quarta-feira, 1 de abril de 2020

MARCO POLO A CAMINHO DA CHINA – OUTRA VEZ


Todos os caminhos parecem levar a Roma. Itália manifesta o mais puro amor pela Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).

por Pepe Escobar

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

O presidente Xi Jinping é esperado na Itália em visita oficial, dia 22 de março. Principal tema de discussão será a Nova Rota da Seda, ou a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).

Um dia antes, em Bruxelas, a União Europeia deve debater uma estratégia comum relacionada aos investimentos chineses na Europa.

Parte substancial da União Europeia já está conectada de facto com a ICE. Incluem-se nisso Grécia, Portugal, 11 nações da União Europeia que constituem o Grupo 16+1, de China plus Europa Central e Oriental e, para todas as finalidades práticas, Itália.

E ainda assim, quando uma subsecretária no Ministério de Desenvolvimento Econômico da Itália, Michele Geraci, disse ao Financial Timesque durante a visita de Xi será assinado um memorando de entendimento de apoio à ICE, o inferno (Casa Branca) desabou sobre o mundo.

O FT não se acanha de opinar pesadamente, e apresenta a ICE como "discutível programa de infraestrutura" [ing. contentious infrastructure program]. A Iniciativa Cinturão e Estrada é projeto vasto, de longo alcance e longo prazo de integração da Eurásia, pode-se dizer, o único programa de desenvolvimento quase global que há no mercado, qualquer mercado. É especialmente "discutível" no caso de Washington – porque o governo dos EUA, como detalhei noutro artigo, decidiu trabalhar contra o programa, em vez de tratar de lucrar com ele.

Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca tentando zombar da ICE ("iniciativa made by China, para proveito da China") não facilita as coisas. Se fosse projeto tão daninho, nada menos que 152 países e organizações internacionais – e o número continua a aumentar –, já não teriam apoiado formalmente a ICE.

A resposta semioficial da China à Casa Branca, diferente das expressões diplomáticas de sempre do Ministério de Relações Exteriores, veio num editorial mordaz, não assinado, publicado no Global Times ["Se Europa continua a seguir as loucuras dos EUA, todos perdem", traduzido no Blog do Alok], que acusa a Europa de deixar-se submeter à política exterior dos EUA e a uma aliança transatlântica senil, que não corresponde às suas reais necessidades no século 21.

Geraci diz o óbvio: o elo com a ICE permitirá que mais produtos Made in Italy sejam exportados para a China. Como alguém que vive entre Europa e Ásia, sempre discute a ICE quando na Itália, vejo exatamente isso o tempo todo. O apelo do Made in Italy para o consumidor chinês – comida, moda, arte, design de interiores, para nem falar daqueles Ferraris e Lamborghinis – é fantásico, maior, até que o apelo das marcas francesas. Turistas chineses amam Veneza, Florença e Roma, querem sempre mais. Como também amam fazer compras em Milão.

Washington nada conseguirá com sua ladainha de que a ICE obra contra os EUA na guerra comercial – dado que, seja como for, pode ser iminente algum tipo de acordo Xi-Trump. E Bruxelas, por seu lado, já está profundamente dividida, especialmente por causa da França.

O business alemão sabe que a China é o mercado preferencial, presente e futuro; além do mais, um dos principais terminais da Nova Rota da Seda é Duisburg, no vale do Ruhr.

Estamos falando da conexão Yuxinou para trem de transporte de contêineres, ferrovia de cerca de 11 mil km, ativa desde 2014; Chongqing, Cazaquistão, Rússia, Belarus, Polônia, direto até Duisburg. Yuxinou (sigla de Chongqing-Xinjiang-Europa), um dos corredores chaves das Novas Rotas da Seda, deve passar por upgrade que o converterá em ferrovia para trens de alta velocidade na próxima década.

Há quase um ano, expliquei com algum detalhe em Asia Times o modo como a Itália já está conectada à ICE.

Essencialmente, trata-se da Itália – 3ª nação europeia em comércio marítimo – já configurada como o principal terminal do sul da Europa, na ICE; porta de entrada para rotas de conectividade que vêm o leste e do sul, ao mesmo tempo em que também serve, de modo custo-efetivo, a quase incontáveis destinos no oeste e norte.

