sábado, 4 de novembro de 2017

A ESTÓRIA DA RIQUEZA DO BRASIL


Mal o livro do sociólogo Jessé Souza “A elite do atraso: da escravidão à lava jato” saiu do prelo, a reação das elites não se fez por esperar, com a publicação de “História da riqueza do Brasil”, de Jorge Caldeira. O lançamento do referido livro não poderia ter sido mais bizarro: no televisivo Programa do Bial, e contou com a aparição de uma das figuras mais sinistras do mundo universitário. Quem? FHC. Elementar, meu caro Watson! O coronel tucano, que se tornou, graças aos dólares da CIA, via Fundação Ford, o “príncipe da sociologia (sic)”... quer dizer, “privataria”, foi convocado pelo intelectual de Big Brother... [pausa para rir]... Pedro Bial, numa das situações mais insólitas e patéticas da sociologia made in Brazil, para referendar o tal livro como, em suas palavras, um “clássico”. (Em se tratando de Fernando Henrique, melhor seria dizer crássico). Como se um livro se tornasse clássico, de um dia para a noite, por decreto, e prescindisse do debate intelectual, do tempo histórico, da repercussão acadêmica e social etc. etc. etc. Curiosamente, assim como o livro de Jesse Souza, o de Caldeira também se pretende revisionista, mas, sub-repticiamente, reforça todos os preconceitos da literatura canônica que “A elite do atraso” joga por terra. Na verdade, a “História da riqueza do Brasil” é uma total impostura. Nietzsche costumava criticar a tendência moderna em que o estilo jornalístico torna-se modelo de professores universitários como degeneração da cultura e da arte em entretenimento. Mas o que diria o grande filósofo alemão do marketing substituir a pesquisa acadêmica? É bem disso que se trata a “História da riqueza do Brasil”: uma obra de marqueteiro. Primeiro, porque o autor trata a velha econometria como se fosse uma grande novidade metodológica. Sim, o tal Jorge Caldeira relativiza a exaustiva pesquisa documental e deduz suas conclusões de preguiçosos modelos matemáticos e estatísticos. (Diga-se de passagem, nem os neoliberais da Escola Austríaca dão qualquer crédito à econometria, facilmente manipulável). Daí em diante tudo é permitido, como a singular afirmação de que os tupis eram empreendedores... (Desculpem-me, mas vou ter de usar de um expediente adequado a tamanha, digamos assim, trollagem: kkkkkkkkkkkkkkkkkk). Sim, pois, tais quais as inúmeras pérolas de FHC, nas palavras do autor, “tecnicamente, um catador de papelão é um empreendedor”. (kkkkkkkkkkkkk). Talvez, deva ter sido por isso que o capitalismo desenvolvido no Brasil nunca vingou, haja vista que, após o genocídio indígena, apenas 0,4 da população brasileira é atualmente composta por estes arrojados empreendedores nativos que, suponha-se, graças à catequese jesuítica (não a calvinista!), descobriram em si, no fundo de suas almas, o espírito capitalista na fumaça do cachimbo do pajé. Mas o genocídio é apenas um detalhe e racismo é tudo que não existe na sociedade brasileira, como todos nós, obviamente, sabemos! Continuando, segundo Caldeira, no Brasil, desde tempos imemoriais... sempre reinou a boa e velha democracia!... quer dizer, excetuando o “Estado Novo” (Getúlio). A julgar por esta afirmação, o voto de cabresto e de clientela é a mais pura definição de democracia e que Rousseau vai plantar batatas! Depois destes e outros disparates, que Marx chamaria de robsonadas e um historiador sério, anacronismos, o autor sustenta que, entre o fim do século XIX e 1970, o Brasil foi o país que mais cresceu economicamente no mundo e coloca todos os governos nacionalistas como responsáveis por desastres econômicos, ou melhor, as figurinhas carimbadas de Jango, Geisel, Lula e Dilma. Elementar, meu caro Watson! Na verdade, o livro de Caldeira segue a tradição que vai desde Joaquim Nabuco, Barão de Rio Branco e, claro, FHC, e, portanto, apregoa uma estreita dependência do Brasil aos EUA, sob o eufemismo de globalização. Outro argumento interessante é a afirmação de que, enquanto o executivo sempre foi instável, o parlamento sempre funcionou muito bem. Sem dúvida, com os milhões de reais pelos quais cada parlamentar recebe à surdina para legislar em causa própria e a favor da impunidade, nada poderia ser mais estável! Ora, se o executivo é frágil e o parlamento é forte, então presidente para quê? Sim, se você pensou no parlamentarismo, touché! Eis o programa completo do PSDB!!! Mas você deve estar se perguntando quem é esse Jorge Caldeira – e eu também me fiz essa pergunta – e a resposta, depois de muito procurar no Google, pode ser encontrada num verbete de cinco linhas da Wikipédia. Aqui vai o principal sobre o autor: “consultor do Projeto Brasil 500 Anos, da Rede Globo, editor-executivo da Revista Exame, editor do Caderno Ilustrada e da Revista da Folha, do jornal Folha de S. Paulo, editor de economia da Revista Isto É e editor da Revista do Cebrap” (Fonte: Wikipédia). Viu? Só gente fina. Quanto ao Cebrap, de FHC, é o caminho mais fácil para ser aprovado num concurso do prédio do meio... Ainda na entrevista ao intelectual de Big Brother Bial, o tal Jorge Caldeira mostrou-se alinhado com as reformas do governo Temer, e vangloriou-se por ter trabalhado 45 anos (o número não é apenas uma coincidência) e estar prestes a se aposentar com 50, contribuindo religiosamente a previdência social. (Evidentemente, FHC, em sua catedrática manifestação, omitiu o detalhe de que ele, FHC, se aposentou aos 37 anos). Esta afirmação de Jorge Caldeira é mais uma de suas sandices. Como se a atividade suave e bem remunerada de porta voz da mídia pudesse ser comparada ao trabalho suado e mal remunerado de um trabalhador braçal da construção civil, da metalurgia, da agroindústria canavieira, ou de motorista do transporte coletivo, ou mesmo professor do ensino público etc., etc., etc. O destino da miséria de a “História da riqueza do Brasil” já está traçado. Vai parar ao lado dos crássicos de seu mestre FHC: ninguém lê.

