sexta-feira, 1 de abril de 2022

O clamor por Kronstadt, por Leon Trotsky

 O berreiro sobre Kronstadt [1]

por Leon Trotsky

Tradução de Marcelo Coelho - Revista Rosa

Uma “Frente Popular” de indignados

A campanha em torno de Kronstadt se desenvolve sem descanso em alguns círculos. Um desavisado pensaria que a revolta de Kronstadt aconteceu agora mesmo, e não dezessete anos atrás. Participando dessa campanha, com igual zelo e sob um único slogan, encontram-se anarquistas, mencheviques russos, sociais-democratas de esquerda do Burô Londrino, trapalhões individuais, o jornal de Miliukov, e, conforme a ocasião, a grande imprensa capitalista. Uma “Frente Popular” sui generis!

Ontem mesmo me deparei com as seguintes linhas, publicadas num semanário mexicano que é ao mesmo tempo católico-reacionário e “democrático”: “Trotsky ordenou o fuzilamento de 1500 (?) dos marinheiros de Kronstadt, os puros entre os puros. Sua política, quando no poder, em nada diferia da atual política de Stálin”. Como se sabe, os anarquistas de esquerda chegaram à mesma conclusão. Quando, pela primeira vez na imprensa, respondi brevemente às questões de Wendelin Thomas, membro da Comissão de Inquérito de Nova York, o jornal dos mencheviques russos veio imediatamente em defesa dos marinheiros de Kronstadt e de… Wendelin Thomas. O jornal de Miliukov perfilou-se no mesmo espírito. Os anarquistas me atacaram com ainda maior vigor. Todas essas autoridades sustentam que aquela minha resposta não tinha valor nenhum. Essa unanimidade é tanto mais notável quanto se sabe que os anarquistas erigem Kronstadt como símbolo do genuíno comunismo antiestatal; que os mencheviques, no momento do levante de Kronstadt, apoiavam abertamente a restauração do capitalismo; e que Miliukov continua apoiando até hoje.

Como é que o levante de Kronstadt pode causar tamanho deus-nos-acuda entre anarquistas, mencheviques e contrarrevolucionários “liberais” ao mesmo tempo? A resposta é simples: todos esses agrupamentos estão interessados em comprometer a única corrente genuinamente revolucionária, que nunca repudiou suas bandeiras, que nunca fez concessões a seus inimigos e que é a única a representar o futuro. É devido a isso que entre os que tardiamente denunciam o meu “crime” de Kronstadt há tantos ex-revolucionários ou semi-revolucionários, gente que perdeu seus programas e princípios e que acha necessário distrair as atenções do estado de degradação em que se encontra a Segunda Internacional ou da perfídia dos anarquistas espanhóis. Por enquanto, os estalinistas não podem aliar-se abertamente à campanha em torno de Kronstadt mas até mesmo eles, obviamente, esfregam as mãos com prazer; pois os ataques se dirigem contra o “trotskismo”, contra o marxismo revolucionário, contra a Quarta Internacional!

Por que, em particular, esta variegada fraternidade se ocupou precisamente de Kronstadt? Durante os anos da Revolução nós entramos em confronto, não poucas vezes, com os cossacos, com os camponeses, até com certas camadas do operariado (alguns grupos de operários dos Urais organizaram um regimento de voluntários para aderir ao exército de Kolchak!). O antagonismo entre os operários enquanto consumidores e os camponeses enquanto produtores e vendedores de pão está, em geral, na raiz desses conflitos. Pressionados pela necessidade e pela privação, os próprios operários se viram ocasionalmente divididos em campos hostis, conforme a força ou a fraqueza dos seus laços com a aldeia. O Exército Vermelho também se encontrou sob a influência das áreas rurais. Durante os anos da guerra civil foi necessário desarmar, mais de uma vez, regimentos descontentes. A introdução da “Nova Política Econômica” (nep) atenuou essa fricção, mas nem de longe a eliminou. Ao contrário, abriu caminho para o renascimento dos kulaks [camponeses ricos] e levou, no começo desta década, ao ressurgimento da guerra civil nas aldeias. O levante de Kronstadt foi apenas um episódio na história das relações entre a cidade proletária e a aldeia pequeno-burguesa. Só é possível entender esse episódio em conexão com o curso geral do desenvolvimento da luta de classes durante a Revolução.

Kronstadt diferiu da longa série de outros movimentos e levantes pequeno-burgueses apenas devido a seu maior efeito externo. O problema, aqui, envolvia uma fortaleza marítima submetida à própria Petrogrado. Ao longo do levante, fizeram-se proclamações e transmissões de rádio. Os social-revolucionários e os anarquistas, vindo às pressas de Petrogrado, enfeitaram o levante com frases e gestos “nobres”. Tudo isso deixou rastros impressos. Com ajuda desse material “documental” (isto é, rótulos mentirosos), não é difícil construir uma lenda em torno de Kronstadt, ainda mais exaltada na medida em que desde 1917 o nome de Kronstadt estava envolto numa aura revolucionária. Não é à toa que a revista mexicana citada acima chama ironicamente os marinheiros de Kronstadt de “puros entre os puros”.

A jogada empregando a autoridade revolucionária de Kronstadt é um dos traços definidores dessa campanha de verdadeira charlatanice. Anarquistas, mencheviques, liberais, reacionários, todos tentam apresentar a questão como se no começo de 1921 os bolcheviques tivessem voltado suas armas naqueles mesmos marinheiros de Kronstadt que garantiram a vitória da insurreição de outubro. Este é o ponto de partida para todas as falsidades posteriores. Quem quiser desmontar essas mentiras deve, antes de tudo, ler o artigo do camarada J. G. Wright na New International (fevereiro de 1938). Meu problema aqui é outro: quero descrever o caráter do levante de Kronstadt a partir de um ponto de vista mais geral.

Agrupamentos sociais e políticos em Kronstadt

Uma revolução é “feita” diretamente por uma minoria. O sucesso de uma revolução, entretanto, só é possível quando essa minoria encontra maior ou menor apoio, ou pelo menos uma neutralidade amigável, junto à maioria. O trânsito pelas diversas fases da revolução, assim como a passagem da revolução para a contrarrevolução, é diretamente determinado pelas mudanças nas relações políticas entre a minoria e a maioria, entre a vanguarda e a classe.

Entre os marinheiros de Kronstadt, encontravam-se três camadas políticas diferentes: os revolucionários do proletariado, alguns treinados e com um passado consequente; a maioria intermediária, de origem principalmente camponesa; e, finalmente, os reacionários, filhos de kulaks, pequenos comerciantes e sacerdotes. Nos tempos do czarismo, só era possível manter a ordem nos navios de guerra e na fortaleza enquanto os oficiais, agindo através das secções reacionárias dos suboficiais e dos marinheiros, submetessem a larga camada intermediária à sua influência ou a seu terror, isolando desse modo os revolucionários, principalmente maquinistas, atiradores e eletricistas, isto é, predominantemente os trabalhadores urbanos.

O desenrolar da insurreição no encouraçado Potemkin, em 1905, baseou-se inteiramente nas relações entre essas três camadas, isto é, na luta entre os extremos proletários e reacionários pequeno-burgueses pela influência sobre a camada média, mais numerosa, dos camponeses. Quem não tiver entendido este problema, que perpassa todo o movimento revolucionário na marinha, fará melhor se silenciar sobre os problemas da revolução russa em seu todo. Pois esta consistiu, e em grande medida ainda consiste, na luta entre o proletariado e a burguesia pela influência sobre o campesinato. Durante o período soviético, a burguesia se apresentou principalmente sob as cores dos kulaks (ou seja, o estrato superior da pequena burguesia), da intelligentsia “socialista”, e agora na forma da burocracia “comunista”. Este é o mecanismo básico da revolução em todos os seus estágios. Na marinha ele assumiu uma expressão mais centralizada e, portanto, mais dramática.

A composição política do soviete de Kronstadt refletia a composição da guarnição e da tripulação. A liderança dos sovietes, desde o verão de 1917, pertencia ao partido bolchevique, que se apoiava nas melhores partes dos marinheiros e incluía em suas fileiras muitos revolucionários do movimento clandestino que tinham sido libertados das prisões e campos de trabalho forçado. Mas, pelo que me lembro, mesmo nos dias da insurreição de outubro, os bolcheviques compunham menos do que a metade do soviete de Kronstadt. A maioria era constituída de social-revolucionários e anarquistas. Não havia menchevique nenhum em Kronstadt. O partido menchevique detestava Kronstadt. O partido social-revolucionário oficial, diga-se de passagem, não desfrutava de melhor opinião. Os social-revolucionários de Kronstadt rapidamente entraram em oposição a Kerensky e formaram uma das brigadas de choque dos assim chamados “social-revolucionários de esquerda”. Apoiaram-se no setor camponês da marinha e da guarnição em terra. Quanto aos anarquistas, eram o grupo mais heterogêneo. Entre eles havia revolucionários de verdade, como Zhuk e Zheleznianov, mas estes eram os elementos mais estreitamente ligados aos bolcheviques. A maioria dos “anarquistas” de Kronstadt era representada pela pequeno-burguesia urbana e se encontrava num nível revolucionário mais baixo que o dos social-revolucionários. O presidente do soviete era apartidário, “simpático aos anarquistas”, e essencialmente um pacato funcionário de baixo escalão que havia sido subserviente às autoridades czaristas e agora era subserviente… à Revolução. A total ausência de mencheviques, o caráter “esquerdista” dos social-revolucionários e a coloração anarquista dos pequeno-burgueses se deviam à agudeza da luta revolucionária na frota e à predominância dos setores proletários dos marinheiros.

Mudanças durante os anos da guerra civil

Esta caracterização social e política de Kronstadt — que, se for preciso, poderia ser confirmada e ilustrada por muitos fatos e documentos — já é suficiente para desvendar as rebeliões que ocorreram em Kronstadt durante os anos da guerra civil, e que tiveram como resultado sua transformação em algo irreconhecível. Justamente sobre este importante aspecto da questão os acusadores tardios não dizem uma palavra, em parte por ignorância, em parte por má-fé.

Sim, Kronstadt escreveu uma página heroica na história da Revolução. Mas a guerra civil deu início a um sistemático esvaziamento numérico de Kronstadt e toda a frota do Báltico. Tão logo se desencadeou a insurreição de outubro, destacamentos de marinheiros de Kronstadt foram enviados para ajudar Moscou. Outros destacamentos foram mandados para o Don, para a Ucrânia, para requisitar pão e para organizar o poder local. De início parecia que Kronstadt era inexaurível. Eu enviei dúzias de telegramas de diversas frentes, tratando da mobilização de novos regimentos “confiáveis” de operários de Petrogrado e dos marinheiros do Báltico. Mas, já em 1918, e em todo caso no mais tardar em 1919, as frentes começaram a reclamar que os novos contingentes de “kronstadtianos” eram insatisfatórios, cheios de exigências, indisciplinados, inconfiáveis no campo de batalha; mais prejudicavam do que ajudavam. Depois da liquidação de Yudenich (no inverno de 1919), a frota do Báltico e a guarnição de Kronstadt estavam destituídas de quaisquer forças revolucionárias. Todos os elementos de lá que ainda fossem úteis foram destinados à luta contra Denikin no sul. Se em 1917–18 o marinheiro de Kronstadt se situava consideravelmente acima do soldado médio do Exército Vermelho e constituía o arcabouço de seus primeiros destacamentos e do regime soviético em muitos distritos, aqueles marinheiros que restaram na “pacífica” Kronstadt até o início de 1921, e que não serviam para nenhuma das frentes da guerra civil, situavam-se naquele momento num plano consideravelmente mais baixo, em geral, do que a média do Exército Vermelho e incluíam grande porcentagem de elementos completamente desmoralizados, ostentando vistosas calças boca-de-sino e cortes de cabelo estilosos.

A desmoralização causada pela fome e pela especulação tinha, de modo geral, crescido muito no final da guerra civil. Os chamados “carregadores de sacas” (pequenos especuladores) tinham-se tornado uma praga social, ameaçando sufocar a Revolução. Precisamente em Kronstadt, onde a guarnição não fazia nada e tinha tudo que precisasse, a desmoralização assumiu dimensões particularmente grandes. Quando as condições se tornaram muito críticas com a fome em Petrogrado, o burô político discutiu mais de uma vez a possibilidade de conseguir um “empréstimo interno” junto a Kronstadt, onde ainda havia uma quantidade de antigos mantimentos. Mas os delegados dos operários de Petrogrado responderam: “vocês nunca conseguirão nada deles na base da gentileza. Eles especulam com roupas, carvão e pão. No momento, todo tipo de escória levanta a cabeça em Kronstadt.” Essa era a situação real. Nada tinha das idealizações açucaradas que se construíram depois dos fatos.

Deve-se acrescentar ainda que os antigos marinheiros da Letônia e da Estônia, que temiam ser mandados para o front e se preparavam para cruzar as fronteiras no rumo de suas pátrias burguesas, tinham-se juntado à frota do Báltico como “voluntários”. Esses elementos eram em sua essência hostis à autoridade soviética e exibiam abertamente sua hostilidade nos dias do levante de Kronstadt… Além disso, havia muitos milhares de trabalhadores letões, principalmente antigos lavradores, que exibiram um heroísmo sem paralelos em todas as frentes da guerra civil. Não devemos, portanto, tratar do mesmo modo os trabalhadores letões e os “kronstadtianos”. É necessário reconhecer as diferenças políticas e sociais.