Absolutamente chave no projeto é a atual modernização do porto de Veneza – canalizando linhas de suprimento que vêm da China, pelo Mediterrâneo, para Áustria, Alemanha, Suíça, Eslovênia e Hungria. Veneza está sendo reconfigurada como superporto alternativo a Rotterdam e Hamburgo – que também são conectadas à Iniciativa Cinturão Estrada. Chamei de a Batalha dos Superportos.

Independentemente do que Washington, a City de Londres e inclusive Bruxelas possam pensar, tudo isso é assunto que Roma – e Milão – identificam como questão de interesse nacional italiano. E considerando o imorredouro caso de amor que liga os chineses com todas as manifestações de Made in Italy, o ganha-ganha mais uma vez ganha.*******

Pepe Escobar, Asia Times, 9/3/2019

Fonte: Blog do Alok

domingo, 8 de março de 2020

TENDÊNCIA: MULHERES CHEFAS DE FAMÍLIA


Pesquisa Seade – Mulheres e arranjos familiares na metrópole

Sobre a Pesquisa Seade

Objetivo: analisar atributos da população residente na Região Metropolitana de São Paulo e aspectos da vida no espaço urbano.

Estrutura da pesquisa:

• Questionário fixo: captação de atributos da população Þ perfis demográfico e educacional, trabalho, renda e moradia

• Questionário variável: temas específicos e relacionados a espaço urbano e políticas públicas Þmobilidade urbana; uso de aplicativo no trabalho; atividade física; acesso à informação

Coleta de dados: aplicação de questionário em visita domiciliar, para todos os moradores.

Público-alvo: população residente na Região Metropolitana de São Paulo.

Amostra: 2.100 domicílios/mês.

Mulheres e arranjos familiares na metrópole de São Paulo

Este módulo analisa aspectos da vida das mulheres chefes de família* na Região Metropolitana de São Paulo.

Aspectos analisados:

• características das famílias chefiadas por mulheres;

• diferenças no padrão de renda domiciliar por sexo do chefe;

• deslocamentos dos chefes de família no espaço urbano.

Período de referência: 2º semestre de 2019.

* Chefe de família = pessoa considerada pelos moradores como o principal responsável pelo domicílio.

Arranjos familiares na RMSP

Diversidade de composição é um traço cada vez mais característico das famílias da RMSP.


39% das famílias são chefiadas por mulheres.

Em cada 100 famílias da RMSP*:

• somente 36 têm o formato casal com filhos chefiado por homem;

• 16 são casais sem filhos, sendo a maioria chefiada por homens;

• 15 são unipessoais, ou seja, pessoas vivendo sozinhas, situação mais usual entre as mulheres;

7% das famílias da RMSP são estendidas, ou seja, os netos estão morando com avós, a maioria com a presença dos pais.

(*) Com ou sem outro(s) parente(s) e/ou agregado(s) /convivente(s).

AS FAMÍLIAS CHEFIADAS POR MULHERES NA RMSP

Diversidade de composição das famílias chefiadas por mulheres na RMSP é grande

Arranjo mais usual entre as famílias chefiadas por mulheres continua sendo aquele em que a mulher vive apenas com filhos e/ou netos, sem cônjuge.

Parcela de famílias chefiadas por mulheres em que elas chefiam o casal, com ou sem filhos, já alcança 24%.


Mulheres vivendo sozinhas equivalem também a 24% do total de famílias chefiadas por mulheres.

65% das famílias chefiadas por mulheres não têm filhos e/ou netos menores de 18 anos em sua composição.

 Entre o conjunto de famílias chefiadas por mulheres que têm filhos e/ou netos menores de 18 anos, pouco mais de um terço corresponde a casal chefiado por mulher.

Famílias chefiadas por mulheres são mais “velhas” do que as chefiadas por homens


Idade média das mulheres chefes de família corresponde a 53,8 anos, superior à dos homens chefes (49,4 anos).

40% das mulheres chefes de família têm mais de 60 anos; entre os homens chefes de família, 27% estão nessa faixa etária.

Coerente com a idade mais elevada, mais da metade das mulheres chefes de família não estão ocupadas, situação de apenas 28% dos homens chefes.

Renda média das famílias chefiadas por mulheres corresponde a R$ 2.646, 73% da renda das famílias chefiadas por homens


Diferencial se reproduz em toda a estrutura de rendimentos: famílias chefiadas por mulheres dispõem sempre de rendimento cerca de 30% inferior ao das chefiadas por homens.