domingo, 15 de outubro de 2017

JESSÉ SOUZA E A ELITE DO ATRASO


Em “A elite do atraso: da escravidão à lava jato”, o sociólogo Jessé Souza defende a tese de que a elite brasileira, leia-se oligarquia, para assegurar seus privilégios, nunca teve compromisso com um projeto de desenvolvimento para o país. Segundo o sociólogo, com a ascensão da classe média nos anos 30, a elite tratou de capturar esta classe por meio de um acordo que visava somente garantir seus privilégios de classe dominante, em direta contradição aos interesses gerais da sociedade. Para isso formou um quadro de profissionais técnicos e especializados subjugados e oriundos da classe média, bem como açambarcou toda opinião pública, por meio do controle da imprensa e da formação de uma intelectualidade servil. É neste contexto que surge a USP, encarregada de elaborar o pensamento da formação da sociedade brasileira forjado sobre bases equivocadas – o patrimonialismo e o populismo – quando o que a caracteriza, de fato, é a escravocracia. Tal ideologia de verniz universitário contaminou toda a intelectualidade, sendo reproduzida indiscriminadamente tanto pela direita quanto pela esquerda, e desviou o foco dos verdadeiros problemas sociais. Sobre Sérgio Buarque de Hollanda e Raimundo Faoro, Jessé Souza em entrevista concedida ao vlog o Cafézinho não tem meias palavras: "Se você lê os caras (...) um liberalismo mais conservador, mais absurdo, mais pueril, mais superficial, mais mal feito do que desses caras, impossível!!!" (Jessé de Souza). 

É preciso muita coragem para um intelectual no Brasil criticar o totalitarismo desta igreja, denominada USP, que aqui chamamos de Santo Ofício Universal do Estado de São Paulo. Recusar-se ao beija-mão submisso, ao clientelismo autoritário, ao culto da autoridade, à reverência à hierarquia, ao assédio moral e até mesmo sexual, sob a sanção da USP, é o mesmo que ser excomungado de todos os círculos acadêmicos em âmbito nacional. Não é à toa que a USP é tão recalcitrante ao sistema de cotas, encontrando apoio até mesmo nos seus quadros de intelectuais supostamente de esquerda.

