terça-feira, 1 de maio de 2018

ALIENAÇÃO (PARTE 1): O TRABALHO ALIENADO


O trabalho alienado


por Jean Pires de A. Gonçalves

Vimos mais acima, no exame dos textos de Kurz: se somente as categorias da modernidade são perfeitamente discerníveis, pois são inerentes à consciência fetichista, então a sociedade do fetiche moderno é a mais transparente de todas as outras que a precederam até agora [primeira aporia]; e se toda atividade como abstração real subordinada ao capital (ou à representação do fetiche moderno) é trabalho abstrato, então não cabe rigorosamente o termo trabalho (tanto no sentido da palavra como do conceito). E se, da mesma forma, trabalho é hipostasiado enquanto categoria da consciência fetichista desconectada da prática real (abstração de dispêndio de energia), então não cabe tampouco o conceito de trabalho, porque é apenas uma figura de linguagem. Esta é a segunda aporia que se encontra na crítica categorial, à qual faz do conceito de trabalho estranho ao próprio conceito.

Como se desembaraçar desta aporia?

(...) Marx mostra como o conceito de trabalho (social) só poderia nascer e ser formulado em certas condições históricas. Seria preciso que a divisão do trabalho houvesse atingido alto grau e que os trabalhos parcelares constituíssem, praticamente, um vasto conjunto, a saber o próprio trabalho social. Anteriormente, os homens (escravos, camponeses, artesões) trabalhavam. Mas, não se sabia disso, não se levava isso em conta na filosofia e nos discursos sobre o homem. As primeiras invenções de máquinas (e não apenas de utensílios) deixam entrever, ao mesmo tempo, a longínqua possibilidade de uma emancipação do homem em relação ao trabalho, do qual a máquina se incumbiria. O conceito de trabalho acompanhou as premissas do não-trabalho (LEFEBVRE, 1967, p. 104).

O caráter histórico e dialético do trabalho supõe e pressupõe seu contrário. O trabalho enquanto atividade humana pode se manifestar num sentido extremamente genérico: o trabalho de um escultor, de um artista, por exemplo. O trabalho exclusivamente em sentido econômico fragmenta sua totalidade. É neste sentido que um modo toma o lugar do “ser”; uma parte, do todo (metonímia). Neste sentido, o que se quer demonstrar nesta seção é como o trabalho se defronta contraditoriamente em relação ao capital (trabalho morto).

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Não é incomum em diversas situações do cotidiano ouvirmos alguém dizer: “fulano de tal é alienado”. Embora não seja uma expressão usual, a palavra alienação tampouco está restrita a um círculo de eruditos ou especialistas. O significado literal da palavra é simplesmente alheio, e num sentido lato, ceder, transferir, alucinar. No repertório jurídico, alienação é venda ou cessão de um direito ou bem. A partir do século XVI, o termo designava loucura; pressupunha-se um estado patológico: “desordem ou perturbação mental”. Identificavam-se no comportamento individual manifestações excêntricas ou um alheiamento não só da realidade objetiva exterior ao indivíduo, mas de seu próprio “ego”: o lunático fora de si. O conto “O alienista”, do grande literato brasileiro Machado de Assis, dá uma ideia bem humorada desse sentido. No conto, Simão Bacamarte é um alienista (hoje psicólogo, psiquiatra, assistente social etc.) que ao chegar à cidadezinha de Itaguaí, carregando consigo as mais altas aspirações libertadoras do “homem da ciência moderna”, passa a examinar compulsivamente todos os habitantes da cidade. Após constatar desvios de conduta em todos eles, toma a drástica decisão de interná-los um a um no manicômio municipal. Mas é no desfecho da trama que se dá uma surpreendente reviravolta. Sendo o protagonista da história o único “normal” da cidade, sua normalidade não podia ser normal (pois estava fora da média). Assim, Bacamarte deduz sensatamente que, num mundo de alienados, sua própria lucidez era loucura e, por isso, depois de libertar todos os seus pacientes, toma a sábia decisão de internar ele mesmo no hospício, encerrando assim o conto. (Machado de Assis já fazia crítica dialética do iluminismo!).

Num outro sentido, mais atual e corriqueiro, o termo alienação também é sinônimo de inconsciência política. O que a princípio deve ser uma forma de falsa consciência ou indiferença a assuntos políticos inerentes ao ser social (como no poema de Bertold Brecht, “O analfabeto político”). O termo se difundiu principalmente pelas correntes políticas de esquerda, que vulgarizaram o sentido de alienação em Marx, e, com base nela, se auto-intitularam libertadores do povo inconsciente das trevas do capitalismo. Para tanto, imbuídos das mais atas aspirações do socialismo científico, fundaram um partido de vanguarda que submetia seus epígonos a uma rígida disciplina e uma hierarquia que devia ser obedecida cegamente. O desfecho desta história? É por demais conhecido...

Feita esta pequena introdução ilustrativa, sobre alguns aspetos distintos da palavra alienação, avisamos que evidentemente não faremos aqui uma discussão do conceito de alienação na história da filosofia, onde o tema é recorrente, desde Rousseau, Hegel, Feuerbach e tantos outros. O que nos interessa é o sentido de alienação em Marx e, principalmente, nos seus Manuscritos econômico-filosóficos (1844); pois diz respeito à negatividade do trabalho no capitalismo. Logo de início, de nossa leitura de os Manuscritos, encontramos, porém, um problema suscitado pela tradução da palavra alemã alienação, que, dentre outros vocábulos menos usuais, oscila entre os termos Entfremdung e Entäusserung. O problema surgiu, para nós, recentemente com a tradução quase textual dos Manuscritos econômico-filosóficos por Jesus Ranieri (2004). Ranieri deteve-se cuidadosamente nestes termos distintos que até então eram traduzidos para a língua portuguesa somente por alienação. O tradutor e comentador expõe o problema assim:

Tentei ser o mais fiel possível ao texto original, procurando garantir a permanência de expressões coloquiais, assim como (bem mais difícil) daqueles termos que denotam o vínculo intelectual de Marx com o idealismo alemão, principalmente com a filosofia de Hegel. (...) Em primeiro lugar, é preciso destacar a distinção sugerida, nesta tradução, entre alienação (Entäusserung) e estranhamento (Entfremdung), pois são termos que ocupam lugares distintos no sistema de Marx (MARX, 2008, p. 15, os grifos são nossos).

Não ficamos muito satisfeitos com a interpretação dos termos de alienação em Ranieri, e resolvemos nós mesmos debruçar sobre o problema.

Segundo a nossa leitura dos “Manuscritos de 1844”, da edição traduzida pelo mesmo Ranieri, realizada em grupo, como já foi explicitado em nota na apresentação desta pesquisa, para nós a distinção dos termos Entäusserung e Entfremdung não é tão marcante a ponto de “ocuparem lugares distintos” mas dignas de observação e atenção. Ambos os termos se tocam reciprocamente, o que, porventura, não é, a nosso ver, incorreto do ponto de vista da língua vernácula designar a palavra por alienação somente, como comumente se fez até então, desde que a referida distinção seja levada em conta o tempo todo em sua relação dialética. Deste modo, a análise dos termos é indispensável, ou seja, do que se quer tratar e se mencionar, para, em seguida, reabilitar o termo vulgar. Por isso, o exame do sentido da palavra obrigou-nos a tarefa de consultar colegas que estudam a língua alemã[1] e mesmo dicionários (algo que gostamos muito de fazer)[2], antes de abordar diretamente o assunto.

Evidentemente, os Manuscritos, considerados um livro filosófico de Marx, são tributários do debate em torno da obra de Hegel, e daí a relevância da alienação, haja vista que o conceito ocupa lugar central na obra deste filósofo. Michael Inwood, em seu “Dicionário Hegel”, inicia o verbete “alienação”, sobre o dilaceramento da consciência, do seguinte modo: Hegel usa duas palavras para “alienação”...

1. Entfremdung corresponde a entfremden (“alhear”), de fremd (“alheio”). No Alto-Alemão médio (isto é, dos séculos XII a XV), referia-se a tomar ou roubar os bens de uma pessoa e também à alienação mental, especialmente o coma ou estupor. Mas passou mais tarde a indicar, primordialmente, o estranhamento ou a desavença entre pessoas. 2. Entäusserung corresponde a entäussern, “tornar exterior ou externo (ausser)[3]”, e significa “renúncia” ou “despojamento”. (Hegel usa Entäusserung, mas não Entfremdung, para se referir à alienação, isto é, ao ato de despojamento voluntário dos próprios bens). Outras palavras na mesma área são: Entzweiung (de zwei, “dois”), “bifurcação”, “desunião”; Zerrissenheit (de zerreissen, “rasgar, dilacerar, desmembrar, desligar”), “desmembramento”, “desconjuntura”; Zwiespalt (também de zwei), “discórdia”, “conflito”, “discrepância”; Diremtion; e Trennung, “separação” (de trennen, “separar”). (...) Hegel não usa a palavra Entfremdung antes da “Fenomenologia do Espírito”, mas vários de seus escritos anteriores prenunciam seus pontos de vista posteriores. (...) A alienação é descrita e de forma sumamente vigorosa na “Fenomenologia do Espírito” mas tanto as palavras quanto as ideias são importantes em obras posteriores de Hegel. Entretanto, a sua importância e até a sua presença foram virtualmente ignoradas pelos estudiosos de Hegel antes do aparecimento das análises de Marx de Entfremdung e Entäusserung em seus “Manuscritos filosóficos” de 1844, mas publicado primeiro em alemão em 1932, e inglês em 1959. (INWOOD, 1997, pp. 45-47).

Feita esta consideração, dá para se ter uma ideia da relação estreita dos termos colocados e da dimensão do problema em se verter palavras de uma língua estrangeira (germânica) para uma outra (latina). Entretanto, a tarefa não é impossível.