Desigualdade se reproduz também entre as famílias chefiadas por mulheres: a renda mínima daquelas no topo da pirâmide corresponde a 3 vezes o máximo obtido por aquelas na base da pirâmide.

Em termos per capita, a desigualdade é marcante:

• em média, as famílias chefiadas por mulheres dispõem de R$ 41/dia, valor que sobe para R$ 46/dia entre as chefiadas por homens;

• as famílias chefiadas por mulheres entre os 25% mais pobres dispõem de R$ 17/dia, no máximo; as que estão entre as 25% de maior renda obtêm R$ 48/dia, no mínimo.

Renda das famílias chefiadas por mulheres depende mais do sistema previdenciário

Trabalho é única fonte de renda para 44% das famílias chefiadas por mulheres, situação de 59% das chefiadas por homens.

Para 19% das famílias chefiadas por mulheres, a renda domiciliar provém exclusivamente de pensões e aposentadorias.

Entre as mulheres vivendo sozinhas (idade média de 61,4 anos), a parcela que recebe apenas pensão e aposentadoria cresce para 44%.


Renda média das famílias chefiadas por mulheres que somente recebem pensão e aposentadoria corresponde a R$ 1.714, o menor valor médio. ü 7% do total de famílias na região metropolitana estão nessa situação.

Há mais famílias chefiadas por mulheres do que por homens recebendo benefícios de programas sociais


10,9% das famílias chefiadas por mulheres na RMSP recebem benefício de programas sociais, parcela superior à daquela chefiada por homens (7,7%).

Na capital, a proporção de famílias chefiadas por mulheres que recebem benefícios de programas sociais é menor que nos demais municípios da RMSP (9% e 14%, respectivamente).

Entre as famílias chefiadas por mulheres, as que mais recebem benefícios de programas sociais são aquelas que vivem sem cônjuge com filhos e/ou netos. Entre as chefiadas por homens, são casais com filhos e/ou netos.

1,1 milhão de pessoas vivem em famílias chefiadas por mulheres que recebem benefícios de programas sociais.


Mulheres com filhos e/ou netos e mulheres vivendo sozinhas: um olhar sobre os dois perfis típicos de famílias chefiadas por mulheres


Idade média das mulheres vivendo sozinhas é de 61,4 anos; a das chefes com filhos e/ou netos corresponde a 54,5 anos.

Mulheres vivendo sozinhas dependem mais de aposentadorias e pensões do que as chefes com filhos e/ou netos.

Mulheres com filhos e/ou netos e mulheres vivendo sozinhas: um olhar sobre os dois perfis típicos de famílias chefiadas por mulheres


Há mais mulheres vivendo sozinhas no Centro Ampliado do MSP e mais famílias chefiadas por mulheres com filhos e/ou netos na região Sul.

Renda das famílias chefiadas por mulheres com filhos e/ou netos é 47% maior do que a das mulheres vivendo sozinhas.

 Mas a renda per capita das mulheres sozinhas (R$ 57/dia) é superior à das chefes com filhos e/ou netos (R$ 31/dia).

DESLOCAMENTOS DAS CHEFES DE FAMÍLIA: DESIGUALDADES NO USO DO TEMPO

Mulheres chefes de família vão mais ao comércio do dia a dia, a atividades religiosas e a serviços de saúde do que homens


Homens chefes mencionam com mais frequência saídas para atividades de lazer e práticas esportivas.

Com o aumento da idade, cresce a parcela de homens e mulheres chefes que saem para buscar serviços de saúde.

No caso das mulheres, também aumenta a proporção daquelas que vão a atividades religiosas.

Em famílias chefiadas por mulheres com filhos menores de 18 anos, o deslocamento para levar ou buscar pessoas na escola ou no trabalho é lembrado por 14% delas, o dobro do percentual de homens chefes.

Posição na família x sexo: há diferenças de gênero no padrão de deslocamento*?

Mulheres chefes de família se deslocam com menos frequência para visitas, lazer e práticas esportivas do que os homens chefes e as cônjuges mulheres, indício de sobrecarga de outras atividades.


Proporção de mulheres chefes que se deslocam para levar outras pessoas ao trabalho/escola é superior à de chefes homens e similar à de mulheres cônjuges, possivelmente pela maior responsabilidade das mulheres no cuidado da família.