As raízes sociais do levante

O problema, para um estudioso sério, consiste em definir, com base nas circunstâncias objetivas, qual o caráter social e político do motim de Kronstadt e qual seu lugar no desenvolvimento da revolução. Sem isto, a “crítica” se reduz a uma lamúria sentimental de tipo pacifista, no estilo de Alexander Berkman, Emma Goldmann e seus imitadores mais recentes. Esses gentis comentadores não têm a menor noção dos critérios e métodos da pesquisa científica. Citam as proclamações dos insurgentes como pregadores religiosos citam a Sagrada Escritura. Queixam-se também de que eu não levo em consideração os “documentos”, a saber, o evangelho de Makhno e dos outros apóstolos. Marx disse que é impossível julgar pessoas ou partidos pelo que dizem de si mesmos. As características de um partido são determinadas muito mais por sua composição social, seu passado, sua relação com as diferentes classes e setores sociais, do que por suas declarações verbais e escritas, especialmente num período de guerra civil. Se, por exemplo, tomarmos como ouro puro as declarações de Negrin, Companys, Garcia Oliver e companhia, consideraríamos esses cavalheiros como ardorosos amigos do socialismo. Mas na realidade são seus pérfidos inimigos.

Em 1917–18 os operários revolucionários lideraram as massas camponesas, não apenas na Marinha mas no país inteiro. Os camponeses tomaram e dividiram as terras, na maior parte das vezes, sob a liderança dos soldados e marinheiros que voltavam às suas regiões de origem. Requisições de pão tinham mal começado e se dirigiam principalmente aos donos de terra e aos kulaks. Os camponeses aceitaram as requisições como um mal temporário. Mas a guerra civil arrastou-se por três anos. A cidade não dava praticamente nada para o campo e dele tomava quase tudo, fundamentalmente devido às necessidades da guerra. Os camponeses apoiavam os “bolcheviques”, mas se tornaram gradualmente hostis aos “comunistas”. Se, anteriormente, os operários haviam conduzido os camponeses para a frente, agora os camponeses puxavam os operários para trás. Foi apenas em função dessa mudança de atitude que os Brancos atraíram parte dos camponeses, e mesmo dos que eram meio camponeses, meio operários, na região dos Urais. Essa atitude hostil à cidade alimentou o movimento de Makhno, que tomou e loteou os trens destinados às fábricas, às instalações e ao Exército Vermelho; além de destruir os trilhos, fuzilar comunistas etc. Evidentemente, Makhno chamou isso de luta anarquista contra “o Estado”. Na realidade, tratava-se da luta furiosa do proprietário pequeno-burguês contra a ditadura do proletariado. Um movimento semelhante surgiu em diversas outras regiões, especialmente em Tambovsky, sob a bandeira dos “social-revolucionários”. Finalmente, em outras partes do país ativaram-se os chamados destacamentos “verdes” dos camponeses. Não reconheciam nem os vermelhos nem os brancos, e evitavam contato com os partidos da cidade. Em algumas ocasiões, os “verdes” se defrontaram com os brancos e receberam severos golpes, mas não encontraram, obviamente, nenhuma compaixão por parte dos vermelhos. Assim como a pequena burguesia fica espremida entre as rodas de moinho do capital e do proletariado, também os destacamentos de milícias camponesas foram pulverizados entre o Exército Vermelho e os brancos.

Só mesmo uma pessoa totalmente superficial poderia ver nos bandos de Makhno ou na revolta de Kronstadt uma revolta entre os princípios abstratos do anarquismo e do “socialismo de Estado”. Na verdade, esses movimentos foram convulsões da pequena burguesia que desejava, obviamente, liberar-se do capital, mas não consentia em subordinar-se à ditadura do proletariado. A pequena burguesia não sabe concretamente o que quer, e, em virtude de sua posição, não consegue saber. Esta é a razão por que revestia tão rapidamente a confusão de suas demandas e esperanças, ora com a capa do anarquismo, ora com a do populismo, e ora simplesmente com a dos “verdes”. Contrapondo-se ao proletariado, tentou, com todos esses revestimentos, mover para trás a roda da revolução.

O caráter contrarrevolucionário do motim de Kronstadt

Não existiam, claro, divisões estanques entre as diferentes camadas sociais e políticas de Kronstadt. Ainda existia em Kronstadt um certo número de trabalhadores qualificados e de técnicos cuidando da maquinaria. Mas até mesmo eles foram identificados, por um método de seleção negativa, como politicamente inconfiáveis e pouco úteis para a guerra civil. Alguns “líderes” do levante tinham essa origem. Essa circunstância, completamente natural e inevitável, é ressaltada em triunfo pelos acusadores, mas não muda uma vírgula do caráter antiproletário da revolta. A menos que nos deixemos enganar por slogans pretensiosos, falsos rótulos etc., o que se vê é que o levante de Kronstadt nada mais foi do que uma reação armada da pequena burguesia contra as asperezas da revolução social e a severidade da ditadura do proletariado.

Este era exatamente o significado do slogan de Kronstadt, “sovietes sem comunistas”, de que imediatamente se apropriaram, não apenas os srs, mas também os burgueses liberais. Como um representante do capital razoavelmente perceptivo, o professor Miliukov entendeu que liberar os sovietes da liderança bolchevique significaria, em pouco tempo, desmontar os próprios sovietes. A experiência dos sovietes russos no período do domínio menchevique e sr, e, de forma ainda mais clara, a experiência dos sovietes alemães e austríacos sob os social-democratas, provou isso. Sovietes social-revolucionários e anarquistas só poderiam servir como pontes levando da ditadura do proletariado à restauração capitalista. Não poderiam ter nenhum outro papel, fossem quais fossem as “ideias” de seus membros. O levante de Kronstadt teve, portanto, um caráter contrarrevolucionário.

Do ponto de vista de classe, que permanece — sem ofensa aos respeitáveis ecléticos — o critério básico não apenas da política, mas também da história, é extremamente importante contrastar o comportamento de Kronstadt com o de Petrogrado naqueles dias. Toda a liderança operária tinha também sido removida de Petrogrado. Fome e frio reinavam na capital deserta, talvez mais ferozmente do que em Moscou. Um período trágico e heroico! Todos estavam famintos e irritáveis. Todos estavam insatisfeitos. Nas fábricas havia um descontentamento surdo. Militantes clandestinos enviados pelos srs e pelos oficiais brancos tentavam associar o levante militar com o movimento dos operários descontentes.

O jornal de Kronstadt descrevia barricadas em Petrogrado, com milhares de pessoas sendo mortas. A imprensa do mundo inteiro anunciava o mesmo. Na verdade, ocorria exatamente o contrário. O levante de Kronstadt não atraiu os operários de Petrogrado. Afastou-os. A estratificação se deu conforme tendências de classe. Os operários perceberam imediatamente que os amotinados de Kronstadt estavam no lado oposto das barricadas — e apoiaram o poder soviético. O isolamento político de Kronstadt foi a causa de suas hesitações internas e de sua derrota militar.

A nep e o levante de Kronstadt

Victor Serge — que, pelo que consta, está tentando fabricar uma espécie de síntese entre anarquismo, poumismo e marxismo, fez uma intervenção muito infeliz na polêmica sobre Kronstadt. Na sua opinião, se a nep fosse introduzida um ano antes a insurreição poderia ter sido evitada. Mas conselhos desse tipo são fáceis de dar depois que tudo aconteceu. É verdade, como lembra Victor Serge, que eu havia proposto a transição para a nep já em 1920. Mas eu não estava de modo nenhum seguro de seu sucesso com antecedência. Não era nenhum segredo para mim que o remédio poderia se tornar mais perigoso do que a própria doença. Quando encontrei opositores entre os líderes do partido, não apelei para as fileiras, pois não queria mobilizar a pequena burguesia contra os trabalhadores. A experiência dos doze meses seguintes foi necessária para convencer o partido da necessidade de um novo rumo. Mas o notável é que precisamente os anarquistas do mundo inteiro encararam a nep como… uma traição ao comunismo. E agora os defensores dos anarquistas nos acusam por não ter introduzido a nep um ano mais cedo.

Em 1921, Lênin reconheceu, mais de uma vez, que a defesa obstinada dos métodos do comunismo de guerra pelo partido havia se tornado um grande equívoco. Mas o que isso muda? Quaisquer que tenham sido as causas imediatas ou remotas da insurreição de Kronstadt, aquilo consistia, pela sua própria essência, num perigo mortal para a ditadura do proletariado. Deveria a revolução proletária cometer suicídio, para punir-se de um equívoco político?

Ou será que teria sido suficiente apenas informar os marinheiros de Kronstadt a respeito dos decretos da nep, achando que isso iria apaziguá-los? Ilusão! Os insurgentes não tinham um programa claro e não podiam tê-lo, dada a própria natureza da pequena burguesia. Eles mesmos não entendiam claramente que seus pais e irmãos precisavam, acima de tudo, do livre comércio. Estavam descontentes e confusos, mas não sabiam para onde ir. Os mais conscientes, ou seja, os setores direitistas, atuavam nos bastidores em favor da restauração do regime burguês. Mas não diziam isso às claras. A ala “esquerda” queria o fim da disciplina, “sovietes livres” e rações melhores. Só gradualmente o sistema da nep poderia apaziguar os camponeses e, depois deles, os setores descontentes do exército e da marinha. Mas, para isso, era preciso mais tempo e experiência.

O argumento mais infantil de todos é o de que nunca houve insurreição, que os marinheiros não tinham feito nenhuma ameaça, e tinham “apenas” ocupado a fortaleza e os navios de guerra. É como se os bolcheviques simplesmente tivessem marchado sem hesitação através do gelo devido à maldade de seu caráter, de sua tendência para provocar conflitos artificialmente, de seu ódio aos marinheiros de Kronstadt, ou de seu ódio às doutrinas anarquistas (com as quais ninguém, diga-se de passagem, se preocupava minimamente naqueles dias). Como não ver que isso é tagarelice de crianças? Flutuando fora do tempo e do espaço, os críticos amadores tentam sugerir (dezessete anos depois!) que tudo teria terminado em contentamento geral se a Revolução simplesmente tivesse deixado quietos os marinheiros insurgentes. Infelizmente, a contrarrevolução mundial não os teria deixado quietos. A lógica do conflito teria conferido predomínio aos extremistas da fortaleza, isto é, aos elementos mais contrarrevolucionários. A necessidade de suprimentos teria colocado a fortaleza em dependência direta da burguesia estrangeira e de seus agentes, os emigrados brancos. Já tinham sido feitos todos os preparativos para isso. Em tais circunstâncias somente pessoas como os anarquistas espanhóis e os poumistas teriam esperado passivamente, esperando um final feliz. Os bolcheviques, felizmente, pertenciam a outra escola. Consideraram seu dever extinguir o incêndio assim que ele começou, reduzindo a um mínimo, assim, o número de vítimas.

Os “kronstadtianos” sem fortaleza

Essencialmente, os veneráveis críticos se opõem à ditadura do proletariado e, com isso, são adversários da Revolução. Nisto está a chave do segredo. É verdade que alguns deles reconhecem a revolução e a ditadura — verbalmente. Mas isto não ajuda as coisas. Querem uma revolução que não leve a uma ditadura ou uma ditadura que se mantenha sem o uso da força. Por certo, seria uma revolução muito agradável. Seriam necessárias, entretanto, algumas coisinhas: um desenvolvimento igual, e, além disso, extremamente alto, das classes trabalhadoras. Mas nessas condições uma ditadura seria em geral desnecessária. Alguns anarquistas, que na verdade são pedagogos liberais, esperam que em cem ou mil anos os trabalhadores terão atingido tal nível de desenvolvimento que não se verificará necessidade de coerção. Naturalmente, se o sistema capitalista pudesse conduzir a tal desenvolvimento, não haveria razão para derrubá-lo. Não seria preciso nem uma revolução violenta nem uma ditadura, como consequência inevitável da vitória revolucionária. Entretanto, o capitalismo declinante de nossos dias dá pouca margem para ilusões humanitário-pacifistas.

A classe operária, para não mencionar as massas semiproletárias, não é homogênea nem social nem politicamente. A luta de classes produz uma vanguarda que absorve os melhores elementos da classe. Mas isto não significa que desapareçam todas as contradições internas entre os trabalhadores. Quando a revolução está no seu auge, essas contradições obviamente se atenuam, mas apenas para reaparecer mais tarde em toda sua agudeza. Este é o trajeto da revolução como um todo. Este foi o trajeto de Kronstadt. Quando simpatizantes de salão tentam traçar um caminho diferente para a Revolução de Outubro, depois de tudo já ter acontecido, só podemos respeitosamente pedir que nos mostrem exatamente onde e como seus grandes princípios se confirmaram na prática, ao menos parcialmente, ao menos como uma tendência… Onde estão os sinais que nos levam a esperar um triunfo desses princípios no futuro? Evidentemente, nunca obtemos resposta.

Uma revolução segue suas próprias leis. Há bastante tempo formulamos essas “lições de outubro”, que não têm apenas um significado para a Rússia, mas para todo o âmbito internacional. Nunca alguém tentou sugerir outras “lições” além daquelas. A revolução espanhola é a confirmação negativa das “lições de outubro”. E nossos severos críticos silenciam ou se mostram ambíguos. O governo da “frente popular” espanhola sufoca a revolução socialista e fuzila revolucionários. Os anarquistas participam desse governo, ou, quando são expulsos dele, continuam apoiando os fuziladores. E seus aliados e defensores estrangeiros se ocupam, enquanto isso, com uma defesa… do motim de Kronstadt contra os duros bolcheviques. Uma mascarada vergonhosa!