A palavra portuguesa alienação parece conter os dois sentidos, o de Entäusserung como o de Entfremdung, isto é, tanto de “sessão de”, “despojamento”, como também “arroubamento de espírito”, “alheamento”, “indiferença”, “estranheza”, etc. Mas a distinção é, em se tratando de um estudo conceitual, necessária sim, pois, descreve momentos dialéticos ou a passagem de um termo no outro e vice-versa. A partir disso, estabeleceremos aqui a seguinte definição: Entäusserung, isto é, expressão (sair, pressão para fora); produção significativa que tende a deformar ou exagerar a realidade (transformação). E Entfremdung: estranhamento (esquecimento), ou melhor, aquilo que é diferente, que foi tirado (arrancado, roubado), esquecido como seu e, portanto, tornou-se estranhamente hostil. Neste sentido, tudo que se expressa em um meio externo é de certa forma estranho; diferente daquele interior que saiu num e por um outro, que impressiona. Partindo-se disso, é possível refletir, sociologicamente, sobre uma determinada manifestação humana que se expressa ou produz algo, que lhe é estranho – o interior que ao se tornar interior num objeto externo torna-se outro, portanto, diferente. Mas que, num momento posterior, impressiona e é reconhecido como próprio – interior-exterior –, isto é, re-apropriado, interiormente. Já o estranhamento, ou melhor, o esquecimento, é quando algo que sai de si não retorna, ou não é re-apropriado novamente, mas aparece (e parece) totalmente desconhecido e hostil. Consideremos um exemplo: uma cadeira é um objeto produzido por mãos humanas; ela tem uma forma – forma humana –, pois, ela é feita para sentar, mitigar o cansaço; ela tem uma estrutura, pode ser feita de madeira, plástico etc. (material estranho ao corpo humano); e ela tem uma função, quando cumpre a finalidade de aliviar o cansaço: ela é re-apropriada. Todavia, se a cadeira, por ventura, não cumpre os fins de sua forma, quaisquer que sejam eles, ela se torna totalmente estranha, desconhecida e mesmo hostil, ainda que intimamente possua a forma humana. O que a torna algo estranho (seu Eu objetivado), ameaçador: um inimigo de si mesmo. Esta é uma questão que nos propomos tentar responder através dos Manuscritos:

O homem só não se perde em seu objeto se este vem a ser como objeto humano ou homem objetivo. Isto só é possível na medida em que ele vem a ser objeto social para ele, em que ele próprio se torna ser social (gesellschaftliches Wesen), assim como a sociedade se torna ser (Wesen) para ele nesse objeto (MARX, 2008, p. 108).

Distinguindo-se o ser social do ser natural, lemos: o homem só não se perde em seu objeto se este vem a ser objeto humano (...). O que significa perder-se em seu objeto? Perder este objeto que não é senão aquele que perdeu: perder-se a si mesmo e em si mesmo. Contudo, o objeto é reencontrado se vem a ser objeto humano ou homem objetivado. Se retomarmos o exemplo da cadeira, diríamos que ela é objeto humano ou homem objetivado re-encontrado. Neste sentido, os termos hegelianos de alienação são retomados por Marx nos Manuscritos num sentido antropológico, porém, sem abandonar a dialética. O pensamento dialético é fundamental aqui. Nos Manuscritos, Marx indaga diante do problema lançado pelo idealismo objetivo: “o que fazer diante da dialética hegeliana?”.

A grandeza da fenomenologia hegeliana e de seu resultado final – a dialética, a negatividade enquanto princípio motor e garador – é que Hegel toma, por um lado, a autoprodução do homem como processo, a objetivação (Vergegenständlichung) como desobjetivação (Entgegenständlichung), como exteriorização (Entäusserung) e supra-sunção (Aufhebung) dessa exteriorização; é que compreende a essência do trabalho e concebe o homem objetivo, verdadeiro, porque homem efetivo, como resultado de seu próprio trabalho (ibidem, p. 123).

Marx reconhece a grandeza da obra de Hegel (Fenomenologia do espírito) e de sua ideia da constituição do humano pela própria atividade humana, isto é, o sentido já tantas vezes referido aqui de produção ampla. É por sua própria atividade (“essência do trabalho”) em relação à natureza (o mundo) que o ser humano se constitui objetivamente. Todavia, a “essência do trabalho” em Hegel é a do trabalho da consciência que se exterioriza num mundo estranho a si e o reencontra como consciência-de-si. Portanto, a atividade, em Hegel, se dá apenas no plano do pensamento, nas palavras de Marx, ao “homem enquanto egoísta abstrato” (Ibidem, p.125); isto é, somente subjetivamente. Todavia, Hegel abstrai de tal atividade que ela é realizada por um ser objetivo em relação a uma realidade objetiva, o que vale dizer que “um ser não-objetivo é um não-ser” (Ibidem, p. 127).

Quando ele [Hegel] apreendeu, por exemplo, a riqueza, o poder de Estado etc. como a essência estranha da essência humana, isto acontece somente na sua forma de pensamento.... O trabalho que Hegel unicamente conhece e reconhece é o abstratamente espiritual (ibidem, pp. 121-124).

Neste sentido, para Marx, o reconhecimento humano pela consciência, em Hegel, é, na verdade, uma alienação absurda (estranhamento hostil), pois concilia de modo absoluto toda a contradição objetiva (social, natural, do mundo) no e pelo pensamento racional.

A objetividade enquanto tal vale por uma relação estranha do homem, [relação] não correspondente à essência humana, à consciência-de-si. A reapropriação da essência objetiva do homem, produzida enquanto [algo] estranho sob a determinação do estranhamento, tem assim não somente o significado de supra-sumir (aufheben) o estranhamento, mas [também] a objetividade, ou seja, dessa maneira o homem vale como uma essência não-objetiva, espiritualista (pp. 124 e 125). (...) Já vimos: a apropriação do ser objetivo ou a supra-sunção[4] da objetividade sob a determinação do estranhamento – que tem de ir da estranheza (Fremdheit) desinteressada até o efetivo estranhamento hostil – tem para Hegel, ao mesmo tempo e até principalmente, a significação de supra-sumir a objetividade, pois não é o caráter determinado do objeto, mas sim seu caráter objetivo que constitui, para a consciência-de-si, o escandaloso (Anstössige) e o estranhamento (ibidem, p. 129).

Tal conciliação de toda exteriorização de suas forças objetivas pela consciência, para os indivíduos sociais (ou para Hegel, consciência-de-si), se efetiva na sociedade civil na e pela forma do Estado[5]. “O homem que conheceu levar no direito, na política etc., uma vida exteriorizada, leva nesta vida exteriorizada, enquanto tal, sua verdadeira [vida] humana” (ibidem, p. 130). Marx, por outro lado, vai demonstrar que não há conciliação pelo pensamento nem pelo Estado, mas, ao contrário, que tanto um como outro dissimulam as diferenças e contradições reais, objetivas, que não se resolvem na esfera abstrata e ideal da autoconsciência[6]. Porém, tal desenvolvimento da lógica dialética guiará o método materialista de Marx, na sua famosa (des)inversão do “mundo invertido” de Hegel. Marx não poderia ser mais claro em seu projeto como mostra esta passagem abaixo:

O supra-sumir como movimento objetivo retomando de volta em si a exteriorização (Entäusserung), expresso no interior do estranhamento, da apropriação do ser (Wesen) objetivo mediante a supra-sunção de seu estranhamento, o juízo estranhado na objetivação efetiva do homem, na apropriação efetiva de seu ser objetivo mediante a eliminação da determinação estranhada do mundo objetivo, mediante sua supra-sunção na sua existência (Dasein) estranhada, (...). (ibidem, p. 132).

O centro do processo sai da consciência e recai no corpo. E daí Marx pode realizar a sua crítica do sujeito. Ora, a atividade no mundo não se procede por meio de uma atividade pura da consciência racional, mas, ao contrário, pelo manifestar (Entäusserung e Entfremdung) dos sentidos humanos, enquanto atividade de um ser natural objetivo, em sua prática social que produz sua própria realidade objetiva:

Quando o homem efetivo, corpóreo, com os pés bem firmes sobre a terra, aspirando e expirando suas forças naturais, assente suas forças essenciais objetivas e efetivas como objetos estranhos mediante sua exteriorização (Entäusserung), este [ato de] assentar não é sujeito; é a subjetividade das forças essenciais objetivas, cuja ação, por isso, tem também que ser objetiva. O ser objetivo atua objetivamente e não atuaria objetivamente se o objetivo (Gergenständliche) não estivesse posto em sua determinação essencial. Ele cria, assenta apenas objetos, porque ele é assentado mediante esses objetos, porque é, desde a origem, natureza (weil es Von Haus aus Natur ist). No ato de assentar não baixa, pois, de sua “pura atividade” a um criar do objeto, sua atividade enquanto atividade de um ser natural objetivo. (ibidem, p. 127).

Proposta de debate: tomando o que foi dito acima, alienação não pode ser entendida como necessária, num sentido psicológico, à consciência (dilacerada); dilaceramento este que também estaria presente em todas as sociedades humanas. Pois, a alienação não se dá primeiro no plano da consciência; mas, da vida (concreta). Portanto, a alienação é objetiva, e pode e deve ser suprimida; pois o que se visa suprimir é o estranhamento da exteriorização, ou seja, o caráter peregrino da essência humana, que não retorna de sua jornada, porque nunca saiu daqui, mas que, forasteiro de um país inimigo, escraviza-se na sua própria essência. Dito de outro modo, quando ela (essência), por não ser reconhecida essencialmente, torna-se inumana. Contudo, como escapar de uma interpretação ontológica da alienação, do “ser” ou da “essência”? Da seguinte maneira, destronando o ser da posição central que ocupa na ordem do pensamento filosófico, e instituir o corpo, em seu vir-a-ser[7], neste lugar privilegiado, cuja implicação disto é a própria superação dos pressupostos da filosofia (mente e corpo) e mesmo das ciências parcelares: divisão do trabalho (intelectual e manual). Ou seja, não há uma essência humana pré-fabricada, perdida e esquecida num passado distante, mas o “esquecimento” das virtualidades humanas, de seu ser genérico, multilateral. O caráter errante da essência humana perdida é, na verdade, a privação de todas as potencialidades do corpo. Esta essência, entretanto, não é imanente, genética. Mas, ao contrário, ela se constitui na prática e se realiza exteriormente, no mundo das coisas, seu espelho. Neste sentido, alienação é sempre alienação do possível.