Chefes de família e mulheres cônjuges se deslocam com mais frequência para atividades religiosas do que os homens chefes.

19% das mulheres chefes de família não saem de casa, exceto para estudar ou trabalhar


Mulheres chefes saem mais de casa no dia a dia e/ou nos finais de semana do que os homens chefes: 19% delas afirmam que não costumam sair, proporção que chega a 22% entre eles.

Motivos para não sair são distintos:

• falta de dinheiro é a justificativa dada por 27% das mulheres chefes, parcela superior à de homens chefes;

• entre os homens chefes, quase 60% afirmam não sair por preferir ficar em casa, razão dada por 43% das mulheres chefes.

Definições metodológicas

Conceito de renda domiciliar: rendimentos de todos os trabalhos atuais e passados das pessoas de 14 anos e mais (segurodesemprego, PIS, verbas rescisórias, aposentadorias, pensões e outros auxílios da previdência, pensões alimentícias, aluguéis e aplicações financeiras, bolsas de estudo, doações monetárias) agregados aos benefícios de programas governamentais (Bolsa Família, BPC e outros programas de transferência de renda).

Deslocamentos: o questionário contém a lista de destinos abaixo, podendo o entrevistado citar todos que se adequam ao seu perfil.

• Serviços de saúde – ir ao médico, dentista, exames, hospitais, clínicas, postos de saúde, etc.

• Comércio do dia a dia – padaria, açougue, mercado, quitanda, varejão, mercearia, farmácia, feira, etc.

• Outras compras – roupas, calçados, supermercados, hipermercados, etc.

• Atividades religiosas – Igreja, culto, entidades religiosas, etc.

• Levar ou buscar pessoas na escola ou no trabalho. 

• Cursos (exceto escolas de ensino formal).

• Visitar parentes, amigos, conhecidos, namorados.

• Lazer – passear, bares, ir ao shopping center, etc.

• Cultura – cinema, teatro, biblioteca, shows, etc.

• Praticar atividade esportiva – academia, clubes esportivos, fazer caminhada, ir a parques, jogar futebol, etc.

• Locais de serviços – banco, lotérica, etc.

• Outros locais.


sábado, 1 de fevereiro de 2020

O DIFERENCIAL


por Amélia Damiani

Num universo sob a égide da homogeneização, própria do imperativo da extensão e intensidade da realização da forma mercadoria e a do capital, as dita diferenças são dissimulações, modos de representação da novidade, sempre prementes à mercantilização. Poderíamos substituí-las pela hierarquização: esta, parte constitutiva das relações sociais, sob o substrato das abstrações mercantis. É possível também o uso estratégico da particularidade, como campo de liberdade e vivência. Lefebvre diz que o particular escusa a provação do homogêneo. Ele lhe é anterior e exterior. A colisão necessária com a homogeneização é própria da diferença. Ela expõe um nexo entre o particular e o homogêneo, pois ativa conteúdos históricos em degenerescência, já que a sociedade homogeneizada é homogeneização como estratégia de comando e imperatória. Mas especialmente o diferencial está no plano da utopia. É a presença do novo no presente, demonstrando seu limite e extinção. É anúncio do possível-impossível na sociedade em presença, admitindo o ausente. O diferencial é presença-ausência no plano do existente. É o possível-impossível. O possível revolucionário. A busca do diferencial leva Lefebvre a transmutar valor de uso em uso, usuário em usador. As diferenças são revolucionárias. O diferencial não é pós-moderno. É crise e crítica da modernidade. 

domingo, 15 de dezembro de 2019

A DANÇA DAS MERCADORIAS



por Odette Carvalho de Lima Seabra

As mercadorias são objetos úteis portadores de valor de troca. São elas que fornecem a forma, a linguagem, o espelho da sociedade e não o trabalho social: o que nos faz alienados da nossa condição real de vida porque encobre o fato de ser o trabalho a substância de todas as coisas. É impossível compreender o mundo das mercadorias sem compreender que nesse mundo cada objeto se torna um signo e que cada signo pode ser desdobrado em signos de segundo grau, tal como a letra de câmbio, o cheque representando dinheiro.

As mercadorias cumprem função social na circulação. Elas se movem pela sociedade tanto na forma relativa como na forma equivalente do valor: o valor de uma mercadoria se expressa no valor de uso de outra mercadoria que, conectadas e inseparáveis, se condicionam reciprocamente, são extremos excludentes e contrapostos, como polos da mesma expressão do valor.