Jessé Souza é também autor de “A Tolice da Inteligência Brasileira” e “A Radiografia do Golpe” e pode ser considerado um dos intelectuais brasileiros mais importantes da atualidade. Portanto, o livro “A elite do atraso: da escravidão à lava jato” é imprescindível para entender a fundo as formas de dominação no Brasil, da produção ideológica e a própria sociedade brasileira, após cem anos de mentiras. Já é leitura obrigatória.

A ELITE DO ATRASO: DA ESCRAVIDÃO À LAVA JATO
Editora LeYa Brasil: São Paulo, 2017. (240 páginas).

domingo, 1 de outubro de 2017

A FAGOCITOSE DO CAPITALISMO

Como a ação das próprias leis conduz à catástrofe histórica do sistema capitalista


Alejandro Acosta

A lei do valor é o motor que regula o funcionamento da sociedade capitalista. Ela determina o fluxo e o refluxo dos capitais dos vários setores da economia, de acordo com a lucratividade.

Conforme Karl Marx demonstrou detalhadamente na sua obra prima, O Capital, o único gerador de valor é o trabalho humano. As máquinas são amortizadas e, nos procedimentos contábeis, simplesmente repassam, de maneira gradual, o investimento realizado como custo. Na circulação, no processo de compra e venda, os ganhos e perdas têm a tendência a nivelar-se. A fonte de lucro dos capitalistas é a mais-valia, a diferença entre os salários pagos e o valor criado pelos trabalhadores.

A concorrência leva a que a massa geral de mais-valia gerada na sociedade seja repartida de maneira tendencialmente homogênea entre os capitalistas, independentemente do ramo de atividades. Hoje, a taxa de lucro das operações industriais nos países desenvolvidos é extremamente baixa. Por esse motivo, o grosso das manufaturas têm sido transferido a países onde a mão de obra é, ou foi, na prática, semiescrava.

O lucro da GM, por exemplo, vem das fábricas localizadas na China e no Brasil e, ainda mais, do Banco GM que participa, em larga escala, da especulação financeira, vendendo, comprando e apostando em títulos públicos e privados, inclusive os derivativos financeiros que, entre outros, contêm os títulos dos financiamentos de automóveis.

As bolhas financeiras quando estouram têm como finalidade, própria do funcionamento do capitalismo, ajustar as taxas de lucro à média, como pode ser visto claramente na crise financeira de 2008 e como poderá ser visto nas bolhas que deverão estourar no mundo todo no próximo período. O inacreditável volume de capital fictício acumulado no mundo, devido à falta de colocação produtiva, torna esse processo muito mais explosivo.

Ao mesmo tempo, as multinacionais imperialistas impõem preços de monopólio e por meio do controle do estado burguês passaram a controlar todos os aspectos da sociedade burguesa.

A LEI DA TENDÊNCIA À QUEDA DA TAXA DE LUCRO

A concorrência entre os capitalistas conduz à procura pelo aumento da produtividade e à redução de custos, mediante a implementação de novos processos e da automação industrial, em cima de máquinas mais modernas, o que leva à redução do número de trabalhadores. Por esse motivo, a mais-valia extraída apresenta a tendência a cair o que provoca a queda dos lucros que representam o motor da economia capitalista.

Na tentativa de conter a ação da lei, os capitalistas aumentam a intensidade do trabalho, reduzem os salários, por meio de processos de terceirizações, promovem ataques por meio dos programas de austeridade e usam trabalho escravo em proporções nunca antes vistas nos últimos séculos.

Mas todas essas tentativas não conseguem abortar a ação da lei, apenas a contem temporariamente. Ela provoca o aumento das lutas operárias. Na China, por exemplo, o salário médio dos trabalhadores passou de US$ 30 na década de 1980, para mais de US$ 400 nas principais cidades do país. No Vietnam, que se pretendia que substituísse, parcialmente, à China, nos últimos seis anos, os salários passaram de US$ 45 para US$ 100. Agora, os monopólios tentam, sempre com “mais do mesmo”, a mesma operação na Birmânia.