Antes de prosseguirmos, esclarecemos também que seguiremos a orientação teórica de István Mészáros (2007). Segundo Mészáros, o conceito de trabalho alienado foi a “grande descoberta histórica” do Marx dos Manuscritos e que vai atravessar toda a sua obra, como conceito fundamental, enquanto denominador comum de desdobradas outras formas de alienação no capitalismo[8].

Vejamos então o desenrolar dos conceitos de exteriorização (Etäusserung) e estranhamento (Enfremdung) nos Manuscritos. Se, antes, os pressupostos defendidos aqui forem aceitos, a acepção pejorativa de alienação tem mais a ver com o sentido de estranhamento (hostil), em si, do que com exteriorização, propriamente dita, ainda que os termos não se excluam mutuamente. A relação exteriorização-estranhamento é, portanto, um processo (natural) de objetivação e constituição do ser humano, por meio de suas obras ou produtos[9]. Há aí um certo estranhamento na produção de uma “essência” humana através de um outro exterior que é esta essência – “a humanidade da natureza e da natureza criada pela história” (p. 122). Assim sendo, esse outro-de-si-mesmo constitui historicamente as sociedades humanas (segunda natureza), em suas várias formas. O estranhamento causado por este outro-de-si-mesmo é re-apropriado na vida produtiva (em sentido amplo) e reconhecido na produção da consciência que afirma e preserva a vida. Por isso, dominar, controlar ou conhecer a natureza em seu estado caótico, contingente, é pressuposto da liberdade, próprio do ser humano, que Marx denomina de ser genérico[10]. “A vida produtiva é, porém, a vida genérica. É a vida engendradora de vida. No modo da atividade vital encontra-se o caráter inteiro de uma species, seu caráter genérico, e a atividade consciente livre é o caráter genérico do homem” (MARX, 2008, p. 84). A objetivação da atividade vital (prático-sensível), através da expressão do ser genérico num outro, pode ser designada por trabalho, enquanto pressuposto, no sentido de uma atividade que suprime carências naturais (carência de estética, de beleza, por exemplo)[11]. Por isso, esta supressão converte necessidade em liberdade[12]; natureza em humanidade. Este “exprimir-se num e por um outro”, que, como num espelho, é seu reflexo, pode ser denominado de trabalho; lembrando-se que a linguagem não é uma transparência – uma coisa pode ter muitos nomes e um nome pode designar muitas coisas – o que não quer dizer que não tenha uma eficácia real. É por meio deste opaco que se constitui o conhecimento (transparência). De fato, como já se assinalou, trabalho não tem unicamente um sentido econômico, stricto sensu. Trabalho aqui não é ainda trabalho alienado; posto enquanto categoria econômica (na forma de mercadoria), ou seja, separado (estranho e hostil) do produtor, na figura do trabalho abstrato (social) e do trabalhador, mas apenas uma das inúmeras manifestações humanas; um modo de expressar sua força vital objetivamente. O ser humano se constitui, se autoproduz – ou melhor, cria sua própria essência – transformando, socialmente, a natureza e radicalmente sua própria natureza. Neste sentido, a humanidade emerge e se reconhece em si através da atividade expressa na sua objetivação (alteridade).

A natureza é o corpo inorgânico do homem, a saber, a natureza enquanto ela mesma não é corpo humano. O homem vive da natureza significa: a natureza é seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é uma parte da natureza. (ibidem, p. 84).

Um ser que não tenha sua natureza fora de si não é nenhum ser natural, não toma parte na essência da natureza. Um ser que não tenha nenhum objeto fora de si não é nenhum seu objetivo. Um ser que não seja ele mesmo objeto para um terceiro ser não tem nenhum ser para ser seu objeto, isto é, não se comporta objetivamente, seu ser não é nenhum [ser] objetivo. Um ser não-objetivo é um não-ser. (ibidem, p. 127).

A natureza é por assim dizer um pressuposto, definida enquanto corpo inorgânico, ela não pode ser separada de modo metafísico do corpo humano e, por extensão, da sociedade. Uma implica a outra, fisiologicamente. O corpo inorgânico é uma extensão – descontínua/contínua – do corpo (orgânico) humano, e vice e versa (metabolismo). Retomando o exemplo da cadeira, pode se dizer peremptoriamente que a cadeira é mais humana que o próprio ser humano. Portanto, “um ser que não tenha nenhum objeto fora de si não é nenhum ser objetivo”.

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O estranhamento em relação ao trabalho é um conceito que aparece numa sociedade, determinada pelo econômico, no capitalismo somente, como “trabalho alienado”. Isso porque o trabalhador não se reconhece no produto de seu trabalho (isto é, nele mesmo), porque seu próprio trabalho se tornou estranho a si, alheio de si, e porque ele próprio, enquanto trabalhador, tornou-se-lhe estranho também. Deste modo o trabalhador se realiza apenas como e tão somente enquanto trabalhador, abstração de si mesmo, de sua humanidade. O trabalho alienado é “(...) primeiramente o trabalho, a atividade vital, a vida produtiva mesma aparece ao homem apenas como meio para a satisfação de uma carência, a necessidade de manutenção da existência física. (...) A vida mesma aparece só como meio de vida” (ibidem, p. 84). Ou seja, o trabalhador é reduzido apenas aos meios de subsistência individual (ou familiar), frequentemente inferiores às condições mínimas que garantem sua existência plena como trabalhador. A condição de trabalhadoré uma redução das possibilidades e virtualidades infinitas do ser genérico, reduzido a uma categoria econômica (coisa-mercadoria). O trabalhador somente é na abstração do trabalho e pelo trabalho. Segundo Marx, “a existência abstrata do homem como puro homem que trabalha e que, por isso, pode precipitar-se diariamente de seu pleno nada absoluto e, portanto, na sua efetiva (wirkliche) não-existência” (ibidem, p. 93). O ser humano plasmado numa categoria econômica, o trabalho, reflete esta categoria econômica pura e simplesmente em sua relação social e também na produção, esta também reduzida.

Chega-se por conseguinte, ao resultado de que o homem (o trabalhador) só se sente livre como [ser] livre e ativo em suas funções animais, comer, beber e procriar, quando muito ainda habitação, adornos etc., e em suas funções humanos só [sente] como animal. O animal se torna humano, e o humano se torna animal. (ibidem, p. 83).

Entende-se o “animal” aqui também no sentido de força motriz, autômato e coisa, quando os animais desempenham tarefas humanas: assim como cavalos eram usados para puxar charretes, bondes, engenhos etc. Ou seja, “(...) tal como todo cavalo, [o trabalhador] tem que receber o suficiente para poder trabalhar” (ibidem, p. 30). E por isso a anima (alma), orbitando ao redor das coisas econômicas, é violentamente convertida em máquina-vida. No capitalismo: “O trabalho humano é simples movimento mecânico; (...) A um indivíduo tem de ser atribuído o mínimo possível de operações” (ibidem, p. 156). Ou seja, é a destituição da vida plena, a negação mesma da vida. O trabalhador é condenado a repetir incessantemente o mínimo possível de operações, e com isso rebaixado à condição de máquina. (Seu trabalho se objetiva em trabalho morto!). “Posto que o trabalhador baixou à [condição de] máquina, a máquina pode enfrentá-lo como concorrente” (ibidem, p. 27). De fato, este é um dos sentidos do fetiche moderno: o trabalhador aparece na produção como mais uma peça da engrenagem da maquinaria (capital constante, trabalho morto). A maquinaria da linha de produção se apresenta a ele com um poder próprio, estranho – ele não se reconhece nela –, e que o domina (Entfremdung). O capital gera a discórdia entre as pessoas, a guerra entre os trabalhadores por emprego, a diluição do caráter social, onde o dinheiro (trabalho objetivado) se torna o alcoviteiro das relações sociais (como se verá mais abaixo). O ser humano transformado em máquina priva-se de sua humanidade natural e da natureza mesma. Neste sentido, no capitalismo o trabalho não produz o ser humano, mas, ao contrário, deteriora-o (sentido negativo do trabalho), na produção de coisas-mercadorias.

Na medida em que o trabalho estranhado 1) estranha o homem a natureza, 2) [e o homem] de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital; ela estranha do homem o gênero [humano]. Faz-lhe da vida genérica apenas um meio da vida individual. Primeiro, estranha a vida genérica, assim como a vida individual. Segundo, faz da última em sua abstração um fim da primeira, igualmente em sua forma abstrata e estranha. (ibidem, p. 84).

O trabalho alienado é a objetividade que se volta contra o trabalhador, isto é, pela mercadoria. Sem dúvida, já vimos anteriormente que é pela forma da mercadoria que o trabalhador é explorado; porém, esta exploração não é entendida como tal.

A exteriorização (Entäusserung) do trabalhador em seu produto tem o significado não somente de que seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa (äussern), mas, bem além disso, [que se torna uma existência] que fora dele (ausser ihm), independente dele e estranha a ele, tornando-se uma potência (Macht) autônoma diante dele, que a vida que ele concedeu ao objeto se lhe defronta hostil e estranha (ibidem, p. 81).