A forma relativa do valor supõe que outra mercadoria contraponha-se sob a forma de equivalente. Esta, na forma equivalente, não expressa seu valor, mas empresta sua objetividade para que seja expressão do valor de outras mercadorias.

A posição da mercadoria como forma relativa ou equivalente depende exclusivamente da posição que ocupa na expressão do valor. A forma equivalente não possui qualquer determinação quantitativa de valor. Na troca de posições se confirma a fantasmagoria da mercadoria.

Para averiguar de que maneira a expressão simples do valor de uma mercadoria encerra a relação de valor entre duas mercadorias é necessário dar precedência ao seu aspecto quantitativo operando a redução a uma mesma unidade, tal como é o trabalho (Aristóteles) socialmente necessário à produção de cada mercadoria. Só a expressão das mercadorias ilumina o caráter específico do trabalho enquanto formador de valor. Portanto, o que põe em relevo a natureza do valor de uma mercadoria é a própria relação com outra mercadoria na condição de equivalente. Salta à vista que o valor de uso se converte na forma valor.

A forma geral do valor como gelatina de trabalho mostra em sua estrutura que é expressão social do mundo da mercadoria e torna visível que, dentro desse mundo, o caráter abstrato, humano geral do trabalho é especificamente social.

Texto extraído do livro de vários autores "Apontamentos diferenciais: por uma leitura crítica da (re)produção do espaço", Editora Tiragem Livre: São Paulo, 2019. 



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

NOTÍCIAS SOBRE A DESIGUALDADE NO BRASIL


Subiu o número de brasileiros com mais de US$ 1 bilhão, de acordo a revista Forbes. No ano passado, contavam 42 bilionários; agora são 58.

Os brasileiros bilionários acumulam um patrimônio de US$ 179,7 bilhões (cerca de R$ 679,3 bilhões). Houve aumento de 1,9% em relação ao ano passado, quando os bilionários somavam US$ 176,4 bilhões (R$ 666,9 bilhões).

A maior parte desses bilionários é do setor financeiro: 48 dos 206 que aparecem no ranking.

Ranking dos cinco setores com mais bilionários no Brasil

1 - Setor financeiro: 48 (R$ 345,97 bilhões)
2 - Atacado e varejo: 29 (R$ 114,65 bilhões)
3 - Alimentos e bebidas: 27 (R$ 276,33 bilhões)
4 - Indústria: 18 (R$ 85,14 bilhões)
5 - Diversos: 14 (R$ 64,12 bilhões)

IBGE - Renda do trabalho do 1% mais rico é 34 vezes maior que da metade mais pobre

O rendimento médio mensal de trabalho da população 1% mais rica foi quase 34 vezes maior que da metade mais pobre em 2018. Isso significa que a parcela de maior renda arrecadou R$ 27.744 por mês, em média, enquanto os 50% menos favorecidos ganharam R$ 820.

Contribuíram para esse quadro o aumento de 8,4% na renda das pessoas mais ricas e as quedas nos ganhos das classes que formam os 30% mais pobres, na comparação com 2017. As informações são do módulo Rendimento de Todas as Fontes, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada no dia 16 de outubro pelo IBGE.

A pesquisa também mostrou que os 10% da população mais pobres detinham 0,8% da massa de rendimento, enquanto os 10% mais ricos concentravam 43,1%. Já a massa de rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que era de R$ 264,9 bilhões em 2017, cresceu para R$ 277,7 bilhões em 2018.

A média de rendimentos do trabalho do país, para pessoas de 14 anos ou mais, ficou em R$ 2.234, acima do valor inicial da série em 2012 (R$ 2.133), mas abaixo do registrado em 2014, que foi de R$ 2.279. No Nordeste, o rendimento médio era de R$ 1.479, enquanto no Sudeste, chegou a R$ 2.572.

Na passagem de 2017 para 2018, o Nordeste foi a única região onde o rendimento de trabalho diminuiu. “O rendimento do trabalho corresponde a aproximadamente três quartos do rendimento total das famílias. O mercado de trabalho em crise, onde as pessoas estão deixando seus empregos e indo trabalhar em outras ocupações, com salários mais baixos, provoca um impacto no rendimento total”, explicou a gerente da PNAD Contínua, Maria Lucia Vieira.