As atuais discussões em torno de Kronstadt giram em torno do mesmo eixo de classe que foi o da própria insurreição, na qual os setores reacionários dos marinheiros tentaram derrubar a ditadura do proletariado. Cônscios de sua impotência na arena da política revolucionária dos dias atuais, os trapalhões pequeno-burgueses e ecléticos tentam usar o velho episódio de Kronstadt na luta contra a Quarta Internacional, ou seja, contra o partido da revolução proletária. Esses “kronstadtianos” de última hora serão também esmagados — verdade que sem o uso das armas, já que, para sorte deles, não possuem nenhuma fortaleza.

— 15 de janeiro de 1938

Nota

Publicado originalmente em New International, vol. 4, nº 4, abril de 1938, pp. 103–106.

Publicado no 3º númerodo volume 4 da Revista Rosa em 20/12/2021.

Revista Rosa,S.Paulo/SP, Brasil, https://revistarosa.com, issn 2764-1333.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Kropotkin e o jacobinismo com consciência de classe

Kronstadt - rebelião

“O jacobino ligado indissoluvelmente à organização do proletariado que tem consciência dos seus interesses de classe, é justamente o socialdemocrata revolucionário” (Lênin)

Dando continuidade ao tema da Terceira Revolução de Kronstadt, publicaremos alguns extratos da obra A Conquista do Pão, de Kropotkin, publicada pela primeira vez em 1888, e que parece prever os acontecimentos que se dariam quase 30 anos depois durante o governo bolchevique (corrente da Partido Operário Social-Democrata Russo – POSDR):

O caráter predominante e distintivo do sistema capitalista atual é o salariato. (...)

Pois bem, o maior serviço que a próxima Revolução poderá prestar à humanidade, será criar uma situação na qual todo sistema de salariato se torne impossível e inaplicável, fazendo que se imponha, como única situação aceitável, o Comunismo, isto é, a negação do salariato.

Porque, admitindo que a modificação corretiva seja possível, se for gradualmente feita durante um período de prosperidade e dê tranquilidade (o que duvidemos muito, mesmo com estas facilidades) - tornasse a impossível no período revolucionário, porque a necessidade de alimentar milhões de seres surgirá logo ao primeiro conflito armado. Pode fazer uma revolução política sem perturbar a indústria; mas uma revolução que permita ao povo lançar mão da propriedade será inevitavelmente uma suspensão súbita do comércio e da produção. Os milhões do Estado não chegariam para pagar a milhões de desocupados.

Não nos cansaremos de insistir sobre este ponto; organização da indústria sobre novas bases (em breve explicaremos a imensidade desse problema) em alguns dias, e o proletário não poderá sacrificar anos de miséria ao serviço dos teóricos do salariato. Para atravessar o período de dificuldades, recomendará o que sempre tem reclamado em conjunturas idênticas; os gêneros em comum, isto é, o rastreamento ou a ação proporcional.

Em vão pregará paciência; o povo já não poderá conter-se mais, e se não se fizerem todos os gêneros em comum, os estabelecimentos serão saqueados.

Mas se o ímpeto do povo não for suficientemente forte, fuzilam-no. Para que o coletivismo possa estabelecer-se, é indispensável antes de tudo ordem, disciplina e obediência. E como os capitalistas reconhecerão desde logo que mandar fuzilar o povo por aqueles que se chamam revolucionários é o melhor meio de o desgostar da revolução, certamente que hão de apoiar os defensores da "ordem" e os próprios coletivistas, até vendo no caso um meio de os poderes mais tarde esmagar por sua vez

Se a "ordem for estabelecida" deste modo, as consequências são fáceis de prever. Não se limitarão a fuzilar os "gatunos"; será necessário procurar os "autores da desordem", restabelecer os tribunais e a guilhotina, levando ao cadafalso os revolucionários mais ardentes. Será uma repetição de 1793.

Não esquecemos ainda como a reação triunfou no século passado. Começaram a guilhotinar em primeiro lugar os hebretistas, os intransigentes - aqueles a quem Mignet, com a memória fresca das lutas, chamava ainda os " anarquistas". Não tardaram a segui-los os dantonianos; e depois dos robespierristas terem guilhotinado estes revolucionários, chegou a vez de subirem ao patíbulo. Desgostoso com isto e vendo a revolução perdida, o povo deixou manobrar os reacionários.

Se a "ordem for estabelecida", diremos nós, os coletivistas guilhotinaram os anarquistas; os possibilistas guilhotinaram os coletivistas, e aqueles, por seu turno, serão guilhotinados pelos reacionários. E terá que recomeçar-se novamente a revolução.

Mas, tudo leva a crer que o impulso do povo será suficientemente forte e que quando a revolução se fizer terá já ganho bastante terreno a ideia do Comunismo anarquista. Não é uma ideia inventada, é o próprio povo que no-la insufla, e o número dos comunistas aumentará à medida que se tornar mais evidente a impossibilidade de qualquer outra solução.

Se o impulso, pois, for bastante forte, as coisas tomarão outro rumo. Em vez de saquear algumas padarias garantido apenas o pão de um dia, o povo das cidades insurrecionadas apoder-se-á dos celeiros de trigo, dos armazéns de comestíveis, - em suma, de todos os gêneros disponíveis.

Cidadão e cidadãs, com a maior boa vontade, tratarão logo de inventariar o que for encontrado em cada armazém e em cada celeiro. Em 24 horas a comuna revoltada saberá o que Paris ainda hoje não sabe apesar das suas comissões de estatística, e o que nunca soube durante o cerco - que provisões encerram. Em 48 horas ter-se-ão espalhado milhares de exemplares de mapas exatos indicando todos os gêneros existentes, lugares onde se acham depositados e meios de distribuição.

Em cada quarteirão de prédios, em cada rua e bairro, organizar-se-ão grupos de voluntários - os Voluntários das Subsistências - que procederam com acerto no desempenho das suas atribuições. Não venho as baionetas jacobinas interpor-se; não venham os teóricos cientistas de meia-tigela embrulhar as coisas; desde que não tenham mais o direito de mandar, e com este admirável espírito de organização espontânea que o povo, - sobretudo a nação francesa em todas as classes sociais, - possui num grau tão elevado e que tão raramente lhe permitem exercer, surgirá então, mesmo numa cidade tão vasta como é Paris e ainda em plena efervescência revolucionária, um imenso serviço livremente constituído para fornecer a cada um as subsistência indispensáveis.

Que o povo tenha liberta as mãos, e em oito dias o serviço dos víveres executar-se-á com admirável regularidade. Só duvidará disto quem, tendo levado toda a sua vida com o nariz na papelada, não observou nunca o povo na febre do trabalho. Falai do espírito organizador desse grande Anônimo que é o Povo, àqueles que o observam em Paris nos dias das barricadas, ou em Londres por ocasião da última greve que tinha de dar de comer a meio milhão de esfaimados, e eles vos dirão quanto povo é superior aos burocratas que se empoleiram nas secretarias!

Além disso, embora se tivesse de suportar durante 15 dias ou um mês certa desordem parcial e relativa, pouco importava isso. Para as massas esse estado seria sempre melhor que o existente; e depois, em Revolução, janta-se rindo, ou melhor, discutindo, qualquer bocado de pão duro com salsicha, de cara alegre e coração ao alto! Em todo caso, o quê espontaneamente surgisse sob a pressão das necessidades imediatas, seria infinitamente preferível a tudo o que se pudesse inventar entre quatro paredes, no meio de alfarrábios ou nas secretarias governamentais.

*****

Voltemos, porém, à nossa cidade revoltada, e vejamos em que condições ela poderá manter-se. (...)

Para os autoritários a questão não oferece dificuldades. Começariam por introduzir um governo fortemente centralizado com todos os órgãos de repressão, polícia, exército, guilhotina, etc.

Este governo mandaria que se fizesse a estatística de tudo o que se colhe em França; dividiria o país num certo número de distritos de alimentação e ordenaria que tal gênero numa quantidade fosse transportado de um determinado lugar em dia para uma estação qualquer e recebida por um funcionário, a fim de ser armazenada num depósito tal, e assim sucessivamente.

Pois bem, afirmamos, plenamente convencidos, que uma solução semelhante não havia de satisfazer como não poderia nunca ser posta em prática.

Não passa portanto de uma utopia.

Pode imaginar-se, com a pena na mão, um tal estado de coisas; mas na prática a questão torna-se materialmente impossível; era não contar com o espírito de independência da humanidade.

Seria uma insurreição geral; três ou quatro guerras em lugar de uma só; a guerra das aldeias contra as cidades; a França inteira erguida contra a cidade que ousasse implantar este regime.

Basta de utopias jacobinas! Vejamos se será possível uma organização mais satisfatória.

Em 1793 o campo esfomeou as grandes cidades e matou a Revolução. Está provado, porém, que a produção cerealífera da França não diminui em 1792-1793, sendo até de supor que tivesse aumentado. Mas, depois de se terem apoderado uma boa parte das terras senhoriais levando colheitas delas, os burgueses do campo não quiseram vender o trigo contra promessa de pagamento. Notas! guardando-o à espera da alta dos preços ou da moeda de ouro. Nem as mais rigorosas medidas dos convencionais para forçar os açambarcadores a venderem o trigo, nem tampouco as execuções, nada disto remediou o mal impedindo a greve.

E sabe-se contudo que os comissários da Convenção não tinham escrúpulos em guilhotinar os açambarcadores, nem o povo em pendurados nos candeeiros; o trigo, porém, continuava nos celeiros e o povo nas cidades sofria de fome.

Mas, o que é que se oferecia aos cultivadores dos Campos em troca dos seus rudes trabalhos?

- Notas! Farrapo de papel, cujo valor baixava de dia para dia; notas marcando 500 libras em caracteres impressos, mas sem valor real. Por uma nota de mil libras não podia comprar um par de botas, e o camponês - compreende-se - não lhe convinha de modo algum trocar um ano de trabalho por um bocado de papel com que não poderia sequer comprar uma blusa.

As coisas passar-se-ão sempre assim. Enquanto se oferecer ao cultivador do solo um pedaço de papel sem valor, - embora se chame nota ou "cupão de trabalho", - o resultado será o mesmo. Os produtos da terra ficarão nos campos e a cidade não os possuirá, embora tenha de recorrer à guilhotina.

O que é necessário oferecer ao camponês não é papel, mas a mercadoria que as suas necessidades lhe pedem.

É a máquina de que é forçado agora a privar-se; é o candeeiro e o petróleo que lhe substitua o pavio; é a pá, é a enxada, é a charrua. É finalmente, tudo aquilo de que o camponês hoje se priva - não porque ele não sinta necessidade, - mas porque na sua existência de privações e de labor extenuante, os milhares de objetos úteis ficaram lhes inacessíveis por causa do preço.

Aplique-se a cidade em produzir todas estas coisas que faltam aos campos, em vez de perder o tempo que o trabalho em futilidades para adorno dos burgueses.

Execute as máquinas de costura de Paris vestimenta de trabalho e de resguardo para os camponeses, em vez de luxuosos enxovais de noivado; fabrique a oficina máquinas agrícolas, pás e enxadas, em vez de esperar que os ingleses as remetam em troca de vinho!

Que cada cidade envie para as aldeias, não comissários cingidos de bandas vermelhas ou multicolores notificando ao camponês o decreto de levar os gêneros para tal sítio, mais que o faça visitar por amigos e irmãos que digam aos camponeses: "Tragam-nos as vossas colheitas e levem dos nossos armazéns todas as coisas manufaturadas que vos agradarem". Verão então os gêneros afluírem de todos os lados.

O camponês guardará o que lhe for preciso para viver, enviando o que produzir aos trabalhadores da cidade, nos quais, pela primeira vez no decorrer da história - verá irmãos e não exploradores.

Dir-nos-ão talvez que isto reclama uma transformação completa da indústria. Certamente, para determinados ramos. Há, porém, milhares de indústrias que se poderão modificar rapidamente o vestuário, o relógio, a mobília, os utensílios e as máquinas simples que neste momento a cidade lhes faz pagar tão caro. Tecelões, alfaiates, fabricantes de calçado, quinquilheiros, marceneiros e tantos outros não encontrarão dificuldade alguma em abandonar a produção do luxo pelo trabalho de utilidade. É preciso, pois, que nos compenetremos bem da necessidade desta transformação, que a consideremos como um ato de justiça e de progresso e não nos deixemos iludir.

Toda a questão está nisto, segundo o nosso modo de pensar. Oferecer ao agricultor em troca dos seus produtos, não pedaços de papel, qualquer que seja a inscrição, mas os próprios objetos de consumo necessários para o cultivador. Se isto se fizer, as mercadorias para o cultivador. Se isto se fizer, as mercadorias hão de afluir às cidades. Se assim não se proceder a fome invadirá os grandes centros e com ela todas as suas consequências, a reação e a opressão.

*****

Nesta passagem, ao que tudo indica, o Comunismo de Guerra não rompeu com a política agrária do regime czarista. Vejamos:

Na Rússia, por exemplo, o camponês chega a trabalhar 16 horas por dia e jejua durante uns poucos de meses para poder exportar o trigo com o produto do qual paga ao patrão e ao Estado. Atualmente, assim que a colheita termina, o fisco apresenta-se nas aldeias russas e vende o único cavalo do agricultor, para os impostos atrasados e rendas dos senhorios, quando o camponês não age espontaneamente vendendo os produtos da terra aos exportadores; de modo que guarda apenas o trigo suficiente para nove meses e vende o resto, a fim de não deixar ir a vaca por uns míseros quinze franco. Para poder viver até à colheita seguinte, o lavrador, durante três meses se a colheita foi boa ou seis se o ano foi mau, mistura casca de álamo branco e sementes várias à farinha que lhe resta, ao passo que em Londres vão saboreando em biscoitos o trigo que lhe extorquiram.