Neste sentido, o trabalho é alienado na forma de trabalho assalariado; vendido (alienado) para outro. “O que antes era ser-externo-a-si (sich Äusserlichsein), exteriorização (Etäusserung) real do homem, tornou-se apenas ato de exteriorização, de venda (Veräusserung)” (MARX, 2008, p. 100). Vender sua força vital, eis o que é estranho! Logo, o trabalho é transformado em propriedade de outro – cedido a outro – por meio da forma mercadoria. “Se o trabalho é, portanto, uma mercadoria, é então uma mercadoria com a mais infelizes propriedade” (ibidem, p. 37). A infeliz propriedade do trabalho-mercadoria, Marx demonstrará em obras posteriores, é ser valor de uso e, sendo assim, gerar mais-valor, através da exploração intensiva do trabalho não-pago. Ou seja, por meio da forma transparente e aparentemente equivalente da forma social, desvenda-se a mais obscura expropriação e degradação do ser humano.

Dentro desta perspectiva, a exploração do trabalhador vai num sentido de “que seu próprio trabalho cada vez mais se lhe defronte como propriedade alheia, e cada vez mais os meios de existência de sua atividade se concentrem nas mãos do capitalista” (ibidem, p. 26). Deste modo, para a realização do trabalho-mercadoria (alienado) é indispensável o trabalho aparecer como a única propriedade dos trabalhadores. “É evidente por si mesmo que a economia nacional considere apenas como trabalhador o proletário, isto é, aquele que, sem capital e renda da terra, vive puramente do trabalho, e de um trabalho unilateral, abstrato” (ibidem, p. 30).

Marx vai descrever, num momento posterior, o processo histórico de expropriação camponesa, denominado de “cercamentos”. Neste processo, milhares de camponeses, expropriados da terra, migram para as cidades engrossando a mão-de-obra ociosa indispensável ao mercado de trabalho relativo à indústria nascente. Analisando mais detidamente este processo, constata-se que os camponeses foram expropriados (separados) de seus instrumentos e meios de produção (terra). Estes camponeses, agora proletários, passam a ser “proprietários” apenas de sua força de trabalho enquanto “direito natural”, de acordo com os preceitos liberais (Locke). Formam assim potencialmente a massa de trabalhadores assalariados, onde a premissa do trabalho livre, sem amarras (livres da terra) e independente do poder político (feudalismo), é essencial ao desenvolvimento do capitalismo. No mercado, a força de trabalho é mais uma mercadoria, consumida pela classe dos industriais. Convertido o próprio corpo na mercadoria-trabalho, os trabalhadores podem doravante negociar “livremente”, supostamente em pé de igualdade, nos termos do contrato social, a compra e venda de trabalho, na medida em que, tanto eles como a classe capitalista, aparecem na figura de “proprietários”. O trabalho alienado, trocado por salário (preço), passa a compor, de modo legítimo, os bens do capitalista, que vai dispor de seu direito de proprietário para usá-lo como bem entender.

Assim, o trabalho aparece como uma mercadoria, logo subsumido ao capital:

O trabalhador [produz], portanto, a si mesmo, e o homem enquanto trabalhador, enquanto mercadoria, é o produto do movimento total. O homem nada mais é do que trabalhador e, como trabalhador, suas propriedades humanas o são apenas na medida em que o são para o capital, que lhe é estranho. (...) O trabalhador só é, enquanto trabalhador, assim que é para si como capital, e só é, como capital, assim que um capital é para ele. A existência (Dasein) do capital é sua existência, sua vida, tal como determina o conteúdo de sua vida de um modo indiferente a ele. (ibidem, p. 91).

Nesta passagem, é preciso ter bastante cuidado, pois poderia suscitar a interpretação de que o ser humano se realiza enquanto trabalhador, sendo o trabalho sua essência. Ora, é justamente o contrário. Aqui se trata de um processo violento de incorporação de categorias econômicas – capital-trabalho – que, como vimos, “deforma” o corpo e põe a contradição fundamental da economia. Portanto, o trabalho converte-se em capital! Além disso, a sociedade cinde-se de modo inconciliável: duas classes principais aparecem em relação conflituosa.

Através do trabalho estranhado, exteriorizado, o trabalho engendra, portanto, a relação de alguém estranho ao trabalho – do homem situado fora dele – com este trabalho. A relação do trabalhador com o trabalho engendra a relação do capitalista (ou como se queira nomear o senhor do trabalho) com o trabalho. (ibidem, p. 87).

Portanto, o que está em jogo é a abstração do trabalhador dos meios de produção (há muitas referências disto nos Manuscritos). O estranhamento do trabalhador não está apenas, como vimos, no seu não reconhecimento do seu produto (que é, exatamente, o trabalhador), mas também no próprio fato do trabalho se tornar estranho ao trabalhador e, consequentemente, o trabalhador se tornar estranho a si mesmo, seu espelho convexo: a identidade reconhecida no e pelo trabalho. Pois, o próprio trabalhador se reconhece intimamente na figura alienada de si mesmo, do trabalhador. Primeiro, corporifica o trabalho; depois personifica o trabalho. Na personificação, a consciência é dilacerada. Vejamos:

Até aqui examinamos o estranhamento, a exteriorização do trabalhador sob apenas um dos seus aspectos, qual seja, a sua relação com produtos do seu trabalho. Mas o estranhamento não se mostra somente no resultado, mas também, e principalmente, no ato de produção, dentro da própria atividade produtiva. Como poderia o trabalhador defrontar-se alheio (fremd) ao produto da sua atividade se no ato mesmo da produção ele não se estranhasse a si mesmo? O produto é, sim, somente resumo (Resumé) da atividade, da produção. Se, portanto, o produto do trabalho é a exteriorização, então a produção mesma tem de ser a exteriorização ativa, a exteriorização da atividade da exteriorização. No estranhamento do objeto do trabalho resume-se o estranhamento, a exteriorização na atividade do trabalho mesmo (Ibidem, p. 82).
        
Nota-se que tais concepções referem-se exclusivamente ao capitalismo. Por exemplo, na escravidão o escravo tem consciência de que seu corpo é transformado num instrumento de trabalho e, por isso, quer se libertar. O que não ocorre no modo de produção capitalista. O próprio Marx, nos Manuscritos, não faz um recuo a um passado longínquo em busca de uma “essência humana”, remontada a uma sociedade primitiva idealizada. Inversamente, o método de Marx consiste em examinar criticamente a realidade presente a partir da economia política (nos Manuscritos designadas por “economia nacional”), para depois “desviar” – ou negar, no sentido dialético – tais pressupostos e desvelar seu conteúdo específico e, consequentemente, seu caráter ideológico.

Partimos dos pressupostos da economia nacional. Aceitamos sua linguagem e suas leis. Supusemos a propriedade privada, a separação de trabalho, capital e terra, igualmente do salário, lucro e capital e renda da terra, da mesma forma que a divisão do trabalho, a concorrência, o conceito de valor etc. A partir da própria economia nacional, com suas próprias palavras, constatamos que o trabalhador baixa à condição de mercadoria e à de mais miserável mercadoria, que a miséria do trabalhador põe-se em relação inversa à potência (Macht) e à grandeza (Grösse) da sua produção, que o resultado necessário da concorrência é a acumulação de capital em poucas mãos, portanto a mais tremenda restauração do monopólio, que no fim a diferença entre capitalista e o rentista fundiário (Grundrentner) desaparece, assim como entre o agricultor e trabalhador em manufatura, e que, no final das contas, toda a sociedade tem de decompor-se nas duas classes dos proprietários e dos trabalhadores sem propriedade. (Ibidem, p. 79).

É evidente, assim, que Marx quer desnaturalizar os conceitos e categorias da economia política e não “ontologizá-los”. Está claro nos Manuscritos um período histórico bem demarcado: o capitalismo. O que exclui toda possibilidade de uma ontologia do trabalho abstrato. Há poucas passagens nos Manuscritos que se referem a outros modos de produção, pré-capitalistas (essa análise será realizada em obras posteriores). Ora, como já se afirmou, somente no capitalismo há um predomínio do econômico, organizando as relações sociais de produção. Entretanto, há muitas passagens nos Manuscritos ilustrando um processo contraditório, em que a riqueza do capital é a miséria do trabalhador etc.

Fonte: Fragmento da tese de doutorado “Ocupar, Resistir, Construir, Morar” (Depto. de Geografia, FFLCH–USP, 2012), de autoria de Jean Pires de Azevedo Gonçalves (Laboratório de Geografia Urbana – LABUR - USP), disponível integralmente neste blog. Consultar bibliografia diretamente na tese.