O índice de Gini, que mede concentração e desigualdade econômica, indo de zero (máxima igualdade) até um (máxima desigualdade), chegou a 0,509 em 2018, para rendimentos de trabalho. O indicador era de 0,508 no Brasil em 2012, depois diminuiu para 0,494 em 2015 e voltou a subir. “Essas variações no índice de Gini têm muito a ver com as flutuações na renda dos mais ricos”, comentou a analista do IBGE, Adriana Beringuy.

Esse aumento na desigualdade, porém, não foi uniforme no país. No Nordeste, o índice caiu de 0,531 em 2017 para 0,520 em 2018. “No Sudeste, o 1% com maiores rendimentos de trabalho cresceu 17,8%. Nesse mesmo período, no Nordeste, o 1% mais rico teve queda de 16,5%. Então, a redução na desigualdade no Nordeste está mais relacionada à queda nos rendimentos de trabalho dos mais ricos, do que numa melhoria nas condições de vida dos mais pobres”, disse Adriana.

População que recebe aposentadorias e pensões chega a 14,6%

Além dos rendimentos com trabalho, que representam cerca de três quartos do total recebido mensalmente pela população, a pesquisa também investiga outras fontes de renda, como aposentadorias, aluguéis e arrendamentos, pensões e mesadas e outros rendimentos, como programas sociais e rentabilidade de aplicações financeiras.

Aposentadorias e pensões foram destaque, atingindo R$ 1.872 em 2018, a maior média entre as outras fontes pesquisadas. Isso significa um crescimento de 3,3% em relação a 2017 e de 7,3% em relação a 2012. Do total da população, 14,6% recebiam esse benefício em 2018, enquanto em 2012 essa proporção era de 13,1%.

“A proporção de pessoas com rendimento de trabalho caiu, e isso tem relação com a perda de empregos. Já a proporção de aposentadorias vem aumentando, o que pode estar relacionado a mais pessoas buscando o benefício e por componentes demográficos, tanto que é mais forte no Sul e Sudeste, onde a população está mais envelhecida”, disse Maria Lucia.

No Sul, a população que recebe aposentadorias e pensões chegou a 18,3%, enquanto no Sudeste, atingiu 15,8%.

Número de beneficiários do Bolsa Família reduz para 13,7%

A pesquisa mostrou também que a proporção de domicílios que recebiam rendimentos do Programa Bolsa Família caiu de 15,9% em 2012 para 13,7% em 2018. O percentual manteve-se praticamente estável com pequena queda em 2013 (15,7%), declínio que se acentuou a partir de 2014 (14,9%) e em 2015 (14%).

O rendimento médio mensal domiciliar dos que recebem dinheiro do Bolsa Família também caiu, passando de R$ 368 para R$ 341, após ter chegado ao pico de R$ 398 em 2014. Os números são bem abaixo do rendimento médio mensal real domiciliar dos que não são beneficiários do programa: R$ 1.565.

A pesquisa revela ainda que os beneficiários do programa social têm menos acesso a serviços básicos de saneamento – água, esgotamento sanitário e coleta de lixo.

Entre aqueles com Bolsa Família, 71,7% tinham abastecimento de água em geral, ante 88,1% dos que não recebem o benefício. Apenas 37,6% dos beneficiários têm acesso a esgotamento sanitário com rede geral ou fossa séptica, frente a 70,9% da demais parcela da população. E 75,7% contam com coleta de lixo, abaixo dos que não têm o benefício, 93,6%.

Editoria: Estatísticas Sociais | Eduardo Peret, com colaboração de Carmen Nery (16/10/2019)

Extrema pobreza atinge 13,5 milhões de pessoas e chega ao maior nível em 7 anos

Em 2018, o país tinha 13,5 milhões pessoas com renda mensal per capita inferior a R$ 145, ou U$S 1,9 por dia, critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza. Esse número é equivalente à população de Bolívia, Bélgica, Cuba, Grécia e Portugal. Embora o percentual tenha ficado estável em relação a 2017, subiu de 5,8%, em 2012, para 6,5% em 2018, um recorde em sete anos.

Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) divulgada no dia 6 de novembro pelo IBGE. O gerente do estudo, André Simões, ressalta que são necessárias políticas públicas para combater a extrema pobreza, pois ela atinge um grupo mais vulnerável e com menos condições de ingressar no mercado de trabalho.