A tentativa de agilizar os processos de vendas e a diminuição dos estoques, para acelerar a rotação do capital, tem se chocado com o crescente empobrecimento das massas. A crise de superprodução está na base da crise capitalista atual. O aumento exponencial do crédito, em cima de recursos públicos, está levando o mundo inteiro a enormes bolhas financeiras. No Brasil, o “modelo de crescimento Lula” se esgotou e deixou como saldo a disparada da inadimplência em níveis históricos, com o governo fomentando-o ainda mais devido à falta de alternativas.

A desvalorização do capital constante empregado (principalmente, as máquinas e equipamentos) e, fundamentalmente, a crise capitalista, que leva à destruição em larga escala das forças produtivas permitem, junto com superexploração dos trabalhadores, que os mecanismos capitalistas não engripem. Ao mesmo tempo, as crises aumentam as compras e consolidações, reforçando ainda mais a monopolização da economia. O grosso da competição agora se processa em escala mundial por grandes multinacionais imperialistas que, na disputa do mercado mundial, levam o parasitismo a níveis absurdos, além de impulsionarem o militarismo e as guerras.

O AUMENTO DA INTERVENÇÃO DO ESTADO BURGUÊS NA ECONOMIA

O principal mecanismo que permitiu ao capitalismo superar a depressão da década de 1930 foi a escalada da intervenção do estado burguês na economia. O keynesianismo foi a corrente da economia burguesa que deu corpo teórico à necessidade do estado promover investimentos com o objetivo de servir como motor da economia. Os gastos militares dispararam e se estruturou o chamado complexo industrial militar nos países desenvolvidos que disparou o parasitismo em cima dos recursos públicos pelas multinacionais.

A crise capitalista de 2007-2008 enterrou o papel redentor do estado burguês, que agora aparece como o grande concentrador da crise capitalista mostrando o crescimento, nas entranhas da velha sociedade, da nova sociedade socialista. O gigantesco e crescente endividamento público demonstra que as crises não reciclam o capitalismo. Elas permitem a continuidade do funcionamento, mas ao custo do contínuo enfraquecimento. A comparação que ilustra graficamente este fenômeno seria o envelhecimento de um ser humano que na velhice continua vivendo, mas com doenças, e turbinado com remédios e pontes de safena.

Trata-se de um conteúdo cada vez mais parasitário e podre protegido por uma casca que é o estado burguês. O papel histórico da revolução proletária, que representa o último ato da evolução histórica do capitalismo, reside na destruição dessa casca e na expropriação dos meios de produção do punhado de parasitas financeiros que domina o mundo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

EXCLUÍDOS DIGITAIS

Se você está assustado com tanto ódio na internet, talvez os dados abaixo o ajudem a entender um pouco a origem dele.

Segundo pesquisas por domicílios realizadas por diversos institutos de pesquisa, dentre os quais o PNAD-IBGE, no Brasil em 2015:

54,9% domicílios estavam conectados à internet. Equivalente a 102 milhões de habitantes (a população total do Brasil é de 190 milhões de habitantes).

- Perfil dos internautas por classe social:
Classe A: 95%;
Classe B: 82%,
Classe C; 57%;
Classe D/E, 28%.

- Domicílios conectados à internet por região:
Sudeste: 17,4 milhões de domicílios conectados e 11,7 milhões desconectados.
Nordeste: 7 milhões de domicílios com internet e 10,5 milhões sem internet.
Região Sul: 5,4 milhões conectados e 4,9 milhões desconectados.
Centro-Oeste: 2,5 milhões com internet e 2,7 milhões desconectados.
Norte: 1,9 milhões de domicílios conectados e 3,1 milhões desconectados.

- Domicílios que têm computador, por classe social:
Classe A: 99%;
Classe B: 84%;
Classe C, 47%;
Classe D/E: 13%.

Os celulares passaram a ser o único telefone de 58% das casas brasileiras. O fenômeno é mais forte nas regiões Norte (74,7%) e Nordeste (72,8%).