(KROPOTKIN, Piotr. A conquista do pão. (Tradução: Manuel Ribeiro) - Guimarães Editores: Lisboa, 1975).

*****

Diante dos últimos acontecimentos, é nos impossível mantermos indiferentes e por isso publicamos a seguinte nota de repúdio:

Após um ano do centenário de Kronstadt, a Rússia se vê novamente envolvida num entrevero militar, desta vez em resposta ao avanço imperialista do Ocidente, porém, escalado atualmente num contexto de outra ordem. O fato em questão é mais um caso, dentre muitos, que explicita a verdadeira natureza do regime “democrático liberal”, que é caracterizado verdadeiramente por uma essência profundamente tirânica. Aliás, o próprio conceito de “democracia” é uma fraude completa, já que se baseia num processo eleitoral viciado em que o povo é convidado a escolher uma fração de uma mesma oligarquia que desde sempre detém do controle político e econômico. Através desse processo ilusório e fraudulento, o povo escravizado é definitivamente excluído de toda e qualquer participação política, muito embora apareça formalmente como um protagonista in abstracto. Contradição insolúvel! Portanto, o conceito crítico mais correto para chegar a um conteúdo real e designar precisamente este sistema seria o de pseudodemocracia ou alienação política por falsa representação.

Historicamente, os limites da pseudodemocracia encerram-se em si mesmos, negando-se, em razão de sua condição contraditória, e dando ensejo à revelação de sua real e brutal natureza desmistificada: o nazismo. O que significa dizer não a caricatura do nazismo mas a sua essência propriamente dita. A história está repleta de exemplos que desmascaram a farsa das ditas “democracias”. Vejamos alguns: ao mesmo tempo em que se aplicavam sansões à Alemanha do entreguerras, os países pseudodemocráticos enchiam os cofres nazistas de toneladas de ouro no intuito de fomentar uma guerra soviético-germânica; ao calarem-se cinicamente diante das incursões nazistas pela Espanha, as pseudodemocracias demonstravam uma clara cumplicidade com os regimes totalitários de direita e apoiaram efetivamente o golpe de Estado perpetrado pelas hordas fascistas do general Franco; ao protegeram e darem guarida a refugiados nazistas por todas as Américas durante vários anos, recrutando-os nos mais diversos setores da sociedade sem nunca os condenar... Os exemplos são incontáveis. E, agora, o complô macabro das pseudodemocracias em defesa incondicional da maior caricatura nazista do início do século XXI, engendrada institucionalmente na Ucrânia, a serviço do clube da OTAN.

Juntar-se às denuncias da ocupação da Rússia à Ucrânia é fácil e desnecessário, a mídia ocidental inteira já tem feito o serviço, inclusive, explorando o drama humano, como nunca antes - sim, parece que finalmente o jornalismo descobriu que numa guerra as pessoas sofrem -, e extrapolando as falácias que a própria ideologia pseudodemocrática criou. Racismo, censura, mentiras, parcialidade, maniqueísmo, desonestidade intelectual, trapaças e concessões antiéticas têm marcado a cobertura midiática da guerra. Exemplo lapidar é a manchete do site The Intercept Brasil de 25/02/2022: FACEBOOK PERMITIRÁ ELOGIOS A PARAMILITARES NEONAZISTAS DA UCRÂNIA – DESDE QUE ELES LUTEM CONTRA A RÚSSIA. É uma pena que comumente a imprensa até agora não tenha sido tão engajada na defesa do mais fraco e da população civil ante a agressão do mais forte. Os exemplos abundam: Síria, Líbia, Iêmen, Paquistão, Afeganistão, Iraque... Hiroshima, Nagasaki... A lista é grande!

Seja como for, não nos esquecemos, uma guerra é sempre deplorável e é o povo - e é sempre o povo, que não é ucraniano nem russo nem brasileiro nem angolano nem israelense nem palestino ou qualquer outra ficção do tipo, mas seres humanos simplesmente - sim, o povo, é quem paga muito caro, inclusive com a vida, a cobiça irrefreável dos senhores da guerra, seguros e encastelados confortavelmente no seu trono de ouro, o Estado.

(N.E.)

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Centenário da Rebelião de Kronstadt

Rebelião de Kronstadt

Em memória do Centenário da Rebelião de Kronstadt, durante todo este ano de 2021, publicamos textos relacionados com o tema que podem ser encontrados no índice do blog (na lateral direita) através do tópico A Terceira Revolução. Para fechar as homenagens ao movimento insurgente dos marinheiros da Frota do Báltico, esbocei na introdução alguns pormenores históricos, geográficos e linguísticos; em seguida, transcrevi uma discussão entre historiadores, militantes e estudiosos da Revolução Russa; por último, tracei um breve esboço sobre o qual lanço uma interpretação analítica em relação àquilo que me parece o verdadeiro significado do dito socialismo real. Espero com isso contribuir de algum modo para o debate sobre a Rebelião de Kronstadt, que, cem anos depois, ainda provoca controvérsias e discussões acaloradas prós e contras.

Agradeço muito fortemente a tod@s que chegaram até aqui.

JeanFecaloma

I - Introdução: Kronstadt

Kronstadt está localizada na ilha de Kotlin, no Golfo da Finlândia, Mar Báltico.

Os primeiros registros da ilha de Kotlin datam de contratos comerciais entre a Liga Hanseática e a República de Novgorod, no século XIII, e desta cidade com o reino da Suécia, no que concernia a demarcação de fronteiras estabelecidas por um acordo de paz firmado no século XIV. Com a queda de Constantinopla (1453), o Mar Báltico se torna a principal rota da Europa com o Oriente, antes da circum-navegação da África pelos portugueses e a conquista do Atlântico.

A partir do século XVII, a Suécia emerge como a maior potência da Europa setentrional, dando início a uma fase expansionista que transformou o Báltico em um “lago sueco” e se estendeu por toda a região continental do entorno. Diante do avanço do Império da Suécia, a Rússia foi obrigada a ceder extensas áreas territoriais (inclusive Novgorod), perdendo assim sua única via de acesso aos mares da Europa. Em fevereiro de 1617, por meio do Tratado de Stolbovo, a ilha de Kotlin passou oficialmente ao domínio sueco.

No início do século XVII, tem início a Grande Guerra do Norte (1700-21), fruto da aliança da União do Norte, formada por uma coalizão de países liderados pela Rússia envolvendo a Noruega, a Dinamarca, a Saxônia e a Polônia contra o Império Sueco. Visando abrir uma passagem para o mar, a Rússia lança um ataque em direção ao Báltico e, após uma serie de ofensivas e contraofensivas, em 1702, ocupa as margens orientais do Golfo da Finlândia e conquista definitivamente a Livônia, a Ingria, a Estônia e a Carélia. Na foz pantanosa do rio Neva, o czar Pedro I decide edificar a nova capital russa, em maio de 1703, com a fundação de São Petersburgo, planejada para ser a “janela da Rússia para o Ocidente”.

Percebendo a posição estratégica da ilha de Kotlin, localizada a 31 quilômetros a oeste da futura capital, a uns 12 km da costa continental adjacente norte e uns 8 km da costa sul, constituindo uma espécie de escudo natural da única abertura de acesso ao coração do território russo por mar e via fluvial, o czar ordena a construção de um conjunto de fortes no sul da ilha, entre os anos de 1703-1704. Em cerimônia de inauguração a fortaleza recebe o nome de Kronshlot. Construída em tempo recorde, o esquadrão sueco é tomado de surpresa e sai derrotado.

A partir de 1706, o complexo naval é ampliado, tornando-se posteriormente a sede do almirantado russo e base da Frota Russa do Báltico. Em 1710, cerca de 80 casas destinadas à moradia militar são construídas no local. Em janeiro de 1712, o governo baixa um decreto determinando o assentamento de três mil famílias russas na despovoada ilha. Terminada a guerra, a cidadela recebe seu nome definitivo e oficial, em 18 de outubro de 1723: Kronstadt.

Em 1891, a frota francesa é recebida triunfantemente em Kronstadt, sinalizando o primeiro passo para a futura Aliança Franco-Russa. Todavia, os marinheiros sempre foram afeitos à indisciplina e um histórico de motins e insubordinação caracterizou de modo indelével a base naval de Kronstadt, tendo por destaque a conspiração dos irmãos Bestuzhev, durante o movimento Dezembrista, os levantes de 1905 e 1906, a Comuna de Kronstadt de 1917 e a revolta dos marinheiros no ano de 1921.

Do nome Kronstadt

Para o czar Pedro I, conhecido pelos russos como O Reformador, a modernização da Rússia estava estritamente associada a um projeto de ocidentalização do país, até então extremamente atrasado. Obcecado por tornar a Rússia uma grande potência e, para tanto, dispor de uma poderosa esquadra nacional, até então inexistente, o czar organizou a célebre “Grande Embaixada”, e partiu em excursão pelos países mais adiantados da Europa Ocidental. O seu objetivo era verificar o desenvolvimento técnico e cultural das maiores potências mundiais e depois importar o modelo para a Rússia.

A comitiva passou longa estadia nos Países-Baixos, onde o czar, disfarçado de operário nos estaleiros de Amsterdam, espionou os métodos de construção naval que deveriam ser reproduzidos na Rússia. Daí que muitos termos náuticos da marinha russa derivam ainda hoje de nomes de origem holandesa, como, por exemplo, foi o caso de Kronshlot, ou seja, kroon slot (“Castelo da Coroa”). Já Kronstadt vem do alemão krone stadt e significa “Cidade da Coroa” ou “Cidade Real”.

Esta questão linguística não é de menor importância na Rússia se lembrarmos de que durante o século XIX a língua falada pela aristocracia russa era o francês. É bastante conhecido o fato de que na célebre “ida ao campo” os jovens narodniki não eram fluentes em russo e suas maneiras aristocráticas e ocidentalmente afetadas causaram mais desconfiança do que simpatia entre os camponeses. No início da Primeira Guerra Mundial, ao entrar em guerra contra a Alemanha, o governo russo, para atender o sentimento ufanista do clamor popular, trocou o nome germânico da ex-capital, São Petesburgo, pelo eslavo Petrogrado. No regime comunista, a partir de 1924, a cidade seria novamente renomeada, desta vez, Leningrado, em homenagem ao líder bolchevique Vladimir Lênin. Com a queda da URSS, em 1991, um plebiscito devolvia o antigo nome para a cidade.

Curiosamente, uma cidade na Romênia, Brașov, também é denominada Kronstadt, devido à sua fundação por Cavaleiros Teutônicos e colonos alemães no século XII. Em 2021, cem anos depois da rebelião dos marinheiros, o nome Kronstadt não deixa de ser uma infeliz coincidência, já que o radical da palavra remonta ao latim corona e ao grego antigo korone (compare as palavras derivadas: port. coroa; ital. cruna; ingl. crown; franc. couronne; greg. mod. koróna; finl. kruunu; russ. koróna etc.).

Quanto à pronúncia

Кронштадт /ˈkřʌnʃtat/ /ˈkřɑnʃtat/ /ˈkřɐ͂:ʃtat/ ou /ˈkřã:ʃtat/ (tentativas de transcrição fonética). A transliteração pode ser tanto Kronstadt como Kronshtadt. Os russos pronunciam do seguinte modo: [crrrânX-TÁt]. O k tem som de “k”, como em “crânio”; o r tem som de “r forte vibrante”, tal como é pronunciado em algumas regiões do sul do Brasil (ou o rrr do Galvão Bueno); o primeiro a é nasal, átono e alongado (como em “transtorno”); o segundo é aberto, oral, tônico e curto (como em “cantada”); o s tem som de “x” (chá) arrastado, tal como os portugueses e cariocas pronunciam; o primeiro t tem som de “t”, como em constar; o d é mudo, não é pronunciado; e o último t marca o fim da sílaba e quase não se pronúncia, como no inglês that.

II - Autogestão em Kronstadt, em 1917

Konstantin Tarasov, pesquisador associado ao Instituto de História de São Petersburgo.

Apesar de pequena, Kronstadt era uma cidade importante, porque era a base naval do Império Russo e onde aconteceram os eventos mais cruciais de 1917. Habitavam a ilha 50.000 pessoas, dos quais 30.000 eram soldados e marinheiros e 20 mil trabalhadores. Com o advento da Revolução de 1917, os marinheiros vermelhos se rebelaram e executaram cerca de 25 a 50 oficiais, dentre aqueles tidos por eles como os mais autoritários, e prenderam outros 500. No mês de março, trabalhadores e marinheiros organizaram o Soviete de Kronstadt, baseado na autogestão e democracia direta.

Em toda a marinha russa, não havia lugar mais rigoroso e degradante para a dignidade humana do que em Kronstadt. Por exemplo: era famosa a frase escrita na porta principal do almirantado: “Cachorros não são permitidos. Proibida a entrada de soldados rasos”. Reconhecida pela disciplina severa, o símbolo da Frota do Báltico era o almirante R. N. Viren, que fazia jus a fama. Os marinheiros o odiavam e ele foi uma das primeiras vítimas do levante de fevereiro. O almirante foi executado na Praça da Âncora, próximo à Catedral Naval, juntamente com os outros oficiais mais abominados. Todavia, não houve muitas baixas nos confrontos de rua que se seguiram pela cidade.