A Síntese de Indicadores Sociais também apontou que, embora um milhão de pessoas tenham deixado a linha de pobreza – rendimento diário inferior a US$ 5,5, medida adotada pelo Banco Mundial para identificar a pobreza em países em desenvolvimento como Brasil – um quarto da população brasileira, ou 52,5 milhões de pessoas, ainda vivia com menos de R$ 420 per capita por mês. O índice caiu de 26,5%, em 2017, para 25,3% em 2018, porém, o percentual está longe do alcançado em 2014, o melhor ano da série, que registrou 22,8%.

“Em 2012, foi registrado o maior nível da série para a pobreza, 26,5%, seguido de queda de 4 p.p. em 2014. A partir de 2015, com a crise econômica e política e a redução do mercado de trabalho, os percentuais de pobreza passaram a subir com pequena queda em 2018, que não chega a ser uma mudança de tendência”, avalia o analista do IBGE Pedro Rocha de Moraes.

A pobreza atinge sobretudo a população preta ou parda, que representa 72,7% dos pobres, em números absolutos 38,1 milhões de pessoas. E as mulheres pretas ou pardas compõem o maior contingente, 27,2 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza.

Em 2018, a redução da pobreza se deu principalmente no Sudeste, que registrou menos 714 mil pessoas nessa condição, sobretudo no estado de São Paulo (menos 623 mil). Quase metade (47%) dos brasileiros abaixo da linha de pobreza em 2018 estava na região Nordeste. O Maranhão foi o estado com maior percentual de pessoas com rendimento abaixo da linha de pobreza, (53,0%). Já Santa Catarina, que também se mostrou o estado menos desigual, apresentou o menor percentual de pobres. Todos os estados das regiões Norte e Nordeste apresentaram indicadores de pobreza acima da média nacional.

Desigualdade aumenta

Entre 2012 e 2014, o grupo dos 40% com menores rendimentos apresentou aumento mais expressivo do rendimento médio domiciliar per capita, passando de R$ 329 para R$ 370. A partir de 2015, o rendimento médio deste grupo caiu para R$ 339. Já o grupo dos 10% com maiores rendimentos sofreu uma modesta redução do rendimento médio entre 2012 e 2015 (de R$ 5.408 para R$ 5.373), mas passou a subir nos anos seguintes, resultando, ao final de 2018, em um rendimento médio de R$ 5.764, o maior valor da série.

“Em 2018, houve uma melhora nos indicadores do trabalho, embora tenha sido mais relevante no trabalho informal. O valor dos rendimentos cresceu para toda a população, só que foi maior para os 10% com maiores rendimentos que se apropriaram de uma parcela maior do que os 40% com menores rendimentos, ampliando a desigualdade”, diz Moraes.

Rendimento domiciliar per capita médio de pretos ou pardos é metade do recebido pelos brancos

Em 2018, pessoas de cor ou raça preta ou parda tiveram rendimento médio domiciliar per capita de R$ 934, quase metade do rendimento de R$ 1.846 das pessoas de cor ou raça branca. Entre 2012 e 2018, houve ligeira redução dessa diferença, explicada por um aumento de 9,5% no rendimento médio de pretos ou pardos, ante um aumento de 8,2% do rendimento médio dos brancos. Mas tal redução não foi capaz de superar a histórica desigualdade de rendimentos, em que brancos ganham o dobro de pretos e pardos.

Em relação às condições de moradia, 56,2% (29,5 milhões) da população abaixo da linha da pobreza não têm acesso a esgotamento sanitário; 25,8% (13,5 milhões) não são atendidos com abastecimento de água por rede; e 21,1% (11,1 milhões) não têm coleta de lixo.

Tanto em relação às inadequações habitacionais como em relação à ausência de saneamento, as proporções registradas são maiores entre pretos e pardos do que entre brancos. Entre pretos e pardos, 42,8% (49,7 milhões) não são atendidos com coleta de esgoto; 17,9% (20,7 milhões), não têm abastecimento de água por rede; e 12,5% (14,5 milhões) não têm acesso à coleta de lixo.

Editoria: Estatísticas Sociais | Carmen Nery (06/11/2019)

Nota dos editores do blog: Agora deu pra sacar quem vai se beneficiar com as reformas em curso no Brasil?