- Estudantes:
Rede privada: 97,3%.
Rede pública: 73,7%.

- Por rendimento:
92,1% das pessoas que ganham mais de 10 salários mínimos acessaram a internet.
32,7% das pessoas sem rendimento ou que ganham até um quarto do salário mínimo acessaram a internet.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

REVOLUÇÃO 4.0 OU A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


A Quarta Revolução Industrial, de Klaus Schwab

Supercomputadores móveis, cada vez mais onipresentes. Robôs inteligentes. Carros autoguiados. Aperfeiçoamento do cérebro através da neurotecnologia. Manipulação genética. São algumas das evidências de uma mudança dramática que está ocorrendo à nossa volta a uma velocidade inimaginada.

Autor do livro “A quarta revolução industrial” (The Fourth Industrial Revolution), o professor alemão Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, há mais de quatro décadas envolvido nos assuntos de interesse global, está convencido de que estamos no início de uma nova revolução industrial que vem mudando fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

As revoluções industriais anteriores libertaram a humanidade das limitações naturais, possibilitando pela primeira vez a produção em massa e a aproximação de milhares de pessoas por meio da rede internacional de computadores. A Quarta Revolução Industrial é, no entanto, profundamente diferente, pois se define por uma série de inovações tecnológicas que estão diluindo as fronteiras entre o mundo físico, a robótica e a biologia, o que alteraria drasticamente a ciência, a economia, a produção e até mesmo as ideias sobre o que é o ser humano.

Conforme o autor, estas mudanças poderiam indicar uma nova era extremamente promissora para a humanidade. O desenvolvimento atual produziu um enorme potencial tecnológico para unir milhões e milhões de pessoas ao redor do planeta, melhorou drasticamente a eficiência das instituições e organizações sociais, além de gerar ativos para a regeneração do meio ambiente devastado pelas revoluções industriais anteriores.

Entretanto, Schwab aponta muitas reservas, algumas perturbadoras. Segundo ele, é muito provável que as instituições sociais não estejam prontas para se adaptarem às rápidas mudanças em curso; os governos poderão negligenciar o emprego e a regulamentação das novas tecnologias na economia, o que afetaria o desenvolvimento econômico; as inconstâncias políticas poderiam criar instabilidades à segurança mundial; a desigualdade poderá aumentar ainda mais; e as sociedades tenderiam a se fragmentar.

No livro, o autor delimita a nova revolução ao contexto histórico atual e detalha as principais tecnologias que impulsionaram as transformações, discutindo seus impactos no cenário político, empresarial, social e mesmo na esfera dos indivíduos, sugerindo respostas para enfrentá-los. No cerne de sua análise está a convicção de que esses impactos podem estar sob o controle da humanidade desde que se fomente um dialogo interdisciplinar entre as diversas áreas do conhecimento e, daí, aproveitar as oportunidades surgidas das propostas vislumbradas.

Neste sentido, Schwab faz um apelo para que todos diversos setores da sociedade e da política “se unam para construir um futuro comum, colocando as pessoas acima de tudo, pois, lembra o autor, que a tecnologia é, antes de mais nada, uma ferramenta criada por pessoas para pessoas”.

Entender como a humanidade pode se beneficiada e superar os desafios desta revolução foi o tema principal da reunião anual do Fórum Econômico Mundial em 2016, realizado justamente sob o lema "Controlar a Quarta Revolução Industrial".

Os dados das pesquisas de grande amplitude, as grandes ideias e o conhecimento das redes globais, por líderes empresariais, governamentais, da sociedade civil e de jovens líderes, no Fórum Econômico Mundial, é analisado em profundidade pelo livro, numa perspectiva de como a humanidade pode assumir a responsabilidade coletiva de garantir um futuro melhor para todos.