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A questão do habitar na geografia urbana (01/09/08)



[1] Perguntamos a nossa colega e amiga de tanto tempo, Verônica, estudante de alemão da Faculdade de Letras da FFLCH-USP, que, em programa de intercâmbio na Alemanha, escreveu-nos gentilmente: “Oi Jean... Tudo bem? Tanta coisa acontecendo pelo Brasil e no mundo! (...) Quanto a sua pergunta: Entäusserung é quando eu digo a minha opinião, tem a ver com o que eu penso e o que eu sinto sobre o meu ponto de vista. Entfremdung quer dizer, em linhas gerais, “estranhamento”. Se tornar estranho ao outro. Ou também quando algo é esquecido ou também quando alguém é esquecido. Se faz esquecer. Espero que te ajude. Pedi ajuda ao um alemão, meu namorado, ele disse "nossa, seu amigo deve  estudar coisas interessante", eu disse "Ele é uma pessoa interessante e humana". Quando você precisar de algo mais me fale e não só quando precisar. Pode escrever. Você ainda almoça no bandejão, né?! E como vão os seus estudos? Como vai a sua vida? Sua família? Tudo de bom a você Jean! Saudades. Abraços e beijos. Verônica Kienen Dias”. Obrigado!
[2] A palavra alienação, de origem latina (alienare, alienus mesmo radical de “alheio”), é traduzida no alemão por Veräuβerung; Entfremdung; Geisteskrankeit (mental), entre outras. O sentido explícito de alienação em sessão (de direitos ou bens) ou transferência  (“sair para fora”), ou melhor, a palavra “externação” é, em alemão, Äuβerung ou ainda “externo”, äusserlich. O termo alemão Entäusserung é traduzido em português por desapropriação, renúncia, abandonar, despojamento, expressar. “Estranho” é em alemão fremd (“estranhamento”, Befremden, entre outras). Nota-se que “estranho” em português pode significar: desconhecido; estrangeiro; alheio ao meio; forasteiro, etc.
[3] Ausser, prep., fora de, fora; exposto, além de... etc.
[4] Ranieri traduz a palavra alemã Aufhebung pelo neologismo “supra-sunção”. Assim explica os critérios da tradução: “Outro obstáculo foi encontrar uma tradução adequada para o verbo aufheben que, em alemão, significa, a um só tempo, o ato de erguer (algo do chão), o de guardar (um objeto, para que se conserve) e o de suspender (por exemplo, a vigência de um ato jurídico). Em geral, traduz-se aufheben por suprimir, abolir ou ainda superar, assim como se traduz o substantivo Aufhebung por supressão, abolição ou superação. O problema é que o significado em aufheben e desdobramentos é muito maior, mais rico e variado, o que dificulta sobremaneira a versão para um termo adequado, que contenha ao mesmo tempo a unidade e a diversidade do original. Minha opção foi de vertê-los, de maneira geral, para supra-sumir e supra-sunção, posto que o que se deve reter é a dinâmica do movimento dialético que carrega consigo, no momento qualitativamente novo, elementos da etapa que está sendo ou foi superada ou suprimida, ou seja, a um só tempo, a eliminação, a conservação e a sustentação qualitativa do ser que supra-sume” (MARX, 2008, p. 16). Embora bem concernente este argumentos para a compreensão da amplitude de Aufhebung, nós optaremos apenas por negação determinada ou simplesmente negação dialética, para evitar uma leitura hermética e por demais erudita.
[5] Hegel esboçou uma teoria da praxis. A bem dizer, o conceito de praxis já está presente, na Filosofia do Direito, elaborado em sua amplitude, complexidade e contradições. Nenhum aspecto, nenhum nível é desprezado: trabalho, organização do trabalho, produção no sentido amplo (objetos e obras), necessidades individuais e sociais, educação, família e familiaridade, praxis estreita e praxis ampliada, política e histórica. A práxis é superação, abertura para a realização e a presença efetiva da liberdade. A teoria da praxis aí está. E, todavia, não está: toda a praxis está presa à especulação e é finalmente absorvida no Estado. (LEFEBVRE, 1967, p. 91).
[6] Tal é o sentido da famosa proposição de Marx sobre a “inversão” da dialética hegeliana, que é verdadeira se posta do avesso: a contradição, que é forma exterior de manifestação da unidade real para Hegel, é o interno e essencial para Marx, enquanto que a identidade, que é para Hegel esta essência interna e verdadeira realidade, embora se manifeste exteriormente em coisas diferentes e opostas, torna-se para Marx a aparência exterior de que reveste a realidade essencialmente contraditória. (Nota: este é o ponto em que se apoia o artigo de Theunissen, M. “Krise der Macht. These zur Theorie des dialektischen Widerspruchs”. In: Köhn, Pahl-Rugenstein. Hegel jahrbuch. Berlim, Verlag, 1974, p. 325). A igualdade jurídica entre o trabalhador e o capitalista, assim, é real e básica para que a relação de capital exista, mas é apenas uma dimensão externa determinada pela contradição mais profunda que de fato constitui esta relação; é preciso que o trabalhador seja vendedor de mercadorias para que venda sua força de trabalho ao capitalista, mas isto porque o capital tem de comprar e possuir a propriedade da fonte de sua própria existência, do valor que se valoriza, para poder ser capital. Desta forma, toda a harmonia é somente o aspecto exterior de que se reveste a contradição do capitalista, não podendo caracterizar por si só este sistema e servindo inclusive para mascarar a contradição essencial dele; daí a crise represente seu desmascaramento, determinando sua crítica. (GRESPAN, 1996, p. 300).
[7] Que o homem é um ser corpóreo, dotado de forças naturais, vivo, efetivo, objetivo, sensível significa que ele tem objetos efetivos, sensíveis como objeto do seu ser, de sua manifestação de vida (Lebensäusserung), ou que ele pode somente manifestar (äussern) sua vida em objetivos sensíveis efetivos (wirkliche sinnliche Gegenstände). (MARX, 2008, p. 127).
[8] Deve estar claro, a esta altura, que nenhum dos significados de alienação usados por Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos desapareceu de seus escritos posteriores. E não é surpresa. Pois o conceito de alienação, tal como é compreendido por Marx em 1844, com todas as suas complexas ramificações, não é um conceito que pudesse ser abandonado, ou unilateralmente “traduzido”. (MÉSZÁROS, 2007, p. 207).
[9] Não há realidade humana sem obras, mas não há obras sem uma atividade humana produtora. As obras não deixam de ser “o ser-outro” do homem, que mantém com ele dupla relação: alteridade, alienação. A investigação marxista, sobre as relações entre o homem (social: o da praxis) e as obras, não pode ser considerada nem econômica, nem psicológica, nem sociológica, nem filosófica. (LEFEBVRE, 1967, p. 96).
[10] O comportamento efetivo, ativo do homem para consigo mesmo na condição de ser genérico, ou o acionamento de seu [ser genérico] enquanto um ser genérico efetivo, isto é, na condição de ser humano, somente é possível porque ele efetivamente expõe (herauschafft) todas as suas forças genéricas – o que é possível apenas mediante a ação conjunta dos homens, somente enquanto resultado da história –, comportando-se diante delas como frente a objetos, o que, por sua vez, só em princípio é possível na forma do estranhamento. (MARX, 2008, p. 123).
[11] (...) apenas pela riqueza objetivamente desdobrada da essência humana que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva, que um ouvido musical, um olho para a beleza da forma, em suma as fruições humanas todas se tornam sentidos capazes, sentidos que se confirmam como forças essenciais humanas, em parte recém cultivadas, em parte recém engendrados. Pois não só os cinco sentidos, mas também os assim chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor etc.), numa palavra o sentido humano, a humanidade dos sentidos, vem a ser primeiramente pela existência do seu objeto, pela natureza humanizada. (Ibidem, p. 110).
[12] O homem rico é simultaneamente o homem carente de uma totalidade da manifestação humana de vida. (ibidem, p. 112).


sábado, 28 de abril de 2018

LA SOMME ET LE RESTE - AMIGOS BRASILEIROS



Esta nova edição de La somme et e reste é dedicada ao espaço e ao urbano, principalmente através de textos dos nossos amigos brasileiros lefebvrianos (o que confirma a vitalidade dos estudos lefebvrianos naquele país, especialmente em São Paulo). Seus autores bebem na fonte dos escritos lefebvrianos sobre a cidade e o espaço, mas também n’O manifesto diferencialista (que merece uma reimpressão, como também as outras obras publicadas pela Gallimard) ou em Une Pensée devenue monde, o que mostra a interdependência de conceitos e teorias lefebvrianas, em sua obra dialética, do qual devemos encontrar os movimentos de conjunto sob pena de romper a sua coerência e reduzir o seu alcance.

La somme et le reste, no. 28, Février 2018

Um grande obrigado a Jean-Yves Martin pela leitura cuidadosa dos textos.

A partir de agora, Armand Ajzenberg, depois de meritórios anos de estudos lefebvrianos, passa o bastão a Sylvain Sangla. Se você deseja propor textos para a próxima edição de nossa revista, entrar em contato com ela.

Armand Ajzenberg e Sylvain Sangla.

- Ricardo Baitz: Le travail de terrain en géographie urbaine: de la quantité à la qualité, ou des procédures formelles à l’implication et à la transduction. 02

- Odette Carvalho de Lima Seabra: L’urbain est le sens historique de La société moderne. 15

- Amélia Luisa Damiani : (Dés)accords entre La géographie et l’urbain La contribution d’Henri Lefebvre. 48

- Jean Pires de Azevedo Gonçalves: Espace et paysage, ébauches pour l’étude de l’ »espace » et du « paysage ».75 (Colaborador deste blog).

- Marcio Rufino Silva: De la différence et Du différentialisme: pour une critique de l’homogénéisation. 93

sexta-feira, 20 de abril de 2018

CHINA


China: o “socialismo de mercado” e o XIX Congresso do PCCh


No último dia 18 de Outubro, na cerimônia de abertura do XIX Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCh), o presidente Xi Jinping, num discurso de quase quatro horas e meia, antecipou uma suposta “nova era”, na qual promete uma China moderna e próspera sob o controle do Partido.

Foi um discurso recheado de lugares comuns, um discurso genérico, vago e impreciso em questões cruciais, mas que mostrou o grau da crise e os rumos. Xi Jinping chegou a falar na construção do socialismo, no modelo chinês, fez várias referências ao marxismo-leninismo embora nada disso tenha conexão com a realidade chinesa.

O chamado “socialismo de mercado” na China, não passa de uma máscara para encobrir a dominação da camada burocrática burguesa que controla o País. A China hoje funciona fundamentalmente como um capitalismo de estado com regime de partido único, contra os operários (que somam mais de 300 milhões), os camponeses (que somam mais de 700 milhões) e os trabalhadores em geral.