No calor dos acontecimentos, uma assembleia reuniu milhares de pessoas na Praça da Âncora. Todos queriam falar ao mesmo tempo, pois nunca tiveram, como agora, a oportunidade de se manifestar. Oradores desse encontro acabaram se tornando as pessoas mais influentes de Kronstadt e mesmo de toda a Rússia. Destacaram-se S. G. Roshal (bolchevique), que era um orador cauteloso, porque mais ou menos popular; A. M. Brushwit, um socialista revolucionário (SR), que procurava imitar um camponês; E. Z. Yarchuk (anarcossindicalista) e I. S. Bleikhman (anarcocomunista), ambos muito conhecidos e muito radicais. Dos dois, Bleikhman era ainda mais extremista e bastante divertido para explicar seus métodos revolucionários, o que o tornava ainda mais popular.

O levante de fevereiro instituiu um regime de auto-organização em Kronstadt logo nos primeiros dias. Foram criados comitês que elegeram seus representantes, muito embora a maioria deles não tivesse participação direta na revolução. Assim, surgiram as primeiras instituições autogestionárias organizadas através de encontros entre delegados eleitos nas fábricas e pelos militares.

Somente no dia 3 março, o governo provisório decidiu enviar um comissário, V. N. Papelyaev, a Kronstadt. O governo provisório queria pôr fim nos eventos sangrentos de fevereiro e constituir um novo poder na cidade. Porém, Papelyaev perdeu toda a sua autoridade logo nas primeiras semanas.

O comissário tentara organizar um comitê executivo coligado com os dois sovietes de Kronstadt, formado por militares e trabalhadores, respectivamente, e o “grupo da cidade”, que era um órgão representativo dos cidadãos locais. Depois de algumas semanas, Papelyaev retornou a Petrogrado a fim de reportar ao governo provisório e ao Soviete de Petrogrado o que estava acontecendo na cidade de Kronstadt. Então, durante esta semana, os dois sovietes não reconheceram o comando do comissário e reorganizaram um novo Soviete de Kronstadt, que se recusou a associar-se com o “grupo da cidade”, o qual, acreditavam, era constituído por elementos da burguesia. De fato, o “grupo da cidade” possuía conexões estreitas com a Duma recém-eleita em Petrogrado.

As principais lideranças do Soviete de Kronstadt foram os bolcheviques F. Raskolnikov e A. M. Lyubovich e o militante sem partido, A. M. Lamanov, que em breve se uniria ao partido dos maximalistas e que também tomaria parte da rebelião em 1921. Entre os principais partidos do primeiro soviete figuravam os bolcheviques; os socialistas revolucionários (SR), de cariz camponês, como eles próprios se definiam; os mencheviques; os anarquistas; e os maximalistas, sem partido. Estes últimos se constituíam como uma organização importante que só se tornou um partido no outono de 1917, quando fundaram o Partido Socialista Revolucionário Maximalista. Antes disso, organizavam-se como um movimento independente no soviete, muito embora os blocos mais importantes fossem constituídos pelos bolcheviques e o SR de esquerda, que desempenharam um importante papel durante 1917.

Em suma, nas primeiras semanas da revolução, Kronstadt não se associou ao governo provisório e se organizou através da autogestão baseada em eleições de regimentos e comitês de navios, que elegiam seus comandantes. O soviete articulou a formação de milícias responsáveis pela a segurança da cidade durante períodos de pogroms ou saques e de um poder encarregado de instaurar uma investigação sobre o papel dos 500 oficiais presos em fevereiro, apesar dos muitos esforços do governo provisório para soltá-los. Uma comissão de controle também foi eleita para exercer uma das funções mais importantes do soviete, a saber, o controle total das fábricas da cidade. Ademais, um jornal chamado Izvestiia foi fundado por Anatolii Lamanov. Segundo as memórias do comissário do governo provisório, “em maio de 1917, os ideais de Bakunin foram plenamente realizados na cidade de Kronstadt”.

“República de Kronstadt”

Como vimos, havia uma tensão entre o governo e o Soviete de Kronstadt, levando o comissário, Papelyaev, a perder todo o controle logo nas primeiras semanas da revolução. No mês de maio, valendo-se de uma resolução que determinava a nomeação do líder da cidade militar, o comissário queria escolher uma pessoa de sua confiança para a função. Porém, foi impedido pelo soviete, que alegou não ser esta competência sua, pois, segundo a resolução, o soviete era a única autoridade em Kronstadt.

Então, os jornais de Petrogrado fizeram um grande escândalo, sob a alegação de que Kronstadt organizava sua própria República e que se preparava para se separar de toda a Rússia. Claro que isso não era verdade. Mas a notícia se espalhou chamando a atenção de todos. Muitos camponeses, soldados e marinheiros foram até Kronstadt para ver com seus próprios olhos como a suposta república era governada pelo seu próprio soviete.

Em Petrogrado, o governo provisório solicitou a mediação de alguns socialistas na questão de Kronstadt, que chegaram à cidade e deram início às negociações com o soviete. Depois disso, a situação foi se agravando e ficando cada vez mais descontrolada, o que levou o Soviete de Kronstadt a aderir às “Jornadas de Julho”, empunhando a bandeira de “todo o poder aos sovietes”.

Os marinheiros entraram em confrontos nas lutas de ruas durante três dias (3, 4 e 5 de julho), mas Kronstadt terminou o mês derrotada, sem que isso significasse uma derrota moral ou ideológica. Então, os marinheiros se uniram novamente ao antigoverno e, durante uma segunda crise, o soviete elegeu seus comitês e angariou ainda mais poder do que antes. Em setembro, a Duma tentou se aproximar do Soviete de Kronstadt, que se recuou terminantemente a fazer qualquer tipo de concessão. Depois, Kronstadt participou ativamente da Revolução de Outubro, tendo tomado parte, inclusive, da invasão do Palácio de Inverno.

III - Kronstadt, a Terceira Revolução, 1921

Nick Heath, militante do Anarchist Communist Group (ACG).

Quais são as lições que podemos aprender de Kronstadt?

Kronstadt marca o fim de uma série de revoltas camponesas e greves de trabalhadores.

Examinaremos as circunstâncias que levaram à revolta e a ideia de Terceira Revolução, destinada a realizar os verdadeiros objetivos revolucionários das massas laboriosas russas. Veremos as implicações do que realmente aconteceu e como a verdade sobre Kronstadt precisa ser revelada ante os perigos do vanguardismo leninista, que ainda hoje tem um efeito tão prejudicial em nossas lutas.

Os marinheiros da base naval de Kronstadt eram um bastião revolucionário (1905) e estiveram na vanguarda da Revolução Russa de 1917. Formaram um dos primeiros sovietes no verão daquele ano, tiveram participação ativa nos eventos de outubro, tomando parte na invasão do Palácio de Inverno, e colaboraram efetivamente na defesa de Petrogrado contra o avanço branco.

No entanto, em 1921, o povo estava desiludido com o governo bolchevique, com o comunismo de guerra, a falta de liberdade de expressão, as prisões da Tcheka (a polícia política bolchevique) e a requisição brutal de grãos nas regiões camponesas do país. Diante disso, deflagrou-se no ano de 1918 um movimento grevista pelos grandes centros urbanos do país, no qual os trabalhadores reivindicavam por melhores suprimentos de alimentos. Em 1919, estoura a greve geral em Petrogrado e greves similares ocorrem também em Moscou. A greve se espalha pelos Urais. Em fevereiro de 1921, greves eclodem novamente em Petrogrado.

Em 1º. de março, os marinheiros de Kronstadt, em solidariedade ao movimento grevista, realizam reuniões em massa (15.000 pessoas) e exigem do governo a realização da seguinte pauta: eleições imediatas por voto secreto para o sovietes; liberdade de expressão e de imprensa para todos os partidos, grupos de esquerda e anarquistas; liberdade de reunião para sindicatos e organizações camponesas; abolição das agências políticas no exército e na marinha; retirada imediata de todos os esquadrões de requisição de grãos e dos bloqueios de estrada; e o restabelecimento de um mercado livre para os camponeses (Resolução do Petropavlosk). Paralelamente, os marinheiros começam a publicar o jornal Izvestiia de Kronstradt.

Em resposta, os bolcheviques denunciaram os rebeldes como agentes brancos e de fazerem parte de um complô contrarrevolucionário. Surpresos, os marinheiros transmitem a seguinte mensagem de rádio: “Camaradas operários, marinheiros e soldados vermelhos. Defendemos o poder dos sovietes e não dos partidos. Defendemos a livre representação de todos os trabalhadores. Camaradas, vocês estão sendo enganados. Em Kronstadt, o poder está nas mãos dos marinheiros revolucionários, dos soldados vermelhos e dos trabalhadores. Não está nas mãos dos Guardas Brancos, supostamente chefiados por um general Kozlovsky, como afirma a rádio de Moscou”.

Depois de negociações infrutíferas, Trotsky, o comandante do Exército Vermelho, um exército de base popular e voluntária, foi designado para intervir na situação. Trotsky, que defendia a abolição dos comitês de soldados e das eleições de oficiais, a profissionalização das forças armadas, o retorno das punições e dos castigos corporais e o fuzilamento por deserção, sendo também o responsável pela inclusão de antigos oficiais czaristas nos postos de comando sob a condição de “especialistas militares”, ordenou o ataque à fortaleza.

Seguiu-se então uma luta feroz e a revolta foi brutalmente esmagada. Victor Serge escreveu que: O ataque final foi desencadeado por Tukhachevsky, em 17 de março (...). Alguns dos rebeldes conseguiram escapar e chegar à Finlândia. Outros opuseram uma feroz resistência, palmo a palmo, forte a forte, rua a rua, e, mesmo feridos mortalmente, levantavam-se e, ao caírem, gritavam: “Viva a revolução mundial!” Centenas de prisioneiros foram levados a Petrogrado e entregues às prisões da Tcheka; meses depois, eles ainda estavam sendo fuzilados em pequenas levas, sofrendo uma agonia insana e criminosa. Esses marinheiros derrotados pertenciam de corpo e alma à Revolução; eles expressavam o sofrimento e a vontade do povo russo.

Segundo Ida Mett: Se as greves de Petrogrado exigiam a reabertura do comércio e a abolição das blitz de estradas, os rebeldes proclamavam que Kronstadt não reivindicava o livre comércio mas, sim, o genuíno poder dos soviéticos, pois sabiam que a reabertura do mercado não resolveria seus problemas.

Anton Ciliga afirmou que: A resolução do Petropovlovsk se pronunciou em defesa dos trabalhadores, não somente contra o capitalismo burocrático do Estado, mas também contra a restauração do capitalismo privado. Esta resolução propunha uma aliança entre os operários e camponeses com os setores mais empobrecidos do campo; em suma, trabalhadores proletários reivindicando que a revolução criasse o socialismo de fato. A NEP, por outro lado, era a união dos burocratas com as classes altas das cidades contra o proletariado, a aliança do capitalismo de Estado com o capital privado contra o verdadeiro socialismo.

Nos anos 30, Trotsky escreveu que os marinheiros não eram os mesmos de 1917, isto é, “o orgulho e a glória da revolução”. Argumentava que muitos dos marinheiros revolucionários de 1917 haviam tombado em combate ou sido transferidos para outro lugar e substituídos em grande parte por kulaks ou elementos alienados. Isso teria facilitado o trabalho das organizações contrarrevolucionárias que teriam cooptado Kronstadt.

Israel Getzler (Kronstadt 1917-1921: The Fate of a Soviet Democracy, 2002) investigou a questão a fundo e demonstrou que os marinheiros que serviam na Frota do Báltico em 1º. de janeiro de 1921 eram de ao menos 75,5% do pessoal recrutado antes de 1918. Getzler argumentou que os veteranos vermelhos ainda predominavam no final de 1920 e que houve uma continuidade em todos os sentidos dos movimentos de 17 e 21.

Recentemente, documentos dos arquivos soviéticos mostram que, em 7 de março de 1921, um chefe da Tcheka reportou que a grande maioria dos marinheiros da Frota do Báltico ainda eram composta pelos antigos revolucionários e poderiam, sim, ter formado a base de uma possível Terceira Revolução.

Eis, portanto, o verdadeiro sentido da Rebelião de Kronstadt, definido por eles próprios como a Terceira Revolução: o prosseguimento do processo revolucionário iniciado em 1917, por anarquistas e maximalistas, pela união de camponeses e operários, pelo verdadeiro poder dos sovietes.

IV - A rebelião de Kronstadt, 1921: identidades políticas e circulação de informação

Dmitriy Ivanov é pesquisador na Universidade Europeia de São Petersburgo.

Sem dúvida, os anarquistas também apoiaram os marinheiros na luta contra o comissariado e se fizeram presentes quando distribuíram panfletos nas fábricas de Petrogrado, chamando os operários para apoiar a rebelião de Kronstadt. Ademais, outros grupos, como os socialistas revolucionários (SR), mencheviques e ex-comunistas, desempenharam um papel relevante durante a rebelião e, de certo modo, ajudaram a reviver o espírito apartidário e revolucionário dos sovietes dos anos de 1917.

Um dos slogans de Kronstadt, “todo o poder aos sovietes, não aos partidos”, foi cunhado pela União dos Socialistas Revolucionários Maximalistas em1919, e este grupo estava muito fortemente representado entre os marinheiros da Frota do Báltico. Especificamente, alguns dos mais influentes textos, sobre os eventos de 1921, como A verdade sobre Kronstadt do Volia Rossii (1921) e do StepanPetrichenko (1925), foram publicados pela imprensa dos socialistas revolucionários (SR).