NOTA DO BLOG: Se a teoria das etapas da Revolução Industrial já é em si bastante controvertida, o que pensar então de uma nova fase industrial? Mais estranho ainda é quem propõe a ideia: o Fórum Econômico Mundial. A questão principal é saber por que o Fórum Econômico Mundial trabalha com esta hipótese, que poderia ser compreendida como uma agenda capitalista com fins estratégicos e de mercado. Por isso o tema foi postado, porque se entende que, falso ou verdadeiro, o assunto é atual e fomenta o debate num terreno teórico tão movediço. Mas vindo de quem vem, não pode ser boa coisa.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

LULA: CULPADO OU INOCENTE? NA OPINIÃO DE UM ANARQUISTA


Por João Monti

Todas as manchetes dos jornalões do país repercutiram – com júbilo disfarçado – a sentença condenatória do juiz Sérgio Moro no processo do qual Lula é réu com a seguinte frase: pela primeira vez na história do Brasil um ex-presidente da república foi condenado pela justiça.

O que é surpreendente, em se tratando de um país onde a corrupção é regra e não exceção!

Não apenas surpreendente, revela um significado de cunho perverso próprio da realidade brasileira. A questão correta deveria ser: por que na história do Brasil apenas um presidente foi condenado por corrupção?

Pouco surpreendente, por sinal, é a sentença de Lula, que nada tem a ver com corrupção.

Lula foi condenado porque, como tantos outros brasileiros condenados, é de origem pobre. Não é de hoje que o senso comum reza o velho adágio, de tão verdadeiro: no Brasil, só vai para a cadeia pobre, preto e mulato. As oligarquias burguesas do sudeste “branco” jamais engoliram a presença de um trabalhador, nordestino e ex-retirante, no mais alto cargo mandatário do país. Por isso, estas elites, de mentalidade escravocrata, exigiam punição exemplar a Lula.

Lula foi condenado e seus bens confiscados. Para a casa grande, não basta apenas esquartejar, é preciso salgar a terra e amaldiçoar até a terceira e quarta geração.

Se então a condenação de Lula já era um pressuposto, qual o pretexto para justificá-la?

Ao que parece, seu crime foi ter supostamente comprado um apartamento triplex no decadente Guarujá. Pelo menos, este é o entendimento da maior parte da população. E a plebe faz coro aos senhores: Que ousadia, um ex-metalúrgico, um reles trabalhador, como nós, comprar um triplex! Nada mais odioso, um pobretão querer dar uma de magnata. Pobre é pobre... Rico é rico... Como água e óleo.

E assim o povo esbravejou: o apedrejamento, em praça pública!

Para quem tem um pingo de inteligência e não é muito invejoso, esse argumento não convence.

Na verdade, para configurar crime a suposta compra do apartamento, Lula deveria oferecer em contrapartida vantagens indevidas à empreiteira OAS, receber propina em troca e usar o imóvel para lavar dinheiro. Isso nunca foi comprovado durante o processo. Na sentença, apenas suposições e indícios (ou como disse o juiz, “provas indiretas”). De fato, Moro se valeu do depoimento de duas testemunhas (ignorando dezenas de outras que inocentavam Lula) para condenar o ex-presidente. No direito, o testemunho é a prova de menor credibilidade, a prova mais frágil, no jargão preconceituoso da advocacia, é a prostituta de todas as provas. Conheci um rapaz que teve problemas na justiça e comprou cinco testemunhas com garotas de programa. É abominável, mas é verdade. Resultado da sentença: ele foi absolvido, mesmo sendo culpado. Portanto, a condenação de Lula, que deverá ser confirmada em segunda instância, carece de qualquer fundamentação jurídica. (Acredito até que Lula poderá ser absolvido no Supremo, mas até lá já vai estar fora do páreo eleitoral e condenado em outros processos).

Assim, se paira alguma sombra de dúvida, no direito vale a máxima de Voltaire: Mas vale absolver um culpado do que condenar um inocente.

É ingênuo, no entanto, creditar ao judiciário a faculdade de justiça. O poder judiciário não é nada mais do que uma instância superior de polícia e, como tal, tem função de reprimir o povo, em defesa das classes endinheiradas. O direito é uma ficção, não é ciência, não é lógica, e está sujeito à interpretação de pessoas passíveis de crenças, paixões, convicções, ideologias políticas etc. Programas de computadores poderiam julgar com muito mais imparcialidade, rapidez, eficiência e, o que é extraordinário, a custo quase zero.