A abertura econômica da China começou no início da década de 1971 com a visita do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, e foi colocada efetivamente em prática por Deng  Xiaoping, após a morte de Mao Tse Tung. Os instrumentos de poder dos trabalhadores, mesmo que se trata de um estado operário deformado foram sendo desmontados até o ponto de hoje terem praticamente desaparecido. Mas a Revolução de 1949 possibilitou o fortalecimento do estado que hoje é responsável por grandes empresas que atuam nos setores de energia, construção petróleo e armas fundamentalmente. O grosso da produção chinesa é controlado por monopólios que na década de 1980 pagavam em torno a US$ 30 mensais aos operários chineses mortos de fome. Hoje, esse salário aumentou em quase quinze vezes, nos três principais polos industriais da China (Pequim, Xangai e Canton) e se converteu num dos mecanismos que levaram à implosão das políticas neoliberais em 2008.

Uma aula prática de “etapismo”

A burocracia burguesa exerce o poder em benefício próprio, obviamente, apesar da propaganda demagógica de que estaria provendo o necessário progresso econômico capaz de liberar as forças produtivas e o desenvolvimento sustentável para permitir um avanço no sentido de conquistar autonomia plena, possibilitando então o socialismo. De fato, é uma exposição prática de para onde conduz o “etapismo”, a ideia de que a luta pelo socialismo, hoje na época do imperialismo, deve ser antecedida por uma etapa anterior.

No discurso de Xi Jinping não há lugar para a luta de classes, a ditadura do proletariado, o imperialismo etc. Fala do estado chinês como se este fosse um ente absoluto, sem caracterizá-lo como elemento proveniente da luta de classes e do avanço do processo revolucionário, mas como se fosse um semi-deus a conduzir o povo chinês. Não há a diferenciação entre as classes sociais com tarefas determinadas no progresso material e no desenvolvimento político. Não há distinção entre burguesia e proletariado. Demagogicamente, faz referência à famigerada palavra de ordem do tempo da revolução, de unidade de operários e camponeses na implantação e consolidação de um regime socialista.

O documentário “China Blue”, por exemplo, expões de maneira bastante reveladora a crueldade e a ganância dos patrões, que trabalham para os monopólios, as condições precárias e insalubres a que são submetidos os trabalhadores nas linhas de manufatura, principalmente nas regiões mais pobres do País.

“Socialismo” de mentirinha

O discurso de Xi JInping lança mão de um palavrório bonito, com referências a categorias do marxismo para embelezar e glamourizar a política da camada dominante. O Congresso do Partido acontece de cinco em cinco anos, com muita pompa, foice e martelo imensos atrás de um palco de enormes proporções. Mas o comunismo, na China, se tornou um fato longínquo e o uso dos símbolos só se justificam como outdoor para esconder uma dura realidade. desbotada, e deixou apenas um pouco de sua simbologia.

O estado chinês não é operário, não está em benefício da maioria da população, dos trabalhadores, não representa a ditadura do proletariado contra a burguesia. Em O Estado e a Revolução, o líder bolchevique, Vladimir Ilich Lenin, orientava tomar de assalto o Estado para colocá-lo primeiro a serviço da política da classe operária, contra a burguesia de conjunto, e depois, progressivamente, esvaziá-lo de sentido à medida que o poder fosse completamente transmitido aos conselhos populares.

É o contrário do que acontece na China, onde o estado, aparatado por uma camarilha de usurpadores, nega o poder ao povo e governa para a apropriação de riquezas de uma elite capitalista. E isso por longas décadas, subvertendo o sentido da revolução e do poder operário. O Exército acabou sendo profissionalizado e burocratizado, tendo liquidado com as milícias operárias e camponesas. Os órgãos de poder soviético, que tinham sido impostos de maneira burocrática após 1949, começaram a ser liquidados após a Revolução Cultural, no início da década de 1970. O Partido Comunista, que liderou a grande revolução de 1949, como um partido-exército, é um organismo que pertence a burocracia burguesa, que está integrado ao estado e que tem como função aplicar a política do chamado “socialismo de mercado” em benefício dessa mesma camada burguesa.

O que está colocado para a burocracia chinesa não é a superação das forças do capital em vista de uma apropriação coletiva da produção, mas a apropriação privada, valendo-se do autoritarismo proveniente de uma revolução degenerada; uma revolução que não apenas parou em determinado limite, mas que retrocedeu e traiu escandalosamente a maior classe trabalhadora do mundo.

Mais uma vez, a “luta contra a corrupção”

Xi Jinping, de 64 anos de idade, se transformou na maior liderança política das últimas décadas na China; foi reconduzido à presidência por mais cinco anos, quando poderá novamente ser reeleito.

Uma das tônicas do discurso foi o combate à corrupção no partido, em suas diversas instâncias. Um discurso previsível, para fazer média com a população. “Atualmente, o combate à corrupção permanece severo e complexo. Por isso, temos de manter a nossa determinação firme como rocha para consolidar o ímpeto avassalador e conquistar a vitória esmagadora contra a corrupção.” Mas além do discurso foi a política que lhe permitiu controlar os demais grupos políticos na cúpula do PCCh.

A “luta contra a corrupção” é a política aplicada pela direita em todo mundo, desde sempre, para avançar na direção de golpes de estado, quando os mecanismos parlamentares se esgotam. Um papel similar tem cumprido na China. O Partido Comunista Chinês tem mais de 80 milhões de filiados. É uma máquina poderosíssima, que aumentou ainda mais a centralização do poder a partir do Comitê Central burocrático com o objetivo de fortalecer o regime perante o crescente contágio do aprofundamento da crise capitalista mundial.

A China não é um estado operário

Alguns grupos de esquerda consideram que a China seria, supostamente, um estado operário. Essa é falsa é até mesmo ridícula.

Na China, o estado operário acabou faz tempo. Nem sequer há previdência privada. As leis trabalhistas começaram a valer há menos de cinco anos. A especulação financeira está gigantesca, assim como a integração com o mercado mundial.

Há lojas do MacDonald’s em vários lugares; Starbucks em grandes quantidades. O que há na China, é um forte setor estatal, fundamentalmente, e não unicamente, na construção civil e a indústria armamentista. A integração ao mercado de grandes petrolíferas e outras grandes empresas que disputam o mercado em concorrência com o imperialismo é cada vez mais absoluta.

A burocracia estatal chinesa tem um peso grande na economia, mas mantém acordos com as empresas imperialistas e nacionais. No período mais recente, tem atingido um caráter muito mais bonapartista com a entrada de Xi Jinping no governo, como presidente, como figura política número um. Xi Jinping tem barrado outros setores dessa burocracia, fortalecendo o bonapartismo, e tem imposto uma série de condições com o objetivo de apertá-la e fortalecer a frente necessária para fazer frente ao aprofundamento da crise. A China é uma potência regional em acelerado crescimento.

O grosso das manufaturas é controlado pelos monopólios e tem estado no centro da política econômica das últimas décadas com o objetivo de conter a queda da taxa de lucro.

Da censura ao nacionalismo

Uma série de aplicativos e sites não funcionam como, por exemplo, o YouTube e o Facebook. O Estadão e o Jornal El Pais da Espanha estão bloqueados. O site da Globo funciona de maneira muito lenta. Muitos estrangeiros costumam usar VPNs (Virtual Private Network) para ter esse acesso, mas a população em geral usa os aplicativos alternativos disponibilizados pelo governo. Por exemplo, em vez de WhatsApp eles usam o WeChat que é amarrado a vários outros aplicativos, como o Alipay. O Alipay permite a realização de pagamentos a partir do celular inclusive em comércios pequenos e barracas de rua. A China é o país onde menos se usa dinheiro físico.  

Portanto, a espionagem e a censura do imperialismo, que acontece a partir das redes sociais, por meios de aplicativos como o Facebook, o YouTube e o WhatsApp tem um impacto muito menor na China.

O aprofundamento da crise capitalista não aparece muito na China por conta do desenvolvimento tendencial nos últimos anos, e, também, da política do governo de movimentar o consumo por meio de recursos públicos. A população está pacificada no geral; não existem grandes movimentações, apesar da greve da Foxconn, em setembro de 2014, ter passado por cima dos sindicatos do governo.

O sindicalismo é diretamente atrelado ao governo. Não existem sindicatos independentes; também não existem partidos políticos independentes. O partido que existe é o Partido Comunista Chinês que faz toda uma campanha a favor do socialismo, da democracia, com grandes cartazes pelas ruas etc. A população não acredita muito, mas vai levando.

A pacificação do movimento de massas na China e região

Na China, o sindicalismo é estatal. O movimento operário foi atrelado ao estado e se encontra praticamente paralisado, assim como acontece em todo o mundo. Eventualmente essa burocracia é ultrapassada por movimentos espontâneos dos trabalhadores, como aconteceu em 2013 na enorme greve da FoxConn, a empresa taiwanesa localizada no sul do País, e nos protestos contra a contaminação ambiental.

O único partido político legalizado é o Partido Comunista Chinês que, na propaganda, flerta com a democracia, a justiça social e inclusive com o socialismo.

As massas se encontram pacificadas por causa da geração de empregos que tem acontecido nas últimas décadas. Mais recentemente, na base, se encontra um gigantesco programa público de obras públicas que tem gerado, como efeito colateral, um gigantesco endividamento.

Neste momento, a China se encontra numa situação estável, da mesma maneira que acontece com os demais países na região Ásia-Pacífico, começando pelo Japão e a Coreia do Sul. Por exemplo, o governo Chinês tem evitado ao máximo atacar os trabalhadores e tem se esforçado em manter o nível de emprego com o objetivo de manter as massas pacificadas.

A mesma política pode ser vista no Japão em relação à questão da subida de impostos ao consumo, que passou, nos últimos dez anos, de 2,5% para 7%, apesar do governo querer aumenta-los para 15%. A movimentação tem sido extremamente cautelosa.

A Coreia do Sul é um país bastante estável e desenvolvido, mas está inundado de bases militares norte americanas, da mesma maneira que o Japão; há 50 mil soldados norte-americanos no Japão e 30 mil na Coreia do Sul.