Mas os neopopulistas, isto é, socialistas revolucionários (SR) e maximalistas, que pareciam ter mantidos fortes ligações com os rebeldes refugiados na Finlândia, falharam em canalizar politicamente à rebelião de Kronstadt para si mesmos no movimento internacional revolucionário, em grande parte devido a sua frágil organização.

Já os sociais democratas mencheviques, que também estavam representados entre os líderes rebeldes e quem espalhou panfletos em Petrogrado em apoio aos insurgentes de Kronstadt, não viam no movimento uma afinidade com seus ideais e, por isso, não usaram a rebelião a seu favor na luta política.

Foram os anarquistas, no entanto, que fizeram uso político da experiência de Kronstadt, em 1922 e 1923. No início dos anos 20, a divisão na extrema esquerda do movimento internacional dos trabalhadores, entre apoiadores e oponentes dos comunistas, estava crescendo.

Os anarquistas, que haviam apoiado os bolcheviques no início, perderam toda a esperança no sistema comunista. Em janeiro de 1922, Emma Goldman (Minha desilusão na Rússia, 1923) e Alexander Berkman, um dos mais respeitados expoentes do anarquismo internacional e um dos fundadores do movimento anarquista russo, começaram sua campanha de denúncia do terror comunista contra dissidentes do partido. O Mito Bolchevique (1925), de Berkman, foi traduzido para o alemão, lituano, espanhol, holandês e francês. Outro militante anarquista, muito popular em Kronstadt nos ano de 1917, Yefin Yarchuk, também publicou sua versão da rebelião em Kronstadt na Revolução Russa (1923), traduzido para o francês, espanhol, búlgaro e inglês. Esses livros tiveram um impacto muito significativo na percepção dos eventos na Europa Ocidental e na América do Norte. O Diário de Berkman, no qual descrevia sua desilusão com os bolcheviques, foi publicado, inclusive, pela editora canadense Black Press (Kronstadt Diary: February 26 - march 19, 1921).

Goldman e Berkman utilizaram-se da repressão de Kronstadt como um exemplo da crueldade, hipocrisia e traição aos ideais da Revolução de 1917, e propuseram uma alternativa para emancipação dos trabalhadores evitando os erros do centralismo e autoritarismo. Testemunhas oculares do massacre da rebelião, Berkman e Goldman, e muitos dos seus camaradas, participaram da fundação da International Workingmen's Association (IWA), em 1922. Cem anos depois, o IWA-AIT ainda continua essa luta.

Em contraparida, para se defender da campanha dos libertários, os bolcheviques tentaram usar como propaganda favorável ao regime soviético elementos do anarcossindicalismo e ex-anarquistas que estavam alinhados ao Partido Comunista.

No contexto da Guerra Civil da Espanha o debate sobre Kronstadt ganhou novo fôlego. Trotsky escreveu um artigo de propaganda intitulado Hue and Cry Over Kronstadt ("O Clamor por Kronstadt", 1938), que acabou levando a um rompimento dramático com Victor Serge, um ex-anarquista que se aliou aos bolcheviques durante a revolução. No mesmo ano, Goldman publicou seu panfleto Trotsky Protests Too Much ("Trotsky reclama demais",1938), confessando que, durante a guerra civil na Rússia, quase todos os anarquistas apoiaram os bolcheviques, ainda que conscientes da implosão iminente da revolução, mas nem por isso o ex-chefe do Exército Vermelho estava isento do totalitarismo stalinista, pois o processo de exclusão das massas trabalhadoras havia começado quase imediatamente a tomado do poder por Lênin e seu partido. Na guerra das narrativas, John G. Wright publicou seu texto A verdade sobre Kronstadt (The Truth about Kronstadt – fevereiro de 1938), em defesa de Trotsky.

A Comuna de Kronstadt (The Kronstadt Commune - 1938) de Ida Mett também estava inserido na discussão de 38, embora tenha sido publicado tardiamente, em 1948. Mett fez um bom uso dos jornais publicados pelos emigrados russos, mas muito do material que ela utilizou no livro proveio da série de artigos intitulados O motim de Kronstadt de 1921 (Kronshtadtskü miatezh v 1921, 1931), de autoria de um stalinista, Alexey Pukhov, que era intelectualmente mais honesto que os líderes bolcheviques de 1921. Já A Revolta de Kronstadt (1942), de Anton Ciliga, é um excelente relato das questões mais fundamentais do levante de Kronstadt.

Mais tarde, historiadores simpáticos ao anarquismo causaram constrangimento, por trazerem para o debate algumas questões inconvenientes para os libertários. No prefácio do livro de Ida Mett da edição francesa de 1967, Maurice Brinton teceu considerações que certamente desagradariam a autora. Segundo Brinton: Nas Memórias de um Revolucionário, de Victor Serge, há um capítulo dedicado a Kronstadt. O texto de Serge é particularmente interessante porque o autor estava em Leningrado em 1921 e apoiava os bolcheviques na questão de Kronstadt, embora com certa relutância. No entanto, Serge não se utiliza de calúnias e distorções, como fizeram importantes membros do partido. O livro lança luz sobre o estado de espírito quase esquizofrênico das bases do partido durante aquela época. Por diferentes razões, nem trotskistas nem anarquistas o perdoariam, pois Serge buscava conciliar o que havia de melhor nas respectivas doutrinas: a preocupação com a realidade, dos primeiros, e a preocupação com os princípios, dos segundos. Já em Kronstadt, 1921 (1ª. edição, 1970), Paul Avrich traz à tona o Memorando Secreto e revela evidências da tentativa de cooptação da rebelião por parte dos contrarrevolucionários e da ligação tardia de Petrichenko com os emigrados russos.

Para encerrar, seria importante esclarecer que, apesar de todas as controvérsias, o conceito de democracia em 1917 e 1921 não era evidentemente o conceito liberal; para os rebeldes, portanto, democracia era o governo dos trabalhadores.

V - Kronstadt e o movimento de trabalhadores em Moscou e Petrogrado, 1921

Simon Pirani é professor honorário da Universidade de Durham.

Para começar, gostaria de dizer um pouco sobre o que me levou a pesquisar este assunto. Primeiro, visitei a Rússia em 1990, antes do colapso da URSS. Na ocasião, queria saber mais sobre os maiores protestos da classe trabalhadora desde os anos de 1920. Eu era trotskista e militava no movimento dos trabalhadores do Reino Unido. A luta dos trabalhadores do leste europeu e da URSS sempre nos inspirou muito, mas o contato com eles sempre tinha sido difícil, por vezes impossível. No final dos anos 80, um encontro que tive com socialistas russos e ucranianos forçou-me a repensar o que sabíamos sobre a Revolução Russa. Logo percebi que a versão dos trotskistas que as coisas estavam indo na direção certa até Stalin tomar o poder em meados dos anos 20 era simplista e errada. Nos anos 2000, trabalhei nos arquivos soviéticos lendo minutas de relatórios secretos relativos aos encontros de trabalhadores nas fábricas e outros documentos oficiais, material este que forneceu a base do meu livro The Russian Revolution in Retreat, 1920–24: Soviet Workers and the New Communist Elite (London: Routledge, 2008 - não há edição em português).

Após a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro de 1917, iniciou-se o período da guerra civil. Em 1920, os brancos foram amplamente derrotados e o povo estava ansioso por saber que tipo de sociedade surgiria em tempos de paz.  Mas havia uma forte opinião entre os bolcheviques de que os métodos militares e compulsórios de confisco de alimentos, para atender as necessidades de alimentação das populações urbanas e do exército no front, e que venceram a guerra civil, podiam continuar. Esta ideia estava por trás da tentativa fracassada em maio de 1920 de expandir a revolução para o Ocidente, inicialmente, por meio de um ataque à Polônia, sustentado pela continuidade das medidas de requisição de grãos dos camponeses. Tal política, no entanto, havia levado a um grande número de violentas revoltas camponesas. No inverno de 1920 para 1921, a política de confisco de alimentos, combinada às blitz de estradas, suscitou a fome entre a população e, por seu turno, exacerbou o descontentamento entre os trabalhadores urbanos que deveriam ser a principal base de apoio do governo. Tal insatisfação ocasionou uma onda de greves em fevereiro de 1921 - que acabou por criar uma ponte entre grevistas e camponeses. Embora o povo da cidade formava uma pequena minoria, menos de um quinto do total da população russa, muitos dos trabalhadores urbanos pertenciam a primeira ou a segunda geração de migrantes oriundos do campo. Portanto, mantinham laços fortes com o campo e, frequentemente, retornavam aos seus vilarejos de origem quando escasseava a comida durante a guerra civil.

Diante disso, os bolcheviques, por outro lado, passaram a denunciar os trabalhadores que não estavam de acordo com suas políticas, acusando-os de camponeses de mentalidade pequena burguesa. Na realidade, a maioria dos trabalhadores, pró ou antibolchevique, era solidária aos camponeses, até mesmo pela proximidade que tinham com a vida rural. Então, os protestos contra o governo realizados pelos movimentos de trabalhadores das maiores cidades industriais, Moscou e Petrogrado, ganharam impulso durante janeiro e fevereiro de 1921, com reuniões massivas e greves. Em Moscou, grande parte da força de trabalho, no caso, quase toda formada por mulheres, parou de trabalhar e marchou através dos distritos industriais chamando outros operários para se juntarem ao movimento, que se transformou numa escalada de greves durante muitos dias. A paralisação atingiu toda a indústria têxtil ao redor de Moscou. Em Petrogrado, os trabalhadores também se manifestaram e pararam por uma semana. Durante a rebelião de Kronstadt, iniciada no 1º. de março, ocorreu, por exemplo, uma greve geral em Saratov, no dia 4 de março, na qual os trabalhadores demonstraram simpatia para com os marinheiros e protestaram contra a repressão. Entretanto, não existia uma coordenação entre os rebeldes de Kronstadt e os movimentos grevistas, que apareciam um após o outro e sem qualquer articulação.

As demandas do movimento de trabalhadores abrangiam tanto o aspecto econômico quanto o político. As demandas econômicas reivindicavam fundamentalmente o fim do sistema compulsório do comunismo de guerra, posto em prática durante a guerra civil. Havia uma grande queixa por liberdade de locomoção por parte dos trabalhadores de Petrogrado que, em tempos de desespero, adotavam estratégias individuais de sobrevivência, como retornar para suas as cidades de origem ou mesmo roubar produtos do local de trabalho para vendê-los ou trocá-los por comida. Por isso, no grande complexo fabril de Moscou, as massas aprovaram uma resolução contra a rígida disciplina que condenava os trabalhadores a um estado de carência total. Assembleias de operários também pediam o fim das requisições compulsórias de grãos e a liberdade para comprar dos camponeses o trigo que seria confiscado. Em fevereiro, em um grande encontro de delegados da metalurgia de Moscou, as demandas não somente exigiam o fim das requisições mas também a sua substituição por um tipo de taxa. Um mês depois, o governo adotou exatamente essa mesma política, marcando o fim do então chamado comunismo de guerra e o início da Nova Política Econômica (NEP).

Realmente, os bolcheviques fizeram algumas concessões, mas algumas exigências econômicas expressavam, no fundo, demandas políticas. Uma reivindicação muito popular, também em Kronstadt, era a equalização das rações de primeira necessidade, que eram racionadas e divididas de modo desigual. Algumas pessoas de posição oficial no governo ou no partido bolchevique e que supervisionavam as fábricas se utilizavam da corrupção para obter mais rações. Obviamente, a demanda por igualdade na divisão de rações fazia alvo certeiro o estado burocrático que se consolidava. Era uma forma de atingir politicamente a embrionária burocracia. Contra o Estado ditatorial, os operários clamavam por liberdade de expressão e, se os ativistas eram presos, seus colegas muito frequentemente cruzavam os braços e paravam a produção. Outra demanda política muito comum era o clamor por novas eleições nos sovietes. Os sovietes que, foram fóruns ativos em 1917, muito frequentemente pararam de funcionar durante a guerra civil.

Essas demandas foram elaboradas mais detalhadamente em Kronstadt no intercurso da rebelião e havia provocado uma inquietação crescente na burocracia e nas fileiras do partido bolchevique, que não era homogêneo. Havia uma variedade de facções de oposição, dentre as mais conhecidas a Oposição Operária e o Centralismo Democrático, que também manifestavam descontentamento com as políticas implantadas pelo governo. No X Congresso do Partido, celebrado durante a rebelião de Kronstadt, estas facções foram banidas.

Enquanto a rebelião dos marinheiros era finalmente suprimida com execuções e prisões, o governo conscientemente tentou impor um limite na repressão ao movimento dos trabalhadores, para evitar uma intensificação da muito disseminada dissensão no país. Esta aproximação envolvia, no entanto, a destruição do que ainda restava de uma perspectiva democrática nos sovietes. Em maio de 1921, as demandas por novas eleições nos sovietes foram parcialmente atendidas. Mesmo assim, muitos grupos de oposição de esquerda, inclusive ex-bolcheviques e não-bolcheviques, tais como socialistas revolucionários de esquerda, anarquistas e muitos trabalhadores não partidários, estavam sujeitos a mais severa repressão do Estado. Mas os apartidários se posicionaram contra os bolcheviques em todas as grandes fábricas de Moscou e venceram em quase todos os casos. Isso levou vários anos até que estas ilhas de independência da classe trabalhadora foram, enfim, sufocadas.