Todavia, o que seduz o poder judiciário não é o ideal da justiça, não sejamos ingênuos, mas o dinheiro, que faz pender o fiel da balança sempre para o lado dos cifrões. Não é à toa que escritórios de advocacia ganham tanto, geralmente driblando a lei, e a magistratura constituir-se por uma casta de marajás acima da lei.

A “justiça” está a serviço dos grandes interesses econômicos e do Estado, que, por sua vez, serve a estes.

Mas, se a estrutura é tão fechada, então por que deixaram Lula chegar à presidência da república e não mataram a erva daninha pela raiz?

Porque, apesar de tudo, Lula nunca foi um rebelde.

Lula fez nome não como um revolucionário, ao modo de um Che Guevara, mas como um grande apaziguador, um mediador, um negociador dos interesses do patronado e do operariado.

Na política, Lula acreditou que poderia conciliar classes antagônicas, através de um governo de frente popular capaz de realizar um pacto social, e sempre julgou contar com a benevolência da mídia monopolista. Afinal, Lula nunca foi comunista. Basta analisar sua trajetória de vida, suas declarações, entrevistas, mesmo nos anos 80. Vide seus filhos: todos optaram por ser patrão, não empregado. Nenhum deles militou em causa dos trabalhadores. Mesmo Lula chegou a ser um empresário bem sucedido. Sua empresa de palestras e eventos, a LILS, faturou entre 2011 e 2015 27 milhões de reais, realizando palestras no mundo todo, que chegavam ao valor de 300 mil a 800 mil reais (todas declaradas à receita federal), tendo por clientes as empreiteiras Odebrecht, OAS, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, UTC Engenharia e Queiroz Galvão, os bancos BTG Pactual, Itaú, Bancomer e Bank of America, as cervejarias Ambev e Petrópolis, além das empresas Microsoft, Grupo Globo, Nestlé, LG Electronics, Pirelli, Lojas Americanas, entre outras. (Perto do que a empresa de consultoria do Ministro Henrique Meirelles faturou apenas no ano de 2016, R$ 217 milhões de lucro, dos quais 50 milhões aplicados no exterior, tendo entre clientes a JBS [Friboi], a empresa de Lula é café pequeno. Mas, claro, vão dizer os moralistas, Meirelles recebeu honestamente, assim como FHC e suas palestras; já com Lula... é propina. Quer saber, só tonto acredita nisso).

É possível compreender um Lula deslumbrado por ter se tornado um novo rico. Mas ainda assim, um rico modesto. Nada de apartamentos na avenida mais cara de Paris, fazendas, contas na Suíça, empresas de fachada, malas de dinheiro...

Sem dúvida, em determinado momento, Lula era útil.

Lula jamais quis mudar nada. Para Lula, não importa que os bancos tenham lucros recordes e a classe média ganhe muito dinheiro se em compensação os trabalhadores puderem se reunir no domingo para assistir uma partida de futebol e, depois, fazer um churrasquinho na laje, regado a muita cerveja e ao som de uma boa batucada de samba. Na mentalidade de Lula, os pobres se contentam com pouco e todos podem ganhar cada um ao seu modo. Lula é, na verdade, um defensor de um capitalismo soft.

O próprio PT, um partido de dirigentes burocratas, brancos, de classe média alta ou ricos, como o playboy Haddad, entre outros, sem um único trabalhador de fato, com exceção de Lula (e Vicentinho), e uma legião de filiados sem nenhuma expressão, verdadeiro curral eleitoral, abandonou totalmente a bandeira da ética, que o estigmatizou nos anos 80, e participou de toda sorte de falcatruas em nome da permanência no poder e da governabilidade, isto é, da manutenção do establishment. Aparelhando os movimentos sociais e esvaziando suas reais reivindicações, por meio de programas sociais baratos, cargos e favores, em nenhum momento o PT pôs em questão a derrubada do capitalismo. Ao contrário, tentou encarnar um projeto desenvolvimentista estrangulado pelo capital rentista e fomentou um capitalismo como há muito não se via por estas bandas. Nem é preciso fazer menção ao fato do governo PTista não ter feito as reformas agrária, urbana, política – fim do financiamento de campanha e paridade entre os partidos – e tributária – taxação dos mais ricos –, a auditoria da dívida pública, o fim dos super salários de funcionários públicos etc. O PT fez aquilo que podia fazer no contexto da democracia burguesa. Ficar amargurando o que os governos de Lula e Dilma poderiam ter feito e não fizeram, como a lei de mídia, é meramente especulativo. Ao contrário, o fato é que o governo Lula salvou o Grupo Globo da falência, injetando dinheiro público, via BNDES, na empresa. No máximo, o PT é um partido reformista, dentro dos limites rígidos do Estado de bem estar social em um país de economia dependente, como o brasil.