Houve uma tentativa do imperialismo de colocar o Vietnã como uma alternativa à China, devido aos salários menores, principalmente com a entrada na OMC (Organização Mundial do Comercio) em 2007. Mas com a integração ao mercado mundial, os preços das commodities (matérias primas) têm disparado, impactando em cheio a capacidade de compra dos trabalhadores. Os salários saíram de US$ 40 e, hoje em dia, já se encontram acima dos US$ 200 e US$ 300 dependendo da região do País. O aumento dos salários também aconteceu no Camboja, que é um país hiper atrasado e onde há muito investimento chinês, mas que também está submetido às mesmas pressões do mercado mundial.

Na Tailândia, que é o país mais desenvolvido do Sudeste Asiático, a situação se encontra bastante estabilizada apesar do golpe militar. A origem do “sucesso” tailandês remonta à guerra do Vietnam, quando os Estados Unidos usaram o País como plataforma de bombardeio do Vietnam, Laos e Camboja. Após o colapso capitalista de 2008, e, principalmente, após o desastre de Fukushima, importantes plantas industriais japonesas migraram para a Tailândia, assim também como para a Malásia, para as Filipinas e para a Indonésia, onde os salários são muito menores que no Japão ou na Coreia do Sul.

Agora a bola da vez é Myammar, a antiga Birmânia, como alternativa de mão de obra barata, para a política do imperialismo de semi escravizar os trabalhadores com o objetivo de estabilizar as taxas de lucro. Os chineses também estão envolvidos para tentar manter a lucratividade e se consolidar como plataforma de exportação a partir do Novo Caminho da Seda. Eles poderão aprofundar ainda mais essa política quando o impacto da robótica na China começar a aparecer. O que ainda deverá ser visto é se, no contexto da piora generalizada da crise capitalista, a China conseguirá transformar-se numa economia que gire fundamentalmente em cima do próprio consumo interno e qual será o impacto disso.

Mas a dúvida fundamental, neste momento, sobre a Ásia é para onde vai essa “pax asiática”, que também envolve a Índia. Sem dúvida, neste momento, a China representa um dos grandes pontos de estabilidade do capitalismo mundial. Se bem o capitalismo nos países europeus, no Japão e nos Estados Unidos apresenta a economia um pouco engasgada, na China o que tem acontecido e continua acontecendo é um grande desenvolvimento capitalista, que agora começou a engasgar um pouco, em cima de um brutal endividamento generalizado. Mas num comparativo de hoje para 40 anos atrás, há um desenvolvimento descomunal.

O mesmo, mas em proporção muito menor, se poderia falar do Vietnã, um pouco menos de Camboja, um pouco menos sobre a Tailândia e a Malásia.

Portanto, há ainda uma certa gordura a ser queimada, com a qual o capitalismo poderia continuar funcionando com uma relativa pacificação das massas durante um período. Mas, por outra parte, a continuidade dessa situação é imprevisível. O que fez detonar a crise de 2008 foi a crise na especulação imobiliária, em um setor específico da especulação financeira, que acabou se espalhando para o mundo. Para onde vai o capitalismo mundial? A avaliação deve ser realizada conforme o desenvolvimento da própria crise. O grau de parasitismo é enorme. Somente os nefastos derivativos financeiros movimentam dez vezes mais que o PIB mundial. Continua a crescer o parasitismo especulativo.

A relação entre o desenvolvimento do parasitismo e o fator de estabilização da China na economia mundial, se relaciona com até que ponto as massas continuarão paralisadas e pacificadas, principalmente os operários chineses e os operários dos países desenvolvidos.

É quase impossível que os operários se mantenham paralisados por um longo período. Isso significaria que não existem mudanças qualitativas, apenas mudanças quantitativas, o que seria um absurdo. O desenvolvimento social não é assim. Em algum momento, um grande colapso capitalista vai estourar. E quanto mais demorar, o estouro tende a ser maior. Isso é uma das leis da dialética. O estouro de 2008 esteve relacionado com o acúmulo da crise, com a queda das taxas de lucro, com as guerras do Vietnã e do Iraque etc. Todos os problemas de crise estrutural estão na base do desenvolvimento da crise capitalista mundial, que temos como tarefa analisar em perspectiva no próximo período.

Os negócios da China

Como ficou claro no 19º Congresso do Partido Comunista Chinês, que aconteceu em outubro, o governo irá abrir ainda mais a China para a especulação financeira a partir de Xangai e de Hong Kong, que é uma zona especial, que foi devolvida pelos ingleses em 1998 junto com Macau (que era colônia de Portugal), neste caso em 1997. Estas duas cidades, durante 30 anos, irão manter o regime, mas depois se integrarão à China Continental.

Os chineses para estabilizar a taxa de lucro, como uma burguesia menor, são obrigados a se integrar ao mercado capitalista mundial. Eles tentam aumentar a participação no verdadeiro coração da economia capitalista, a especulação financeira, internacionalizando o iuane. O problema que enfrentam é que o mercado mundial se encontra dividido e o foi por meio de sangrentas guerras.

Não por acaso, os Estados Unidos têm alocados no Mar do Sul da China e região a metade do orçamento do Pentágono, com o principal motivo de conter o expansionismo chinês. Trata-se de uma questão de vida ou morte tanto para o imperialismo norte americano quanto para os chineses. O Estreito de Malacca, entre a Malásia e a Indonésia, por exemplo, é controlado pelos porta-aviões norte-americano e por lá trafega mais de 70% do consumo de petróleo da China. Há também as bases militares na Coréia do Sul, no Japão e em Guam, assim como a tentativa de acirrar as disputas territoriais no Mar do Sul da China, principalmente, para justificar a política belicista.

Um canteiro de obras com os pés de barro

Na China, os salários hoje, dependendo da região, podem ser de várias centenas ou até milhares de dólares. Por exemplo, em Xangai, a principal cidade da China, em Beijing, a capital, ou em Canton e Shenzen, os salários têm disparado sob a pressão do aumento do custo de vida que se relaciona, em grande medida, com o aumento dos preços dos alimentos e das matérias primas, por causa da especulação financeira, assim como ao alto custo da moradia por causa da especulação imobiliária. Ao mesmo tempo que ganham salários equivalentes a R$ 1000 ou até R$ 600 os trabalhadores chineses vêm as contradições aumentarem.

No entanto, elas ainda não chegaram a explodir devido às monumentais obras que são realizadas em todas as partes do país, que mais se parece à um canteiro de obras. As principais cidades são limpas e organizadas. O centro de Xangai apresenta uma urbanística impressionante, de prédios futurísticos etc., que poderia lembrar Singapura, Kuala Lumpur (Malásia) ou mesmo Dubai. A pobreza nas ruas, nas principais cidades, aparece pouco, diferente do que acontece no Brasil.

Por meio de um investimento muito grande a China tem feito desde 2009,  através de um programa de recursos públicos para gerar obras públicas, uma grande movimentação da economia. O primeiro grande direcionamento de recursos públicos para obras de infraestrutura  aconteceu em 2009, com US$ 800 bilhões de dólares. O objetivo era minimizar o impacto da crise capitalista mundial que tinha provocado a sensível redução das exportações. Mas nada na vida e na sociedade está isento de um custo.

A partir de 2012, com o novo aprofundamento da crise mundial e o esgotamento do investimento de 2009, o governo chinês, por uma série de mecanismos, liberou recursos gigantescos para uma nova onda de obras públicas. O orçamento das províncias chegou a depender em 40% na média, das concessões de terras públicas por 99 anos, que eram destinadas à construção de aeroportos, prédios de apartamentos etc. Devido ao descontrole da especulação imobiliária, o governo tem buscado minimizar o problema disparando a especulação com títulos públicos regionais.

A China acabou atuando como um grande canteiro de obras e movimentando a economia mundial. Tanto por meio da importação de matérias primas como, por exemplo, a importação do ferro brasileiro, cobre chileno, petróleo do Oriente Médio, quanto da alta tecnologia de empresas como Erickson, Siemmens, empresas de informática e de vários outros setores que têm exportado muito para a China.

O governo chinês continua avançando na abertura da economia por meio de políticas “neoliberais”. Os investimentos nas obras de infraestrutura e na indústria têm diminuído. O endividamento dos governos locais continuou aumentando e o governo central tem sido obrigado a crescer os repasses de recursos. As pressões inflacionárias pressionam os preços e os salários. Sobre esta base, as exportações de produtos baratos continuam a perder a prioridade das políticas públicas.

O movimento grevista tem crescido, mas somente no setor privado. As políticas repressivas colocadas para “blindar” as empresas públicas ainda conseguem conter o movimento operário no setor, mas por quanto tempo?

As reformas do mercado financeiro aplicadas em Xangai, a principal cidade do País, continuam avançando, assim como a liberalização da taxa de câmbio do iuane. Mas, conforme a especulação financeira avançou, a Bolsa de Xangai foi submetida a “solavancos”.

Alguns setores estratégicos da economia, até agora controlados pelas empresas públicas, como o setor de refino do petróleo, começaram a ser abertos às empresas estrangeiras.

A capacidade de absorção de matérias primas continua reduzida, impactando os países atrasados. Às cidades fantasmas e à dificuldade para financiar as obras de infraestrutura e para escoar os imóveis novos, se soma ao crescente esgotamento da especulação financeira em cima das matérias primas. Até o ano passado, grande parte das fianças para a obtenção de empréstimos era realizada por meio de matérias primas. Estas eram simplesmente estocadas durante longos períodos, ou referenciadas por meio de títulos financeiros, como os ETFs, das bolsas futuro de mercadorias, com o objetivo de aplicá-los na especulação financeira. Agora, o aumento da recessão industrial coloca um freio sobre este tipo de operações.