Conclusões: 1º.) A revolta de Kronstadt foi um evento isolado, apesar das reivindicações dos marinheiros, no que concernia à democracia nos sovietes, coincidirem com as demandas dos trabalhadores das fábricas. 2º.) Os bolcheviques acreditavam que seu governo estava em risco, assim como seus inimigos contrarrevolucionários brancos; mas nós podemos observar, como historiadores, que aquele risco não era tão grande assim e que não havia coordenação entre as greves e os protestos dos trabalhadores com a revolta dos marinheiros. O que muitos destes trabalhadores estavam buscando era essencialmente a reforma do sistema soviético ao invés de objetivarem uma revolução. Eu sou cético quanto à viabilidade da Terceira Revolução, penso que seria necessário refletir mais sobre o que ela significa nesse contexto. 3º.) As condições para construção de algum tipo de sociedade socialista na Rússia, em 1921, eram realmente muito ruins, a economia tinha colapsado depois da guerra e, apesar de toda esperança, a revolução não tinha se espalhado para a Alemanha e outros países industrializados. No entanto, a despeito de que, naquelas terríveis condições, trabalhadores e marinheiros lutassem pela restauração e desenvolvimento da democracia nos sovietes, depois da guerra civil, isso poderia ter um alcance mais restrito e fortalecido o enfrentamento a hierarquia e exploração na sociedade soviética, que estava gestando a ditadura burocrática bolchevique. Mas aquelas forças bolcheviques optaram por reprimir os marinheiros para, em seguida, oprimir cinicamente os trabalhadores que protestavam contra os desmandos arbitrários do governo, e isto era profundamente, talvez, fatalmente perigoso para o projeto verdadeiramente revolucionário e o legado ideológico para as esquerdas na posteridade. A ideia de que o autoritarismo e a repressão eram de algum modo inevitável ou justificável nas revoluções maculou o legado do socialismo durante o século XX e, nesse sentido, Kronstadt foi realmente trágico.

VI - O Levante de Kronstadt (1921) como uma fase da Grande Revolução Russa

Alexei Gusev é professor de história e vice-diretor do Departamento de Historia dos Movimentos Sociais e Partidos Políticos da Faculdade de História na Universidade Estadual de Moscou (Lomonosov). Ele também é presidente do Centro de Pesquisa da Práxis e Educação de Moscou.

No início dos anos 90, o ex-presidente Boris Yeltsin prometeu erguer um monumento em homenagem aos rebeldes de Kronstadt. Porém, nunca nada foi feito realmente e, em pleno ano de 2021, cem anos depois da revolta, não existe sequer uma placa em memória aos marinheiros da Frota do Bático. Na Rússia, nós temos os mais diversos monumentos, nós temos monumentos para tudo, desde Alexander Nevsky ao crítico literário Belinsky, do compositor Rachmaninoff ao escritor Dostoevsky, passando pelos líderes bolcheviques, Lênin, Trotsky e Stálin, até Karl Marx, Engels etc. Mas a narrativa oficial reduz a Revolução de 1917 e a Guerra Civil a um conflito entre vermelhos e brancos, entre Lênin e Denikin. O Levante de Kronstadt não existe nessa narrativa e mesmo alguns sites especializados em história classificam os rebeldes de Kronstadt como brancos. Esta narrativa oficial não considera nenhuma terceira força e é tarefa dos historiadores demonstrar que havia outros elementos no tabuleiro, não apenas em Kronstadt, mas também os Verdes [1], o movimento anarquista etc. Essa tarefa está ainda por ser feita na historiografia russa e mesmo na opinião pública em geral.

A natureza do levante de Kronstadt de 1921 pode ser definida como o começo da Terceira Revolução na Rússia. A primeira revolução de fevereiro de 1917 pôs fim ao governo do czar, dos proprietários de terra e dos oficiais imperiais. A segunda revolução, em outubro do mesmo ano, desbaratou o governo da burguesia. A terceira revolução, lançada pelos kronstadtinos, visava a comissiocracia bolchevique, a burocracia comunista e, portanto, a farsa do suposto governo dos trabalhadores. O que o movimento de 8 de março de 1921 significava era o despertar de todos os trabalhadores do Ocidente e do Oriente para o autêntico socialismo. Um primeiro olhar na resolução dos revoltosos da base naval pode parecer que ela transmite um tom de ingenuidade se levássemos em conta que o movimento pretendia iniciar uma revolução. Mas, ao analisar o conteúdo histórico do levante, o seu significado real merece algumas considerações a respeito.

Se nós entendermos uma revolução como um processo de transformação radical, fomentado pela influência das massas populares e envolvendo mudanças do regime político, então os eventos na Rússia de fevereiro de 1917 a 1922 se ajustam ao nosso entendimento e, além disso, encontram similaridade com a Grande Revolução Francesa do século XVIII, a qual também durou vários anos. Tal qual sua congênere francesa, a Grande Revolução Russa consistiu-se de várias fases e estava orientada para a resolução de um grande número de problemas chave e contraditórios da modernização social na Rússia, notadamente, a questão da terra – a distribuição de terras para os camponeses – e a questão política – a concessão de direitos à população. Em suma, terra e liberdade.

A revolução russa envolveu a confrontação de várias forças sociais e políticas que culminaram na guerra civil até a estabilização do novo regime político bolchevique. Assim, com base na solução parcial da distribuição da terra e na secessão das estruturas sociais no seio da Grande Revolução Russa é que podemos definir as várias fases principais do processo revolucionário em tela. A primeira fase, fevereiro-março, de 1917, não resolveu a questão da terra, tampouco a questão política. A segunda, outubro de 1917, formalmente deu terra aos camponeses, mas muito cedo os bolcheviques ou comunistas instituíram o comunismo de guerra: política pela qual, de um lado, determinava a requisição obrigatória da produção agrícola e, do outro, submetia camponeses e operários a um estrito controle burocrático. No lugar do proclamado poder dos sovietes sobreveio o autoritarismo e a ditadura do Partido Comunista. Portanto, a questão chave da Grande Revolução Russa permaneceu irresoluta também na terceira fase. Esta fase é marcada por um confronto em grande escala, configurado pela guerra civil, cujos efeitos conduziram a revolução para a sua quarta fase, caracterizada por um novo período de insurgência revolucionária no fim de 1920 ao verão de 1921.

O ponto alto desse período foi o Levante de Kronstadt, em março de 1921, que estava estritamente relacionado com a guerra camponesa na Rússia, iniciada no inverno de 1920-21 e provocada pela política de confisco de toda a produção de grãos. Na primavera de 1921, 165 grupos, com mais de 100 000 combatentes atuando em todo o território do país, insurgiram-se contra o controle do governo de Moscou. Além disso, havia distúrbios e protestos dos movimentos de trabalhadores em todos os principais centros industriais da Rússia. Os operários entraram em greve e parte substancial dos protestos implicavam demandas políticas necessárias. Em fevereiro de 1921, uma onda de greves assolou Moscou e Petrogrado, causando diretamente o levante de Kronstadt. Ademais, toda uma série de protestos, incluindo motins, tomou lugar no Exército Vermelho.

Assim sendo, conforme o ponto de vista da teoria política, a situação do início de 1921 poderia ser categoricamente descrita como uma conjuntura revolucionária. A noção de conjuntura revolucionária é bastante conhecida na interpretação de Vladimir Lênin, que, aparentemente, tomou emprestada do escritor e historiador liberal francês, do século XIX, Alex de Tocqueville. Lênin definiu a conjuntura revolucionária como uma crise geral em que o sofrimento das massas populares cresce mais do que o usual e as classes baixas insatisfeitas não querem mais viver como no antigo regime. Realmente, estas características estavam definitivamente presente em 1921! Modernas teorias concernentes à conjuntura revolucionária desenvolvida por autores como Charles Tilly, Olivia Stiles, Michel Dobry seguem, grosso modo, a mesma dinâmica lógica. Primeiro, uma onda de protestos envolve uma porcentagem significante da população e resulta em grandes coalizões entre classes sociais que desencadeiam um movimento crescente e generalizado. No caso de Kronstadt, houve uma aliança objetiva entre camponeses, operários e parte das forças armadas, que universalizou as demandas básicas das massas revoltosas em três espécies de liberdade: a) liberdade de trabalho, b) liberdade de comércio e c) liberdade política. A questão política, na maioria das vezes, pleiteava por eleições livres para os sovietes, mas também, em alguns casos, a restauração de toda democracia e até uma nova assembleia constituinte.

A segunda característica da conjuntura revolucionária se configura como uma crise no interior da elite governante, que é incapaz de governar no modo antigo. Também isto ocorreu em 1921. O governo do partido bolchevique naquele tempo experimentou uma profunda crise entre as tendências que tinham consciência de que a política do comunismo de guerra levara o país a um desastre social. As tentativas para encontrar um jeito de sair da crise suscitaram uma amarga discussão nos sindicatos que dividiu o Partido Comunista em facções rivais internas e lutas intestinas que respingaram também nos filiados do partido na Frota do Báltico. Em Kronstadt, a agremiação foi perdendo credibilidade entre os marinheiros comunistas a tal pondo de criarem uma corrente dissidente no partido: a Oposição da Frota. Ao mesmo tempo, outros marinheiros começaram a deixar em massa o partido bolchevique e, antes do início do levante, cerca de 40% dos filiados de Kronstadt abandonaram o Partido Comunista. No curso da revolta, somente um terço permaneceu ainda afiliado. Ademais, muitos dos líderes do Comitê Revolucionário de Kronstadt foram membros do partido, inclusive Petritchenko, e por isso justificavam a rebelião como uma luta para ressuscitar os lemas do início, nunca realizados após a conquista do poder político que se encaminhava para uma ditadura.

Aqui eu penso que nós podemos traçar um paralelo com o motim naval de Kiel no contexto da Revolução Alemã de novembro de 1918 e do Encouraçado Potemkin no Mar Negro, em junho de 1905. Kronstadt também foi um reflexo da conjuntura que poderia ter gerado uma radicalização ainda maior no processo revolucionário. O levante tinha potencial para uma mudança radical da situação política. Nesse sentido, Kronstadt foi o culminar de uma vasta resistência operária-camponesa que se posicionou tanto contra os reacionários brancos (liderados pelos generais Kolchak, Denikin, Wrangel) como contra os bolcheviques (Lênin, Trotsky, Kalinin, Zinoviev).

Se Kronstadt resistisse como um território da Terceira Revolução, poderia se constituir de fato como um centro de coalizão de várias forças políticas. Por exemplo, só o exército camponês mais importante daquele tempo reunia, somente na região do Tambov, sob liderança de Alexander Antonov, 50 000 combatentes, e no oeste da Sibéria 100 000. Mas alguém poderia objetar que havia o problema de falta de abastecimento nos armazéns de Kronstadt. Quanto a isso, os rebeldes poderiam ter sido providos pela Finlândia, apesar de, no início, recusarem a mediação dos emigrados russos, notadamente, os socialistas revolucionários. Ademais, caso o gelo derretesse, Kronstadt seria inexpugnável e impossível de ser tomada, o que poderia mudar radicalmente a situação.

O próprio Exército Vermelho não estava imune à influência de Kronstadt. Nós sabemos que houve dois assaltos à fortaleza, o primeiro ocorreu no dia de abertura do X Congresso do Partido Comunista, no dia 8 de março de 1921. Como sabemos também, o assalto falhou por causa dos soldados do Exército Vermelho que não queriam lutar contra os marinheiros. Na ocasião, foi reportado que alguns dos soldados pararam quando viram a bandeira vermelha tremulando sobre Kronstadt. Surpresos, indagaram: O que é isso? Disseram-nos que Kronstadt estava nas mãos dos generais e colaboradores brancos, mas vejam a bandeira vermelha, fomos enganados por nosso comissário! Diante da deserção de muitos soldados, as troikas extraordinárias, isto é, cortes instruídas por três pessoas investidas de poderes extraordinários, condenaram ao fuzilamento 100 soldados do Exército Vermelho em apenas dois dias, fato que atemorizou os demais e os empurrou para o ataque a Kronstadt. Então era muito séria a crise no próprio aparato de segurança bolchevique e se a rebelião de Kronstadt prosseguisse a instabilidade social poderia ter sido agravada mais e mais.

Sobre a questão da continuidade da Comuna de Kronstadt de 1917 e do levante de 1921, é muito interessante porque no final dos anos de 1930 houve uma discussão entre anarquistas e comunistas sobre a rebelião. Trotsky argumentou em um artigo que a frota de 21 era completamente diferente da de 17, que os novos marinheiros foram recrutados nos vilarejos rurais, que eram kulaks etc. Quanto ao “Orgulho e Glória da Revolução”, em grande parte foram mortos no front de batalha durante a guerra civil. Isso, claro, não é verdade. A rebelião teve início e foi idealizada nos encouraçados Sebastopol e Petropavlovsk, cuja tripulação não havia mudado muito desde 1917. Os mesmos velhos marinheiros que participaram dos eventos de 1917 eram a vanguarda da rebelião de Kronstadt, sendo que a maioria deles participou de outubro e apoiou os bolcheviques. Claro que uma parte minoritária era realmente formada por novos recrutas, principalmente, do sul da Rússia e da Ucrânia. Mas a rebelião produziu uma síntese das duas partes, os antigos marinheiros da revolução e os novos de maioria camponesa que relatavam para os mais velhos o descontentamento e as agruras sofridas no campo.