O que pode escandalizar a classe média de direita e anticomunista é que o projeto PTista em essência é o mesmo dos neoliberais, evidentemente, sem o conteúdo moralista da meritocracia, a saber, pressupõe a utopia do mercado como solução para resolver todos os problemas da humanidade e do universo.

Agora pensemos por um outro ângulo. Mesmo sem provas e supondo-se, no entanto, que os indícios na sentença realmente indicam que Lula praticou crime, embora sem ter deixado rastros, será que isto é motivo para o perseguirem unicamente? Pois, se de fato houvesse um combate à corrupção no Brasil, não iria sobrar uma única instituição e empresa de pé. E, se tal comparação tiver algum valor ilustrativo, Lula seria como um batedor de carteira se comparado a outros políticos e notórios empresários, verdadeiros assaltantes de banco.

Seja como for, Lula é apenas um bode expiatório, que deve ser exterminado, para purgar todas as culpas da hipócrita sociedade brasileira.

Diante de tudo que foi dito, cabe ainda mais uma pergunta: se Lula agradava a gregos e troianos, então por que condená-lo?

A marolinha de 2008 com o tempo se tornou um tsunami devastador, e diante da grave crise, os setores que realmente mandam no país, em ato de desespero, abriram a caixa de pandora, de onde saiu uma legião de demônios, para tentar salvar os seus estimados lucros. Alguém tinha de pagar essa conta e, como diz o dito popular, a corda sempre quebra no lado mais fraco: os trabalhadores, para não variar, foram os escolhidos mais uma vez.

Portanto, um governo conciliador perdia a razão de ser.

Daí por diante, ao som das panelas enfurecidas, atropelou-se tudo, para a desilusão daqueles que acreditavam que, enfim, no Brasil, as instituições estavam funcionando. A presidenta Dilma foi afastada por um imbróglio político-jurídico que ninguém entendeu; enquanto os usurpadores, mesmo flagrados com malas de dinheiro e em conversas mafiosas grampeadas, dão as cartas no congresso, com o apoio do STF e da complacência das, agora, condescendentes classes médias.

Eis, o coup d’état de 2016: a máscara da democracia liberal cai e uma escrachada pornochanchada bem brasileira, típica de uma republiqueta das bananas, bem ao gosto das comédias hollywoodianas, dá sonoras gargalhadas macunaímicas.


Na verdade, na verdade, não interessa se Lula é corrupto ou não, a justiça e a política venais, a impunidade dos poderosos ou mesmo a conjuntura atual, de Estado de exceção e arrocho aos trabalhadores. O sistema é podre. Não tenhamos ilusões. Num mundo em que em que somente oito homens (Bill Gates, Amancio Ortega, Warren Buffett, Carlos Slim, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Ellison e Michael Bloomberg) concentram uma riqueza equivalente a mais da metade da população mundial (3,6 bilhões de pessoas) e 1% da população detém de uma renda compatível a dos 99% restantes, considerando-se que pelo menos 2,2 bilhões de pessoas vivem em estado de pobreza (um bilhão em estado de miséria extrema), não é apenas injusto, é moralmente deplorável. A corrupção não vai parar enquanto isso não mudar.

Mas Lula ainda merece a minha sentença.

Voltemos, enfim, à pergunta que intitula o texto.

Lula: culpado ou inocente?


Veredito: Inocente, daquilo que lhe acusam. Culpado, por ter se aliado àqueles que agora lhe acusam.