Enormes reservas cambiais, enorme crise

As enormes reservas em dólares da China não são páreo para enfrentar a escalada da crise capitalista. Depois de terem crescido de US$ 142 bilhões, em 1997, para US$ 4 trilhões, em 2014, caíram em mais de US$ 500 bilhões, em 2015, e em aproximadamente mais US$ 350 bilhões, em 2016. E mais. Os US$ 3,2 trilhões restantes representam pouco mais de 25% da base monetária.

A China, assim como acontece com o capitalismo em escala mundial, não consegue implementar uma política alternativa ao neoliberalismo. Por esse motivo, deverá avançar na imposição de mais políticas neoliberais; ou seja, mais do mesmo. A política da burguesia chinesa ligada às empresas públicas enfrenta a forte queda de recursos. A livre mobilidade dos trabalhadores, que hoje é restrita, o “hukou”, seria uma delas, mas é muito difícil de aplicá-la, pois atualmente as pessoas se registram nas prefeituras e recebem delas os serviços sociais. Uma migração em massa do campo para as cidades poderia levá-los ao colapso. Portanto, tratam-se dos mesmos problemas que acontecem em escala mundial. Na Europa, eles se expressam no aumento do nacionalismo. Na China, deverão se propagar, cada vez mais, no aumento das contradições entre as regiões e as províncias.

O custo da aceleração produtiva chinesa

O custo da aceleração produtiva chinesa se relaciona, em primeiro lugar, com um alto grau de endividamento, principalmente das empresas. Segundo estatísticas do final de 2017, o endividamento das empresas chinesas é de aproximadamente US$ 18 trilhões de dólares, ou seja, 179 % do PIB. Somando a dívida das províncias e municípios, que aparece de uma maneira meio camuflada por meio da especulação de títulos públicos, financeira, o número ultrapassa os 250% da produção anual. Esse grande endividamento, por enquanto, não está se manifestando na desestabilização social. A título de exemplo, na China, a polícia não anda armada nas principais cidades, num país que tem uma população de 1,3 bilhões de habitantes. O comportamento da polícia na rua é totalmente diferente do comportamento super agressivo que acontece no Brasil; seria um comportamento quase europeu. Ainda, segundo a campanha da imprensa imperialista, a China estaria à beira da insurreição, com greves acontecendo em todos os lados. Isso não é verdade, a teoria de que a população estaria à beira de uma insurreição não é fato. Apesar das contradições sociais e diversos outros problemas, a movimentação da economia garante a estabilidade social. De vez em quando, estoura alguma greve como a que aconteceu, em 2013, na FoxConn, a empresa de Taiwan que monta os Iphone, da Apple. Mas essa notícia não vazou para a população em geral porque há uma censura grande na China, inclusive na Internet. A legislação trabalhista existe no país há apenas cinco anos e não há previdência social.

Disputas e acordos intercapitalistas

Ao mesmo tempo em que há o acirramento das contradições, também existem os acordos. O capitalismo funciona como uma espécie de ninho de cobras que disputa um bolo de ratos (as cobras comem ratos); conforme o bolo vai ficando cada vez menor por conta da crise, essa disputa se torna cada vez maior.

Os chineses tentam entrar no setor de tecnologia, compram empresas europeias, tentam comprar empresas americanas. O imperialismo europeu e americano tenta barrá-los valendo-se da espionagem, como a NSA (Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos), e os controle dos organismos internacionais, como a OMC (Organização Mundial de Comercio). Ainda não validaram que a China entrasse na OMC de maneira oficial, reconhecendo-a como uma economia de mercado o que aumentaria as dificuldades para imposições de sanções.

Essa política ficou muito evidente com as medidas contra a Huawei e ZTE, que são grandes produtoras de equipamentos eletrônicos. Há havido também a tentativa de impedir a compra de empresas de microcondutores e de robótica na Alemanha. Mas a China comprou grandes empresas do setor de alimentos.

A China no contexto da crise mundial

Um componente muito importante para compreender o aprofundamento da crise capitalista mundial é entender claramente o papel da China no mundo. Nesse sentido, se falam muitas coisas e a maior parte do que se fala não tem absolutamente nada a ver com a realidade. Há várias teorias, como, por exemplo, se diz que a China seria um estado operário deformado. Outros falam que a China é uma ditadura feroz. Outros falam que a China é subdesenvolvida. Outros falam que o povo está à beira de uma rebelião.

Após a visita do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, à China, em 1971, no pico da crise entre a China e a União Soviética, a aproximação com o imperialismo começou a se consolidar. Em 1968, chegaram a acontecer confrontos armados na fronteira e, em 1977, houve confrontos armados com o Vietnam, na época um aliado muito próximo da União Soviética, por conta da intervenção deste no Camboja. A China foi um dos pilares para a implantação do neoliberalismo no mundo, com as zonas industriais francas, que não pagavam impostos e onde os trabalhadores chineses ganhavam um salário de aproximadamente US$ 30 mensais.

A crise e o aumento das contradições com o imperialismo

A abertura econômica ao imperialismo tem na base o esgotamento do investimento em obras de infraestrutura para manter em movimento na economia, em cima de grandes repasses de recursos públicos. Essa foi a política aplicada a partir de 2009, quando foram repassados mais de US$ 750 bilhões. Os repasses foram mantidos por meio de vários mecanismos e têm gerado enormes bolhas financeiras, além de um gigantesco endividamento: o equivalente a US$ 18 trilhões em dívidas das empresas (ou 170% do PIB) e mais US$ 10 trilhões em dívidas públicas, segundo as estatísticas oficiais.

O chamado Novo Caminho da Seda é a saída chinesa para enfrentar a crise. Mas se trata de uma “saída” que aumenta as contradições do capitalismo. Numa crise de superprodução, essa política representa a aceleração da circulação de mercadorias por meio de criação de vias rápidas da China à Europa, o grande centro consumidor, incorporando os países da região, da Ásia do Sul e Central e do Oriente Médio. A Rússia funciona como pivô dessa política.

Mas a política da abertura para a especulação financeira avança a passos largos a partir de Xangai, desde o XVIII Congresso do PCCh. Não há como levar a cabo uma política alternativa ao grande capital, que controla o mundo, sem derruba-lo nos grandes centros. O mercado é altamente globalizado. Por isso, a revolução operária somente pode ter uma caráter mundial.

O imperialismo norte-americano busca impedir a expansão imperialista da China, principalmente limitando o acesso às compras de empresas de alta tecnologia e criando um bloqueio militar. O Pentágono alocou a metade do orçamento nos porta-aviões e nas bases que mantêm na região Pacífico da Ásia. Os chineses têm sido obrigados a dispararem os gastos militares para fazerem frente à ameaça e para defender as novas posições econômicas em vários países.

Mar do Sul da China, uma zona de risco

O aprofundamento da crise também se revela na crise do imperialismo no Mar do Sul da China. Existem várias reivindicações territoriais dos países da região. A reivindicação da China sobre essas águas se intercepta com as reivindicações do Vietnã, de Taiwan, de Brunei, da Malásia, do Japão, das Filipinas, etc. O caos aumenta por causa da presença maciça da máquina de guerra dos Estados Unidos na região tentando controlar a situação, o que acontece de uma maneira extremamente complicada, em cima de grandes contradições.

A China depende, em grande medida, para seu abastecimento de gás e de petróleo, da passagem da energia pelo Estreito de Málaca, que fica localizado entre a Península da Malásia e a Ilha de Sumatra e que é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. Esse estreito tem apenas 30 km e é controlado pelos porta-aviões norte americanos. E o que significa esse controle? Que a China poderia ser enforcada com relativa facilidade. Isso tem muito a ver com a política do chamado Novo Caminho da Seda chinês, que visa aumentar as vias de fornecimentos de produtos manufaturados para a Europa, por meio de várias vias. Por exemplo, por meio da via que passa pelo Cazaquistão, a partir do extremo oeste do território chinês, a Província de Xinjiang (região autônoma da República Popular da China), e que vai para Moscou, e daí para Alemanha, Inglaterra, etc. Por meio de  integração de trens, trens-bala, etc., a China já consegue mandar produtos para Londres em 22 dias, tendo baixado o prazo que era de 35 dias, e continua diminuindo.

Essa política é de extrema crise, porque a China está sofrendo uma alta dos salários enorme, que passaram de US$ 30 na década de 1980 para aproximadamente, hoje, dez ou vinte vezes mais, que é o que ganha o trabalhador chinês numa grande empresa. Ao mesmo tempo, o enorme aumento da robotização significa que a composição orgânica do capital tem criado e criará em médio prazo enormes problemas.

Qual é o impacto da China sobre o Brasil?

O Brasil é uma potência regional em decadência, principalmente devido ao grande ataque do imperialismo que está destruindo as empresas nacionais e tentando colocar um governo completamente pró imperialista.

A China tem funcionado como um receptáculo de matérias primas brasileiras, mas a tendência geral é que, com a crise, as exportações brasileiras possam ser afetadas, como aconteceu com o minério de ferro após a crise de 2008, por conta da menor capacidade de absorção do mercado chinês.

Hoje, há liquidez nos mercados mundiais devido à inundação com moeda podre pelos bancos centrais dos países imperialistas, principalmente os Estados Unidos. O Brasil se encontra cada vez mais apertado pela especulação financeira, assim como acontece com toda a América Latina, que é considerada pelo imperialismo norte-americano como seu próprio quintal. Esse aperto tende a repetir, em forma de espiral dialética, a crise dos anos 1980. A qualquer momento, o Brasil poderá enfrentar uma nova crise de capacidade de pagamento, de rolagem dos serviços da ultra corrupta e nunca auditada dívida pública. Um novo colapso capitalista mundial, que aparece de maneira cada vez mais clara no horizonte, tende a potencializar, e muito, este processo.

Fonte: Gazeta Revolucionária