo fim do derramamento de sangue e da privação econômica, entre outras aspirações, um tanto contraditórias, impuseram aos bolcheviques uma das mais sérias crises internas desde a tomada do poder. Em março de 1921, o regime soviético esteve na iminência de ser varrido por uma onda avassaladora de revoltas camponeses, distúrbios operários e insubordinação militar, que iria culminar no levante de Kronstadt.

A fome e a penúria, sobretudo, acabaram por criar uma atmosfera de crise e seria fácil criticar os bolcheviques por não terem feito nada para apaziguar o descontentamento simplesmente abandonando o sistema do comunismo de guerra. Não obstante, os bolcheviques necessitavam, não menos que os governos europeus, de tempo para avaliar a situação. A transição do estado de guerra para a paz, como bem disse Lênin, ao VIII Congresso dos Sovietes, não era algo simples. Ninguém estava seguro de como proceder em dadas circunstâncias, não havia precedentes, e sequer existia um plano estratégico para conter a onda de revoltas. Desde o instante em que os bolcheviques tomaram o poder, suas políticas tiveram um caráter experimental e de improviso. Passados mais de três anos, tateava-se no escuro, em meio a discussões sobre medidas eficazes. Em novembro de 1920, alguns líderes do partido, incluindo Lênin, começaram a considerar a possibilidade de afrouxar as políticas do comunismo de guerra. Naquele momento, porém, estava longe de ser evidente que uma rápida reorientação nas medidas emergenciais seria necessário para se evitar uma convulsão social maior - como ficaria claro somente dois ou três meses mais tarde.

Ainda subjaz o fato de que um relaxamento nos assuntos domésticos sobreviria tarde demais. Obsecados pela mentalidade da guerra e não dispostos a abandonar o programa baseado nos preceitos ideológicos do partido, os bolcheviques abraçaram as políticas do comunismo de guerra e não as abandonaram até fevereiro de 1921. Quando Lênin avançou tardiamente na direção da Nova Política Econômica (NEP), a tragédia de Kronstadt estava consumada.