Sob tais pressupostos, seria então muito difícil impedir a difusão do levante para fora da ilha de Kotlin quando o degelo da primavera impossibilitasse a tomada de assalto de Kronstadt. E isso era iminente. As condições para uma união entre o movimento dos marinheiros da Frota do Báltico, as greves dos trabalhadores e as insurreições no campo estavam formadas, constituindo um elemento potencialmente transformador do regime político na Rússia. A Terceira Revolução poderia ter mudado o regime político, resolvido a questão agrária e permitido uma transição plena para o controle operário através da democracia direta nos sovietes, ou seja, as duas questões mais fundamentais da Grande Revolução Russa.

Quanto à derrota dos marinheiros de Kronstadt, esta se deve a vários fatores, dentre os quais a espontaneidade da rebelião, forjada sem nenhuma organização ou preparação; as táticas defensivas dos rebeldes, que por tão longo tempo acreditaram na boa-fé dos líderes do Partido Comunista; e as prisões efetuadas pela Tcheca, que neutralizaram as forças políticas que teriam apoiado a rebelião em Petrogrado. Apesar da derrota, no entanto, o levante de Kronstadt - juntamente com outros movimentos populares - forçou os bolchevique a pôr termo no odiado comunismo de guerra e a Nova Política Econômica (NEP) fez muitas concessões aos camponeses, principalmente, a partir do novo Código Agrário de 1922. Isso melhorou a situação e levou ao declínio dos protestos de massa após Kronstadt. Assim, a Grande Revolução Russa entrou em sua fase final, os movimentos insurgentes no campo foram suprimidos em grande escala e a luta dos trabalhadores enfraqueceu.

Portanto, a Grande Revolução Russa chegou ao fim sem resolver totalmente suas grandes questões essenciais; a maior parte da população camponesa russa não teve garantias políticas, concomitantemente com a liberalização da economia, e a ditadura do regime político do Partido Comunista foi ainda mais endurecida. Os líderes do governo passaram a temer o que chamavam de “o espírito de Kronstadt” e, por conseguinte, novos levantes. E, assim, foram proibidas as tendências de oposição dentro o Partido Comunista, resultando em novas contradições e crises que poriam em cheque o regime no futuro.

[Nota 1: Exército Verde ou Terceira Força eram organizações de autodefesa muito poderosa formada por camponesas e desertores do Exército Vermelho e Branco - N. do blog].

VII – Teses sobre 1917: comunismo de guerra ou acumulação primitiva?

Jean Fecaloma

1) É equivocado interpretar a rebelião de Kronstadt como um conflito entre anarquistas e comunistas (socialdemocracia alemã). A verdade é que estas correntes eram ocidentalistas e pouco representativas da realidade russa. A história da Rússia pode ser descrita como um movimento pendular de abertura e fechamento para o Ocidente. Daí que, no século XIX, os russos conceberam e adaptaram sua própria ideia de socialismo à realidade agrária e culturalmente singular do país. Conhecido como narodnik ou, literalmente, “populismo”, o movimento socialista russo era bastante amplo e pouco sistemático e comportava tendências tão avançadas como o fourierismo de Tchernichevsky (O que fazer?) até o conservadorismo cristão ortodoxo de Tolstoi. (Em que medida o anarquismo de Bakunin ou Kropotkin influenciou o movimento narodnik – e certamente houve alguma influência – é algo a ser discutido). No início do século XX, os sociais revolucionários (SR) e maximalistas apareceram como descendentes diretos dos populistas e, por isso, gozavam de maior afinidade e simpatia popular, tanto que, nas eleições para a Assembleia Constituinte de novembro de 1917, alcançaram 58% das cadeiras, enquanto os bolcheviques 25%, os mencheviques 4% e os liberais 13%. Por ser um movimento autóctone e, obviamente, não dispor de interlocutores no estrangeiro, o movimento desapareceu sob o governo do partido único. A Rebelião de Kronstadt foi, por uma parte, exportada simbolicamente para o oeste, onde foi objeto da disputa entre anarquistas e comunistas, enquanto, por outra parte, foi tratada internamente pelos soviéticos como um conflito entre vermelhos e brancos.

2) Em dezembro de 1920, a guerra civil chegava ao fim e não havia mais nenhum interesse das nações aliadas, com exceção da França, de intervir na política interna da Rússia. Mesmo o governo francês, como vimos em Paul Avrich, demonstrou pouco empenho em ajudar os emigrados russos que tentavam manipular a rebelião de Kronstadt em benefício próprio. Por outro lado, as medidas do comunismo de guerra conduziram a Rússia Soviética a uma situação pré-revolucionária que ameaçava a existência do próprio governo, não de cima, pelos agentes das nações imperialistas, mas de baixo, pela mobilização das massas operárias e camponesas. A partir de então, o Kremlin deflagrou uma guerra implacável contra os grupos refratários, ao ponto de, na região do Tambov, o exército efetuar um ataque inaudito de gás tóxico, apenas ensaiado em Kronstadt, contra uma população natural da própria Rússia. Portanto, para consolidar o poder político, após vencer a ameaça externa, os bolcheviques passaram a eliminar as contradições internas, encarnadas justamente pela classe trabalhadora, por meio de um despótico movimento centrípeto que se assemelhou em muito a formação do absolutismo czarista: “Os grandes acontecimentos do século XVII, que pontuaram a decadência da Zemsky Sobor e da Duma boiarda, não foram revoltas separatistas dos nobres, mas as guerras camponesas de Bolotnikov e Razin, os motins urbanos dos artesões de Moscou, os surtos de turbulência cossaca ao longo do Dnieper e do Don” (ANDERSON, Perry. “Linhagens do Estado Absolutista”, São Paulo: Editora Brasiliense, 1985, p. 230).

3) É provável que o aniquilamento da rebelião de Kronstadt tenha sido uma ação deliberada e premeditada pelos líderes bolcheviques. No X Congresso do Partido, que se sucedeu no curso da rebelião, todas as correntes dissidentes do partido foram proibidas, sinalizando uma centralização do poder que não admitia o contraditório. Neste sentido, os líderes do partido podem ter usado o motim dos marinheiros como pretexto para suprimi-los, tendo em vista o histórico de independência e indisciplina da Frota do Báltico, que sempre seria visto como fator de instabilidade. A NEP, que poderia ter sido colocada na mesa de negociação com os rebeldes e pacificado o conflito, foi aprovada somente no decorrer do motim; porém, um programa dessa envergadura não seria preparado do dia para a noite, mesmo porque, desde o fim da guerra civil, o governo já havia criado, em 22 de fevereiro, o Comitê Estatal de Planejamento (Gosplan), a fim de coordenar o desenvolvimento econômico planificado no país. Vimos, em Paul Avrich, que, depois da repressão, Lênin tencionou extinguir a frota mas foi convencido por Trotsky a mantê-la em rédeas curtas, com o aparelhamento da base naval por elementos comunistas fiéis ao partido. Certamente, uma questão tão delicada como exterminar combatentes que foram glorificados pela revolução e estiveram desde o início lado a lado com os bolcheviques não poderia deixar digitais, pistas, despachos ou assinaturas. Deveria ser feito secretamente a portas fechadas por um pequeno grupo de dirigentes seletos e referendado por um auditório facilmente manipulável. Isso não seria algo inédito, a execução da família real foi atribuída a uma decisão unilateral do Soviete dos Urais, como se uma resolução de tamanha monta coubesse à autonomia decisória de um pequeno grupo periférico subordinado ao centro do poder e sem passar pela direção do partido.

4) “Pão! É preciso pão para a Revolução! Que outros se ocupem em lançar circulares com frases bombásticas! Que outros declamem sobre liberdades políticas!...” (Kropotkin).

Logo após o fim da revolta de Kronstadt grassou por todo o território russo um longo período de fome em massa, conhecido como a “fome de Povoljie”, que durou até 1922, e atingiu 90 milhões de pessoas, ceifando a vida de mais de 5 milhões de vítimas. A Rússia, que outrora ocupava a posição de maior produtor de cereal do mundo e a primeira em termos de volume total de produtos agrícolas, passou a enfrentar uma terrível crise de abastecimento devido à guerra civil, às condições climáticas desfavoráveis em algumas regiões e, principalmente, às requisições compulsórias em larga escala do excedente rural, muito embora não cessassem as exportações de grãos para o mercado internacional durante todo o período. A escassez de alimentos levou a uma calamidade social. Desesperadas as pessoas andavam a esmo, errantes, a procura de comida, e, para matar a fome, roíam casca de árvores, devoravam carniça e não foram raros os episódios de canibalismo (de onde surgiu a expressão “comunista come criancinha”). Dez anos depois, o processo de coletivização forçada de Stálin e a perseguição aos kulaks, na então URSS, produziu um novo período de fome, desta vez, vitimando um número ainda maior: 8 milhões de pessoas.

5) Karl Marx, ao investigar as origens do modo de produção capitalista, em sua obra máxima O Capital, postulou que não há capitalismo sem o seu pecado original: a acumulação primitiva. Grosso modo, a acumulação primitiva pode ser definida como a acumulação de riqueza (ou capital) sem passar pela produção – ou, sem meias palavras: roubo, simplesmente. Dentre todos os elementos históricos elencados pelo conceito, o mais importante é o da liberação do trabalho de seus meios de produção e, por corolário, da formação do proletariado urbano. Trata-se de um fenômeno iniciado na Idade Média, mas que atinge seu ápice na Inglaterra do século XVI, quando os senhores feudais começam a expulsar violentamente as famílias camponesas de suas casas e apoderar-se de suas terras, para transformá-las em pastos de ovelha, no processo histórico conhecido como “cercamentos” (enclosures). Sem ter como sobreviver, grandes levas de trabalhadores expropriados marcham para as cidades onde serão incorporados como assalariados na industrialização nascente.

Cabe-se perguntar até que ponto a expropriação camponesa na forma do comunismo de guerra e das fazendas estatais (kolkhozes e sovkhozes) constituíram um processo de acumulação primitiva em grande escada promovido pela ação do Estado. As antigas tradições do campesinato russo foram destruídas, os trabalhadores passaram a receber um salário (em espécie) e muitos camponeses migraram para as cidades onde foram compor a força motriz do desenvolvimento industrial do país.

6) O paradoxo do socialismo. De todas as teorias filosóficas o socialismo é a doutrina mais humanista. Privar ou dispor do destino da vida de alguém em nome de uma razão de Estado ou impor o aparato “impessoal” e monstruoso do Estado contra qualquer pessoa, como foi procedido pelo governo bolchevique, não é apenas igualar em hipocrisia às democracias liberais eurocêntricas, mas também negar a essência do socialismo e afirmar sua total impossibilidade. Bakunin soube colocar o problema de fundo ético melhor do que ninguém quando afirmou que, enquanto ainda existir um só escravo no mundo, nunca haverá de fato liberdade. Kronstadt poderia ter caído nas mãos dos brancos, mas nada indica que isso colocaria o governo em cheque ou que, ainda assim, os protestos de massa por todo país fossem mais inofensivos. Ao oprimir os marinheiros de Kronstadt, fuzilar soldados que não queriam lutar contra seus camaradas, condenar dissidentes a campos de concentração, os bolcheviques cruzaram a linha do humanismo e aniquilaram o sonho de um mundo melhor, justo e igualitário, que o socialismo ousou conceber para toda humanidade.

7) Excetuando as comunidades primitivas, nunca houve na história da humanidade uma civilização socialista. A Revolução Russa de 1917 - e a Chinesa também - seria muito melhor caracterizada como uma revolução burguesa, tal como ocorreu muito antes na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França. Longe de instituir o comunismo, a ditadura do proletariado foi o principal agente do desenvolvimento capitalista e da formação do Estado moderno na Rússia.

A única experiência social que mais se aproximou do ideal socialista foram as coletividades libertárias - muitas vezes, coorganizadas pela CNT-FAI - durante a Revolução Espanhola de 1936. Mais importante do que a Comuna de Paris, o processo de coletivização espontâneas na Espanha não tem merecido a atenção devida por parte dos estudiosos e mesmo dos anarquistas, apesar de todo o seu potencial transformador único e sem precedente na história contemporânea. As coletividades agrárias foram um fenômeno de grandes proporções que surgiu espontaneamente em todas as províncias da Espanha livre, abrangendo cerca de 400 comunidades em Aragão, 900 no Levante e 300 em Castela, onde o povo participava ativa e massivamente nas assembleias regulares (semanais, quinzenais ou mensais) para decidir sobre tudo o que se referia à vida produtiva e cotidiana. Embora não tão bem sucedida, também a indústria vivenciou um processo de coletivização realizada pelo controle de trabalhadores sindicalizados.

8)  Como já escrevi em outro lugar, lamentavelmente, o site Wikipédia vem propagando informações falsas ao atribuir ao líder da Rebelião de Kronstadt, Stepan Petrichenko, uma filiação ideológica ligada ao anarcossindicalismo. A fonte de tal informação é o artigo polonês “Naissaar: the Estonian “Island of Women” Once an Independent Socialist Republic” (Sowiecka Republika Wyspy Naissaar), de autoria de um certo Kazimierz Popławski. Não carecendo de qualquer referência bibliográfica, o artigo não merece qualquer credibilidade. Provavelmente, o autor confunde Petritchenko com Elfim Yarchuk, a ilha de Kotlin (Kronstadt) com a ilha de Naissar, a suposta “República de Naissar” com as notícias inverídicas de jornal sobre a “República de Kronstadt” e a Comuna de Kronstadt de 1917 com a Rebelião de Kronstadt de 1921.

Planeta Terra, 21 de dezembro de 2021

Jean Fecaloma